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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

Lula, de rei a réu

Por: José Couto Nogueira

 

Há meses que a imprensa, televisões e redes sociais anunciavam a prisão de Luís Inácio Lula da Silva como se estivesse iminente, fosse inevitável, ou até mesmo facto consumado. “Lula detido”, “Lula levado para a Polícia Federal”, “formalmente acusado”, etc. eram títulos tão frequentes que às tantas já não se sabia se acontecera, ia mesmo acontecer ou era o desejo dos desencantados e desafectos. Contudo, tanto a população como os operadores do Estado dos três poderes, tanto amigos como inimigos, sabiam que era uma questão de tempo até a Justiça “chegar” ao ex-Presidente.

 

 

Talvez estivesse à procura de casos mais graves, maiores montantes, provas mais contundentes. As diligências do Juiz Federal Sérgio Moro, de Curitiba, e os próprios jornalistas, levantavam casos suficientemente suspeitos e até com indícios muito fortes de que o homem que já foi o herói incontestado do Brasil teria cometido uma série de delitos de corrupção passiva – nomeadamente, a propriedade de uma casa de praia e de uma quinta – e até activa, com a apropriação de objectos preciosos pertença do Erário (escondidos num cofre) e recebimentos indevidos por conferências. Tudo delitos menores, em termos dos milhares de milhões de mega-corrupções imputados a muitas figuras públicas, algumas já a cumprir pena efectiva. Lula chegou a ser levado para depor perante Sérgio Moro, em Março, no âmbito da famosa Operação Lava Jato, que investiga esses tais crimes milionários. Poderia ter sido chamado a apresentar-se voluntariamente, mas Moro fez questão de o mandar buscar.

 

A iminência duma prisão preventiva chegou a tal ponto que, em Abril, Dilma Rousseff, ainda Presidente, enviou a Lula em um documento sem data que o nomeava Ministro-chefe da Casa Civil, o que lhe daria imunidade à prisão se a Policia Federal lhe batesse à porta. Dilma ligou a Lula a explicar o documento e a conversa foi gravada, o que configura o crime de obstrução de justiça. Moro, a precisar de apoio popular perante a enorme pressão de Brasília, forneceu a gravação à comunicação social, o que por sua vez levou os adversários a acusarem-no de fuga de informação.

 

Enquanto este vai-não-vai com Lula prosseguia, iam decorrendo processos contra outros acusados de corrupção (Lava Jato, Zelotes, etc) e ainda o impedimento de Dilma, entretanto afastada provisoriamente da Presidência. O consenso geral dos analistas é que Sérgio Moro quer ir por etapas, cercando Lula por todos os lados, até chegar finalmente a uma prisão que certamente levantará grandes ondas de choque no Brasil.

 

Os processos têm de passar por Rodrigo Janot, o Procurador Geral da República, e ser aprovados pelo Supremo Tribunal Federal, cujos onze juízes são maioritariamente nomeados pelo PT, mas nem sempre decidem segundo a sua filiação, pois também eles recebem pressões por todos os lados. Mas toda a máquina do PT está permanentemente atenta às decisões de Moro, que vê como o grande inimigo que pode incriminar Lula.

 

Ora, o que aconteceu agora foi inesperado, apanhando os operacionais do Partido dos Trabalhadores desprevenidos. Rodrigo Janot recebeu uma acusação contra Lula relacionada com o processo Lava Jato. Nela se afirma que o ex-Presidente cometeu os crimes de tráfico de influência e obstrução de Justiça juntamente como o ex-Senador Delcídio do Amaral e o empresário José Carlos Bumlai. Os três tentaram pagar ao ex-Administrador da Petrobras, Nestor Cerveró, para que não declarasse os milhões de reais (ou de euros, ou dólares, são sempre dezenas de milhões) que a empresa estatal tinha pago ao PT e a várias pessoas. (Todos os aqui nomeados estão já presos, menos Lula.)

 

Esperava-se que Janot enviasse o processo para Moro, em Curitiba, no que certamente seria impedido pelo Juiz do Supremo Tribunal Teori Zavascki. Mas Janot, alegando que os delitos ocorreram em Brasília, mandou o processo para o Juiz do Distrito Federal, Ricardo Leite, que o aceitou imediatamente. Deste modo Lula passa a réu e poderá mesmo ser preso preventivamente, se o Juiz assim achar conveniente. As provas, provenientes de denúncia voluntária (“delação premiada”) de Delcídio e Cerveró, e de gravações, são muito robustas. Independentemente de outros processos que certamente virão a atormentar Lula, este é um caso concreto, com direito a prisão efectiva.

 

É interessante que Lula, prevendo mais ataques vindos de Curitiba, no dia 28 de Julho apresentou uma petição ao Comité de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, afirmando ser vítima das acções da Lava Jato. Segundo a petição, Lula se diz perseguido pelos “actos ilegais” praticados por Moro, entre eles a gravação e divulgação de conversas privadas com advogados e também a famosa conversa com Dilma Rouseff, além da condução coerciva para o depoimento no dia 4 de Março.

 

Não se sabe qual será a resposta do Comité. Os especialistas acham que não aceitará a queixa, uma vez que tudo tem decorrido dentro da lei do país, e a fuga de informação do telefonema com Dilma não é suficiente para considerar uma infracção aos Direitos Humanos.

 

Mas, qualquer que seja o desfecho da petição em Genebra, não cobre a decisão do Juiz Ricardo Leite, em Brasília. Desta vez Luís Inácio Lula da Silva vai mesmo ter de enfrentar a Justiça.

publicado às 08:44

Não podemos renunciar à liberdade. Não renunciamos a algum dos pequenos prazeres do nosso modo de vida.

Por: Francisco Sena Santos
 

 

O terrorismo trouxe uma vez mais a sua feroz guerra para o coração da Europa. Agora, em Bruxelas, à hora de ponta. A capital da União Europeia está bloqueada e o medo instala-se. É o que eles, os bárbaros, querem: abater a ideia de liberdade, progresso, justiça social.
 
 
A Europa deixou de viver em paz. As guerras do Médio Oriente estão a ser transferidas para dentro da Europa. A guerra é física e psicológica. É tempo de as lideranças europeias se deixarem das imbecis e ignóbeis quezílias egoístas de todos os dias. A crise dos refugiados evidencia-nos como falta na Europa um sobressalto de dignidade política. A Europa unida está fragmentada, em pedaços, e é evidente que só unida e solidária, corajosamente regressada aos valores fundadores, pode enfrentar o lado político desta guerra. Nós, os cidadãos, obviamente, quaisquer que sejam as ameaças, recusamos renunciar aos pequenos prazeres de cada dia, seja o de um café enquanto lemos um jornal ou um livro numa esplanada ao sol, a música dançada numa discoteca ou uma viagem de avião. Evidentemente, nada pode fazer retroceder a liberdade que é o nosso primeiro valor.
 
 
 
O BRASIL E CUBA EM ESTRADAS OPOSTAS
 
A detenção de Berta Soler, líder das Damas de Blanco, e de outros oposicionistas cubanos, neste domingo, no Parque Gandhi, em Havana, no final de uma manifestação de repúdio do governo comunista, ocorrida escassas horas antes de Obama pisar pela primeira vez solo de Cuba, lembra-nos que não há motivo para excesso de entusiasmos com a abertura política em Havana. Mas o povo cubano, sempre embalado pelo ritmo musical da salsa, pode sorrir: o horizonte é de esperança. A evolução em Cuba tende a ser lenta, gradual, mas é irreversível rumo a uma vida menos constrangida. É o oposto do que se sente no Brasil de hoje, um país que parece tomado pelos ódios.
 

Milhões de brasileiros estão a ser chamados para o protesto, furioso, nas ruas. Todos sabem que todo o sistema político-económico do país está corroído pela corrupção. É um mal que se propagou, transversal. Mas o que está em fundo a este movimento que precipita multidões para as manifestações não é um confronto entre o bem e o mal ou entre decência e corrupção, é uma luta tremenda pelo poder.
 

Esta guerra política ficou desencadeada quando em outubro de 2014 Aécio Neves perdeu a eleição presidencial em que Dilma Rousseff foi reeleita. Os anti-PT não aguentaram e desesperaram com a realidade de quatro eleições presidenciais ganhas pelo PT (Lula em 2001 e 2005, Dilma em 2009 e 2013) e a perspectiva de, após estes 16 anos, haver continuação com o regresso de Lula à presidência nas eleições de 2017. Os opositores fizeram cálculos e perceberam que Lula é, para eles, a ameaça. Dilma não tem mão para liderar o país mas Lula saiu da presidência em 2009 com taxas de aprovação tão altas que serviram para garantir a eleição e reeleição da fraca e desconhecida Dilma. Lula continuava a ser trunfo, portanto, é o ás a abater. Num país onde o voto é obrigatório, Lula tem o apoio dos muitos milhões de sem terra nem rumo que vêem nele o líder que lhes deu benefícios do dinheiro público, que lhes restituiu alguma dignidade e amanhãs. Por isso, para os opositores, o ataque teria de ser de alto calibre letal: empurrá-lo para o papel de bandoleiro que rouba o dinheiro dos brasileiros. O aparelho de poder de Lula pôs-se a jeito: não foi imune à embriaguez do dinheiro e do poder, envolveu-se nas teias da corrupção que envolve todo o sistema político brasileiro.
 

É aqui que entram em campo, nesta guerra anti-vermelhos que tem como alvo central abater Lula, dois poderes que se fizeram parte aliada: o aparelho policial-judiciário e o sistema dos media, convergentes para o fim de remover Lula e o PT do poder, objetivo que ficou por conseguir de forma democrática ao longo da última década e meia.
 

Todos pudemos notar nos últimos dias como os magistrados que conduzem a (necessária) investigação criminal não olham a meios para, com abusos vários, alcançarem os objetivos que se revelam claramente políticos. São múltiplos os indícios de que o PT está repleto de corrupção que toca em Lula. Mas todo o cidadão tem direito a que a investigação de que é alvo seja imparcial e justa. E, se a intenção é a boa de caçar todos os que têm as mãos sujas, então também será de avançar, com respeito pela prática do Direito, por todo o espectro político igualmente contaminado.
 

Paralelamente, os media, intensamente concentrados e influentes, veemente opostos ao PT, com a Rede Globo na hegemonia, meteram-se nesta guerra, teatralmente, inflamando o cenário, como agitadores e alimentadores do protesto: “O que a Globo sabe fazer magistralmente é manipular contextos”, escreve Carlos Castilho, jornalista há 35 anos e professor agora a concluir o doutoramento em Gestão do Conhecimento na Universidade de Santa Catarina, nesta análise preciosa para conhecermos o sistema dos media no Brasil. Também se recomenda este retrato do actual “turbilhão de versões e contra-versões”, igualmente por Carlos Castilho. É assim que o Brasil de agora está em espiral depressiva confrontado com uma crise gigantesca.
 

O que está a acontecer em Cuba vai no sentido oposto, o da esperança. A vida segue precária na ilha caribenha, grande parte dos seus 11 milhões de habitantes sofre de grande escassez (um professor universitário recebe um salário que não chega a 60 euros por mês) e para a maioria arranjar o que comer é uma luta diária: o cabaz básico mensal de alimentos subsidiados apenas dá para uns dez dias. O Estado é o maior empregador em Cuba mas o salário mensal médio é de 28 euros. A agricultura tem a mão-de-obra de 10% do país. As remessas do milhão e meio de cubanos no exterior são um essencial suporte para a subsistência das famílias. Mas a saúde funciona, a esperança de vida está nos 79 anos e em Cuba vivem umas 1800 pessoas com mais de 100 anos. A escola funciona e a alfabetização de adultos está nos 100%.
Há muralhas por derrubar: o regime desmente mas há evidência de continuação de prisões políticas mascaradas como casos de delito comum. O acesso à internet continua por liberalizar para a maioria da população cubana. É um dos pontos que Obama levou na agenda e a Google integra a comitiva. Tal como a PayPal e a Airbnb. Os muros estão a cair, é irreversível.
 

O papa João Paulo II abriu o caminho para a esperança ao apelar, em 1998, em Havana: “Que Cuba se abra ao mundo e que o mundo se abra a Cuba". Os papas Bento XVI e, sobretudo, Francisco deram sequência a esse caminho. Quem imaginaria há meia dúzia que um presidente dos EUA iria a Cuba apertar a mão a um Castro? Há muitos problemas para resolver mas o caminho já não tem volta para trás. A distensão com Cuba e com o Irão mostram que a presidência Obama trouxe melhorias aos mundo que, no entanto, está cada vez mais perigoso pelo terrorismo.
 
 
 
AINDA A TER EM CONTA
 
Cabo Verde votou e a oposição triunfou. O arquipélago é um exemplo de, apesar de tantas carências sociais e económicas, coexistência democrática.
 
 
Mi ê di li i di la. Esta reportagem de Vera Moutinho e Catarina Gomes, no Público, mostra o futuro virtuoso para os jornais de referência.
 
 
Três primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO JORNAIS: esta, esta e também esta.
 
 
publicado às 09:34

O que será, que será? O que não tem conserto, nem nunca terá. O que não tem tamanho 

Por: José Couto Nogueira

 

Ninguém sabe o que será do Brasil. Todos temem o que será do Brasil. Era bom que fosse – apenas – uma questão ideológica. Não é. Retrato do Brasil entre a confusão e o medo.

 

O “Jornal de Negócios” perguntou ao BE e ao PCP o que têm a dizer sobre a situação no Brasil. As respostas são constrangedoras, mas estão dentro da lógica da divisão ideológica que mal esconde a verdadeira questão que os brasileiros enfrentam. No Brasil, também, as explicações ideológicas tentam ocultar as razões económicas e judiciais que estão na génese da crise.

 

Segundo o “Negócios”, tanto um partido como o outro fazem uma leitura sucinta dos acontecimentos: “O que está em curso não é um combate à corrupção, mas sim um golpe de Estado promovido pela direita e os sectores mais retrógrados do país. A corrupção existe, mas é só o pano de fundo e o pretexto que a oposição precisa para deitar abaixo um governo eleito democraticamente.”

 

Oxalá fosse assim tão simples. Se houvesse uma direita organizada no Brasil – ou mesmo uma associação estratégica das várias direitas – seria possível pensar num tal cenário. Mas no Brasil não há uma direita uniforme e coordenada.

 

Entre os 28 partidos representados na Câmara dos Deputados, há dois partidos de direita, o DEM e o PP, que congregam os velhos políticos “rolhas” que atravessaram todos os regimes, inclusive o militar, como José Sarney e Paulo Maluf, ou o ex-presidente Collor de Melo. Nenhum deles tem massa crítica ou reputação moral junto da população para dirigir um golpe, e estão a seguir a política que sempre lhes garantiu a sobrevivência - não dizer nem que sim nem que não e esperar para que lado tende a balança. Depois há os chamados partidos evangélicos, com uma agenda moral super-conservadora e sem apetência para um golpe que não lhes traria vantagens. Têm apoiado o PT quando lhes convém e não estão interessados numa investigação às suas fortunas, obtidas à custa dos incautos.

 

O PT, sem maioria parlamentar, tem governado aliando-se a todos os partidos disponíveis, de todas as ideologias, trocando o apoio por cargos ministeriais e outras benesses. Assim se justifica que o Governo tenha 32 ministérios, alguns meramente simbólicos.

 

Na rua, também não há direita que se veja. Existem grupos fascisóides, que pedem a volta da Ditadura Militar que dirigiu o pais entre 1964 e 1985, mas são muito minoritários, sem representação social. Quanto aos militares, que poderiam ser, mais uma vez, os fazedores de um golpe, com o mesmo pretexto de que os comunistas estão a tomar o poder, encontram-se hoje muito longe das posições de 1964. Aliás, os comunistas já estão no poder há 14 anos e até escolheram um ex-guerrilheiro, Aldo Rabelo, do PCdoB, para ministro da Defesa. Se os militares aceitaram esta nomeação abertamente provocatória sem se revoltar, é sinal de que não estão dispostos a golpes. Quando muito, poderiam restabelecer a ordem pública, no caso de um confronto violento entre petistas e a população. Mas tomar o poder, não se vislumbra.

 

E elabora o BE: "Apoiadas nos sucessivos escândalos, a direita e a extrema-direita brasileiras desencadeiam agora um golpe de Estado no estilo do século XXI, articulado a partir do sistema judicial e alguns grandes empórios financeiros". Portanto, para os bloquistas a questão é a velha luta de classes, com os ricos conluiados com a Justiça para tirar os pobres trabalhadores do poder. Como veremos, não é o que se passa.

 

O PCP vai mais longe na análise delirante: “É indissociável do conjunto de manobras de ingerência promovidas pelos Estados Unidos visando os processos progressistas e de afirmação soberana na América Latina."

 

O PCP ainda se aquece com a Guerra Fria. Há pelo menos uma década que os Estados Unidos deixaram de se interessar pelos regimes da América Latina. Estão a braços com problemas muito maiores, à escala global, e têm um novo inimigo, “o islamismo radical”, que é muito mais perigoso do que uns governos revolucionários ao Sul do Equador. Já se percebeu que esses governos não têm competência para fazer as reformas económicas que prometeram e acabam por cair por si próprios. Aconteceu na Argentina, está para acontecer na Venezuela e no Peru. Há probabilidades que aconteça no Brasil; e Cuba já tem a cabeça no cepo. Assim que as relações com os americanos se regularizarem e os cubanos exilados voltarem ao país para fazer negócios, o regime cubano cairá por si. Foi essa a esperteza de Obama, perceber que o embargo a Cuba ou as restrições impostas aos países sul-americanos governados pela esquerda ajudam mais esses regimes do que o contacto aberto com as delícias do capitalismo, selvagem que seja.

 

Sair da miséria e continuar na pobreza

 

O PCP e, no caso, a esquerda brasileira, não percebem que os tempos mudaram e já não existe o odiado americano que os unia. Os problemas que o Governo do Brasil enfrenta têm muito mais a ver com a degradação da economia e a corrupção do que com uma comunização do país que, de facto, o PT nunca chegou a fazer. Diz-se que tirou milhões de brasileiros da miséria (os números variam entre 10 e 30 milhões), trazendo-os para os confortos da classe média. Mas não os tirou da pobreza, apenas lhes matou a fome, distribuindo dinheiro (a Bolsa Família, por exemplo), sem lhes dar os instrumentos para saírem por eles – a velha história, não se deve dar o peixe, mas sim ensinar a pescar. As pessoas recebem dinheiro mas não têm escolas nem assistência médica. Gastam-no em comida e quando se acaba esperam por mais. Não se pode dizer que isto seja entrar na classe média.

 

Quanto à classe média propriamente dita, que é o maior estrato económico do país, viu as suas condições económicas deteriorarem-se entre o Governo do PSDB (Fernando Henrique Cardoso) e o do PT. Neste momento a inflação é de 11% ao ano e os cartões de crédito têm juros de 400%. Os transportes públicos são péssimos e a insegurança nas ruas continua e níveis iraquianos. O PIB caiu 4% em 2015 e o poder de compra reduziu-se muito nas cidades, que têm um custo de vida elevadíssimo.

 

 

O PT não comunizou o Brasil, como receava a direita dos novos-ricos e velhos industriais e proprietários; o que fez foi reduzir o nível de vida da classe média, sem realmente melhorar definitivamente o da baixa. E aliou-se aos grandes capitalistas, que o compraram facilmente. O Movimento dos Sem Terra, constituído espontaneamente nos anos 70, ao fim de 14 anos de PT continua sem terra, pois o partido transformou-os numa tropa de choque que anda de catana em punho a destruir propriedades e a ameaçar quem não goste do partido.

 

Dá para encher a geladeira?

 

Tudo isto é muito difícil de engolir para os intelectuais brasileiros, que tiveram uma vida infernal durante a ditadura e continuam a acreditar que o PT é a verdadeira esquerda, a boa, que dará melhores condições de vida aos trabalhadores. Os militares no poder perseguiram-nos, prenderam-nos, torturaram alguns e exilaram outros. Isso nunca mais se esquece. A um Chico Buarque, um Gilberto Gil, um Jô Soares, não lhes passa pela cabeça não apoiar o governo de esquerda com que sonharam durante anos.

 

A ditadura militar deixou um rasto de violência que traumatizou a sociedade brasileira, naturalmente festiva e bem disposta. A democracia com amplas liberdades, é mesmo da maneira que o povo gosta; quanto menos Governo melhor, desde que lhe dê a oportunidade de prosperar. Uma expressão que se ouve muito, a propósito da situação económica familiar, é se o que se ganha “dá para encher a geladeira (frigorífico)”. Ora as condições económicas presentes não permitem encher a geladeira, e daí os milhões de pessoas que vão para as ruas bramar contra o Governo. Se bramam contra o comunismo, é porque o suposto comunismo o que lhes deu foi doses brutais de capitalismo salve-se quem puder. Quanto aos muito ricos e donos daquilo tudo, que seriam os supostos orquestradores dum golpe de estado, têm-se dado muito bem com o PT, que corrompem facilmente. Não têm preconceitos ideológicos; desde que possam fazer o que querem, tanto se lhes dá. E nenhum partido no poder lhes facilitou tanto a vida como este, em que tudo está à venda a troco duns milhões.

 

Quanto custa “quebrar o galho”?

 

Porque é essa a verdadeira questão: a corrupção. Sempre existiu no Brasil, tanto em ditadura como em democracia, e a todos os níveis – desde o polícia de rua que aceita uns trocos para não rebocar o carro, ao funcionário que tem de produzir um qualquer documento. É endémica e transversal, de tal modo que qualquer cidadão que tenha assuntos legais a tratar, a primeira pergunta que faz é 'quanto custa “quebrar o galho”' (resolver a situação).

 

O que aconteceu com o PT, foi que essa corrupção atingiu níveis nunca vistos, a ponto de prejudicar brutalmente a economia do país. Basta citar o caso da Petrobras, a poderosa estatal do petróleo que está à beira da falência. Em 2006, era Dilma Rousseff presidente da empresa e ministra de Lula, a Petrobras comprou uma refinaria obsoleta em Passadena, Texas. A unidade, que valia 50 milhões de dólares, foi adquirida por mil e duzentos milhões. Quando, posteriormente a tentou vender por 170 milhões, não encontrou comprador. Os directores da Petrobras já estão todos a contas com a justiça. Dilma diz que não sabia de nada.

 

O escândalo do “mensalão”, que levou à cadeia vários próximos de Luís Inácio Lula da Silva, acalmou a opinião pública temporariamente; mas as luvas (propina) que as grandes empresas pagaram a outros membros do partido, os favores e as benesses – como o jacto particular que trouxe Lula a Portugal para ser doutorado honoris causa em Coimbra e assistir ao lançamento do livro de Sócrates – fizeram ver que a corrupção dentro do PT e seus aliados era ainda maior do que se imaginava. A partir daí, num crescendo de revelações e fugas de segredo de Justiça, tem acontecido um verdadeiro massacre entre o governo e os partidos que o apoiam, nomeadamente o PSDB (no poder com Fernando Henrique Cardoso, antes da vitória eleitoral do PT).

 

A denúncia é uma arma

 

Para conseguir tanto sucesso na investigação, o sistema judicial brasileiro dispõe de um instrumento fundamental, que é a denúncia do indiciado a troco de redução de pena – a “delação premiada”. Esta figura jurídica, copiada da legislação norte-americana, nunca foi bem vista em Portugal, por questões éticas - dizem uns - ou porque os políticos não estão interessados - dizem outros. Temos uma previsão semelhante, que é o “estatuto de arrependido”, mas que é raramente usado e nunca admitido. Aconteceu com Duarte Lima, por exemplo, que obteve prisão domiciliária a troco de revelar os envolvidos no caso Monte Branco.

 

O juiz Sérgio Moro, que conduz a investigação do caso Lava Jato, tem utilizado a delação premiada com grande eficiência. Começou pelos mais fracos, os cambistas (doleiros) que enviavam os dinheiros da corrupção (propinas) para o estrangeiro e foi subindo pela cadeia do poder, até chegar aos directores da Petrobras e, finalmente, a senadores e ministros, passando pelos corruptores activos das grandes construtoras. Confrontados com as suas manigâncias, poucos resistem a denunciar os outros, a troco de um alívio de pena e devolução de alguns milhões. Porque quem não delata arrisca-se a penas pesadas, como foi o caso de Marcelo Odebrecht, da construtora homónima, que pagou o seu silêncio com uma pena de 19 anos de prisão efectiva. Fala-se que irá finalmente ceder.

 

 

Para lá do ódio aos corruptos, o sentimento mais prevalecente na sociedade brasileira é o medo. Nesta devassa na classe politica – que atinge tanto o PT como o PMDB e os outros partidos que sustentam o Governo – não fica ninguém de fora. O que significa que não há alternativas, caso Dilma Rousseff caia. É terrível, mas não se divisa nenhum político que tenha idoneidade moral para assumir o poder e recomeçar tudo outra vez. O actual presidente do PMDB, Aécio Neves, já se sabe que tem uma conta secreta no Liechenstein, além de outros ilícitos. Fernando Henrique Cardoso, uma referência moral da democracia, também terá recebido uns dinheiros suspeitos para comprar um apartamento e financiar as eleições. Michel Temer, o actual vice-Presidente (PMDB) e Eduardo Cunha, o evangélico do PMDB que preside à Câmara dos Deputados, têm péssima reputação, e o senador Delcídio do Amaral (PT) acaba de aderir à delação premiada para salvar a pele.

 

O Brasil, que tem tudo para ser um grande país, só lhe falta dirigentes à altura dessa grandeza prometida. Em conversas com brasileiros de todas as cores e estratos sociais, é esse medo do que está para vir que perturba. Que Dilma vai cair, todos concordam. O que virá a seguir, ninguém sabe.

publicado às 12:15

Lula já foi o herói. Agora, aparece cabeça do polvo. Tudo se reduz a isto?

Por: Francisco Sena Santos

O Brasil segue e há-de seguir, como canta Jorge Ben, um país tropical, bonito por natureza. A canção garante que o Brasil também é abençoado por deus. Vemos múltiplos autocolantes a reclamarem que deus é brasileiro. Esta parte, porém, está por demonstrar, a menos que remeta para um deus em fase cruel, como a do Antigo Testamento. É que cada semana brasileira está mais dramática que a anterior, com o país arrastado pela enxurrada de uma crise que é moral, ética, política, social, económica e que, como se não bastasse, também tem uma emergência de saúde pública, com o vírus Zika contra o qual continua a não haver vacina.

 

O Brasil continua lindo nas músicas, o futebol não vai tanto assim, mas a política e os políticos vão ladeira abaixo na maré cada vez maior de protestos impulsionados pela parceria entre Ministério Público, Polícia Federal e a grande imprensa (com o grupo Globo na primeira linha) na denúncia da suja corrupção e lavagem de dinheiro pelo poder político do PT, o Partido dos Trabalhadores, de Lula e Dilma.

 

A estratégia de informação e comunicação meticulosamente desenvolvida ao longo dos últimos 19 meses por aqueles três pilares, com a sucessão de manchetes sobre escândalos envolvendo políticos e empresários, está a golpear, de forma que parece não permitir salvação, a cúpula do PT. O clamor popular, com o povo na rua de modo maciço, está a gritar: basta de vocês! O alvo em fundo neste Brasil fraturado, é Lula, o inimigo de classe.

 

Toda a gente já ouviu que no Brasil (como em outros países, claro), para fazer aprovar uma lei no parlamento, é preciso comprar o voto de deputados caciques. Deputados vendem o voto a quem pagar mais. Lula e amigos avançaram por esse caminho. Foram apanhados pela armadilha e são denunciados por muitos que são useiros e vezeiros nessa prática de submundo. Agora, chega para muitos, uma ocasião de ouro para ajustes de contas, desforra eleitoral e reversão do quadro político iniciado em 2003, com a eleição de Lula com 52 milhões de votos, correspondendo a 61,27% do eleitorado brasileiro.

 

Em 2009, no final de uma das pomposas cimeiras do influente G20, o presidente Obama, ao cumprimentar o presidente brasileiro, comentou: “Este é o homem, o político mais popular ao cimo da Terra”. O então presidente do Brasil, um Lula da Silva ex-operário metalúrgico que mal arranhava a fala em inglês, mas com 27 doutoramentos honoris causa de prestigiadas universidades europeias e americanas, era o símbolo mais poderoso da grande mudança ocorrida na América do Sul após o fim da Guerra Fria e com o avanço da globalização. Lula seguiu pelo caminho de reformas iniciado por um presidente com grande mérito, Fernando Henrique Cardoso, e ousou mexer profundamente na estrutura da sociedade brasileira, com demasiados muito pobres.


Nos oito anos da sua presidência (2003/2011), Lula tirou 36 milhões de pessoas da extrema pobreza. Fez funcionar o plano Fome Zero, que deu alimento a quem não tinha como comer. O salário mínimo subiu 77%. A energia eléctrica chegou finalmente a áreas rurais habitadas por milhões de pessoas. O analfabetismo recuou imenso. Foi uma década de vertiginoso crescimento económico, de remoção de algumas das antigas injustiças sociais e de aumento do prestígio internacional do Brasil com a diplomacia de Brasília a liderar a fundação, com a Rússia, Índia e China, do grupo BRIC de novas potências.

 

Esse Brasil, inspirador e que parecia feliz, beneficiava de um ciclo económico altamente favorável, quer com a expansão da exploração do petróleo num tempo de barril caro, quer com as exportações agrícolas. Mas esse Brasil potência internacional que passou a reivindicar lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU e que investia milhões na construção de estádios de futebol para o Mundial de 2014 e para os Jogos Olímpicos deste ano, continuava a ser um país com serviços do Terceiro Mundo em setores fundamentais como a saúde, a escola ou os transportes. Foi contra este estado de coisas que começou a disparar há três anos a rebelião das classes médias urbanas – que tinham, em grande parte, ficado de fora das melhorias no tempo de Lula. As “passeatas” sucederam-se, depois houve alguma trégua. Mas a crise económica, que baixou o rendimento das exportações, a que se juntou a depressão com a enorme queda do preço do petróleo, mostrou logo a seguir como o Brasil é um país com pés de barro, com o desenvolvimento sustentado por alicerces frágeis em terrenos movediços e com a classe política habituada a viver na entranhada corrupção que envolve gente do governo e da oposição – tem sido sempre assim no Brasil.


E, no meio de tudo isto, surgiu um justiceiro: chama-se Sérgio Moro, tem 44 anos, é juiz federal e comanda a operação baptizada de Lava Jato, que está a abalar o mundo político e de negócios no Brasil. A popularidade de Moro, com estatuto de herói nacional, está a preencher o vazio político. Moro investiga a trama corrupta de subornos e lavagem de dinheiro. Começou a desmontar o polvo pela petrolífera pública Petrobrás. O fio da meada está a levar a investigação para dentro de ministérios e empresas, e a revelar a corrupção endémica. A impunidade dos mais poderosos acabou. Está em curso no Brasil uma operação “Mãos Limpas” idêntica à que António di Pietro conduziu - antes de, com controvérsia, se assumir político - na Itália dos anos 80 e 90.


Há quem se inquiete com dúvidas sobre a arbitrariedade dos investigadores e a sua hostilidade ao PT – a justiça estará na mão de forças políticas? Há quem também questione a assumida parcialidade dos mais poderosos grupos de media no Brasil.


Seja como for, a presidência de Dilma está bloqueada e a destituição parece no caminho. A economia em implosão. O povão, dividido, em ebulição. Quase toda a classe política está ameaçada. Lula, agora perseguido, depois de ter sido ídolo popular e presidente carismático está na corda-bamba – mas não se pode subestimar o seu instinto político e capacidade para lutar. Há, para Lula, depois de tantos formidáveis êxitos, um fracasso inquestionável: não conseguiu, por não querer ou não o deixarem, resolver o problema da corrupção institucionalizada que põe tanta gente a embolsar dinheiro ilegal.

 

O Brasil está agora extremado, muito bate-boca, muita emoção a puxar fúrias. Provavelmente, vem aí a punição das negociatas na era de Lula. Mas isso não basta para resolver a corrupção entranhada no sistema político. Já tinha sido assim com Collor de Mello, que em 1989 tinha ganho a Lula (53%/47%), mas que três anos depois foi derrubado num “impeachment” por corrupção e lavagem de dinheiro. O problema brasileiro continua a estar no sistema político profundamente inquinado.

TAMBÉM A TER EM CONTA:

Após cinco anos de guerra, há agora uma pontinha de esperança para a Síria? The New York Times vê a trégua iniciada em 27 de fevereiro mais consistente que o imaginado. Os refugiados são gente que está a sobreviver assim.

Achtung, sim, mas dizer-se que o populismo anti-imigração e anti-refugiados se impôs nas eleições estaduais alemãs será exagerar a realidade. Os mais votados, avisa-nos The Guardian, foram políticos que são pela Europa e por uma solução europeia para a crise dos refugiados. Mas a xenofobia e a islamofobia, com a sua linguagem racista, são patologias que passaram a infetar a Alemanha de agora.

Esta outra terça-feira é dia chave no apuramento de candidatos presidenciais nos EUA, com primárias em cinco grandes estados (Florida, Carolina do Norte, Missouri, Ohio e Illinois). A fragilidade de Hillary Clinton é o seu défice de credibilidade - não entra no eleitorado “sub 35”. Donald Trump aparece como um palhaço – mas a fúria dos cidadãos contra o establishment pode causar surpresas.

 

Para que serve um jornal? Este ponto de vista no Jot Down.


Primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO JORNAIS: esta do JN, esta do Público e esta do DN. Faz-nos falta este sorriso que passa otimismo. 

publicado às 07:09

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