Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

Trump à beira da derrota, mas a fúria contra o estado das coisas ameaça Madam President

Por: Sena Santos

A dúvida que chegou a pairar parece hoje resolvida: Donald Trump, “The Donald”, vai perder as eleições. Os eleitores dos EUA vão, em 8 de novembro, fazer de Hillary Madam President.

 

É facto que ainda faltam onze semanas para o dia do voto, que ainda está para se ver o efeito de três debates de máxima audiência, sabendo-se que em política tudo pode sempre acontecer, mas ficou evidente no último mês que “The Donald” ultrapassou a crucial linha vermelha do eleitorado republicano moderado e atingiu um ponto de quase impossível retorno. Toda a gente tinha constatado no último ano de campanha que “The Donald” é uma criatura extrema, um instável e excêntrico provocador sem ética, sem um mínimo sentido de decência, uma aberração na tradição política, tanto moral como cultural, da América conservadora.  

 

“The Donald” tem mostrado - com a linguagem sexista, racista e violenta que usa - um espantoso talento para se autodestruir. Muitos republicanos não o suportavam, alguns deles condescendiam. Neste último mês, com os disparates ditos ao apelar aos portadores de arma para resolverem o problema Clinton, ao insinuar que Obama é o fundador do “Estado Islâmico” e, sobretudo, ao ofender os pais de um soldado americano que perdeu a vida, “The Donald” ultrapassou os limites, exasperou esses republicanos moderados que tentavam manter fidelidade ao partido. Donald Trump deixa assim de ter probabilidade de reunir uma base de apoio que lhe permita ser competidor elegível. Embora continue na eleição e haja que esperar pelos votos, está muito desqualificado.

 

Tanta gente nos EUA não gosta de Hillary, há muitos que a detestam. Incomoda nela o que é sentido como falta de autenticidade. Por mais voltas que os estrategos de campanha tratem de dar, não conseguem humanizar a figura distante, não afetiva, de Hillary. Mas, mesmo sem levantar ondas de entusiasmo, ela vai ganhar por ser a alternativa que resta. E esta eleição americana até vai outra vez entrar para a história: os eleitores dos EUA, depois de terem em primeira vez eleito um negro para presidente, agora vão pela primeira vez eleger uma mulher.

 

O retrato da geografia política dos EUA tem definições muito nítidas e constantes: há maioria dos democratas nos estados costeiros, do Maine à Virgínia na fachada atlântica e do Canadá ao México na frente do Pacífico; no meio há um imenso território, mas muito menos povoado, do Texas ao Dakota do Norte, do Utah ao Kentucky, dominado pelos republicanos. A análise mais detalhada destes mapas mostra que mesmo nos estados costeiros, a maioria democrata está concentrada nas grandes cidades, Nova Iorque, Filadélfia, Chicago, Minneapolis, Seattle, Los Angeles ou São Francisco; mas basta afastarmo-nos algumas dezenas de quilómetros dessas grandes cidades e a maioria passa a ser republicana. Ou seja, é, genericamente, um clássico: as áreas económica e culturalmente mais dinâmicas voltam-se para os democratas, as áreas rurais e as grandes pradarias confiam nos republicanos. Este é o retrato geral. Que também nos mostra que quase 90% dos negros e 60% dos hispânicos tende a votar democrata.

 

É ilustrativo compararmos o que tem acontecido num estado cuja cultura está centrada na família, como o Utah: em 2004, o republicano George W. Bush recebeu 72% dos votos deste estado do Oeste. Quatro anos depois, o também republicano McCain alcançou 63%. Em 2012, Mitt Romney, na oposição a Obama chegou aos 73%.  Agora, as sondagens estão a dar Trump abaixo dos 40%, empatado com Hillary no Utah. Neste estado do Utah, é muito forte o peso dos mórmons que, embora tradicionalmente próximos dos republicanos, rejeitam o discurso de Trump que rompe com valores instalados e encaminha para a perseguição a grupos religiosos, no caso, os muçulmanos. Os mórmons sabem o que é sofrerem hostilidades, rejeitam quem as promove.

 

Trump, “The Donald”, uma anomalia nesta campanha presidencial nos EUA, parece-me, claramente, um caso arrumado. Não tem continuidade política depois de 8 de novembro. Mas o facto de ter chegado aqui é muito relevante e revelador do descontentamento que avança pela sociedade dos EUA. Trump não passa mas o trumpismo, tal como o sanderismo, vão continuar e esse vai ser um desafio crucial para a Madam President Hillary Clinton. É a revolta generalizada contra o “establishment” e contra o estado das coisas. É o profundo mal-estar que sucede à quebra do poder de compra e dos empregos e ao colapso da coesão social. Algo que disparou com o desmoronamento de 2007/2008, mas que já vinha de antes.

 

Os americanos cultivavam orgulho no seu país e nas suas instituições. Tinham-se habituado, no pós-guerra, a considerar os EUA como potência planetária para o bem. Intocável, segura, terra de futuro. Havia o racismo, a segregação, mas havia orgulho no espírito da nação americana.  Ainda que com periódicas ondas de incerteza. Aconteceu em 1957, quando os soviéticos lançaram o primeiro foguetão para o espaço, mas a confiança regressou logo a seguir com Kennedy a prometer a lua. A guerra do Vietname foi outra era de incerteza, a que se somou a crise energética que derrubou o presidente Carter.

 

Agora, depois da infâmia no 11 de setembro de 2001, tudo está de pernas para o ar. A América deixou de ser um país seguro. O medo instalou-se. A globalização transferiu para o estrangeiro muita indústria e, também com a revolução tecnológica, muita gente perdeu o posto de trabalho. Os salários dos não qualificados baixaram. A falta de emprego favoreceu a subida da hostilidade com imigrantes. A América mudou muito no século XXI. O capital social do país está abalado, há declínio do número de postos de trabalho, muitos deles suprimidos pelos avanços da tecnologia. A nova economia atirou para o limbo muitos milhões de pessoas, maioritariamente brancos e com escassa qualificação. Passaram a sentir-se ultrapassados ou até excluídos dentro do seu país. É entre esta gente revoltada contra o sistema que “The Donald” conquistou a relevância que fez dele um ciclone sobre as primárias da campanha eleitoral.

 

A fúria contra o sistema que alimentou ao longo de um ano a campanha de Trump é a mesma, embora com segmentos sociais diferentes, que deu tanto fôlego à campanha de Bernie Sanders. Trump explorou o populismo radical mais à direita, Sanders cresceu com os apelos mais à esquerda pela justiça social. Ambos são expressão de um profundo e justificado descontentamento social nos EUA. Um sentimento que em muitos casos se traduz por revolta, e que vai continuar depois de eleita a nova presidência.

 

Trump vai continuar fanfarrão mas está derrotado, Sanders tende a optar por uma retirada digna, mas o espaço sociopolítico dos EUA está propício para o aparecimento de alternativas extremadas. E o próximo Trump provavelmente nem vai ser um “clown” como “The Donald”. Madam President vai ter de ser capaz de prodígios políticos para evitar que a América entre em erupção social.  

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

 

O jornalismo conta o que acontece no tempo presente. Parte do que o jornalismo trata entra depois para a história. É o que acontece com Fractured lands: How the Arab world came apart,  grande reportagem de extraordinária qualidade realizada ao longo de 18 meses pelo jornalista-escritor Scott Anderson a que se juntam as imagens captadas no terreno, durante 14 anos, pelo repórter fotográfico Paolo Pellegrin, e publicada no último fim de semana no New York Times Magazine. É uma reportagem profunda e preciosa, realizada com grande sensibilidade, essencial para decifrarmos, ao longo de cinco fascinantes capítulos, o que tem acontecido no Médio Oriente nas últimas quatro décadas e para compreendermos o caos de hoje. O mundo árabe, de 1976 a 2016, grande jornalismo, grande reportagem!

 

João Pina é um repórter fotográfico que vai ao fundo das coisas. Dedicou quase uma década de trabalho a investigar os horrores praticados há 40 anos por seis repressivas ditaduras militares da América do Sul que se coordenaram numa Operação Condor que perseguiu e eliminou 60 mil opositores. João Pina encontrou-se com uma centena de vítimas, estudou processos nos arquivos, acompanhou julgamentos, visitou prisões e centros de tortura. Muitas das estremecedoras fotografias a preto e branco estão publicadas no livro Condor (Tinta da China, 2014).  O trabalho de João Pina já foi mostrado em exposições em S. Paulo, em Santiago do Chile e, neste momento, na principal mostra europeia de tendências no mundo da imagem, os Encontros de Arles. A presença de João Pina em Arles está assim no Libération e já esteve assim no El País. Quando será a exposição Condor em Portugal?

 

O obstáculo de género à qualidade de Guterres: Ban Ki-moon resolve intervir para puxar por uma mulher para lhe suceder na secretaria-geral da ONU.

 

Duas primeiras páginas escolhidas hoje: esta e esta.  

 

E, hoje, grande salto para Nelson Évora e grande pagaiada para Fernando Pimenta.

 

 

publicado às 08:18

Hillary, a futura, não é a primeira

Por: José Couto Nogueira

 

Mesmo mal amada, Hillary Clinton tem uma boa parte do planeta a torcer pela sua vitória e, se tudo lhe correr bem, será a primeira mulher Presidente dos Estados Unidos. Mas não é a primeira candidata. Já houve duas, no século XIX. Por acaso mulheres muito mais interessantes. Mas o ser interessante não é, definitivamente, uma qualidade necessária para ter poder de vida ou de morte nuclear sobre o planeta.

 

 

Hillary é detestada por muitos, mal vista por outros tantos, trapalhona, acomodada com os interesses instalados; contudo, nas voltas que a democracia permite, tornou-se uma tábua de salvação para o seu país e para tantos outros países interligados contra ou a favor do Império. Como esposa do 42º Presidente, ficou conhecida por ser publicamente traída. Como secretária de Estado do 44º Presidente, mostrou-se bastante inábil e meteu-se em algumas confusões que ainda a perseguem. Mas, do mal o menos; se for eleita, será a 45ª Presidente dum país onde as mulheres há muito que têm uma presença forte na política, mas sempre na segunda linha.

 

Há 144 anos, em 1872, outra mulher candidatou-se a Presidente: Victoria Woodhull. Ao contrário de Hillary teve uma infância difícil, meteu-se em vários negócios e assumiu posições politicas fortes, muito à frente do seu tempo. A América não estava pronta para ela, e muito menos para um vice-Presidente negro e ex-escravo, Frederick Douglass.

 

Filha ilegítima de uma mãe analfabeta e dum pai vendedor de banha da cobra – literalmente – Victoria nasceu em Homer, Ohio, no chamado Farwest, na época dos assaltos a diligências, corridas ao ouro e aquela truculência que vemos nos filmes de cowboys. Desde miúda que teve de lutar contra todos os preconceitos, estudou formalmente apenas três anos, e aos doze já estava casada com um pseudo-médico alcoólatra que lhe batia. Extremamente inteligente, estudou sozinha e desenvolveu os seus conceitos sociais. Era sufragista (pró voto feminino), igualitária e a favor do “amor livre”. Tinha tudo para ser considerada uma prostituta, que nunca foi, apesar de ter trabalhado como empregada em prostíbulos. O conceito de “amor livre” nesse tempo significava apenas o direito da mulher se divorciar, viver a sua vida com quem quisesse e eventualmente casar novamente. Também era espiritualista e acreditava ser guiada por Demóstenes.

 

No meio de aventuras que dariam um bom filme, chegou a Nova Iorque, onde abriu uma corretora de valores com uma amiga – a primeira no mundo a ser dirigida por mulheres - e posteriormente um jornal para espalhar as suas ideias. Em 1866 casou com um veterano da Guerra Civil. Conheceu e teve contactos tempestuosos com a mais famosa sufragista norte-americana, Susan B. Antony, que era menos radical do que Victoria.

(Tivemos em Portugal, com o habitual atraso de 50 anos, duas figuras parecidas, Angelina Vidal e Carolina Beatriz Ângelo, mas isso é outra história.)

 

Em 1870 esteve na fundação do Partido dos Direitos Iguais (Equal Rights Party), basicamente uma plataforma politica para a emancipação feminina. Mas, entretanto, uma disputa à volta da história do amor livre custar-lhe-ia a candidatura. Um ministro protestante, proeminente em Nova Iorque, opôs-se publicamente ao conceito defendido por Victoria e ela publicou no jornal que o senhor era contra, mas tinha uma amante. Daí resultou um processo judicial, em que foi detida e, embora não condenada, perdeu o período eleitoral. Claro que a coisa cheirava a marosca política, mas o mal estava feito. Contudo, não é de supor que uma candidatura com uma libertária e um ex-escravo, ainda por cima casado com uma branca – na altura a miscigenação era muito mal vista... – tivesse alguma hipótese real.

 

Victoria participou na formação da Primeira Internacional, mas a associação de sindicatos dividiu-se em 1871, quando os alemães, com a aprovação de Marx, expulsaram os ingleses e os americanos. Perdida a oportunidade da presidência, Victoria divorciou-se e foi para Inglaterra com a sua sócia no jornal, Tennie Claflin. O multimilionário William Vanderbilt, cujo pai fora um amigo de sempre e apaixonado por Tennie, deu-lhes uma boa quantia para recomeçar a vida. Mas Victória não queria parar; começou a dar conferências – a mais famosa tinha como tema “O corpo humano, templo de Deus” – e casou com um banqueiro britânico. Ainda publicou um jornal, até se retirar para o campo, em 1901. Uma rica vida, cheia de peripécias.

 

Em 1884 o Partido dos Direitos Iguais concorreu novamente à Presidência, com uma candidata completamente diferente, Belva Ann Lockwood, e outra mulher para vice-presidente, Marietta Stow. Ambas sufragistas e defensoras dos direitos das mulheres, se bem que muito mais conservadoras do que Victoria Woodhull. Belva era advogada – numa época em que poucos juristas formados havia, e muito menos mulheres – e directora dum colégio prestigiado de Washington.

 

Em 1888, o Partido concorreu uma última vez. Inicialmente o vice-presidente era para ser um homem, o líder da União para a Paz Universal, Alfred Love, mas não aceitou a vergonha de ser segundo para uma mulher … Finalmente outro homem, Charles Weld, filho de um casal muito progressista, aceitou fazer uma figura que todos consideravam vexatória.

 

Como as mulheres não tinham direito a voto, as possibilidades da dupla eram muito reduzidas. Ficaram registados apenas 4.200 votos, o que mesmo assim é surpreendente, dado que toda a comunicação social era contra o sufrágio feminino. Até ao fim da vida Belva escreveu sobre as suas bandeiras, paz universal e igualdade de género, alem de continuar a dirigir o colégio.

 

O voto das mulheres foi uma das grandes questões do século XIX e na realidade só se resolveu em meados do século XX – no tempo das nossas mães e avós, não mais cedo. Nos Estados Unidos, vários Estados deram direitos parciais, lentamente, até à emenda da Constituição de 1920 que resolveu o problema definitivamente. Na Europa, o primeiro pais foi a Finlândia, em 1907. Em Portugal, a Constituição de 1911 não previa tal modernidade, porque os constituintes jacobinos achavam que o voto feminino seria influenciado pelos padres ...  Só na Constituição de 1933 é que as mulheres puderem votar e ser votadas.

 

A assim chegamos a Hillary, a grande esperança da eleição do fim do ano, a 8 de Novembro, nos Estados Unidos. Uma mulher que se espera que tenha o apoio maioritário não só das mulheres, mas também dos hispanos, dos negros e, até, de muitos republicanos. O mundo vai assistir de coração na boca e braços virados ao céu.

publicado às 14:09

E se Trump ganha?

Por: José Couto Nogueira

 

 

O Presidente dos Estados Unidos da América é considerado, com alguma razão, o Homem Mais Poderoso do Mundo. O que poderá acontecer se um megalómano ocupar o lugar?

 

Num ponto concordam os “anti-imperialistas” e os pró-americanos: o Presidente do “Império” e Comandante em Chefe das suas forças armadas tem poderes que se estendem do Pólo Norte ao Sul, e do Alaska à Austrália, passando pelos orientes (Próximo e Médio) e, fatalmente, pela Europa. Também tem influência, já agora, no padrão de vida de 322 milhões de norte-americanos.

 

Portanto não surpreende que as eleições para este cargo superlativo, marcadas para 8 de Novembro, suscitem interesse e ansiedade em todo o mundo. E também não surpreende que uma grande maioria de habitantes desse mundo esteja de cabelos em pé com a perspectiva de que ganhe um homem de estranhos cabelos cor de laranja e ainda mais estranhas ideias quanto ao que fará com o planeta.

 

No complexo sistema constitucional do país, a eleição do presidente é feita indirectamente por um Colégio Eleitoral de 538 representantes dos Estados. Para ser candidato a presidente também é preciso ser escolhido pelos delegados do seu partido, num processo semelhante: os delegados dum estado votam todos no candidato escolhido pelos eleitores do partido nesse estado.

 

Isto é importante para perceber como está a situação nesta altura, princípio de Março. Para conseguir a nomeação pelo Partido Republicano é necessário o voto de 1.237 delegados. Estas eleições, ditas “primárias” são feitas estado a estado, em datas diferentes, o que permite ir avaliando as possibilidades dos candidatos. Trump tem, até agora, 316 delegados, enquanto os senadores pelo Texas, Ted Cruz, tem 226, e o pela Flórida, Marco Rubio, tem 106. Os observadores consideram as próximas primárias de 15 de Março como a última oportunidade para parar Trump. Uma vitória de Rubio em seu Estado natal, a Flórida, levantaria questões sobre a força de Trump, assim como uma vitória de John Kasich, governador de Ohio.

 

Trump é um corpo estranho ao partido; não vem das bases, não fez uma carreira política normal e não é controlável. Anunciou a sua candidatura de repente e tem fundos próprios que lhe permitem concorrer sem precisar dos cofres partidários.

 

O Partido Republicano está muito dividido, e não apenas porque há vários candidatos, mas também porque os seus próceres – os senhores que tradicionalmente determinam quem vai enfrentar o democrata – têm sérias dúvidas de que Trump consiga vencer Hilary Clinton na eleição de Novembro. Trump é um corpo estranho ao partido; não vem das bases, não fez uma carreira política normal e não é controlável. Anunciou a sua candidatura de repente e tem fundos próprios que lhe permitem concorrer sem precisar dos cofres partidários.

 

Por outro lado, Trump tem uma agenda própria, errática, sem as preocupações estratégicas que os velhos republicanos consideram indispensáveis para ser viável. Por exemplo, Mitt Romney e John McCain já vieram publicamente afirmar que ele não é aceitável. Em termos simplistas, é muito mais à direita do que o conjunto do partido, ao mesmo tempo que tem propostas consideradas sacrílegas e delirantes pela filosofia republicana tradicional. A declaração mais recente (há declarações novas todos os dias) foi a aceitação do apoio dos grupos suprematistas brancos – as organizações que defendem a superioridade da raça ariana e querem eliminar (fisicamente ou por expulsão) todos os negros, hispânicos, muçulmanos e demais minorias. Estes grupos não só são moralmente inaceitáveis como politicamente inviáveis – ou seja, o apoio deles é uma espécie de beijo da morte para qualquer candidato. Mas é indiscutível que Trump tem muitos apoiantes e que, se nada se fizer, ganhará a candidatura.

 

Para nós, europeus, que temos outros problemas, receios e preconceitos, é difícil perceber porque Trump faz tanto sucesso. Dizer que os americanos são estúpidos, racistas, imperialistas, etc. é uma opinião ideológica que não explica nada. A opção por Trump tem a ver com angústias profundas da sociedade americana que se têm agudizado nos últimos anos a um nível quase paranóico.

 

Os conservadores – chamemos assim ao conjunto muito díspar de pessoas que consideram que os valores e a qualidade de vida estão seriamente ameaçados – sentem que o país já não lhes pertence. Aquele país ideal, que talvez nunca tenha existido mas sempre foi uma possibilidade, em que os imigrantes eram servis e invisíveis, o trabalho abundante, a diferença entre ricos e pobres ultrapassável – qualquer pobre poderia vir a ser rico – a homossexualidade não tinha direito de cidade e a criminalidade estava contida, esse país está a desmoronar.

 

Aquilo a que eles chamam de “valores” – as religiões cristãs, a família nuclear, a ascensão pelo mérito – estão a perder-se. No mundo, a América é desafiada pela China e achincalhada pela Rússia, e não consegue ganhar nenhuma guerra em que se mete; em casa, a criminalidade e a pobreza aumentam a olhos vistos, até o Presidente é negro e o Estado cada vez mais policial. Há uma sombra sinistra que se espalha pelo céu azul dos valores certos e estabelecidos, como que a anunciar o Armagedão.

 

Para estes senhores, as mudanças climáticas são uma treta, um sistema de segurança social uma pouca-vergonha e os ricos não deviam pagar impostos, porque são os ricos que impulsionam a economia

 

Portanto, um homem que tem instintos básicos para identificar todos os perigos e fulminar todos os demónios, com instinto mediático e sem medo de dizer o que pensa, parece o redentor que vai afastar as dúvidas, o relativismo moral e os marginais que estão a destruir o país. Um homem que vai expulsar os indesejáveis que atulham o mercado de trabalho, falar de cima para baixo aos chinocas e comunistóides, e pulverizar os terroristas islâmicos que os querem matar a todos, violar as mulheres e obrigá-los a uma religião infame.

 

A outra variável que perturba os velhos republicanos é a falta de candidatos credíveis. Tanto Marco Rubio como Ted Cruz, os dois que ainda restam na corrida, são fracos. Têm os valores certos, mas não convencem. Rubio é um cristão devoto, quase medieval, com um discurso desactualizado que nem consegue ser percebido pela população urbana. Além disso já mudou de ideias em questões fundamentais, como a imigração, conforme pensa no que o eleitorado quer. Ted Cruz é detestado pelos seus colegas senadores, que o vêem como um manipulador barato cuja palavra não vale um caracol. Ou seja, por mais perigoso e impalatável que Trump seja, o establishement republicano não preparou a tempo nenhum outro candidato com massa crítica e ideias aceitáveis que lhe possa fazer frente.

 

Finalmente, há que levar em conta que os grandes financiadores do Partido Republicano são os irmãos Koch, donos da segunda maior empresa privada dos Estados Unidos (petróleo, produtos químicos, plásticos, etc), e Sheldon Adelson, dono de casinos no Nevada e em Macau. Para estes senhores, as mudanças climáticas são uma treta, um sistema de segurança social uma pouca-vergonha e os ricos não deviam pagar impostos, porque são os ricos que impulsionam a economia. Embora Trump seja demasiado obsceno para os seus pontos de vista, certamente que preferem por os seus milhões nele perante o perigo doutro mandato democrata. Os republicanos mais moderados não se podem permitir a contrariar Koch e Adelson, que contam com mais de 50 por cento do financiamento do partido.

 

Pois é, o Partido Republicano está numa encruzilhada. O que quer dizer que os Estados Unidos também estão, uma vez que o equilíbrio entre os dois partidos tradicionais tem sido, há duzentos anos, o equilíbrio do sistema político. Se perder vergonhosamente, haverá uma hegemonia excessiva dos democratas, o que não é bom – os democratas também não são nenhuns santos, mas isso é outra conversa. Se ganhar, a terceira Guerra Mundial será uma possibilidade mais séria, para não falar nas iniquidades que ocorrerão nos Estados Unidos.

 

Então, se os Estados Unidos estão numa encruzilhada, o que será de nós, europeus, que também não estamos a saber governar-nos?

 

Num mundo ideal, todo o planeta poderia votar para a presidência norte-americana, já que lhe sofre as consequências.

 

O que vale é que a colonização da Lua está em andamento.

 

 

publicado às 10:22

Posts mais comentados

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D