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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Cidade em lume brando

Por: Pedro Rolo Duarte

Esta semana, na véspera do jogo do Benfica com o Besiktas, o treinador Rui Vitória tinha marcado uma conferência de imprensa para o final da tarde. Eu estava no carro, parado no trânsito, quando liguei o rádio e ouvi o jornalista, que esperava a chegada do técnico, lamentar o atraso no começo da sessão: “Rui Vitória está bloqueado no trânsito da cidade, e por isso a conferência de imprensa vai começar mais tarde”.

 

 

Poucos dias antes, tinha lido uma notícia que dizia que a Área Metropolitana de Lisboa denunciara a degradação dos transportes públicos na capital, admitindo que a oferta global teria descido, nos últimos cinco anos, 25 a 30%. Demétrio Alves, da dita AML, falava de políticas desastrosas “que levaram o sistema de transportes a ter um nível de qualidade muito baixo e inaceitável”. Como exemplo, revelava que o Metro de Lisboa perdeu mais de 300 trabalhadores nos últimos anos. Dois ou três dias depois, soube-se que a Fertagus cancelou mais 5 ligações entre as duas margens do Tejo (todas nas chamadas horas de ponta) por falta de trabalhadores para as cumprirem…

 

 

Como se de uma bomba-relógio se tratasse, tudo parece “combinado” para que o caos se instale na capital, e para que os mais bonitos sonhos do presidente Fernando Medina se transformem no pesadelo dos lisboetas. Na verdade, o estaleiro em que a cidade se transformou, e que em muitos casos merece aplausos, elogios, reconhecimento, está assente sobre pressupostos que podem ter pés de barro - ou, pior ainda, nem sequer terem pés.

 

 

Não adianta embelezar a cidade, resolver pequenos quistos que a deformam (o Cais do Sodré é um bom exemplo…), forçar os cidadãos a deixar o carro em casa e utilizarem transportes públicos, incentivar o uso da bicicleta ou mesmo a caminhada a pé - e depois não ter resposta adequada às condições já criadas.

 

 

Leio no Facebook de Teresa Leandro: “Há mais de um mês que diariamente, às horas a que viajo de metro, que são as de ponta, há "perturbações" numa linha qualquer. Todos os dias. Ontem calhou-me a mim, com a amarela. Uso a linha verde da estação de Alvalade até ao Campo Grande, onde tomo a amarela até ao Marquês de Pombal. Em condições normais, 20 a 25 minutos costumavam chegar para fazer todo o percurso, mesmo com mudança de linha. Não no último mês e meio. Resignei-me a começar a sair de casa mais cedo, já a prever a forte probabilidade de atrasos”.

 

 

É neste quadro que a “rentrée” se faz na cidade de Lisboa. É certo que temos dezenas de eventos culturais e desportivos, vivemos na cidade mais animada do planeta. Mas, ao mesmo tempo, sofremos os problemas de sempre, as deficiências de sempre, as impossibilidades de sempre.

 

 

Agora, com esses “complementos” inesperados: em vez de ruas, estaleiros. Em vez de alcatrão, pó. Em vez de horas de ponta, horas perdidas todo o dia. Quando começar a chover a sério, o caos passará a Inferno. Espero que a impaciência não dê lugar à violência - e a cidade não se torne palco de batalha campal…

 

 

15 anos depois, três links sobre o dia negro de 11 de Setembro…

 

 

São quatro minutos arrepiantes, produzidos pela revista Time, que contam a história de uma das fotografias mais marcantes do 11 de Setembro de há 15 anos, em Nova Iorque. “The Falling Man” é, simbolicamente, o que todos sentimos naquele dia: estávamos entre a vida e a morte.

 

 

O ainda vivo “Usa Today” - epifenómeno da imprensa dos anos 80 de que deixámos de ouvir falar há tanto tempo… - recupera na sua edição digital dez questões esquecidas, ou pouco debatidas e investigadas, sobre aquele dia negro de 2001…

 

 

Algo me diz que vamos ter saudades de Barack Obama. Talvez por isso, não resisto a deixar aqui o link para que possam ver/ouvir o extraordinário discurso com que assinalou o 15º ano sobre os atentados de Nova Iorque.

publicado às 11:45

Lisboa que sobe e desce

Por:Pedro Rolo Duarte

 

 Anualmente, a prestigiada e atenta revista “Monocle” dedica parte de uma edição ao ranking das melhores cidades do mundo para viver. A lista é elaborada a partir de uma série de critérios, nem todos óbvios, mas todos ligados à vida quotidiana das cidades: desde a facilidade em jantar depois das dez da noite às horas anuais de sol, passando pelo nível de aceitação de animais domésticos nos espaços públicos, a revista considera itens como estes ao lado dos clássicos desemprego, população, integração religiosa, etc.

 

Lisboa faz parte das 25 cidades “top” há vários anos, tendo vindo a subir na tabela: em 2014 estava no 22º lugar, em 2015 subiu para o 18º, e este ano ficou no 16º. O comentário do jornalista encarregue de justificar a classificação sublinha a cada vez maior convivência entre o lado histórico da capital portuguesa e o seu crescente cosmopolitismo e modernidade. No fim, nas recomendações para melhorar a qualidade de vida, fala de dramas verdadeiramente assustadores para todos, como os números do desemprego jovem (34,4%), e do caos do trânsito na cidade, que faz a cabeça em água, a muitos de nós, diariamente.

 

Tenho um especial interesse por estes olhares que vêm de fora e surpreendem com pormenores que nos escapam, mas também se equivocam com aparências sem fundamento. Nesse sentido, a classificação de Lisboa no ranking da “Monocle” mostra uma verdade - uma metrópole em mudança -, mas passa ao lado de uma ameaça real para quem vive na capital: cada vez é mais fácil ser turista na cidade, na mesma proporção em que é cada vez mais difícil viver nela.

 

É indiscutível que os últimos anos trouxeram vida a Lisboa, espaços públicos de qualidade, oferta cultural, requalificação de bairros, comércio cosmopolita, e uma diversidade de eventos e iniciativas que chegam a deixar-nos perdidos, de tanta oferta. Mas, ao mesmo tempo, além de se deixarem morrer ícones que faziam parte da nossa História e do nosso Património (ainda esta semana fechou mais uma loja clássica, a bicentenária “Tavares”, da Rua dos Fanqueiros…), tornou-se de tal forma prioritária a oferta turística que se negligenciaram as necessidades de quem vive e trabalha aqui. Lisboa é hoje uma cidade difícil para os lisboetas. Difícil na deslocação em transportes públicos, caótica no trânsito, cara na economia do dia-a-dia, escassa na possibilidade de habitar o centro da cidade. Em vez de servir os lisboetas, o poder local parece querer mandá-los para longe…

 

Quanto mais nos abrimos ao exterior, mais esquecemos quem já cá estava. Nessa medida, a qualidade de vida de Lisboa deteriora-se ano a ano, ao contrário do que faz crer o olhar distante e simpático da “Monocle”. Estamos a subir no ranking de quem nos visita - mas vamos a pique no coração de quem acorda todos os dias naquela que já foi, e cada vez menos é, a nossa “menina e moça”…

 

PS - Se calhar seria de esperar que escrevesse sobre o tema do dia, a passagem de Portugal à final do Euro 2016. Um orgulho para todos, sem dúvida. Mas eu não sou um especialista em futebol, sou apenas um espectador entusiasmado. E se passo a vida a criticar os “achistas” que enxameiam Portugal palpitando sobre tudo e todos, não quero ser mais um treinador de bancada a dizer o que me vem à cabeça. Só espero que domingo haja festa!

  

 

Para ler sem falta esta semana…

 

Uma matéria muito prática e objectiva sobre alguns dos “luxos europeus” que os britânicos vão perder em breve. Saiu há dias no suplemento Mercados do jornal El Mundo.

 

Sofre de ansiedade? E se trocasse essa palavra por outra, que lhe retirasse a carga negativa que sempre lhe associamos? Um pequeno video - posso chamar-lhe reportagem… - da revista The Atlantic, explica como e porquê.

 

… E por falar em ansiedade, eis o site da revista mais zen que circula por aí. O preço de venda ao público não é muito zen - mas o site dá uma ajuda a tornar a nossa vida mais tranquila em torno do que é simples, natural, humano. Vale a pena descobrir a Kinfolk.

 

 

publicado às 09:38

Foi ela, a miúda que dançou com Springsteen no Rock in Rio

Por: Isabel Tavares

Foto: Carlos do Carmo

 

Chama-se Andreia, tem 20 anos, vive na margem sul do Tejo e é estudante de Jornalismo. Há uma semana Bruce convidou-a para dançar. Dois dias depois, em Madrid, o Boss parou de tocar quando voltou a vê-la no Santiago de Bernabéu.

 

 

Andreia Friaças.jpg

 

Era uma no meio de mais de 67 mil espectadores e Springsteen escolheu-a para subir ao palco e dançar “Dancing in the Dark”. É difícil saber quem ficou mais feliz, se Andreia Friaças, 20 anos, se o seu pai, um fã incondicional que segue The Boss para onde quer que ele vá.

 

As surpresas não acabaram aqui. Dois dias depois daquela que parecia a melhor noite de todos os tempos, Bruce Springsteen parou de tocar quando reconheceu Andreia no meio da multidão, desta vez no Estádio Santiago de Bernabéu, em Madrid, Espanha.

 

«Até me disse qualquer coisa, mas não percebi o quê. A verdade é que isso tornou o concerto memorável. Penso que achou piada a ver uma miúda em Lisboa na quinta-feira e, no sábado, voltar a encontrá-la em Madrid», conta. Estava do lado direito do palco, onde Springsteen vai menos, mas a partir daí Bruce regressou tantas vezes que as pessoas começaram a colar-se a ela: «eu não saio daqui, diziam».

 

No Rock in Rio foi tudo uma questão de sorte. Andreia não levava os cartazes da praxe a pedir para dançar com Bruce Springsteen, mas estava num bom lugar, o corredor que atravessa o recinto. «Quando ele passou, apontei para mim mesma para ir para o palco dançar, porque ele costuma dançar com alguém - lembra. Olhou para mim e fez sinal com a mão para eu subir e fui puxada por um segurança que, no final, voltou a colocar-me no a sítio onde eu estava, literamente. Nem sei o que lhe disse, agradeci o momento e penso que disse que o veria em Madrid».

 

«Foi giro, muito giro, e um pouco assustador quando olhei e vi milhares de pessoas. Mas não era uma coisa em que eu pensasse, não estava na minha lista de coisas a fazer. Vou aos concertos, porque gosto, para dançar, para curtir a música. O resto não me passava pela cabeça», garante. E quando diz vou aos concertos, Andreia quer dizer que já foi a «uns dez», só de Bruce Springsteen, o primeiro quando tinha apenas 13 anos.

 

É estudante do segundo ano de Jornalismo, na Escola Superior de Comunicação Social, onde pertence a alguns núcleos, como a rádio da escola, a ESCS FM, onde faz os noticiários das 19h e onde tem também um programa: “A voz dos ismos”.

 

Gosta de Springsteen por influência do pai, um informático fã incondicional de Bruce. Mas rock nem é o estilo preferido de Andreia, que se lembra de, ainda muito pequena, ter sido arrastada para um concerto dos Guns N’ Roses e de não ter gostado. Até hoje. Prefere blues e jazz. Adora Miles Davis.

 

O seu encanto pela rádio não tem nada a ver com a música. «Sou até um pouco hostil à ideia de passar música na rádio, de a rádio ser dominada por música. Mas é lá que oiço os noticiários». Isso e reportagem é o que gosta e gostaria de fazer profissionalmente. A Antena 1 é a sua estação preferida e na TSF ouve “Sinais”, de Fernando Alves.

 

Escolheu jornalismo apesar de todas as mensagens dissuasoras que foi recebendo e hoje não trocava de curso por nada. E recorda o optimismo do falecido Óscar Mascarenhas, que foi seu professor. Fala nele várias vezes, uma delas quando conversamos sobre livros: «O professor Oscar Mascarenhas dizia que tínhamos de ter três livros: um na casa de banho, um para ler nos transportes e outro na mesa de cabeceira. Não cheguei ao ponto da casa de banho, mas gosto de ler dois livros ao mesmo tempo», confessa. Acabou agora de ler O Arranca-Corações, de Boris Vian e tem a ideia de que o último livro que leu é sempre o favorito.

 

Atenta, diz que «estamos rodeados de uma realidade que não inspira confiança e não é apelativa. Todos os dias somos [os jovens] bombardeados com mensagens negativas: sai daqui, sai daqui. Pessoalmente, adoro viajar – este Verão vou fazer o Interrail -, mas não queria sair de Portugal. Não sou nada nacionalista, mas gosto do meu país. E estranho que estejam o tempo todo e dizer-me que devo sair».

 

Andreia é uma optimista. Mesmo vivendo em Portugal, na União Europeia, onde «o panorama não é o mais iluminado. A Europa está completamente fragmentada, precisa de uma reforma gigante, considera. Mas a minha ideia é tentar resistir às dificuldades».

 

Que dificuldades pode ter uma miúda de 20 anos? «A minha mãe é enfermeira e agora trabalha em dois hospitais. Sente-se o esforço acrescido. Ganha tanto agora com quando tinha um só emprego e trabalha o dobro. Coloco-me no lugar dela: às vezes sai de casa às sete da manhã para começar a trabalhar às oito e chega às dez, dez e meia da noite. É brutal. E não temos luxos por aí além; se calhar, um concerto do Bruce aqui e ali».

publicado às 17:40

A primeira ópera no Campo Pequeno

Por: Márcio Alves Candoso

 

Aquele intenso mês de Junho de 1982 ficará sempre marcado pela morte do José João. Chegado a Lisboa nem sete meses passados, o meu tempo dividia-se entre a turma de ‘práticas’ do 3ºano jurídico, o grupo do Coro universitário e a malta das noites da Estrela. Fazia um calor de namoradas, de praias e de fogos na serra, ou de artifícios no Tejo. De exames à porta. E de garraiadas com o José João.

Foi ele, forcado das Caldas mas nascido em Monsaraz, que nos meteu a ideia de ir pegar um touro. ‘É um bezerro, nem chega a ser um touro, não há que ter medo’, dizia para convencer os rapazes da turma. Era, se bem recordo, a garraiada de Agronomia, no Campo Pequeno. Ele é que sabia, e ficámos dependentes da sua sabedoria e uso das práticas taurinas. Ele ia na frente, a gente de ajudas.

 

Nortenho pouco entendido destas coisas que mais se usam na lezíria ou no montado, garanto que só não disse que não porque tive a péssima ideia de contar a perspectiva de aventura a uma menina, que ficou embevecida com a hipótese de me ver na arena da tourada. Aos 20 anos não se promete coragem e fica-se nas covas. Não fica bem, e lá se ia a namorada.

 

Correu bem, aquilo para o José João era manteiga. O bicho é bem maior quando se está nas trincheiras, e as olheiras negras dos moços de forcados engendrados à pressa denotavam o receio de quem nunca se viu em tal alhada. Olhei para a bancada, e lá estava ela. Subiu o camarote, não lhe vi saia bordada.

 

O José João morreu uma semana depois, numa pega de caras em Albufeira. Touro corrido (que já participou em touradas, por isso avisado), disse-se na altura. Nunca foi provado. Foi a primeira e única corrida da minha vida. Isso e as saudades do José João, que era o melhor de todos nós.

 

***

 

Amanhã, a tragédia é bem outra. Na arena do Campo Pequeno quem vai morrer é Violetta Valéry, ‘La Traviata’. Como sempre que a ópera de Verdi, inspirada no drama de Alexandre Dumas, é levada à cena num qualquer palco por esse mundo fora. Amanhã a arena centenária, remodelada faz agora dez anos, estreia-se numa produção desta arte e tamanho, se exceptuarmos a cantata ‘Carmina Burana’ de há uns anos atrás. Trazida pela empresa de espectáculos UAU (ler Uau!), que há tempos colabora com o Campo Pequeno, a ópera será interpretada pela Orquestra Filarmonica del Mediterrâno, com sede em Valência. Hoje poderá ser vista no Porto, no Coliseu.

 

Porque o Campo Pequeno? ‘Há os grandes espectáculos de massas, que podem ir, por exemplo, para o Pavilhão Atlântico, e depois os de menor audiência, para salas de 600 a 1000 espectadores; no caso desta ópera, queríamos um palco intermédio, função que o Campo Pequeno cumpre, pois contamos com 4.500 espectadores’, frisa Rita Duarte, directora de Comunicação da UAU.

 

Porque o Campo Pequeno, onde já só se fazem 13 a 16 touradas por ano, mudou de têmpera. Na década que agora se comemora, por lá passaram 744 espectáculos, que contaram com a presença de 2,4 milhões de espectadores e visitantes. Nas touradas, os números são menores. Cerca de 744 mil espectadores, para 174 corridas. Mas ainda assim consistentes, dizem os responsáveis pela praça. É que depois de uma manifesta crise de audiências, comum aliás a todos os tipos de espectáculo durante a crise económica, no ano de 2015 já se assistiu a uma retoma, ligeira, de 1,8%.

 

As obras efectuadas neste recinto, inaugurado em 1892 depois do abate da arena do Campo de Santana, vetusta e perigosa, permitiram valências várias. De uma sala onde se lidavam touros, passou-se hoje a ter um centro comercial que, em dez anos, teve 34 milhões de visitantes, efectuando um volume de transacções de 259 milhões de euros, segundo dados fornecidos pela empresa. As salas de cinema contam já com um acumulado de 2,1 milhões de espectadores e só em viaturas no parque de estacionamento subterrâneo albergou 4,4 milhões.

 

O museu, inaugurado em Junho de 2015, teve até agora 15 mil visitantes, que se vão habituando a incluir no roteiro de visitas a Lisboa a praça do Campo Pequeno. Na maioria são estrangeiros, e se à partida se poderia pensar que os espanhóis lideravam por largos números, a verdade é que são os franceses quem mais se interessa pela arte e história ligada aos touros. Aliás, curiosamente, a França foi o primeiro país a certificar com o estatuto de património cultural as actividades tauromáticas. Em Espanha, esse país de contrastes, as touradas vão desde protegidas por lei - em Castela, La Mancha, Leão, País Basco ou Comunidade Valenciana - até à proibição, como no caso das Canárias e, em parte, da Catalunha, que neste momento aguarda uma decisão do Tribunal Constitucional sobre o assunto.

 

Há séculos que a tourada anda envolta em polémica. D. José I, que a apreciava, proibiu-a em Salvaterra de Magos, depois da morte do Conde de Arcos, filho do velho Marquês de Marialva, que aos setenta anos, emocionado, ainda havia de matar o touro que lhe tirou o primogénito. Fez-se a vontade do Marquês de Pombal, que não gostava nada de tauromaquia. Já no reinado de D. Maria II houve uma nova tentativa de proibicionismo. Durou nove meses porque o povo, revoltado, trocou as voltas à rainha.

 

Sobre os touros de morte, é outra conversa. Foram banidos das praças portuguesas em 1928, sobrevivendo hoje em dia, por decreto recente que apenas plasmou a tradição que então andava arredada da lei, em Barrancos e em Monsaraz. Proibições em Viana do Castelo, por exemplo, levantaram polémica que está longe de ser diluída na sociedade portuguesa. Mas a verdade é que, com excepção dos distritos de Braga e Vila Real e da região autónoma da Madeira, há espectáculos tauromáquicos em todo o território nacional.

 

Chega a esta altura e faz-se uma declaração de interesses. Quem aí em cima assina gosta de touradas. Vê nisso arte, bravura, cultura e tradição. E portugalidade, já que para ver touros de morte basta atravessar a fronteira. A tourada à portuguesa é, aliás, a única no mundo onde não se mata o touro na arena, permitindo uma sorte que ninguém mais pratica – a pega de caras.

 

Ainda se tentou exportá-la, sendo famosas as digressões de grupos de forcados no México, já lá vão uns anos. Reza a história que muitos espectadores não acreditavam que aquilo fosse possível, e foram mesmo tocar nos forcados para ver se eram de carne e osso, como eles. Na Indonésia – onde se terão levado a cabo as touradas com mais espectadores na História - foram idolatrados e passaram mesmo por semi-deuses. Mas a verdade é que, com excepção de uma ou outra visita ao México e alguma corrida no sul de França, quem quiser ver uma pega tem de vir à terra portuguesa.

 

Um estudo de opinião sobre touradas efectuado recentemente pela Eurosondagem, abrangendo todo o país, mostrou que 32,7% dos entrevistados são aficionados, gostam ou apreciam actividades com touros, 20,6% são indiferentes às touradas, 32,8% não são aficionados mas não são contra as touradas, e 11% são contra as actividades com touros. Ainda, 59,3% dos portugueses acham que as touradas contribuem para uma boa imagem do país no estrangeiro e 75% afirmam que as touradas são importantes, ou têm alguma importância, para a economia e turismo; finalmente, 65,3% acha que seria muito grave o desaparecimento da tradição taurina.

Hoje em dia, só já há touros bravos nas ganadarias de Portugal, Espanha, França e alguns países da América Latina. Outrora existente em toda a Europa, norte de África e Médio Oriente – de onde será, provavelmente, originário – a sua extinção deveu-se, em boa parte à falta de uso. ‘Ninguém está para criar um animal que dá como retorno, em carcaça, uns 200 quilos, quando pode ter outro, que custa metade do preço a criar e que no abate traz 600 ou 700 quilos de carne’, afirma Helder Milheiro, da Protoiro, uma associação consagrada a defender as práticas tauromáquicas e a preservação do touro bravo.

 

‘Sem touradas não há touros bravos’, afirma o mesmo responsável. Defensor de uma ética e de uma cultura - para além da tradição - ligada à festa brava, Hélder Milheiro sustenta ainda ‘as novas formas de comunicação que vão ser necessárias para explicar à população tudo o que está ligado ao touro, desde o seu nascimento até à lide’. Conservador e até elitista, ‘o mundo da tauromaquia esqueceu-se de comunicar’, sustenta; uma prática que terá de ser completamente invertida.

 

Por quanto tempo mais vamos poder ver, em liberdade, um animal que conta com quase 30 mil metros quadrados de espaço para viver, quando a norma europeia de criação de bovinos permite que os seus ‘primos’ tenham apenas nove metros? Que vivam quatro ou cinco anos com condições que mais nenhum animal tem, quando as vacas e bois mansos não passam, geralmente, para além dos dois? Isto, obviamente, se após saírem da praça foram para abate, o que não é nada evidente. Os ganadeiros gostam de guardar, para sementais, os animais que, na lide, demonstraram maior bravura. Ainda ontem vi um, de 14 anos, que de cobridor já nada tinha, mas que ainda gostava de ir á manjedoura que o seu tratador de sempre lhe prepara todos os dias.

 

E há uma economia culinária ‘gourmet’ que tem sido um pouco desleixada; mas isso está a mudar, e na Protoiro, como na sociedade que gere o Campo Pequeno, o assunto está bem assente. Não vai é ser barato comer um bife de touro bravo.

 

***

 

‘Ó Zé João, tu dizes toiro? É touro, pá!’. E assim ficávamos, entre o nortenho que agarrou a forma erudita do Latim, e o alentejano que se ficou pela popular. Mas é tudo a mesma coisa. Até sempre!

publicado às 21:19

O mistério do quadro renascentista em que se (re)descobriu Lisboa manuelina

Por: José Couto Nogueira

 

RuaNovaMercadores.jpg

 

Parece um romance policial. Em 2009 duas historiadoras inglesas visitaram uma mansão perto de Oxford e aí encontraram um quadro do século XVI que retratava uma rua renascentista. Não se sabia se era uma rua real ou imaginada, nem quem a tinha pintado. Depois de uma longa pesquisa, as historiadoras chegaram à conclusão de que se trata de uma rua bem portuguesa que foi palco do comércio de mercadorias de todo o mundo.

 

A casa foi construída pelo escritor, artista e filósofo socialista William Morris, uma figura pública da Inglaterra vitoriana. Lá viveu desde meados do século até à sua morte, em 1896. É uma daquelas quintas inglesas cheias de carácter, rodeada por um lindo jardim e recheada com móveis, livros e objectos de grande qualidade. A viúva, e depois as filhas, conservaram tudo intacto até que, com o falecimento da última, a casa passou para uma organização chamada Sociedade dos Antiquários de Londres, que a mantém aberta ao público. Qualquer pessoa pode passar uma tarde agradável nos jardins ou a inspeccionar a preciosa biblioteca de William Morris.

 

Em 2009 duas historiadoras inglesas, Kate Lowe e Annemarie Jordan Gschwend, visitaram esta mansão do século XIX, Kelmscott Manor, localizada perto de Oxford. As duas historiadoras repararam num quadro do século XVI que o pintor Dante Gabriel Rossetti, amigo de Morris, lhe terá oferecido, ou vendido, e que estava atribuído à escola de Velázquez. Mostra uma rua renascentista, e não se sabia se era real ou imaginada, nem quem a tinha pintado.

 

Lowe e Gschwend pesquisaram longamente, à procura de referências, tanto em livros e documentos, como na própria pintura. Finalmente chegaram à conclusão, indisputada, de que se trata da Rua Nova dos Mercadores, na baixa da Lisboa manuelina. Ficava onde agora passa a Rua da Alfândega, e era o percurso mais cosmopolita numa cidade onde se negociavam mercadorias de todo o mundo. Além de algumas descrições da sua opulência, apenas existem poucas gravuras da cidade inteira, sem pormenores das ruas. A Rua Nova dos Mercadores foi evidentemente destruída pelo terramoto de 1755, e nunca mais voltou ao esplendor da Era das Descobertas. O que resta hoje é a fachada manuelina da Conceição Velha, reconstruída com um interior já pombalino.

 

O quadro é incrivelmente detalhado – tem tantos pormenores que permite reconstruir uma grande quantidade de informação sobre a Lisboa do século XVI e, por extensão, da vida urbana dum grande centro europeu. Pesquisando à lupa, um grupo de quinze historiadores de várias especialidades começou a descobrir o significado de tudo o que lá se vê: a arquitectura ainda com influências árabes, o carácter multirracial da população, habitantes e visitantes, os artefactos negociados nas lojas e os produtos vindos de todo o mundo que estavam em exposição; porcelanas chinesas, papagaios brasileiros, marfins de África e do Sri Lanka, joalharia, lacados, têxteis da Ásia e pedras preciosas dos entrepostos onde os portugueses negociavam. A partir dos objectos e figuras, os especialistas conseguem extrapolar um sem número de factos, como os modelos de negócio então praticados, o percurso dos produtos pelos portos dos sete mares e até hábitos da vida quotidiana da cidade. 

 

Nessa época de abundância, os artefactos que anteriormente só eram usados pela realeza tinham-se tornado comuns entre a rica burguesia. Neste particular, o quadro vem confirmar o que se sabe de outras fontes. Por exemplo, uma guia de desembarque de 1518 mostra que uma nau do Oriente trazia 19 mil leques chineses e duas toneladas de seda da costa de Malabar. No quadro vêem-se esculturas de cristal do Sri Lanka, biombos de laca indo-muçulmanos e esculturas cristãs feitas na Índia.

 

O resultado de todas estas pesquisas acaba de ser publicado num volume de grande formato, com 300 páginas, editado pelas historiadoras e com os comentários dos quinze críticos. Chama-se “The Global City: On the Streets of Renaissance Lisbon” e é editado pela Paul Holberton Publishing, uma casa especializada em livros de arte altamente sofisticados e objectos exóticos e raros.

 

Infelizmente não se viu notícia desta publicação por cá. Nós, portugueses, a quem este assunto interessa mais do que a quaisquer outros, pois ainda vivemos a nostalgia das Descobertas e poucas informações novas já se conseguem encontrar, bem que gostaríamos. Entretanto, o livro pode ser comprado do editor (por 40 libras) ou, evidentemente, através da Amazon.

 

publicado às 17:14

Lisboa: uma cidade de barbearias ou de sleep boutiques? (e a resposta é menos simples do que parece)

Por: José Couto Nogueira

 

Os clamores levantam-se um seguir ao outro: vão fazer um McDonald’s no Chiado, no mesmo prédio de uma vetusta barbearia! Fechou o sexagenário restaurante Palmeira, na Rua do Crucifixo, para dar lugar a um edifício novo! Querem deitar abaixo a centenária Vila Martel, ali à Praça da Alegria, ninho de artistas históricos, para fazer o estacionamento dum hotel!

 

 

Estes são apenas três casos concretos, noticiados na comunicação social e largamente debatidos nas redes. Mas há mais, muitos mais, que o tempo já apagou mas que ainda são feridas abertas na memória colectiva da cidade, como a destruição da Livraria do Diário de Notícias no Rossio, uma loja modernista onde se vendia cultura, substituída por um espaço asfaltado a pladur, onde se vendem trapos. Ou a castiça pensão Ninho das Águias, na Costa do Castelo, transformada numa pós-moderna e deslavada Sleep Boutique.

Em termos gerais, o que se tem assistido nos últimos anos, desde que Lisboa se tornou um pólo turístico europeu de primeira grandeza (com mais de dois milhões de passageiros mensais na Portela), são duas alterações notórias: muitos encerramentos no comércio tradicional, substituído por lojas pseudo-históricas ou que vendem bric-a-brac de plástico feito na China; e a transformação de edifícios com várias ocupações em hóteis, hostels e sleep boutiques. Nesta última vertente, o que se tem como certo é a adaptação do edifício do Diário de Notícias a hotel de charme.

 

 

E não faltam histórias cheias de história, como a lista dos comensais do Palmeira, que incluía artistas, actores, advogados lendários, ministros, secretários de Estado, e até um Presidente da República. Ou os estúdios da Vila Martel, onde obras primas foram criadas por Columbano Bordalo Pinheiro, Francisco Franco, José Malhoa, Carlos Reis, Eduardo Viana e Nikias Skapinakis, entre outros. 

Brama-se contra os turistas, que só provocam congestionamentos (os tuc-tucs...), contra os proprietários, que só pensam nos lucros, e contra a Câmara, que “não faz nada”.

Mas pouco se fala em soluções. Ou, o que é quase a mesma coisa, em razões. Umas e outras merecem ser avaliadas, por ordem inversa – isto é, primeiro as razões, depois as soluções.

 

não chegar à situação em que as pessoas que ficam nos hotéis só têm hotéis para frequentar

 

Que o turismo é um benefício para a cidade, parece indiscutível. Não só pelo rico dinheirinho que traz, numa economia em que as tradicionais remessas dos emigrantes ficam com eles, como pela alegria e movimentação que anima a cidade. A Baixa, concretamente, que era um deserto onde só passavam alguns cabisbaixos funcionários a caminho dos transportes fluviais, transformou-se num permanente festival de rua, com esplanadas cheias e artistas alternativos a exibir as suas habilidades. As noites lisboetas, tanto nos restaurantes como em incontáveis propostas de bares e clubes, já se medem pelas famosas noites madrilenas, com multidões a cantar, a dançar e a consumir. Só mesmo os conservadores mais rezingas e os tugas mais tugas é que se podem queixar desta apropriação dos espaços públicos por gente nova, civilizada e bem disposta que, ainda por cima, respeita e venera as nossas características urbanas e culturais. Todos dizem que a cidade é linda e os alfacinhas uns amores de pessoas.

Onde é que está o problema? O problema está em equilibrar o tecido tradicional da cidade com o afluxo de pessoas que vem, precisamente, porque esse tecido existe. Ou seja, para por as coisas à maneira das redes sociais, “não chegar à situação em que as pessoas que ficam nos hotéis só têm hotéis para frequentar”.

Isso será verdade, mas apenas se se ultrapassar o ponto de equilíbrio. E a grande dificuldade está em definir esse ponto. Não é que a Câmara Municipal de Lisboa (CML) não pense no assunto (já lá iremos); é que, para a CML, como para outros organismos que podem influenciar as decisões, como o IPAR, há constrangimentos de vária ordem que os impedem, até mesmo legalmente, de encontrar o tal equilíbrio que ninguém consegue definir quantitativamente. Quantos hotéis Lisboa precisa? Quando é que o número de hotéis chega ao ponto de reduzir sensivelmente a vida normal da cidade, tirando-lhe interesse e logo reduzindo as necessidades de hotelaria?

Quanto às lojas tradicionais, muitas delas desactualizadas, decadentes e que pouco vendem aos lisboetas e ainda menos aos turistas, de que modo se consegue mantê-las de porta aberta? Subsidiando-as com dinheiro do contribuinte? Compensando com isenções fiscais a falta de modernização? E as lojas novas, pseudo-tradicionais, como regulamentar o exagero do pseudo e com que direito definir que pastéis de bacalhau com recheio de queijo da Serra é uma horrível corrupção dos verdadeiros pastéis salpicados de salsa e do verdadeiro queijo a escorrer pelo prato? Porque não achar que, graças à inventividade estimulada pelos turistas, o pastel de bacalhau com recheio de queijo da Serra não é um avanço gastronómico e civilizacional?

Já lá vai o tempo em que os senhorios, justa ou injustamente, eram vistos como uns capitalistas gordos que exploravam os arrendatários. Hoje sabemos de incontáveis casos em que o que os proprietários recebem não chega para mandar pintar os espaços comuns. Para isso se mudou a lei do arrendamento. Só que essa mudança foi excessiva. Os inquilinos comerciais passaram de uma protecção impraticável, para uma exposição incomportável. Os senhorios, se querem reformar os seus edifícios, têm de aumentar as rendas, ou trocar de arrendatários. Ou será preciso inventar um mecanismo que torne esses custos possíveis e partilhados entre as duas partes. A Lei do Arrendamento carece de ser mudada, e essa mudança só pode vir do Governo ou da Assembleia da República. A Câmara, o mais que pode fazer é propor, sugerir, implorar.

 

o que define uma loja histórica?

 

Então, sendo assim, o que faz a Câmara no meio disto tudo? Preocupa-se, e não é de hoje. No verão de 2015, quando Graça Fonseca era responsável pelos pelouro Economia e Inovação e Catarina Vaz Pinto pela Cultura, criou-se o programa “Lojas com História” e foi nomeado um Conselho Consultivo constituído por trinta olissipólogos, lojistas, historiadores, jornalistas, etc. e um Grupo de Trabalho de três especialistas, recrutado no Departamento de Design da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.

Com a saída de Graça Fonseca para o Governo, houve um período de pouco movimento, mas, entretanto, o actual vice-presidente da autarquia, Duarte Cordeiro, já entrou em acção e o processo está em andamento. Mas o funcionamento enreda-se nas próprias indefinições de que falamos. Por um lado, a mudança na Lei do Arrendamento, indispensável, não depende da CML e, além do mais, há que definir como serão as mudanças para gerar o tal equilíbrio entre as duas partes e dar alguma protecção às lojas históricas.

 

 

Por outro lado, o Grupo de Trabalho está a tentar definir uma coisa bastante indefinível que é o conceito de Loja Histórica. Não pode ser apenas a antiguidade, há que avaliar o mérito estético das instalações. Assim como a possível rentabilidade. Digamos: uma drogaria, ainda faz sentido em 2016? Poderá evoluir para outro tipo de loja – uma perfumaria e para-farmácia, por exemplo? E o que fazer com uma carvoaria?

Isto, no que diz respeito às lojas. Quanto aos edifícios, o problema também está nas definições. Neste particular, talvez seja melhor estudar caso a caso, mas o caso-a-caso é a antítese duma legislação democrática. Voltando ao restaurante Palmeira: estava num edifício abandonado à sua sorte desde o incêndio do Chiado, entaipado e sem inquilinos. Era uma mancha de desleixo mesmo ao lado dos Grandes Armazéns do Chiado, sem utilidade para ninguém. A sua reconstrução – pois restauro não seria suficiente – exige que o restaurante encerre durante um ano ou dois e que depois, muito naturalmente, pague uma renda proporcional ao espaço que vier a ocupar. Aqui está um caso que não tem solução racional à vista.

Para este artigo consultamos inúmeras pessoas, entre elas Duarte Cordeiro, vice-Presidente da CML, Catarina Portas, membro do Conselho Consultivo e activa militante da ideia das Lojas Históricas, e Frederico Duarte, do Grupo de Trabalho das Belas Artes. Em todos eles se vê uma genuína preocupação pelos problemas e um evidente empenho em resolvê-los. Mas, pelo menos por ora, ninguém tem competência, legal ou moral, para impedir que uma barbearia se transforme num fast-food.

A modernização das cidades, benéfica ou maléfica, é um processo inexorável. Como resolvê-la de modo equilibrado, é a resposta de mil milhões de euros.

 

 

 

 

 

publicado às 14:07

Lisboa, nem menina nem moça

 

 

 

Por: Pedro Rolo Duarte

 

Havia alguém - julgo que a Catarina Portas, agora na lista das presidenciáveis para a Câmara de Lisboa, e muito justamente… - que escrevia, há pouco tempo, que o futuro mais provável do turismo em Lisboa seria o triste cenário dos turistas virem à capital de Portugal verem… outros turistas. Era o fenômeno da gentrificação (gentrification, no original inglês) elevado ao cubo: o centro da cidade tornar-se-ía tão caro e inabitável que os lisboetas se transfeririam para os subúrbios (onde já vive a maioria…), deixando os bairros centrais nas mãos dos hotéis, hostels, turismos de habitação.

 

 

Na verdade, o lisboeta - falo por mim - já se sente um pouco excluído da sua cidade quando, por exemplo, se confronta, no trânsito, com o caos em que a baixa se tornou, com a ditadura do estacionamento pago, com os preços da restauração (que ameaça, na soberba de quem nunca ouviu a história da galinha dos ovos de ouro, que nem a descida do IVA a fará praticar preços mais razoáveis…).

Também se sente, no mínimo, atordoado, quando superfícies comerciais como o El Corte Inglês, decidem comunicar promoções e novidades, nos seus espaços, em português, inglês… e chinês! Por fim, com o preço do metro quadrado de venda e arrendamento na zona central da cidade. Viver em Lisboa tornou-se um luxo, em todas as frentes.

 

Restavam alguns segredos que só mesmo os lisboetas conheciam - algumas tascas, lojas de bairro, um café onde o pastel de bacalhau é perfeito, uma esplanada ainda tranquila… -, o património edificado e aparentemente intocável, fosse o Ateneu Comercial ou o Avenida Palace; e o mais clássico do comércio da Baixa (a mais recente condenada à morte foi, esta semana, a drogaria S. Pereira Leão, mais um hotel a caminho). Mas também por aí vai o buldozzer da modernidade arrasando tudo, sem que lhe ponham travão de qualquer espécie - e assim vivemos, em simultâneo, a explosão do turismo e a implosão da vida que lhe deu sentido. Só não vê quem não quer ver.

 

Posso admitir que seja difícil conciliar o negocio puro e duro com o interesse cultural e histórico - mas é fácil aceitar que esse mesmo negócio só tem interesse enquanto se sinta a autenticidade que o sustenta. De nada serve exibir a fotografia de um pastel de nata que não se pode provar - como de nada serve ter um edifício histórico (por exemplo, a sede do Diário de Notícias, em breve…) de que só resta a fachada, e que esconde um moderno hotel ou centro comercial.

 

O que estamos a assistir, com passividade quase criminosa, é à morte, primeiro lenta, agora acelerada, de uma cidade que se distinguia justamente por não ter caído na teia luminosa da fachada sem interior, da aparência sem consistência, e da existência sem coração.

 

Gostava sinceramente que a “Lisboa Menina e Moça” que Carlos do Carmo tão bem canta (e Ary dos Santos maravilhosamente escreveu) não fosse, amanhã, uma memória sem tom nem som da cidade onde nasci e vivo.

 

Estamos a tempo de parar para pensar, de legislar para controlar, e de decidir que raio de cidade queremos para os nossos filhos. Mas o tempo escasseia - e ainda há por aí muito para destruir, mutilar, escavacar. E vontade não falta a quem nunca ouviu a tal história da galinha cujos ovos eram de ouro… até ao dia em que deram cabo dela.

 

 

 

ESTA SEMANA ANDEI POR AQUI E FIQUEI A PENSAR…

 

Apesar de existir desde a década de 30 do século passado, só agora descobri a Nieman Foundation for Journalism, que nos dias que correm se ocupa a tentar perceber que caminhos leva esta profissão. Vale a pena conhecer o site, vale a pena conhecer teorias e ideias para o futuro do jornalismo na era digital

 

Circula pelo mundo uma fabulosa revista que nos faz regressar à simplicidade da vida, do design, das ideias. Chama-se Kinfolk, nasceu em Copenhaga, sai quatro vezes por ano. É mais cara do que um livro mas muitas vezes dá-nos mais do que um livro. Vende-se em Portugal, em meia-dúzia de lojas, e custa 22 euros. Mas vale a experiência, nem que seja uma vez. Aqui se conta a sua história e filosofia - “é difícil definir uma revista de lifestyle, mas é como a pornografia: quando se encontra, percebe-se logo o que é…” -, e o link segue directo para a revista.

 

Na semana em que o Twitter assinala o seu décimo aniversário, uma análise critica de uma jornalista que, apesar de o ver como uma perda de tempo, acha que daqui a dez anos continuará por aí a dar cartas…

 

publicado às 08:52

Bem-vindos ao cabaret. Willkommen, Bienvenue, Welcome.

Por: Rute Sousa Vasco

 

 Há temas que podemos apostar, logo quando surgem, que rapidamente vão fazer parte da galeria dos debates fracturantes da nação. O encerramento de salas de espectáculo ou lugares com história ou histórias é garantidamente um deles. Na sua crónica no Observador, Helena Matos chama-lhes ‘espaços míticos’. Para que não se argumente que arregimentei um contra-parte da cronista, vou socorrer-me de um nome em alta por estes dias e chamar-lhes antes ‘lugares de afectos’, usando a palavra talismã do presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa.

 

O que aborrece realmente quando estas discussões surgem é que tudo se torna um retrato a preto e branco. Ou somos uns bota de elástico que não querem saber da cultura, ou uns burgueses da esquerda caviar que não querem saber como se pagam as contas. Aparentemente, parece impossível encontrar na mesma pessoa a vontade de manter ‘espaços míticos’ com a preocupação de que sejam autosuficientes e bem geridos.

 

Que é mais ou menos a mesma razão pela qual uma mesma pessoa tem excelentes qualidades de gestão se trabalhar para um empregador privado, mas torna-se automaticamente um gestor perdulário se o empregador for o Estado.

 

A esta altura, já estão alguns leitores desse lado a bufar de impaciência com ‘mais uma’ que vem defender as discotecas do Cais do Sodré e apelar ao erário público.

 

Sosseguem-se esses.

 

Sou pouco de petições inflamadas e temo, cada vez mais, os movimentos que se dizem ‘orgânicos’. Tenho por convicção – e por experiência – que é sempre mais fácil influenciar uma turba do que uma mente esclarecida ou disponível para se esclarecer.

 

A questão é outra. Ou são duas questões.

 

A primeira, sobre o turismo e como vamos gerir algo de bom que está a acontecer na nossa economia e impedir que se transforme em algo de mau que pode acontecer no nosso país.

 

A segunda é sobre essa espécie de nojo que algumas pessoas têm em relação à utilização de dinheiros públicos em cultura ou simples promoção de espaços de ócio (por oposição aos de negócio).

 

Uma das razões porque cidades como Lisboa e o Porto são hoje coqueluches dos roteiros internacionais são os seus costumes. Por costumes entendem-se coisas tão diferentes como sítios onde vamos petiscar, bancos onde nos sentamos a olhar para o rio e ruas assumidamente estreitas e antigas onde há tascas e mercearias. Sim, desta lista fazem também parte discotecas old school onde a mesma playlist corre desde os anos 80 e não faz mal.

 

Este ‘pitoresco’ não é inventado – é real, ou tem sido real, e é também por causa dele que uma nova geração de turistas, diferentes na origem, na idade e nos hábitos, sente curiosidade de conhecer Lisboa. Alguém lhes contou, alguém lhes disse, que naquela cidade que também tem o fado, os pastéis de Belém e os Jerónimos, há disto.

 

As pessoas que fazem a cidade ‘pitoresca’ também são reais, e vivem cá. Algumas à distância do metro do Cais do Sodré, outras a precisar de trocar de linhas de transporte mais vezes. Mas todas convergem nas mesma cidade, usam-na e dão-lhe vida.

 

A razão pela qual as discotecas do Cais do Sodré são importantes não é pelas discotecas do Cais do Sodré. As discotecas são importantes para pensarmos se queremos uma cidade cheia de hóteis para acomodar os turistas que vêm a Lisboa para ver essa cidade que vive em ruas onde existem discotecas que passam a mesma playlist há 40 anos.

 

As discotecas são importantes para ter ‘pensamento público’ sobre que cidade queremos que Lisboa seja – se aquela que apaixona pessoas do mundo inteiro ou se uma cidade artificial para inglês ver.

 

As discotecas são importantes para mudar mentalidades – de inquilinos e senhorios. Inquilinos que têm um bom negócio podem pagar uma boa renda. Senhorios que descuraram prédios e que foram agora subitamente acometidos de uma vontade empreendedora têm de negociar e não de impor.

 

Fica sempre bem invocar Churchill nos grandes temas fracturantes e seria uma pena não o fazer aqui. Em vez de citações do estadista, fica uma análise do jornal conservador inglês "The Telegraph" à frase muito usada sobre os cortes na cultura. “Se o fizermos, estamos a lutar para quê?” - teria sido esta a frase de Churchill em plena II Guerra Mundial. Vamos assumir que não terá sido exactamente assim, com o país a ser bombardeado e os hospitais a receberem feridos a toda a hora. Mas, o que para o "The Telegraph" é uma ‘desmistificação’, na realidade é apenas a confirmação de que, mesmo na guerra, preservar o que faz a identidade de um país foi uma preocupação de Winston Churchill. “None must go”.

 

E para acabar no mesmo espírito revivalista, nada como fazê-lo ao som da música. Não se preocupem, não é a mesma playlist que há 40 anos passa no Jamaica. Esta é no Kit Kat Club e é ainda mais vintage. Come to the Cabaret old bum, come to the Cabaret.

 

Tenham um bom fim de semana!

 

OUTRAS SUGESTÕES DE LEITURA 

 

Depois do que escrevi, esta é de recomendação obrigatória. Pelo retrato, pela cor e pela ironia poética do Márcio Candoso a falar destas coisas. É a sua Ode ao Cais publicada no SAPO24.

 

E porque hoje as recomendações saem todas à casa, mais uma de um colaborador do SAPO24. O José Couto Nogueira escreveu sobre o casamento de Robert Murdoch e de Jerry Hall e a propósito disso escreveu sobre músicos e sobre media. Vale a leitura.

 

publicado às 10:35

Ode ao Cais

Por: Márcio Alves Candoso

 

Apetece-me citar, estragar, tomar conta, corromper e recompor Álvaro de Campos. Sozinho, num cais deserto numa noite de Inverno, olho em volta tudo aquilo que já partiu e tudo o que antes de mim já lá estava. Piso o chão de rosa e ajuízo os telhados encalhados dos andares de cima das discotecas, a esta hora ainda fechadas. Hoje, segunda, não há Jamaica e tenho que esperar pelo Tokyo. Onde se espera, aqui, pelo passado?

 

 Imagem do facebook do Tokyo 

 

Só eu, para chegar a este mundo àquela hora. Ninguém vem ao Cais antes da uma. Ao Cais que importa, ao que me interessa, porque nunca há horas de silêncio nestas ruas. Há miúdas louras com mantas largas nas esplanadas, uma é mãe e outra é filha, de tão parecidas as descubro, e a mais nova encosta a cara ao ombro da mais velha como num seguro de vida, ou num muro que nos guarda do que está lá fora.

 

Descubro a rota numa porta que diz Copenhaga em língua estrangeira – 'Copenhagen'. Já não cheira a gritos de marinheiros nem a perfumes de rameiras. As gargalhadas são sonoras, mas é do outro lado da rua, onde os taxistas jogam à moeda.

 

O segurança com identificação, cabelo à navalha e cachecol que tapa a boca, mal terá os 30 anos que me separam dos dias claros em que deixei o Cais de madrugada. Mexe um café e solta a sua jovem ignorância às minhas perguntas desnecessárias, só para meter conversa. 'Ali não era...? Não sabe se era, a era dele é outra. E eu disfarço as dúvidas que não tenho com um sorriso de quem escapou a todos os murros dos seguranças de outrora.

 

Toca em todo o lado a mesma música boa. Os miúdos que chegaram agora da Universidade de Erasmus ficam parvos a olhar para o 'Roterdão'. São só rapazes e o porteiro nega a entrada. Trouxessem as miúdas, assim não dá vista ao salão, é preciso equilibrar os pares de pernas. Mas lá dentro está o patrão, que perdeu parte da mão num acidente de mota. Por acidente, diz ele, foi ficando no Cais mais tempo do que o que pensava. O filho está de partida para o Luxemburgo, que isto um dia ainda encerra.

 

 O Jamaica

 

Ninguém gosta de ouvir dizer que vai acabar o Europa, o Tokyo e o Jamaica. A concorrência não é para aqui chamada. Se os 'nobres' do Cais chamam a rapaziada daqui, de além mar e das novas épocas, a todos calha a sorte e a moeda de troca. Vieram jornalistas estrangeiros para ver a rua rosa, e tornaram famoso o Cais que agora sobra em tribunais de arbitragem.

 

Toda a gente que interessa sabe a história; e ninguém quer adormecer com ela. Nos jornais, todos os dias se fala do encerramento iminente das discotecas dos 40 anos que nos separam das portas fechadas. Foi em 1975 que Mário Dias começou a pôr música no 'Jamaica', que os esquerdistas deitavam contas às ideias novas e às que tinham tido encerradas, e que as prostitutas deixaram de mandar sozinhas naquele lugar que as obrigava a partilhar as festas com toda a marinha do mundo.

 

Marinheiros da NATO nas ruas do Cais do Sodré, em 1981.

 

Lá estão elas, com os seios à mostra e de boca escancarada, com o copo na mão e um marinheiro à ilharga, mas só já nas pinturas que sobraram nas parededs do 'Copenhagen'. Para vê-las, é preciso contornar a Rua Nova do Carvalho e escutá-las, em parte velhas, nas esquinas que não têm discotecas. Murais imorais que o mal apessoado Campos nunca viu, mas que inventou no grito que o amigo marinheiro Jim Barns lhe ensinou:

 

'Ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò - yyy...
Schooner ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-oò -yyy...'

 

'I'm a romantic fool', cantam Martha and the Muffins, 'far away in time', na 'Echo Beach' inventada nas areias do Lago Ontario. A mesma música que a miúda de 37 anos dança atrás daquilo que parecem pianos ou gira-discos, se calhar porque a mãe lha cantava quando a mão lhe embalava o berço. 'Aqui não morre ninguém!' É assim que me diz do seu apreço e escolha pelo Cais, ao invés dos mais de três sítios onde trabalhou e ficou desempregada. DJ no feminino, e ainda agora se faz cedo.

 

No Tokyo sou dos primeiros, com uma petição assinada à porta – já cá faltava – contra todos os que querem apagar o cais de desembarque das gerações todas que cá se fazem depois da abrilada. E mesmo das anteriores, como a senhora que não me liga nada, porque vê logo que não me vai tocar na carteira, e eu desajeitado em conversas desta Praça da Ribeira só levo com um 'eu só cá vim ver a bola', mais uma meia-volta de anca larga, e 'adeus ó vai-tim-bora, que desses tenho eu cá resmas'...

 

Acompanham-me na ronda à porta do Tokyo um rapaz de barbas à lenhador e calças maneiristas, uma miúda de argola no pequenino nariz, que é a namorada, e duas outras, uma das quais com cabelo que tapa tudo à sua volta e dentro dela, de volta que vem dos estendais de roupa cara de uma loja bem no centro de Lisboa. Mais abaixo, duas venezuelanas trintinhas, que não respondem a pergunta nenhuma e se queixam de Chavéz e de Maduro. Eu 'está bem, e que tal isto aqui?' Nem uma, nem duas.

 

No palco ouve-se um grupo que tapa o som de fundo, um 'mix' curioso e bem montado. São os Lisbon Underground Burlesque, que só o digo porque me escreveram no bloco de notas que trago sempre comigo, que o barulho e o strobe não me deixam decorar o assunto. O patrão, que conheci em tempos, deu às de vila-diogo e só volta para a semana. Deixo o contacto, ainda quero ouvir o Fernando contar outra vez os desenganos. Como é mesmo aquela história da renda que ele queria que o senhorio lhe aumentasse, em troca de não chatear a molécula com despejos?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os Lisbon Underground Burlesque.

 

E quando o Zé Pedro dos 'Xutos' aportava de madrugada, há tanto tempo que nem sequer era ainda muito conhecido? E quando a namorada de um tipo que toca mal que se farta e canta ainda pior aterrou de cabeça na sanita e só eu é que a fui buscar?

Já não há o 'Changri-La', que era uma casa que foi conquistada aos proxenetas já nos anos oitentas. Agora chama-se 'Champanharia', coisa fina a dar-se bem com os bares mais proletas da banda larga da rua. Tento perceber onde era o banco onde me sentei com a Teresa e a Lina, fazendo peito aos chungas que salivavam pelas pernas delas, e só não apanhei uma tareia porque entretanto veio a bem ditosa segurança. Ainda um dia, na minha entrevista com Deus, hei-de perguntar porque é que em tantas noites sujas nunca levei na cara.

 

No Jamaica, no Tokyo e no Europa vai ser parido um hotel. Onde existe o Oslo e o Liverpool – dois outros bares, que todos têm os nomes das terras de onde os marinheiros chegavam – ergue-se dentro em pouco outro, mas este sem expulsão de história popular. Hotéis é coisa que falta e é rara, na Lisboa destas eras, onde um dia destes 'olhai senhores' uns para os outros, perdidos em 'good mornings' e 'parties' de 'tea', porque já ninguém vai ter cara para mostrar a terra. No Facebook, na bela página que tem por nome 'sensivelmente idiota', quem lá manda escreveu:

 

'Soube que o Jamaica, o Tokyo e o Europa vão fechar para abrir um hotel. Que alegria no meu coração lisboeta. Fechem, fechem tudo! (…) Inaugurem faixas só para tuk-tuks e proíbam portugueses no 28 (…) Cuspam no Público, no Sol e no DN, forrem os quiosques a The Sun, Bild e Le Figaro. Liguem teleféricos, rodem rodas gigantes e aterrem um aeroporto no Terreiro do Paço. Não párem (...) Arrendem Lisboa inteira. Os lisboetas que se fodam!'

 

Noutro lado, um comentário dá-me conta de um rapaz, agora pelos seus vinte e tais, que apenas diz: 'Os meus pais contaram-me que se conheceram e começaram a namorar no Jamaica'. Não sentem um arrepio?

 

Esta é a noite mais pequena da vida airada de um gajo que já teve idade para isto. Longe do Sodré, que com o tempo assim foi sendo conhecido, nome de gente marítima que remonta ao século XV, esse das descobertas primeiras de onde partiram outrora, antes de mim, outros de mim. Visito os bares, as discotecas onde aprendi a segurar um bêbado e a amar uma mulher. Ah, todo o cais é uma saudade de pedra...

 

* (enquanto pensava nisto, reli a 'Ode Marítima', de Álvaro de Campos. Há por aí espalhadas várias frases roubadas e outras modificadas)

 

publicado às 14:46

Uma sexta-feira como outra qualquer

Por: Rute Sousa Vasco

 

 “Quando regressam do Espaço, os astronautas vêm sempre um pouco diferentes porque viram a fragilidade da Terra.”

 

A notícia foi divulgada há exactamente uma semana. O astronauta Thomas Pesquet vai transportar para o espaço, no próximo ano, o texto do eventual acordo sobre as alterações climáticas que saia da cimeira de Paris, em dezembro. Agora é preciso é que haja acordo, porque esse ainda não é certo. Mas, se os líderes dos principais países poluidores conseguirem entender-se e comprometer-se, o presidente francês, Francois Hollande, entregará a Thomas Pesquet a prova do compromisso que ele levará consigo rumo à Estação Espacial Internacional, em novembro de 2016. “O ambiente é algo que sempre esteve próximo do meu coração. Quando regressam do Espaço, os astronautas vêm sempre um pouco diferentes porque viram a fragilidade da Terra”, realçou o francês, de 37 anos.

 

Fez também ontem uma semana que o Argentina-Brasil, da terceira jornada da qualificação sul-americana para o Mundial de Futebol de 2018, foi adiado para o dia seguinte. Choveu forte e feio em Buenos Aires e não houve outra hipótese que não cancelar o jogo.

 

Bem longe dali, e 24 horas depois, o partido de Aung San Suu Kyi, conquistou a maioria no parlamento da Birmânia. Foi um dia histórico! Apesar de um quarto dos assentos estar reservado aos militares, o partido da Nobel da Paz ultrapassou a barreira que lhe permite eleger o Presidente e formar governo. Foram as primeiras eleições livres na Birmânia em mais de 25 anos.

 

Isto aconteceu a 13 de novembro de 2015, um dia em que, aliás, aconteceu muita coisa. A Universidade de Coimbra, por exemplo, anunciou neste dia que conta atualmente com 3.769 estudantes de mais de 80 nacionalidades em regime de mobilidade e através do estatuto de estudante internacional. Também na mesma data, o Centro de Ciências do Mar (CCMAR) da Universidade do Algarve foi selecionado para um projeto europeu que pretende promover o aumento da aquacultura até 2020. E o Campo Arqueológico de Mértola, no Alentejo, recebeu o prémio deste ano das Academias Pontifícias do Vaticano, dedicado aos primeiros séculos do Cristianismo, pelas campanhas arqueológicas dos últimos anos e pelos "extraordinários resultados obtidos".

 

No dia a seguir, 14 de novembro de 2015, soubémos que o arquiteto Eduardo Souto de Moura criou um projeto para construir um auditório junto à sede da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que, a ser aprovado, deverá tornar-se a grande obra do prémio Pritzker na capital do país. Que boa notícia para Lisboa.

 

E soubemos também que um conjunto de marcas de mobiliário, iluminação e decoração portuguesas se juntou para criar uma forma inovadora de promover os seus produtos no mercado britânico. Alugou um apartamento residencial que transformou em espaço de exposição em Londres, o Covet London. Aí estão marcas como as do grupo Menina Design, Boca do Lobo, DelightFULL, BRABBU, Koket, Maison Valentina e Luxxu. Que boa ideia...

 

Em Évora, arrancou um projeto-piloto, o Programa “Mais”, com o objectivo de promover o emprego partilhado de técnicos entre as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) e o recrutamento de profissionais desempregados para estas entidades. A iniciativa é da UNITATE – Associação de Desenvolvimento da Economia Social, uma IPSS sediada em Vila Viçosa (Évora), mas de cariz nacional, e dirige-se, nesta fase inicial, às 80 associadas da União Distrital das IPSS de Évora.

 

Quem passou por Lisboa foi Laurie Anderson que veio ao Lisbon & Estoril Film Festival estrear o seu último filme, Heart of a dog. Um filme sobre "liberdade e medo", num mundo criado por palavras. "Pediram-me para fazer um filme sobre a minha filosofia de vida. Disse logo que eu não a tenho e se tivesse não a punha num filme para toda a gente ver. Mas acabei por fazer uma coleção de histórias e, no final, é a minha filosofia de vida. Traiu-me.", contou. Ao longo de pouco mais de uma hora, Heart of a dog gira em torno de Lollabela, a cadela de Laurie Anderson.

 

O tenista português João Sousa subiu esta semana ao 33.º lugar do 'ranking' mundial de ténis, a melhor posição de sempre de um tenista português. E está confidante que "a época de 2016 vai ser ainda melhor".

 

No dia 16 de novembro, começaram os "Dias do Desassossego", uma iniciativa promovida, em Lisboa, pela Casa Fernando Pessoa e pela Fundação José Saramago para celebrar o livro e a leitura, com música, cinema e debates.

 

Mais coisas que aconteceram esta semana. Os 2.500 bilhetes que o Benfica tinha disponíveis para o jogo de sábado com o Sporting para a da Taça de Portugal esgotaram poucas horas depois de terem sido colocados à venda. No próximo dia 21, dez dos melhores pianistas nacionais e internacionais vão estar juntos em palco num concerto no centro cultural de Viana do Castelo, a maior sala de espetáculos do Alto Minho. E a revista médica The Lancet HIV revelou que um medicamento utilizado para tratar o alcoolismo associado a outras substâncias poderá contribuir para eliminar o vírus da sida em seropositivos (uma notícia conhecida no mesmo dia em que o ator Charlie Sheen contou no programa de televisão Today que é portador do vírus da sida).

 

Somos capazes de não ter reparado em várias destas notícias. Estas são as notícias da nossa normalidade.

 

Do direito que conquistámos – porque não foi sempre nosso e não é ainda um direito de todos – de usufruir simplesmente da normalidade. De sair de casa para ir trabalhar, trocar dois dedos de conversa no café da esquina, meter óculos escuros porque faz este fantástico sol de novembro e encontrar um lugar no metro onde possamos ler durante alguns minutos o livro que nos acompanha. Trabalhar, pensar em fazer coisas novas, combinar ‘comes e bebes’ com amigos, ir ao cinema ou simplesmente passear pela cidade.

Tudo isto sem termos de pensar duas vezes.

Isto é ser feliz sem saber.

Isto é aquilo de que não podemos abrir mão. Isto é aquilo que temos de reivindicar para quem não tem ainda. Apesar do medo. Apesar do horror. Apesar.

Todos os dias têm de ser uma sexta feira como outra qualquer. Em Lisboa, em Paris, em Beirute, em Lagos ou em Damasco.

 

Outras coisas sobre o direito à normalidade.

 

Normalidade é também igualdade. A igualdade dos géneros, nomeadamente no que respeita a salário igual para trabalho igual, ainda está longe e é preciso acelerar bastante o passo.

 

O que não é normal é que já se tenham passado 20 anos desde que este filme estreou. O Toy Story já tem 20 anos. O miúdo já está mesmo na faculdade. Mas que bom continua a ser sentarmo-nos no sofá e rever o filme.

publicado às 10:42

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