Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

O dragão das Filipinas

Por: José Couto Nogueira

 

Eleito numa plataforma de direita em Maio, o novo Presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, está a cumprir o que prometeu na campanha: matar os suspeitos de tráfico de droga, sem julgamento.

 

A última vez que se falou das Filipinas à escala multicontinental foi quando se ficou a conhecer a colecção de sapatos de Imelda, a mulher do presidente/ditador Ferdinand Marcos. Em 1986, o marido foi obrigado a fugir do país por causa de uma revolução, ela deixou para trás mais de mil e duzentos pares. No país, um arquipélago de 7.641 ilhas com 11 grupos étnicos e 19 idiomas reconhecidos, mais de 99,5 por cento da população sequer tinha um par de sapatos.

 

Os sapatos de Imelda tornaram-se um símbolo da ditadura corrupta, até hoje lembrado por gerações que não fazem ideia quem é Imelda, ou onde ficam as Filipinas, habitadas por cem milhões de almas cristãs, protestantes, muçulmanas, animistas e comunistas.

 

Todavia, as Filipinas têm uma longa História, repleta de peripécias, injustiças, massacres, guerras civis, limpezas étnicas e tudo o mais que uma longa História pode proporcionar. Situada no mar da China, a Sul desta e a Norte da Indonésia, foi descoberta por Fernão de Magalhães (o nome vem de Filipe II) e ficou sob a coroa de Espanha até os americanos a conquistarem, na passagem do século XIX para o XX. Salvo uma curta e sangrenta ocupação japonesa, na Segunda Guerra Mundial, tem estado sempre sob a influência americana, mascarada de república presidencialista, democrática e independente.

 

 

Depois da deposição de Marcos, cuja brutalidade já não estava a dar resultados, o país conheceu vários presidentes, a começar por Coraçon Aquino, viúva de um opositor incómodo que Marcos mandara matar a tiro na placa do aeroporto de Manila. O discurso oficial é mais ou menos democrático, até onde é possível no meio da confusão de credos, idiomas e etnias, distribuídos por 99,9 por cento de muito pobres e 0,01 por cento de fabulosamente ricos. Num documentário recente sobre Manila podia-se ver um luxuoso centro comercial, ao nível de Milão ou Miami, ao lado de um cemitério onde vivem milhares de pessoas. Sim, as pessoas vivem dentro dos jazigos, dentro de anilhas de esgoto à espera de serem colocadas, na rua, na selva e na água. Às guerrilhas comunistas que há décadas massacram populações, também massacradas pelo exército, juntaram-se nos últimos anos as guerrilhas fundamentalistas muçulmanas, que já estão a dar uma boa contribuição para o terror anárquico geral.

 

 

Compreende-se que não é fácil governar um país tão complexo, e talvez por isso os filipinos têm escolhido personagens que parecem tirados de um mau filme de aventuras – daqueles em que um grupo de mercenários comandados por Chuck Noris ataca o palácio presidencial. Aliás, a lista de presidentes inclui um actor secundário retirado de Hollywood (Joseph Estrada) e vários filhos e filhas das eternas famílias dominantes, muito ao género de “Rich Kids of Beverly Hills”. O facto é que tem havido eleições municipais, estatais e nacionais, nas datas previstas, produzindo uma sucessão de presidentes eleitos por um único mandato de seis anos, com poderes muito abrangentes.

 

 

2016 foi ano de presidenciais, e quem ganhou por larga margem foi o Presidente da Câmara de Davao, Rodrigo Duterte, de cognome “O Castigador”. O adjectivo vem do modo como Duterte acha que a justiça deve ser servida e também da sua noção do que é justo ou decente. Por exemplo, em 1989 houve uma revolta de reclusos, que fizeram como reféns um grupo de religiosos protestantes que tinham ido à prisão dar-lhes apoio moral. Os bandidos, maus como as cobras, violaram todas as mulheres do grupo, entre outras barbaridades. Duterte mandou as forças policiais investir e assim morreram os 12 revoltosos e cinco reféns. Até aí podia dizer-se que foi uma negociação mal sucedida. Mas, ao percorrer a prisão depois do incidente, Duterte ficou gravado em câmara – e foi televisionado para todo o pais – ao lado do cadáver de uma das missionárias, Jacqueline Hamill, a dizer o seguinte: “Filha da mãe, que desperdício! Fico a pensar que eles se puseram em fila para a violar. Isso chateia-me, por um lado; mas ela era tão bonita, parecia uma actriz de cinema americano... acho que o Presidente da Câmara devia ter sido o primeiro.”

 

Rodrigo Duterte é assim, diz o que pensa, e o que pensa está muito além dos códigos civilizados.

 

Para a campanha presidencial, Duterte apresentou o seu currículo de lei e ordem em Davao, uma cidade infestada de crime e tráfico de drogas que ele conseguiu conter com políticas brutais. As associações de Direitos Humanos, tanto filipinas como internacionais, protestaram várias vezes, até Duterte encerrar o assunto: “Que se lixem os Direitos Humanos. Não estou nem um pouco preocupado com essas coisas.” Pelos vistos, 39 por cento dos filipinos concordam com esta visão. É preciso levar em conta que, sendo o país muito pobre, com fome, deportações forçadas e outras violências, a droga e o crime fazem parte do dia-a-dia. Drogas leves, pesadas e pesadíssimas são vendidas nas ruas por viciados que precisam de sustentar o vício, fornecidos por uma cadeia alimentar que possivelmente termina nos palácios dos administradores.

 

Há tribunais e leis, inclusive pena de morte. Mas o que Duterte pretende não é levar os criminosos a tribunal. Isso custa caro e leva tempo. Duterte disse aos seus cidadãos que, quando encontrassem um traficante, estavam à vontade para chamar a polícia, ou que resolvessem o assunto logo ali, se tivessem uma arma. "Não digo que o matem, mas a ordem é morto ou vivo." 

 

De Maio para cá, o resultado tem sido fulminante: mais de 800 assassinatos sumários de presumíveis traficantes, feitos pela polícia e por grupos de vigilantes. E dezenas de milhares de outros supostos traficantes e consumidores entregaram-se voluntariamente nas esquadras, achando talvez que uma hipótese de ir a julgamento (se a polícia estivesse para aí virada) sempre era melhor que que ser sufocado com fita-cola enrolada à volta da cabeça, o método preferido pelos justiceiros.

 

Levanta-se imediatamente a questão de condenar à morte pessoas antes de serem julgadas, com o cortejo de injustiças, enganos e vinganças que este sistema proporciona. Mas Duterte, embora reconheça que possa haver enganos, tem a certeza de que vale a pena. Afirma que já matou três passadores com as suas próprias mãos e que o fará sempre que tiver oportunidade; e ainda que quem o fizer não será levado a tribunal. Ou seja, qualquer pessoa pode assassinar outra e depois dizer que era traficante.

 

Mas ainda o calvário dos supostos traficantes começou, já Duterte olha para um horizonte mais vasto. Há dias afirmou que a morte de alguns jornalistas pode justificar-se pela forma como andam a investigar os assassinatos e, pior ainda, casos concretos da corrupção generalizada que sempre navegaram tranquilamente pelas águas filipinas.

 

Em seis anos, o país vai ficar limpinho, a brilhar, sem a mancha das drogas ou das nódoas da corrupção. A comunidade internacional tem mais com que se preocupar do que com as receitas de limpeza de Rodrigo Duterte.

 

publicado às 09:37

Hillary, a futura, não é a primeira

Por: José Couto Nogueira

 

Mesmo mal amada, Hillary Clinton tem uma boa parte do planeta a torcer pela sua vitória e, se tudo lhe correr bem, será a primeira mulher Presidente dos Estados Unidos. Mas não é a primeira candidata. Já houve duas, no século XIX. Por acaso mulheres muito mais interessantes. Mas o ser interessante não é, definitivamente, uma qualidade necessária para ter poder de vida ou de morte nuclear sobre o planeta.

 

 

Hillary é detestada por muitos, mal vista por outros tantos, trapalhona, acomodada com os interesses instalados; contudo, nas voltas que a democracia permite, tornou-se uma tábua de salvação para o seu país e para tantos outros países interligados contra ou a favor do Império. Como esposa do 42º Presidente, ficou conhecida por ser publicamente traída. Como secretária de Estado do 44º Presidente, mostrou-se bastante inábil e meteu-se em algumas confusões que ainda a perseguem. Mas, do mal o menos; se for eleita, será a 45ª Presidente dum país onde as mulheres há muito que têm uma presença forte na política, mas sempre na segunda linha.

 

Há 144 anos, em 1872, outra mulher candidatou-se a Presidente: Victoria Woodhull. Ao contrário de Hillary teve uma infância difícil, meteu-se em vários negócios e assumiu posições politicas fortes, muito à frente do seu tempo. A América não estava pronta para ela, e muito menos para um vice-Presidente negro e ex-escravo, Frederick Douglass.

 

Filha ilegítima de uma mãe analfabeta e dum pai vendedor de banha da cobra – literalmente – Victoria nasceu em Homer, Ohio, no chamado Farwest, na época dos assaltos a diligências, corridas ao ouro e aquela truculência que vemos nos filmes de cowboys. Desde miúda que teve de lutar contra todos os preconceitos, estudou formalmente apenas três anos, e aos doze já estava casada com um pseudo-médico alcoólatra que lhe batia. Extremamente inteligente, estudou sozinha e desenvolveu os seus conceitos sociais. Era sufragista (pró voto feminino), igualitária e a favor do “amor livre”. Tinha tudo para ser considerada uma prostituta, que nunca foi, apesar de ter trabalhado como empregada em prostíbulos. O conceito de “amor livre” nesse tempo significava apenas o direito da mulher se divorciar, viver a sua vida com quem quisesse e eventualmente casar novamente. Também era espiritualista e acreditava ser guiada por Demóstenes.

 

No meio de aventuras que dariam um bom filme, chegou a Nova Iorque, onde abriu uma corretora de valores com uma amiga – a primeira no mundo a ser dirigida por mulheres - e posteriormente um jornal para espalhar as suas ideias. Em 1866 casou com um veterano da Guerra Civil. Conheceu e teve contactos tempestuosos com a mais famosa sufragista norte-americana, Susan B. Antony, que era menos radical do que Victoria.

(Tivemos em Portugal, com o habitual atraso de 50 anos, duas figuras parecidas, Angelina Vidal e Carolina Beatriz Ângelo, mas isso é outra história.)

 

Em 1870 esteve na fundação do Partido dos Direitos Iguais (Equal Rights Party), basicamente uma plataforma politica para a emancipação feminina. Mas, entretanto, uma disputa à volta da história do amor livre custar-lhe-ia a candidatura. Um ministro protestante, proeminente em Nova Iorque, opôs-se publicamente ao conceito defendido por Victoria e ela publicou no jornal que o senhor era contra, mas tinha uma amante. Daí resultou um processo judicial, em que foi detida e, embora não condenada, perdeu o período eleitoral. Claro que a coisa cheirava a marosca política, mas o mal estava feito. Contudo, não é de supor que uma candidatura com uma libertária e um ex-escravo, ainda por cima casado com uma branca – na altura a miscigenação era muito mal vista... – tivesse alguma hipótese real.

 

Victoria participou na formação da Primeira Internacional, mas a associação de sindicatos dividiu-se em 1871, quando os alemães, com a aprovação de Marx, expulsaram os ingleses e os americanos. Perdida a oportunidade da presidência, Victoria divorciou-se e foi para Inglaterra com a sua sócia no jornal, Tennie Claflin. O multimilionário William Vanderbilt, cujo pai fora um amigo de sempre e apaixonado por Tennie, deu-lhes uma boa quantia para recomeçar a vida. Mas Victória não queria parar; começou a dar conferências – a mais famosa tinha como tema “O corpo humano, templo de Deus” – e casou com um banqueiro britânico. Ainda publicou um jornal, até se retirar para o campo, em 1901. Uma rica vida, cheia de peripécias.

 

Em 1884 o Partido dos Direitos Iguais concorreu novamente à Presidência, com uma candidata completamente diferente, Belva Ann Lockwood, e outra mulher para vice-presidente, Marietta Stow. Ambas sufragistas e defensoras dos direitos das mulheres, se bem que muito mais conservadoras do que Victoria Woodhull. Belva era advogada – numa época em que poucos juristas formados havia, e muito menos mulheres – e directora dum colégio prestigiado de Washington.

 

Em 1888, o Partido concorreu uma última vez. Inicialmente o vice-presidente era para ser um homem, o líder da União para a Paz Universal, Alfred Love, mas não aceitou a vergonha de ser segundo para uma mulher … Finalmente outro homem, Charles Weld, filho de um casal muito progressista, aceitou fazer uma figura que todos consideravam vexatória.

 

Como as mulheres não tinham direito a voto, as possibilidades da dupla eram muito reduzidas. Ficaram registados apenas 4.200 votos, o que mesmo assim é surpreendente, dado que toda a comunicação social era contra o sufrágio feminino. Até ao fim da vida Belva escreveu sobre as suas bandeiras, paz universal e igualdade de género, alem de continuar a dirigir o colégio.

 

O voto das mulheres foi uma das grandes questões do século XIX e na realidade só se resolveu em meados do século XX – no tempo das nossas mães e avós, não mais cedo. Nos Estados Unidos, vários Estados deram direitos parciais, lentamente, até à emenda da Constituição de 1920 que resolveu o problema definitivamente. Na Europa, o primeiro pais foi a Finlândia, em 1907. Em Portugal, a Constituição de 1911 não previa tal modernidade, porque os constituintes jacobinos achavam que o voto feminino seria influenciado pelos padres ...  Só na Constituição de 1933 é que as mulheres puderem votar e ser votadas.

 

A assim chegamos a Hillary, a grande esperança da eleição do fim do ano, a 8 de Novembro, nos Estados Unidos. Uma mulher que se espera que tenha o apoio maioritário não só das mulheres, mas também dos hispanos, dos negros e, até, de muitos republicanos. O mundo vai assistir de coração na boca e braços virados ao céu.

publicado às 14:09

Uma selfie de Paul Ryan diz mais que mil palavras de Trump

Por: José Couto Nogueira

  

A questão do racismo sempre foi uma questão nos Estados Unidos. (Não quer dizer que não seja noutros países, mas cada um tem a sua maneira de não saber lidar com ela.) Nos EUA o problema nem cresce nem decresce – rola como uma onda, com altos e baixos. Ultimamente, a onda está em alta. Porque a polícia anda a matar muitos negros, o que é terrível. Porque o candidato republicano é, entre outras inconveniências, racista, o que não é menos grave. E agora, por um pormenor que poderia ter passado despercebido mas que, por causa das outras causas, explodiu como fogo de artifício nas redes sociais, na comunicação, em toda a parte. Do que se trata? Uma selfie.

 

 

Uma simples selfie publicada por Paul Ryan, o republicano que, por vias da maioria do partido é o Presidente da Câmara dos Representantes. Ryan está em Cleveland, para a Convenção partidária que irá certamente eleger Donald Trump como a aposta do partido à Presidência. Resolveu fazer uma grande selfie, à frente de dezenas de “pagens” (os chamados “interns”, jovens que prestam serviço nos gabinetes dos representantes e senadores.) Todos sorridentes, felizes e bem vestidos – e todos brancos. É verdade, entre os pagens republicanos, rapazes e raparigas, não há sequer um tom mais escuro, muito menos um negro.

 

O Estados Unidos têm um Presidente negro, como todo o planeta sabe. Têm membros do Congresso (Senado e Câmara dos Representantes) negros, ministros negros e uma boa parte dos cargos de topo no executivo são exercidos por negros. Mas são todos democratas. O Partido Democrata não é historicamente o partido do integracionismo, ao contrário do que muita gente supõe por causa da presidência de John F. Kennedy, altura em que supostamente todos os racismos foram legalmente eliminados. Historicamente, basta lembrar que o Presidente Abraham Lincoln, que se meteu numa guerra civil para libertar os escravos, era republicano. Mas, o Partido Democrata é o partido das liberdades, várias, favorável aos imigrantes de todas as cores e, em geral, menos discriminatório nas questões ditas fracturantes.

 

Em compensação, o Partido Republicano, por albergar as forças políticas e sociais mais conservadoras, há décadas que tem uma certa dificuldade em ser visto como equitativo nestas questões, mesmo quando teve um secretério-geral negro. Desde os Bush, pai e filho, que o partido tem vindo a puxar à direita e a ficar mais radical. Os dez candidatos a candidatos presidenciais para a próxima eleição eram todos extremamente conservadores – a única coisa que variava era a religiosidade maior ou menor. Trump, que nem sequer era um militante dedicado com uma folha de serviços que se visse (Trump só se dedica a ele próprio) acabou por afastar todos os outros, inclusive Paul Ryan, com um discurso que, aqui na Europa, nem o UKIP ou o Front Nacional se atrevem.

 

Na política, os lugares eleitos obedecem forçosamente a uma série de critérios, e hoje em dia a imagem será dos mais importantes. Desde o candidato a vereador municipal até ao presidente, passando pelas assembleias e governadores dos Estados, tentam sempre apelar a um eleitorado o mais abrangente possível, mesmo que o façam desastradamente. Quer isto dizer que ser negro, ou hispano, ou asiático, pode ser uma vantagem para ir buscar essas minorias que, em muitos círculos eleitorais, afinal são maiorias.

Captura de ecrã 2016-07-19, às 12.13.01.png

Agora, quando se trata de lugares que não são eleitos, ou seja, todos os cargos de gabinete e administrativos, já estas restrições não são tão importantes, e aí é que se vê quem é o quê. No caso dos pagens do Capitólio, como são normalmente chamados, trata-se de pessoas invisíveis. São jovens, escolhidos por influências e contactos pessoais, que assim começam a sua carreira política ou de funcionários públicos. Nunca ninguém se lembraria se verificar se respeitam os equilíbrios considerados politicamente correctos de cor ou de género. Durante muito tempo eram sempre rapazes, mas essa barreira foi ultrapassada há décadas. Pelos vistos a barreira da cor, no que diz respeito ao Partido Republicano, não foi. E esta infeliz grande selfie de Paul Ryan mostra exactamente isso.

 

Resta perguntar: terá isto alguma influência nas eleições, quer dentro do Partido, quer nas Presidenciais? Provavelmente, não. No fundo já toda a gente sabe como está o Grand Old Party. É só ver a escolha de um candidato que quer fazer um muro entre os Estados Unidos e o México, expulsar todos os muçulmanos e recusar vistos aos filhos de hispanos nascidos no país. (Se alguma destas propostas é exequível, não parece preocupar os republicanos por ora).

 

Muito mais efeito nas eleições terão os constantes assassinatos de cidadãos negros pela polícia, um pouco por todo o país. Contudo, a selfie de Paul Ryan ficará para a História por representar numa só imagem milhões de opiniões.

publicado às 12:06

A queda do malvado preferido

Por: José Couto Nogueira

 

Mesmo num ambiente político onde não faltam vilões, há uma graduação de malvadeza, considerando o que deles se sabe. Na longa lista de Brasília, pode dizer-se que Eduardo Cunha, o deputado do PMDB que organizou e dirigiu o impeachment de Dilma Rousseff, está em primeiro lugar. Hoje,com a voz embargada e lágrimas nos olhos, anunciou que renunciava ao lugar de presidente da câmara baixa do Congresso, cargo de que estava afastado desde Maio.

 

 

Porque é Eduardo Cunha considerado o 'malvado preferido' do Brasil? Por três motivos. Primeiro porque, ao organizar o impedimento da Presidente Dilma, para desviar as atenções dos seus próprios ilícitos, conquistou a inimizade do PT e de toda a esquerda; depois porque, tendo apoiado inicialmente o governo petista, para se proteger de falcatruas há muito sabidas, desde sempre teve a inimizade da direita. Finalmente, porque Cunha é um dos poucos cuja culpa já está formada há muito tempo e amplamente documentada, e mesmo assim continuava a agir impunemente.

 

É por tudo isso que nas redes sociais é chamado de “o meu malvado preferido” - precisamente por ser considerado o mais esperto dos corruptos. De facto, há cerca de um ano que se provou que Cunha recebeu luvas no esquema de corrupção da Petrobras, e inclusivamente os bancos suíços enviaram os extractos das contas dele, da mulher, Cláudia Cruz, da filha adulta, Daniele. Circulam pelos jornais e redes sociais os recibos das despesas sumptuosas das duas, isto enquanto na declaração de rendimentos do deputado apenas está listado o seu salário na câmara. Aliás, estão ambas detidas na Polícia Federal.

 

Pois bem, esta quinta-feira Eduardo Cunha anunciou que renuncia à presidência da Câmara, cargo de que estava afastado desde Maio, uma decisão do Supremo Tribunal Federal, por causa das acusações que sobre ele pendiam. Cunha leu a carta de renúncia com a voz embargada e lágrimas nos olhos. Listou os seus feitos como presidente da câmara baixa do Congresso, dos quais o mais relevante será, sem dúvida, ter chefiado o processo de impeachment da Presidente.

 

Depois dos auto-elogios, as lamúrias; Cunha queixou-se de ser perseguido e, sobretudo, do facto de a mulher e a filha estarem detidas (ele não está, por beneficiar de imunidade parlamentar). O deputado voltou a afirmar inocência nas acusações contra ele: "Quero reiterar que comprovarei minha inocência nesses inquéritos. Reafirmo que não recebi qualquer vantagem indevida de quem quer que seja".

 

Os observadores perguntam-se porque é que o maquiavélico Cunha terá tomado esta decisão, neste momento. No inicio da semana teve um encontro a sós como o Presidente interino Michel Temer, encontro esse que foi muito criticado, mas do qual nada saiu. Ao demitir-se agora da presidência da Câmara, alegou que foi para facilitar os trabalhos, pois o colectivo está a funcionar com um presidente interino, Valdir Maranhão, considerado por todos como um incompetente. Mas é lógico pensar que as razões sejam outras – quais, é difícil de saber, no emaranhado e manobras que diariamente ocorrem em Brasília.

 

É de salientar que, apesar de deixar definitivamente a presidência da Câmara, Cunha continua como deputado, portanto mantém a imunidade (“foro privilegiado”). Não se espera que o STF a levante, o que o deixaria nas mãos do juiz Sérgio Moro, para uma condenação certa e, certamente, pesada. Todavia, é evidente que esta demissão é o princípio do fim para Cunha. Em Brasília não se fala de outra coisa.

 

Ao terminar o seu discurso de renúncia, o ex-presidente da Câmara reiterou:

"Tenho a consciência tranquila, não só da minha inocência, mas de ter contribuído para que meu país se tornasse livre do governo criminoso do PT".

Quanto à primeira afirmação, vale e pena lembrar o grande filósofo brasileiro Millôr Fernandes:

“Uma consciência tranquila, geralmente é sinal de péssima memória.”

 

 

publicado às 21:05

Desculpe se lhe furei os olhos, foi sem querer...

Por: José Couto Nogueira

 

 

 

Os alemães têm fama de ser rígidos, mas são os ingleses que têm o comportamento mais codificado da Europa. Quando duas pessoas não sabem sobre o que falar, falam do estado do tempo. Quando não sabem o que fazer, bebem chá. Têm horas precisas para começar e parar de se alcoolizar. Inventaram palavras para quando precisam de dizer alguma coisa e não querem dizer nada (“indeed” é uma delas). Vivem num sistema de classes em que até a maneira de falar distingue imediatamente a aristocracia da classe média e esta do proletariado. E sim, continuam a ter esse sistema de castas de mobilidade muito reduzida, apesar das instituições democráticas.

 

Tudo isto é causa e efeito. A causa é esconder a baixa quantidade de neurónios. Se soubermos como nos comportar em todas as circunstâncias e o que dizer de apropriado em qualquer altura, não precisamos de usar muito a cabeça. O efeito é uma sociedade que, apesar dos seus problemas, conseguiu construir um Império e impor uma pretensa superioridade a toda a gente. Que problemas, poder-se-á perguntar. São tantos, mas bastará enumerar alguns: o hooliganismo e o alcoolismo, as 140 mil crianças e adolescentes que desaparecem por ano, os 700 hectares de Londres que pertencem à Rainha e dois nobres, mais os 250 hectares que estão na mão dos sheiks do Golfo. O orgulho e preconceito, já dizia Jane Austen. Todos estes e muitos outros indicadores de um país difícil desaparecem debaixo da maior invenção dos ingleses, o sentido de humor, e também de um estilo muito forte que dá ideia de qualidade e duração aos produtos britânicos.

 

Isto não quer dizer que o Reino Unido não tenha gente de qualidade e grandes feitos no currículo, evidentemente; basta fazer a lista dos filósofos e cientistas, das descobertas e das invenções que mudaram o mundo. Mas a questão que está agora na mesa é o Brexit – não só a votação em si, como a atitude pós-referendo. É essa atitude, deveras surpreendente, que coloca em cima da mesa o tal problema dos neurónios.

 

Logo no dia do referendo, ao saber-se os resultados, os seus protagonistas vieram a público. Nigel Farage, o único verdadeiramente eurofóbico, disse que tinha mentido durante toda a campanha, ao afirmar que o dinheiro que se enviava para a UE será gasto em Assistência Social (serviços de saúde e pensões); David Cameron, que propôs o referendo para se manter no poder, mas era contra a saída, perdeu a consulta, e tem que se demitir. Boris Johnson, que apoiou a saída para tirar o lugar a Cameron, veio logo dizer que não há pressa em sair e, numa especulação vergonhosa, que os ingleses não vão perder quaisquer direitos na Europa. Jeremy Corbin teve um papel tão apagado que os trabalhistas já o querem substituir.

 

Isto ao nível dos que mandam. E os que obedecem? Segundo o Google, as consultas mais frequentes na Grã Bretanha na sexta-feira – depois de sabidos os resultados, foram: “O que é a União Europeia?” e “O que acontece se sairmos da UE?” Em incontáveis entrevistas feitas na rua, as pessoas dizem que estão arrependidas e dão justificações do outro lado da Lua por ter votado no Brexit:

“Não votei para sairmos, era mais um voto de protesto”.

“Na outra vez votei para ficarmos e a vida não me tem corrido bem, portanto achei que devia votar ao contrário.”

“Fiquei chocada quando soube o resultado, porque agora percebi que estamos a tramar os jovens e a poupança de 350 milhões de libras (?) não vai muito longe.” (Senhora de 87 anos, esta.)

“Votei para protestar contra as populações rurais esquecidas e as zonas industriais abandonadas, e porque estou farto do egocentrismo de Londres.”

“No meu prédio moram uma data de húngaros e estou farto de os ouvir a falar húngaro.”

“Votei para sair porque achei que íamos ficar e o meu voto não faria diferença.”

“Votei pela saída porque não quero assistir a mais jogos do Euro.”

Há dois ou três vídeos que se tornaram virais nas redes sociais onde as pessoas justificam o Brexit da maneira mais idiota. Num deles, “My Stupid Girlfriend Explains Why She Vote Brexit” (isto é mesmo real, por amor de Deus?!) uma adolescente explica que prefere comer ovos de galinhas inglesas, em vez de ovos de galinhas que não se sabe de onde vêm.

 

Os disparates, raciocínios irracionais e a pura estupidez aparecem agora no Twitter, nas redes sociais e nas cartas aos jornais. De repente, a sensação que dá é que foi tudo um engano. Claro que é menos provável que as pessoas que votaram para sair e acham que fizeram bem se manifestem, mas as consultas feitas na rua pelas televisões mostram a mesma quantidade de arrependimento.

 

No que pode ser uma situação histórica inédita, o projecto maravilhoso que é a UE pode começar o seu fim, porque pessoas que não percebem bem o querem,no segundo pais mais importante da União, tomaram uma decisão precipitada.

 

Depois, há o lado terrível. Os xenófobos, anti-imigrantes, fascistas e saudosos do Império acham que o resultado do referendo lhes dá imediatamente carta branca para por cá para fora todo o seu ódio. Num bairro periférico onde vivem muitos polacos, apareceu nas caixas do correio e nas paredes um folheto bilingue que diz “Porcos polacos voltem para casa”. Muitas pessoas, sobretudo as que não têm o suposto arquétipo britânico (pele muito branca, louro ou ruivo) ou que se vestem exoticamente queixam-se que têm sido insultadas, empurradas e, em alguns casos, agredidas. Duas amigas que estavam num café viram um homem encostar-se ameaçadoramente à mesa e dizer-lhes “Vão para a vossa terra!” Respondeu uma delas: “Mas nós nascemos aqui, esta é a nossa terra.” “Não parecem nada” respondeu o bruto. Alguns portugueses também já se queixaram de ouvir coisas desagradáveis. Uma passageira de Lisboa, quando mostrou o cartão de cidadão no aeroporto de Heathrow, o funcionário disse-lhe logo, agreste: “Da próxima vez, esse já não serve!”

 

Finalmente, há a enorme confusão entre imigrantes europeus e não europeus. Os estrangeiros que mais incomodam os ingleses são os que vieram do Paquistão, Índia e os muçulmanos radicais. A sua presença, em muitos casos há várias gerações, tem a ver com a Commonwealth. Ora, nenhuma destas três origens é europeia, e portanto a sua entrada em nada sofrerá com o Brexit.

 

O parlamento escocês decidiu que vai fazer um novo referendo para se separar da Inglaterra e depois aderir à UE. Os irlandeses do Norte estão até dispostos a juntar-se à República da Irlanda para continuar na Europa. E há um pedido para que se faça novo referendo – no domingo já tinha dois milhões e quinhentas mil assinaturas.

 

Ora, a verdade é, pela lei britânica, o referendo não é vinculativo. Trata-se apenas de uma consulta. Isto não está especificamente escrito, uma vez que o Reino Unido não tem uma Constituição, mas é a tradição. Segundo o “Guardian”, em rigor Cameron podia ignorar o acto e ficar-se por aí. Mas entretanto ele já disse que aceita o resultado. Portanto terá de apresentar a proposta ao Parlamento. O Parlamento pode rejeitar e decidir que tudo não passou tudo do tal humor britânico que disfarça tão bem a questão dos neurónios.

 

O problema é que o alemães, que não são notórios pelo sentido de humor, podem achar que então não passou de uma sórdida chantagem – um bluff à escala continental.

 

publicado às 12:14

Grã Bretanha: o divórcio de um casamento que nunca existiu

Por: José Couto Nogueira

 

 

Os homens, que nunca sabem bem o que querem - ou querem várias coisas, conforme a temperatura - gostam de dizer que as mulheres estão sempre a mudar de ideias, quando de facto elas é que são muito bem focadas nos seus objectivos. Esta analogia do relacionamento homem-mulher foi usada incontáveis vezes durante os meses de especulação em torno do referendo inglês sobre a permanência na UE.

 

E com razão. Ela, a Grã Bretanha, que nunca quis realmente um compromisso, aceitou a contra gosto uma união de facto atamancada, e abalou sem razões credíveis, porque nestas coisas do coração a razão fica sempre à nora. Enquanto aceitou cohabitar, a madame ora seduziu ora se fez difícil para receber miminhos, e recusou presentes para ganhar outros maiores; enquanto ele, o Continente, andou de cabeça perdida a ameaçar de dia e a rojar-se aos pés à noite, mostrando sempre a sua fraqueza e cedendo constantemente, para acabar abandonado como um amante que perdeu o interesse.

 

Pois é verdade, o Reino Unido, apesar de historicamente seguir sempre os seus interesses económicos, desta vez deixou o orgulho, um sentimento tão perigoso como o despeito, tomar conta da decisão. Os ingleses acham-se únicos, não só na personalidade dominante, como também na capacidade de resolver sozinhos todos os problemas que o destino imperial levanta. Apesar do Império se ter esfumado a partir de 1939, continuam com a mentalidade imperial e recusam-se a reconhecer o pouco que pesam no mundo cada vez mais aglomerado em blocos. (Nós, portugueses, que fomos Império há muito mais tempo e ainda sentimos o amargo de boca de já não ser, podemos compreender este sentimento muito bem. Os espanhóis também.)

 

De onde vem essa proa toda? Além do Império onde o Sol nunca se punha, os ingleses (com escoceses e irlandeses pela trela), desenvolveram a sua democracia mais cedo e dum modo diferente do resto do Ocidente. Também a exercem através dum sistema que lhes é muito próprio. O poder popular em Inglaterra vem do Parlamento e desde 1689, sendo depois aperfeiçoado através de várias afinações; nos outros países europeus o começo da democracia tem uma data exacta, a Revolução Francesa de 1789, mas posteriormente houve avanços e recuos, retornos ao poder absoluto, ditaduras e outras experiências menos felizes. Os ingleses acham o seu sistema tão superior que nunca o quiseram exportar, precisamente para manter a vantagem competitiva. Quando governaram em Portugal, estando o D. João VI eternamente hesitante no Brasil, foi a chicote, não quiseram aqui um parlamento igual ao deles, nem pensar. (A democracia americana é do modelo francês, via Jefferson, e não dos ingleses, que eram o inimigo.)

 

Uma diferença notável está precisamente nos referendos; até agora o Reino Unido só teve três: o de 1975, em que 67% dos eleitores votaram a favor da entrada na Comunidade Europeia, outro em 2011, para mudar o mecanismo eleitoral (que não foi aprovado) e o de ontem, onde a separação foi decidida por uma curta margem.

 

Os estudos da opinião pública em relação a este referendo mostram numericamente como o conceito conservador do Império e do pretenso privilégio de ser inglês está enraizado na população: os rurais, os menos educados, mais pobres e mais velhos eram a favor da Grã Bretanha separada do Continente, enquanto, os urbanos, os mais habilitados, mais afluentes e mais novos – modernos e informados - eram a favor da permanência.

 

Mas agora a questão já não é mais se os ingleses ficam ou não ficam. Agora a questão são as consequências desta separação. Por um lado, o que vai acontecer às relações entre Grã Bretanha e a UE; por outro, o modo como os países do Continente vão reagir à atitude inglesa e à chantagem que estão legitimados a fazer, para obter os privilégios que os contestatários tinham.

 

Voltando à analogia do casamento, depois da senhora exigir um tratamento especial que deixava os amigos e vizinhos entre incrédulos e irritados, com certeza que não vai ganhar uma grande pensão de alimentos nem ficar com as simpatias no bairro. Baixando o nível da conversa para mostrar a realidade nua e crua, o que o amante abandonado está a pensar é “Olha-me esta! Fez o que quis, saía e entrava às horas que lhe dava jeito, cozinhava mal, e agora ainda quer ficar com o iate, a casa de praia e a tutela dos miúdos... Vais ver, vais! Acabaram-se os vestidos da Prada e o cartão de crédito !”

 

Quem manda na União Europeia é a Alemanha, e o querido Sr. Schäuble, que nós tão bem conhecemos, já tinha avisado, naquele tom anunciador de maus ventos, que as coisas não podem continuar como estavam. E entre os pequenotes da família, não faltam reguilas que também queriam sair de casa e que, inspirados e aviltados por estas intempéries da madame, estão predispostos ao motim. São os casos da Holanda e da Dinamarca, que já ameaçam com referendos afins. A Polónia, sempre mais conservadora que o Sínodo, também não quer certas interferências na legislação de cunho moral. A Hungria já caminha para o IV Reich e a Grécia está farta de esfregar escadas. Se a dona Albion sempre fez o que quis, porque hão-de ser eles a amochar? E a Turquia, senhora de físico abundante e modos de burgesa, é um downgrade que entra pela casa dentro, perto da finesse da ex-wife.

 

Depois, há a suspeitíssima alegria dos maus. Quem era a favor do Brexit? Putin, porque enfraquece a Europa; Trump, por razões que só ele sabe mas que, sendo dele, só podem ser más; e Marine le Pen, porque acha que sobe o estatuto da França em detrimento dos outros. Como salientou um comentador – não nos lembramos qual, de tantos que zoavam – só bastava as opiniões destes três para votar contra a saída do Reino Unido.

 

Dentro dos países que ficam, e que inevitavelmente sentem a sua quota parte da rejeição, embandeiram em arco todos os partidos de direita, reaccionários e nacionalistas – menos em Portugal, originalíssimo, onde é a esquerda radical que não gosta da Europa.

 

Também se pode esperar que esta crise seja sinónimo de oportunidade, como dizem que dizia o Lao Tsé, ou o Confúncio. Mas esses eram chineses, devem estar a preparar-se para inundar o Continente com imitações espúrias de Range Rover e Miss Selfridge. A Europa não tem um histórico de transformar apertos em auto-estradas.

 

Há muito quem diga que é o fim do projecto europeu. Não será tanto, mas que tem o sabor e o odor do princípio do fim, é inegável. Apesar da Grã Bretanha achar que são eles e nós, nós sem eles sentimo-nos mancos, não há como negar. Além disso, a dinâmica da integração europeia era, por natureza, inclusiva e sempre a andar para a frente. Nunca se previu, nem sequer se especulou, o que aconteceria com um recuo. Nem sequer sabemos como se irá processar este desenlace, quais as consequências para pessoas e bens.

 

Os analistas revezam-se a especular nos vários cenários possíveis. A partir de hoje, passa-se da especulação à realidade. Melhor não será, com certeza, como vamos começar já a sentir.

 

 

publicado às 11:04

Fernando Henrique Cardoso: "aos 85 anos, não quero dar pretexto (...) a me usarem para uma imaginária luta 'contra o golpe', um golpe que não houve"

Por: José Couto Nogueira

 

Fernando Henrique Cardoso, um dos nomes mais respeitados dentro e fora do Brasil, pôs fim às dúvidas e pronunciou-se sobre a legitimidade do processo de impeachment à presidente Dilma Roussef. Não é golpe, diz, mas sim um processo que decorre em 'estrita obediência' à Constituição. "Estranho golpe no qual ela continua na residência Presidencial, cercada de colaboradores e sob condições de segurança devidas aos chefes de estado, à espera de decisão do Senado", ironiza mesmo.

 

 

 

Fernando Henrique Cardoso (FHC), ex-presidente do Brasil, continua a ser um nome de enorme prestígio no país, sobretudo pelos créditos que lhe são atribuídos por ter sido, na opinião de muitos, o responsável pela recuperação de uma economia endividada e com alta inflação para um sistema estável e até próspero que entregou a Luís Inácio Lula da Silva em 2003. 

 

Os petistas sempre evitaram tocar-lhe e todos os partidos o tratavam com uma certa deferência. Esta situação mudou no último ano, em grande parte porque FHC tomou uma posição dúbia na avaliação do impeachment/golpe, optando por não apoiar nenhuma das posições. À medida que o tempo foi passando - e o tempo no Brasil está a passar em velocidade acelerada - foi ficando cada vez mais difícil manter a indecisão. O ex-presidente tem estado entre dois fogos com cada uma das facções a acusá-lo de favorecer a outra parte.

 

Finalmente, a situação precipitou-se. Fernando Henrique Cardoso foi convidado para participar de um debate da Associação Latino Americana de Sociologia (LASA) em Nova Iorque, debate esse onde, inevitavelmente, não se falará de mais nada do que da mudança ideológica que já ocorreu na Argentina, está a acontecer no Brasil e se prevê que aconteça no Peru e na Venezuela. A radicalização é tal, e o conflito tão agudo, que o ex-Presidente foi desconvidado no dia seguinte ao convite, e novamente convidado horas depois.

 

Fernando Henrique resolveu não ir, mas acaba de tornar pública a razão da sua ausência, assumindo assim de vez o que acha do impeachment/golpe. Em comunicação enviada à Associação Latino Americana de Sociologia, FHC demarca-se daqueles que consideram o impeachment um golpe de Estado: "na conjuntura brasileira atual, setores políticos querem fazer crer que a Presidente Roussef, ao sofrer processo de impeachment (ainda em curso), procedido na estrita obediência da Constituição e sob a supervisão do Supremo Tribunal Eleitoral (oito dos 11 ministros foram nomeados pelos governos Lula ou Roussef), sofreu um “golpe”. Estranho golpe no qual ela continua na residência Presidencial, cercada de colaboradores e sob condições de segurança devidas aos chefes de estado, à espera de decisão do Senado", escreve.

 

O ex-presidente recorda também nesta missiva os antecedentes do impeachment. "O pano de fundo deste processo foi o desvendamento de uma organização criminosa que desde o mandato do anterior presidente, uniu empresários, funcionários dos governos, políticos e partidos para aumentar o custo dos contratos públicos e desviar parte dos recursos assim ganhos para obterem votos e, eventualmente, riqueza pessoal".

 

Esclarecida a sua posição, FHC sublinha que, na sua opinião, o processo de impeachment decorreu e ainda decorre de acordo com as leis que regem o país. "Nada do acima referido, que motivou minha inclinação a aceitar o impeachment, tem a ver com qualquer questão que arranhasse os princípios democráticos". E para que não subsistam dúvidas sobre o seu curriculo político e democrático, deixa a nota: "fui e sou comprometido com valores democráticos no mundo e na politica brasileira. Exilado pelo golpe militar de 1964, obrigatoriamente afastado da Universidade de São Paulo pelos autoritários brasileiros em 1969, criei centros de resistência intelectual e política no Brasil (como o CEBRAP) e ajudei, quanto possível, a luta contra as ditaduras latino-americanas. Não só perdi a cátedra que tinha por concurso na Universidade de São Paulo, como sofri processos e fui levado a interrogatórios, com capuz na cabeça, em conhecido centro de tortura. (...) Em nenhum momento desonrei nessa trajetória minhas credenciais democráticas".

 

A sua posição, embora não tenha nenhum valor prático, uma vez que não tem qualquer posição oficial na actual estrutura política, é de extrema importância pela influência na opinião pública e terá certamente impacto nos vários quadrantes políticos brasileiros.

 

 

Eis aqui a íntegra do comunicado:

 

"Estimados colegas diretores da LASA:

Reitero meus agradecimentos pelo convite para participar da celebração dos 50 anos de LASA, instituição que acompanho desde seu nascimento e de cujas reuniões participei em algumas ocasiões.

Agradeço também a reafirmação do convite, feita diante de manifestações de pesquisadores e professores que, levados por paixões ideológicas, imaginaram que eu poderia aproveitar o evento para discutir problemas políticos locais, brasileiros. Os que me conhecem sabem que fui treinado como cientista social quando, a despeito de crenças e valores, os intelectuais procuravam manter a objetividade científica como um valor central em seus labores acadêmicos. Não obstante, a vaga ideológica existente em alguns setores universitários parece confundir, nos dias de hoje, a posição de ativistas com a de cientistas.

Fui e sou comprometido com valores democráticos no mundo e na politica brasileira. Exilado pelo golpe militar de 1964, obrigatoriamente afastado da Universidade de São Paulo pelos autoritários brasileiros em 1969, criei centros de resistência intelectual e política no Brasil (como o CEBRAP) e ajudei, quanto possível, a luta contra as ditaduras latino-americanas. Não só perdi a cátedra que tinha por concurso na Universidade de São Paulo, como sofri processos e fui levado a interrogatórios, com capuz na cabeça, em conhecido centro de tortura. Eleito senador na oposição ao regime, mais tarde, em momento de reconstrução democrática, fui relator-adjunto da atual Constituição. Sob ela, fui Chanceler, ministro da Fazenda (na época do Plano Real) e duas vezes eleito, por maioria absoluta, Presidente da República. Em nenhum momento desonrei nessa trajetória minhas credenciais democráticas.

Na conjuntura brasileira atual, setores políticos querem fazer crer que a Presidente Roussef, ao sofrer processo de impeachment (ainda em curso), procedido na estrita obediência da Constituição e sob a supervisão do Supremo Tribunal Eleitoral (oito dos 11 ministros foram nomeados pelos governos Lula ou Roussef), sofreu um “golpe”. Estranho golpe no qual ela continua na residência Presidencial, cercada de colaboradores e sob condições de segurança devidas aos chefes de estado, à espera de decisão do Senado. Este só poderá afastá-la definitivamente se 3/5 dos senadores considerarem que, de fato, incorreu em desrespeito a regras fundamentais da Constituição. Até ao início do processo de impeachment, que pela Constituição depende preliminarmente da aceitação da acusação por 31 da Câmara dos Deputados) o governo Roussef dispunha do voto de cerca de 80% do Senado.

O pano de fundo deste processo foi o desvendamento de uma organização criminosa que desde o mandato do anterior presidente, uniu empresários, funcionários dos governos, políticos e partidos para aumentar o custo dos contratos públicos e desviar parte dos recursos assim ganhos para obterem votos e, eventualmente, riqueza pessoal. Processos objeto de condenação judicial ou que estão em tramitação na Justiça do país. Mais ainda, o desgoverno financeiro dos últimos dois anos levou à perda de oito pontos percentuais do PIB (algo nunca ocorrido na história), e 11 milhões de brasileiros ao desemprego, além de haver gerado uma dívida pública crescente. Os artigos constitucionais que foram feridos dizem respeito, entre outras, à desobediência da Lei de Responsabilidade Fiscal, graças ao que o governo Roussef utilizou recursos não aprovados pelo Congresso e mascarou a verdadeira situação fiscal do país durante o ano eleitoral.

Nada do acima referido, que motivou minha inclinação a aceitar o impeachment, tem a ver com qualquer questão que arranhasse os princípios democráticos.

Dito isso como explicação pessoal aos que me convidaram a aos que me apoiam, não pretenderia, reitero, utilizar a LASA para discutir essas questões, mesmo porque, como já dito, elas nada têm a ver com a questão democrática.

Peço apenas que compreendam que a esta altura da vida, aos 85 anos, não quero dar pretexto a espíritos radicalizados e imbuídos de paixão partidária a me usarem para uma imaginária luta “contra o golpe”, um golpe que não houve.

Agradecendo uma vez mais o convite e desculpando-me por não dever aceitá-lo pelas razões expostas, subscrevo-me",

FHC

publicado às 01:12

Afinal, qual é o mal da Uber?

 

Por: José Couto Nogueira

 

A entrada da plataforma informática Uber em Lisboa, em Julho de 2014, provocou uma agitação que chegou mesmo àquelas pessoas que circulam na cidade a pé ou em transportes públicos de massa. Num crescendo, a repulsa dos táxis por este novo concorrente atingiu proporções desproporcionadas, que culminaram com uma manifestação a 29 de Abril que paralisou a cidade. O mesmo aconteceu no Porto e, paradoxalmente, em Faro, onde a Uber nem sequer opera.

 

 

 

 

Nas ruas, os taxistas têm feito de tudo, desde entupir o trânsito pontualmente a agredir os motoristas e os passageiros da Uber, além de furar pneus, insultar as pessoas e impedir carros “suspeitos” de largar passageiros no aeroporto ou nos hoteis. Nas redes sociais e nos comentários da internet, a discussão também atingiu níveis de conflitualidade normalmente reservados a grandes questões fracturantes, mas no sentido contrário às ruas: os utentes de táxis têm mostrado, sem margem para dúvidas, como detestam o serviço tradicional.

 

As queixas de má educação, veículos imundos e percursos aldrabados, há muito contidas por falta de sede própria, vieram cá para fora com um vocabulário comparável ao dos taxistas. Uma inevitável sondagem revelou que 80 por cento dos utentes está há décadas descontente com o serviço dos táxis, e mais de 60 por cento vê com bons olhos uma concorrência de melhor qualidade – não só pela qualidade em si, mas como uma vingança ressabiada contra as aleivosias de que tem sido vítima.

 

É natural que os táxis não queiram concorrência. Também seria natural que, em face à concorrência, melhorassem o serviço. Mas não. Optaram pelo velho sistema de atacar o concorrente, não só à pedrada, mas também com argumentos: a empresa não é legal, os motoristas não têm competência profissional, não foram treinados para o serviço com o curso da Antral e não conhecem a toponímia da cidade; os utentes não têm a protecção de um seguro em caso de acidente. E também se mostraram como vítimas: um táxi custa um dinheirão, os impostos são sufocantes, as exigências legais estilhaçantes.

 

Vamos passar por cima da competência profissional, que não se divisa nos táxis, seja lá o que for “competência profissional”. Vamos ignorar o que possa ser o curso da Antral, que não será certamente de boa apresentação e trato cortês com o cliente. E também ignoraremos a questão da toponímia, uma vez que a maioria dos motoristas de táxi parece não saber onde fica a avenida Maria ou qual o sentido do trânsito na rua Manel. Finalmente, não anotaremos as voltas e contra-voltas para encontrar a maior distancia entre o ponto A e o ponto B.

 

Vamos antes fazer o que precisa ser feito: analizar as queixas dos taxistas e as acusações legais ou legalicistas que fazem à nova vizinhança.

 

Um táxi custa um dinheirão, de facto; não o carro, que é um veículo como qualquer outro, mas a licença de operação. E a licença é cara pela simples razão que a Câmara Municipal, com a desculpa que não convém haver táxis a mais na cidade, quer a procura superior à oferta e não dá licenças novas. As velhas são exactamente 3.445. O resultado deste estrangulamento, mantido pelo lóbi dos donos dos táxis, é que uma licença custa 100 mil euros. Bastava que fossem emitidas sem restrições, deixando o mercado funcionar, para que baixassem para um preço de emolumentos, digamos 100 euros. Mas isso não interessa aos donos das licenças já existentes, que perderiam uma mais valia mantida para os beneficiar.

 

Quanto aos impostos, são os mesmos impostos de qualquer negócio, IRC, IVA, licença de circulação, etc. Os táxis não pagam nenhum imposto a mais do que qualquer empresa ou indivíduo é obrigado a pagar. As exigências legais são as inerentes ao sector: carta de condução profissional de taxista e seguro especial de transporte público.

 

Vejamos agora o que é e como opera a Uber. A empresa em si é mínima, tem quatro pessoas em Portugal. Isto com uma sede europeia na Holanda, onde trabalham algumas centenas. Porque a Uber não tem praticamente existência material; é um programa de computador que gere toda a movimentação do negócio. Precisa de ter a plataforma a funcionar e uma nuvem para guardar e arquivar os dados, nada mais. Mas paga impostos, como qualquer empresa.

 

Não tem carros nem contrata empregados para os dirigir, ou seja, não investe capital. Logo, não tem as despesas de amortização desse capital. Não é uma malandrice, nem uma concorrência desleal; é apenas um passo em frente na prestação se serviços, que se reflecte em custos mais baixos para o utilizador.

 

A Uber faz contratos com “operadores de mobilidade”, empresas que têm frotas de carros de aluguer (legalmente, veículos letra A, letra T ou CMT) que sempre existiram, sempre pagaram impostos e sempre utilizaram motoristas devidamente habilitados, treinados e barbeados. E que pagam impostos, as empresas e os motoristas, como toda a gente. Também usa motoristas avulsos, cadastrados nas finanças como “empresários em nome individual”, com cartas de condução profissionais e seguros apropriados. Aliás, a Uber exige a todos seguros acima do mínimo legal: 50 milhões de euros mais 10 mil euros por passageiro, que lhe serão pagos imediatamente, antes das companhias decidirem culpas e inocências.

 

Ainda nas áreas da legalidade e da fiscalidade, como o sistema usa exclusivamente pagamentos por cartão de crédito, as operações são todas registadas e todos os intervenientes taxados conforme a lei. Não há dinheiro vivo, nem acréscimos ocultos, nem trocos por baixo da mesa, nem subfacturamento. Ao contrário dos táxis normais, a fuga aos impostos é impossível.

 

O que a Uber faz é por em contacto o prestador de serviços – um carro com motorista – e o utente – uma pessoa que quer ir depressa de um lado para o outro. Graças às maravilhas dos algoritmos informáticos, quando a pessoa pede um carro, o programa procura o veículo livre mais próximo e indica imediatamente ao utente a matrícula do veículo, o nome do condutor e o tempo de espera. Se a pessoa indicar o destino, também fica logo a saber o tempo e o custo da viagem. No final recebe um recibo com IVA e deve classificar o serviço, numa escala de um a cinco – assim como o motorista deve classificar o cliente.

 

Em Portugal há três tipos de serviço: o X, que é o normal, o Black, em que os carros são topo de gama, e agora o Green, com carros eléctricos. Os preços variam com o carro e também com a relação entre a oferta e a procura, em tempo real – esta última variável chama-se “surge pricing” é mais uma das vantagens da plataforma informática.

 

Há quem diga que a Uber é o futuro do transporte, mas na realidade é o presente. O futuro, será um serviço de partilha de veículo eléctrico, usando uma plataforma informática semelhante. O passado é andar de carroça ou... vocês sabem.

publicado às 11:37

A nova primeira-dama do Brasil

Por: José Couto Nogueira

 

Chama-se Marcela e é uma menina bem comportada de uma cidadezinha do interior de São Paulo. Até ao longínquo ano de 2011, nunca ninguém a tinha visto ou ouvido falar dela. Na primeira tomada de posse da Presidenta Dilma, apareceu ao lado do marido, o vice-Presidente Michel Temer. Uma senhora jovem, discreta, vestida com classe e sorriso contido. Qual era o espanto? Marcela tinha então 27 anos e Michel 70.

 

Temer.Marcela.jpg

 

A diferença de idades provocou imediatamente as insinuações e piadolas de mau gosto do costume. Mas as estatísticas desta breve exposição nacional são impressionantes: Segundo o Twend.it, Marcela ficou 32 horas entre os dez termos mais comentados no mundo dos microblogs. E, segundo o Trendistic, o pico aconteceu às 14 horas de domingo, quando os tweets com o nome da vice-primeira-dama chegaram a 0,09% das mensagens em todo o mundo, momento em que Justin Bieber andava nos 0,24% dos tweets mundiais. Dados do Topsy.com confirmam que ela teve 55 mil citações na primeira semana depois da aparição.

Mas Marcela não voltou a mostrar-se em público em Brasília, ou em qualquer outro sítio, apesar da extrema visibilidade do vice, que também é Presidente Nacional do PMDB e há décadas um político muito activo.

 

Graças às voltas e reviravoltas da política, Marcela Tedeschi Araújo Temer, a partir de ontem tem como lar o maravilhoso Palácio da Alvorada, plantado no meio do urbanismo mítico de Brasília.

Assim que se revelou inevitável que Temer ia ser o novo Presidente da República – mesmo que por seis meses, ou menos – toda a gente se voltou a lembrar de Marcela. Há duas semanas a revista “Veja”, fortemente conotada com a oposição ao PT, deu-lhe um artigo de destaque em que, entre outros encómios, chamava-lhe “bela, recatada e do lar”. Estes atributos são tão ridículos, na era de Michelle Obama, que até houve quem pensasse que a revista estava a fazer troça, fingindo que elogiava. Bela, a senhora será, sem dúvida; mas “recatada” é um elogio que remete ao evangelismo mais radical – que ela não segue – e “do lar” quer apenas dizer que não sai de casa senão para o shopping, o que também não abona a quem se espera que, no mínimo, tenha alguma conversa informada e saiba receber convidados de todas as cores, origens e destinos.

 

As redes sociais encheram-se imediatamente com interrogações, afirmações e elucubrações. Marcela é determinada, aventa-se. Marcela sabe o seu lugar, ridiculariza-se. Marcela tem uma tatuagem no pescoço. Ops! Uma tatuagem no pescoço? É verdade, mas a tatuagem é como uma anilha – o nome do marido, a preto, em letras floreadas.

O vetusto “O Estado de São Paulo”, um jornal que não perde tempo com frivolidades, mandou uma equipa de reportagem à cidadezinha natal da menina, Paulínia, para lhe dedicar um longo artigo com tudo o que se pode querer saber sobre a mulher que segreda ao ouvido do homem mais importante do país. Artigo, note-se, publicado na secção de Política e não no suplemento de modas e bordados.

É um currículo apagado e que não mostra grandes horizontes; foi Miss Paulínia, ficou em segundo lugar no Miss São Paulo, trabalhou como recepcionista... Discreta, poucas amigas, nenhum amigo especial.

 

Em 2002, quando Temer era deputado federal, foi a Paulínia apoiar um correligionário. Marcela tinha ido ao comício só para acompanhar o tio, metido na politica local, que os apresentou.

Um homem na casa dos setenta e que já foi casado duas vezes não tem muito tempo a perder; num ápice Marcela estava casada, a morar em São Paulo e a estudar direito. Formada em 2003, não chegou a fazer o exame da Ordem, porque estava grávida. Nascido Michelzinho, nunca mais voltou a trabalhar.

 

Como será a Alvorada com Marcela? Todos sugerem, mas ninguém sabe. A classe média, a tal que o PT diz que o odeia, ficará muito feliz por ter uma mulher protocolar ao lado do Presidente. O oposto das guerrilheiras que entravam e saiam no palácio a sacudir bandeiras vermelhas, para não falar em Dilma ou Marisa (a mulher de Lula) sempre apertadas naqueles vestidos rebuscados. Se Marcela quer, ou se Michel quer que Marcela queira, poderá cumprir lindamente as funções que se atribuem às esposas dos presidentes.

Uma coisa é certa: o Brasil vai mudar, e muito. De cima para baixo.

 

publicado às 12:05

Brasil: Golpe contra o golpe, para evitar um contra-golpe

Por: José Couto Nogueira

 

Maior produtor mundial de novelas, o Brasil está agora a produzir a maior novela do mundo. Primeiro, porque é real, isto é, afecta a vida de 205 milhões de pessoas; segundo porque tem um guião que renova permanentemente a sua imprevisibilidade; terceiro, porque, apesar de ser terrivelmente real, tem um desenvolvimentos absurdamente surrealistas.

 

 

Na madrugada de quinta para sexta feira, os telespectadores foram surpreendidos com uma nova peripécia que, apesar de ter estado sempre no horizonte, não se esperava que ocorresse imediatamente. Isto é o melhor que se consegue em matéria de ficção: mostrar o inevitável, sugerir que pode ser evitável e, quando já se pensa que foi evitado, acontecer de repente, tornando o futuro (im)provável no presente inexorável! Mas não é ficção: Eduardo Cunha, considerado o pior bandido (numa competição de bandidos de nível olímpico) e o mais inexpugnável dos protagonistas, de repente é atropelado por um rolo compressor e esfrangalhado para a berma da estrada – onde, apesar de desfeito, ainda se pensa que poderá manter o protagonismo.

 

Para compreender tudo isto, o que não é fácil, torna-se necessário esquematizar os antecedentes. Eduardo Cunha, do PMDB, é (era, até quinta, dia 5) o Presidente da Câmara dos Deputados, a câmara baixa do Congresso bicameral brasileiro. Assumidamente evangélico, Cunha é considerado um dos parlamentares mais conservadores do país. No Congresso Nacional desde 2003, tem se notabilizado como defensor de valores tradicionais, por exemplo, posicionando-se contra a união de pessoas do mesmo sexo, a descriminalização do aborto e a liberalização do consumo de canabis.

 

Em 2010, apresentou um projecto para criminalizar o “preconceito contra os heterossexuais” e é o autor do projecto para a instituição do “Dia do Orgulho Heterossexual” e de outro para punir com prisão de até 10 anos os médicos que auxiliarem mulheres a fazer aborto. Mas os valores morais de Cunha não chegam à sua prática cívica: em Agosto do ano passado foi denunciado no processo Lavajato por corrupção e lavagem de dinheiro. São do domínio público provas de que ele, a mulher e a filha têm cinco milhões de dólares em contas na Suíça. Há fotocópias dos depósitos e saldos, assinaturas, tudo o que é necessário para indiciação. Mas os congressistas brasileiros estão a coberto daquilo a que se chama “foro previlegiado”; só podem ser indiciados e julgados pelo Supremo Tribunal (STF). Estranhamente, ou não tão estranhamente assim, o STF não tomou qualquer acção em relação a Cunha.

 

Entretanto, em Janeiro deste ano, Cunha entrou em rotura com o Governo de Dilma Rousseff (o PMDB fazia parte da coligação que apoiava o PT no poder) e iniciou o processo de impeachment da Presidenta, baseando-se em acusações de gastos excessivos e escondidos. É a discussão sobre se estes gastos são motivo para impedimento de Dilma que gerou a interminável disputa sobre se há ou não há um golpe para derrubar a Presidenta.

 

Eduardo Cunha é o rosto do impeachment: foi ele que levou a questão para o Congresso e foi ele que conseguiu que a Câmara dos Deputados votasse a favor – naquela sessão picaresca que ficou famosa pelas declarações ridículas dos deputados, a que Cunha presidiu impávido. Certamente Cunha é o político mais odiado pela opinião pública brasileira, ainda mais do que Lula ou Dilma; o PT e os que são contra o impeachment, porque sabem do seu papel preponderante no processo; os que são a favor, porque o reconhecem como ultra-reaccionário em questões morais e um corrupto que tudo tem feito para se manter no poder, inclusive articular os trabalhos da Câmara, desviando a atenção dos processos em que está envolvido.

 

Estes são os antecedentes. O que aconteceu na quinta-feira foi que o partido de Marina Silva (REDE) apresentou ao STF um pedido de impedimento de Cunha, baseando-se nos processos contra ele. A intenção de Marina era impedir o impeachment da Presidenta através de um truque processual; se Cunha fosse impedido, todos os actos ocorridos durante a sua permanência como Presidente da Câmara seriam nulos, inclusive o impeachment de Dilma. Marina, que foi aliada de Dilma mas já não é, quer que a Presidenta continue no cargo até ao final, em 2018, porque acha que assim ela, Marina, tem mais hipóteses de ganhar a eleição presidencial.

 

Perante este quadro, dois dos conselheiros do STF decidiram por conta própria (isto é, sem consultar os restantes) andar com o processo contra Cunha que estava parado, suspendendo-o imediatamente do cargo. É que com a suspensão os actos anteriores da Câmara, inclusive o impeachment da Presidenta, continuam válidos. Claro que não falta quem critique o STF pela decisão, uma vez que mantém o processo de impeachment de Dilma; como não falta quem festeje a queda de Cunha, carinhosamente chamado de “o meu bandido preferido” por todos aqueles que querem que Dilma desapareça de cena.

 

Para já, Cunha perde a imunidade de ser julgado, mas continua a só poder sê-lo pelo mesmo STF que o suspendeu, o que quer dizer que ainda tem como recorrer aos seus expedientes e chantagens para que o processo não avance.

É uma perda de prestígio importante, mas não é o seu fim.

 

Também para já, o processo de Dilma continua os trâmites legais. É opinião geral que ela está perdida. Corre no Planalto que está muito deprimida e a tomar anti-depressivos em excesso. Os seus discursos são cada vez mais desconexos. Quem está muito preocupado é o ex-Presidente Lula, uma vez que Dilma já não tem a possibilidade de blindá-lo com o foro privilegiado dum ministério e sabe-se que o Procurador Moro tem o mandato de prisão pronto.

 

Por seu lado, Michel Temer, o inevitável próximo Presidente (que também tem processos a correr contra ele) tenta discretamente formar o futuro Governo. Já se sabe que não reduzirá o número ridículo de 39 ministros para poder trocar apoios em quantidade. Na quarta-feira indicou que escolherá para ministro da Ciência e Tecnologia um evangélico que “não acredita mas respeita” a Teoria da Evolução de Darwin.

Uma novela tem muitos personagens. E situações caricatas mais do que a conta. Em breve, cenas dos novos capítulos. Acontecerão previsivelmente reviravoltas imprevisíveis.

 

publicado às 00:05

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D