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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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A fotografia da miúda vietnamita, nua, a fugir do napalm seria publicada hoje?

Por: Paulo Ferreira

As limitações externas ao direito de informar podem ser um caminho sem fim. Hoje é o nome dos terroristas, para tentar evitar mais atentados. Amanhã pode ser o próprio acto terrorista, cuja omissão informativa, se fosse possível, seria ainda mais eficaz nesse propósito de travar a repetição.

 

 

Como combater o terrorismo, este terrorismo que vivemos? A pergunta sugere mil e uma respostas ou sugestões, num problema onde há mais dúvidas do que certezas. Mas sabemos duas coisas: não há uma solução mágica, que seja rápida e eficaz; e qualquer caminho que seja escolhido terá sempre um custo para ser avaliado ao lado dos benefícios.

 

 

Uma das questões centrais está na conciliação das nossas liberdades individuais e colectivas com as eventuais derivas securitárias e policiais que podem justificar-se em função da ameaça.

 

 

Mas queria centrar-me num ponto concreto, que é o da liberdade vs. responsabilidade do jornalismo e da informação.

 

 

O assunto tem sido discutido na Europa, a propósito de propostas para condicionar um ou outro aspecto das notícias relacionadas com a cobertura de atentados terroristas. Ontem, aqui mesmo, o Francisco Sena Santos reflectiu sobre o assunto e sobre o fenómeno de repetição que as notícias podem suscitar em relação a determinados factos. E isso deve fazer-nos pensar.

 

 

A informação e o jornalismo têm impacto público e condicionam vidas individuais e fenómenos colectivos. Diria que é também para isso - ou sobretudo para isso? - que existem. O seu valor social e democrático está precisamente aí, na capacidade de intervir através da informação, do relato e interpretação de factos. E o seu impacto é tanto maior quanto maior for a qualidade do jornalismo que é feito.

 

 

Não podemos, por isso, querer simultaneamente comer o bolo e ficar com ele intacto.

 

 

O jornalismo mexe com pessoas, pode destruir empresas e governos, interfere na nossa qualidade de vida. Pode fazer centenas perder empregos ou ameaçar a segurança militar ou financeira de um país. Pode alterar o curso de uma guerra, intensificando-a, ou contribuir mais rapidamente para a paz.

 

 

Se estes impactos são reais e se preferíamos não ter alguns deles a pergunta que temos sempre que fazer é esta: quem pode e deve criar excepções que limitem a liberdade e o dever de informar para além das melhores práticas que estão previstas na generalidade das democracias liberais e que já fazem parte das leis?

 

 

Para além destas, por regra fico de pé atrás em relação a qualquer limitação ao relato de factos que podem ser de interesse público ou que fazem parte de uma história que está a ser contada.

 

 

E a minha desconfiança vai desde a mais insignificante trivialidade - já repararam que nos jogos de futebol agora são ocultadas as caricatas invasões pacíficas de campo feitas por adeptos isolados com mais ou menos roupa? - até temas importantíssimos como o que estamos agora a discutir, o terrorismo. Porque a essência do mecanismo é a mesma: alguém, motivado certamente pelas melhores intenções, cria ou seguere a criação de uma fonteira nova, mais recuada, no direito e dever de informar.

 

 

A sugestão para a omissão do nome de terroristas nas notícias é um desses casos. Percebo a intenção, que é boa e pretende dar um contributo positivo, tentando travar a glorificação dos terroristas entre os apoiantes extremistas. Não sei se essa limitação informativa teria algum impacto real, ainda que fosse respeitada pela totalidade dos órgãos de informação institucionais, sobretudo nesta era em que somos todos “jornalistas” com capacidade para publicar nas plataformas electrónicas.

 

 

Mas o princípio da limitação à informação e das regras gerais e cegas é um mau caminho que não nos leva, tudo ponderado, a um sítio melhor. Sobretudo quando impostas por fora.

 

 

Tal como acontece, em regra, nas notícias sobre suicídios, são os jornalistas, a cada momento, que reflectem e decidem sobre a sua divulgação. Os casos isolados, individuais, por regra não são noticiados. Mas há casos em que o suicídio é notícia, e muito importante. Os casos dos 30 funcionários da France Telecom que, entre 2008 e 2009, puseram termo à vida são um bom exemplo disso. Cada um deles foi uma decisão individual mas ninguém contesta a importância de os noticiar para nos obrigar a reflectir sobre o que lhes poderá ter estado na origem.

 

 

Raramente as questões editoriais e os dilemas que são colocados às redacções são a preto e branco e susceptíveis de uma prática comum binária, sim ou não.

 

 

As limitações externas ao direito de informar podem ser um caminho sem fim. Hoje é o nome dos terroristas, para tentar evitar mais atentados. Amanhã pode ser o próprio acto terrorista, cuja omissão informativa, se fosse possível, seria ainda mais eficaz nesse propósito de tentar evitar a repetição.

 

 

Encontram-se sempre “bons” motivos de segurança pública, defesa nacional ou ordem social para tentar travar a divulgação de algumas informações ou imagens. Desde as fotos das urnas em que os soldados americanos caídos no Iraque regressavam ao seu país até aos incêndios florestais no tempo do Estado Novo, que eram censurados, levando gente mais antiga a concluir erradamente que “no tempo do Salazar não havia incêncidos”.

 

 

Apesar de tudo, dos abusos e de más práticas jornalísticas, continuo a não encontrar melhor local para tomar as decisões sobre o que publicar ou não publicar do que as redacções. São os jornalistas que devem fazê-lo, caso a caso, e ponderando tudo o que pode estar em causa em cada opção concreta. Devem ponderar os vários conflitos que se colocam entre direitos fundamentais - direito de informar vs. direito ao bom nome ou à reserva de vida privada, por exemplo -, decidir e depois ser avaliados e julgados por eles. Julgados pelo público, em primeiro lugar. Nos tribunais, se for caso disso.

 

 

Indo mais longe na reflexão.

 

 

Será que a icónica foto da criança vietnamita a fugir de um ataque de napalm hoje seria publicada na capa de um jornal ou revista? Em 1973 o fotojornalista Nick Ut ganhou o prémio Pulitzer por ela.

 

 

Ainda sobre o Vietnam, hoje seria divulgada a foto da execução de um jovem vietcong pelo chefe da polícia de Saigão?

 

 

A divulgação destas e de outras imagens e a intensa cobertura jornalística contribuíram para pôr fim ao conflito. E é possível que o fim da Segunda Guerra tivesse sido acelerado se se conhecessem e o mundo visse as atrocidades massivas que os nazis estavam a praticar nos campos de concentração.

 

 

Não tenho dúvidas que uma sociedade mais bem informada é sempre melhor do que outra em que há limitações informativas. Ainda que essas limitações tenham a boa intenção de proteger essas sociedades dos seus próprios males.

 

Outras leituras

 

- Pedem-se os estudos aos grupos de trabalho. Mas se as conclusões não agradam, eles ficam na gaveta. Para quê então gastar tempo e recursos a fazê-los se os governos decidem o que bem entendem independentemente das opiniões dos peritos a que pedem conselhos?

 

- Um país seguro como o nosso tem muito valor. Assim o saibamos capitalizar.

 

publicado às 15:34

Agora tu és um cavalo de corrida

Por: Rute Sousa Vasco

O que fica a saber do mundo, sobretudo em momentos de grande tensão, um leitor que lê informação nos sites e nas redes sociais? No conforto preguiçoso do seu sofá, ou no espaço higienizado do seu escritório, que informação é dada naquele fuso que se tornou obrigatório nas notícias – o “agora”? O que sabe, na realidade, o caríssimo leitor sobre o que se está a passar no interior de uma igreja no norte de França ou num restaurante, no sul da Alemanha?

 

 

Sabe o que lhe dizemos. Agora, dizemos que são dez feridos. Agora, dizemos que já há um morto. Daqui a um minuto, no próximo agora, dizemos que afinal são onze feridos. Depois dizemos que o morto é sírio e que terá sido abatido. Mais um agora, e afinal já se sabe que se suicidou. Dizemos que um padre foi morto por um mulçulmano. Dizemos que um miúdo matou outros dez, porque era muçulmano. Começou por ser turco, passou por alemão, agora parece que é iraniano e de extrema-direita. Afinal não, era só manipulação para dividir a opinião. Mais um agora e afinal há menos feridos. Melhorou. Mas afinal o padre foi degolado. Piorou.

 

 

É isto que se sabe. O que não se sabe é como hoje a informação se tornou, provavelmente, a área mais difícil e ao mesmo tempo mais fácil para se trabalhar. Tudo depende da perspectiva. É fácil publicar – fácil como nunca foi. É estranho o que significa hoje “publicar” – significa, em grande medida, seguir o que outros escrevem, nos seus sites, ou em redes sociais, onde no que respeita a primeiras notícias (ou últimas horas, como quiserem), o Twitter é rei. Quem é rei no Twitter? Depende. Há reis encartados pela reputação de anos, há oportunistas malévolos e há súbitas fontes de informação directas – como foi o caso da página de Twitter da polícia de Munique, na sexta-feira passada, que foi a referência de muitos jornalistas para seguir o tiroteio que teve lugar na cidade alemã.

 

 

Mas é mais difícil do que nunca trabalhar informação naquilo que distingue o jornalismo de um outro qualquer produto de consumo. Num negócio que luta por novas receitas e por novos modelos de negócio, tudo parece boa ideia a alguém em algum momento. Jornalistas, gestores, vendedores de publicidade, tecnólogos, gestores de redes sociais, por aí fora. E é legítimo – é preciso experimentar, é preciso testar, é preciso não desistir. O problema é que a linha que separa o que se pode fazer quando se trata de informação do que não se pode fazer é ténue para muitos, mas quase sempre está preparada para electrocutar. Uma vez passada, já alguém se fritou. E não tem problema – há muito lugar na selva dos media contemporâneos para produtos fritos, provavelmente até mais do que para o jornalismo saudável. Mas, é tal qual escrevia Katherine Viner, a directora do The Guardian, num artigo sobre a verdade nos tempos da tecnologia. “Nos últimos anos, muitas empresas jornalísticas afastaram-se do jornalismo de interesse público e apostaram em notícias junk-food, correndo atrás de pageviews e com a vã esperança de atrair cliques e publicidade (ou investimento) – mas, tal e qual como acontece quando comemos junk food, odiamo-nos por ter feito isso”.

 

 

Ser rápido tornou-se o requisito principal de uma profissão que tem como missão reunir factos e propor interpretações sobre os mesmos. Agora é suposto fazer isso em menos de 30 segundos, porque numa janela qualquer do nosso computador já outro editor em qualquer outro site ou rede está a ser mais rápido a teclar. Com erros inevitáveis, demasiadas vezes sem confirmação, cheios de verbos no condicional, aí vamos nós, em direcção ao precipício da publicação. Mas é preciso publicar, rápido.

 

 

Ao compasso impiedoso de cada tweet, de cada trending topic, de cada post, de cada link, de cada última hora.

 

 

E é também assim que estamos a deixar fermentar a selvajaria – a pior de todas, aquela que nos vai deixar selvagens perante a selvajaria do mundo lá fora.

 

 

Em muitas redacções, não se pensa, tecla-se. Quem quer discutir princípios e consequências, não tem perfil. Há métricas para avaliar quantos artigos são publicados ou produzidos – curiosamente o termo “escritos” quase caiu em desuso nesses espaços – por hora. Publica, publica, publica. O que conta é chegar primeiro e publicar muito. Não é um problema só nosso – é um problema da maior revolução de sempre na forma como comunicamos, informamos e nos relacionamos.

 

 

A New York Magazine entrevistou mais de quarenta jornalistas e profissionais de media sobre a sua profissão. Vale a pena ler os resultados integrais, mas deixo um pequeno aperitivo.

 

 

Dos inquiridos, 75% acham que a internet foi boa para o jornalismo. Mas 44% respondem que o jornalismo é hoje pior do que há dez anos versus 36,7% que consideram que está melhor. 75,2% afirmam que sentem pressão para produzir histórias que sejam atractivas para a audiência. E de onde sentem a principal pressão? Da audiência? Não. Do patrão (41,07%) e aquela que o próprio jornalista exerce sobre si próprio (36,5%). Audiência só conta 17,8% nesta equação.

 

 

Já agora, 81,5% destes inquiridos dizem que os media ajudaram a “criar” Donald Trump.

 

 

E é aqui que me lembro de uma pergunta que há sempre alguém que faz. Qual é o mal? Apetece-me hibernar cada vez que ouço esta pergunta. Não pela sinceridade e mesmo ingenuidade com que alguns a farão. Mas, mais uma vez, pela inconsequência. Qual é o mal de não ter mal perguntar sempre qual é o mal? É que nada tem importância, porque tudo só dura uns escassos minutos e depois ninguém se lembra. São Dorys, o peixinho de águas quentes, feliz porque desmemoriado.

 

 

Tenham um bom fim de semana

 

 

 

Outras sugestões de leitura:

 

 

Hoje as sugestões de leitura de ficam integralmente em casa, ou seja, no SAPO24. Porque a oferta é boa e vale a pena o vosso tempo.

 

 

A primeira sugestão é um artigo da Helena Oliveira sobre uma nova epidemia, a do narcisismo. Qual Narciso, há cada vez mais pessoas apaixonadas pelo seu próprio reflexo e assim se multiplicam posts, fotos, streaming da vida diária. Psicólogos, filósofos e outros cientistas sociais estão preocupados com uma epidemia que cresce mais depressa que a da obesidade.

 

 

A segunda gestão, na semana em que Hillary Clinton se tornou a primeira mulher candidata à presidencia americana por um dos grandes partidos, é a leitura do artigo do José Couto Nogueira sobre as mulheres que antes dela tentaram lá chegar

 

publicado às 14:41

Nem nos deixam tempo para pensar

Por: Sena Santos 

Será que poderemos contrariar a perda do sentido do tempo? Cada dia há um qualquer acontecimento que remove e monopoliza o foco que incidia sobre o que tinha acontecido 24 horas antes, sem termos tido tempo para, em volta do caso anterior, tentar encontrar uma resposta justa que nos conduza à esperança.

 

Numa noite foi o terrorista que usou como bomba um TIR branco para, numa canalhada impensável num ser humano, massacrar as pessoas em festa em Nice. Ele usou o camião contra todos nós, para nos atropelar a todos. Na noite seguinte foi a brutalidade do estanho golpe na Turquia do sultão Erdogan. Passadas outras 24 horas, a notícia era a intolerável violência persecutória do ambicioso autocrata turco que se serve do golpe para reforçar o poder. Pelo meio, outra história, uma agitação e consternação nas redes sociais escritas em português: lastimava-se a revelação de que Liedson, o levezinho no futebol, o avançado que era um 31 para as defesas adversárias, teria morrido subitamente de AVC. Revelação nas redes sociais, sem referência a qualquer fonte. Até que apareceu o próprio levezinho, estupefacto, a avisar que continua “bem vivinho”, mas sem saber como é que alguém o declarou morto aos 38 anos.

 

Emily Bell, diretora do Tow Centre for Digital Journalism na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, escrevia há semanas que “as redes sociais estão a engolir o jornalismo, mas não apenas o jornalismo, engolem também a política, as histórias das pessoas, até a segurança”. Bell comentava que o ecossistema das notícias mudou mais nos últimos cinco anos do que em qualquer outro período dos últimos cinco séculos, desde o tempo de Gutenberg.

 

Há exatamente uma semana, Katharine Viner, diretora do The Guardian, publicou um essencial artigo de opinião em que analisa as profundas transformações que o jornalismo está a atravessar em consequência da consolidação das redes sociais. Viner, escolhida há um ano para substituir na direção do The Guardian o mítico Alan Rusbridger que fez o jornal britânico tornar-se líder global nas edições digitais, é uma mulher jovem mas muito experiente, competente. Ela alerta no texto publicado no dia 12 deste julho que as redes sociais, em vez de divulgar notícias que contribuem para o bem da sociedade e que são a essência do jornalismo, tendem mais para difundir o que está baseado em opiniões ou até rumores em vez de factos verificados.

 

Como surgiu a notícia falsa que galgou pelas redes sociais de que Liedson teria morrido?

E quando são publicadas as imagens de pessoas em agonia tombadas num passeio depois de terem sido esmagadas por um terrorista, como aconteceu na noite de quinta-feira, a liberdade está a ser respeitada?

Como comenta Katharine Viner, precisamos de meios de comunicação fidedignos, que contrastem os factos, que sejam intransigentes no rigor e que tenham sentido crítico sobre o que é noticiável.

 

As redes sociais trouxeram milhares de vantagens, mas tornaram mais difícil distinguir factos de não factos. Viu-se com o caso próximo de Liedson como é fácil fazer propagar uma informação que é falsa. Tal como se tinha visto na noite de 13 de novembro de terrorismo jiadista em Paris com os rumores de que, depois do Bataclan, o Centre Pompidou e o Louvre também estavam a ser atacados. Ou na quinta-feira funesta em Nice com a angústia a ser ampliada com boatos sobre tomada de reféns. Com ou sem deliberada malícia. Sem jornalismo. Com métodos que o jornalismo só pode recusar.

 

Vivemos tempos alucinantes. É uma era que provavelmente tem início em 2001, o ano da matança terrorista de 11 de setembro nos EUA. Vale lembrar essas horas que todos vivemos aterrados com os olhos presos aos ecrãs. Vimos em direto o impacto do segundo avião nas torres do World Trade Center. Vimos em direto o ataque ao Pentágono.  Vimos em direto o desmoronamento das torres. Foi uma tarde (no horário europeu) que parecia de prelúdio ao fim de um mundo. Não se sabia o que viria a seguir, sabia-se que a Al Qaeda estava a declarar guerra total ao nosso modelo de vida.

 

Agora, passados 15 anos, a Al Qaeda parece ter ficado desmembrada e enterrada com a morte de Bin Laden, mas das areias do deserto emergiram grupos e grupúsculos que estão a realizar a desestabilização terrorista do Ocidente ambicionada por Bin Laden. Dois anos e meio depois do 11 de setembro, em 11 de março de 2004, foi a matança de 200 pessoas e um milhar de feridos nos hospitais com as bombas nos comboios de Madrid. No ano seguinte, em 7 de julho de 2005, foram os ataques no metro de Londres, 56 mortos e 700 feridos. Veio 2007 e fomos apanhados pelo colapso do sistema de especulação financeira – desespero para tantos milhões de pessoas.  O terrorismo alastra de modo contínuo, por meio mundo. Os EUA estão massacrados por uma sucessão de episódios de violência racial. Há a infernal sequência de atentados terroristas na África central e mediterrânica, no Médio Oriente, no Paquistão, na Índia, no Bangladesh. E nem é preciso relembrar Paris e Bruxelas. Uma potência europeia decidiu sair da União Europeia. O que pode significar a separação de uma cidade universal como é Londres?  

 

As coisas acontecem e mal temos tempo para pensar na resposta justa. Provavelmente, é o que mais convém a quem nos ataca, sendo que o pensamento sereno e a inteligência estratégica são armas fundamentais para a nossa esperança.

 

A informação, rigorosa, sem dramatização, sem efeitos especiais, é outra arma vital num tempo em que, como evocou David Grossman numa entrevista ao La Repubblica, “o terrorismo está com uma força imensa, capaz de paralisar uma sociedade civil e reforçar os estereótipos racistas”. Grossman, grande escritor hebraico, valente militante pacifista, vive no centro de uma história dramática, a da guerra entre Israel e a Palestina, sofreu a dor da perda de um filho na guerra do Líbano, ele avisa-nos nesta entrevista ao La Repubblica: “É previsível que quanto mais uma sociedade estiver exposta ao terrorismo, tanto mais fortes se tornem as forças nacionalistas e racistas. Assim veremos nos próximos tempos a instalação de mais governos de direita que ao imporem medidas duras vão empurrar minorias para a posterior radicalização”.

 

Nestes dias decorre em atmosfera de epopeia a entronização de Donald Trump como candidato presidencial dos republicanos e não apenas os menos moderados nos EUA. Parece evidente que o derramamento de sangue como aconteceu em Dallas ou em Baton Rouge dá votos a Trump. Também parece claro que o triunfo das ideias de Trump não é coisa boa para a democracia.

 

As ferramentas que tínhamos para entender o que se passa à nossa volta não estão a responder. Os media serão preciosos se forem capazes de dar a mão para fazer compreender. Isso também implica saber dar consistência ao tempo.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

 

A repressão humilhante imposta pelo vencedor na Turquia. Milhares de soldados, juízes e procuradores, acusados de cumplicidade com os golpistas e com a oposição, estão na primeira linha da repressão desencadeada pelo regime de Erdogan. As imagens da agência ANSA que fazem a primeira página no L’Unità e no Corriere della Sera evocam as purgas na URSS de Estaline, na Alemanha de Hitler ou na China de Mao e Deng: centenas de militares prisioneiros, como se fossem animais lidados com desprezo, vergados, com o tronco nu, mãos algemadas atrás das costas. É a lógica do arbítrio de um regime que ameaça voltar à pena de morte.

 

 

O arrependido ghostwriter de Donald Trump: com remorso e com temores.

 

 

Faltam duas semanas para o começo dos Jogos Olímpicos. O que mexeu no Rio de Janeiro.

 

 

Uma primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS: o assunto também é o calor.

publicado às 10:09

Acredite se vir no Facebook. Ou se calhar, não

Por: Rute Sousa Vasco

 

Os adolescentes são a verdadeira medida do mundo nos dias que correm. Andam (alguns) adultos tão distraídos que lhes escapam os verdadeiros fenómenos contemporâneos. É possível que estes adultos não saibam quem é Candace Payne e isso só prova que estão mesmo distraídos.

 

O que os salva da total alienação é que, provavelmente, têm filhos, sobrinhos, afilhados ou filhos de amigos que são adolescentes. Eu sou salva diariamente pelos meus adolescentes. É por causa deles que sei coisas como, por exemplo, quem é Candace Payne. Mesmo que tenha demonstrado um desinteresse olímpico pelo tema e até alguma irritação pela sonoridade prolongada que lhe está associada. Claro que tudo isto durou apenas meia dúzia de horas até perceber que aquilo que me tinha sido mostrado através de uma rede social qualquer, era agora tema de notícias. E ainda muito antes de saber que Candace Payne se tornaria uma celebridade instantânea e que por causa de um vídeo de quatro minutos visto por quase 150 milhões de pessoas estaria no The Late Late Show de James Corden e seria apresentada a J.J Abrams e Mark Zuckerberg.

 

Para outros distraídos que ainda não sabem quem é Candace Payne, a história conta-se em poucas linhas. Candice é uma americana de 37 anos que decidiu comprar uma máscara do Chewbacca, o companheiro de Han Solo na Guerra das Estrelas, e experimentá-la no carro. Transmitiu essa “pequena alegria da vida”, como lhe chamou, para a sua rede de Facebook através do botão de “live” e as suas gargalhadas contagiaram pessoas em todo o mundo. O video tornou-se o live mais visto de sempre e Candice entrou nos trending topics da semana.

 

Há nesta nova ordem do mundo uma democratização que a torna, de alguma forma, justa mesmo que parva. Muitos dos conteúdos ‘virais’ são só parvos. Mas são vistos e partilhados por milhões de pessoas que os escolheram, recomendaram e elevaram à categoria de trending topic. Goste-se ou não, isto é democrático. Goste-se ou não, isto fura com o status quo dos suspeitos do costume, aquela meia dúzia que está sempre citada nas notícias, porque desde os tempos imemoriais prevalece entre (alguns) jornalistas o sentido de missão de, dia após dia, relatar que essas pessoas disseram coisas. É o chamado jornalismo do ‘disse que’ em detrimento do jornalismo do ‘fez o quê’.

 

Mas o video de Candice não é uma notícia. É outra coisa qualquer e conseguiu muito mais atenção do que as notícias, em média, conseguem. E essa alocação do nosso tempo disponível é que é um fenómeno que merece a nossa atenção. Numa conferência a que assisti recentemente, a Interact 2016, um dos oradores referiu que o tempo de atenção médio que hoje dedicamos a qualquer coisa que mexa online passou de 12 para 8 segundos. Estamos passos largos a caminho de sermos o peixinho vermelho no aquário redondo.

 

E, na selecção que fazemos, conta cada vez mais o poder da recomendação. As recomendações são uma indústria. Desenvolvem-se algoritmos nas mais diversas esferas para gerar recomendações, sugestões, listar mais populares, etc. Da precursora Amazon ao mais-querido do momento Netflix, este é um dos segredos do sucesso.

 

E, claro, há o Facebook. Essa rede de 1.6 mil milhões de utilizadores que se está a tornar, dia após dia, o editor de notícias favorito. Só que, na realidade, o Facebook não edita, tal como não escreve ou não produz conteúdo no sentido efectivo do tema. O Facebook escolhe, mediante critérios ou parâmetros que os seus engenheiros definem tendo como principal matéria-prima dados dos seus utilizadores, o que lêem, o que partilham, o que publicam. Esta é a parte benigna do processo – tão democrática, vista desta forma, como a possibilidade de Candice Payne se tornar uma celebridade do dia para a noite por causa de um vídeo com uma máscara do Chewbacca.

 

A parte mais obscura é aquela sobre a qual apenas podemos especular, porque certezas absolutas ninguém tem. O site Gizmodo trouxe essa discussão para a primeira linha de debate ao publicar acusações segundo as quais o Facebook omitia artigos com pontos de vista conservadores na sua seleção de histórias mais populares. Mark Zuckerberg percebeu que o assunto era sério e não perdeu tempo. Anunciou uma investigação interna, reuniu com os políticos da ala conservadora nos Estados Unidos e dias depois veio dizer que, mesmo sem qualquer sinal de enviesamento na selecção das notícias, o Facebook iria fazer mudanças para garantir a objectividade política.

 

Tudo isto mostra que o tema é sensível, sobretudo em ano de eleições nos Estados Unidos, sobretudo porque mexe com pessoas com poder de fogo. Mas, na realidade, todos os dias milhões de pessoas deixam-se editar pelas suas redes. Cada vez mais, vemos aquilo que os nossos amigos ou conhecidos nos mostram que estão a ver. Ou, sendo mais precisa, aquilo que as pessoas que gerem redes sociais dizem às máquinas para nos mostrar a partir do que os nossos amigos e conhecidos vêem.

 

Com uma particularidade deliciosa. Quando alguma coisa corre mal pode sempre dizer-se que a culpa é da máquina. Que é preciso ajustar o algoritmo. Esta é a desculpa que faz as delícias dos supremos manipuladores. Poder condicionar a opinião sem assumir qualquer responsabilidade na escolha, sem jornalistas a questionar orientações, sem editores a validarem informação. As acusações veiculadas no Gizmodo tiveram como fonte ex-colaboradores do Facebook, nomeadamente jornalistas ou “news curators”, que é uma forma moderna e, aparentemente, um termo de maior empregabilidade para designar editores.

 

Claro que os problemas tinham de vir daí. Os problemas vêm sempre das pessoas e, sobretudo, pessoas que trabalham com matéria tão sensível quanto a informação. Mas, mesmo que a maior parte da nação Facebook não se aperceba, o que a rede social se quer tornar é num gigantesco portal de notícias e de e-commerce. O maior, o mais influente, à escala global. E para servir notícias não basta apenas mastigar os dados da rede de cada um de nós. É preciso ter pessoas a seleccionar informação, a hierarquizar temas, a avaliar credibilidade de fontes. Deixem lá ver… a fazer jornalismo, mesmo que em modo menos convencional. Porque a alternativa é ter uma lista de “notícias” com muitos Chewbaccas e, infelizmente, para todos os que produzem informação, o Chewbacca até é um rei na selva de parvoíce que os indicadores de mais populares mostram em muitos sites.

 

As máquinas estão a ser ensinadas e estão a ficar melhores a cada dia.

 

As máquinas, tal como o Chewbacca, não têm culpa.

 

Só precisamos de não nos esquecer que, por trás das máquinas, estão homens e esperar que haja por aí uns quantos Han Solos quando os impérios contra-atacam.

 

Tenham um bom fim de semana

 

Outras sugestões de leitura

 

Já que estamos em modo redes sociais, fica aqui uma sugestão de leitura sobre o direito à privacidade assinado pelo Pedro Fonseca.

 

O Márcio Candoso escreveu esta semana sobre touros e óperas e o local onde ambos convergem. Se estão a pensar que nada os liga, leiam a história e vão perceber que não é bem assim.

 

E para rematar, uma daquelas histórias que nos faz sorrir e que já deve ser um trending topic. Sobre uns óculos esquecidos que se transformaram, também eles, numa celebridade. Ou, neste caso, numa obra de arte.

publicado às 11:26

Aqui mesmo ao lado

 

Por: Pedro Rolo Duarte

 

“Os canais e os meios mudam, mas o jornalismo continua a ser o mesmo: procurar a notícia, decidir da sua relevância, exercer o contraditório com rigor, contá-la bem e publicá-la com liberdade”. As 34 palavras que fecham o editorial de ontem do diário espanhol El País, assinalando os seus 40 anos de vida, resumem o que fez deste jornal um dos mais respeitados do mundo, um dos maiores do mercado latino, e um exemplo de adaptação ao mundo digital e à informação nos tempos da tecnologia.

 

Baluarte da democracia que a Espanha viria a adoptar nos anos 70, o El Pais nunca escondeu a sua proximidade aos socialistas do PSOE, mantendo a tradição de boa parte da imprensa europeia (que em Portugal, lamentavelmente, não existe), de não esconder, antes assumir, as suas inclinações políticas. No caso espanhol, o jornal está bem acompanhado pelo concorrente El Mundo, próximo do PP, outro excelente exemplo de jornalismo, porventura mais ousado e moderno, mas não menos sério na abordagem da informação.

 

Ambos os diários enfrentam com ousadia o desafio das novas tecnologias, numa interacção cada vez mais dinâmica entre as edições impressas e as plataformas digitais - há reportagens do El Pais que ganham uma vida própria, complementar, enriquecida, nos videos que os leitores podem depois ver na Web -, enquanto perseguem um estilo de jornalismo que não exclui a informação dita mais popular, nem foge das matérias mais polémicas.

 

Num editorial recente no El Mundo, a respeito de uma entrevista que o jornal decidiu publicar com um preso, condenado a 40 anos de prisão pelo assassinato dos seus dois filhos em 2011, o director David Jimenez escrevia: “O jornalismo não é uma viagem à Disneylândia, porque a vida também não é; ignorar o mal não o faz desaparecer. Contá-lo e tratar de o desvendar perante a opinião publica é uma causa não apenas legitima, mas necessária”.

 

É esta abertura a todas as frentes da notícia que contribuem para que possamos olhar para El Pais e El Mundo como materiais que no futuro farão História. E é essa realidade que nos falta em Portugal.

 

Há amigos que estranham o facto de ser comprador habitual do “Público” e do “Correio da Manhã” (CM), e eu explico sempre a mesma coisa: se ler apenas um deles, fico com uma imagem distorcida da realidade - no CM, Portugal vive em estado de sitio, entre violações, catanadas, mortos, roubos, corrupção e Sócrates; pelo contrário, no “Público” praticamente não há criminalidade, a televisão não tem lixo nem reality-shows, há descobertas cientificas fascinantes e as pessoas que realmente marcam a nossa vida têm o obituário que merecem (exemplo recente: a morte do fotógrafo Pedro Cláudio ocupou duas páginas no “Público”, e não mais de 20 linhas no “Correio da Manhã”. Era o “Público” que estava certo, claro). Ou seja: no cruzamento da leitura dos dois jornais acabo por ficar diariamente com uma ideia do mundo em que vivo. Mas não é natural que tenha de ler dois jornais distintos para chegar a uma aproximação da realidade. E talvez esta obtusa circunstância explique o sucesso do “CM” e o declínio inexorável do “Público”: o primeiro por força do seu jornalismo popular, o segundo pelo desinvestimento claro na edição em papel e consequente fragilidade da plataforma online. Mas também pelo preconceito que o levou a ignorar meses a fio o caso Barbara Guimarães/Manuel Maria Carrilho - ou, esta semana mesmo, a polémica biografia onde se acusa Emídio Rangel de ser “culpado” pelos presumíveis vícios da ex-mulher Margarida Marante (sem que o próprio se possa defender, sem factos, sem provas…).

 

O exemplo do El Pais e do El Mundo, aqui mesmo ao lado, deveriam inspirar e convocar os editores da nossa imprensa de referência. Mas não me parece que tal suceda. Este aniversário redondo do diário que nasceu para “ajudar” a democracia espanhola a caminhar, depois de gatinhar, prova que os 40 são mesmo os novos 30. Mas não para todos…

  

 

ESTA SEMANA NÃO PASSEI SEM…

 

Ir ao Museu da Electricidade ver a edição 2016 da World Press Photo, exposição que reúne 150 das melhores fotografias que o jornalismo nos deu no último ano. Realidades cruéis, aqui e ali apaixonantes, sofridas, sentidas, há de tudo, até mesmo um português premiado - curiosamente, foto-jornalista de uma agência nacional, mas que foi ao Senegal por conta própria, e de licença sem vencimento, para captar a imagem que acabou por ser premiada…

Quem não puder vir a Lisboa, tem a exposição toda na net, ao alcance de um clique.

 

A matéria já tem alguns dias, mas vale a pena recuperá-la. O premiado Chef Tom Colicchio escreveu na “Time” sobre o desperdício alimentar. E disse: “Quando eu descobri que a América desperdiça 40% da sua comida, fiquei chocado. Este é um país onde cerca de 50 milhões de pessoas não têm a certeza sobre como vão conseguir a sua refeição seguinte… Ainda assim, deitam fora milhões de toneladas de alimentos por ano”. E reflecte sobre este crime sem punição e paradoxo sem explicação…

 

Num tempo em que a imprensa diária vive mais online do que no papel impresso, não podemos considerar perder tempo dar uma vista de olhos regular pelos jornais que, em todo o Mundo, vão vivendo entre um mundo e o outro. Este portal é mesmo uma porta aberta, organizada por continentes e por línguas (português incluído), dos jornais de todo o Globo. Nem que seja por passeio, vale a pena navegar aqui…

 

publicado às 09:59

Um dia para a coragem de informar

 

Por: Francisco Sena Santos

 

Machado de Assis é um dos mais notáveis e inspiradores escritores na língua portuguesa. Cronista acutilante, ele definiu, em meados do século XIX, a imprensa como “a verdadeira forma de república do pensamento.” Machado foi mais fundo no esquadrinhar do papel da imprensa: “É a reprodução diária do espírito do povo, o espelho comum dos factos e dos talentos, locomotiva intelectual em viagem para mundos desconhecidos, literatura comum universal, altamente democrática, reproduzida todos os dias, levando em si a frescura das ideias e o fogo das convicções.”

 

Neste dia 3 de maio, data anual da celebração por todo o mundo da liberdade de imprensa, será pertinente pensarmos em como está essa “faísca da inteligência”, prolongamento da liberdade de expressão, garante do acesso de todos à informação plural que nos permite compreender o que se passa tanto à nossa volta como lá longe.


Os diagnósticos globais inquietam: “Estamos no 12º ano consecutivo de declínio global da liberdade de imprensa pelo mundo”, alarma-se a Freedom House, de Washington, no seu relatório anual com foco sobre 199 países. A análise dos Repórteres Sem Fronteiras (RSF) confirma que a liberdade de imprensa está a ser dinamitada: “Todos os indicadores (independência dos jornalistas, auto-censura, transparência, abusos e legislação vigente) mostram que a liberdade de imprensa está a degradar-se em todas as regiões do mundo; que entramos numa nova era de propaganda, com vários países onde as autoridades tentam limitar o debate público, e que há um elevado grau de violência contra quem representa a informação independente.” Os relatórios coincidem na avaliação de situação particularmente agravada na América Latina, onde é constatada violência institucional na Venezuela e no Equador, ameaças do crime organizado nas Honduras, impunidade na Colômbia, crise dramática no México, corrupção no Brasil e concentração da propriedade dos media na Argentina. O Washington Post espanta-se com o resultado que mostra a África a ultrapassar as Américas no quadro da liberdade de imprensa. Síria, China, Coreia do Norte, Irão, Cuba e Rússia estão no fundo da lista negra em que Turquia, Polónia, Hungria e Bulgária também aparecem miseráveis em liberdade. A França, com a legislação anti-terrorista, está em queda vertiginosa no índex da liberdade de imprensa.


Cabo Verde está no relatório RSF como bom exemplo de imprensa livre, Moçambique tem registo de liberdade parcial e Angola aparece entre os países sem liberdade de imprensa, embora com liberdade parcial na internet.


Portugal aparece na avaliação RSF num simpático ou indulgente 23º lugar entre 180 países. O quadro legislativo português protege obviamente a liberdade de imprensa. A censura acabou com o 25 de abril. Mas há várias ameaças sobre o dia a dia da qualidade de informação nestes tempos de crise com erosão de valores.


As condições laborais nas redacções puxam para que a necessária determinação e coragem ceda ao medo de ficar indigesto perante quem manda e assim perder o lugar inseguro – não será esse um motivo para o declínio dos vitais conselhos de redacção? A precariedade está a disparar e a enfraquecer o jornalismo livre, promovendo a docilidade. Os despedimentos e as reformas precoces são outro barómetro do mal: nos últimos oito anos Portugal perdeu 1200 jornalistas.


A diluição das fronteiras entre jornalismo, comunicação e publicidade é uma ameaça cada vez mais séria – requer jornalistas e redacções fortes na defesa da deontologia.


A convergência dos media é a realidade actual e tornou-se um sistema – mas coloca preocupações sobre a liberdade e o pluralismo.


A competição pelo share dita cada vez mais a agenda – fica cada vez mais reduzida a autonomia dos jornalistas para contarem histórias que não prometem à partida grande audiência mas que são preciosas para fornecer dados objectivos e compreendermos o que acontece no mundo em que vivemos.


A reportagem e a investigação jornalística recuam enquanto crescem os espaços de opinião e debate ocupados maioritariamente por políticos – tantas vezes metidos num pugilato sectário desprovido de sentido de interesse público. Esgotam o espetador. Felizmente a rádio escapa a esses diálogos de surdos onde raramente é possível algum reconhecimento de mérito ao adversário.


A ânsia de imediatez e a proliferação do direto televisivo sem critério está a tornar-se uma ameaça – a falta de mediação especializada é o jornalismo a demitir-se da sua função.
O culto da híper-rapidez tende a ser inimiga da fiabilidade. É necessário algum recuo para que o enquadramento seja rico.


O valor de mercado do jornalismo original está a ficar espalmado – alguns circuitos das redes sociais instalam e credibilizam rumores que sugerem ser notícia, mas com realidades remodeladas. Ainda que esses rumores não sejam jornalismo contribuem para a quebra de confiança e respeito pelos media.


A publicidade está a reduzir o fôlego aos jornais – o World Press Trends Report de 2015 mostra que em 2014 os jornais pelo mundo conseguiram maior volume de receita nas vendas e assinaturas do que na publicidade.


Há alguns bons exemplos de adaptação de media de referência, agora também em Portugal, a este tempo digital – mas a publicidade digital cresce menos que o previsto e até um titã do jornalismo como é The Guardian está ameaçado por grave crise.


O jornalismo existe para ajudar o cidadão a pensar com liberdade e para proporcionar cultura. – não para o convencer, doutrinar ou estupidificar.


Seja como for, apesar de muitas e inquietantes ameaças, o jornalismo em Portugal escapa ao terror de perseguições violentas, assassinatos, sequestros ou detenções como acontece em tantos países do mundo. Há neste momento centenas de jornalistas que operam, sem mínimas garantias de segurança, em cenários de alta tensão. Estão lá para nos contar a vida de quem não tem voz. No último ano, diz-nos a RSF, pelo menos 63 jornalistas foram assassinados por exercer o seu ofício. Algumas vezes quem vai às linhas de risco são bravos repórteres portugueses – estou a lembrar-me de José Manuel Rosendo, de Paulo Moura e de Cândida Pinto, entre outros.


Machado de Assis acreditava que a imprensa seria uma arca poderosa ou um banco inteletual onde se discutiriam as ideias, as questões e os problemas, mostrando o pensamento humano, desenvolvendo a confiança, a riqueza e os melhoramentos. Portanto, Machado, sendo um inquiridor da modernidade e um percursor de tendências, também era um utópico.

 


TAMBÉM A TER EM CONTA NESTE DIA MUNDIAL DA LIBERDADE DE IMPRENSA:

Jornalistas turcos denunciam a “caça às bruxas” desencadeada por Erdogan.


El Pais dedica um especial à liberdade de imprensa “sob ameaça constante”.


Também no El País, uma exposição multissensorial celebra os 40 anos deste grande jornal europeu – que também não está imune à crise e que já despediu alguns dos seus melhores.

 

La Repubblica abriu um inquérito aos leitores sobre como melhorar a informação online.

 

Primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO JORNAIS: esta, esta e esta.

 

 

publicado às 07:03

A verdade e outras mentiras

 

Por: Rute Sousa Vasco

 

Antes do Twitter e mesmo no princípio do Facebook, o programa de jornalismo com mais pergaminhos na América levou para o ar uma reportagem sobre o passado militar de George W. Bush. O programa chamava-se 60 Minutes, era então conduzido por Dan Rather e a reportagem foi emitida nas vésperas das eleições que opuseram Bush a Kerry, em 2004. Dan Rather, a sua produtora Mary Mapes e uma equipa de jornalistas do programa investigaram os factos referentes ao período em que George W. Bush prestou serviço militar e sobre a forma como alegadamente teria conseguido escapar à guerra do Vietname.

 

A reportagem foi para o ar na CBS em plena pré-campanha das eleições presidenciais de 2004 e tinha matéria de facto para poder influenciar o desfecho dessas mesmas eleições – um presidente que fugiu à guerra e que levou, anos depois, milhares de americanos para outra guerra é tudo menos um tipo simpático, além de outras idiossincrasias próprias da honra e glória ianque. Mas, acabou, na realidade, por simplesmente destruir a carreira de um dos mais conceituados jornalistas, da sua produtora e por prejudicar severamente todos os envolvidos na investigação jornalística.

Tudo começou com o ataque de alguns bloggers à reportagem, evoluiu para uma verdadeira caça às bruxas, quer a quem tinha dado testemunho aos jornalistas, quer aos próprios jornalistas, e acabou com Dan Rather, o rosto do 60 Minutes, a pedir desculpa, assumindo que a sua equipa tinha sido induzida em erro. É uma história minuciosa sobre factos, processos de trabalho em jornalismo e também sobre erros que se cometem em jornalismo.

A CBS contratou um grande escritório de advogados para escrutinar todos os envolvidos - uma espécie de comissão parlamentar de inquérito mas com consequências para os visados. Dan Rather abandonou o 60 Minutes, Mary Mapes não voltou a trabalhar em jornalismo – e já lá vão 12 anos – Bush foi reeleito e a CBS manteve o seu estatuto de empresa de media que influencia e é influenciada pelos políticos.

 

«Da mesma forma que Os Homens do Presidente não era sobre Nixon, Truth não é sobre George W. Bush (…) É muito mais sobre a interseção entre a América corporativa, o sistema político e os media. E também sobre o processo de compor uma reportagem. Creio que a única razão para voltar atrás no tempo, por mais recente que o ano de 2004 possa parecer, é se tem relevância ou interesse hoje, e eu creio que ainda há muitas questões acerca da forma como recebemos as notícias que não foram realmente publicadas. Creio que ainda não processámos na realidade a diferença entre factos e opiniões, portanto parece-me um filme bastante relevante e pertinente». Isto foi o que Cate Blanchett, que interpreta Mary Mapes no filme "Truth", disse em entrevista ao Notícias Magazine a propósito da história que protagoniza.

E, à parte da discussão sobre os factos que suportam o filme, esta é a discussão que interessa mais do que nunca: o que é hoje uma notícia, como consumimos as notícias, a diferença entre factos e opinião e, por inerência, a diferença entre o trabalho de fazer notícias e o hobby de produzir comentário avulso, seja em que meio ou rede social for.

 

Só essa distinção permite que passemos à discussão seguinte e que é sobre se precisamos de jornalismo e de jornalistas e, se sim, como deve esse trabalho ser realizado numa era que o conteúdo nos explode nas mãos e nos ecrãs a cada segundo. Só para nos situarmos: há imensos conteúdos e há poucas notícias, uma ‘história’ ou ‘estória’ não é forçosamente jornalismo (nem tem de ser) e optimizar audiências com técnicas de engadgment, analytics e gurus que ensinam quais as palavras certas a colocar num título também não é igual a jornalismo. Jornalismo tem implícita essa coisa fora de moda que é a ideia de serviço público e, contrariamente ao que muitos pensam, não é a profissão de quem tirou Comunicação Social ou de quem escreve posts a toda a hora. É a profissão de quem está disposto a comprometer-se com um conjunto de regras e de quem não se esquece, mesmo quando trabalha matérias mais ligeiras, que notícia é, em muitos dos casos, aquilo que alguém não quer que se saiba e que só importante se afectar a vida de terceiros. Senão é só coscuvilhice e má língua e disso estão as caixas de comentários assinadas por ‘anónimos’ e nick names cheias.

 

Para se ser jornalista hoje é importante perceber o negócio de media? Na minha opinião, é indispensável e os jornalistas, além de parte interessada, estão especialmente bem posicionados para entender o que está em jogo e promover a discussão pública. E sim, implica perceber de tecnologia, implica perceber de publicidade e de receitas obtidas com o trabalho jornalístico, implica saber ler indicadores e implica não ter medo de experimentar novas formas de fazer jornalismo. Mas, serve de muito pouco, se não se souber para que serve o jornalismo.

 

Para quem se interessar pelo tema, recomendo a leitura do livro “Salvar os Media”, escrito por Julia Cagé, professora assistente de Economia no Institut D’Études Politiques de Paris, e com prefácio do célebre Thomas Piketty. Que escreve a certo ponto “cada um de nós convirá que um jornal vivo e maltratado vale porventura mais que um jornal morto e respeitado”. Uma frase com um quê de Lili Caneças mas com bastante mais substância. Deste livro, importa reter várias outras pistas de discussão e alguns dados objectivos. Como, por exemplo, o valor das receitas de todos – todos – os jornais americanos versus as receitas de uma só empresa, seja o Google ou o Facebook. Ou sobre a vertigem do instantâneo e o valor que tem para os leitores. “Os jornais despendem uma crescente energia a publicar o mais depressa possível despachos de agências nos seus sítios na internet como se a capacidade de resposta no copia-e-cola tivesse mais importância que a recolha de informação original”.

 

A história de Dan Rather e Mary Mapes é sobre informação original e relevante. O filme resulta da adaptação do livro de memórias de Mary Mapes, Truth and Duty: The Press, the President, and the Privilege of Power e tem vários momentos de antologia. Deixo-vos com um. Mike Smith, um dos jornalistas da equipa do 60 Minutes, pergunta a Dan Rather por que se tornou jornalista. “Curiosidade”, é a resposta. Dan Rather devolve a pergunta a Mike Smith: “E tu, porque te tornaste jornalista?”. “Por tua causa”, é a resposta.

 

Tenham um bom fim-de-semana

 

 

Outras sugestões:

 

 

Para nos mantermos sintonizados no tema. Os jornalistas deixaram ontem Pablo Iglesias, a falar sozinho, depois do líder do Podemos ter feito um conjunto de acusações às alegadas motivações e dependências da classe jornalística. Nos comentários de redes sociais e das notícias percebe-se que muitos leitores concordam com o politico – precisamente por razões que também passam pela análise ao filme “Truth” e que ultrapassam em larga escala apenas os jornalistas. O que só reforça a importância de discutirmos quem escrutina os media, mas, tão ou mais importante, se também se escrutina todas as opiniões elevadas a factos.

 

E para aligeirar a sexta-feira, um belo trabalho da BBC sobre o clube-conto-de-fadas que está à beira de ganhar o campeonato inglês de futebol, o Leicester.

Começa assim: "Lie-kester."

"No, Leicester."

"Less-ester?"

"No, Leicester. As in Lester."

"Oh. Why is it pronounced like that?"

 

 

(*) Onde se lê agora ecrãs estava numa primeira versão cabeças. 

(...) Só essa distinção permite que passemos à discussão seguinte e que é sobre se precisamos de jornalismo e de jornalistas e, se sim, como deve esse trabalho ser realizado numa era que o conteúdo nos explode nas mãos e nos ecrãs a cada segundo.

publicado às 11:38

O jornalismo abre brechas na indústria da camuflagem de dinheiro. E agora, o que vão fazer os políticos?

Por: Francisco Sena Santos

Estamos perante a evidência de como a imprensa, com o jornalismo de investigação, é vital para promover a transparência nas sociedades contemporâneas. Recebemos nestes dias enormes boas notícias para os cidadãos comuns: a investigação do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ), com o trabalho em comum de 107 empresas de media em 77 países, está a revelar um sistema industrial de fabrico de esconderijos jurídicos para camuflar património, isto é: para esconder riqueza, para subtrair uma gigantesca massa recursos aos cidadãos que com os seus impostos sustentam o Estado e o equilíbrio na sociedade. Está denunciada, com nomes e mecanismos, uma indústria que prospera há décadas em prejuízo dos cidadãos. Abriga-se sob o nome de offshore.

 

 A palavra inglesa offshore traduz-se em português por "longe da costa". Significa algo que está lá longe num mar alto que não se vê da margem. É esse o secretismo e a opacidade que distingue os paraísos fiscais, lugares cuja função é atrair capital e que em troca da oferta ao património ali acostado dão a promessa de escapadela aos radares fiscais. Há momentos em que o segredo é furado. É o que acontece agora com os “Documentos do Panamá”, nome que evoca o título de uma ficção de John le Carré, mas que de facto é um extraordinário triunfo do jornalismo de investigação ao colocar no conhecimento dos cidadãos a prática de complexas operações financeiras que visam a fuga à tributação fiscal. Ficam revelados grandes fluxos de dinheiro camuflado no sistema financeiro global.


O recurso aos offshores, ainda que seja na sua essência uma prática moralmente deplorável, não é por si só ilegal. Não há que estigmatizar quem tem a sorte de possuir fortuna e a quer proteger. Há quem (que percentagem?), tendo o património num offshore, cumpra a devida declaração para efeitos fiscais. O problema começa quando essa promoção do património se serve da opacidade das sociedades financeiras para o ocultar ao fisco e, assim, subtrai recursos devidos solidariamente à sociedade.


Está mostrado como muitos super-ricos e poderosos têm acesso a esses territórios onde conseguem dissimular a sua identidade de donos da fortuna e assim escapam aos deveres de solidariedade representados pela contribuição fiscal. Enquanto os remediados pagam os impostos que sustentam a educação, a saúde, a segurança, a cultura e tudo o mais que é vital para o funcionamento do Estado.


É um estratagema, assente em sofisticadas estruturas confidenciais, que torna os ricos mais ricos e que deixa os outros menos abonados ou mais pobres. Tudo se agrava quando nessas águas turvas dos offshores se misturam dinheiro limpo com dinheiro sujo. É terreno fértil para todas as atividades fraudulentas de colarinho branco.


Vivemos um tempo que é de grande iniquidade. Ao mesmo tempo que os super-ricos camuflam património nos paraísos fiscais, grandes empresas encaminham os seus lucros para países onde a fiscalidade é atenuada. Assim, os Estados, portanto os cidadãos, ficam privados de milhares de milhões em recursos. É o resultado da iniquidade no sistema fiscal internacional.


Nos últimos anos, assiste-se ao derrube do segredo bancário. Mas o sistema financeiro protege-se nos offshores. Os líderes das grandes potências, no G7, no G8, no G20, já várias vezes discutiram o problema dos paraísos fiscais, uma das causas da crise financeira internacional.  Mas pouco mudou. Será por pressão do sistema financeiro internacional? Será porque alguns deles, como agora se vislumbra (Putin e Xi Jinping, através e amigos ou familiares, aparecem entre os 128 responsáveis políticos postos em causa na lista dos “Documentos do Panamá”), estão entre os seus clientes?


A evasão ou o ardil fiscal empobrecem os Estados, o vigor da economia e os serviços a todos os cidadãos. Há um ano e meio ficámos a conhecer o escândalo “Luxleaks”. Quase nada aconteceu. Agora, com os “Documentos do Panamá” que nos mostram como a existência de paraísos fiscais contribui para institucionalizar a injustiça, será que, daqui a uns dias, quando outra notícia substituir a atenção sobre este escândalo, tudo vai ficar na mesma? O jornalismo de investigação está a fazer a sua parte. E a política? Vai ter de contar com o dado novo de uma sociedade civil que já não está alheia.



TAMBÉM A TER EM CONTA:

Está dado um passo triste numa perigosa direção da União Europeia. Começou a expulsão de refugiados. É um negócio indecente entre a Europa e a Turquia. Mesmo assim, no dia em que foram deportados os primeiros 202 refugiados, chegaram à Grécia mais 339.

 

A Polónia volta à batalha em torno do aborto. 

 

Zaha Hadid arquitetava deste modo sublime.

Há reviravoltas que parecem incríveis mas que acontecem: o Leicester, em um ano, passou de último a primeiro no futebol da Premier League inglesa. Em 5 de abril de 2015, era 20º e último na classificação, a 7 pontos da zona de salvação.  Hoje, 5 de abril de 2016, a seis jornadas do final do campeonato, o Leicester é o primeiro da classificação da Premier League, com 7 pontos de vantagem sobre o segundo classificado, o Tottenham. A equipa é praticamente a mesma, mas mudou o treinador, agora o italiano Claudio Ranieri.

Uma primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS: esta, do Público, que dá a palavra a um preso político, Luaty Beirão.

publicado às 06:49

O eucalipto na floresta

Por: Pedro Rolo Duarte

 

A notícia começa a ser recorrente: um jornal que decide “migrar” para o digital e deixar a versão em papel impresso, ou mesmo (como aconteceu com a revista FHM) fechar de vez e terminar um ciclo de vida. Esta semana, depois de meses de boataria, foi o britânico The Independent - e o excelente dominical complementar Independent on Sunday - que marcaram o final de Março para o fecho das respectivas edições impressas. Dos 500 mil exemplares diários de há dez anos caíram, sem apelo nem agravo, para os 50 mil actuais. Ou seja, 450 mil pessoas deixaram de comprar aquele jornal. 90% dos seus consumidores.

 

O facto já não surpreende ninguém - o mundo da informação mudou radicalmente desde que a Internet se tornou acessível a todos, e as novas gerações, que já cresceram a obter gratuitamente informação em cima da hora, não querem pagar pela manhã cadernos de papel desactualizados há horas.

 

Sobra a opinião, a análise, a investigação, e a própria hierarquização da informação. Mas essas coisas são caras - nem os jornais que ainda restam em papel querem pagá-las, nem os leitores parecem muito entusiasmados com o assunto. No limite, alguém copia a crónica do Miguel Esteves Cardoso, do Vasco Pulido Valente, ou da Clara Ferreira Alves, consegue postar no Facebook, e toda a gente acaba por ter acesso ao que ainda justificaria a ninharia que custa um jornal. Para quem, como eu, nasceu e cresceu com o hábito do jornal diário - aqui ou em qualquer parte do mundo - esta dura mudança dói. Dói muito. É inexorável - se tivesse nascido neste tempo, faria parte dela. Só mesmo a teimosia e o vício me fazem resistir…

 

Mas, por outro lado, sem culpas para assacar nem alternativas para oferecer, é difícil encontrar saídas. Para ainda conseguirem sobreviver, os jornais em papel têm de ser geridos com pinças - ou seja, rigor e pouco dinheiro -, e isso retira-lhes o poder de constituírem o ultimo reduto do saber. Já não há a figura do velho sábio nos jornais. Não podem, por outro lado, ser mais rápidos que a sua própria sombra, no caso a edição online. Se se antecipam à edição impressa, perdem o valor acrescentado. Se esperam por ela, correm o risco de perder o fluxo de informação.

 

No quadro existente, a ideia de um jornal diário, impresso em papel, e fechado pelo menos 8 horas antes de estar à venda é, em si, um contra-senso. E o leitor não é parvo. Porém, continua a não haver nada semelhante a um recorte de jornal para credibilizar uma noticia - como nenhum canal de informação resiste a um olhar sobre as primeiras páginas do dia seguinte antes de fechar a noite. Aqui chegado, e vendo morrer mais um (bom) titulo em papel, The Independent, num egoísmo meio parvo mas ao mesmo tempo realista, agradeço aos meus pais terem tido a “generosidade” de me produzirem a tempo de viver todos estes tempos - o dos jornais à antiga, máquina de escrever e montagem à mão, depois a chegada da informática que os profissionalizou, e ainda o tempo da net - que lhes deu uma segunda vida e aparentemente mais estrada…

 

Sou sincero: preferia não estar cá para ver a morte de projectos como The Independent - que vi nascer e era, há 30 anos, o futuro de uma imprensa viva, opinativa, assertiva, de jornalismo real, ligada à imagem, atenta ao design. Pelos vistos, não chegou. Tenho a tentação de dizer, parecendo um velho do Restelo, que a Internet é mesmo o eucalipto desta floresta cheia de diversidade onde cresci e me fiz homem. Nada contra o eucalipto - mas que seca tudo à sua volta, lá isso seca.

 

Coisas que me deixaram a pensar esta semana

 

 

Ainda sobre a morte (em papel) do diário britânico The Independent, sugiro a leitura desta análise de Andrew Marr, que chegou a ser editor do jornal, mas é mais conhecido como um dos pesos-pesados dos media ingleses, nomeadamente na BBC.

 

O livro “American Girls: Social Media and the Secret Life of Teenagers” resulta de um estudo de Nancy Jo Sales sobre a forma como a exibição de imagens pessoais nas redes sociais - nomeadamente de jovens em poses mais ou menos provocadoras - pode mudar a mentalidade e a forma de encarar o sexo das gerações que neste momento se formam no mundo ocidental. Se pensarmos que 92% das crianças americanas têm uma presença online antes dos 2 anos de idade, dá para imaginar a bola de neve em que tudo se transforma. A revista Time, na sua excelente newsletter, resume o livro. E deixa-nos a pensar…

 

No mundo da imprensa económica, inovar não é um verbo muito usado. Porém, em Espanha, a edição local da norte-americana “Forbes”, é uma lição de ousadia, inovação e criatividade. Não se vende em Portugal mas é possível assiná-la na rede. E dar-lhe uma vista de olhos no site da revista. Merece.

 

publicado às 09:42

Glória ao persistente trabalho quotidiano de jornalistas

Por: Francisco Sena Santos

 

Martin Baron tomou posse do cargo de editor do Boston Globe em 2 de junho de 2001. Nesse mesmo dia, este jornalista então com 47 anos de idade e 25 de ofício, reuniu-se, primeiro, com toda a equipa do jornal e, logo a seguir, com cada uma das editorias da redação. O Boston Globe tinha a funcionar desde os anos 70 uma equipa de investigação composta por meia dúzia de jornalistas cuja tarefa era a de, pacientemente, em dedicação exclusiva, procurar e investigar histórias complexas e delicadas que estivessem escondidas. A equipa foi batizada com um nome que corresponde à função de holofote jornalístico: Spotlight.

 

O editor Martin Baron – ele é conhecido por Marty – tinha chegado a Boston, ido de Miami, na véspera da entrada no Globe, e nas breves consultas prévias ouviu falar de um assunto que os poderes julgavam intocável na muito católica Boston: uns escondidos acordos extra-judiciais com as vítimas de abusos pedófilos praticados por um padre ao longo de três décadas. Na reunião com o grupo Spotlight, Marty propôs que a equipa tratasse de explorar esse caso. Alguém argumentou que isso seria entrar em terrenos proibidos numa cidade onde toda a gente se conhece – Boston passa por ser a maior das pequenas cidades da América – e onde a Igreja Católica é uma instituição toda poderosa.

 

Cada cidade americana tem uma arquidiocese forte e um jornal influente. A tradição ditava que uma instituição, como também é o Boston Globe, não beliscaria qualquer das outras, sobretudo a venerada Igreja Católica, encabeçada em Boston pelo cardeal Bernard Law. Mas Marty insistiu. Contou pormenores da experiência que tinha tido no Miami Herald, na condução da delicada investigação sobre o caso da batalha pela custódia de Elian Gonzalez, um “niño balsero” sobrevivente: ele tinha seis anos de idade quando a barcaça de alumínio em que viajava desde Cuba, juntamente com a mãe e outros dez imigrantes, naufragou já perto da costa dos Estados Unidos. Elián, que foi levado de Havana sem autorização do pai, foi o único sobrevivente, agarrado durante vários dias a um pneumático à deriva no Estreito da Flórida. Foi resgatado por dois pescadores de Miami, e seguiu-se uma batalha legal de sete meses, com inúmeras manipulações, sobre o destino da criança, um caso que chegou ao Congresso em Washington. Marty invocou pormenores desta investigação para incitar a que os repórteres da equipa Spotlight explorassem o caso da pedofilia em volta do altar em Boston.

 

A pesquisa, árdua, determinada, paciente, fora do foco dos holofotes, começou naquele dia 2 de junho de 2001, o ano do 11 de setembro. A equipa de repórteres da unidade Spotlight na redacção do Boston Globe começou a analisar milhares de páginas nos arquivos, a cruzar informação e a preparar e colocar perguntas. Poucas semanas depois, a equipa Spotlight já tinha testemunhos que furavam o muro de silêncio comprometido de vítimas sexualmente abusadas e que apontavam nomes de malditos pederastas.

 

A investigação recolheu testemunhos que reforçavam a convicção, mas faltava a prova de que o topo da arquidiocese encobria o sistema. Ao fim de cinco meses de investigação, a equipa Spotlight tinha matéria de sobra para revelar abusos cometidos dentro da igreja. Havia então certezas sobre a pederastia de treze padres e mais 65 sob suspeita, mas faltavam provas firmes de que o arcebispo sabia de tudo e encobria. Daí que o editor da equipa Spotlight tenha travado a publicação até que a investigação reunisse provas irrefutáveis sobre o encobrimento. A pesquisa continuou, persistente. Por fim teve acesso a cartas de denúncia remetidas ao longo de anos ao cardeal de Boston por familiares de crianças abusadas. Era a prova procurada.

 

Assim, finalmente, em 6 de janeiro de 2002 o Boston Globe abriu as explosivas revelações, com a notícia a que todos se esquivavam, de que a igreja de Boston, envolvendo três cardeais e vários bispos, encobriu os abusos sexuais de crianças por padres, ao longo de 34 anos. A partir desta primeira notícia as revelações sucederam-se em catadupa.  Ao longo desse ano de 2002 o Boston Globe publicou cerca de 600 histórias nos quais mostrou o que aconteceu ao longo de três décadas de encobrimento generalizado.

 

Com base num longo trabalho de escavação jornalística, com análise de documentos, dezenas de entrevistas e confrontos com advogados, hierarquia da igreja e influentes locais, com o decisivo contributo do testemunho de vítimas, de um advogado valente e de um sacerdote marginalizado, a equipa Spotlight demonstrou a prática recorrente de abusos sexuais por parte de 70 padres. Também revelou como as coisas decorriam quando as denúncias das famílias de rapazes abusados (o perfil era quase sempre o mesmo, famílias pobres, pais ausentes) chegavam ao cardeal Law: a arquidiocese de Boston comprava o silêncio dos queixosos e afastava o sacerdote da paróquia, com o pretexto de baixa médica.  

 

Em Setembro desse ano de 2002 o cardeal Law resignou e deixou Boston, recolheu à reserva no Vaticano. Em abril de 2003, esta série de reportagens da equipa Spotlight do Boston Globe foi distinguida com o mais prestigiado prémio americano de jornalismo, o Pulitzer, na categoria Serviço Público. A partir de então foram documentados e denunciados casos de abusos de sacerdotes da Igreja Católica em 105 cidades americanas. Os males do sistema ficaram postos a nu.

 

Há várias lições no conjunto destas histórias: uma, a de que, neste caso, terá sido decisiva a liderança de alguém de fora (Marty Baron, nascido e criado na Flórida, longe de Boston)  para ousar confrontar os poderes fortes da cidade, e fazer o jornalismo mergulhar na investigação da história que não ousavam destapar. Outra lição fundamental, a da paciência ao serviço do rigor: a editoria do Boston Globe teve a inteligência – e o instinto - de persistir na investigação cara de um caso que implicou colocar cinco jornalistas a não fazer outra coisa ao longo de seis meses e sem publicar uma linha que fosse ao longo desses seis meses. Poderia ter cedido à tentação de noticiar suspeitas avulsas mas ainda sem enquadramento verificado, como tantas vezes acontece em Portugal. Prevaleceu a persistência na pesquisa e a intransigência no rigor, a par do dever ético e moral. É um guia prático para o ofício de jornalista. É um triunfo do trabalho do jornalismo e dos direitos civis.

 

Em 2015, esta história protagonizada pela equipa Spotlight do Boston Globe passou a filme, realizado por Tom McCarthy, e agora nos ecrãs. O filme é a reprodução, com a secura da realidade, sem romanticismos nem outros exageros, de uma investigação em busca da verdade dos factos. Todos seguimos a épica cinematográfica de Hollywood, com filmes como O Quarto Poder (1952), Os Homens do Presidente (1976) ou Boa Noite e Boa Sorte (2005). Em Spotlight, não há heróis. O que se celebra é a glória do esforço persistente no trabalho quotidiano de procura da verdade dos factos. Na noite dos Óscares, no próximo dia 28, Marty Baron vai provavelmente estar na plateia do Dolby Kodak Theatre, no Hollywood Boulevard, em Los Angeles, perto da equipa que fez o filme Spotlight para celebrarem esta vitória do sentido do dever. Desde o final de 2012, Marty já não está no Boston Globe.

 

Em 2 de janeiro de 2013 Marty Baron assumiu a liderança editorial do Washington Post, o terceiro maior diário dos EUA – a seguir ao New York Times e ao Wall Street Journal. Fez aposta na edição digital do jornal nesse ano comprado por Jeff Bezos, patrão da Amazon, à mítica família Graham de patrões tradicionais de imprensa. Em outubro passado, o Washington Post passou ao primeiro lugar das visitas online a jornais nos EUA. No Boston Globe, a equipa Spotlight continua a ser cultivada, renovada. São boas notícias.

 

Também a ter em conta

 

A escolha presidencial nos Estados Unidos arrancou no Iowa com várias indicações: nos democratas, Hillary aparece vulnerável, está longe de ter a eleição garantida; nos republicanos, Trump é mesmo uma figura passageira, Ted Cruz impôs-se com o fervor do voto evangélico e da direita cristã mas há que contar com Marco Rubio.

 

Em Espanha, seis semanas depois das eleições subsiste a incerteza: o socialista Sanchez vai conseguir formar governo (numa solução "à portuguesa") ou o rei opta por novas eleições?

 

Passa a faltar-nos José António Salvador. Recomendava os bons vinhos e contava boas histórias.

 

O alerta geral contra o Zika marca as primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO Jornais: esta e esta.E também nesta.

publicado às 09:38

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