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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Isabel, Chefe de Estado

Por: Márcio Alves Candoso

 

 

Na mesma semana, o Reino Unido vai estar ocupado com a celebração do 90º aniversário da mais icónica das suas cidadãs - e cidadãos. Elisabeth of Windsor, conhecida entre nós por rainha Isabel II de Inglaterra, bateu no ano passado o recorde de permanência no trono britânico, que pertencia à sua trisavó Vitória. De um pedestal que reconhece apenas como um ‘dever’ e não como uma prerrogativa, que aliás ganhou por mero acaso das contingências histórias, Isabel tem preferido sempre ir de encontro aos cidadãos anónimos, mostrar-se sem ser demasiado conhecida.

 

 

Na tabela de vendas de ‘hardbacks’, capítulo de ‘não-ficção’, o livro que sobressai esta semana no mercado britânico tem um título interrogativo. ‘And the Weak Suffer What They Must?’ Essa é a pergunta de Yannis Varoufakis, autor da obra que lidera a lista dos mais procurados, destronando – talvez pela novidade – uma série de três livros humorísticos que vinham dominando as preferências do público há mais de dois meses. Trata-se, aliás, de uma das duas entradas directas para o ’top ten’, sendo a restante uma dissertação sobre a importância do ‘rock’ dos anos 70, que ocupa agora a oitava posição. Não é claro qual a importância que os britânicos atribuem, nos dias de hoje, à procura de soluções para os pecados que o ex-ministro grego das Finanças insiste em denunciar em mais um livro. ‘Uma batalha titânica pela integridade e identidade europeias, contra o crescente autoritarismo e corrupção, que promovem a desigualdade’ – é esta a sinopse que a ’Amazon’ traça do conteúdo do livro da ‘pop star’ da esquerda europeia. Mas, num país onde se travam razões sobre as vantagens e desvantagens de pertencer à União Europeia, é talvez sintomático o interesse que um heterodoxo como Varoufakis desperta no púbico.

 

Margaret Thatcher, a primeira-ministra conservadora britânica por quem, diz-se, a rainha não morria de amores, acusou-a um dia de votar no Partido Social-Democrata então nascente, após uma divisão dos Trabalhistas que levaram Roy Jenkins e David Owen a criar a nova formação política. Como em todas as - poucas – tentativas de ligar a soberana a alguma facção ou ideologia dos seus súbditos, o Palácio de Buckingham apressou-se a negar a preferência. Mas os biógrafos da casa real – uns autorizados, outros nem por isso – são unânimes em considerar que a rainha sempre pendeu, em toda a sua vida privada, para uma espécie de centro-esquerda europeu. Não é por acaso que se diz que o seu primeiro-ministro favorito - dos doze que já empossou – foi Harold Wilson, do ‘Labour’.

 

Em Portugal, quando se quer falar das peculiaridades da actual Constituição, no que diz respeito aos poderes do Chefe de Estado, costuma dizer-se que ele não é a Rainha de Inglaterra, numa alusão à importância executiva que o monarca britânico tem vindo a perder no último século e meio. Salvo erro, a ideia tornou-se pública pela palavra de Mário Soares, que fazia uma interpretação extensiva das suas funções enquanto Presidente da República, tanto quanto a Constituição revista em 1982 lho permitia.

 

Mas se é verdade que Isabel II tem os seus poderes restringidos pela lei – a monarquia constitucional liberal rege a Inglaterra e as suas possessões -, a sua influência no seu longo reinado não é despicienda. A mais recente intervenção da rainha na política terá sido por ocasião do referendo com intenções independentistas da Escócia. Isabel II terá deixado escapar, numa declaração que os especialistas apelidaram de que ‘mais pública não poderia ter sido’, a frase que não traduzo: ‘Well, I hope people will think very carefully about the future’.

 

Nesses dias de chumbo da política britânica, autores e jornalistas bem próximos do primeiro-ministro, David Cameron, revelaram que ele, normalmente frio e maquiavélico em relação à política quotidiana, terá passado um mau bocado, demonstrando assinalável nível de stress; diz quem dele está próximo, que a sua irritação com a indecisão escocesa levou a mulher a quase não o reconhecer, perdendo cabelo nesse anseio conjugal.

 

O Palácio de Buckingham, como sempre tem feito através da história recente, publicou um comunicado a negar o envolvimento da rainha na questão da independência da Escócia. Fê-lo como deve ser, ou seja, depois de todos os jornais já terem publicado as declarações de Isabel II… Diz quem sabe que a rainha terá dado uma ajuda preciosa ao ‘não’ à independência da parte norte da Grã-Bretanha. Uma guerra que, aliás, algumas das suas antepassadas, com relevo para Maria Stuart e Isabel I, não desdenhariam.

 

Nos rodapés da história, diz-se que terá sido, até hoje, a única rainha a saber mudar um pneu de um carro ou a mudar-lhe o óleo.

 

Se as revistas cor-de-rosa e os ‘yellow papers’ não se cansam de escrutinar a vida mundana, amorosa ou – até - escandalosa da família real britânica, a verdade é que Isabel II tem escapado quase sempre à opinião negativa dos vendedores de papel impresso. E da única vez que ficou na mó-de-baixo, em 63 anos de reinado, apressou-se a acertar o passo – ou não fosse ela uma militante convicta das virtudes militares. Logo após a morte de Diana Spencer, na altura já separada do seu primogénito e presuntivo herdeiro, a rainha terá sido, segundo a opinião pública, demasiado fria e formal, não se prontificando a participar nas homenagens póstumas à ‘princesa do povo’. Em poucas horas percebeu o erro, e juntou-se aos seus, como sempre fez, aliás, desde que na II Guerra, com 18 anos, se pôs ao volante das ambulâncias e dos camiões do Serviço Auxiliar Territorial (ATS). Nos rodapés da história, diz-se que terá sido, até hoje, a única rainha a saber mudar um pneu de um carro ou a mudar-lhe o óleo.

 

A monarquia caiu-lhe nos braços por força de uma abdicação nunca totalmente explicada, mas especulada mais do que muito. A ascendência germânica da família real britânica, por força do casamento da puritana Vitória com Albert de Saxe-Coburgo Gotha, terá levado o presuntivo rei Eduardo VIII, tio de Isabel, a proclamar mais em privado que em público as suas preferências pelo lado alemão entre as duas guerras mundiais. Oficialmente, foi por se casar com uma senhora divorciada que deixou o trono londrino; mas há muitos que dizem que não. E a cadeira real sobrou para o pai de Isabel, irmão mais novo de Eduardo, que governou como pôde o Império Britânico.

 

Cedo, no entanto, Isabel demonstrou ter ideias políticas, tanto quanto os apertados trâmites da lei lho permitiam. O primeiro-ministro Anthony Eden que o diga, quando foi forçado a demitir-se do cargo após o fracasso da tomada do Canal do Suez, aventura que contou com a oposição frontal da rainha. Ou Ian Smith, quando declarou a independência unilateral e minoritária da Rodésia ‘branca’, sendo por tal afastado da Commonwealth pela rainha. Ou Margaret Thatcher, que Isabel considerava ‘insensível’ aos pobres e ‘teimosa’, e que não contou com o aval real quando se negou a alinhar nas sanções internacionais contra o ‘apartheid’ sul-africano. Ou Ronald Reagan, que foi censurado fortemente pela invasão de Grenada. Ou, de outro modo, Nelson Mandela, que viu Isabel II apoiá-lo logo no início do seu mandato como presidente da África do Sul; são poucas, em toda uma vida, as fotos mais sorridentes e demonstradoras de admiração como aquelas que Isabel II deixou que lhe tirassem quando se encontrou com o primeiro presidente negro da antiga possessão britânica.

 

Regrada mais que puritana, decente mais que moralista, Isabel II casou por amor com um tipo autoritário e pouco culto, que no entanto tem cumprido a preceito as funções de consorte. O apoio que lhe tem dado, publicamente expresso por Isabel em discurso por altura do seu jubileu como rainha, fica a léguas da preponderância que Albert terá tido na primeira parte da vida de Vitória, outra rainha icónica da Grã-Bretanha.

 

a nossa mais velha aliada foi o que foi: uma mulher do tempo da guerra, patriota e piedosa, que gosta de cumprir um dever

 

Pela pena de Andrew Marr, o ‘Sunday Times’ da presente semana traça um perfil da soberana um pouco antípoda da caricatura de vestes garridas e ‘cara de Miss Piggy’ – que ela assume quando está irritada – que geralmente lhe é atribuída. Num tempo em que a fama vai e vem, em que o público espera surpresa e divertimento, ela representa a perenidade sem perder o humor britânico que lhe é característico. Quem não se lembra da rábula com James Bond (Daniel Craig, na ocasião) que protagonizou aquando da abertura dos Jogos Olímpicos de Verão de 2012, em Londres?

 

Quem a conhece, diz que não vai abdicar em favor do filho de 67 anos; talvez a educação de Carlos – que é já um dos mais velhos herdeiros de coroa da história das monarquias -, deixada aos cuidados de um tio-avô marialva e de um pai mais que rústico, seja a maior falha desta mulher que, aos 13 anos, sonhava ser campeã de natação. Sóbria – troca o gin das falecidas mamã e irmã por um ‘Earl Grey’ com leite e sem açúcar - a nossa mais velha aliada foi o que foi: uma mulher do tempo da guerra, patriota e piedosa, que gosta de cumprir um dever. Assim os joelhos, sua única falha de uma saúde de ferro, lho permitam uma outra vez.

 

E o futuro? Nas ‘pools’ da Grã-Bretanha, o neto William já vai à frente, como favorito para a sucessão, do filho Carlos, um tipo decente mas estranho, que deambula entre o jogo de pólo, a arquitectura alternativa, a homeopatia e as preocupações ambientais. Depois da morte de Diana, uma verdadeira ‘insider’ na família real britânica, resta Kate Midletton para dar um ar de graça a uma monarquia renovada. Com uma diferença em relação à defunta sogra – é que o neto da rainha escolheu-a entre todas as múltiplas candidatas, e ela ao princípio nem achou grande piada ao rapaz. O pai, Carlos, terá sido aconselhado pela sua amante de sempre, e actual mulher, Camilla, a desposar a virgem Diana, que ele levou para casa sem estar muito convencido da trama. O povo britânico sabe destas coisas...

 

No Natal ou quando ela quiser, Lilibeth, do alto dos seus 90 anos, costuma dar bonecos aos bisnetos, que lhe chamam ‘gan-gan’ em privado. Um dia destes, aposto, dá-lhes um cavalo, filho ou neto de um daqueles 22 com que já ganhou as corridas de Ascot.

 

 

publicado às 23:51

Isabel, chefe de Estado

Por: Márcio Alves Candoso

Na tabela de vendas de ‘hardbacks’, capítulo de ‘não-ficção’, o livro que sobressai esta semana no mercado britânico tem um título interrogativo. ‘And the Weak Suffer What They Must?’. Essa é a pergunta de Yannis Varoufakis, autor da obra que lidera a lista dos mais procurados, destronando – talvez pela novidade – uma série de três livros humorísticos que vinham dominando as preferências do público há mais de dois meses. Trata-se, aliás, de uma das duas entradas directas para o ’top ten’, sendo a restante uma dissertação sobre a importância do ‘rock’ dos anos 70, que ocupa agora a oitava posição.

 

Não sei qual a importância que os britânicos atribuem, nos dias de hoje, à procura de soluções para os pecados que o ex-ministro grego das Finanças insiste em denunciar em mais um livro. ‘Uma batalha titânica pela integridade e identidade europeias, contra o crescente autoritarismo e corrupção, que promovem a desigualdade’ – é esta a sinopse que a 'Amazon' traça do conteúdo do livro da ‘pop star’ da esquerda europeia. Mas, num país onde se travam razões sobre as vantagens e desvantagens de pertencer à União Europeia, é talvez sintomático o interesse que um heterodoxo como Varoufakis desperta no púbico.

 

Na mesma semana, o Reino Unido vai estar ocupado com a celebração do 90º aniversário da mais icónica das suas cidadãs - e cidadãos. Elisabeth of Windsor, conhecida entre nós por rainha Isabel II de Inglaterra, bateu no ano passado o recorde de permanência no trono britânico, que pertencia à sua trisavó Vitória. De um pedestal que reconhece apenas como um ‘dever’ e não como uma prerrogativa, que aliás ganhou por mero acaso das contingências histórias, Isabel tem preferido sempre ir de encontro aos cidadãos anónimos, mostrar-se sem ser demasiado conhecida.

 

Margaret Thatcher, a primeira-ministra conservadora britânica por quem, diz-se, a rainha não morria de amores, acusou-a um dia de votar no Partido Social-Democrata então nascente, após uma divisão dos Trabalhistas que levaram Roy Jenkins e David Owen a criar a nova formação política. Como em todas as - poucas – tentativas de ligar a soberana a alguma facção ou ideologia dos seus súbditos, o Palácio de Buckingham apressou-se a negar a preferência. Mas os biógrafos da casa real – uns autorizados, outros nem por isso – são unânimes em considerar que a rainha sempre pendeu, em toda a sua vida privada, para uma espécie de centro-esquerda europeu. Não é por acaso que se diz que o seu primeiro-ministro favorito - dos doze que já empossou – foi Harold Wilson, do ‘Labour’.

 

Em Portugal, quando se quer falar das peculiaridades da actual Constituição, no que diz respeito aos poderes do Chefe de Estado, costuma dizer-se que ele não é a Rainha de Inglaterra, numa alusão à importância executiva que o monarca britânico tem vindo a perder no último século e meio. Salvo erro, a ideia tornou-se pública pela palavra de Mário Soares, que fazia uma interpretação extensiva das suas funções enquanto Presidente da República, tanto quanto a Constituição revista em 1982 lho permitia.

 

Mas se é verdade que Isabel II tem os seus poderes restringidos pela lei – a monarquia constitucional liberal rege a Inglaterra e as suas possessões -, a sua influência no seu longo reinado não é despicienda. A mais recente intervenção da rainha na política terá sido por ocasião do referendo com intenções independentistas da Escócia. Isabel II terá deixado escapar, numa declaração que os especialistas apelidaram de que ‘mais pública não poderia ter sido’, a frase que não traduzo: ‘Well, I hope people will think very carefully about the future’.

Nesses dias de chumbo da política britânica, autores e jornalistas bem próximos do primeiro-ministro, David Cameron, revelaram que ele, normalmente frio e maquiavélico em relação à política quotidiana, terá passado um mau bocado, demonstrando assinalável nível de stress; diz quem dele está próximo, que a sua irritação com a indecisão escocesa levou a mulher a quase não o reconhecer, perdendo cabelo nesse anseio conjugal.

 

O Palácio de Buckingham, como sempre tem feito através da história recente, publicou um comunicado a negar o envolvimento da rainha na questão da independência da Escócia. Fê-lo como deve ser, ou seja, depois de todos os jornais já terem publicado as declarações de Isabel II… Diz quem sabe que a rainha terá dado uma ajuda preciosa ao ‘não’ à independência da parte norte da Grã-Bretanha. Uma guerra que, aliás, algumas das suas antepassadas, com relevo para Maria Stuart e Isabel I, não desdenhariam.

 

Se as revistas cor-de-rosa e os ‘yellow papers’ não se cansam de escrutinar a vida mundana, amorosa ou – até - escandalosa da família real britânica, a verdade é que Isabel II tem escapado quase sempre à opinião negativa dos vendedores de papel impresso. E da única vez que ficou na mó-de-baixo, em 63 anos de reinado, apressou-se a acertar o passo – ou não fosse ela uma militante convicta das virtudes militares. Logo após a morte de Diana Spencer, na altura já separada do seu primogénito e presuntivo herdeiro, a rainha terá sido, segundo a opinião pública, demasiado fria e formal, não se prontificando a participar nas homenagens póstumas à ‘princesa do povo’.

 

Em poucas horas percebeu o erro, e juntou-se aos seus, como sempre fez, aliás, desde que na II Guerra, com 18 anos, se pôs ao volante das ambulâncias e dos camiões do Serviço Auxiliar Territorial (ATS). Nos rodapés da história, diz-se que terá sido, até hoje, a única rainha a saber mudar um pneu de um carro ou a mudar-lhe o óleo.

A monarquia caiu-lhe nos braços por força de uma abdicação nunca totalmente explicada, mas especulada mais do que muito. A ascendência germânica da família real britânica, por força do casamento da puritana Vitória com Albert de Saxe-Coburgo Gotha, terá levado o presuntivo rei Eduardo VIII, tio de Isabel, a proclamar mais em privado que em público as suas preferências pelo lado alemão entre as duas guerras mundiais. Oficialmente, foi por se casar com uma senhora divorciada que deixou o trono londrino; mas há muitos que dizem que não. E a cadeira real sobrou para o pai de Isabel, irmão mais novo de Eduardo, que governou como pôde o Império Britânico.

 

Cedo, no entanto, Isabel demonstrou ter ideias políticas, tanto quanto os apertados trâmites da lei lho permitiam. O primeiro-ministro Anthony Eden que o diga, quando foi forçado a demitir-se do cargo após o fracasso da tomada do Canal do Suez, aventura que contou com a oposição frontal da rainha. Ou Ian Smith, quando declarou a independência unilateral e minoritária da Rodésia ‘branca’, sendo por tal afastado da Commonwealth pela rainha. Ou Margaret Thatcher, que Isabel considerava ‘insensível’ aos pobres e ‘teimosa’, e que não contou com o aval real quando se negou a alinhar nas sanções internacionais contra o ‘apartheid’ sul-africano. Ou Ronald Reagan, que foi censurado fortemente pela invasão de Grenada.

 

Ou, de outro modo, Nelson Mandela, que viu Isabel II apoiá-lo logo no início do seu mandato como presidente da África do Sul; são poucas, em toda uma vida, as fotos mais sorridentes e demonstradoras de admiração como aquelas que Isabel II deixou que lhe tirassem quando se encontrou com o primeiro presidente negro da antiga possessão britânica.

 

Regrada mais que puritana, decente mais que moralista, Isabel II casou por amor com um tipo autoritário e pouco culto, que no entanto tem cumprido a preceito as funções de consorte. O apoio que lhe tem dado, publicamente expresso por Isabel em discurso por altura do seu jubileu como rainha, fica a léguas da preponderância que Albert terá tido na primeira parte da vida de Vitória, outra rainha icónica da Grã-Bretanha.

 

Pela pena de Andrew Marr, o ‘Sunday Times’ da presente semana traça um perfil da soberana um pouco antípoda da caricatura de vestes garridas e ‘cara de Miss Piggy’ – que ela assume quando está irritada – que geralmente lhe é atribuída. Num tempo em que a fama vai e vem, em que o público espera surpresa e divertimento, ela representa a perenidade sem perder o humor britânico que lhe é característico. Quem não se lembra da rábula com James Bond (Daniel Craig, na ocasião) que protagonizou aquando da abertura dos Jogos Olímpicos de Verão de 2012, em Londres?

Quem a conhece, diz que não vai abdicar em favor do filho de 67 anos; talvez a educação de Carlos – que é já um dos mais velhos herdeiros de coroa da história das monarquias -, deixada aos cuidados de um tio-avô marialva e de um pai mais que rústico, seja a maior falha desta mulher que, aos 13 anos, sonhava ser campeã de natação. Sóbria – troca o gin das falecidas mamã e irmã por um ‘Earl Grey’ com leite e sem açúcar - a nossa mais velha aliada foi o que foi: uma mulher do tempo da guerra, patriota e piedosa, que gosta de cumprir um dever. Assim os joelhos, sua única falha de uma saúde de ferro, lho permitam uma outra vez.

 

E o futuro? Nas ‘pools’ da Grã-Bretanha, o neto William já vai à frente, como favorito para a sucessão, do filho Carlos, um tipo decente mas estranho, que deambula entre o jogo de pólo, a arquitectura alternativa, a homeopatia e as preocupações ambientais. Depois da morte de Diana, uma verdadeira ‘insider’ na família real britânica, resta Kate Midletton para dar um ar de graça a uma monarquia renovada. Com uma diferença em relação à defunta sogra – é que o neto da rainha escolheu-a entre todas as múltiplas candidatas, e ela ao princípio nem achou grande piada ao rapaz. O pai, Carlos, terá sido aconselhado pela sua amante de sempre, e actual mulher, Camilla, a desposar a virgem Diana, que ele levou para casa sem estar muito convencido da trama. O povo britânico sabe destas coisas...

 

No Natal ou quando ela quiser, Lilibeth, do alto dos seus 90 anos, costuma dar bonecos aos bisnetos, que lhe chamam ‘gan-gan’ em privado. Um dia destes, aposto, dá-lhes um cavalo, filho ou neto de um daqueles 22 com que já ganhou as corridas de Ascot.

publicado às 15:33

Haka da Nova Zelândia ... silêncio por favor

 

Por: Miguel Morgado

 

Para os amantes de rugby, ver a Nova Zelândia e o “haka” é o sonho de uma vida. Foi a pensar nisso mesmo que, em novembro de 2014, comprei três bilhetes para o jogo da fase de grupos entre os All Blacks e a Geórgia, disputado no passado dia 2 de outubro, em Cardiff, no País de Gales. E foi aí também que vi um ensaio para a vida.

 

 

Gosto de rugby. De ver. Do que representa. Do que nos oferece e do que aprendemos. Cresci com o Torneio das “5 Nações”, nos idos anos 80. Nessa altura, andar vestido com as camisolas das seleções da Escócia ou da África do Sul era sinal de “sucesso” noutros campos. Não escapei a essa moda. Nem tão pouco de ter jogado (por pouco tempo). Fui e sou adepto. E espectador. E mais, sou pai de um jogador sub-12. Ele, a quem foi detetada epilepsia, dislexia e outras “ias”, após o “empurrão” do médico, entrou no maravilhoso e diferente mundo do rugby. Um universo de valores, entreajuda, respeito, de amizades e ensinamentos para a vida.  

 

Atualmente disputa-se o Campeonato do Mundo de Rugby em Inglaterra, evento que está a colocar a modalidade no epicentro das conversas sobre o mundo da bola (oval, no caso), seja pela espetacularidade do ambiente, pelo vídeo-árbitro ou pelo fair play que se vê a cada jogada deste jogo bruto disputado por cavalheiros. E eis que chegou a altura de usar os três bilhetes para o jogo da fase de grupos entre os All Blacks e a Geórgia, que comprei ... em novembro de 2014. Para o grande dia: 2 de outubro, em Cardiff, no País de Gales

 

De manhã, bem cedo, partimos. Feita a aterragem em Londres, seguiu-se uma verdadeira romaria até Cardiff, Estádio Millennium, o palco do encontro. Uma viagem de três gerações de uma família, do meu pai ao meu filho. Ele que ambiciona jogar pelos “Lobos”, é adepto do País de Gales e que tem no seu imaginário, desde que joga (já lá vão 4 anos), ver ao vivo e a cores os homens de preto a dançarem o “haka”, aquela dança tribal com que os All Blacks presenteiam os seus adversários e adeptos antes dos jogos.

 

No Estádio Millennium estavam 69109 pessoas. Leram bem. 69109 galeses, ingleses, georgianos, portugueses (denunciados por cachecóis do seu clube...de futebol) e, claro, uma enorme massa humana, que veste cor preta, a legião de adeptos da Nova Zelândia. Bancadas repletas de jovens universitários e de reformados, reformados de pernas pesadas....mas que bebem e cantam como adolescentes, homens e mulheres, pais e filhos, famílias inteiras que ali se deslocaram para presenciar, ao vivo e a cores, aquele momento. Os de preto ainda acrescentaram um adereço identificativo: o feto, planta transformada ícone cultural do país das ovelhas, estava estampado em caras, braços e tornozelos.  

 

Os anti-pop stars

 

Os olhos de quem lá estava e quem vê em televisões, tablets e outras plataformas, concentram-se no jogo. No campo e fora dele, este é especial. Os jogadores não são pop-stars desportivos, mas uns correm como o Bolt, outros têm os braços do Mike Tyson e ainda a “beldade” do Herrera (jogador de futebol do FC Porto). Não recebem salários de milhões, embora sejam seguidos por outros “ões” nos quatro cantos do mundo. Uns enrolam fitas à volta da cabeça, outros têm as orelhas que mais parecem pedaços de carne picada, tantas vezes a cabeça andou a roçar em pernas, troncos e membros. O sangue (ou lama) na cara faz parte da imagem de marca de qualquer fotografia. Ou selfie.

 

A humildade caracteriza-os a todos. É normal ver jogadores transportarem água para dentro de campo, entregando-a aos colegas que se contorcem com dores após uma placagem mais forte ou disputada uma bola na molhada (ruck).

 

"Uns enrolam fitas à volta da cabeça, outros têm as orelhas que mais parecem pedaços de carne picada, tantas vezes a cabeça andou a roçar em pernas, troncos e membros. O sangue (ou lama) na cara faz parte da imagem de marca de qualquer fotografia. Ou selfie."

 

Uma organização de pontapé para a frente e tudo ao molho

 

O jogo pauta-se por uma estratégia muito bem definida, embora aos olhos de quem pouco ou nada perceba mais pareça um jogo do pontapé para a frente, todos ao molho e fé em Deus numa espécie de bullying. Mas não é. Quem aqui joga são os bons, embora muitos tenham cara de maus. Cada qual desempenha um papel: o A depende do B, que por sua vez depende do C. Numa verdadeira coligação de forças, em formação ordenada, fazem parte todos do mesmo partido. Não deixam cair ninguém. Mesmo. Não há divisões nem cisões. Viram à esquerda e à direita, recuam e avançam com um objetivo: chegar lá à frente. Para marcar o ensaio. Sem individualismos, egoísmos ou excessos de protagonismos. Nem mesmo do árbitro que, com as câmaras ao peito mais parece um “robot cop”. Estranhamente, ou não, todos o respeitam. A ele e ao vídeo-árbitro, aquela pequena câmara que permite tirar dúvidas nos lances polémicos. Sem perdas de tempo, para que siga a bola e haja verdade desportiva. E no final, em corredor, vencedores e vencidos, todos se cumprimentam e batem palmas à vista de todos.   

 

Um ensaio para a vida

 

Adiante. O jogo a que assisti estava marcado para as 20h00. Vou confessar-vos: foram mais de 6 horas de viagem para chegar ao Estádio Millennium, num trajeto que se faz em 2h30m. Quando atrás escrevi “romaria” não foi ao acaso...

Dez minutos antes do grande acontecimento conseguimos estacionar o carro a “15 minutos a pé ou 10 a correr”, conforme informação dada à saída do parque de estacionamento. Ouvir, sentir e ver o “haka” estava à distância de uma corrida.

Em passo acelerado, com os meus 44 anos “puxei” pelo meu filho (11) e este pelo meu pai (a caminho dos 70). À entrada do mítico estádio ouvi um desabafo de alguém ao nosso lado que há 30 anos esperava viver o “momento”, mas que falhou devido ao trânsito. Também nós tínhamos perdido a dança. A tristeza de segundos foi ultrapassada por umas palavras, entre risos. “Não faz mal pai, não podíamos deixar o avô para trás”. Pois não. Esse não seria o espírito do rugby. E nem aquilo que nos ensina. Fomos uma equipa. Somos uma família. Daqui a uns quantos anos não sei se teremos hipótese de, juntos, concretizar o tal sonho. Sei somente que uma criança de 11 anos marcou, para mim, um ensaio para a vida.  

 

Ontem, 17 de outubro, começaram os quartos de final. Uma luta entre os planisférios Norte e Sul. Escócia-Austrália; Irlanda-Argentina; França e País de Gales-África do Sul e Nova Zelândia-França. Este último com a particularidade de juntar os finalistas da edição de 2011 na mesma cidade (Cardiff) onde os gauleses já bateram o seu adversário (nos quartos de final em 2007). Gostava de estar lá. Mas resta sentar-me à frente da televisão, para à hora marcada, ver, ouvir e sentir o “Ka mate! Ka mate! Ka ora! Ka ora!”. 

publicado às 10:31

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