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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

Uma escolha fácil

Por: António Costa

 

 Se o governo de Pedro Passos Coelho cair no Parlamento, Cavaco Silva vai ter de escolher entre um governo minoritário do PS com apoio dos partidos anti-europeus e um governo de gestão ou, no limite, de iniciativa presidencial. E, se nenhuma das opções impedirá eleições a curto prazo, a opção por um solução oficialmente provisória seria o caminho mais rápido para o abismo.

 

Cavaco Silva deixou a ameaça, sim, de que não daria posse a um governo com partidos anti-europeístas. E, por comparação, sublinhou os (maiores) riscos financeiros, económicos e sociais em relação a um governo minoritário da coligação. Nada mais certo, porque as posições do BE e do PCP não só põem em causa o que já foi feito, como são a garantia de que a economia portuguesa será menos competitiva, menos amiga dos negócios e do investimento, até do mérito. Mas o presidente tem a obrigação de saber que, pelas mesmas razões, um governo de gestão, necessariamente limitado nas suas ações e com um parlamento a legislar em sentido contrário por força da maioria negativa de Esquerda levaria o país para a quarta intervenção externa em quarenta anos de Democracia.

 

Sou dos que duvida da capacidade de António Costa para corrigir as contas do Estado e para fazer as reformas estruturais que aumentem o potencial da economia nacional, hoje uns limitados 1,5% ao ano, menos ainda quando tem de dar ao PCP o fim da caducidade dos contratos coletivos como já deu ao BE o fim do regime conciliatório nas rescisões laborais. Poderá até segurar o Governo para lá do orçamento de 2016, mas tudo ficará na mesma, ou pior. Mas não tenho dúvidas de que, mesmo com os cofres cheios, um governo de gestão estará não só impedido de tomar decisões para lá das que assegurem a gestão corrente do país, como será promotor involuntário do caos financeiro, primeiro, e económico e social, depois.

 

Um governo em gestão não tem o mais relevante dos instrumentos de política económica e financeira, um Orçamento do Estado, não pode cortar na despesa e, vá lá, uma vantagem, não pode aumentar impostos. É claro que o conceito de ‘atos estritamente necessários para assegurar a gestão dos negócios públicos’ tem subjacente uma avaliação política e não jurídica. Mas como se ultrapassa isto quando o Parlamento tem uma maioria da oposição? Não ultrapassa. Portanto, qual défice abaixo dos 3%, qual dívida pública a cair e economia a crescer. Seria, será, tudo ao contrário.

 

Os empresários, economistas e gestores que têm mantido um silêncio medroso e comprometido com o anormal estado político do país sabem que um governo de gestão seria um desastre, pior do que um governo de Esquerda com o PCP e o BE. Por isso, sobre isto, vamos começar a ouvi-los. Pode ser que Cavaco os ouça também.

 

A não perder

 

Já no próximo sábado, mais um TEDxLisboa. Será na Aula Magna, e uma oportunidade para ouvir, e questionar dez oradores com dez temas, transversais à economia e à sociedade. Um exemplo? O empreendedor António Fernandes via falar sobre o design e a inovação. Prometo, para a semana, trazer aqui ao SAPO24 uma visão, a minha, desta iniciativa.

 

O capital, sabe-se, é coisa que não abunda, e não é só em Portugal. Na Irlanda, no pico da crise, e com uma intervenção externa, os pequenos negócios começaram a fechar, e o Governo decidiu criar um fundo de apoio ao microcrédito. Com um princípio, emprestar com risco. A história, com final feliz, está no jornal Público.

 

 

 

publicado às 10:50

O que não vai acontecer

Por: Paulo Ferreira

Que governo vamos ter daqui a um mês? Quem vai ser o primeiro-ministro? Vamos ter Orçamento do Estado aprovado para entrar em vigor no dia 1 de Janeiro? Há alturas em que a imprevisibilidade reina. Este é um desses tempos. No momento em que escrevo não sei o que vai o Presidente da República fazer em relação ao próximo governo. Será António Costa com o apoio do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista? Ou será Passos Coelho, com uma espada sobre a cabeça?

Estes são momentos em que não sabemos o que vai acontecer. Mas conseguimos apostar no que não vai acontecer.

 

Não vamos ter um governo estável. Esta é fácil. Só um entendimento sério e comprometido para a legislatura entre PSD/CDS e o PS conseguiria dar ao país uma perspectiva de estabilidade governativa. António Costa optou por outro caminho para ser primeiro-ministro e tentar levar os socialistrs ao poder, única forma de continuar a liderar o partido após a derrota nas eleições que não podia perder. Seja qual for a solução que resulte da charada política que temos pela frente, será sempre uma solução fraca. Se for a coligação a governar, é Pedro Passos Coelho quem tem o seguro de vida do cargo nas mãos de António Costa. Se for António Costa a governar, estará sempre refém do BE e do PCP. Esperar destes dois partidos um apoio firme a um governo que tem de fazer e cumprir orçamentos rigorosos durante toda a legislatura é esperar que eles neguem a sua razão de ser. A governação vai ser feita dia a dia, lei a lei, medida a medida. Sempre com a corda na garganta e eleições à espreita.

 

Não vai haver reformas estruturais. Governos fortes e com apoio maioritário de um só partido não gostam de reformar. Governos fracos não podem reformar. Fazer reformas é incomodar muita gente. É alterar práticas de décadas. É combater interesses instalados à mesa do orçamento. É comprar guerras permanentes, ter protestos na rua e greves frequentes. Nada que passe pela cabeça de um primeiro-ministro que a tem a prémio de forma permanente. De uma forma ou de outra teremos um governo que será pouco mais do que um governo de gestão para tratar do expediente mínimo.

 

A Segurança Social não vai ser reformada. Alcançar a sustentabilidade implica mexer nos benefícios - que têm que ser menores - e nas contribuições - que têm que ser maiores. Medidas duras e impopulares, como se sabe. A urgência demográfica e económica não vai dar tréguas, à espera que os políticos se entendam. Podem aparecer mais alguns remendos, mas que não serão mais do que isso.

 

As condições de competitividade da economia não vão melhorar. Cá dentro temos instabilidade, incerteza, imprevisibilidade e políticas erráticas. O que vai acontecer ao IRC? E às leis laborais? E às taxas de juro? E ao ambiente regulatório? Ninguém sabe. Lá fora temos economias em desaceleração e focos de instabilidade política em vários mercados importantes - Angola, Brasil, China. A Alemanha espirra e a Europa pode constipar-se de novo. Portanto, teremos mercados a definhar e menos capacidade para os atacar. O resultado não pode ser bom.

 

As contas públicas não vão chegar ao equilibrio. A dívida pública só começa a descer de forma sustentada quando deixarmos de fazer défices anuais. Isto não é economia nem política: é aritmética. Governos fracos (ver primeiro ponto) não conseguem equilibrar contas. Se conseguirmos manter o défice abaixo dos 3% do Tratado Orçamental já será um milagre. Défice próximo de zero? Não acreditamos no Pai Natal, pois não?

 

O próximo Presidente da República não vai ter vida fácil. É possível que o próximo Presidente tome posse com uma tarefa importante na agenda: resolver se leva ou não o país para eleições assim que os prazos constitucionais o permitam. Será certamente preciso mais do que a tradicional “magistratura de influência”. Vai ser necessário arregaçar as mangas e meter “as mãos na massa”, decidir, fazer opções em vez de esperar que alguém as faça por ele (ou ela). Ao mesmo tempo, será fundamental que o próximo inquilino de Belém seja uma referência de estabilidade, de seriedade e de traquilidade no ambiente revolto que se antevê à sua volta. Não é coisa pouca.

 

Mudanças (também) lá fora

 

Não confundir estes “liberais” com os do lado de cá do Atlântico. Lá, nas Américas, os liberais são os dos costumes, os de esquerda. Foi nestes que o Canadá votou. Vale a pena conhecer a agenda de Justin Trudeau.

 

Se a Apple avisa é porque alguma coisa vai acontecer. Agora é na indústria automóvel.

publicado às 01:05

Ay, Carmena! Quando quem governa é quem não ganhou

Por: Francisco Sena Santos

 

 Apesar dos azedumes que andam no ar e de algumas cabeças em vendaval que levam ao excesso de mostrar rancores, o que há de estimulante no resultado das eleições de 4 de outubro é a possibilidade de abertura de um tempo político em que quem governa passe a ter em conta um leque mais aberto de opiniões e a escutar mais sectores.

 

Espera-se um sopro de ar fresco que possa trazer propostas audazes e um pouco de atenção política às necessidades de cada pessoa. O cenário político, que se tornou agora mais aberto, exige procurar compromissos. Fica assim mais propício para trazer para cada problema uma porta de saída suficientemente folgada para que quem passe por ela não tenha de se agachar demasiado. O tic-tac para a formação do novo governo já arrancou, a aspiração é a de que possamos ter um gabinete fiável e eficaz, decente e estável, sem sectarismos.

 

A prática dos últimos anos fornece um manual de maus exemplos. A decência obrigaria a que o governo cessante, em maio passado, tivesse consultado as oposições antes de reconduzir o governador do Banco de Portugal. O fim da maioria absoluta favorece que, agora, não se repitam desprezos como este pelas oposições, e foram muitos.

 

Entre apoiantes da coligação de direita passa muito alvoroço com a possibilidade de uma experiência de governo que deixe de fora os que ficaram no primeiro lugar da votação e que abra o arco da governação à experiência, que clamam ser de alta perigosidade, de um pacto entre partidos das esquerdas.

 

É natural que a coligação de direita esteja à cabeça da escolha presidencial para formar o próximo governo. Depois, no parlamento, logo se vê se o programa e o gabinete PSD/PP têm pernas para andar. Obviamente, não faria sentido que António Costa juntasse o PS a essa coligação – repetiu durante a campanha que não o faria e que a fronteira para a escolha política nas eleições marcava uma alternativa entre a direita e o PS.

 

Será que a bancada parlamentar do PS vai, em conformidade, votar coesa? E será que as esquerdas terão conseguido, apesar de muito heterogéneas na cultura política e na tradição ideológica, um compromisso para governar? Se a resposta a estas duas perguntas for “sim”, então a posse deve ser dada a um governo das esquerdas. Terá o mérito de mostrar que o arco da governação não fixa limites ao realmente possível. E espera-se que governe com competência, procurando sarar feridas e superar o possível das cicatrizes sociais abertas.

 

É evidente que, perante um governo das esquerdas - se assim vier a acontecer -, à direita vai haver quem clame que é um governo de perdedores. Já se ouviram exageros como “usurpação do poder” ou até “golpe de Estado”. Obviamente, a nobre arte de governar também passa pela capacidade para formar coligações.

 

Os eurodeputados portugueses até devem conhecer bem o caso belga onde o primeiro-ministro, Charles Michel, é eleito pelo Movimento Reformador que ficou no quinto lugar (9,6%) em votos. Conduz um pacto com quatro partidos do centro-direita. A necessidade compromisso a isso levou num país que até mostrou saber funcionar até mesmo sem governo (a Bélgica tinha estado 541 dias, a partir de fevereiro de 2011, sem governo) em plenitude de funções.

 

Mais perto de nós e de modo mais retumbante está o caso espanhol. Manuela Carmena é a alcaldesa de Madrid (3,1 milhões de habitantes). Preside ao município da capital espanhola após, nas eleições de 24 de maio deste ano, ter ficado em segundo lugar. Carmena, candidata pelo Ahora Madrid, espécie de franchising política liderada pelo movimento de cidadãos “Podemos”, alcançou 31,8% dos votos. O Partido Popular, com Esperanza Aguirre, era hegemónico em Madrid, capital que dirigia há 24 anos, e resistiu nestas eleições como a força mais votada (34,5%). Mas as esquerdas juntaram-se num pacto Ahora Madrid (31,8%)/PSOE(15,3%) que colocou Carmena como presidente do município da capital espanhola.

 

Reviravoltas como esta marcaram estas eleições autonómicas e municipais de há cinco meses, em Espanha. O PP, embora resistindo em primeiro lugar, perdeu para alianças à esquerda o governo de 14 cidades e autonomias principais que controlava. Para além de Madrid, perdeu Valencia (o alcalde é um ecologista de esquerda, apoiado pelo PSOE e pelo Podemos), Sevilha e Saragoça, entre várias outras capitais. Ou seja: nestas eleições de maio em Espanha o PP foi o mais votado mas as esquerdas, apesar de muito heterogéneas, somaram maiorias absolutas e estão a governar.

 

A conquista de Madrid por Manuela Carmena levou apoiantes inspirados por Ay, Carmela!, canção popular e hino republicano na Guerra Civil espanhola, a adaptar assim a letra da canção.

 

De hoje a dois meses, em 20 de dezembro se verá o que vai acontecer nas eleições gerais espanholas.

 

Em Portugal, ainda estamos na fase de esperar para ver. Seja como for, o cenário será necessariamente mais plural. E se a opção for por um pacto das esquerdas, obviamente não será usurpação de coisa nenhuma, apenas questão de ter capacidade para concertar uma maioria. Que depois fica à prova e é julgada nas eleições gerais seguintes.

 

Também no topo

 

Luís Miguel Cintra anunciou que sai dos palcos como ator. A notícia dói mais por ser motivada pelo combate à doença de Parkinson. Mas Cintra (66 anos), ao anunciar a retirada, no palco da sua Cornucópia, recusou lamúrias e, generoso, celebrou o Teatro pedindo a festa do aplauso para um jovem ator, Guilherme Gomes (22 anos), que ele lançou como Hamlet. Luís Miguel Cintra tem a vida preenchida a semear grande Teatro. São sementes que crescem para sempre. E vamos continuar a tê-lo como encenador. Cintra foi Prémio Pessoa em 2005 e, em 2012, o Expresso pediu-lhe que abrisse a reflexão sobre "Que Portugal teremos daqui a 25 anos?". Vale voltar a ler

 

Luaty Beirão entra no 30º dia em greve da fome. Todo o respeito pela luta que conduz, mas é essencial que possa estar em pleno a argumentar no julgamento marcado para 16 de novembro. É um barómetro sobre a independência da Justiça no regime angolano.

 

O poderoso Canadá de novo voltado para o cuidado com o clima do planeta. É uma provável consequência do triunfo dos Liberais nas eleições de ontem no Canadá. Com um outro Trudeau a liderar chega ao fim uma década muito conservadora num país que é uma potência global.

 

A televisão está a mudar. Uma nova geração de produtores e distribuidores decidiu mudar o modo como se vê televisão.  A Netflix instala-se amanhã em Portugal. Entre o muito para ver, Beasts of No Nation, retrato da sórdida violência em conflitos tribais e raciais de África.

 

No SAPO JORNAIS: uma surpreendente capa de uma clássica revista. O Papa também recebe em casa.

publicado às 08:12

E se as eleições fossem hoje?

Por: António Costa

 

 António Costa está há duas semanas em modo de sobrevivência, põe em causa um sistema que dura há 40 anos e que permite que o partido mais votado forme governo, mesmo em minoria, e negoceia à Direita (!) e à Esquerda como se fosse tudo igual. Perante esta sucessão inaudita de eventos, se as eleições fossem hoje a coligação reforçaria a sua votação para mais de 41%, no limiar da maioria absoluta, de acordo com uma sondagem da Intercampus para a TVI. E se Costa formar um governo dos derrotados?

 

Costa é mestre dos bastidores, sim. Já foi no PS, está agora a liderar um processo e a deixar Pedro Passos Coelho e Paulo Portas para trás. Surpreendentemente. Foram ultrapassados nas negociações, não impuseram uma agenda política e, agora, quase parece que são eles, a coligação, a rejeitar um Bloco Central alargado. Não são, mas isso não é evidente, mérito de Costa. Já justificou não ter apresentado a sua demissão no dia da derrota eleitoral perante aqueles que tinham a vitória socialista como garantida, já ganhou mais umas semanas de vida política, até já se livrou de António Sampaio da Nóvoa.

 

A troca de correspondência entre a coligação e o PS dizem-nos o suficiente para percebermos o que quer Costa. De outra forma, seria difícil perceber qualquer entendimento, mesmo mínimo, do PS com dois partidos que têm uma montanha a separá-los, o Tratado Orçamental e o euro – e as reuniões ‘interessantes’ que mantiveram. Ao invés dos encontro inconclusivos e vazios com a coligação. Claro que ninguém quer ficar com o ónus do divórcio depois do romance epistolar.

 

Portugal vai ter um novo governo esta semana, sim. Cavaco Silva vai dar posse ao líder do partido mais votado, Passos Coelho, e vai passar para Costa a responsabilidade de deitá-lo abaixo no debate sobre o programa de Governo.

 

As cartas estão lançadas e, quase, marcadas. Se António Costa já deitou fora um entendimento com a coligação, por vontade própria, está muito longe de poder assegurar um governo estável de Esquerda. Pela natureza das coisas. Basta avaliar as condições impostas pelo BE e pelo PCP para percebermos a impossibilidade de um acordo consistente. Um acordo que permite reequilibrar as contas públicas. Ponto. Pelo contrário, essas condições serviriam a passagem de regresso da ‘troika’ a Portugal.

 

O secretário-geral do PS poderia, e deveria, ter seguido uma terceira via. Não precisava de entrar no Governo, não precisava de aliar-se a uma Esquerda que não deixou de ser radical. Poderia e deveria ser a oposição exigente que o país precisa. Mas para ser ‘só isso’, teria de ter saído depois de falhar todos os objetivos? Pois, está aqui a explicação para esta estratégia.

 

Costa alarmou o país, denunciou esqueletos no armário sem os identificar. Lançou a confusão, disse que eram graves. Só não disse se, pela sua gravidade, permitiriam aplicar o seu programa, mais ainda somado aos programas do BE e do PCP. Em que ficamos? A situação económica e financeira do país está longe ainda de estar estabilizada, sim. O gelo está fino, E por isso é que esta deriva frentista é um risco enorme. Para o país, para o PS e para Costa. Por esta ordem.

 

Até onde António Costa vai levar a sua estratégia? Jogará tudo na estratégia de vir a ser primeiro-ministro por admitir que, com eleições a curto prazo, terá mais condições para ganhar, mesmo ou sobretudo se vierem a realizar-se a curto prazo. Engana-se, se seguir este caminho.

 

Se António Costa formar um governo dos derrotados, legítimo do ponto de vista constitucional, mas moralmente ilegal e politicamente inconsistente, as próximas eleições serão um passeio para Pedro Passos Coelho.

 

O que deve ler?

 

Os refugiados saíram dos principais noticiários, sim, mas não abandonaram aquelas viagens para fugirem ao inferno. E, agora, com o Inverno à porta, e os muros erguidos em alguns dos países por onde os refugiados precisam de passar, a crise humanitária tem tudo para se agravar. Agora, como relata o jornal Público, a Eslovénia impõe limites à entrada diária de migrantes, enquanto à mesa dos políticos se tenta uma resposta global que continua a não chegar.

 

E por falar em histórias que dão filmes, saiba que o cineasta Martin Scorcese está a trabalhar num outro filme, o nono, com Robert De Niro. Como pode ler aqui, no Sapo24, o novo filme chama-se The Irishman e tem uma concorrência de peso, em projetos com Taxi Driver e Tudo Bons Rapazes.

 

publicado às 10:30

O voto de cada um

 Sempre que há eleições, tenho a mesma sensação: os líderes partidários falam do voto de cada um de nós como se tivéssemos combinado uns com os outros…

 

Eles dizem (digo “eles”, porque efectivamente são todos eles…) que “os portugueses foram claros em manifestar” isto ou aquilo, uma clara maioria, ou uma maioria escura (talvez apenas menos clara…), um voto de confiança ou um voto de desconfiança, e parece que o resultado final saiu de uma magna reunião de eleitores.

 

Não consigo vislumbrar onde raio foram buscar esta ideia. Uma coisa é a democracia ter, entre outras formas de manifestação, o voto que elege ou destitui aqueles que nos governam - outra, bem diferente, é procurar tirar ilações de votos que, somados, dão ou retiram maiorias, mas que evidentemente resultam de escolhas absolutamente divergentes. E individuais.

 

Domingo passado, houve muitos eleitores no PS que votaram apenas contra o PSD/CDS; como houve votos convictos de militantes e simpatizantes; como houve votos úteis de uma esquerda que nunca se une. Da mesma forma, houve votos na coligação que defenderam simplesmente a continuidade; outros terão resultado da convicção e da militância. Houve votos em branco porque sim, ou porque não. Houve votos no Bloco contra a CDU, ou contra o PS.

 

O que não houve, de certeza, foi essa ideia peregrina dos “portugueses” como um todo. Os “portugueses” não reúnem nem conspiram - vivem como podem, fogem ao fisco como podem, defendem-se como podem, e votam (ou não…) em função de argumentos tão diferentes quanto a militância, a paixão, o desdém, a vingança, a esperança, e sei lá mais quantos valores e princípios e conceitos (até mesmo preconceitos…) que lhes passam pela cabeça.

 

Nos últimos meses, o meu sentido de voto mudou três vezes. Foi influenciado por sondagens, discursos, tiros nos pés e até mesmo pelo voto que o meu filho me anunciou previamente. De uma coisa estou certo: não me sinto parte dos “portugueses” que deram um voto de confiança, mas não absoluta; ou contra a austeridade, mas repartido pelas diferentes oposições.

 

O voto foi individual, particular, único. Cada um por si. Esta mania de interpretar colectivamente o que é individual constitui um dos mais irritantes defeitos da análise política. É fácil e simplista, aceito. Mas não deixa de ser absurda. Não apenas por ser uma ideia falsa - mas por presumir, uma vez mais, que vivemos em rebanho e assim andamos, ao Deus dará, atrás deste ou daquele. Lembra-me um homem de bigode que andou por aí nos anos 40 do século passado a dar cabo da vida de milhões de pessoas - e nem que fosse apenas por isso, não gosto nem quero.

 

Domingo passado foi assim: um voto, uma pessoa, uma intenção. E deu no que deu. Agora é ver no que vai dar. E aguentar.

 

Coisas que me deixaram a pensar esta semana…

 

Há dez anos, a Moda Lisboa - este fim de semana, ali pela baixa lisboeta - parava a cidade. Era o acontecimento. Era o momento. Hoje, é apenas uma entre mil iniciativas e eventos que animam a capital. Por um lado, tenho pena que já não seja tão mobilizadora quanto foi - por outro, é um dos muitos sinais da dinâmica da capital. E isso é uma excelente noticia.

  

Há anos que sigo os irmãos Manuel e Francisco Aires Mateus. Tenho até a sorte de mergulhar na mesma praia onde eles descansam no Verão… Esta semana, a dupla venceu o concurso internacional para criar dois museus - o Museu da Fotografia de Elysée e o Museu de Design e Arte Contemporânea (Mudac) - em Lausanne, na Suíça. Venceram face a nomes inconformáveis da arquitectura. Que orgulho….

 

Mariza volta aos discos com “Mundo”, um disco surpreendente: produzido por Javier Limón, que já produzira "Terra", inclui temas de Jorge Fernando e Rui Veloso, entre muitos outros. É a minha escolha da semana. Mas mais do que isso, poder vê-la e ouvi-la ao vivo, em espectáculo aberto a todos, no próximo sábado, dia 10, em pleno Chiado, na escadaria dos armazéns, é uma ideia notável para lançar o disco. Não falto!

 

 

publicado às 10:19

O país do “tenham-mas-é-vergonha” devia conversar mais com o país do “tenham–mas-é-juízo”

 Por: Rute Sousa Vasco

 

Agora que já passaram 48 horas sobre o acto criador da nova realidade política em Portugal e umas horas depois de Cavaco ter apelado ao “tempo do compromisso”, há duas ou três coisas que podíamos falar entre nós, eleitores e cidadãos portugueses.

 

Sobre os resultados. Todos ganharam, já se sabe.

Até o PS, ganhando poucochinho, lá conseguiu ganhar alguma coisa (face a 2011) e, com alguma felicidade, pode vir a descobrir que lhe saiu um brinde em vez de uma fava.

O PSD/CDS, que queria uma maioria clara, ganhou, porque, afinal de contas, sempre teve a maioria mais inesperada da História de Portugal nos últimos 40 anos.

O Bloco de Esquerda ganhou 260 mil votos e a subida a terceira força eleitoral, mesmo que isso não chegue para evitar a repetição de um Governo PSD/CDS.

O PCP ou CDU ganhou porque ganha sempre, o PAN ganhou um deputado e mesmo os partidos mais pequenos, que tinham ambições de eleger deputados e não o conseguiram, ganharam votos e o financiamento de 2,84 euros por cada eleitor que lhes depositou confiança.

 

Ou seja, em Portugal, perder não é opção. É deselegante e é quase uma desfeita para com todos os que apoiaram quem perdeu. Não se faz. Por isso, conseguimos contar pelos dedos as vezes que políticos, gestores, treinadores de futebol e por aí fora simplesmente disseram “perdi” ou “errei” ou “isto correu mal”.

O que é um problema, porque na lei das probabilidades universais, ganhar e perder estão lá em igual medida, com responsabilidade própria, alheia ou conjugação de ambas.

 

Sobre “que raio de país é este”.

Não tardou, logo que os resultados foram conhecidos, que a expressão popular na voz dos nossos amigos, familiares , conhecidos e desconhecidos aparecesse nas paredes das redes sociais. Ora comemorando uma afluência às urnas que nos tornava subitamente um país mais evoluído e uma democracia mais participativa – e que afinal de contas nunca se confirmou, pelo contrário – quer apelidando todos os que não votaram assim ou assado, consoante as alas, de mentecaptos para baixo.

Ali mesmo, naquele momento, muitos descobriram, como alguém dizia tão bem, que em democracia o voto iluminado vale exactamente o mesmo que o voto às escuras. Seja qual for a iluminação, e sendo humana essa reacção, não deixa de ser extradordinário que seja apenas na ocasião solene do voto que muitos de nós descobrem que não suportam a maioria de todos os outros.

 

Ou seja, descobrimos ao votar que somos um país mais conservador que progressista, mais católico que ateu, mais popular que erudito, mais paternalista que autónomo, mais radical do que conciliador. Um país colado à TV que prefere ver a “A Quinta” das celebridades do que a emissão especial onde jornalistas, comentadores e políticos discutem entre si o que vai ser o país nos próximos quatro anos.

Somos tudo isto, e muito mais, em todos os dias do ano.

 

Sobre “afinal o que é que os portugueses querem”.

Além das tracking polls, esta campanha eleitoral foi também marcada pelos “quizzes” ideológicos. Uma espécie de testes de compatibilidade amorosa, mas feitos à luz da ciência política e aplicados às nossas ideias sobre o mundo e a sociedade.

A simplicidade das perguntas e a transformação dos temas principais da nossa vida pública num quase-jogo tem imensas vantagens. A primeira é retirar os preconceitos que todos temos sobre a esquerda e a direita, hoje em dia conceitos de duvidosa utilidade prática.

A segunda é permitir pensar nos programas partidários à luz de questões práticas do nosso dia e fora das frases sonantes que alimentam a máquina trituradora dos media.

E a terceira é, para quem assim se dispor, evidenciar que não somos binários. Vejam-se temas que tocam a todos, como a saúde. Se a pergunta for se o Estado deve assegurar a prestação de serviços de saúde, consideraremos que a “esquerda” diz que sim e a “direita” diz que não. Mas, se a pergunta for se todos devem beneficiar de igual forma independentemente do seu nível de rendimento, provavelmente teremos outras nuances.

O mesmo vale para as leis que regulam as nossas relações. Adopção por parte de casais do mesmo sexo, por exemplo. Nem toda a esquerda é a favor e nem toda a direita é contra simplesmente … porque este é um tema de valores que supera na maior parte dos casos, e bem, orientações politico-partidárias, ainda que os partidos delas se apropriem.

Outra extraordinária presunção de rótulo político está na divisão do mundo de hoje entre ‘trabalhadores’ e ‘patrões’. Num mundo e num país que em função de tantas mudanças – geracionais, tecnológicas, económicas, sociais – assiste diariamente à criação de milhares de empresas, muitas delas por empresários com menos de um tostão furado no bolso apenas animados por uma ideia, competência ou necessidade, chega a ser cómico ouvir quem quer à força catalogar esta comunidade tão diversificada de pessoas à direita ou à esquerda. À direita, porque são patrões, naturalmente (que isto de ser empreendedor é só um petit-nom), à esquerda, porque são revolucionários, naturalmente (e já se sabe que a direita nunca tem ideias novas).

 

Num país tão cheio de verdades adquiridas, muitos se sentiram demasiado confiantes ou demasiado perdidos neste domingo de eleições. Uns demasiado confiantes que os portugueses sabem bem o que não querem; outros demasiado perdidos da certeza que tinham que o país queria mudar.

Talvez ambos os lados tenham razão. Talvez o país da esquerda que se insurge com a austeridade e grita ‘tenham vergonha’ face à perda de direitos esteja mais perto da direita que sentencia ”tenham juízo” quando se fala de sair do Euro . Talvez seja preciso ter mais vergonha e mais juízo.

 

Talvez precisemos todos de conversar mais uns com os outros.

 

publicado às 22:26

Oportunidade para uma outra cultura política

Por: Francisco Sena Santos

 

Os portugueses saem das eleições deste 4 de outubro com um quadro político claramente menos adverso e até mais amável para os cidadãos: os políticos ficam obrigados a uma cultura de negociação como sistema de resolução das diferenças nas opções de governabilidade.

 

 

O novo mapa parlamentar até tem a vantagem de tornar difícil qualquer tipo de troca de cromos em jogos de pactos entre os protagonistas dos entendimentos. Terá de ser tudo claro. PSD e PP, para poderem governar, vão ter de conseguir compromissos com o PS e os parceiros sociais. O PS vai estar sob pressão de 36 deputados na esquerda da esquerda, representando um milhão de votos e 18,5% do eleitorado. Sendo que todos sabemos que o país continua meio preso por arames.

 

A coligação de direita, PSD/PP, é claramente vencedora na votação de 4 de outubro, mas também é o grupo político mais castigado nesta eleição: quando ainda falta apurar os votos enviados do estrangeiro (foram ao todo apenas 75 mil nas eleições de junho de 2011), a coligação PàF perde mais de 700 mil votos e, ao ficar pelos 38,7% dos votos agora entrados nas urnas, perde quase 12 pontos percentuais em relação aos resultados de 2011. Admitindo que PSD e PP elegem três dos quatro deputados pelo estrangeiro, a Pàf fica com 107 deputados, o que significa a perda de 22 dos 129 deputados que em 2011 deram maioria absoluta folgada a PSD e PP. O quase lema da coligação PàF – ‘Ou nós ou o caos’ – funcionou junto de eleitores temerosos mas, mesmo assim, PSD e PP, apesar de serem os mais votados, deixam de ter maioria para impor a sua política. Passa a ser necessária a negociação para encontrar boas soluções para a vida comum - e é isso o que se espera da arte política.

 

A esquerda, embora desconjuntada, fica com a maioria aritmética em votos e deputados. Curiosamente, todos os partidos de esquerda, mesmo o PS, principal perdedor político nesta eleição, saem ganhadores na comparação com os votos alcançados em 2011: o PS recupera uns 200 mil votos, sobe 4,3 pontos percentuais e fica com, provavelmente (faltam os votos do estrangeiro), mais 13 deputados (85 já confirmados, provavelmente serão 86); a CDU continua na casa dos 440 mil votos mas acrescenta umas décimas e um deputado (agora, 17); o Bloco de Esquerda é o mais ganhador, dispara o número de votos de 288 mil para 550 mil, dobra a percentagem (de 5,1 para 10,2%) e passa de 8 para 19 deputados. É um triunfo, este do BE, que merece ser ponderado. Tal como a redefinição do rumo do PS como referência à esquerda – antes de discutir pessoas, vale discutir políticas.

 

No último ano e meio houve eleições parlamentares ou presidenciais em 13 dos 28 países da União Europeia e a esquerda só ganhou duas: na Grécia e na Suécia. Apenas nove dos 28 países da União estão com liderança à esquerda: Áustria, Croácia, Eslováquia, França, Grécia, Itália, Malta, República Checa e Suécia. Por toda a Europa, a esquerda que tem a etiqueta de socialista democrática, trabalhista ou social-democrata, está a perder simpatizantes, a fabricar abstencionistas ou a atirar militantes para a rebeldia do voto de protesto em resistência à insuportável submissão à austeridade. O velho modelo social europeu, o sistema que deu a sucessivas gerações a confiança de vida melhor, está sob ameaça de fossilizar. As pessoas aspiram a poder sonhar, mas esta esquerda, em tempos ditados pelo capitalismo liberal, não faz sonhar. Precisa de se reinventar, como escreveu Pascal Riché a propósito do triunfo de Corbyn, com o seu programa radical, entre os trabalhistas do Reino Unido. Também faz pensar esta análise de Sergio Cesaratto, professor de economia política na universidade de Siena.

 

Já aí estão vozes do PS, seguristas, socratistas e outras, que reclamam o ajuste de contas com a liderança de António Costa. Talvez fosse prioritário darem primazia à discussão do ideário.

 

O eleitorado português parece avesso a dar corda a novos partidos. Mas a abstenção está nos 43%, que devem querer dizer desinteresse ou desprezo, podem significar resignação, mas também podem levar à revolta. Em Espanha, o baralho já está a mudar, as cartas políticas estão a ser redistribuídas com novos parceiros, Podemos, Ciudadanos e outros, que entram no jogo até aqui dominado pelos partidos tradicionais. São muito esperadas as eleições gerais espanholas, em 20 de dezembro. Parece indiscutível que vão acabar com a maioria absoluta de um só partido (o PP de Rajoy), perspetiva que está a atrair os media de Espanha para a análise do quadro português, como se lê aqui e também aqui.

 

Em Portugal, não se vê propensão para acolher experiências assim rompedoras nem para alianças heterogéneas. Mas está aí uma boa oportunidade para uma nova cultura política. Sim, pode ser.

 

Também nestes dias

 

(D)efeito colateral. A guerra, iniciada há 14 anos, para vingar a infâmia nas Torres Gémeas e libertar o Afeganistão do terrorismo talibã, parece esquecida, mas continua, segue inacabada. Voltou agora às notícias com o ataque de forças dos EUA ao hospital dos MSF em Kunduz. O ataque fez 19 mortos, incluindo médicos e doentes. Parece ser o cruel efeito colateral de um pedido de socorro de tropas afegãs perante a reconquista de Kunduz pelos talibã. O Afeganistão e o Iraque são guerras assimétricas com engrenagens que uma vez lançadas tendem a nunca mais acabar. A Síria é a emergência em curso. A NATO está a querer impor stop aos russos, porque duvida da motivação de Putin. E há nova crispação regional. O que se segue? Também recrudesce a violência entre Israel e a Palestina.

 

O taciturno, muito humano, inspetor Kurt Wallander, sempre atormentado na luta pela justiça, ficou órfão. Não teremos mais nenhum livro de Henning Mankell. Este popular escritor de estupendos livros policiais, em que incluiu retratos críticos da sociedade europeia de hoje, perdeu o longo combate com um cancro. Escolheu chamar a doença pelo seu nome e contar essa dura batalha final através de um diário no jornal Goteborgs-Posten. Foi sempre ativista pelas causas dos que sofrem. De Gaza a Moçambique. Mankell é a personagem na primeira página escolhida hoje entre as do SAPO JORNAIS. Também poderia ser esta que não terá tido tempo para destacar a morte do sueco que para além de escrever livros admiráveis e ter escolhido Maputo para viver foi diretor do Teatro Avenida, na capital moçambicana.

 

começou a temporada de prémios Nobel: na quinta-feira, o da Literatura (foi para Saramago em 1998); no dia seguinte, o da Paz (foi para os timorenses José Ramos Horta e Carlos Ximenes Belo em 1996). Quem, agora? Há nomes portugueses nas listas de máximo mérito, de Guterres a Sampaio, passando por António Lobo Antunes.

 

A magia dos U2 está por quatro noites em Barcelona. Espreitar aqui. Também aqui.

publicado às 09:10

Agora, é preciso governar

Por: António Costa

 

 A coligação ganhou as eleições, o PS perdeu. É este o ponto de partida que precisa de ser aceite por todos – e pelos vistos nem todos o aceitam – para ser possível a formação de um governo que tem de ter no Parlamento as condições de governabilidade equiparadas àquelas que os portugueses lhe deram nos votos. Para garantir que o novo governo acaba o que o anterior começou.

 

Nesta campanha eleitoral, falou-se muito de promessas – António Costa, então, prometeu tudo a todos – e falou-se pouco ou mesmo nada das reformas estruturais que o país continua por fazer, a começar pela do Estado que ficou na gaveta de Portas.

 

Hoje, com uma vitória clara da coligação - os portugueses, afinal, aprenderam mesmo a lição - é preciso ultrapassar a discussão partidária. A não-demissão de António Costa e as vitórias morais dos que reclamaram uma maioria de esquerda, ao género do golpe de Estado parlamentar, não ajudam a focar o país naquilo que, a partir de agora, é preciso pôr na agenda das prioridades. Ainda ontem, antes do discurso de não-derrota de Costa, os cenários estrambólicos em cima da mesa davam para tudo, e antecipavam o caos.

 

O Governo vai ter de aprender a negociar mais do que aquilo que fez nos últimos quatro anos, Passos vai ter de mostrar a habilidade política que demonstrou a negociar com Portas nas negociações e nos compromissos com a oposição, leia-se, com o PS. Com António Costa, que perdeu uma oportunidade para sair com dignidade e agora vai embrulhar-se em guerras internas imprevisíveis.

 

Da confusão do discurso final de Costa – uma síntese da confusão que foi a sua própria campanha – só se salvou a ideia de que o PS não estará disponível para assaltar o poder a todo o custo, para fazer alianças com aqueles que não querem o regime político e económico e social em que vivemos. Do mal, o menos. Seria o desastre para o PS, a sua ‘pasokização’, mas seria ainda pior para o país. E isso permitiu também olhar para o dia seguinte com uma ideia de maior estabilidade face àquela que se temia. Ou de menor instabilidade. Pelo menos, a coligação tem um prazo de validade até ao orçamento de 2017. Depois, logo se verá.

 

O Governo tem agora de tomar posse, primeiro, levar o seu programa ao Parlamento, depois, e garantir que fecha o ano de 2015 com um défice inferior a 3%. Uma condição essencial para, logo depois, apresentar o primeiro orçamento da nova legislatura. Os mercados, isto é, os investidores, estão aí, estão a olhar para o que o novo Governo, e o novo Parlamento, vai fazer. A olhar para o défice e para a dívida pública, que resistem, para a estabilidade do sistema financeiro, que continua periclitante, para a competitividade, que tarda. E nós continuamos a precisar deles.

 

E hoje é dia 5 de Outubro, dia da República, um dia que não vai contar com o seu máximo representante, o Presidente. Cavaco Silva diz que precisa de pensar, os portugueses também já estão a pensar, mas no próximo inquilino em Belém. Quem pode ser? A sondagem da TVI/TSF e Público dão a vitória esmagadora a Marcelo Rebelo de Sousa. Mas o 5 de Outubro é do povo, e pode ser acompanhado aqui, em 24.sapo.pt.

 

 

publicado às 09:48

Gilberto, o homem que não pensa mas existe

Por: Márcio Alves Candoso

 

É taxista há quase 40 anos, e viveu a democracia quase toda agarrado ao volante de uma vida que não escolheu. É boa pessoa, acho. Não sabe onde vota. Perdeu o cartão, mesmo que já não haja, e ele não saiba que já não é preciso. Se não votar, não saberá nunca o que perdeu por isso. Se é que perdeu. Ninguém lhe passa cartão e ele responde mudo, do mesmo modo.

 

Gilberto mudou de concelho. Era o três mil e tal de Oeiras, agora não sabe que número lhe ferraram em Sintra. Sabe a matrícula do carro, e que tem de mudar o óleo aos 800 mil quilómetros, que aquilo já não é novo. Uma vez foi a Espanha, levou-o um tio. Viveu na raia, na serra, antes de vir para Lisboa, aos 14 anos. É um bocado gordo e corado. Tem cerca de meio século, e nunca foi a Lisboa, sítio onde vive há quase quarenta anos. Nunca viu, nem percebeu, onde estava. Se lhe doeu, já não se lembra.

 

Nem sequer emigrou. Não sabia a que horas era o comboio. Não sabia que havia um comboio que atravessa a fronteira, que, na que ele sempre conheceu - e que um dia o levou a Espanha -, não passa nenhum comboio, só um ribeiro que é 'Tajo' de um lado, sendo Tejo na leira que o escolheu para criança.

 

Gilberto não pensa, mas existe. E é casado com a Luzia, embora passe mais tempo com o taxímetro. O mesmo não se pode dizer de Catarina. Ou de António, Pedro e Paulo. Ou de Jerónimo. Estes pensam. Mas é difícil dizer se existem.

 

O povo saiu à rua e a rua ficou vazia. É quase sempre assim quando se vota. Não se nota a diferença entre o antes e o depois. Como é normal em democracia, aconteça o que acontecer amanhã, os transportes vão rodar, os bancos vão penhorar, o Chico da Mouraria vai continuar a cantar, e até a Rosa Maria, da Rua do Capelão, parece que tem virtude. Pelo menos relativa, quando cotejada com um sujeito que é lingrinhas, sentado à secretária da casa da Mariquinhas.

 

Será que chega? A fome, dizia um reitor da Universidade do meu tempo, enquanto palitava os dentes e sorria com as obturações e as pontes, depende da vontade de comer. E não é que o homem tinha razão? Os insaciados têm sempre duas faces, dois modos de ser advérbio. Normalmente são esfomeados. Mas aparentemente são gulosos. Depende de quem arrota por perto. É normal em democracia. É a abóbora da vida.

 

Portanto, e salvo erro ou omissão de Belém, amanhã temos o País estrugido num molho de bróculos. É quase normal em democracia, sendo que é pior se for ditadura. Raio de gente originalmente pecadora que, em mais de quatro mil anos de história humana, ainda não inventou alternativa de cima!

 

O resto, é o do costume. No PS afiam-se as facas longas, no CDS é-se do PSD e no PSD estabelecem-se primazias. No PCP celebra-se a vitória, mais uma das tantas que já conheci, mas quase nunca senti, em quarenta anos de democracia. E a Catarina tem olhos verdes, e basta ela.

 

Os filhos do Gilberto e da Luzia vivem à beira da porta das 'Partidas', num terminal de aeroporto que fica ao Norte de Lisboa. Sem saídas. Vão na fila do meio milhão que não esperou por eles. E os quase meio milhão de bandidos que, de forma corajosa, irresponsável - e tão lúcida que mete medo -, não têm deputado, e que esperam um dia sentar-se à mesa do fim da fome representativa, lá onde há um método de Hondt que faz de conta que eles não amam.

 

E os abstencionistas de Bragança, de Vila Real, de Viana, de Beja ou do ó da Guarda, e de todos os distritos que não há forma de serem nada. Ou são por um ou pelo outro, que é o mesmo de antes com outros contornos, mas calçado nos mesmos coturnos. Condenados à igualdade, são os inferiores do reino.

 

E os desempregados que duram para lá do subsídio, e que estagiam no pão duro de uma entrevista sem forma, a três euros e mais não digo. São tão estafermos, tão indignos, que até são menos do que realmente são.

 

Lá vamos. Rindo com o PS de esquerda, de costas para qualquer margem. Cantando com a social-democracia, de passos que já não voltam. Dançando com a agri-mentira deportados de reforma. Escutando os amanhãs que não sobram, de Jerónimo e os seus apaches. E ainda assim Catarina, menos caviar e champanhe, mas mais 'presunta' e mais 'tinta', teatralmente conseguida.

 

Quando chega ao fim da rua, um dia de fim de vida, o Gilberto desliga o taxímetro. São nove euros e mais uma corrida. Sobram-lhe uns trocos.

 

Valentes e imortais.

  

publicado às 00:28

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