Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

Como a Apple vai dar cabo dos cabos

Por: Pedro Fonseca

 

As duas versões do novo iPhone (o 7 e o 7 Plus) começam esta sexta-feira, 16 de Setembro, a serem entregues em Portugal aos clientes que efectuaram a sua pré-compra. A venda nas lojas está esgotada em todos os países, afirmou a Apple. Com o iPhone 7, a empresa eliminou a entrada para os auscultadores - a tecnologia mais antiga que ainda resistia nos smartphones.

 

Os dispositivos custam entre 770 euros (iPhone 7, com 32GB de memória interna) e os 1.130 euros, para o topo de gama iPhone 7 Plus, com  256GB. No entanto, quem os comprar dificilmente vai poder ouvir qualquer som com auscultadores. Só no final de Outubro os novos auscultadores sem fios AirPod devem chegar a Portugal e a outros países, acrescentando ao valor do dispositivo mais uns anunciados 180 euros. Claro que será possível ouvir o que se passa no ecrã, mas com os altifalantes incorporados no dispositivo.

 

Mais uma vez, a Apple não inova com o lançamento destes novos auscultadores sem fios e, mais uma vez também, isto pode marcar uma tendência no mercado dos smartphones - tal como já tinha feito quando eliminou o leitor de disquetes (com o iMac G3, em 1998) ou os leitores de CD/DVD no MacBook Air, em 2008, os teclados físicos nos telemóveis ou, este ano com o MacBook, quando adoptou a norma USB-C. A remoção da entrada no smartphone e o fim dos auscultadores com cabo vão ajudar a extinguir uma tecnologia com quase 140 anos - com críticas e apoiantes de ambos os lados.

 

Na semana passada, durante a apresentação dos iPhone 7 em São Francisco (EUA), o vice-presidente sénior da Apple, Phil Schiller, defendeu que a empresa não podia continuar a manter uma "velha" porta para apenas uma utilização, com a quantidade de tecnologia que precisava de incluir dentro do espaço limitado do iPhone.

 

O objectivo não era era inovador: a Motorola, com o Moto Droid Z, lançado em Junho passado nos EUA, e alguns fabricantes chineses (Oppo ou LeEcco), removeram a entrada do "jack" de 3,5mm dos auscultadores antes do anúncio da Apple. Mas esta já andava a preparar mudanças nos conectores de áudio e, no ano passado, até obteve uma patente, pedida em 2011, para um "jack" em forma de D deitado, com as mesmas capacidades de um de 3,5mm. O objectivo era o mesmo: ganhar mais espaço dentro do smartphone.

 

A necessidade de ter um dispositivo mais compacto e com uma menor espessura foi agora derrubado. Em paralelo, ao eliminar esta entrada, os fabricantes podem incluir uma maior bateria (mais 14% no 7 e 5% no 7 Plus), proporcionando uma maior vida útil.

 

Tecnologia com 140 anos

 

O "jack" é provavelmente a tecnologia mais antiga que ainda se pode encontrar num telemóvel - com a vantagem de não ser necessário pagar direitos pelo seu uso. Começou a ser usado no século XIX, alegadamente em 1878 na primeira estação telefónica comercial. O objectivo era permitir às operadoras humanas destas centrais telefónicas ligarem as chamadas do ponto de origem às de destino, inserindo os conectores nos endereços correctos.

 

Tanto as centrais civis como militares acompanharam a evolução tecnológica usando este interface que então media 6,35mm. Depois, foi dinamizado nos rádios portáteis nos anos 60 ou no Walkman da Sony nos anos 70 do século passado, já com a medida normalizada de 3,5mm e, mais tarde, com o "mini-jack" de 2,5mm.

 

Mas as centrais telefónicas, conhecidas por PBX (de Private Branch Exchange), ainda eram usadas em Portugal nos anos 80, quando se iniciou o seu processo de digitalização. E em 1987, os deputados continuavam a debater esse processo, quando as duas primeiras centrais digitais já deviam ter sido lançadas em Viseu e em Braga no ano anterior.

 

O que é o AirPod? E a Beats?

 

Cada AirPod tem um microfone imbutido, para as chamadas telefónicas e interacção com o assistente pessoal Siri. É ligado através de uma ligação Bluetooth - o que significa que também pode funcionar com outros smartphones ou dispositivos de som. Devido ao processador interno, ele consegue detectar e interagir com o iPhone mas também com o Apple Watch ou computadores Mac, desde que tenham software actualizado.

 

Os AirPods são activados apenas quando colocados nos ouvidos. Isto é garantido pelos sensores internos de infra-vermelhos, algo que permite também serem activados por comandos vocais, como os de gestão dos auscultadores falando para o Siri (embora se possa igualmente interagir no próprio iPhone). A tecnologia foi antecipada em 2014, quando a Apple apresentou uma outra patente relacionada com estas potencialidades.

 

A autonomia dos auscultadores é de cinco horas, segundo a Apple, mas apenas de duas em modo de conversação, acrescentada de mais 25 horas quando carregados na caixa que os acompanha. Em resumo, o utilizador do iPhone 7 terá de andar normalmente com o smartphone, os AirPods e a caixa de recarga. E terá de ter atenção ao modelo de negócio da Apple: não se sabe ainda o que ocorrerá se o utilizador perder apenas um dos AirPod. A empresa vai permitir a compra de apenas esse auscultador perdido ou roubado ... mas a que preço?

 

Outra questão apontada aos AirPod relaciona-se com a segurança infantil. Segundo um jornal australiano, o pequeno tamanho dos auscultadores passa a integrar a lista de produtos perigosos que, se engolidos, podem engasgar uma criança.

 

Para os adultos, o cenário é diferente. Segundo Jack Gold, analista da J. Gold Associates, o desaparecimento do conector no iPhone e a sua substituição pelos AirPods terá um impacto mínimo nas vendas, já que os clientes que se preocupam com este tipo de assunto não são em número suficiente para afectar os resultados da Apple. Bem pelo contrário, já que a ruptura nem sequer é dramática.

 

Em Julho passado, a analista de mercado NPD Group revelou como os modelos de auscultadores Bluetooth já contavam 54% nas vendas destes dispositivos, relativamente ao primeiro semestre deste ano. A líder nas vendas era a Beats, uma empresa que anunciou no mesmo dia do lançamento dos novos iPhone uma nova gama de auriculares e auscultadores sem fios, compatíveis com os novos smartphones. Sabe o que é a Beats? É uma empresa do produtor musical Jimmy Lovine e do artista Dr. Dre, adquirida em Agosto de 2014 por três mil milhões de dólares pela Apple (na que é considerada a sua maior aquisição).

 

Em resumo, a Apple pode ganhar em várias frentes (financeiramente falando) com o lançamento dos AirPods.

 

Outras sugestões de leitura:

 

O Conselho de Segurança Nuclear (CSN) espanhol revelou que a central nuclear Almaraz, junto à fronteira portuguesa, usa peças produzidas numa fábrica com irregularidades nos dossiês de controlo de qualidade. O CSN garantiu que não há motivo, ainda assim, para as retirar de funcionamento, mas a organização ambientalista Quercus não concorda alertando para a fragilidade da estrutura e perigo inerente.

 

Há uma quinta força da natureza? Esta é a pergunta que o El País lança a partir de uma investigação que está a ser realizada no Instituto para a Investigação Nuclear da Academia Húngara de Ciências. E, se estes cientistas estiverem certos, sim, há uma quinta força.

 

publicado às 13:58

E se a Apple deixar os governos saber tudo sobre o seu iPhone?

 Por: José Couto Nogueira

 

Segurança nacional ou privacidade do cidadão? É a pergunta que se impõe na disputa que opõe a Apple ao FBI. O debate que está a decorrer nos Estados Unidos pode afectar os utilizadores de telemóveis (e, por extensão, de qualquer equipamento ligado à rede) em todo o mundo. Sim, isto tem a ver consigo e vai querer saber porquê.

 

 

A questão do acesso do Estado aos dados pessoais do cidadão – através dos organismos policiais, fiscalizadores e de contra-espionagem - tem sido discutida desde que a Internet se popularizou. Contudo, quando Edward Snowden revelou publicamente a magnitude da intromissão do governo norte-americano nas comunicações, a discussão deixou de ser académica, ou técnica, e passou para a esfera judicial.

 

Que o governo chinês espie os seus cidadãos com um exército de inspectores, é um facto histórico; que o governo norte-coreano não o faça simplesmente porque ninguém na Coreia do Norte tem Internet, é sabido; que certas ditaduras tentem atabalhoadamente fazê-lo, não surpreende; agora que nos países ocidentais, onde o cidadão é protegido por uma série de garantias, possa acontecer, é inaceitável.

 

Acontece à socapa? Provavelmente. Mas, mesmo assim, é muito diferente do que ser legal e aceite. E, se ocorre nos Estados Unidos, onde é escrito praticamente todo o software usado nos computadores, pode acontecer em qualquer país. No caso dos telemóveis, que é onde se concentra esta guerra judicial, basta lembrar que os dois sistemas operacionais usados planetariamente são o IOS da Apple e o Android da Google, empresas sediadas na Califórnia.

 

Tudo mudou em 2013, com as revelações de Snowden. Anteriormente, as empresas de comunicações, ou de equipamento de comunicações, cooperavam com as autoridades quando os tribunais assim o mandavam. Mas Snowden provou que as agências de segurança nacional espiolhavam não só os utentes, mas também as próprias empresas. Daí que a Apple tenha criado um sistema operacional que é impossível de descodificar, mesmo pela própria Apple. O software para fazê-lo simplesmente não existe. E há a tese de que o software tem a protecção de direitos de autor como qualquer outro texto. Escrevê-lo por ordem judicial, na opinião de alguns especialistas, seria o mesmo que condicionar um autor na sua liberdade de expressão.

 

Qual é a password?

 

Tecnicamente, não se trata de decifrar a encriptação, mas sim de descobrir a palavra-passe. O sistema IOS está feito de maneira que ao fim de dez tentativas com palavras-passe erradas, todos os dados da memória do smartphone são apagados. O caso específico refere-se ao iPhone utilizado por um dos terroristas que mataram 14 pessoas em San Bernardino, na Califórnia. O FBI quer que a Apple escreva um programa capaz de ultrapassar a segurança do aparelho. Apenas isso.

 

A Apple tem vários argumentos para não o fazer. Primeiro, não quer piratear (hack) a sua própria tecnologia. Segundo, se o fizer está a colocar em risco a privacidade de todos os utilizadores; uma vez criado, não se sabe onde o programa irá parar. O FBI e outros departamentos de segurança do governo ficam em roda livre para fazê-lo quando quiserem. Mais ainda, os governos de outros países podem exigir o mesmo, e excluir a empresa dos seus países se não o fizer – a China vem logo à cabeça.

 

O FBI diz que a Apple está a exagerar, uma vez que lhe pede que a própria empresa desbloqueie apenas um telemóvel e não todos os que fabricou. E que se trata de um caso de segurança nacional, para descobrir os cúmplices dos dois terroristas, antes que cometam mais atentados.

 

As opiniões dividem-se. Bill Gates começou por apoiar Tim Cook, o presidente da Apple, mas depois voltou atrás e acha que o FBI tem razão. Não que a opinião dele valha mais do que institucionalmente, uma vez que a Microsoft tem muito pouca penetração no mercado de smartphones. Mas Sundar Pichai, o director da Google, dona do Android, que compete com o IOS pelo domínio do mundo (sobretudo através da Samsung), apoia a Apple, e esse apoio tem muito peso. Mark Zuckerberg também acha que Tim Cook tem razão. E o Facebook na última contagem (ontem?), tinha mil e seiscentos milhões de utilizadores.

 

Zuckerberg aliás, tem tido muitos problemas com vários governos por questões de privacidade. O último caso foi, recentemente, com a Índia, onde as autoridades queriam proibir o Facebook, alegando que partilhava indevidamente informações privadas – mas na realidade o que preocupa o governo indiano, como todos os governos, é a possibilidade das redes sociais difundirem informações quase instantaneamente, sem controle.

 

Os cidadãos, a acreditar numa sondagem do Pew Research Center, estão a favor do Governo. 51% acham que a Apple devia ceder e só 38% acham que não devia. Mas os cidadãos, apesar dos mais interessados, serão os últimos a decidir, nesta disputa de gigantes, que certamente irá enriquecer grandes escritórios de advocacia.

 

Amigos, precisam-se!

 

A 16 de Fevereiro, um juiz federal decretou que a Apple tinha de fazer o que o FBI pedia até sábado, 26. Mas sábado passou e a empresa não o fez. Aliás, fez: pediu a dispensa do juiz, pois considera que a decisão viola os direitos da Primeira e Quinta emendas da Constituição. Se viola ou não, outro tribunal o decidirá. Entretanto, o decreto do juiz baseou-se numa lei de 1789, há muito esquecida, e que se aplicava a correio em papel.

 

Nesta terça, dia 1 de Março, a Comissão para Assuntos Judiciários da Câmara de Representantes debruça-se sobre o assunto. O director do FBI e o principal advogado da Apple são testemunhas. O assunto interessa a todas as empresas do biosistema das comunicações, que seguem atentamente o processo. Pierre Louette, ex-director da Orange francesa, diz que há muito tempo que estes problemas se levantam, mas que agora terá finalmente de se decidir alguma coisa, e “as empresas de comunicações vão precisar de ter muitos amigos”.

 

Amigos são sempre úteis, mas o que a Apple agora precisa é de advogados. E dos bons. Quanto aos utilizadores de todo o mundo, que já são espiolhados a torto e a direito, no fundo a preocupação é mais familiar do que civil. Quer dizer, que a Autoridade Tributária investigue pela calada, não há nada a fazer; agora, se lá em casa tiverem acesso aos dados do telemóvel, isso é que é o diabo... 

publicado às 10:12

Todas as fotografias do mundo na ponta do selfie stick

Por: Paulo Rascão

ellen selfie

 

Na época vitoriana ninguém pensava sair à rua sem chapéu. Hoje é quase impossível cruzarmo-nos com alguém sem telemóvel, aquele objecto que serve para as pessoas falarem a quilómetros de distância, sem ligações físicas, nem fios. É importante relembrar a função do aparelho porque, nos longínquos anos 90, a nova forma de comunicar foi recebida com previsões pouco animadoras e uma das razões para tal era que as pessoas não teriam tanto assunto para falar que justificasse andarem sempre com um telefone atrás. A história veio provar  que este pressuposto estava errado, ainda que certo. 

 

Hoje fazer chamadas é apenas uma das coisas que se pode fazer com um telemóvel e não arrisco muito se disser que nem é a mais importante. As mensagens escritas, primeiro, e as fotografias, depois, ganharam terreno a olhos vistos face à comunicação por voz. Só dentro do serviço whatsapp, o número de mensagens trocadas num só dia equivale, em volume, a dezenas de exemplares de toda a obra que Platão escreveu durante a longa vida que teve. O filósofo grego, pilar da cultura e pensamento occidental, não poderia conceber tamanha "produção intelectual"  quando, no seu jardim, fazia Aristóteles e outros pensarem no sentido da vida. O que diria então Nicéphore Niépce, o primeiro dos fotógrafos, que na vertigem do tempo conseguiu apressadamente ser o primeiro a registar e, sobretudo a preservar com sucesso, a primeira fotografia (foto do grego luz e grafia escrita ou registo) ou melhor dizendo a primeira heliografia (helio do grego sol). 

 

Só tinha passado pouco mais de um quarto do novo século XIX quando Niépce, que vivia em Chalon-sur-Saône, uma cidade muito simpática a cerca de 300 kms de Paris, escolheu como cenário da primeira fotografia histórica a vista da janela mais alta da sua casa. O  breve "clique"  demorou apenas oito horas, e desde logo resolveu um problema que ainda hoje atormenta fotógrafos de arquitetura ou paisagem: na primeira fotografia de todas, as duas fachadas opostas dos prédios estão igualmente iluminadas, o que só veio dar razão ao velho Galileu, e alegria aos dois vizinhos do fotógrafo primordial. O movimento da terra não tremeu a fotografia, mas fez o sol iluminar os dois lados da imagem. Ficámos também a saber com isto que os dados de geo-referenciação que hoje os telemóveis colocam como tag nas fotografias já lá estavam na primeiríssima com outra exatidão. Hoje sabemos sem sombra de dúvidas e justamente pelas sombras da imagem que a janela estaria a virada para norte.

 

Hoje em oito horas fazem-se milhões de novas fotografias. Com os sensores digitais modernos e uma técnica parecida à utilizada pelo pai da fotografia, estão na moda os timelapses, como podemos ver no genérico da série House of Cards. A técnica usada tem mais parecenças que diferenças, trata-se de uma câmara num tripé várias horas a apontar para o mesmo sítio, com a diferença que se vão fazendo vários disparos de forma intervalada e, já agora, também se vê a luz a mudar.

 

Niépce não era fotógrafo, não só por a fotografia não ter sido inventada ainda, mas porque o seu interesse recaía sobre a litografia, uma técnica que, na altura, já era quase centenária (foi inventada em 1796 por um alemão, Alois Senefelder, um actor e escritor de teatro que queria encontrar uma forma fazer cópias dos seus textos). 

 

Senefelder soube usar  esta técnica muito bem. A litografia ou litogravura (lito do grego pedra) consiste em "desenhar" ou gravar numa matriz de pedra calcária, com um lápis gorduroso. As partes da pedra que têm gordura "agarram" a tinta; nas outras, a tinta escorre, e depois basta calcar um papel, por exemplo, em cima da pedra e o desenho será transferido. Uma aplicação prática da velha máxima de que água e azeite não se misturam. Anos mais tarde isto seria muito inspirador para os senhores da Polaroid, pois a técnica das fotografias instantâneas, que hoje temos dificuldade em continuar a justificar face ao digital, é justamente obtidas por transferência.

 

A história da fotografia é consistente desde o início. Niépce não era dotado de grande mão para o desenho, pelo que precisava de encontrar uma forma de passar para a pedra as imagens, sem depender da habilidade com o lápis . Começou assim a explorar materiais foto-sensíveis, que já se conheciam há muito. Desde a antiguidade que se limpam as pratas de tempos a tempos, porque ficam escuras. Mas só em 1727, um professor de anatomia, Johann Heinrich, provou que os sais de prata escureciam com a luz e não devido ao tempo ou ao calor, desmistificando assim a razão pela qual as empregadas limpavam melhor as pratas no Inverno do que no Verão. Mais sol a entrar pela janela e lá vai a baixela ficar escura em menos tempo. 

 

A solução passou pela utilização de betume judaico; uma espécie de petróleo ou alcatrão que se encontra em estado natural em poças, e que era já utilizado, reza a História, desde os tempos biblícos (Deus mandara a Noé: "Faz para ti uma arca de madeira (...) e a betumarás, por dentro e por fora, com betume. "  Génesis 6, 14). O betume judaíco ou alcatrão é um isolante, impermeabilizante, combustível, e também é sensível à luz. Espalhando este betume numa placa, e colocando em cima uma gravura tornada translúcida depois de embebida em oleo, consegue-se a magia da imagem gravada.

 

O francês Niépce conseguiu passar imagens da gravura para a chapa de cobre através de uma exposição solar demorada, em 1822. Mas isto ainda não era uma fotografia, seria um fotograma, técnica que consiste em obter imagens colocando objectos em cima de superfícies sensibilizadas (papéis fotográficos) e expondo à luz. Durante o movimento surrealista do século XX, o artista Man Ray iria usar exaustivamente esta técnica chamando-lhe inclusivamente Rayogramas.

 

Mas, para ter fotografias, faltava a câmara escura (do latim camera obscura) que, já agora, também já era conhecida há muito, pelo menos desde os tempos de Aristóteles. Se tivermos uma casa ou um tenda toda escura com apenas um pequeno buraco para passar a luz, a imagem do que está fora iluminado irá ver-se projectada invertida na parede oposta à entrada de luz. A câmara obscura era usada para a cartografia ou por pintores. Leonardo Da Vinci usava-a, por exemplo, para desenhar. No século XVI, a câmara é descrita em pormenor num manual pelo italiano Giambattista della Porta e foi amplamente utilizada pelos pintores do renascimento. 

 

A combinação da câmara obscura com os materiais sensíveis à luz também não era exactamente uma invenção de Niépce. Muitos antes dele, no século XVIII, já usavam "snapchats" digamos "avant la lettre". Conseguiam registar  imagens, só não conseguiam que elas durassem … exactamente na premissa do moderníssimo Snapchat, ou se vê agora ou não se vê mais. E as imagens não duravam, porque não era conhecida a forma de fazer com que um material sensível à luz, necessário para captar as imagens, deixasse de ser justamente sensivel à luz depois da captura. O que inevitavelmente acontecia era que a imagem, quando vista à luz, ia desaparecendo, enegrecendo por completo. Irónico que quase 200 anos depois uns tipos tenham ficado ricos por inventarem uma forma de mandar mensagens com imagens que desaparecem depois de serem vistas.

 

Um outro francês, Louis-Jacques-Mandé Daguerre, fazia grandes cenários para teatro, pintados numa papel translúcido e criava alterações de ambientes com jogos de luzes e cor, fabricando atmosferas dramáticas para as peças de teatro e os musicais. Era, portanto, um artista multimédia, e como os de hoje, interessou-se pela fotografia. Daguerre acreditava que os tempos de exposição para obter uma imagem teriam de ser mais curtos, caso contrário não se poderia obter imagens verdadeiras da natureza. Propôs-se então encurtar o tempo, numa primeira fase para meia hora, usando outros materiais e assente num novo conceito que acompanhou a fotografia durante todos os anos até ao digital. De onde vem o termo "revelar"? Daqui. Daguerre não foi o primeiro a inventar a fotografia, mas foi o primeiro a revelá-la. 

 

A sua grande invenção foi o conceito de imagem latente. O que é isto? Daguerre descobriu que, uma vez que o material sensível recebesse uma determinada quantidade de luz, a imagem ficaria formada ainda que invisível, daí latente; depois, quimicamente, poder-se-ia intensificar essa imagem para a tornar visível. Os iões de prata expostos à luz e depois "revelados" cumpriram a função desejada, e um frasco de mercúrio mal fechado num armário completou o resto da descoberta. Os vapores de mercúrio sobre a chapa escureciam as partes expostas à luz. Mas isto não chegava. Daguerre gastou mais dois anos da sua vida com o mesmo problema de Niépce: como encontrar forma  impedir que as partes claras da imagem não continuassem a escurecer gradualmente até a imagem se sumir na escuridão?. 

 

Em 1837, Daguerre encontra a solução num lixiviante utilizado na indústria dos curtumes, o hipossulfito de sódio, e em 1839, com o processo afinado e completo, Daguerre e o filho de Niépce vendem os direitos da invenção ao governo francês, em troca de uma pensão vitalícia. O daguerreótipo torna-se então o primeiro processo fotográfico generalizado e espalha-se rapidamente pelo mundo. No mesmo ano, assim que o daguerreótipo é conhecido em Inglaterra, William Henry Fox Talbot, um inglês, apresenta na Academia das Ciências um processo denominado calótipo que apresentava vantagens face ao de Daguerre. Baseava-se num negativo e permitia várias cópias em papel, enquanto o daguerreótipo era apenas uma prova única positiva uma chapa de cobre.

 

Mais uma nota de paralelismo estes primórdios e os nossos tempos. Durante o segundo e terceiro quartel do séc XIX, o daguerreótipo foi amplamente utilizado, muito embora fotógrafos e inventores continuassem à procura de outro processo que resolvesse alguns problemas do processo francês. Os daguerreótipos geralmente eram guardados em estojos que cabiam na palma da mão e, para se ver a imagem, abria-se a protecção e era necessário encontrar uma posição em que a chapa não fizesse o efeito espelhado. Algo que nos faz lembrar a forma como hoje se vêem fotografias num iphone ao sol.

 

Ao início, a técnica inglesa não teve a repercussão da inventada em França, mas em duas ou três décadas a situação inverteu-se e, durante todo o século XX, a técnica fotográfica tem por base a invenção de Talbot. É ainda no ano 39 do século XIX que Robert Cornelius, do outro lado do Atlântico, em Filadelfia, na tentativa de experimentar e aperfeiçoar o daguerrotipo, e provavelmente  na falta de uma cobaia melhor, senta-se em frente da câmara e faz a primeira selfie ficando imóvel cerca de um minuto. Algo que tinha sido um desafio para a Ellen DeGeneres, na cerimónia dos Óscares de 2014.

 

Hoje todos fotografam tudo e sobretudo fotografam-se a si mesmos. Se o chapéu vitoriano se tornou a câmara do telemóvel, talvez o sefie stick esteja a tentar impor-se como a bengala daquela época ...

 

 

Paulo Rascão é fotógrafo e foi por causa da paixão pela imagem e pela iluminação que se tornou também produtor de vídeo e realizador. É autor e realizador do The Next Big Idea, em exibição na SIC Notícias desde 2012, e há mais de 10 anos que produz filmes e documentários. Fez o curso de cinematografia no King’s College, em Londres, e frequentou a licenciatura em Filosofia da Universidade Católica que tenciona concluir um destes dias.

 

publicado às 10:09

Posts mais comentados

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D