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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Demagogia é…

Por: Pedro Rolo Duarte

Quando era adolescente, havia nos jornais (e nos pacotes de açúcar?) uns casais de bonecos com um ar vagamente pateta que acompanhavam frases - igualmente tolas, na maioria dos casos - sob o genérico “Amor é…”.

 

Nas últimas semanas lembrei-me deste casalinho, mas por motivos um pouco mais sérios. Por exemplo, a polémica a respeito das novas taxas de IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis), que levou, no limite, a líder centrista Assunção Cristas a afirmar, no Facebook, que “O sol já paga imposto! Parece inacreditável, mas é mesmo verdade: as casas com boas vistas ou exposição solar, independente da localização ou do rendimento do proprietário, passam a ter o IMI agravado”. A ignorância da deputada já vinha a queimar mato nas redes sociais, com todo o estilo de gozos, críticas, e um coro indignado e revoltado.

 

Pois bem…

 

Demagogia é… vir dizer que “O Sol Já paga imposto”, quando a lei que agora se discute é de 2007 (por acaso também de um governo socialista, o de José Sócrates…), tem 13 itens sobre “qualidade e conforto”, e a única novidade que o actual governo introduziu foi reajustar (bem ou mal, é outra discussão…) as taxas, aumentando nuns casos, diminuindo noutros…

 

Demagogia é… virem os proprietários que vendem e arrendam casas por valores que variam conforme a exposição solar ou a vista, a varanda ou a localização, indignarem-se agora com um imposto que avalia os imóveis da mesma forma que eles próprios os avaliam. Para os donos, o preço pode subir porque os seus apartamentos têm vista - para serem taxados, não gostam da ideia. Dois pesos, duas medidas.

 

Mas há mais: é que nestas semanas também se tem falado muito das viagens a França, por ocasião do Euro 2016, que a GALP pagou a alguns membros do Governo, e que pôs meio mundo a exigir a demissão dos “beneficiados”. Sem dúvidas o afirmo: no lugar do Secretário de Estado Rocha Andrade, que é politicamente responsável por um conflito de milhões que a petrolífera deverá ao fisco, nem hesitava na demissão. Mas já sabemos que na política nem todos seguem o mesmo código de conduta ético e moral…

 

De qualquer forma…

 

Demagogia é… Fazer deste caso uma bandeira da moral e dos bons costumes, quando quase todos os jornalistas, directores de jornais, administradores, editores, em lugares relacionados com as empresas que têm orçamentos para estes convites, ou que são anunciantes dos meios, passam a vida nos camarotes dos estádios de futebol em jogos cujos bilhetes não são “low cost”, em viagens pagas a todos os cantos do mundo, nas zonas VIP dos Festivais de Verão, em almoços e “eventos” recheados com presentes de toda a espécie.

 

Demagogia é… Os mesmos políticos que pedem agora cabeças a rolar no Governo, terem, no passado, quando governavam, aceitado o mesmo tipo de convites, viajado a expensas de empresas e grupos de empresários. Muitos deles, agora em companhias privadas (com quem antes se relacionaram enquanto governantes), continuam a sentar-se nos camarotes reservados.

 

E sem querer dramatizar o que é, em si, um drama maior, demagogia também é associar a calamidade dos incêndios a um Governo ou a um ministro. Ninguém, no seu perfeito juízo, quer ver Portugal a arder. O tema não devia servir de arma de arremesso político. Além de demagógico, é infeliz. O momento é de unir, não de dividir.

 

A carinha apatetada dos bonecos do “Amor é…” é a mesma que qualquer um de nós pode fazer perante estes “escândalos”, e este drama maior. Ainda que, como no amor, por detrás destas aparentes patetices, estejam assuntos muito sérios que ajudam a explicar o verdadeiro estado da Nação.

 

Talvez possa rematar assim: “Demagogia é… amar o próximo quando é conveniente. E dizer que nunca se amou quando a conveniência se torna muito inconveniente”.

 

 

Para ouvir esta semana…

 

E talvez ler também: aqui pode saber tudo o que há para saber sobre a morte, aos 81 anos, de Marianne Ihlen, a mulher que inspirou canções de Leonard Choen como a clássica "So Long, Marianne”. As canções, os links, os testemunhos, um excelente trabalho de rádio com extensão digital…

 

A “Mojo” é talvez a mais interessante revista sobre música pop/rock que se publica na Europa - por ser simultaneamente actual sem esquecer o passado. Isto, se ainda considerarmos que o Reino Unido pertence à Europa…

 

“Brexists” à parte, a “Mojo” está viva e recomenda-se, no meio do pandemónio de falências e insolvências que assola o mundo dos media. Neste mês de Agosto, está à venda a sexta edição de uma das suas marcas laterais: a “Mojo’60", uma revista trimestral sobre a música dos anos 60. A capa desta edição é dedicada a Jimi Hendrix, do Verão de 1966 até ao final de 1967. Uma revista nostálgica, mas cheia de boa música…

 

As eleições nos EUA também chegam à música - a revista Rolling Stone revela esta semana um video com uma versão de "Born in the USA”, de Bruce Springsteen, interpretada pelos Arcade Fire em Ontário, no WayHome Festival. Ainda que seja no Canadá, a revista interpreta o facto como um sinal de oposição à eleição de Donald Trump. Seja ou não, vale a pena ouvir…

 

 

publicado às 10:10

Algumas coisas (que talvez não saiba) sobre David Bowie

Por: Pedro Fonseca

 

 

David Bowie morreu e recebeu vários tributos dirigidos à sua vida artística. No entanto, o seu impacto no mundo da tecnologia passou despercebido, embora tenha sido uma figura importante na antecipação de tendências. A influência de Bowie no mercado online e da tecnologia foi discreta mas marcante.

 

Em 1994, lançou o CD-ROM "Jump", que permitia editar o vídeo da música "Jump, They Say" e ver entrevistas com o autor mas também integrava alguns segredos a descobrir nas suas diversas versões.

 

Bowie foi o primeiro artista proeminente a lançar um single exclusivamente em "download", em Setembro de 1996. "Telling Lies" demorava então mais de 11 minutos a ser transferido através das ligações "dial-up" que permitiam aceder à Internet. Mesmo assim, mais de 375 mil fãs fizeram "downloads" de músicas a partir do seu site.

 

Em 1997, fez um falhado "cybercast" a partir de um concerto em Boston (EUA), com os inevitáveis erros devidos à então falta de largura de banda. Daí nasceu, em Setembro de 1998, a BowieNet. Esta surgiu ainda antes do sucesso do Napster e era um fornecedor de acesso à Internet (ISP ou "Internet service provider"), através da empresa UltraStar, que ele co-fundou. Recomendava a ligação por modems a 56 kbps.

 

Como artista, e "se eu tivesse 19 anos de novo", disse no Verão de 1998, "iria directamente para a Internet".

A BowieNet funcionou até 2012 e oferecia a cada utilizador 20MB gratuitos para a criação de uma "homepage", bem como acesso a conteúdos exclusivos do artista e a "Web chats" com ele ou outros artistas (modelo seguido depois pelo MySpace), por 19,95 dólares mensais nos EUA e, mais tarde, no Reino Unido, antevendo um lançamento mundial para 2000. Dava igualmente endereços de email (@david-bowie.com ou @davidbowie.co.uk), acesso a uma rádio online gerida por Bowie e a um mundo virtual em 3D, BowieWorld, com avatars - isto antes de se falar do Second Life ou de mundos virtuais semelhantes e posteriores.

 

Entre as várias ofertas inovadoras da BowieNet, constava o acesso a uma videocâmara a transmitir imagens a 360º do seu estúdio, quando Bowie estivesse a trabalhar.

 

A UltraStar chegou a ser valorizada em 818 milhões de dólares e a obter capital da empresa promotora de concertos SFX Entertainment em Dezembro de 1999, mas a BowieNet acabou a 15 de Março de 2012 com uma mensagem no Facebook: “Whatever the truth, the old Bowienet, as we have known it, is kaput!”.

 

Em 1999, Bowie trabalhou com o estúdio francês Quantic Dream no jogo "Omikron: The Nomad Soul", não apenas na música mas também aparecendo no jogo.

 

A 24 de Maio desse ano, registou a primeira "cibercanção", com as letras de "What's Really Happening" a obterem contributos de 80 mil pessoas online.

 

Em Setembro de 1999, foi o primeiro artista numa grande editora a vender um disco online, deixando o valor ser decidido pelas lojas online e antes do lançamento do disco em CD. O álbum foi lançado nos formatos Liquid Audio e Windows Media, mas não em MP3.

 

Em 2000 - e três anos depois da experiência com as Bowie Bonds, que permitiram ganhar 55 milhões de dólares nos "royalties" sobre as suas canções -, envolveu-se novamente no sector financeiro com o banco online BowieBanc, lançando o seu próprio cartão de crédito (e correspondente subscrição gratuita à BowieNet), suportado nas operações do USABancShares.com.

 

Além de ser um influenciador da ficção científica, Bowie sempre foi "fascinado pelas inovações", dos sintetizadores usados pelo seu amigo e artista Brian Eno à aplicação informática Verbasizer, que ajudou a desenvolver.

 

Numa entrevista em Fevereiro de 1974, com William S. Burroughs, Bowie nota como gostaria de lançar uma estação de televisão e antecipa a programação a pedido. Antes dos hologramas, haveria primeiro a generalização das videocassetes: "não se consegue [gravar em vídeo] suficiente bom material da televisão. Eu quero ter a minha própria escolha de programas".

 

Ele percebeu como a Internet podia ser "subversiva e possivelmente rebelde e caótica e niilista", antecipando a ligação mais directa entre o artista e a sua audiência. "Tem a ver com a comunidade. tem a ver cada vez mais e mais com a audiência", dizia.

 

Em entrevista ao New York Times, em 2002 "e três anos antes da Apple lançar o iTunes", apontava o fim dos álbuns e a afirmação da tecnologia MP3. "Estou totalmente confiante de que os direitos autorais, por exemplo, não vão existir daqui a 10 anos" e que "a música por si vai ser como a água ou a electricidade".

 

No entanto, quando em Abril de 2001 lançou a rádio online BowieRadio, não permitiu a cópia ou a partilha de músicas, optando apenas pelo modelo de "streaming" - o modelo das rádios convencionais. Já em Janeiro de 2013, colocou online e discretamente um vídeo da música "Where Are They Now", antecipando o lançamento do primeiro novo álbum em quase uma década. A "anti-promoção digital" teve sucesso, com os "sites" noticiosos e os media sociais a divulgarem a novidade.

 

Aliás, no lado dos direitos de autor, Bowie protagonizou uma das primeiras experiências no ramo do direito de autor espacial.

 

Em 2012, enquanto estava na Estação Espacial Internacional (EEI), o astronauta canadiano Chris Hadfield gravou a famosa canção "Space Oddity" de Bowie, tendo negociado com o autor os direitos, bem como com a NASA e as agências espaciais canadiana e russa. A licença para o vídeo estar online era de um ano, mas ele continua disponível. O vídeo conseguiu mais de 27 milhões de visualizações desde então e tem um novo aviso, de que "não pode ser reproduzido e é licenciado apenas para uso musical online".

 

Independentemente do local onde o vídeo foi registado, quando a EEI tem vários módulos da responsabilidade de diferentes nações, as leis de cada país sobre o direito de autor teriam de prevalecer, além de que o local onde o vídeo fosse visto - Portugal, por exemplo -, também teria implicações por estar a ser transmitido sem pagamento de direitos às entidades gestoras do direito de autor - apesar de a gravação ter sido feita no espaço e de Bowie a ter autorizado.

 

Mais de 40 anos depois, é extraordinário que uma canção sobre o homem na Lua possa ser cantada no espaço e transmitida para a Terra. E essa canção é de David Bowie.

publicado às 16:35

Ziggy Stardust voltou para as estrelas da Galáxia

Por: José Couto Nogueira

 

No filme de Nicolas Roeg de 1976, “O homem que caiu na terra”, David Bowie faz o papel de um alienígena que vem do seu planeta distante, Anthea, à procura de água.

 

Bowie participou em muitos filmes de ficção (fora os incontáveis documentários sobre as suas personas), mas há três que retratam particularmente a sua personalidade extraordinária. Além de “O Homem que caiu na Terra”, são memoráveis “Merry Christmas, Mr. Lawrence” (Nagisa Oshima, 1983) e “Just a gigolô”, dirigido pelo grande actor David Hemmings em 1978, e que marca a última aparição de Marlene Dietrich.

 

Só por estes filmes, o homem que nasceu David Robert Jones poderia ser sempre lembrado. Mas o cinema era apenas uma das facetas do artista que muitos consideram como o mais criativo e representativo da música do século XX. Também fez teatro; a apresentação a solo na Broadway, na dificílima peça “O Homem elefante”, deixou uma impressão inesquecível.

 

Aliás, a teatralidade era a marca de Bowie, pois durante a sua longa carreira musical, começada em 1969 com o álbum “Space Oditty”, viveu uma sucessão de personagens, umas esfuziantes e outras depressivas – hermafrodita, gentleman, ou ainda com aparente negligência – tudo estudadíssimo, claro. Iman, sua mulher desde 1992, contou uma vez: “Apaixonei-me por David Jones, não por David Bowie. Bowie é apenas uma personagem. Cantor, entertainer. David Jones é o homem que eu conheço.”

 

Só ela conhecerá esse Jones. Talvez Angie, a sua primeira mulher (e mãe do realizador Duncan Jones) também o tenha conhecido. Para o mundo, as personagens sucediam-se e cada uma significava uma nova fase, não apenas estética, mas sobretudo psicológica e musical.

 

Há duas qualidades de Bowie que são menos conhecidas pelo público que simplesmente aprecia o som. Era um experimentador, um visionário. Por baixo do rock’n’roll dançável de que todos gostavam, há aventuras musicais únicas, experiências com novos instrumentos, novos sons, incontáveis influências ou apropriações de musicalidades orientais, africanas, alternativas.

 

Depois, Bowie andava sempre à procura de músicos talentosos, famosos ou desconhecidos, que lhe pudessem trazer outras possibilidades. No seu último álbum e testamento, “Blackstar”, lançado na semana passada, participam músicos de jazz completamente desconhecidos fora dos círculos do East Village.

 

Como grande artista seguro de si, Bowie não tinha receio do talento dos outros. Até os ajudava, como fez com Iggy Pop. O cantor dos “Stooges”, uma banda proto-punk da década de 60, estava internado num asilo, ao fim de anos de drogas e violência auto-infligida. Bowie foi buscá-lo, responsabilizou-se por ele, organizou-lhe uma tournée de relançamento em que se limitou a acompanhá-lo ao piano, e produziu-lhe o primeiro disco a solo – “The Idiot”, um grande sucesso.

 

A sua carreira, com 25 álbuns de estúdio e centenas de apresentações, inclui tantos sucessos que é impossível enumerar mesmo aqueles que toda a gente conhece. Músicas e letras que serão sempre de culto, como “Starman”, Space Odity”,"Let's Dance", "Heroes", "Under Pressure", "Rebel, Rebel", "Life on Mars", "Suffragette City", ou “All the Young Dudes”. Esta última foi feita para ajudar Ian Hunter a relançar o grupo “Mott the Hoople”.

 

O seu talento foi reconhecido fora do rock’n’roll, e no auge da carreira até teve capa na agora desaparecida, e na época muito conservadora, revista “Time”. Em 2013 o Victoria & Albert Museum dedicou-lhe uma exposição com 300 objectos relacionados com a sua obra: modelos, desenhos (sim, ele também pintava!), rascunhos, posters, objectos. Há um documentário sobre a mostra, "David Bowie Is", partes do qual podem ser encontradas no Youtube.

 

No ano passado, Bowie comemorou meio século de carreira com "Nothing Has Changed", uma antologia que mostrava precisamente o contrário: estava sempre a mudar, e para melhor.

 

Uma pergunta que muita gente faz é de onde vem o nome Bowie. Escolheu-o porque já havia outro músico Jones (dos Monkees), que aliás é um dos mais comuns na Grã Bretanha e portanto impróprio para um ser vindo do espaço; parece que vem da famosa faca Bowie, que por acaso tem dois gumes – uma alusão ao suposto bissexualismo de Bowie, que não terá mais do que um adereço teatral... Ele mesmo disse que a íris mais dilatada do olho direito vem de um golpe que terá recebido com uma bowie, mas vá lá saber-se!

 

Quando lançou "Blackstar", Bowie já sabia que o cancro de que sofria há ano e meio ia matá-lo em breve. Daí que a poesia seja tão depressiva e, ao mesmo tempo, tão futurista. Também preparou uma espécie de ópera, "Lazarus", de que há um inquietante clipe de quatro minutos em que aparece com os olhos vendados, levitando na cama de um hospital psiquiátrico.

 

É o testamento de uma estrela que levou a felicidade a milhões de pessoas, ao mesmo tempo que apresentava questões mais profundas sobre o nosso destino. Uma estrela que continuará a brilhar, para sempre.

  

(PS - Tivemos a estupefacção de o conhecer em Londres, numa festa da Absolut na Pharmacy. Falamos de banalidades – o que se pode dizer a uma pessoa da craveira de Bowie que ele não tenha ouvido? Era baixinho – sim, baixinho! – e nada arrogante, com a simplicidade de uma pessoa comum. Um autêntico guru, segundo a definição de Henry Miller: “Os verdadeiros sábios são aqueles que preferem ouvir em vez de falar”)

 

 

 

 

 

 

publicado às 17:43

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