Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

Harper Lee, a camponesa que escreveu uma obra prima

Por : José Couto Nogueira

 

Num período que tem sido uma autêntica ceifa da morte para grandes ídolos – de David Bowie a Umberto Eco, só para citar os mediáticos mais opostos – quase passou despercebido o falecimento de Harper Lee. Mas a história desta rapariga do campo que se tornou uma autora de prestígio internacional vale a pena ser contada.

 

 

Nelle Harper Lee nasceu no Alabama, o “Sul profundo” dos Estados Unidos, ou seja, nas berças, onde o preconceito e o conservadorismo reinam de década para década. Em 1936, tinha ela dez anos, o pai defendeu em tribunal dois negros acusados de matar um branco. Ambos, pai e filho, foram enforcados, o que era previsível, apesar do Dr. Amasa Coleman Lee os defender com todo o empenho.

 

mbdtoki_ec046_h.jpg

 

Nelle viveu toda a infância e juventude naquele nenhures, tendo feito os estudos normais até frequentar Direito na Universidade de Tuscallosa, sem se formar. (Para os menos cientes e para os radicais anti-americanos, convém talvez lembrar que os Estados Unidos já tinham, no século XX, mais universidades que o resto do Mundo.) Era uma rapariga com dois amores: a literatura e o pai, ao colo de quem aprendeu a ler.

 

Em 1956, sem nunca ter saído do Alabama, meteu-se a escrever um livro autobiográfico, centrado na vida do pai. Enviou-o para vários editores e num deles, a casa J. B. Lippincott, a editora Tay Hohoff achou que aquilo teria pernas para andar. Nelle foi para Nova York a ver se se lançava nas letras, e durante dois anos as duas discutiram ferozmente o que mudar e não mudar no livro, o qual, segundo Tay disse anos depois, era uma série de histórias interessantes sem nexo entre elas.

 

 “Matar a cotovia” ficou 80 semanas na lista dos mais vendidos, foi traduzido para 40 línguas e já vai em 30 milhões de exemplares

 

Finalmente, em 1960 o livro saiu, com o estranho título de “To kill a mockinbird” – tão estranho que as traduções em português variam: “Matar a cotovia”, “Como matar a cotovia”, “A morte da cotovia”... Os brasileiros é que resolveram o problema; chamam-lhe “O Sol é para todos”.

O balanço é o que se sabe: ganhou o Pullitzer nesse mesmo ano (um prémio com nomeações muito mais acertadas que o Nobel), ficou 80 semanas na lista dos mais vendidos, foi traduzido para 40 línguas, continua a vender-se regularmente e, segundo o último cálculo, já vai em 30 milhões de exemplares.

Em 1962 foi passado para o cinema, com Gregory Peck a ganhar o Óscar pelo papel do herói advogado, Atticus Finch.

 

Nelle, que escolheu o nom de plume Harper Lee porque receava que lhe chamassem Nellie, confessou, nas pouquíssimas entrevistas que deu entre 1960 e o seu falecimento, que nunca esperou tal sucesso.

E porquê esse sucesso? A história é uma epopeia sobre a Justiça. Atticus Finch, o advogado, defende num tribunal de brancos racistas um preto acusado de violar uma branca. O que há de heróico nele é a crença de que a verdade é que interessa, e os direitos das pessoas é que têm de ser respeitados, e não nas jogadas e meandros escusos que um processo judicial normalmente substancia. Esta postura quixotesca, digamos, é um ideal muito entranhado na cultura americana – talvez mais entranhado quanto menos se prova viável.

Aliás, podemos dizer que é um ideal global, pois em todo o mundo as pessoas se identificam com a lhaneza de Atticus, que não olha a preconceitos nem a pressões para defender a verdade.

 

Lee escreveu alguns contos de menos repercussão e ficou amiga de Truman Capote, que ajudou durante as pesquisas para o seu famoso livro “A sangue frio”. Aliás, há um filme de Bennet Miller, de 2005, que relata essa viagem atribulada do escritor, representado por Philip Seymour Hoffman. Catherine Kenner faz de Harper Lee.

Em 1966 Nelle voltou para sua cidade natal, Monroeville, e só saía eventualmente, para receber os incontáveis prémios que entretanto lhe foram dados – o último por Barak Obama, em 2010. Entrevistas, o mínimo possível, mas o suficiente para dizer que não escreveu mais nada porque tudo o que queria dizer estava na “Cotovia” e que “é melhor ficar calada do que dizer disparates”.

 

Em 2015 a editora HarperCollins deu a bombástica notícia de que Lee afinal tinha escrito outro livro. Chamado “Go and set a watchman” – outro problema para os tradutores... – teve uma tiragem inicial de dois milhões de exemplares. Contudo chegou-se à conclusão de que foi escrito antes da “Cotovia”, embora se passe 20 anos depois, e há quem ache que se trata mais dum rascunho do primeiro do que de uma obra que valha por si. Lee autorizou a sua publicação, numa altura em que já estava quase cega e muito incapacitada – imagina-se a pressão da trupe que vivia à custa do seu sucesso, para desenterrar aquilo do baú da senhora.

 

Afinal, Harper Lee sempre teve razão, tudo o que queria dizer está naquele livro.

 

publicado às 17:50

Jornalismo. Ou então vídeos de gatinhos

Por: Rute Sousa Vasco 

 Ontem foi lançado o livro “O Independente – A máquina de triturar politicos”, da autoria de Filipe Santos Costa e Liliana Valente. Pode parecer presunçoso, mas é claro que uma história destas tinha que ser contada por jornalistas. Porquê? Porque faz falta ter sentido, nem que seja uma vez na vida, esse turbilhão de emoções e sentimentos que se sente quando se está na iminência de dar ou de perder uma notícia. E ter por objectivo ‘dar notícias’, como rotina e com regras, ainda é trabalho desse grupo de pessoas que se chamam jornalistas. Like it or not.

 

O mundo de 2015 é muito diferente do mundo do final dos anos 80 e do início dos anos 90 em que o O Independente nasceu e singrou. E sendo certo que o O Independente é uma história muito singular e cheia de episódios rocambolescos, esse mundo é o mesmo em que projectos de referência como o Público, a TSF e a SIC nasceram. É tentador dizer que o mundo era o mesmo, mas os objectivos não. É tentador dizer que o O Independente sempre foi, antes de tudo, um projecto politico enquanto os outros foram, antes de tudo, projectos jornalísticos. É tentador e em boa parte verdade. Mas também é verdade que, à distância que mais de 20 anos permitem, seria miopia não reconhecer que dificilmente um projecto de jornalismo não é, de alguma forma, um projecto politico. E que tomar parte por ideias e causas, já agora, não é uma coisa má. É parte da democracia e do exercício de cidadania, desde que feita com regras e de forma transparente.

 

No mundo em que o O Independente nasceu não havia internet, menos ainda redes sociais, menos ainda modelos de negócio de media. A equação era simples. Os jornais tinham de se vender. Mais jornais vendidos era igual a mais pessoas a lerem as notícias. E porque mais pessoas estavam a ler as notícias fazia sentido colocar ao lado publicidade que empresas e marcas pagavam. Simples ou nem por isso. Não tenho grande memória de O Independente ser um projecto de grande atracção comercial. Estes eram os tempos em que o arquitecto Saraiva tinha ‘inventado’ o saco de plástico para vender o Expresso (o mesmo que ainda hoje perdura). E lembro-me de muitas campanhas no Expresso, além do saco que o transportava, mas não tenho igual memória de uma ‘máquina’ comercial tão forte do lado do O Independente.

 

No mundo em que o O Independente nasceu e no Portugal em que o O Independente nasceu, o jornalismo livre era tão jovem quanto a democracia. Foi o mesmo mundo em que um empresário como Belmiro de Azevedo, em curva ascendente na economia portuguesa, a estrear conceitos novíssimos como os de hipermercado, decidiu financiar um projecto de jornalismo de referência chamado Público. E fez tudo como deve ser feito: com os melhores jornalistas, com formação de gente nova, com tecnologia, com ambição.

 

O jornalismo – seja o do O Independente, seja o do Público – custa dinheiro. É preciso contratar pessoas que saibam pensar, antes de saber escrever ou falar. Pessoas que tenham cultura, que tenham curiosidade, que tenham humildade de perguntar o que não sabem. Pessoas que se submetam voluntariamente às regras de uma profissão que, diga-se o que se disser, tem regras. O jornalismo precisa de leitores, ouvintes, espectadores. É para isso que é feito – para os outros. Quando o jornalismo se torna um loop de e para jornalistas, politicos e meia dúzia de indigentes sociais, falhou na sua essência. Nunca gostei da expressão o ‘quarto poder’ e menos ainda da sua caricatura ‘o quarto do poder’. Quanto maior o poder, maior a responsabilidade, é por aí que as coisas devem ser vistas e escrutinadas.

 

O mundo de 2015 é diferente do mundo em que o O Independente nasceu. Hoje mais do que exemplares vendidos, falamos de cliques, de shares, de likes. Hoje confundimos mais, muito mais, volume e qualidade. Hoje lemos mais – talvez se deva dizer que hoje consumimos mais conteúdos. Não é detalhe, na realidade importa que hoje consumimos mais media. Hoje o problema é o excesso da oferta – a selva da informação, não o deserto. Hoje há outros que não os jornalistas a criar conteúdo em blogs, redes sociais, e também em media. Ainda bem.

 

O que hoje não está resolvido e é importante resolver é como vai ser paga esta liberdade vital que é fazer informação. Exceptuando aqueles que tinham móbil politico, as notícias que o O Independente publicava estiveram sempre nos antípodas daquilo que a classe empresarial, por natureza prudente e conservadora, entenderia como um investimento de marketing interessante. As notícias que o O Independente publicava dificilmente poderiam ser ‘conteúdo patrocinado’. O conteúdo de marcas será, certamente, uma das formas com que devemos contar neste presente e futuro para financiar os projectos de media – mas as notícias não se patrocinam. A notícia é, numa das suas melhores definições, aquilo que alguém não quer que se saiba.

 

Em que ficamos, então? Num mundo que vive de escala, o que valem 10, 20 ou 30 milhões de visitas a um site? Ali ao lado, porque as fronteiras desapareceram, estão os gigantes, sejam os media globais, sejam os chamados over the top como Google, Facebook ou Youtube que hoje têm os negócios – realmente – lucrativos, já agora sem terem de produzir um único conteúdo. Agregando, relacionando, partilhando.

 

Nos jornais de hoje, recordam-nos como foi o arranque do O Independente fundado por Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas. Conta o Observador: «Começar é fácil», escreveu Miguel Esteves Cardoso, na primeira linha de uma das suas coletâneas de crónicas de O Independente. Só faltava o dinheiro. E gente. Detalhes.

 

Fazer jornalismo custa dinheiro. Criar conteúdos originais custa dinheiro. Saber como é que se paga a conta é das discussões mais relevantes economica e politicamente. É por isso que hoje os jornalistas não se podem demitir de compreender o negócio de media, que já agora é o negócio da tecnologia, que já agora é o negócio da internet. É por isso que empresários, gestores e também politicos têm de fazer um pouco mais que a gestão preguiçosa by the numbers. Os números dizem-nos alguma coisa – não nos dizem tudo. Os números servem para ser interpretados e traduzidos na realidade, não para nos fornecer desculpas cómodas.

 

Ou então podemos simplesmente só consumir vídeos de gatinhos. São sucesso garantido de audiências.

 

Leituras sugeridas e zonas de desconforto

 

Já que falamos de media e de cidadania, aqui fica um estudo publicado pelo jornal Social Science Computer Review sobre facebook e envolvimento cívico de homens e mulheres.

 

Para o fim de semana que se aproxima, a primeira sugestão vai mesmo para o livro de Filipe Santos Costa e Liliana Valente, “O Independente – A máquina de triturar politicos”. Se estão com dúvidas, naveguem por esta galeria de capas e perceberão com o que podem contar.

 

Na televisão, estreia hoje em Portugal uma séria atípica, estranha, complexa, perturbadora. Chama-se Mr.Robot, pode ser vista na TV Séries e promete-nos uma zona de desconforto episódio a episódio.

publicado às 10:49

Posts mais comentados

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D