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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Como a América irá por ordem no mundo (se Trump for presidente)

Por: José Couto Nogueira

 

Existe, indubitavelmente, a possibilidade de Donald Trump ser o próximo Presidente dos Estados Unidos. Embora abundem as paródias sobre “o Donald” (como lhe chamam os desafectos), e apesar de os seus comícios serem cada vez mais tumultuados, com cenas de pancadaria e demonstrações inequívocas de racismo, não há como ignorar que Trump tem ganho sistematicamente as primárias do seu partido e, não acontecendo um milagre, ou uma catástrofe, será o candidato republicano às presidenciais de Novembro.

 

Mesmo que os comentadores – e uma maioria do eleitorado, segundo as últimas sondagens – considerem a vitória improvável, a realidade é que pode acontecer. Entretanto, Trump, entre uma piadola machista e um comentário racista, tem vindo a aperfeiçoar o discurso, isto é, a apresentar o que será a sua politica como Presidente. Na sexta feira passada deu uma longa entrevista telefónica ao “New York Times” em que expôs de modo mais coerente qual será a sua postura na arena mundial. Pode ter dito coisas surpreendentes, mas não fez declarações disparatadas. Ou seja, temos agora uma noção mais próxima do que acontecerá no mundo em que Mr. Trump será Mr. President.

 

As afirmações mais inesperadas foram certamente sobre a questão da dependência petrolífera dos Estados Unidos em relação aos países produtores, especialmente a Arábia Saudita. “Se não fosse a protecção norte-americana, acho que a Arábia Saudita já teria desaparecido”, afirmou. Portanto a sua ideia é fazer-se pagar por essa protecção, invertendo a equação: ou os sauditas entram com tropas na luta contra o Califado Islâmico, ou os Estados Unidos deixam de lhes comprar petróleo. Além disso, quer ser reembolsado pelas despesas militares na zona, uma vez que a instabilidade provocada pelos radicais afecta sobretudo os estados produtores.

 

Esta forma economicista de fazer prevalecer o domínio norte-americano, aplica-a ele também a outras situações. Por exemplo, está disposto a permitir que o Japão e a Coreia do Sul construam os seus arsenais nucleares próprios, em vez de dependerem dos EUA; e exigirá pagamento para a manutenção das suas forças militares nos dois países.

 

Ou pagam, ou defendem-se sozinhos

 

Diz Trump que o poder americano se diluiu em muitos tratados – com é o caso da defesa do Japão – que constituem uma enorme despesa e que terão de ser renegociados em condições económicas mais vantajosas. Apesar de não definir objectivos estratégicos, quer reequacionar os actuais mediante uma espécie de chantagem: ou os parceiros pagam, ou se defendem sozinhos. Também é o caso da NATO, que é quase totalmente subsidiada pelos Estados Unidos, não só em forças militares disponíveis como em equipamento e outras despesas. Para ele, a NATO como está não faz sentido, pois uma guerra tradicional não se apresenta no horizonte; deveria reconverter-se como força anti-terrorista.

 

Estes pontos de vista representam uma mudança de 180 graus na politica histórica dos Estados Unidos. Não se percebe até que ponto Trump tem a noção das dificuldades internas que teria para levar a cabo tal mudança.

 

Quanto ao expansionismo territorial chinês – a China presentemente disputa algumas ilhas do pacífico – também pretende combatê-lo através de sanções económicas. Os chineses dependem maioritariamente do mercado norte-americano e basta uma ameaça de que esse mercado se restrinja para provocar uma crise de grandes proporções na China.

 

Estas politicas não só são originais – caso sejam possíveis – com divergem completamente das posturas republicanas tradicionais. É o próprio Trump que salienta: “Não sou internacionalista como Bush pai, nem pretendo espalhar democracia pelo mundo, como Bush filho. A minha politica é A América Primeiro.” Acrescenta que não é isolacionista, mas quer que os parceiros paguem a sua colaboração, com tropas ou fundos. A colaboração dependeria mais da atitude dos outros – amistosa ou hostil – do que dos interesses estratégicos deles.

 

De toda a entrevista, esta talvez tenha sido a afirmação mais sentido:, Trump revelou que agirá de modo imprevisível, porque a previsibilidade dos americanos tem facilitado a vida aos adversários dos americanos. Por exemplo, agiria em relação aos chineses, concretamente às suas pretensões sobre as ilhas do Mar do Sul da China, ameaçando como um aumento de tarifas alfandegárias, ou mesmo proibição de importar certos produtos, mas sem lhes fazer ver quais seriam as suas linhas vermelhas. Em termos de imprevisibilidade, é pouco.

 

Os Estados Unidos, diz Trump, atingiram a sua maior grandeza no princípio do século XX, quando o Presidente era outro republicano pouco convencional, Theodore Roosevelt. E os seus heróis são dois generais da II Guerra Mundial, George Patton e Douglas MacArthur – embora, surpreendentemente, não esteja de acordo com a decisão de MacArthur de bombardear atomicamente o Japão. Foi essa a outra grande surpresa da entrevista: Trump não é a favor de ofensivas nucleares e afirma que nunca será o primeiro a usar a bomba atómica.

 

O Donald já está a pensar à escala global

 

Também não é a favor de colocar tropas no terreno. Diz que prefere ameaçar do que fazer, e que seria essa a sua postura em relação, por exemplo, à Arábia Saudita. (O que não faz muito sentido, tanto porque lá se vai a imprevisibilidade como volta a necessidade de bombardear...) A sua preferência por militares também se aplica aos conselheiros que eventualmente escolherá: dois generais e um almirante, todos reformados.

 

Quanto à delicada situação dos Estados Unidos terem espiado toda a gente, inclusive dirigentes europeus, Trump evitou uma resposta conclusiva; acha normal que se espie os aliados, pois eles certamente farão o mesmo, mas não concorda que os serviços de espionagem tenham bisbilhotado o telemóvel de Ângela Merkel. A propósito, afirmou que a chanceler tinha feito muito mal em autorizar a entrada dos refugiados. Segundo ele, a Europa e os estados do Golfo deviam pagar para que se criassem áreas seguras dentro da Síria onde os refugiados viveriam até a situação se normalizar.

 

Sobre um tema que é sempre essencial a qualquer candidato presidencial, a situação de Israel e de Gaza, preferiu não se pronunciar. Terá que fazê-lo num futuro próximo mas é evidente que, enquanto puder, evitará o assunto. Apenas disse que é a favor da solução Dois Estados, desde que os palestinianos reconheçam a existência de Israel.

 

Nesta altura do campeonato, Trump demonstra uma postura precisamente contrária ao que diz, ou seja, isolacionista. Exactamente como Bush filho, antes do 11 de Setembro ter virado a política americana de cabeça para baixo. Além disso, em geral, Trump apresentou soluções que não parecem muito bem pensadas; seria difícil prescindir do petróleo do Golfo, ou sequer fazer bluff com a Arábia Saudita nesse ponto, por exemplo. Assim como seria difícil estabelecer barreiras alfandegárias para os produtos chineses, pois vai contra toda a politica de livre comércio que os americanos sempre defenderam. Muitas das decisões apresentadas por Trump – se não todas – teriam de passar pelo legislativo, e nada lhe garante que o Congresso aprove alterações tão radicais.

 

De qualquer modo, o Donald já está a pensar à escala global. Nessa escala, a maioria pensa que um Presidente Trump seria uma catástrofe de proporções bíblicas. Mas não é o globo que irá tomar essa decisão, chegado Novembro.

 

 

 

publicado às 16:30

Banksy põe Steve Jobs num campo de refugiados

Steve Jobs, filho de migrantes sírios - é essa a ideia do artista Banksy na sua última intervenção em espaço público. A obra encontra-se desta vez no campo de refugiados de Calais, um dos locais da Europa onde a crise dos migrantes se tem feito sentir de forma mais aguda e dramática. 

 Steve Jobs, grafitti no campo de refugiados de Calais, por Banksy. Foto de Banksy.

 

A imagem mostra Jobs com uma mochila numa mão e um computador Apple na outra, e foi fotografada e publicada pelo próprio Banksy no seu website. Banksy comentou este seu trabalho no campo que é também conhecido como "A Selva": 'Muitas vezes fazem-nos crer que as migrações roubam os recursos dos países, mas Steve Jobs era filho de um imigrante sírio. A Apple é a empresa mais lucrativa do mundo, paga mais de 7 mil milhões de impostos por ano - e se existe, é apenas porque permitiram a entrada deste jovem vindo de Homs'.

 

Banksy criou já várias obras em resposta à crise dos refugiados, incluindo uma versão do quadro 'O Naufrágio da Medusa', de Géricault, que acrescenta ao célebre e polémico episódio dos náufragos abandonados um iate de luxo. O artista inglês tem também um projecto de construção de abrigos para os refugiados.

 

publicado às 18:04

"People Have the Power". E temos um problema Le Pen para tratar

Por: Francisco Sena Santos

 

Marine Le Pen está lançada para daqui a 16 meses ser eleita presidente da República francesa? Este cenário perturbador pelo veneno xenófobo e pelo retrocesso civilizacional populista e autoritário que representa não é o mais provável, mas pode ainda impor-se como realidade e, a ser assim, dar um safanão fatal ao que resta do ideal solidário e multicultural da União Europeia.

 

 

O eleitorado francês, exasperado com os dirigentes políticos do costume, gente - de Sarkozy a Hollande, passando por vários outros - que lhe cobra sempre mais impostos mas é impotente para resolver problemas essenciais da vida, está puxado para as direitas e dividido em três fatias cujo peso é semelhante: as esquerdas (o PS de Hollande e diversos pequenos partidos), a direita (os republicanos de Sarkozy cuja liderança também é disputada por Juppé e Fillon) e a extrema-direita (a Frente Nacional do clã Le Pen). Aliás, até o mapa territorial da França também está dividido em três equivalentes faixas verticais, tal como na bandeira: a parte atlântica ocidental, de Hendaia e Bordéus a Rennes e Brest é socialista, o meio vota na direita tradicional e a França do lado leste, de Lille e Calais, a norte, Marselha e Nice, no sul mediterrânico, virou-se para a Frente Nacional (FN).

 

Muita esquerda francesa vê a FN como um partido fascista. Jean Marie Le Pen, fundador, em 1972, da FN tinha no centro do seu programa a ideologia fascista e a nostalgia da França colonial. Chegou a 22% dos votos na eleição presidencial de 2002, quando a esquerda se sentiu obrigada a votar Chirac para barrar o risco de Le Pen na presidência da República.

 

A FN evoluiu como partido comandado por um clã familiar e já mete três gerações Le Pen: para além de Jean Marie, Marine que é a filha, e Marion, a neta de Jean Marie e sobrinha de Marine. Ambas cultivam o extremismo de direita com rosto feminino, mas corrigiram o rumo traçado pelo velho Le Pen: a ideologia com etiqueta de fascista evoluiu para a opção ultranacionalista com discurso ferozmente anti-sistema. Marine, em 2011, fez-se eleger para suceder ao pai na liderança da FN. Apontou para a conquista do poder com um projeto social e uma conceção identitária que tinha desaparecido das elites políticas francesas. Para tornar clara a distanciação das ideias mais odiosas do pai abriu-lhe guerra e expulsou-o da FN por causa de declarações anti-semitas.

 

A liderança de Marine Le Pen explora a incapacidade das elites políticas para evitar a desagregação social e económica que mina a sociedade francesa. Cultiva a angústia de uma nação que se julgava farol do mundo e que agora sente ter deixado de iluminar. Denuncia com impacto a exclusão que cresce nas periferias urbanas e as reformas sucessivamente falhadas. Coloca-se como a porta-voz dos desprotegidos pelo sistema e é assim que capta muito voto operário. Também muitos eleitores com menos de 35 anos, poucos estudos e nenhum emprego. Atrai para o seu discurso os que estão perdedores com a globalização. Usa a crise financeira para fustigar a eurocracia e denunciar os malefícios do euro. Aproveita a crise dos refugiados para reclamar o fecho de fronteiras.

 

Tal como praticava o pai, Marine Le Pen usa os medos como carburante eleitoral da FN. A barbárie jiadista da noite de 13 de novembro foi para o clã Le Pen um bingo: serviu-lhe para inflamar o discurso de rejeição da Europa multicultural e estigmatização do “outro”, no caso os muçulmanos. Explora o “nós” contra os “outros” e reclama um Estado forte, protetor, com autoridade. Apresenta-se como a dirigente política que não trai o povo.

 

É com este discurso que a FN saiu das eleições deste domingo como o partido mais votado em seis das 13 grandes regiões que formam o território francês e em posição de força para garantir, com duas Le Pen, no próximo domingo o governo de pelo menos duas das regiões: a tia Marine no Norte-Pas de Calais-Picardia, região com tradição operária na França que faz fronteira com a Bélgica, e a sobrinha Marion (faz 26 anos depois de amanhã) a governar a Provença-Alpes-Côte d’ Azur, a França de Cannes e Saint-Tropez, Nice e Marselha, Arles e Orange.

 

Até aqui, a ausência de responsabilidades governativas reforçou consideravelmente a eficácia do discurso populista da FN. E agora? Para já, provavelmente, a prova da gestão do poder. Depois, a presidência da República, com eleição em abril de 2017, é a ambição seguinte para Marine Le Pen. Na eleição de 2012, Hollande (10 milhões de votos na primeira volta, 18 milhões na segunda) bateu Sarkozy por um milhão e 200 mil votos. No aquecimento para a eleição presidencial de 2017, este retornado Sarkozy não está a conseguir galvanizar a direita e parece indiscutível que não vai buscar um só voto às esquerdas, portanto parece condenado a voltar a perder. O socialista Hollande cresceu nas últimas semanas como homem de Estado, mesmo assim está muito longe de 50% do eleitorado francês – mas no dia decisivo poderá receber votos centristas caso a finalíssima seja, como é previsível, com a líder da Frente Nacional.

 

Marine Le Pen tem uma base de 30% do eleitorado e mostra habilidade para conquistar votos em todas as áreas do descontentamento com o sistema, o que a coloca no tal cenário de possibilidade de eleição. É nesta triangulação que Alain Juppé, um centrista com simpatias no centro-esquerda, talvez seja o adversário mais temido por Marine Le Pen. Porque o moderado, afável e experiente Juppé terá a adesão da direita tradicional e captará o voto útil da esquerda para evitar o cenário de Marine Le Pen, presidente da República francesa. O voto da França vai decidir daqui a 16 meses. A aspirante que se declara inspirada pela heroína Joana d’ Arc não é favorita mas convém não estarmos desprevenidos para a hipótese.

 

Também a ter em conta:

 

Os EUA também têm em campanha eleitoral uma agressiva versão americana de Le Pen a explorar os medos: o republicano Donald Trump quer fechar a porta dos Estados Unidos a toda imigração muçulmana.

 

Há já 95 anos, desde 1920, que o New York Times não usava a sua poderosa primeira página para, com evidência gráfica, através de um editorial, tomar posição sobre uma questão crucial. Fê-lo no passado sábado, depois de uma nova matança (San Bernardino), com o texto que tem por título “A epidemia das armas”, em que dá máxima expressão “à frustração e angústia” pela incapacidade dos EUA para enfrentar a praga das armas que qualquer pessoa pode ter e que matam com eficiência brutal. A necessária limitação de acesso é um muro que a melhor América continua a não conseguir derrubar.

 

A vitória eleitoral da oposição na Venezuela promete devolver os direitos civis aos que têm sido injustamente perseguidos por motivo político. O “chavismo” tem os dias contados?

 

People Have the Power cantado em uníssono, ontem à noite em Bercy. Os Eagles of Death Metal voltaram a um palco de Paris, três semanas depois da matança no Bataclan, agora ao lado dos U2. Com uma mensagem de futuro proclamada por Bono: “L’ amour, plus fort que la peur”.

 

Ele está sempre na primeira página do As e da Marca que todos os dias podemos encontrar no SAPO JORNAIS.

publicado às 09:07

Autora de massacre na Califórnia jurou lealdade ao Estado Islâmico

Investigadores do FBI acreditam que a mulher que participou do tiroteio na Califórnia, Tashfeen Malik, publicou no Facebook uma declaração em que jurava fidelidade ao auto-proclamado Estado Islâmico (EI).

As autoridades afirmaram à CNN que Malik fez a publicação numa conta com um nome diferente do seu, não revelando, contudo, se a publicação foi feita via computador ou telemóvel.

 

14 pessoas morreram e 21 ficaram feridas no ataque que ainda provoca ondas de choque nos Estados Unidos e no mundo. Nesta quarta-feira, Tashfeen Malik (que entrou nos EUA no ano passado com passaporte do Paquistão) e o seu marido, Syed Farook (nascido nos EUA) atacaram uma organização sem fins lucrativos do condado de San Bernardino, Califórnia. O casal estava armado com duas espingardas de assalto de calibre .223 (semelhantes a uma AK-47) e duas pistolas semi-automáticas. Malik e Farook foram mortos durante uma troca de tiros com a polícia.

 

As autoridades tentam agora compreender os motivos que levaram ao ataque e a hipótese de terrorismo ainda não foi confirmada, mas começa a ganhar peso com este novo dado na investigação. No entanto, os investigadores sublinham que o facto de Malik ter feito um anúncio no Facebook não comprova que o ataque tenha sido ordenado pelo EI. Ainda não há nenhuma mensagem de reivindicação por parte da organização, algo que já aconteceu em atentados recentes.

 

Publicar mensagens de fidelidade ao EI nas redes sociais é algo feito por outros terroristas antes de cometeram ataques. Aconteceu com o francês Amedy Coulibaly, um dos atiradores que atacou o jornal Charlie Hebdo em janeiro. Coulibaly deixou um vídeo em que presta lealdade "ao califa dos muçulmanos, Abu Bakr al-Baghdadi". Já em maio os norte-americanos Elton Simpson e Nadir Soofi também juraram lealdade ao EI, antes de executarem um ataque a um concurso de caricaturas de Maomé, no Texas, que foi travado pela polícia.

publicado às 16:50

Vamos fazer outro filho? O Estado consente?

Por: Francisco Sena Santos

 

É de crer que muitos casais chineses tenham passado a noite de quinta-feira a fazer amor sem restrições, a celebrar o fim da imposição de filho único, política que vigorava na China há 35 anos. Na manhã de sexta-feira apareceu quem saudasse a evolução decidida pelos donos do poder em Pequim. Convém, no entanto, que ninguém se deixe enganar pela natureza da cedência do regime: a infame política do filho único chegou ao fim, mas o Estado chinês continua a invadir a intimidade dos casais e a impedir que cada família tenha os filhos que queira. Agora, passam a ser permitidos até dois filhos por cada casal. É uma violação por parte do Estado da liberdade individual e doméstica.

 

A política do filho único (“o pequeno imperador”) foi instalada por Deng Xiao Ping, em 1979, o tempo da grande descolagem da economia chinesa. Foi justificada com a intenção de “garantir que os frutos do crescimento económico” não fossem “devorados pelo crescimento populacional”. É um facto que a bomba demográfica estava instalada: em 27 anos, de 1949 a 1976, a população da República Popular da China passou de 540 milhões para 940 milhões.

 

A China saía então, no final da década de 70, dos anos de fome e grande pobreza coletiva dos tempos revolucionários de Mao, o timoneiro que incentivou políticas de fértil natalidade porque via nas “imensas massas populares” a principal força do país frente ao capitalismo ocidental. O sucessor, Deng, mudou tudo e deu prioridade ao “glorioso crescimento da economia”. A economia chinesa, de facto, disparou, galopante, mas à custa de direitos fundamentais das pessoas.

 

Um dos absurdos na reforma Deng é a política de planeamento familiar, com imposição do filho único, forçada por sanções financeiras, laborais e sociais para quem ousasse exceder-se a procriar.  

 

Esta opção política tem imensas e dramáticas consequências humanas. Levou, por exemplo, à realidade atual e das últimas três décadas de um número incontável de crianças “invisíveis”. São crianças que por serem supranumerárias nunca puderam ser registadas, não podem ter documentos, nunca puderam ir à escola. Vivem uma vida kafkiana na margem da sociedade. São crianças nascidas de casais que já tinham declarado um filho. Os filhos “excedentes”, ocultados pelos pais, oficialmente, não existem. Não são cidadãos da República Popular da China, não têm acesso a um passaporte, portanto também lhes fica difícil a escapadela clandestina para o estrangeiro. Mas a política do filho único gerou outros dramas.  

 

O regime favoreceu, nas gerações dos últimos 35 anos, o filho varão. Por ser suposto, argumentaram, que os homens, na competitiva sociedade chinesa, poderiam contribuir mais para o crescimento económico. Isto levou a abortos seletivos: se a criança que está para nascer é uma menina, elimina-se. Tenta-se até aparecer um rapaz. Assim se explica que nos registos de nascimentos na China desde 1980 haja um desequilíbrio de género, com mais de 60% de rapazes e menos de 40% de raparigas. É de pensar que um número crescente de homens vai ficar sem esposa por insuficiência de parceiras. Tudo isto parece uma alucinada ficção de experimentação social, mas é a realidade da vida no país mais populoso do mundo e segunda economia global.

 

Estima-se que a política do filho único evitou uns 400 milhões de nascimentos. Mas agora escasseiam talentos novos e dispara dramaticamente o número de grisalhos.

 

Os líderes chineses de agora já concluíram que este sistema não funciona nem mesmo para o interesse económico: com a fertilidade estancada, a China envelhece demasiado depressa e começa a confrontar-se com o risco de falta de trabalhadores ativos em número que chegue para sustentar o sistema de reformas com cada vez mais pensionistas. Daí passarem de um para dois a limitação de filhos por casal. Nada que ponha os fabricantes de preservativos a coçar a cabeça.

 

O essencial é que continuam a intolerável autoritária invasão da intimidade e os controlos punitivos para quem não acata o planeamento familiar decidido pelo Estado. É uma cruel e inaceitável interferência do Estado chinês na vida das pessoas. É impensável que seja o Estado ou o partido (neste caso é o PC da China que se assume como Estado) a fixar o tamanho de cada família.

 

Há uma lição que interessa à Europa neste recuo chinês sobre o filho único: precisamos de mais gente, ou seja, faz-nos falta a chegada de migrantes, para construirmos a prosperidade futura. E Portugal, tal como entre outros a Alemanha, é um país em alerta vermelho pela baixa natalidade.

 

Também a ter em conta

 

A Espanha tende a tornar-se um imenso Portugal? Tem a ver com cenários pós-eleitorais. Os espanhóis vão a votos em 20 de dezembro e todas as sondagens, como esta ou esta, anunciam um terramoto no quadro parlamentar, que passa de duas para quatro forças políticas principais. O PP de Rajoy está na frente mas pode confrontar-se com a maioria para governar de uma aliança de oposições. No caso espanhol, Ciudadanos, ao centro (ora mais à esquerda, ora mais à direita), aparece como partido charneira para fazer maioria.

 

Passam amanhã 20 anos sobre o assassinato do Nobel fazedor de Paz Yitzhak Rabin, quando discursava num comício em Telaviv. Don Ephron conta-nos no livro “Killing a King: The Assassination of Yitzhak Rabin and the Remaking of Israel” aquela noite e o que se seguiu. Há um excerto aqui. Neste fim de semana, 40 mil pessoas estiveram naquela praça para lembrar a mensagem de Rabin. Fica o alerta de Daliah, a filha: “O sangue verte outra vez. O ódio cresce. O meu país muda de cara. Não aprendemos a lição.”

 

Volta a vontade política para cuidar o clima? Vem aí, em dezembro, em Paris, a COP 21, que recoloca as alterações no clima no centro das discussões. Também está aqui.

 

José Fonseca e Costa vai hoje a enterrar. O cinema dele deu-nos gosto de vida.

 

Uma primeira página escolhida no SAPO JORNAIS.

publicado às 06:57

A Turquia resvala

Por: Francisco Sena Santos

 

A Turquia afasta-se do horizonte europeu e resvala cada vez mais para o Médio Oriente dilacerado pela intolerância, pelo autoritarismo e pelo sectarismo. No começo deste século XXI, o movimento era o oposto: a Turquia, com reformas democráticas e fulgurante crescimento da economia, aproximava-se da Europa, a cuja União e promessa de bem-estar aspirava aderir.

 

Mas, então, vários países europeus impuseram os seus temores e recusaram-se a abrir-lhe a porta: alegaram que a evolução democrática da Turquia estava insuficiente e, assim, este enorme país, geoestrategicamente colocado como ponte entre o Ocidente e o Oriente, começou a ir-se embora. Virou-se para o lado de lá.

 

Cresce, no entanto nesta Turquia onde metade da população tem menos de 30 anos, uma juventude plural que quer a modernidade e o progresso, que rejeita o autoritarismo e que passa por cima das velhas polarizações entre laicos e islâmicos ou entre turcos e curdos. É uma juventude que sonha com a melhor vida em comum, integrando todas as diferenças. São jovens assim que há dois anos protagonizaram as grandes manifestações da Praça Taksim, em Istambul, contra a destruição do parque Gezi.

 

Também são jovens dessa Turquia democrática a maior parte dos 128 mortos e muitos feridos nos tremendos atentados de sábado em Ancara. Juntavam-se para uma marcha pela paz e em protesto contra a autoritária deriva turca que combina nacionalismo e islamismo. É uma deriva que tem um protagonista indiscutível, Recep Tayyip Erdogan.

 

Erdogan lidera os últimos 12 anos da vida política na Turquia: primeiro, onze anos como primeiro-ministro (2003-14), agora, como presidente da República. Chamam-lhe “o sultão”. Fez-se na liderança do AKP, partido islamo-conservador. É um homem com múltiplos rostos: em 2003, impulsionou o milagre económico da Turquia e o namoro aos valores da União Europeia; colocou a Turquia como aliado firme do Ocidente no crucial flanco sueste da NATO; chegou a vestir a pele de pacificador, com abertura negocial à hostilizada minoria curda. Depois, Erdogan tornou-se outro: o homem da abertura apareceu fechado numa versão “islamo-nacionalista”, autoritário. Múltiplos fatores concorreram para essa metamorfose. O ressentimento por a Europa não ter acolhido a Turquia na União é, certamente, um deles. A postura autoritária do líder turco ficou evidenciada na repressão dos manifestantes da praça Taksim, em junho de 2013.

 

Surgiram acusações ao “sultão” de estar a conduzir o resvalar da Turquia para uma ditadura islâmica com constantes violações das mais elementares regras democráticas. A azia de Erdogan cresceu com as eleições gerais de 7 de junho passado: o seu AKP (partido da Justiça e do Desenvolvimento) não só perdeu a maioria absoluta que esperava ter, como deixou de poder avançar com a revisão constitucional que desenharia para a Turquia uma república presidencial com o perfil do “sultão”. E o principal contributo para essa frustração das ambições do partido de Erdogan foi a expressiva votação (13%, 80 dos 550 lugares no parlamento) alcançada por um partido com origem curda, o HDP (Partido Democrático do Povo), formação de esquerda, laica e independentista que, com um discurso próximo do que entusiasmou os manifestantes da praça Taksim, atraiu muito apoio jovem.

 

Com um partido curdo a estragar-lhe os planos, Erdogan voltou-se contra os curdos. Pôs fim a qualquer hipótese de negociações e retomou o ciclo infernal de ataques e represálias sobre os curdos. Ao mesmo tempo que, como parceiro da NATO, concedeu aos americanos as bases aéreas de onde partem bombardeiros e drones que combatem os terroristas do “califado islâmico”, Erdogan manda os caças turcos atacar os guerrilheiros curdos que combatem o mesmo terrorismo do “califado”. Erdogan tem sido fértil a gerir ambiguidade. Muitos democratas turcos acusam o Ocidente de ter demorado demais a perceber a verdadeira natureza de Erdogan. O Nobel da literatura Orham Pamuk acusa Erdogan pelo estado das coisas na Turquia, com as pessoas reféns do medo. Alerta mesmo para o risco de uma guerra civil. Há o fantasma do levantamento militar como sucedeu em três golpes na segunda metade do século XX.

 

A menos de três semanas de eleições, os adversários de Erdogan acusam o presidente de tentar usar os atentados de sábado para explorar o sentimento patriótico que possa traduzir-se em votos a seu favor em 1 de novembro. A tensão reflete-se em perseguições aos jornalistas: Bulent Kenes, o chefe de redação da edição em inglês do diário Zaman foi detido por ter escrito os 140 caracteres de um tweet que Erdogan considerou impróprio. Muitos outros jornalistas estão detidos porque o regime toma a crítica como crime.

 

A Turquia, ferida, mergulhada nas suas contradições, está a sofrer. As guerras nos vizinhos Iraque e Síria contribuem, necessariamente, para as tensões e fraturas atuais no mosaico turco. A Europa talvez tenha abandonado demais a Turquia.

 

A ter em conta

 

As notícias que deixam de ser notícia: esta análise de Juan Goytisolo remete-nos para uma reflexão essencial. Designadamente quando são gastas horas e horas com ridículas quezílias futeboleiras que só servem para envenenar a convivência.

 

A internet tornou obsoleto o negócio da Playboy. A revista deixa de publicar nus.

 

Ainda os U2 em Barcelona: Mysterious Ways com Bardem, também Penélope e até Letizia.

 

Uma primeira página escolhida hoje é esta do Le Monde: junta dois sobressaltos, a Turquia a resvalar e a angustiante escalada de violência Israel/Palestina - um ciclo infernal com episódios todos os dias.

publicado às 08:44

Segurança Nacional

Por: Rute Sousa Vasco

 

Os russos bombardeiam a Síria, os americanos dizem que, por engano, os mísseis de Putin atingiram o Irão, a ONU quer um governo de união na Líbia e eu já tenho coisas combinadas.

 

Há poucas semanas, em pleno Verão, almocei em Lisboa com um amigo português que há muitos anos vive em França. No decorrer da conversa, falámos de refugiados. Por causa de refugiados falámos da guerra na Síria. Por causa da guerra na Síria, falámos da Turquia. Acabámos com ele a perguntar-me se eu teria mais duas horas para que me pudesse começar a explicar o que se está a passar.

 

Facto: os acontecimentos no Médio Oriente são complexos, nada binários e não se explicam entre dois cafés.

 

Facto: a maior parte de nós, ocidentais, europeus, portugueses, não tem disponibilidade para perceber o que se passa no seu próprio país, quanto mais lá longe.

 

Facto: as duas premissas anteriores podem conduzir-nos a tempos muito negros e isto não é uma afirmação produzida por causa do novo episódio de Segurança Nacional que ontem estreou em Portugal.

 

Todos os dias caem bombas, todos os dias morrem pessoas, todos os dias pessoas cujos nomes não memorizamos trocam acusações. Impressionam-nos famílias com velhos e bebés a jogarem a sua sorte em barcos sofríveis ou em percursos acidentados. Impressiona-nos o bebé Aylan. Impressiona-nos Noujain Mustaffa, a adolescente do sorriso doce. Enfurece-nos o proto-ditador húngaro, mesmo que não saibamos o nome. Enfurece-nos a lentidão da Europa. Enfurece-nos o vizinho do lado que vê perigosos radicais onde vemos simplesmente pessoas.

 

Mas, ainda assim, continuamos sem tempo para perceber o que se passa e provavelmente devíamos, há muito tempo, ter começado por aí.

 

Ontem à noite, em Londres, Meryl Streep falou no evento “Mulheres no Mundo” que foi organizado este ano pela primeira vez. O The Guardian faz-nos chegar as vozes de várias mulheres presentes neste encontro. Streep, a actriz que dará voz a Emmeline Pankhurst no filme “Suffragette”, lembrou que, apesar do direito do voto estar consagrado no Ocidente, ainda há muito para fazer. Ursula von der Leyen, a primeira mulher a ocupar o cargo de ministra da Defesa na Alemanha, também falou. Foi ela, mãe de sete filhos, que introduziu a licença parental partilhada na Alemanha (quando era ministra do Trabalho) e foi ela que recordou a grande tempestade que isso causou entre alguns homens de meia idade instalados na política e a enorme ajuda que teve de outros homens instalados na política.

 

Depois falou a rainha Rania, da Jordânia e não podia não falar de refugiados. Na Alemanha entram por dia, actualmente, 10 mil refugiados. A Jordânia, país ‘encravado’ entre a Síria, o Iraque e Israel, tem no seu território 1,4 milhões de refugiados sírios. São 20% da população e têm uma fatia de 25% do orçamento do país alocada.

 

“É como se o mundo árabe tivesse sofrido uma série de tremores de terra e todos os dias sentíssemos as ondas de choque”, disse Rania. Ela, nascida numa família palestiniana, pediu, uma vez mais, que o Ocidente não se deixe contagiar pela propaganda extremista. “É muito perigoso pensar no ISIS como islâmico porque de islâmico não tem nada …”.

 

A noite fechou com o testemunho de Vian Dakheel Saeed, uma representante Yazidi (comunidade étnico-religiosa curda) no parlamento do Iraque. Lembrou as 5800 mulheres e crianças raptadas pelo ISIS. Lembrou que muitas são vendidas como escravas sexuais. Lembrou que mil crianças entre os 3 e os 10 anos são mandadas pelo ISIS para campos de treino para se tornarem a próxima geração de terroristas. A irmã também falou. Delan Dakeel Saeed, médica no hospital universitário Rezgary, falou das violações de mulheres e de meninas e do horror que presenciam.

 

Ontem estreou em Portugal a nova temporada de Segurança Nacional. Numa das cenas iniciais, um dos protagonistas, Quinn, agente da CIA, é chamado a contar aquilo a que assistiu em dois anos na Síria. O discurso é contido, factual, desprovido de qualquer sinal de emoção.

 

Quinn é pressionado por outro elemento da CIA, sediado em Langley, na Virgínia, para que diga se a estratégia seguida pelos americanos é correcta ou não. O discurso azeda e termina com duas possibilidades de estratégia: ou se enviam não apenas tropas, mas também batalhões de médicos e professores para as zonas de guerra ou se transforma toda aquela zona num parque de estacionamento.

 

Para os cínicos: antes de responderem, oiçam os relatos de pessoas como as irmãs Dakheel Saeed e depois voltem a pensar no assunto.

 

Tenham um bom fim-de-semana!

 

Leituras sugeridas

 

Já que estamos em maré de nos interessarmos pelo mundo dos outros, fica a sugestão para lermos Svetlana Aleksievitch, a jornalista e escritora russa que ganhou o Nobel da Literatura. Já agora, Aleksievitch é autora de uma série de cinco volumes intitulada "Vozes da Utopia” que foi iniciada com "A Guerra Não tem o Rosto de uma Mulher" baseado em entrevistas a centenas de mulheres que participaram na II Guerra Mundial.

 

Porque a música nos ajuda a levar a vida para a frente, levamos John Williams para o fim de semana. Autor de bandas sonoras inesquecíveis como as de Star Wars, Tubarão, Indiana Jones, Harry Potter e Jurassic Park , foi o escolhido pela American Film Institute (AFI) para receber o prémio carreira deste ano. O melhor tributo é escutar a sua música.

 

A fechar, uma notícia curiosa e quem sabe animadora. Talvez a imortalidade seja uma … anémona. Os cientistas descobriram que este animal, que já se julgou ser uma planta e que partilha ancestrais comuns com os humanos, pode encerrar o segredo da imortalidade.

publicado às 09:54

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