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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Se fosse atleta olímpico, preferia a medalha de prata ou a de bronze?

Por: Pedro Fonseca

Por vezes, menos é mais. É o caso dos medalhados olímpicos. As razões parecem simples, depois de se perceber porquê - razões que curiosamente podem ser aplicadas a outras actividades.

 

Os Jogos Olímpicos no Brasil antecipavam entregar 812 medalhas de ouro, outras tantas de prata e 864 de bronze. A previsão pode não ser fiável, devido aos empates que se têm sucedido.

 

Mas, se fosse um dos mais de 10 mil atletas presentes, e ficasse afastado do primeiro lugar, preferia receber a medalha de prata ou a do terceiro lugar?

 

A resposta não é fácil mas, por razões emocionais, os atletas que recebem a medalha de bronze aparentam ficar mais felizes do que aqueles que se posicionam em segundo lugar. O que motiva essa aparente felicidade? Porque o perdedor do primeiro lugar compara-se com quem o ganhou, enquanto quem fica em terceiro analisa a sua performance atlética perante quem não recebeu qualquer galardão.

 

E porque se fala de "aparente felicidade"? Porque a investigação científica que valida esta ideia baseia-se na análise de imagens, fotografias ou vídeos, dos medalhados nos pódios olímpicos.

 

Um dos estudos mais citados neste tipo de investigação, "When Less Is More: Counterfactual Thinking and Satisfaction Among Olympic Medalists", data de 1995 e analisou os atletas dos Jogos Olímpicos de 1992, em Barcelona (Espanha).

 

Victoria Medvec, Scott Madey e Thomas Gilovich, do departamento de psicologia das universidades de Cornell e de Toledo, declaram que não podem sugerir uma certeza de que ficar em segundo lugar "leva sempre a uma menor satisfação", até porque não estudaram a "duração dos efeitos" ao longo do tempo.

 

O trabalho destes investigadores incluiu três estudos diferentes, em que analisaram a cobertura televisiva dos Jogos, um outro de análise a entrevistas tidas após os resultados e um último em que entrevistaram os próprios atletas.

 

No primeiro caso, os participantes no estudo viram as imagens das reacções imediatamente após o fim das provas olímpicas dos segundo e terceiro lugares. Depois, fizeram o mesmo quando estes atletas subiram ao pódio para receberem as medalhas.

 

Esses participantes, que tinham de validar a "emoção expressa de cada atleta", foram 20 estudantes da universidade de Cornell, desinteressados e desinformados dos desportos, para evitar qualquer conhecimento prévio sobre os atletas.

 

As competições atléticas providenciam uma óptima precisão, uma "ordem linear" validada e objectiva (os empates são raros). Nesse ambiente, as "respostas emocionais" mostraram que os bronzes pareciam mais felizes do que os pratas.

 

Perante estes "pensamentos contrafactuais", como lhes chamam os investigadores (e que, de forma simples, significam o que as pessoas comparam dos seus triunfos com o que podiam ter atingido), é verdade que os vencedores da medalha de prata também estiveram perto de perderem para o bronze, "mas uma comparação social, para baixo", não é indicativa de "uma mudança de 'status'", porque nenhum venceu a prova "mas ambos ganharam medalhas". Além disso e por causa dessa situação, a comparação entre o terceiro e o quarto lugar é totalmente diferente.

 

Os medalhados com bronze "são susceptíveis de concentrarem os seus pensamentos contrafactuais para baixo", enquanto isso "não existe na comparação ascendente entre segundo e terceiro lugar". Por isso, nesta "assimetria na direcção da comparação contrafactual, a pessoa que está objectivamente pior (o medalhado com bronze) pode mesmo assim sentir-se mais recompensado do que a pessoa que é objectivamente melhor (o medalhista de prata)".

 

Em resumo, há casos em que "menos é mais"...

  

 

Ouro, prata, bronze, muito bom, bom e suficiente

O estudo de Medvec, Madey e Gilovich demonstra um outro tipo de análise social interessante para áreas onde a competência pessoal dos melhores lhes pode trazer dissabores emocionais quando ela é avaliada por entidades externas para a hierarquizar.

 

Na escola, um estudante que falha um "muito bom" e apenas recebe "bom" pode sentir-se menos gratificado do que um outro que consegue um habitual "suficiente". Ou "considere uma pessoa que acerta correctamente em todos menos num número da lotaria. Esse indivíduo perde o jackpot mas normalmente ganha um prémio" considerável, num valor que, "sem dúvida, fornece algum prazer, mas o conhecimento de saber que perdeu o jackpot surge de vez em quando e arruína momentos de outra forma felizes".

 

A discussão sobre esta abordagem não é nova. Em 1890, em "The Principles of Psychology", William James explicava o problema da auto-estima perante as pretensões e o sucesso: "assim, temos o paradoxo de um homem envergonhado até à morte porque é apenas o segundo pugilista ou o segundo remador no mundo. Ou seja, ser capaz de vencer toda a população do mundo menos um não é nada; ele comprometeu-se a si mesmo a ganhar a esse um e, enquanto o não fizer, nada mais conta".

 

As pretensões prévias à competição olímpica são também o que pode revelar algum desapontamento entre os medalhados de prata e de bronze, afirma um outro estudo, "Expectations and emotions of Olympic athletes".

 

Peter McGraw, Barbara Mellers e Philip Tetlock, das universidades do Colorado e da Califórnia, explicaram em 2004 que os medalhados de prata "são mais propensos a ficarem desapontados porque as suas expectativas pessoais são mais elevadas do que as dos medalhados de bronze".

 

O estudo partiu do "aspecto surpreendente" do trabalho de Medvec e dos outros investigadores ao afirmar que "as expectativas anteriores dos atletas não tinham efeito significativo nas suas emoções".

 

Ao re-examinarem esse estudo, usando técnicas semelhantes de visualização de resultados dos jogos de Barcelona mas para os atletas nos Jogos Olímpicos de 2000 (Sydney, na Austrália), os investigadores usaram 26 estudantes da Ohio State University igualmente desinteressados em desporto.

 

A visualização das imagens, classificadas em termos de sentimentos entre 1 (agonia) e 10 (felicidade), mostrou que os vencedores tinham uma média de 7,9, enquanto os medalhados com prata chegavam aos 6,6 e os de bronze aos 6,3. Os atletas sem acesso ao pódio ficavam numa média de 4,3.

 

Os autores introduziram uma outra variante de análise, explicando a diferença entre atletas. Um medalhado de prata que se aproximou da vitória e bateu por larga margem o terceiro no pódio terá sentimentos diferentes daquele que ficou longe do primeiro lugar mas próximo do medalhado de bronze. Ou seja, "a única maneira razoável de imaginar o medalhado de prata a fazer uma comparação para cima seria se tivesse expectativas prévias de ser medalha de ouro".

 

 

De volta às medalhas (e ao IRS)

Perante a emoção e o triunfo das medalhas, é bom recordar que elas são "recentes" nos Jogos Olímpicos.

 

Os Jogos Olímpicos remontam a 776 antes de Cristo e foram banidos durante séculos até Pierre de Coubertin os ter reinventado no século XIX, mas foi apenas nas competições de 1904, na cidade norte-americana de St. Louis, que surgiram as medalhas.

 

Até 14 de Agosto, Portugal já conquistou 24 medalhas olímpicas – 12 de bronze, oito de prata e quatro de ouro (a última foi o bronze da judoca Telma Monteiro nestes Jogos Olímpicos no Brasil).

 

Monteiro recebeu uma medalha pesada e diferente dos anteriores galardoados, e muito diferente das primeiras obtidas pelos portugueses nos Jogos Olímpicos de 1924 (Paris). "As medalhas dos Jogos Olímpicos do Rio são as maiores e mais pesadas da história", porque cada medalha tem um diâmetro de 85 milímetros e pesa meio quilo.

 

Cada medalha de ouro é, na realidade, pouco dourada e muito mais prateada. Ela é composta por 92,5% de prata, 6,16% de cobre e apenas 1,34% é realmente ouro. Mesmo assim, cada uma vale cerca de 600 dólares, segundo o Conselho Mundial de Ouro, sem ir a leilão, onde a importância do medalhado e a data do triunfo acrescentam valores à licitação.

 

Além das medalhas, um triunfo olímpico implica ainda outros ganhos para os desportistas portugueses. Segundo uma portaria de 2014, um campeão olímpico recebe 40 mil euros, enquanto um segundo lugar vale 25 mil euros e um terceiro classificado se fica pelos 17,5 mil euros.

 

Se existir um recorde olímpico ou do mundo, o desportista arrecada 15 mil euros. E, refere Abílio Rodrigues, da Faculdade de Direito da Universidade do Porto, pode nem sequer estar sujeito a IRS.

 

Como os olímpicos têm bolsas atribuídas pelo Comité Olímpico de Portugal para a sua preparação, pretende-se "que os atletas integrados nos programas de preparação de cada ciclo olímpico beneficiem de melhores condições que desejavelmente lhes possibilitem o alcance de resultados desportivos que dignifiquem o país, demonstrando assim a importância política e social assumida pelo Direito Fiscal".

 

Sabendo que há países que pagam muito mais aos seus medalhados e outros que cobram impostos por esses prémios, falta um estudo sobre o impacto não apenas emocional mas financeiro nos vencedores olímpicos das medalhas de ouro, prata e bronze.

publicado às 11:49

O que não verá dos Jogos Olímpicos mesmo que aconteça

Por: Pedro Fonseca

 

Viu as imagens do músico brasileiro que transportava a tocha olímpica a mostrar as nádegas e a ser imobilizado pela polícia brasileira? Se as não conseguiu ver, é porque provavelmente estava sintonizado num dos canais de televisão credenciados para os Jogos Olímpicos, que decorrem de 5 a 21 de Agosto no Rio de Janeiro, no Brasil. É um controlo olímpico.

 

 

O Comité Olímpico Internacional tem regras rígidas para as pessoas credenciadas nas Olimpíadas publicarem nos media e nas redes sociais. De atletas a jornalistas, todos têm de cumprir estas regras ou podem ser penalizados. O músico Tarcísio Gomes transportava a tocha olímpica já dentro da cidade brasileira quando mostrou as palavras "Fora, Temer" escritas no rabo, em protesto contra o presidente interino Michel Temer. Mas a maior parte dos espectadores não viu nada disso - precisamente porque estas regras existem.

O transporte da tocha olímpica teve outros incidentes, mas poucos foram revelados nos orgãos de comunicação social credenciados.

 

Também a cerimónia de inauguração terá um truque sonoro, após a única frase que Temer irá dizer: "declaro abertos os Jogos do Rio, celebrando a 31ª Olimpíada da era moderna". Depois, a música será elevada para "evitar que as emissoras de televisão captem um possível momento constrangedor com vaias ou xingamentos do público contra Temer", antecipou o jornal Folha de S. Paulo.

 

Este controlo mediático, para que tudo pareça correr bem num evento desta dimensão, ocorre porque o Comité Olímpico Internacional (COI) tem regras para os credenciados em cada um dos seus eventos, além das emitidas pelos "comités olímpicos nacionais ou outras organizações".

 

 

Diário sim, notícia não

 

Este ano, as directrizes do COI para os media sociais e digitais (aprovadas em Outubro do ano passado e em vigor desde a abertura da Vila Olímpica, a 24 de Julho passado, até ao seu encerramento) implicam que "todos os atletas, técnicos, agentes, funcionários de comités olímpicos nacionais e de federações internacionais e membros de meios de comunicação credenciados" não podem visar nas suas mensagens "fins de protesto ou qualquer forma de propaganda política, religiosa ou racial".

 

Apesar do COI estimular a participação nesses media, impõe que tal só pode ser "feito em formato de diário na primeira pessoa" (para não se confundirem com notícias) e respeitadas as suas directrizes. Estas dizem, por exemplo, que "o uso de palavras ou imagens vulgares ou obscenas é proibido", mas não se explicita o que é "vulgar". E o texto opinativo é permitido mas é necessário deixar "claro que as opiniões expressas são" as dos autores.

 

Os credenciados estão ainda autorizados a registar "áudio ou vídeo dos eventos, competições ou quaisquer outras actividades que ocorrerem em locais olímpicos para seu uso pessoal", mas não o podem colocar nos media digitais - em "streaming" ou em qualquer outro tipo de media - sem aprovação prévia do COI. E "nenhum equipamento de TV, tripé ou monopé é permitido" para o registo e posterior partilha pessoal desses momentos.

 

Estes conteúdos "devem ser exclusivamente para uso pessoal e não podem ser carregados nem partilhados em qualquer site de Internet, blogue, página de media sociais, sites de partilha de fotos ou vídeos ou outras aplicações móveis". Ou seja, não é permitida a transmissão de imagens em "streaming" - mesmo nas competições em que entram os próprios atletas.

 

Controlo das marcas

 

Os credenciados para os Jogos Olímpicos também não podem usar os símbolos registados nem sequer a palavra “olímpico” ou outras relacionadas com as Olimpíadas, como emblemas ou mascotes dos comités olímpicos nacionais "e/ou Rio 2016", sem "a aprovação prévia por escrito" dos comités nacionais ou do organizador da Rio 2016.

 

Mesmo um endereço na Internet, nos media sociais ou em aplicações móveis que usem as palavras "olímpico", "olímpicos" ou outros termos semelhantes e que possam ser relacionados com os Jogos Olímpicos (incluindo "idiomas diferentes do português") "não são permitidos, a não ser quando aprovados previamente pelo COI".

 

O controlo destas marcas é de tal forma restrito que "as pessoas credenciadas não podem criar websites, aplicações ou quaisquer outros recursos autónomos com temas olímpicos", incluindo aqueles potenciais "para hospedar a cobertura dos Jogos". A restrição impõe-se igualmente a terceiros que façam a gestão desses endereços online ou em aplicações móveis.

 

Os direitos exclusivos incluem "o símbolo olímpico, bandeira, lema, hino e identificações (inclusive, mas sem limitação, 'Jogos Olímpicos' e 'Jogos das Olimpíada'), designações, emblemas, chamas e tochas, denominados, colectiva ou individualmente como 'Propriedades Olímpicas'").

 

Ainda segundo o COI, não é sequer possível "divulgar qualquer informação que seja confidencial ou privada em relação a outra pessoa ou organização" dentro da cidade olímpica - sem se especificar, mais uma vez, a abrangência desta norma.

 

As infracções permitem ao COI "cancelar o credenciamento da pessoa ou organização responsável", entre outras sanções com efeitos legais, nomeadamente sobre a violação dos direitos das suas marcas.

 

Por outro lado, "durante o período dos Jogos, as pessoas credenciadas não estão autorizadas a comercializar [as] suas actividades de medias sociais e Internet", mas "podem publicar sobre [os] seus patrocinadores, promover qualquer marca, produto ou serviço em media sociais ou digitais" após terem "obtido a aprovação prévia por escrito do COI ou do respectivo comité olímpico nacional".

 

Media exclusivos e justos

 

As normas para os orgãos de comunicação social são igualmente restritivas, nomeadamente na transmissão de imagens. O COI assume, num documento de Maio de 2015 sobre "as regras para acesso a notícias aplicáveis à transmissão dos jogos da XXXI Olímpiada", que "possui os direitos aos Jogos Olímpicos e a todos os eventos relacionados, incluindo todos os direitos de propriedade intelectual dos e para os Jogos Olímpicos, e todo o fundo de comércio associado, bem como todos os outros direitos, propriedades e participações de todos os tipos e natureza relacionados à organização e realização dos Jogos Olímpicos, incluindo a transmissão, cobertura e exibição dos Jogos Olímpicos e qualquer outra forma de exploração, registo, representação, comercialização, reprodução, acesso e disseminação por quaisquer meios ou mecanismos de qualquer tipo", sejam os "existentes actualmente ou desenvolvidos no futuro".

 

Apesar de os Jogos Olímpicos serem um evento de interesse público, apenas "as transmissoras detentoras de direitos (TDD) podem ter o direito de transmitir e exibir" os mesmos. Para o COI, "nenhuma outra organização pode transmitir e exibir som ou imagens em movimento de qualquer evento olímpico, especialmente sessões de treino, acções desportivas, a cerimónia de abertura, a cerimónia de encerramento e cerimónias de vitória, zonas mistas, entrevistas ou outras actividades que ocorram em locais olímpicos". Estas denominadas "Regras para Acesso a Notícias (RAN)" visam "o propósito exclusivo de permitir reportagens justas sobre os Jogos" durante os mesmo por quem não é detentor de direitos (os referidos TDD).

 

Assim, é "rigorosamente proibida" a transmissão de imagens "pela Internet, plataformas móveis ou de outra forma", até porque "o material olímpico só será fornecido a agências de notícias ou não-TDD caso estas forneçam uma garantia prévia por escrito, em forma e substância satisfatórias para o COI, de que cumprirão integralmente todos os termos e condições destas RAN".

 

Há, ainda assim, a possibilidade das não-TDD exibirem esses vídeos "somente com o acordo específico por escrito da TDD local". Neste caso, terão direito a seis minutos de "material olimpico por dia", que só "pode aparecer em no máximo três programas de notícias por dia" e "não mais do que dois minutos" a "ser usado em qualquer programa de notícias individual", que devem ainda "ser separados por um período de no mínimo três horas".

 

Em síntese, e apesar da enorme duração do "material olímpico", o COI define o tempo para os operadores transmitirem os seus conteúdos, influenciando a agenda noticiosa desses meios.

 

 

Gerir a "realidade concreta"

 

Como se não chegasse, esse "material olímpico só pode ser usado por um período de 48 horas após a conclusão do evento olímpico", e apenas pode ser usado posteriormente com "a autorização expressa por escrito do COI".

 

Os não-TDD não devem ainda "empreender entrevistas por [telemóvel] com atletas e representantes das equipas" e "não alterar nem modificar por quaisquer meios a realidade concreta de qualquer evento em transmissão ou exibição, dos participantes em tal evento, do desempenho de tal participante ou do local de qualquer evento".

 

Quando se pensa que um organizador olímpico chegou ao fim das exigências relativas à emissão noticiosa de um seu evento olímpico descobre-se que, "para fins de cobertura de conferências de imprensa oficiais", os não-TDD apenas as podem transmitir "sem quaisquer restrições territoriais, desde que haja um atraso de, pelo menos, 30 minutos a partir da [sua] conclusão".

 

Além das "reportagens justas", o COI prevê "adicionalmente" que "todo o material - sejam destaques, entrevistas ou outros clipes associados", deve igualmente "ser geobloqueado adequadamente para o território apropriado". Dito de outra forma, "a transmissão do material olímpico na Internet ou plataforma móvel não pode estar acessível para pessoas fora do território específico" e "qualquer transmissão" nesses meios "é expressamente proibida".

 

Este geobloqueio (que permite a emissão de vídeos num dado país mas não noutro), e que várias organizações europeias querem extinguir, foi igualmente abordado pela Comissão Europeia, mantendo excepções que o COI pode argumentar - com toda a razão, actualmente - serem válidas para estas suas "directrizes".

publicado às 21:14

Declaro abertos os Jogos do Rio, celebrando a 31ª Olimpíada da era moderna! Oi?

 Por: Miguel Morgado

 

O Rio de Janeiro e o Brasil atiram para trás as palavras Dilma, Impeachment e Lava-Jato e unem-se à volta da cultura, história, celebridades e música brasileira, tudo iluminado pela chama olímpica. Zika, segurança e atrasos, é só dar um “jeitinho, 'né”. Portugal leva 92 atletas de 16 modalidades, abençoados pelo Cristo Redentor. E Marcelo Rebelo de Sousa espera entregar medalhas, com vista para o Cristo-Rei.  

 

 

Hoje, 5 de agosto, cerca das 24h00 (20h00 no Rio de Janeiro) começam os XXXI Jogos Olímpicos de Verão da Era Moderna. Ao longo de quase quatro horas aguarda-se a proclamação, em pleno Estádio Maracanã, em inglês, francês e em bom português, da frase “declaro abertos os Jogos Olímpicos...”. Dez segundos de fama para Michel Temer, presidente interino, a que se seguem muitos mais segundos de uma música para “abafar” assobios, numa cerimónia em que tudo aponta para que seja o tenista Gustavo Kuerten a entrar com a chama olímpica. Sobre quem acende a Pira, nada se sabe. Sabe-se que haverá uma na Igreja da Candelária. Pelo meio, com direção criativa de Daniela Thomas, Fernando Meirelles (“Cidade de Deus”) e Andrucha Waddington, coreografado por Steve Boyd, americano que conta com treze eventos olímpicos, com orçamento mais de dez vezes inferior a Londres 2012, há dança, música, luzes, fogo de artifício, os esperados “uaus” de espanto, história e celebridades. E aqui entram figurões e grandes nomes do MPB, entram Gilberto Gil e Caetano Veloso, novas vozes, do rap e hip hop, MC Soffia (12 anos que “arrasam” nas redes sociais) e Karol Conka, desfilará a top model Gisele Bündchen ao som de “A garota de Ipanema”, entre olhares indiscretos e olhos regalados, Lea T, brasileira transexual, a primeira do género a fazê-lo numas olimpíadas. O desfile das delegações começa com a Grécia, e em seguida os países entram por ordem alfabética. No P de Portugal, desfilam 92 atletas liderados pelo porta-estandarte velejador João Rodrigues, com sete participações nestas andanças, o “país” dos refugiados é o penúltimo, e na sequência o Brasil entra com a promessa de delírio total dos presentes.

  

Hoje o Rio de Janeiro é e continua lindo. Hoje é feriado na cidade maravilhosa. E começam as Olimpíadas. E cariocas e brasileiros, como uma espécie de bipolaridade, esquecem tudo o que antecedeu recentemente num país sem tradição olímpica mas que cujos anos mais recentes levou a cabo esforços e investimentos olímpicos para pôr de pé um Mundial, em 2014, e agora, dois anos depois, os JO Rio 2016.

 

A partir da meia-noite espera-se que o Estádio Mário Rodrigues Filho, vulgo Maracanã, se transforme numa enorme pista de dança e convívio entre nações. Mas se rebobinarmos, a música foi, até hoje, outra. Zika. Dilma. Impeachment. E Lava-Jato. Quatro palavras que atingiram elevados índices de “popularidade” no Google quando se procura por Brasil. Se juntarmos as últimas três obtemos uma frase que resume quase tudo de que se falou e ainda se fala de e no Brasil, de Brasília à Cidade Maravilhosa. É assim: a operação Lava-Jato, a maior investigação levada a cabo pela Policia Federal brasileira, mega-escândalo de corrupção, originou um processo de impeachment que levou à destituição de Dilma Roussef, a presidente do Brasil, entretanto substituída por Michel Temer, presidente interino. Uma “tempestade perfeita”, vendaval político que só encontra paralelo com o da Ditadura Militar de 1985, misturado com uma recessão económica quase sem precedentes.

 

Ou seja, dos JO do Rio de Janeiro propriamente ditos só se falou dos atrasos em relação à construção de infraestruturas, a (ausência de) despoluição da baía de Guanabara e da Lagoa Rodrigo de Freitas, do doping de atletas russos, dos perigos do vírus, a quarta palavra, a Zika, que preocupa autoridades sanitárias e organizações desportivas, atletas, ao ponto de alguns de renome, em especial no golfe, não terem embarcado para o Brasil, e que afastou igualmente turistas e, finalmente, das questões de segurança.

 

E por falar em segurança, ao todo 85.000 mil profissionais, divididos entre agentes, forças de segurança pública e soldados que terão à sua guarda os 10.500 atletas em representação de 206 países. 17 dias na luta por 306 provas com medalhas, sendo que 161 são provas masculinas, 136 femininas e 9 são mistas. 42 desportos, sendo que há duas novidades: o golfe e o râguebi. 

 

Portugal, com 92 atletas representando 16 modalidades, terá José Garcia, ex-canoísta, como Chefe de missão de Portugal. Há atletas medalhados (Nelson Évora), repetentes (Telma Monteiro), naturalizados (Tamila Holub, nadadora nascida na Ucrânia e a mais jovem atleta lusa presente) e muitas esperanças face às mais recentes conquistas em diversas modalidades, seja na Canoagem (Fernando Pimenta), Ciclismo (Rui Costa), no Taekwondo (Rui Bragança), no Ténis de Mesa (equipa), no Atletismo (Patrícia Mamona e Sara Moreira), no Judo (Telma Monteiro) e no Futebol, seleção sub-23 que regressa ao palco olímpico depois Atenas 2004. A correr por fora estará a ginástica de trampolins (Ana Rente) ou tiro (João Costa).

 

O Navio Escola Sagres (NRP Sagres), embaixada nacional itinerante durante o maior acontecimento desportivo a nível mundial e que será a primeira edição de sempre de uns Jogos Olímpicos numa nação de língua oficial portuguesa, dará assistência a toda a comitiva hospedada na Aldeia Olímpica que, segundo números do Comité Olímpico Português (COP), rondará as 180 pessoas, entre atletas, treinadores, ‘staff’ COP, equipa médica e fisioterapeutas, chefes de equipa por modalidade, 45 profissionais de media de 19 órgãos de comunicação social e o departamento de comunicação do COP (duas pessoas).

 

Medalhas? Ouro? Prata? Bronze? Essa é sempre a pergunta demasiado cara para ser feita e à qual ninguém avança com números. Favoritos? À partida, remo, judo, ténis de mesa, atletismo... À saída das Terras de Vera Cruz, quando a popa do Navio Escola Sagres apontar ao Cristo Redentor, esperemos que, no Torna Viagem, traga o porão carregado de metal precioso e que rume aos jardins do Palácio de Belém, onde à sua espera estará Marcelo Rebelo de Sousa. Aguardaremos então pelo desenlace de encerramento dos Jogos Olímpicos Rio 2016. E pela cerimónia ainda no segredo dos Deuses. Para ser vista por 3.5 mil milhões de pessoas em todo o mundo.

 

publicado às 20:47

Uma olímpica vergonha. No Rio, só mesmo levando a situação na desportiva

Por: José Couto Nogueira

 

Os jogos do Rio de Janeiro ainda não começaram e já se amontoam os problemas, desde raptos e roubos a obras atamancadas e poluição persistente. A recessão que assola o país e a incompetência crónica da gestão da cidade antecipam, para muitos, um resultado que vai do embaraçoso para o descalabro. Ainda assim, a pouco mais de uma semana do arranque dos Jogos, sobra a esperança que os atletas e as provas compensem tudo o resto.

 

 

A cidade onde se realizam os Jogos Olímpicos é escolhida com grande antecedência, entre vários concorrentes, para que se possa preparar para um evento de magnitude faraónica, com uma escala universal. Por um lado, nenhuma cidade tem infraestrutura montada para tantos eventos desportivos a acontecer ao mesmo tempo; por outro, deseja superar sempre as anteriores em grandeza, organização e beleza. Tóquio, que será a cidade dos Jogos Olímpicos de Verão de 2020, foi escolhida em 2013. Para os japoneses, é tempo de sobra para organizar minuciosamente todos os pormenores.

 

Também parecia muito tempo quando, em 2009, o Rio de Janeiro ganhou a competição para receber os jogos deste ano. Nessa altura o Brasil estava em curva económica e social ascendente, e o Presidente Luís Inácio Lula da Silva, reeleito com mais de 60% dos votos em 2006, parecia imparável. O PT não era apenas uma forma de gestão do país, tinha uma programação ideológica muito forte, tanto para o Brasil como para todos os países sul e centro americanos com governos de esquerda. A realização da Copa do Mundo em 2014 e das Olimpíadas em 2016 seriam celebrações da “nova ordem” que o Partido dos Trabalhadores queria exibir com aparato.

 

Só que, entretanto, muita coisa aconteceu no Brasil. Dilma Rousseff, eleita em 2011, mostrou-se uma administradora inábil e incompetente, levando o país para uma recessão que agora se pensa que só abrandará em 2020. Por outro lado, tem-se descoberto aos poucos que o grandioso projecto social do PT incluía uma corrupção a níveis estratosféricos, mesmo para o Brasil. Dilma foi afastada e está metida num processo de impedimento, enquanto o país é governado interinamente por um Presidente fraco e impopular. A gestão da coisa pública está praticamente suspensa, enquanto os políticos de todas as cores se contorcem num jogo labiríntico para se salvarem a si próprios e enterrar os outros. O desemprego anda na ordem dos 11% e contabiliza-se um recorde de falências de empresas pequenas e grandes. Não há grandes condições de prestar atenção aos Jogos Olímpicos e muito menos de gerir as estruturas necessárias ou de tirar partido da promoção nacional que o evento proporcionaria.

 

No epicentro da tempestade está o Rio de Janeiro. A cidade foi escolhida porque é linda, entre a montanha e o mar, com um clima tropical suave. Mas é linda nos bilhetes postais e nos vídeos. Diz quem lá mora que desde a gestão Brizola (91-94) que a incompetência dos edis (“prefeitos”) só tem par na corrupção desenfreada a todos os níveis. A criminalidade é assustadora. Há 16 assassinatos por dia só na cidade do Rio de Janeiro, com 6,3 milhões de habitantes, comparando com 48 assassinatos diários em todo o território dos Estados Unidos, com 320 milhões de habitantes.

A rua é partilhada entre a Polícia Militar, a Milícia, os gangues de traficantes e o crime juvenil, de puxão. As pessoas de fora, facilmente distinguíveis pela cor de pele e falta de samba, são roubadas na rua, pelos táxis, nos serviços, nos arrastões de praia.

Não há grande hipótese de um estrangeiro atravessar a cidade com uma câmara ao pescoço, uma mochila, ou alguma coisa de valor, e sair incólume.

 

Prevendo um grande número de visitantes incautos, a Prefeitura criou uma corpo extra, a Força Nacional, formado por voluntários das polícias e dos bombeiros de todo o país. Chegados ao Rio há três meses, os supranumerários ainda não conseguiram receber salário. Foram instalados em apartamentos sem camas, sem água, electricidade ou televisão, num bairro social que é dominado pela Milícia, que se recusa a fornecer esses serviços sem pagamento. Ora a Milícia é uma força semi-legal, formada por moradores e polícias fora das horas de serviço, que inicialmente se propunha a expulsar os traficantes de drogas, mas que acabou por se tornar uma gangue de extorsão ela própria. (Quem viu os dois filmes “Tropa de Elite”, de Wagner Moura, conhece a história.)

A polícia propriamente dita – chamada Polícia Militar – e os bombeiros, estão neste momento em greve por falta de pagamento de salários, pelo que não é de esperar muito empenho durante os jogos. Têm aparecido no aeroporto com uma grande faixa onde se lê “Welcome to hell”.

 

 

Noutra vertente, as obras destinadas aos pavilhões, ao alojamento dos atletas e jornalistas e os melhoramentos nos transportes estão atrasadas e algumas não ficarão prontas a tempo – talvez não fiquem prontas nunca. Os custos, sobrecarregados com luvas para todos os sectores da administração, ultrapassaram largamente o valor orçamentado. A semana passada começaram a chegar delegações e começaram os problemas. Os australianos foram para hotéis e queixaram-se dos canos entupidos, das poças de água dentro dos apartamentos, da falta de lâmpadas. Eduardo Paes, o prefeito, respondeu delicadamente que se eles quisessem até lhes punha cangurus nos módulos habitacionais para que se sentissem em casa. Mas os americanos, suecos e portugueses também já se queixaram de que nada funciona. Paes deve ser bipolar, pois tão depressa afirma que os jogos são uma oportunidade perdida como que tudo vai correr maravilhosamente.

 

Mas não é só a Vila Olímpica, domicílio dos atletas, que tem problemas. O metro especial para os jogos, que atravessa a cidade até à Vila, está por acabar, assim como a autovia rápida. Uma pista de bicicletas panorâmica, junto ao mar, caiu há um mês, matando dois ciclistas. As fotografias mostram que foi mal desenhada e construída com materiais ordinários. Custou 45 milhões de dólares, pagos a dez empresas. Quanto à baía da Guanabara, onde se realizarão as provas náuticas, ainda esta semana apareceu um cadáver a boiar. Nas imagens aéreas vêem-se frigoríficos, sofás e objectos não identificados a flutuar numa massa acastanhada com grandes manchas verdes. Eduardo Paes já admitiu que a despoluição não virá a tempo.

 

Um contentor com equipamento para uma equipa da televisão alemã desapareceu ainda no aeroporto. Dado o escândalo, a polícia lá o encontrou três dias depois, num armazém cheio de contentores de proveniências várias. Jason Lee, atleta neozelandês de Jiu-Jitsu, foi apanhado na rua e obrigado a fazer vários levantamentos em máquinas ATM. Pelos vistos a sua especialidade não o salvou dos perigos da rua. Aliás, são esses “pivetes” o grande problema. Porque as gangues de traficantes, bem organizadas, não terão nenhum problema em fazer acordos com as forças da ordem; também lhes interessa que os seus negócios paralelos – drogas e prostituição – corram bem, num ambiente seguro para os visitantes. Agora, os pivetes, são operadores independentes. Andam pela cidade em pequenos grupos e atacam tudo o que vêem pela frente, com o descaramento de quem não tem nada a perder.

 

Enfim, chova sangue ou caiam tijolos do céu, no próximo dia 5 de Agosto terá lugar a cerimónia de abertura dos Jogos Rio 2016. A Presidenta suspensa, Dilma, não comparece, pois não teria direito às honras da praxe, o que seria constrangedor. O Presidente interino Temer, espera-se que vá. Como se prevê que será Pelé a acender a pira olímpica. O espectáculo musical conta com Anitta, Caetano Veloso, Elza Soares, Ludmilla, Gilberto Gil e Wesley Safadão.

 

Talvez Gisele Bündchen desfile numa passarela que na verdade será criada virtualmente a partir de uma projeção do calçadão de Copacabana, ao som de “Garota de Ipanema” de Tom Jobim. No mundo inteiro, 3,5 mil milhões de pessoas vão assistir, na segurança dos seus sofás. No Rio, estarão muitos milhares dos mais ousados.

 

publicado às 13:27

Brasil: o Carnaval que todos levam a mal. E os Jogos Olímpicos estão à porta

 Por: José Couto Nogueira

 

Preocupados com o tiro no pé do Brexit, as declarações biliosas de Schaüble, as inconveniências de Juncker e a sorte que espera esta Europa, os portugueses não têm prestado muita atenção ao Brasil. Mas no Brasil acontecem coisas que chegam para cobrir qualquer desgraça que se lhe contraponha. O clima tem a tensão e agressividade de pré-guerra civil – embora não haja uma guerra civil à vista.

 

 

Hoje que é dia de se falar de selecções, no Brasil onde nada corre bem, até a selecção da casa desistiu de dar uma alegria ao ser vergonhosamente eliminada da Copa América, perdendo por zero a um com o Peru. Para a população, foi mais uma machadada no prestígio nacional e motivo para lamentações. Em termos desportivos, seguem-se os Jogos Olímpicos, marcadas para Agosto. Ora, a menos de um mês do maior evento desportivo do mundo, a cidade do Rio de Janeiro ainda tem várias obras fundamentais por acabar, caiu a ponte duma ciclovia, matando duas pessoas, e a baia da Guanabara, onde decorrerão as provas náuticas, continua uma boca de esgoto. Os últimos vídeos mostram sofás a flutuar numa água castanha cheia de dejectos sintéticos e orgânicos. Os maiores investimentos urbanos, a vias rápidas Transolímpica, a Transcarioca e o metro, talvez não fiquem prontos a tempo. As razões para todos estes atrasos e desaires, são as mesmas de sempre: esquemas corruptos em que grande parte das verbas são desviadas, o que leva a construção deficiente e lenta. A administração da cidade entregou as obras a empresas de familiares ou amigos, que sobrefacturam a troco das habituais luvas (“propinas”). A situação chegou a tal ponto que a cidade se declarou oficialmente falida, o que obriga o Governo Federal a conceder mais uns milhares de milhões de reais de financiamento.

 

Internacionalmente, não faltam críticas ao que se passa no Rio, com receios de que os atletas apanhem doenças na baia ou sejam picados pelo mosquito zika. Também há o problema da segurança; os trombadinhas andam à solta pela cidade, roubando por puxão tudo o que o transeunte possa trazer, às vezes com violência. A polícia e os bombeiros fazem greve, com salários atrasados; e o Governador interino do Estado, Francisco Dornelles, de 81 anos, limita-se a dizer que está tudo sob controle, quando é gritante que não está. Antigo ministro da Ditadura Militar, mantém o estilo arrogante e não se sente obrigado a responder às incertezas colocadas pelos jornalistas.

 

Mas os problemas das Olimpíadas e o extremo perigo que é andar nas ruas do Rio de Janeiro não são os temas dominantes no país. O que realmente arrebata uma opinião pública cada vez mais radicalizada é a intensa luta política do dia a dia. Formalmente, é uma disputa jurídica, em torno dos vários casos de corrupção em julgamento, mais os novos casos que aparecem todas as semanas. Mas o corpo a corpo entre os elementos das partes interessadas é muito mais complexo e difícil de esclarecer, até porque as alianças fazem-se e desfazem-se conforme a sobrevivência imediata.

 

Em termos judiciais, o sistema funciona da seguinte maneira: as procuradorias federais (dos Estados) descobrem um caso de corrupção, a Polícia Federal prende os suspeitos, estes são julgados em primeira e segunda instância. A prisão torna-se efectiva (transita em julgado) a partir da segunda instância, mesmo que os réus recorram para o Supremo Tribunal Federal (STF). Perante uma pena de prisão normalmente pesada (12, 15, 25, 30 anos) o réu aceita denunciar novos ilícitos (a famosa “delação premiada”), o que leva a novos processos. Existe uma proposta para que o réu continue em liberdade até à decisão do STF, o que mudaria completamente a situação; não estando preso, é muito menos provável que se resolva a falar. Se a proposta for para a frente, a capacidade de investigação das procuradorias estatais fica reduzida a quase nada. Acresce ainda que os políticos em exercício só podem ser julgados pelo STF – é o chamado “foro privilegiado”. O Congresso votou o fim dessa benesse, mas o STF ainda não concretizou o processo, por razões óbvias: todos os actuais “privilegiados” deixariam de o ser e ficariam na mão das procuradorias estatais.

 

Dois anos e três meses após o início das investigações da Operação Lava Jato, fica cada vez mais evidente o contraste entre a celeridade dos julgamentos que levam a condenações em massa, em Curitiba, e a lentidão dos processos envolvendo réus com direito a foro privilegiado, em Brasília.

Estas são as disputas de fundo.

 

 

Depois, há as disputas caso a caso. O STF não tem prazo para decidir os processos, permitindo-se avançar com uns muito rapidamente e empatar outros meses ou anos. Nos 59 inquéritos, envolvendo 134 investigados, até agora enviados pela Operação Lava Jato ao STF, nenhum caso foi levado a julgamento e, portanto, ninguém foi condenado. Nem há previsão para que isso aconteça tão cedo. Há processos, como o de Aloísio Mercadante, que estão parados há anos no STF, sem qualquer explicação. O STF também pode devolver o caso ao juiz federal, alegando questões processuais, ou pedindo mais esclarecimentos, ou ainda eliminando partes da investigação. É o caso de Lula. O ministro do STF, Teori Zavascki (nomeado por Dilma), começou por tirar as investigações contra o ex-presidente das mãos de Sérgio Moro. Moro não podia investigar Lula e, evidentemente, personagens com foro, como Dilma e os seus ministros.  As apurações já feitas por Moro tratavam, por exemplo, da suspeita de que construtoras envolvidas em corrupção na Petrobras prestaram favores ao ex-presidente na reforma de uma quinta em Atibaia e de um apartamento em Guarujá. Mas a pressão foi tal que Zavascki acabou por enviar processo de Lula para Moro; contudo retirou dos autos a famosa conversa entre Lula e Dilma em que ela lhe oferece um lugar no ministério para lhe dar foro privilegiado. Sem essa conversa, Dilma fica protegida da acusação de obstrução da justiça. As mudanças de opinião dos juízes do STF (de onze, só três não foram nomeados pelo PT), andam ao sabor das conveniências e filiação política.

 

Entre os políticos, o único que já se tornou réu é o presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha, o político que liderou o processo de impeachement contra Dilma. Na semana passada, por unanimidade, os onze ministros do STF acataram nova denúncia feita pela Procuradoria Geral da República. Cunha é acusado pelos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e “falsidade ideológica” (adulteração de documentos). Esta semana, e após uma reunião com o presidente em exercício Michel Temer, Cunha demitou-se da presidência da câmara baixa do Congresso, ensaiando um melodrama no momento do anúncio.

 

Outro exemplo: Paulo Bernardo, ex-ministro do PT, foi apanhado num esquema terrível: ele e os seus apaniguados criaram uma empresa, a Consist, para gerir informaticamente os empréstimos feitos por funcionários públicos reformados. Por cada empréstimo o reformado pagava, sem saber, um real por mês para a Consist. O esquema teria dado cerca de 100 milhões de reais ao grupo. Paulo Bernardo é casado com Gleisi Hoffmann, a senadora que defende o Dilma no processo de impeachment e tudo indica que parte do dinheiro foi usado para gerir a sua eleição. Dos oito acusados, sete foram detidos e um oitavo apareceu envenenado. Mas, antes que a investigação prosseguisse, o juiz do STP Toffoli mandou libertá-los, indicando tratar-se de um “constrangimento ilegal”...

 

A politica do país transformou-se num carnaval, não no sentido de todos se divertirem, mas na imagem de uma festa de brincadeira onde os mascarados pulam de acordo com objectivos pouco claros, no meio do chinfrim das declarações e contra-declarações, entre o ridículo e o despudorado.

A opinião pública está farta, mas o cortejo de poucas-vergonhas ainda vai no adro.

 

 

publicado às 00:05

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