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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

Bem-vindos ao cabaret. Willkommen, Bienvenue, Welcome.

Por: Rute Sousa Vasco

 

 Há temas que podemos apostar, logo quando surgem, que rapidamente vão fazer parte da galeria dos debates fracturantes da nação. O encerramento de salas de espectáculo ou lugares com história ou histórias é garantidamente um deles. Na sua crónica no Observador, Helena Matos chama-lhes ‘espaços míticos’. Para que não se argumente que arregimentei um contra-parte da cronista, vou socorrer-me de um nome em alta por estes dias e chamar-lhes antes ‘lugares de afectos’, usando a palavra talismã do presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa.

 

O que aborrece realmente quando estas discussões surgem é que tudo se torna um retrato a preto e branco. Ou somos uns bota de elástico que não querem saber da cultura, ou uns burgueses da esquerda caviar que não querem saber como se pagam as contas. Aparentemente, parece impossível encontrar na mesma pessoa a vontade de manter ‘espaços míticos’ com a preocupação de que sejam autosuficientes e bem geridos.

 

Que é mais ou menos a mesma razão pela qual uma mesma pessoa tem excelentes qualidades de gestão se trabalhar para um empregador privado, mas torna-se automaticamente um gestor perdulário se o empregador for o Estado.

 

A esta altura, já estão alguns leitores desse lado a bufar de impaciência com ‘mais uma’ que vem defender as discotecas do Cais do Sodré e apelar ao erário público.

 

Sosseguem-se esses.

 

Sou pouco de petições inflamadas e temo, cada vez mais, os movimentos que se dizem ‘orgânicos’. Tenho por convicção – e por experiência – que é sempre mais fácil influenciar uma turba do que uma mente esclarecida ou disponível para se esclarecer.

 

A questão é outra. Ou são duas questões.

 

A primeira, sobre o turismo e como vamos gerir algo de bom que está a acontecer na nossa economia e impedir que se transforme em algo de mau que pode acontecer no nosso país.

 

A segunda é sobre essa espécie de nojo que algumas pessoas têm em relação à utilização de dinheiros públicos em cultura ou simples promoção de espaços de ócio (por oposição aos de negócio).

 

Uma das razões porque cidades como Lisboa e o Porto são hoje coqueluches dos roteiros internacionais são os seus costumes. Por costumes entendem-se coisas tão diferentes como sítios onde vamos petiscar, bancos onde nos sentamos a olhar para o rio e ruas assumidamente estreitas e antigas onde há tascas e mercearias. Sim, desta lista fazem também parte discotecas old school onde a mesma playlist corre desde os anos 80 e não faz mal.

 

Este ‘pitoresco’ não é inventado – é real, ou tem sido real, e é também por causa dele que uma nova geração de turistas, diferentes na origem, na idade e nos hábitos, sente curiosidade de conhecer Lisboa. Alguém lhes contou, alguém lhes disse, que naquela cidade que também tem o fado, os pastéis de Belém e os Jerónimos, há disto.

 

As pessoas que fazem a cidade ‘pitoresca’ também são reais, e vivem cá. Algumas à distância do metro do Cais do Sodré, outras a precisar de trocar de linhas de transporte mais vezes. Mas todas convergem nas mesma cidade, usam-na e dão-lhe vida.

 

A razão pela qual as discotecas do Cais do Sodré são importantes não é pelas discotecas do Cais do Sodré. As discotecas são importantes para pensarmos se queremos uma cidade cheia de hóteis para acomodar os turistas que vêm a Lisboa para ver essa cidade que vive em ruas onde existem discotecas que passam a mesma playlist há 40 anos.

 

As discotecas são importantes para ter ‘pensamento público’ sobre que cidade queremos que Lisboa seja – se aquela que apaixona pessoas do mundo inteiro ou se uma cidade artificial para inglês ver.

 

As discotecas são importantes para mudar mentalidades – de inquilinos e senhorios. Inquilinos que têm um bom negócio podem pagar uma boa renda. Senhorios que descuraram prédios e que foram agora subitamente acometidos de uma vontade empreendedora têm de negociar e não de impor.

 

Fica sempre bem invocar Churchill nos grandes temas fracturantes e seria uma pena não o fazer aqui. Em vez de citações do estadista, fica uma análise do jornal conservador inglês "The Telegraph" à frase muito usada sobre os cortes na cultura. “Se o fizermos, estamos a lutar para quê?” - teria sido esta a frase de Churchill em plena II Guerra Mundial. Vamos assumir que não terá sido exactamente assim, com o país a ser bombardeado e os hospitais a receberem feridos a toda a hora. Mas, o que para o "The Telegraph" é uma ‘desmistificação’, na realidade é apenas a confirmação de que, mesmo na guerra, preservar o que faz a identidade de um país foi uma preocupação de Winston Churchill. “None must go”.

 

E para acabar no mesmo espírito revivalista, nada como fazê-lo ao som da música. Não se preocupem, não é a mesma playlist que há 40 anos passa no Jamaica. Esta é no Kit Kat Club e é ainda mais vintage. Come to the Cabaret old bum, come to the Cabaret.

 

Tenham um bom fim de semana!

 

OUTRAS SUGESTÕES DE LEITURA 

 

Depois do que escrevi, esta é de recomendação obrigatória. Pelo retrato, pela cor e pela ironia poética do Márcio Candoso a falar destas coisas. É a sua Ode ao Cais publicada no SAPO24.

 

E porque hoje as recomendações saem todas à casa, mais uma de um colaborador do SAPO24. O José Couto Nogueira escreveu sobre o casamento de Robert Murdoch e de Jerry Hall e a propósito disso escreveu sobre músicos e sobre media. Vale a leitura.

 

publicado às 10:35

Ode ao Cais

Por: Márcio Alves Candoso

 

Apetece-me citar, estragar, tomar conta, corromper e recompor Álvaro de Campos. Sozinho, num cais deserto numa noite de Inverno, olho em volta tudo aquilo que já partiu e tudo o que antes de mim já lá estava. Piso o chão de rosa e ajuízo os telhados encalhados dos andares de cima das discotecas, a esta hora ainda fechadas. Hoje, segunda, não há Jamaica e tenho que esperar pelo Tokyo. Onde se espera, aqui, pelo passado?

 

 Imagem do facebook do Tokyo 

 

Só eu, para chegar a este mundo àquela hora. Ninguém vem ao Cais antes da uma. Ao Cais que importa, ao que me interessa, porque nunca há horas de silêncio nestas ruas. Há miúdas louras com mantas largas nas esplanadas, uma é mãe e outra é filha, de tão parecidas as descubro, e a mais nova encosta a cara ao ombro da mais velha como num seguro de vida, ou num muro que nos guarda do que está lá fora.

 

Descubro a rota numa porta que diz Copenhaga em língua estrangeira – 'Copenhagen'. Já não cheira a gritos de marinheiros nem a perfumes de rameiras. As gargalhadas são sonoras, mas é do outro lado da rua, onde os taxistas jogam à moeda.

 

O segurança com identificação, cabelo à navalha e cachecol que tapa a boca, mal terá os 30 anos que me separam dos dias claros em que deixei o Cais de madrugada. Mexe um café e solta a sua jovem ignorância às minhas perguntas desnecessárias, só para meter conversa. 'Ali não era...? Não sabe se era, a era dele é outra. E eu disfarço as dúvidas que não tenho com um sorriso de quem escapou a todos os murros dos seguranças de outrora.

 

Toca em todo o lado a mesma música boa. Os miúdos que chegaram agora da Universidade de Erasmus ficam parvos a olhar para o 'Roterdão'. São só rapazes e o porteiro nega a entrada. Trouxessem as miúdas, assim não dá vista ao salão, é preciso equilibrar os pares de pernas. Mas lá dentro está o patrão, que perdeu parte da mão num acidente de mota. Por acidente, diz ele, foi ficando no Cais mais tempo do que o que pensava. O filho está de partida para o Luxemburgo, que isto um dia ainda encerra.

 

 O Jamaica

 

Ninguém gosta de ouvir dizer que vai acabar o Europa, o Tokyo e o Jamaica. A concorrência não é para aqui chamada. Se os 'nobres' do Cais chamam a rapaziada daqui, de além mar e das novas épocas, a todos calha a sorte e a moeda de troca. Vieram jornalistas estrangeiros para ver a rua rosa, e tornaram famoso o Cais que agora sobra em tribunais de arbitragem.

 

Toda a gente que interessa sabe a história; e ninguém quer adormecer com ela. Nos jornais, todos os dias se fala do encerramento iminente das discotecas dos 40 anos que nos separam das portas fechadas. Foi em 1975 que Mário Dias começou a pôr música no 'Jamaica', que os esquerdistas deitavam contas às ideias novas e às que tinham tido encerradas, e que as prostitutas deixaram de mandar sozinhas naquele lugar que as obrigava a partilhar as festas com toda a marinha do mundo.

 

Marinheiros da NATO nas ruas do Cais do Sodré, em 1981.

 

Lá estão elas, com os seios à mostra e de boca escancarada, com o copo na mão e um marinheiro à ilharga, mas só já nas pinturas que sobraram nas parededs do 'Copenhagen'. Para vê-las, é preciso contornar a Rua Nova do Carvalho e escutá-las, em parte velhas, nas esquinas que não têm discotecas. Murais imorais que o mal apessoado Campos nunca viu, mas que inventou no grito que o amigo marinheiro Jim Barns lhe ensinou:

 

'Ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò - yyy...
Schooner ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-oò -yyy...'

 

'I'm a romantic fool', cantam Martha and the Muffins, 'far away in time', na 'Echo Beach' inventada nas areias do Lago Ontario. A mesma música que a miúda de 37 anos dança atrás daquilo que parecem pianos ou gira-discos, se calhar porque a mãe lha cantava quando a mão lhe embalava o berço. 'Aqui não morre ninguém!' É assim que me diz do seu apreço e escolha pelo Cais, ao invés dos mais de três sítios onde trabalhou e ficou desempregada. DJ no feminino, e ainda agora se faz cedo.

 

No Tokyo sou dos primeiros, com uma petição assinada à porta – já cá faltava – contra todos os que querem apagar o cais de desembarque das gerações todas que cá se fazem depois da abrilada. E mesmo das anteriores, como a senhora que não me liga nada, porque vê logo que não me vai tocar na carteira, e eu desajeitado em conversas desta Praça da Ribeira só levo com um 'eu só cá vim ver a bola', mais uma meia-volta de anca larga, e 'adeus ó vai-tim-bora, que desses tenho eu cá resmas'...

 

Acompanham-me na ronda à porta do Tokyo um rapaz de barbas à lenhador e calças maneiristas, uma miúda de argola no pequenino nariz, que é a namorada, e duas outras, uma das quais com cabelo que tapa tudo à sua volta e dentro dela, de volta que vem dos estendais de roupa cara de uma loja bem no centro de Lisboa. Mais abaixo, duas venezuelanas trintinhas, que não respondem a pergunta nenhuma e se queixam de Chavéz e de Maduro. Eu 'está bem, e que tal isto aqui?' Nem uma, nem duas.

 

No palco ouve-se um grupo que tapa o som de fundo, um 'mix' curioso e bem montado. São os Lisbon Underground Burlesque, que só o digo porque me escreveram no bloco de notas que trago sempre comigo, que o barulho e o strobe não me deixam decorar o assunto. O patrão, que conheci em tempos, deu às de vila-diogo e só volta para a semana. Deixo o contacto, ainda quero ouvir o Fernando contar outra vez os desenganos. Como é mesmo aquela história da renda que ele queria que o senhorio lhe aumentasse, em troca de não chatear a molécula com despejos?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os Lisbon Underground Burlesque.

 

E quando o Zé Pedro dos 'Xutos' aportava de madrugada, há tanto tempo que nem sequer era ainda muito conhecido? E quando a namorada de um tipo que toca mal que se farta e canta ainda pior aterrou de cabeça na sanita e só eu é que a fui buscar?

Já não há o 'Changri-La', que era uma casa que foi conquistada aos proxenetas já nos anos oitentas. Agora chama-se 'Champanharia', coisa fina a dar-se bem com os bares mais proletas da banda larga da rua. Tento perceber onde era o banco onde me sentei com a Teresa e a Lina, fazendo peito aos chungas que salivavam pelas pernas delas, e só não apanhei uma tareia porque entretanto veio a bem ditosa segurança. Ainda um dia, na minha entrevista com Deus, hei-de perguntar porque é que em tantas noites sujas nunca levei na cara.

 

No Jamaica, no Tokyo e no Europa vai ser parido um hotel. Onde existe o Oslo e o Liverpool – dois outros bares, que todos têm os nomes das terras de onde os marinheiros chegavam – ergue-se dentro em pouco outro, mas este sem expulsão de história popular. Hotéis é coisa que falta e é rara, na Lisboa destas eras, onde um dia destes 'olhai senhores' uns para os outros, perdidos em 'good mornings' e 'parties' de 'tea', porque já ninguém vai ter cara para mostrar a terra. No Facebook, na bela página que tem por nome 'sensivelmente idiota', quem lá manda escreveu:

 

'Soube que o Jamaica, o Tokyo e o Europa vão fechar para abrir um hotel. Que alegria no meu coração lisboeta. Fechem, fechem tudo! (…) Inaugurem faixas só para tuk-tuks e proíbam portugueses no 28 (…) Cuspam no Público, no Sol e no DN, forrem os quiosques a The Sun, Bild e Le Figaro. Liguem teleféricos, rodem rodas gigantes e aterrem um aeroporto no Terreiro do Paço. Não párem (...) Arrendem Lisboa inteira. Os lisboetas que se fodam!'

 

Noutro lado, um comentário dá-me conta de um rapaz, agora pelos seus vinte e tais, que apenas diz: 'Os meus pais contaram-me que se conheceram e começaram a namorar no Jamaica'. Não sentem um arrepio?

 

Esta é a noite mais pequena da vida airada de um gajo que já teve idade para isto. Longe do Sodré, que com o tempo assim foi sendo conhecido, nome de gente marítima que remonta ao século XV, esse das descobertas primeiras de onde partiram outrora, antes de mim, outros de mim. Visito os bares, as discotecas onde aprendi a segurar um bêbado e a amar uma mulher. Ah, todo o cais é uma saudade de pedra...

 

* (enquanto pensava nisto, reli a 'Ode Marítima', de Álvaro de Campos. Há por aí espalhadas várias frases roubadas e outras modificadas)

 

publicado às 14:46

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