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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Quer acabar com uma relação? Os "wakaresaseya" podem ser a solução

Por: Pedro Fonseca

 

O rompimento de relações pessoais ou laborais por um separador profissional chegou ao mundo ocidental, mais de uma década após terem montado negócio no Japão.

Pagar a um estranho para acabar com uma relação pessoal ou laboral é uma nova moda no ocidente, mas existe há mais de uma década no Japão.

 

"Uber para fim de relações" é como lhe chama a revista The Atlantic, revelando como se podem terminar relações pessoais a troco de um pagamento. Por 10 dólares, a The Breakup Shop envia uma mensagem SMS em nome de quem quer acabar com uma relação pessoal. Por mais 10 dólares, o envio é feito por carta em papel. Por 30 dólares, a carta conterá "nomes, explicações e outros detalhes" para ajudar a perceber que é mesmo o fim da relação e não se trata de uma piada. O preço é o mesmo para o assunto ser resolvido por telefone.

Não é novidade, acabar uma relação por SMS, mas é ainda melhor: sem espaço para a reconciliação, o The Breakup Shop tem uma panóplia de prendas para amenizar a separação, de óculos a copos de vinho.

 

Qual a razão para este tipo de serviço? "Evitar a confusão e ansiedade que pode surgir quando uma separação oficial é evitada a favor de um longo processo", diz o site.

Um dos fundadores do serviço, MacKenzie, diz ter tido a ideia a partir de problemas com uma companheira ocasional, enquanto o seu irmão e parceiro de negócio Evan concorda com o modelo. Ambos recusaram revelar o apelido à revista. A empresa argumenta que "qualquer pessoa merece ser solteira", com "produtos concebidos para dar paz de espírito quando termina a sua relação, minimizar o desconforto e maximizar o potencial para uma amizade a longo prazo". E apresenta no seu blogue casos de sucesso, como o de Samantha, que resultou em melhores vidas sentimentais para ambos os parceiros daquela relação terminada.

 

A empresa argumenta que "qualquer pessoa merece ser solteira"

 

Há razões contra este tipo de serviços - por questões de empatia, decência humana ou "pelo facto de que a tua mãe te educou melhor do que isto", diz a The Atlantic. Até porque o modelo ocidental é mais tecnológico e, assim, mais frio do que sucede no Japão há vários anos.

 

Há mais de uma década que este país tem os chamados separadores profissionais, os “wakaresaseya”, cujo negócio é destruir relações, sejam amorosas ou profissionais.

 

Uma das primeiras revelações aos ocidentais deste fenómeno ocorreu na revista “Look Japan”, em Março de 1998, onde se explicava que terminar uma relação “não é afinal tão difícil de concretizar” e uma mulher declarava ter pago mais de 15 mil dólares para conseguir que um homem se separasse da sua esposa para poder depois casar com ele. O seu sucesso deu mesmo origem a uma manga, denominada "Wakaresaseya no Koi".

 

Os “wakaresaseya” podem parecer personagens miseráveis, mas cumprem a estranha função social de garantir que uma sociedade acaba com relações sentimentais ou comerciais sem grande tumulto. O seu aparecimento no Japão tem essas razões sociais devido à dificuldade em quebrar laços estabelecidos - sejam sentimentais ou comerciais. No caso das mulheres, não são elas quem tradicionalmente pode acabar uma relação amorosa, um papel que cabe ao homem. Por isso, também elas recorrem aos “wakaresaseya” para aparentarem ceder à iniciativa do homem.

 

O termo japonês designa uma categoria profissional, bem remunerada e com trabalho assegurado mesmo em tempos de crise. Funcionando numa linha paralela à dos detectives privados, os “wakaresaseya” são contratados para acabar com uma ligação amorosa, terminar um casamento ou finalizar uma relação profissional. Os clientes tanto podem ser uma família que não aprecia de todo o namoro da filha, um jovem que quer afastar um concorrente da sua amada, uma esposa cansada do casamento, um homem que se quer separar da amante ou um patrão que deseja despedir um empregado.

 

“Os intermediários são muito importantes na cultura japonesa mas muitos estão a ser eliminados pelas mudanças sociais”, explicava Shizuo Machizawa, psiquiatra e professor na Universidade de Rikkyo, em Tóquio, ao LA Times. “Desse modo, os serviços comerciais florescem para preencher essa lacuna”. 

Das armadilhas provocadas à criação de falsos eventos, o que interessa é o resultado pelo qual o cliente paga. “Se este não fosse o meu negócio, considerava que muito do que fazemos é imoral”, afirmava Hiroshi Ito, “wakaresaseya” da Office Shadow, uma da cerca de uma dúzia de empresas a operar no Japão, principalmente em Tóquio e Osaka, e que lidava no auge do negócio anualmente com milhares de casos, obtendo uma facturação de dezenas de milhões de euros.

 

Empresas como a Lady's Secret Detective asseguram obter 95% de resultados positivos e manterem-se dentro da lei. Mas movem-se numa zona cinzenta, até pelas possíveis relações ilegais úteis para lidar com clientes mais difíceis. Depois, há ainda fotografias obtidas de forma disfarçada ou o desvio de documentos incriminantes.

 

O perfil de um “wakaresaseya”

 

Os “wakaresaseya” são recrutados pelas suas diferentes capacidades. Têm de ser bons actores, deter um grande poder de iniciativa e de decisão perante situações inimagináveis e ter uma boa percepção do ser humano. Se necessário, representam desde altos funcionários governamentais a donas de casa ou produtores cinematográficos. “Temos locutores, médicos, advogados, hospedeiras, estrangeiros, transsexuais, cães e gatos”, exemplificava um responsável de uma empresa relativamente aos seus 180 “wakaresaseya”. Estas empresas não têm dificuldades em recrutar novos elementos, sendo que os aprovados seguem para cursos sobre questões legais, artes marciais e representação.

 

A Lady's Secret Detective cobrava 6.000 dólares por mês para terminar uma relação, o que podia demorar entre dois a três meses, e tinha uma preenchida lista de espera. “Tivémos pedidos desde a noiva de um jogador profissional de basebol que queria que terminássemos o namoro do seu namorado com outra mulher, à esposa de um político que queria que o separássemos da sua amante para evitar que [a relação] fosse divulgada antes das eleições seguintes”, lembrava então um gestor de uma destas empresas.

 

Alguns clientes desesperados apresentam-se no primeiro encontro com 5.000 dólares no bolso mas um bom “wakaresaseya”, por um trabalho específico, pode receber até 150 mil dólares. Hiromi Fukuda, por exemplo, assumiu recentemente poder facturar cerca de 200 mil dólares anuais.

 

Após a entrega de um sinal, o “wakaresaseya” inicia um trabalho de investigação sobre a “queixa”, para a validar. Começa com o cliente, passa para os vizinhos ou colegas de trabalho, tenta obter comprovativos das preferências e estilo de vida do “alvo”. Esta informação é vital para construir o “cenário” e montar a “armadilha” para convencer o “alvo” a desistir.

 

Este pode igualmente ser conduzido a uma armadilha sexual, a partir de um encontro fortuito num bar, numa festa ou noutro local público. O “momento de fraqueza” é registado em fotografias e revela-se normalmente suficiente para obter o resultado pretendido.

Os homens são alvos fáceis e nem desconfiam porque lhes surge uma oportunidade daquelas. “Podem ser sempre seduzidos se as operacionais forem razoavelmente bonitas”, afirmava Kiyoshi Hiwatashi, director do Lady's Secret Service. “É uma certeza. Os homens são fundamentalmente ingénuos”. E quanto mais elevado é o estatuto social, empresarial ou político do "alvo", mais funcional é a ameaça apontada a um escândalo.

 

Os mais teimosos podem ser confrontados com provas falsas (como enormes dívidas), que degeneram na visita de falsos mafiosos para assegurarem a cobrança. Ameaças à carreira profissional também fazem "maravilhas" para enfraquecer laços frágeis, complementadas muitas vezes com a ajuda de um recente “amigo” que ajuda o “alvo” a aceitar a separação.

 

Finalmente, por uma soma adicional, o “wakaresaseya” assegura que não haverá contactos posteriores entre os separados. “É como uma operação ao cancro, retira-se o tumor mas tem de se garantir que ele não volta a crescer”, dizia Hiwatashi.

 

Das famílias às empresas

 

Estas empresas nem sempre gostam de separar famílias constituídas. “Espero intencionalmente quatro ou cinco dias para ver se eles realmente o querem fazer”, referia Hiroyuki Yoshida, presidente da Office Shadow. “Precisamos de saber o quão sérios estão antes de destruirmos vidas normais e as relações emocionais das pessoas”. Até porque nem todos os casos são fáceis de resolver: a Daiko Research Office (DRO) teve um marido que não queria largar a amante, mesmo depois de esta ter sido repetidas vezes desacreditada. Ao fim de dois anos, a empresa montou um esquema onde ele foi confrontado com uma dívida dela de 160 mil dólares. Entre pagar e abandoná-la, a escolha recaiu na segunda opção. “Para os homens japoneses, o amor nunca é para sempre, se começa a custar muito”, salienta Yasuyuki Takase, presidente da DRO.

 

No caso das empresas, os “wakaresaseya” podem ser úteis na descoberta de mentiras nos currículos ou nalguns erros do passado de um trabalhador cujo patrão se deseja ver livre dele.

 

Outra forma eficaz é disseminar rumores no local de trabalho para o levar a desejar sair por vontade própria, poupando à empresa o pagamento da indemnização. Mas nem os patrões estão a salvo de executivos ambiciosos ou de concorrentes que podem contratar “wakaresaseya” para os desacreditar ou revelar em público os prejuízos da empresa, levando à sua demissão.

 

O fenómeno atinge toda a sociedade japonesa e até os mais novos estão atentos aos “wakaresaseya”. “Enquanto a maior parte das pessoas noutros países nunca pensaria em contratar alguém para arranjar uma separação, os jovens japoneses parecem pensar actualmente que podem pagar para afastar os seus problemas”, nota o presidente da DRO. “As relações estão a ser tratadas como algo que compraram numa loja”.

 

“As relações estão a ser tratadas como algo que compraram numa loja”

 

Todo este ambiente de mentiras e separações acaba por se revelar danoso na própria vida pessoal dos “wakaresaseya”. “Eu não acredito que me vá casar alguma vez”, explicava Hiroshi Ito, o “wakaresaseya” da Office Shadow. “As relações humanas parecem-me agora tão frágeis”. Também Hiroyuki Yoshida, presidente da Office Shadow, afirmava ter “experimentado as profundezas do inferno” e “é demasiado. Acaba-se por não confiar nas pessoas”.

 

Aliás, o perigo de não se manter neutral nesta profissão pode ocorrer, com nefastas repercussões. Em 2010, um tribunal de Tóquio sentenciou Takeshi Kuwabara a 17 anos de prisão pela morte da amante Rie Isohata, após ter sido pago para a seduzir como "wakaresaseya" pelo marido, para este obter provas para um divórcio. Depois de se apaixonarem, ele contou-lhe o que tinha feito, ela quis separar-se e Kuwabara matou-a.

publicado às 20:34

O amor é um lugar estranho. E esse lugar fica no Japão

Por: João e Ana

 

Quando no ano de 2003 os espetadores portugueses perceberam que o novo filme de Sofia Coppola se ia chamar "O amor é um lugar estranho" - para a tradução de "Lost in Translation" - ficaram confusos. Mais uma vez, que porcaria de tradução, diziam muitos! Ficaria assim tão mal "Perdidos na Tradução"?

 

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Traduções à parte, dificilmente haverá, pelo menos até agora, um título melhor para aquele filme do que "O amor é um lugar estranho". Primeiro porque a frase, por si só, faz todo o sentido. O amor é um lugar estranho por ser um conjunto de sentimentos positivos e negativos. Há o carinho e há o ciúme, há a dedicação e há os sacrifícios, e por aí adiante. Mas não vamos desviar-nos do verdadeiro assunto: O Japão.

 

Esta introdução foi necessária para perceber o que é o Japão, segundo a nossa perspetiva claro. O Japão é mesmo um lugar estranho, por termos amado muito mas também por ter existido algo que, no momento, nos fez recuar na nossa opinião. Estamos a falar da gastronomia.

 

Não partimos para o Japão com o objetivo de encontrar o melhor sushi do mundo, até porque sabíamos que aquele que se faz na Europa é mais ao nosso gosto, o chamado sushi de fusão. Mas sempre nos disseram que no Japão se come maravilhosamente bem. Podemos dizer que foi a nossa pior experiência gastronómica de todas as viagens. De todos os restaurantes de sushi onde entrámos, gostámos apenas de um. E estivemos lá 10 dias!

 

Não pensem que vão ao Japão para encontrar restaurantes de sushi em cada esquina porque vão enganados. Pensávamos que lá o sushi era o equivalente ao bacalhau em Portugal, mas não. O sushi está mais para o preguinho. Preparem-se para encontrar muito porco frito, pele de galinha frita, coração de galinha frito, dumplings de consistência estranha e Okonomiyakis (uma panqueca frita com rebentos de soja, molho de barbecue, maionese e outras coisas estranhas no meio). Pelo meio ainda fazem umas omeletas em cima do arroz para o deixar bem empapado, de gordura. Ah, quanto a doces, esqueçam...bolos só de massa é para meninos, quanto mais nata e creme tiverem por cima mais delicioso é (ou não) e, na maioria das vezes, ainda conseguem juntar-lhes uma compota de feijão, no mínimo intragável.

 

Atenção que isto foi simplesmente a nossa experiência. Conhecemos pessoas que lá foram e adoraram a comida. Dizem até que é a Meca da gastronomia. Não conseguimos perceber...

 

Mas o Japão é muito mais do que isto (e com uns bons hambúrgueres e bifes as coisas recompõem-se), conhecer o país do sol nascente é das experiências mais sensacionais que alguma vez vivemos. Já pensaram num país em que não têm de ficar preocupados com as bolsas e mochilas no metro? Onde se fazem filas indianas para entrar nos comboios de alta velocidade ou sermos atendidos em cafés? Onde não suportam ver um cliente insatisfeito? Onde as sanitas têm jactos de água com temperatura e intensidade reguláveis, brisas secantes e música ambiente? Além do mais, aliado a isto tudo, ainda somos brindados com comodidade, civismo e pontualidade de excelência.

 

Já que referimos, deixem-nos falar de civismo, que desde que fomos ao Japão essa palavra adquiriu o seu verdadeiro sentido. No Japão pedem-nos para colocar o nosso telemóvel em silêncio no metro ou para falarmos baixo, isto para não incomodarmos os outros passageiros. Imaginamos a surpresa de um japonês quando visita Portugal e se depara com a chincalharia das nossas carruagens... No Japão, as pessoas que trabalham para os serviços de transporte fazem todos os possíveis para que as nossas viagens sejam cómodas, com tudo impecavelmente explicado, mesmo que para eles seja muito difícil comunicar em inglês. Ou seja, é tudo aquilo que esperamos enquanto turistas num país onde a comunicação não é fácil.

 

E o que dizer das cores do Japão? Passear pelas ruas modernas japonesas é entrar numa máquina arcade de videojogos, com direito às luzes néon e ao sair já estarmos de repente num quadro pintado com uma palete de vermelhos, amarelos, roxos e laranjas, como acontece nas zonas mais tradicionais como, por exemplo, Quioto. Do nada, alguém acendeu um vela de incenso e somos transportados para a serenidade japonesa nos seus belos jardins. E do nada, reaparecem os letreiros neón e já estamos outra vez na máquina arcade de videojogos.

 

Viver o Japão é ainda mais, é ser apanhado em contra-corrente na passadeira mais movimentada do mundo, beber um café calmamente sentado numa mesa com vistas para o exterior enquanto vemos os japoneses agitados lá fora. É poder fazer parte da história da II Guerra Mundial (Hiroshima) e visitar castelos do Período Edo. É sentir o orgulho dos pais quando queremos tirar uma fotografia com os filhos que estão vestidos de Gueixas ou Taikomochi. É ser bem recebido pelos japoneses e ter vontade de lá voltar apenas porque nos deram muitos sorrisos.

 

E ainda dizem que a hospitalidade e o civismo não servem como cartões de visita para os turistas? Conhecer o Japão é conhecer tudo aquilo que não iremos visitar nunca mais, em nenhum outro lugar estranho.

 

Além de um casal apaixonado um pelo outro, também somos apaixonados por partilhar as nossas experiências em viagem. É algo que nos faz redescobrir o prazer de gostar tanto da vida. Somos o João e Ana, quase casados, e decidimos criar o blogue Volto Já, feito para pessoas que pertencem a vários lugares. Lugares esses que gostamos de conhecer pela experiência de ser apenas mais um no meio de tantos, falando por exemplo das movimentadas ruas de Tóquio. Ou subir ao topo do Pão de Açúcar e ficar deslumbrados com o Rio de Janeiro. Sem esquecer as luzes estonteantes de Nova Iorque. Mas gostamos de declarar um amor incansável pela Europa. França e Itália estão no nosso topo de preferências. Países que nos oferecem tudo o que precisamos para ser felizes. O tempo avança e as responsabilidades aumentam, mas não vamos parar de viajar. Queremos dizer sempre “voltamos já”.

publicado às 08:09

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