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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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O meu Euro é uma foto da Albânia

Por: Márcio Alves Candoso

 

Qual das duas melhores exportações da Madeira é a imagem mais adequada para Portugal? A pequena mas doce banana ou o grande e por vezes amargo Cristiano Ronaldo? O anúncio protagonizado por Dolores Aveiro, mãe do ‘melhor jogador do mundo’, faz-nos encarar um dilema. Mãe é mãe, e mesmo publicitária não tem dúvidas. Para ela é o seu ‘menine’, naquele foneticamente intransponível sotaque que, um dia, fez Herman José confessar os seus limites como imitador. Para nós… bem, tamanho – dizem – não é documento. Mais vale ser doce…

Só há 23 países no mundo com mais habitantes do que seguidores tem Cristiano no Facebook. Se a estes 60 milhões juntarmos os 15 do Twitter, então o número baixa para 18. Há mais ‘ronaldistas’ na rede do que franceses no planeta. Para quem não gosta de futebol, estas coisas deveriam fazer pensar.

 

Um dia, conheci um guarda-redes da Sanjoanense que tinha defendido um penalty de Eusébio. O homem tinha uma vida vulgar, mas haveria de levar para o túmulo – não sei o que é feito dele - um feito de que poucos se podem gabar. A partir de ontem, o poste direito da uma das balizas do ‘Parque dos Príncipes’, nessa segunda maior cidade portuguesa que é Paris, pode orgulhar-se de feito à altura do ’sapateiro’. Cristiano Ronaldo falha um penalty cada três anos. Aproveitou ontem para manter a regularidade…

 

Na noite quase de Verão que ontem apareceu por Lisboa, dizia a Isabel Tavares, minha querida camarada e novel colaboradora do ‘Sapo’, que não valia a pena escrever mais nada no FB, porque o melhor ‘poste’ tinha sido o do Ronaldo. Triste fado o da selecção portuguesa - atacámos como se não houvesse amanhã, e marcámos zero golos. Nem Quaresma de pés trocados – não há outro no mundo igual a ele, e acreditem que isto não é propaganda de cigano de feira - nem Nani de língua de fora nos valeram.

 

Mas talvez esteja na hora de mudar de fado. Kátia Aveiro, nascida Cátia Liliana, irmã do meio de Cristiano, e que começou sua carreira no ’music-hall’ como Ronalda, dá-nos hoje em dia uma visão muito diferente, e mais alegre, do que a triste melodia que carregamos em choro e mágoa, devaneio e realidade, silêncio, sombra e saudade, almas vencidas, noites perdidas, sombras bizarras.

 

O seu maior êxito proclama que ‘tu és a loucura que me faz vibrar/meu coração faz bum, bum sem parar’. É disto que a selecção precisa – um bater de corações, eventualmente apaixonado não pela Kátia mas por uma bandeira, um povo e um hino. Não vale a pena pedir menos a quem se propôs ser campeão da Europa.

 

Depois do jogo com a Áustria, estive a ver a actuação de Kátia no proverbial comício do PSD no Chão da Lagoa, e garanto-vos que pede meças e contornos roliços às melhores fintas do irmão mais novo. Com a vantagem, para apreciadores, de que a mini-saia é mais curta que os calções que a ‘Nike’ propôs à nossa selecção. Tenho para mim, aliás, que esta nova moda dos calções compridos afasta as senhoras das bancadas dos estádios e da televisão. Um assunto a rever…

 

Mas era suposto eu estar a falar de futebol. Opto pelos fãs, sem os quais não há 4-3-3 que resista. E os melhores do mundo são, com vossa licença, os irlandeses, que aliás, com grande pena minha, se arriscam a fazer as malas já no próximo jogo.

Faz-me confusão porque é que aquela gente se embebeda tanto ou mais que os ingleses, e em vez de distúrbios cantam o ‘Chiquitita’ dos ABBA com os seus opositores suecos. Deitam-se no chão às dezenas e o filme é passarem as pessoas aos semi-apalpões por cima deles. Toda a gente se ri. E fazem uma serenata a uma freira. E têm um cartaz, no tal jogo com a Suécia, em que convidam os fãs do adversário a ‘go back to your sexy wives’. Tem piada, só não sei se as irlandesas gostaram. Quantas Maureen O’Hara ainda há na ilha verde?

 

Enquanto isso, os russos arriscam-se a ser expulsos ainda antes de a sua frágil selecção ser eliminada, os ingleses fazem o que é costume – merda – e os croatas, turcos e albaneses estão na mira dessa impoluta agremiação que dá pelo nome de UEFA. Tudo jóia, se não fosse a vaca da Itália, que não joga uma pevide, mas ganha.

 

Voltando à história pátria, há coisas que não percebo. Estive a ver, todos ou quase todos os dias, os inquéritos da RTP aos tele-espetadores - segundo o acordo ortográfico, são os tipos que se espetam à frente da pantalha e que não a largam – e apontei os resultados. Seja a pergunta ‘Portugal vai ficar em 1ºlugar no Grupo F’, ‘Ronaldo é o melhor jogador dos últimos 20 anos’, ‘a actual selecção é melhor do que a de 2014’ ou ‘William Carvalho deve substituir Danilo’, o resultado é sempre o mesmo. Portalegre vota ao contrário do resto do País, às vezes acompanhado por Viseu e Évora. Não sei o que se passa com a interioridade, mas isto dava uma tese de Sociologia no ISCTE, eventualmente tutelada pelo Francisco José Viegas.

 

A verdade é que temos que ganhar aos húngaros. Até agora, o fado dos empates tem sido a sina que nos tolhe. A culpa, como dizia a minha amiga Magda Santos, é do ‘profeta’ Abrunhosa. ‘Tudo o que eu te dou, tu me dás a mim’, é a perfeita definição de um empate. Eu sempre disse que a canção, a ser uma do rapaz dos óculos, devia ser o ‘Talvez f.’, que bem traduzida para ouvidos austríacos haveria de lhes soar diferente da ‘Música no Coração’. Uma canção de amor não faz mossa. ‘Que mais te posso dar’? Quinze a zero, no mínimo, já lá dizia o grande Ricardo Araújo Pereira!

 

No entanto, está tudo em aberto. A esperança é a última a morrer. São onze para cada lado, se o árbitro não for italiano, e a bola é redonda. Prognósticos só no fim do jogo. Falho de mais lugares-comuns, vou contar uma história.

 

Eu já fui treinador de futebol. É verdade, tinha nove anos. O meu Pai tinha-me dado uma bola, o que me permitia ter alguma relevância no meio da rapaziada da 4ª classe da escola primária de Moncorvo. Torto de ambos os pés desde tenra idade, a única hipótese que tinha de jogar à bola era ser dono dela. Mas eu sempre gostei de ganhar e, graças a Deus, sempre tive a noção das minhas limitações.

 

Vai daí, fui ler um livro de táctica – acho que era do Heleno Herrera – que havia lá na biblioteca moncorvina. Os putos ranhosos, descalços ou aburguesados que me acompanhavam na escola, não tinham grande respeito por mim, no que concerne a andar à porrada, mas sabiam da minha enorme superioridade intelectual. O que, diga-se de passagem, em Trás-os-Montes nos anos 60 não era lá muito boa qualidade para ser chefe da malta. Mas convenci-os à custa de lábia – é assim que um gajo fraco e feio conquista, primeiro os miúdos e depois o resto…

 

Lembro-me dos nomes deles. Grandes craques, até ganhámos à 5ªclasse. O Meireles na baliza, como o pai dele também era nos seniores do Moncorvo. Nas laterais o Orlando, que era canhoto e rápido, e o Gomes, com um olho sempre no contra-ataque. No meio da defesa o Reis e o Teixeira, ou então o Olímpio, que era muito burro mas enorme; contava que lhe tinha caído um raio em cima, lá na quinta da Vilariça onde a família trabalhava, e que a partir daí tinha ficado taralhouco.

 

No meio-campo era o Artur, que depois viria a jogar a sério, e que era dos poucos que olhava para cima ao mesmo tempo que dominava a bola. A seu lado tinha o Mesquita, que não gostava de perder nem a feijões, e o Norberto que corria como Deus o dava pela extrema direita. Na frente, o Nélson Choça era uma espécie de Nené – nunca sujava os calções mas estava sempre à mama. O goleador por excelência. O Amândio era o distribuidor de jogo e eu, coitado, ficava para as dobras quando não havia mais ninguém.

 

Miúdos valentes. Lembro-me de dar uma sandes ao Norberto, o meu protegido, e a minha Mãe achar que eu era um alarve, porque chegava a casa cheio de fome. E do Branquinho, que não tinha sapatos e fugiu da escola na terceira classe para França, com o pai. E do Biló, que tinha como mãe uma senhora que não lhe sabia dizer quem era o pai. E do Salazar, que morreu de tuberculose ainda não tinha feito vinte anos. Coisas de antigamente.

 

Isto de jornalismo está pelas ruas da amargura. Só agora reparei que desleixei o título que dei a este texto. Então é assim: a foto mais partilhada, até agora, do Euro 2016, é a de duas albanesas bem nutridas e simpáticas, que fazem com as mãos o voo da águia que está na bandeira do seu país. Os homens, principais utilizadores desta coisa linda que se chama futebol, de vez em quando reparam no que é realmente importante.

publicado às 17:59

Abaixo a carne, o sexismo e o capitalismo

Por: Márcio Alves Candoso

 

O mote é a ‘Abolição dos Matadouros’. Mas o movimento, que existe em vários países desde 2012 e que agora chega a Portugal, é muito mais do que isso. Trata-se de uma verdadeira plataforma conservacionista e abolicionista do consumo de carne, que proclama, entre outras necessidades do meio ambiente, a ‘redução da população humana no planeta, através do incentivo do Estado ao aborto e do fomento do casamento gay que não procria’. 

 

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São perto de uma centena, os manifestantes que pelas quatro e meia em ponto da tarde de sábado, dia 4 de junho, se juntam em frente ao Campo Pequeno, palco de outras lutas (anti-touradas), que têm tudo a ver com a que agora se inicia. Representam várias sensibilidades da defesa dos animais, e saem pouco depois das cinco horas – a hora, por excelência, da tourada – rumo à Assembleia da República. A polícia, em número razoável no local, tem a vida facilitada. Não há qualquer espécie de anti-manifestação.

 

Explicam o que são. Anti-carnistas – ou seja, pela abolição do consumo de carne – e anti-especistas – que o mesmo é dizer, contra a supremacia do ‘animal-humano’ sobre os outros. Mas reivindicam-se, se não todos pelo menos uma boa parte, de irmandades várias, que vão desde a ‘imposição coerciva do veganismo através da força legal do Estado’, até outras lutas que consideram como definidoras do ‘progresso da humanidade’, onde esta se insere, a saber: ‘o aborto livre pago pelo Estado, o casamento gay, a adopção de crianças por pares de invertidos (sic], a procriação medicamente assistida para toda a gente, a legalização das ‘barrigas de aluguer’ e a legalização da eutanásia’. ‘Chegou o momento dialéctico de avançarmos na nossa luta pelo progresso da humanidade’, lê-se no manifesto que convoca a manifestação de hoje à tarde. E esse é o da abolição de matadouros.

 

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Quisémos saber se, ao falarem de matadouros, deixavam de fora a criação particular – vulgarmente, o galinheiro da aldeia, ou mesmo a caça. ‘Podemos ter alguma compreensão pela falta de informação dessas pessoas, mas o movimento é totalmente abolicionista do carnismo, que é uma forma de opressão ligada ao sexismo e ao capitalismo’, diz-nos Beatriz Costa, da organização da manifestação. No entanto, há uma vertente que reprova, de forma mais dura, a ‘exploração agro-industrial tipicamente capitalista’.

 

Depois de deambular por grupos maioritariamente jovens e – digamos – com aspecto alternativo, juntamo-nos ao único pequeno grupo passível de se identificar com a razoável profusão de cabelos brancos do jornalista. Sérgio é veganista completo há apenas ano e meio, mas antes já foi macrobiótico. ‘Comia peixe, ovos, mas depois deixei’, refere. Um outro manifestante – não identificado – revela-se asmático desde nascença, mas tem estado muito melhor desde que deixou ‘suplementos alimentares e qualquer fonte de proteína animal, incluindo o leite, que faz um mal terrível’. ’Então em Portugal, onde uma couve tem muito mais cálcio que o leite, isso não é preciso para nada’, sustenta. Teme pelo esqueleto das galinhas, ‘obrigadas a pôr muito mais ovos do que é natural, e que com isso perdem cálcio’

 

Outros manifestantes alertam para as ‘más condições’ em que vivem os animais de abate. Mas confrontados, pelo jornalista, com o touro bravo que tem uma qualidade de vida muito superior à dos animais de criação, logo referem que a luta ‘não é só contra as más condições, mas sim pelo abolicionismo’.

 

Por outro lado, não são só os seres humanos que devem ser em muito menor número. Também os porcos e os bovinos, por exemplo. ‘Há muita poluição criada pelos animais de abate, e se deixarmos de comer carne eles serão muito menos; os restantes poderão ficar em reservas para animais selvagens, como acontece actualmente com os veados e os alces, por exemplo’, defende outro manifestante.

 

Há todo um estilo de vida saudável e uma ética por detrás destes manifestantes. Mas também uma ideologia, com laivos de revisionismo de ideias vulgarmente aceites. ‘O ser humano é essencialmente um herbívoro que deixou de ruminar quando se inventou a propriedade privada’, refere o manifesto que apela à abolição dos matadouros. Segundo a mesma fonte, foram os homens, ‘de raça branca e heterossexuais’, que colocaram uma vedação num terreno e que ‘convenceram outras pessoas que o terreno era seu’. Quando começaram a criar gado ‘isso foi um grande retrocesso para a humanidade’, refere o mesmo texto.

 

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O Movimento para a Abolição dos Matadouros (MAM-Portugal), que encabeçou a manifestação ao lado da bandeira da bissexualidade, foi criado em Janeiro deste ano - esta foi a sua primeira manifestação em Lisboa – com o objectivo de combater esta ‘forma de opressão’ que é o especismo, que iguala em malefícios aos ‘demais sistemas de opressão’ – sexismo, capitalismo, sionismo, imperialismo, etc.

 

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Mas o jornalista tem de confessar que o ‘etc.’ ficava aqui bem e lhe dava jeito, mas iludiria uma parte da verdade, a qual se prende com a sua muita ignorância. Ao ler o rol das opressões que impendem sobre o mundo actual, incluindo sobre os 55 mil milhões de seres terrenos sencientes – os animais-humanos e os animais-não humanos, só aqui sendo contabilizados os terrenos, pela manifesta impossibilidade de contar os que por mar e ar fazem a sua vida -, especou com uma palavra que não conhecia.

 

Trata-se do cissexismo, que até a porcaria deste corrector ortográfico sublinha a vermelho, considerando que não existe. O cissexismo, fiquei hoje a saber, é um conjunto de noções discriminatórias que estabelecem que as pessoas ‘trans’ estão abaixo dos dois géneros comuns - masculino e feminino. É mais grave que a transfobia, e manifesta-se até em militantes LGBT. No novo tempo, estes manifestantes são contra a noção de género e alertam mesmo para o cissexismo que é usar pronomes pessoais e identidades. Finalmente, são a favor da geração de Quimeras, ou seja, animais sem sexo ou oriundos do cruzamento de várias espécies.

 

Não tenham pena de mim. Aprendi, com um cozinheiro brasileiro, como se faz ‘Alho-francês à Braz’. Vou experimentar.

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publicado às 21:03

Onde estão os árabes do petróleo na lista dos mais ricos do mundo?

Por: Márcio Alves Candoso

 

Quando se analisa a lista dos mais ricos, publicada anualmente pela revista norte-americana 'Forbes', fica-se com um amargo de boca. Ou uma dúvida, pronto. É que descobrir aqueles alegados 'cresos' do petróleo do deserto é como achar agulha em palheiro. Será que os hidrocarbonetos das arábias já não dão para o harém e tabaco, ou há ali qualquer coisa que não bate bem?

A primeira resposta vem logo no regulamento da 'Forbes'. Ditadores, cleptocratas e realezas são exluídos desta lista. Está certo que a revista avisa que muitos dos que são analisados, pela sua equipa de mais de 50 investigadores e jornalistas de todo o mundo, por vezes escondem o que têm, e não é fácil fazê-los sair da toca – ou do off-shore, melhor dito. Mas mesmo assim chega-se lá perto, com muito zelo e trabalho, e usando as regras das democracias regulamentadas.

 

É por isso que os árabes do petróleo não aparecem, ou aparecem muito pouco. É preciso consultar outras publicações sem os mesmos pruridos para ter uma ideia – embora fique a percepção de que, ainda assim, longe da verdade dos factos – de como é que aquela gente passou das tâmaras e das cabras para os carros de ouro e diamantes, os palácios de tipologia T-164 e os aviões que fazem inveja ao chefe dos 'yankees'.

 

Voltando à 'Forbes', o primeiro árabe que aparece listado é o príncipe Alwaleed ben Talal Alsaud, que ocupa a 41ª posição do 'ranking', com uma fortuna calculada de 18,5 mil milhões de dólares (*). É dono da cadeia de hotéis 'Four Seasons', tem uma fatia maioritária no Twitter e no Citigroup, e possui investimentos em dezenas de empresas, que concentra na sociedade de participações sociais que dá pelo nome de 'Kingdom Holding, Co.' Kingdom.... está bem.

 

Para encontrar petróleo nas arábias da 'Forbes' é preciso descer até à posição 138, onde encontramos Mohamed Al Amoudi, que empochou até à data 8,3 mil milhões de dólares. Filho de mãe etíope e de pai saudita, este senhor tem qualquer coisa de ouro negro, mas onde ganha razoavelmente bem a vida é na construção e a vender café ao 'Starbucks' e chá à estimada casa 'Lipton'.

 

Em 270º aparece Majid Al Futtaim, dos Emiratos Árabes Unidos, que amealhou os seus escrutinados 5 mil milhões de dólares a vender casas e inaugurando cadeias de retalho comercial. É parente de Abdul Al Futtaim, que vende automóveis e detém os 'franchises' do IKEA, Toys 'R' Us e Marks & Spencer nos emiratos. Tem uma fortuna uma nadita menor. Petróleo, nem vê-lo!

 

As actividades dos mais ricos entre os 'alibabás' mais reconhecíveis e acessíveis pelos critérios da 'Forbes' são diversificadas. Na posição 477 da famosa lista, 100 milhões de dólares abaixo no 'nosso' mais abastado – o empresário Américo Amorim – lá está Mohamed bem Saud Al Kabbeer, que fez fortuna com vacas e ovelhas leiteiras.

 

E chega. Não há mais. Consultando, no entando, o site 'business.com', da revista 'Business Weekly', encontram-se mais alguns árabes. Bader Al Kharafi, do Koweit, juntou 8,5 mil milhões de dólares, e está de vento em popa no negócio das energias renováveis. Issan Al Zahid tem 11,6 mil milhões basicamente ganhos com a construção e obras públicas. Quer encontrar pessoas que enriqueceram à custa do petróleo? Vá à Rússia. É o que há, consultando a 'Forbes' e quejandas...

 

A lista dá-nos ainda outras dicas interessantes. Os três catraios mais ricos do mundo são todos noruegueses. E porquê? Porque os pais lhes passaram para as mãos, mal fizeram 18 anos, uma boa parte da fortuna. A mais nova é Alexandra Andresen, cujo conto de fadas inclui ser titular de 42% da forttuna de família, iniciada há mais de cem anos. Tem 19 anos, e a sua irmã mais velha Katherine tem outro tanto – 1,2 mil milhões cada. Entretanto, Alexandra dedica-se essencialmente a ser campeã junior de 'dressage' lá nos fiordes.

 

O restante é Gustav Magnar Witzoe, um rapaz de 22 anos que detém 47% da empresa dos pais, que é campeã do mundo de aquacultura – 'fish farming' no original. Arrecadou por essa via, até à data, 1,1 'bi'. Mas é empreendedor. Com o 'paitrocínio' já se dedica a investimentos imobiliários e iniciou um negócio de tecnologias. Tal como as suas compatriotas, é solteiro...

 

Casada é Tatiana Santo Domingo, a herdeira – juntamente com os irmãos – da fortuna das cervejas 'Bavaria'. Aos 32 anos, a nova princesa do Mónaco – desposou Pierre Casiraghi, filho de Carolina Kelly Grimaldi – tem de dote 2,4 mil milhões de dólares. O herdeiro da WalMart, Lukas Walton, está também entre os jovens ricaços, bem como o mais conhecido Mark Zuckerberg, o inventor do Facebook. Diga-se que, ontem, o dia correu-lhe mal, já que perdeu em bolsa 425 milhões de dólares. Mas isso não abalou muito a sua fortuna de 44,6 mil milhões, que faz dele, aos 31 anos, o 6º mais rico do mundo!

 

Aliás, nos lugares de topo da lista, abundam os jovens, ou menos jovens, que fizeram fortuna nas novas tecnologias e nas indústrias da informação. Se Bill Gates, o principal accionista e pioneiro da Microsoft, continua a liderar a lista – 16 vezes campeão nos mais recentes 21 anos -, Jeff Bezos, da Amazon, vai em 5º no pelotão, enquanto o dono da Oracle, Larry Ellison ocupa o 7º posto, Larry Page e Sergey Bin (Google) estão respectivamente em 12º e 13º lugares, Michael Dell – empresa com o seu apelido – segue em 35º e a viúva de Steve Jobs, apesar das muitas obras de caridade, ainda tem 16,7 mil milhões, ocupando a 44ª posição; e até subiu no ano passado.

 

Quem está a ficar mais rico são as mulheres. Na lista agora divulgada, assistiu-se a um recorde de 197 de senhoras e meninas nomeadas. E se bem que as heranças familiares ou por viuvez continuem a ser as formas mais típicas de as mulhres enriquecerem, já se vão vendo 'self-made women'. As duas mais ricas, neste quadro, são chinesas, e a liderança pertence a Zou Qunfei, que já ganhou 5,7 mil milhões no imobiliário e etc. Um pouco atrás vai Chan Laiwa, que fez uma fortuna semelhante.

 

Para encontrar uma europeia que subiu às suas próprias custas temos de recuar até à posição 403 do 'ranking', onde está Denise Coates (48 anos, 3,8 'bi'), que ganhou a vida nas apostas 'on-line', através da sua empresa 'Bet365.com'. Ainda estudante, costumava processar dados na loja do pai, que também já se dedicava ao mesmo comércio. Entre apostas, ainda teve tempo para cinco filhos.

 

A mulher mais jovem a ter feito fortuna sem pai ou marido atrás é Elisabeth Holmes, que aos 32 anos tem 3,6 mil milhões, ocupando o lugar 435 da lista 'Forbes'. Inventou umas fantásticas análises ao sangue, que têm estado sob investigação da FDA norte-americana. Mas até à data, não se passa nada.

 

Para o ano há mais. O mundo, entretanto, pula e avança, e eles sabem que o sonho é uma constante da vida. Em 2015, foi batido o recorde do número de 'bilionários' da 'Forbes', ou seja, de pessoas que 'valem' um mínimo de 1000 milhões de dólares. São 1826, e ainda faltam, como se notou mais acima, tudo quanto é ditador, ladrão e rei. No capítulo das novas entradas, os chineses são campeões, com 71 novos ricaços.

 

No total, a lista atinge a soma investigada, conhecida e provada de 7,05 biliões de dólares ('trilions', segundo a gramática anglo-saxónica), mais 600 mil milhões que no ano anterior; ou seja, cerca de 3,5 vezes o PIB português num só ano. E andamos nós preocupados com crescimentos anémicos da nossa economia...

 

(*) o dólar dos Estados Unidos valia, no fecho de ontem, 0,909 euros.

publicado às 09:19

Gilberto, o homem que não pensa mas existe

Por: Márcio Alves Candoso

 

É taxista há quase 40 anos, e viveu a democracia quase toda agarrado ao volante de uma vida que não escolheu. É boa pessoa, acho. Não sabe onde vota. Perdeu o cartão, mesmo que já não haja, e ele não saiba que já não é preciso. Se não votar, não saberá nunca o que perdeu por isso. Se é que perdeu. Ninguém lhe passa cartão e ele responde mudo, do mesmo modo.

 

Gilberto mudou de concelho. Era o três mil e tal de Oeiras, agora não sabe que número lhe ferraram em Sintra. Sabe a matrícula do carro, e que tem de mudar o óleo aos 800 mil quilómetros, que aquilo já não é novo. Uma vez foi a Espanha, levou-o um tio. Viveu na raia, na serra, antes de vir para Lisboa, aos 14 anos. É um bocado gordo e corado. Tem cerca de meio século, e nunca foi a Lisboa, sítio onde vive há quase quarenta anos. Nunca viu, nem percebeu, onde estava. Se lhe doeu, já não se lembra.

 

Nem sequer emigrou. Não sabia a que horas era o comboio. Não sabia que havia um comboio que atravessa a fronteira, que, na que ele sempre conheceu - e que um dia o levou a Espanha -, não passa nenhum comboio, só um ribeiro que é 'Tajo' de um lado, sendo Tejo na leira que o escolheu para criança.

 

Gilberto não pensa, mas existe. E é casado com a Luzia, embora passe mais tempo com o taxímetro. O mesmo não se pode dizer de Catarina. Ou de António, Pedro e Paulo. Ou de Jerónimo. Estes pensam. Mas é difícil dizer se existem.

 

O povo saiu à rua e a rua ficou vazia. É quase sempre assim quando se vota. Não se nota a diferença entre o antes e o depois. Como é normal em democracia, aconteça o que acontecer amanhã, os transportes vão rodar, os bancos vão penhorar, o Chico da Mouraria vai continuar a cantar, e até a Rosa Maria, da Rua do Capelão, parece que tem virtude. Pelo menos relativa, quando cotejada com um sujeito que é lingrinhas, sentado à secretária da casa da Mariquinhas.

 

Será que chega? A fome, dizia um reitor da Universidade do meu tempo, enquanto palitava os dentes e sorria com as obturações e as pontes, depende da vontade de comer. E não é que o homem tinha razão? Os insaciados têm sempre duas faces, dois modos de ser advérbio. Normalmente são esfomeados. Mas aparentemente são gulosos. Depende de quem arrota por perto. É normal em democracia. É a abóbora da vida.

 

Portanto, e salvo erro ou omissão de Belém, amanhã temos o País estrugido num molho de bróculos. É quase normal em democracia, sendo que é pior se for ditadura. Raio de gente originalmente pecadora que, em mais de quatro mil anos de história humana, ainda não inventou alternativa de cima!

 

O resto, é o do costume. No PS afiam-se as facas longas, no CDS é-se do PSD e no PSD estabelecem-se primazias. No PCP celebra-se a vitória, mais uma das tantas que já conheci, mas quase nunca senti, em quarenta anos de democracia. E a Catarina tem olhos verdes, e basta ela.

 

Os filhos do Gilberto e da Luzia vivem à beira da porta das 'Partidas', num terminal de aeroporto que fica ao Norte de Lisboa. Sem saídas. Vão na fila do meio milhão que não esperou por eles. E os quase meio milhão de bandidos que, de forma corajosa, irresponsável - e tão lúcida que mete medo -, não têm deputado, e que esperam um dia sentar-se à mesa do fim da fome representativa, lá onde há um método de Hondt que faz de conta que eles não amam.

 

E os abstencionistas de Bragança, de Vila Real, de Viana, de Beja ou do ó da Guarda, e de todos os distritos que não há forma de serem nada. Ou são por um ou pelo outro, que é o mesmo de antes com outros contornos, mas calçado nos mesmos coturnos. Condenados à igualdade, são os inferiores do reino.

 

E os desempregados que duram para lá do subsídio, e que estagiam no pão duro de uma entrevista sem forma, a três euros e mais não digo. São tão estafermos, tão indignos, que até são menos do que realmente são.

 

Lá vamos. Rindo com o PS de esquerda, de costas para qualquer margem. Cantando com a social-democracia, de passos que já não voltam. Dançando com a agri-mentira deportados de reforma. Escutando os amanhãs que não sobram, de Jerónimo e os seus apaches. E ainda assim Catarina, menos caviar e champanhe, mas mais 'presunta' e mais 'tinta', teatralmente conseguida.

 

Quando chega ao fim da rua, um dia de fim de vida, o Gilberto desliga o taxímetro. São nove euros e mais uma corrida. Sobram-lhe uns trocos.

 

Valentes e imortais.

  

publicado às 00:28

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