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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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O dia em que a Turquia sonhou e a França chorou

Por: Márcio Alves Candoso

 

O jornalismo é uma actividade perigosa. Porque se pode ser preso ou atingido num país que não preza a liberdade de expressão ou ser apanhado pelas balas numa frente de guerra? Também. Mas há outro perigo, muito mais presente, embora felizmente bem menos grave. Chama-se realidade e, na semana que passou, a Turquia e a França lembraram-nos do que isso significa.

 

 

Sexta-feira, final da tarde. Nas redacções ultimam-se os preparativos de fecho de jornais. Nas rádios e televisões confirmam-se os convidados e o alinhamento noticioso é, em todo o lado, aquele que é óbvio. Atentados em Nice matam dezenas de pessoas e ferem centenas. Mais uma vez a França de luto e o terrorismo a bater à porta.

 

Sexta-feira, princípio da noite. Um grupo não identificado de militares anuncia um golpe de Estado na Turquia. Um comunicado lido pelas forças revoltosas na televisão pública, acusa o presidente Recyp Erdogan de perverter a democracia e de inverter o - velho de quase cem anos - secularismo da lei e do poder público.

 

Alguns jornais já não vão a tempo de mudar as primeiras páginas. Resta o on-line que todos praticam há vários anos. As televisões têm mais sorte. Os convidados são, quase todos, peritos em ambos os assuntos. Terrorismo e Turquia, temas parecidos. É só dar a volta ao texto - primeiro a Turquia, porque está a acontecer, e logo depois Nice, com os corpos e os choros ainda bem quentes na rua.

 

Ana Santiago e Ricardo Nunes foram apanhados numa quase lua-de-mel em Istambul - de facto, foram assistir a um casamento de amigos locais que já não vai realizar-se, pelo menos na data aprazada. Desde sexta-feira à noite mudaram um bocado de vida. Metidos num bairro ’fancy’ da zona asiática da cidade, vão dando conta dos tiros que ouvem e dos helicópteros que os sobrevoam. Os amigos, nas redes sociais, vão-lhes pedindo que contem ao mundo o que mundo quer saber mas desconhece. O que é que se passa?

 

Ricardo desdobra-se a falar para as televisões e jornais. Ana conhece bem umas boas dúzias de jornalistas, já que trabalha há anos na área da comunicação - agora na ‘Start Up Lisboa’, uma incubadora de empresas. Dizem o que vêem e sobretudo o que os amigos turcos, em casa de quem estão hospedados, lhes contam. Estes, ocidentalizados, muçulmanos pouco ou nada praticantes, têm receio. "Os meus amigos turcos estão em choque, ninguém esperava isto. Não gostam do governo, mas também não confiam nos outros. Eles nem sabem quem são os outros", desabafou Ana Santiago, horas depois de iniciado o golpe.

 

Estou no topo do bairro de Bebek, um bairro calmo e residencial, numa casa de ré-do-chão com terraço onde fumo desalmadamente e sempre que passa um avião, que julgo militar, a casa estremece, é um barulho ensurdecedor e fugimos para dentro

 

Do lado de cá, já se fala em cravos e em revolução. "Que sorte que tens, estás a viver um 25 de Abril", exclama um amigo. Ana nem idade tem para se lembrar desse dia. "Estou no topo do bairro de Bebek, um bairro calmo e residencial, numa casa de ré-do-chão com terraço onde fumo desalmadamente e sempre que passa um avião, que julgo militar, a casa estremece, é um barulho ensurdecedor e fugimos para dentro. Na rua ouvem-se buzinas, que vêm de longe e orações/preces/exortações das mesquitas", escreveu no FaceBook pouco depois. Deitaram-se por volta das seis da manhã…

 

Mais do que um contra-golpe de grande eficácia, é agora seguro que, para além de algumas traições de última hora, quem parou os rebeldes foram os imãs das mesquitas e os líderes dos partidos tradicionalistas - Erdogan está longe de ser o chefe dos radicais islâmicos no país. O golpe final veio das potências ocidentais e da Rússia. Quer Barack Obama quer Vladimir Putin sustentaram que salvar a democracia na Turquia era apoiar o governo estabelecido contra os revoltosos. Quanto à parte do Exército e da Força Aérea que se sublevou, é evidente que deixou de lutar quando viu milhares de pessoas a barrar os carros de combate e a rodear os soldados de infantaria. O ’25 de Abril’ acabava ali. O povo não apoiou nenhum Salgueiro Maia, antes marchou contra ele. Se é que havia um Salgueiro Maia…

 

"Os secularistas são ainda muitos, vê-se na rua. Mas poucos em força, acho que pouco afeiçoados à política e à luta", refere Ana Santiago em declarações ao SAPO24. "Essa é a mágoa deles, sentem que falharam", sustenta a portuguesa. Durante a tarde, passeando pelas ruas calmas da parte europeia de Istambul, "parece algo entre a Avenida de Roma e o Parque das Nações, gente a passear, carros de bebés… não há mais polícia do que é costume", revela-nos.

 

É uma sensação estranha, ver na mesma praça pessoas a rezar depois do chamamento das mesquitas e outras ao lado a passear, a fumar, a comer, sem ligarem nenhuma

 

Na velha cidade, ali mesmo no centro histórico asiático, ao lado da torre de Gálata, Ana e Ricardo vêem estranhas confluências de culturas. "Mulheres de mini-saia e lenço na cabeça, dizem-me que é de propósito, uma espécie de ‘statement’ (afirmação)", conta Ana Santiago. "E uma de preto, cabeça coberta, a fumar", aduz a mesma fonte. "É uma sensação estranha, ver na mesma praça pessoas a rezar depois do chamamento das mesquitas e outras ao lado a passear, a fumar, a comer, sem ligarem nenhuma".

 

Mas todo este ‘melting pot’ poderá ter os dias contados. "Ergodan só vai sair mais forte disto tudo porque quem está na rua são apoiantes dele", sustenta Ana. "Os meus amigos não gostam deste presidente, mas também não sabem quem está do outro lado e se podem confiar. Desde o início disto (golpe), nunca os ouvi contentes por estarem a tentar derrubar o presidente", revela. "Acima de tudo estão confusos e com receio do futuro… Temem que a liberdade já não dure muito". "Os meus amigos sentem-se culpados e tristes, por nada terem feito até hoje para combater o que temem. «Eu falhei», diz-me o meu querido S." (nome retirado por razões de segurança). É esta a tristeza de gente normal que Ana traz de Istambul. "Mas não vi burkas", relata.

 

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"Se de agora em diante as mulheres não tomarem parte da vida social da nação, jamais conseguiremos atingir o nosso desenvolvimento completo. Permaneceremos irremediavelmente atrasados, incapazes de sermos tratados de igual para igual pelas civilizações do Ocidente". Palavras do ‘pai da Pátria’, Kamel Ataturk, proferidas em 1927. Há uma foto do próprio, rodeado de mulheres de cabeça descoberta e blusa de botão aberto. Data de 1931.

 

"Democracia, liberdade, primado da lei… para nós, estas palavras já não têm nenhum valor. Quem ficar do nosso lado na luta contra o terrorismo são nossos amigos. Quem ficar do lado contrário são nossos inimigos". Palavras de Recyp Erdogan, proferidas na manhã de sábado, após a vitória sobre o golpe. Os ‘terroristas’ a que se refere são os nacionalistas curdos do PKK. Do Daesh, dizem as más-línguas e algumas imagens dispersas que nunca os hostilizou. Horas antes do discurso, o presidente turco pedia asilo político em Itália e na Alemanha. Diz-se que lhe foi recusado, e que terá tentado o Irão. Ninguém confirma. Mas já de madrugada a sorte da batalha virou. E ele ficou.

 

Na noite de sábado, pouco restava da revolta. Em Ancara, a capital do país, Paulo Pedroso, ex-ministro do Trabalho e da Segurança Social, atarefava-se no aeroporto para arranjar bilhete de volta. Está a trabalhar num projecto da União Europeia em conjunto com a Turquia. O barulho à sua volta impediu-o de atender a primeira chamada. Respondeu à segunda.

 

"Acabo de atravessar Ancara de táxi. Apenas em frente ao Parlamento há vestígios sérios do enfrentamento. A avenida Ataturk está parcialmente cortada em vários sítios. Num dos sentidos os carros circulavam pelo passeio. O túnel perto do Parlamento está obstruído por camionetas do município. Na minha zona residencial todo o dia esteve tudo calmíssimo", assegurou ao SAPO24. "A mercearia do bairro, o barbeiro, tudo estava normal", afirmou.

 

fala-se de militares da região do Sudeste, da fronteira com o Iraque, o Irão, a Síria, o mesmo é dizer aquela em que há combates a sério com os curdos e contacto com o conflito sírio mais próximo

 

Os apoios ao Governo, vindos de largas camadas da população, ainda tinham vestígios à hora tardia em que conversámos. "Assim do género do fim das manifestações, pessoas dispersas pelas ruas, algumas embrulhadas em bandeiras turcas, outras agitando bandeirinhas nacionais", descreveu o ex-governante. Tropa na rua nem vê-la, polícia mais que muita, "mas aqui é sempre assim desde o último atentado", adiantou.

 

Enquanto mais de 2000 juízes - a Turquia é um país grande e populoso… - eram demitidos e presos, e dos cerca de ‘meio milhar’ de soldados oficialmente envolvidos na revolta mais de três mil eram detidos, as especulações sobre a ‘culpa’ da revolta e a culpa do seu fracasso são mais que muitas. Para Paulo Pedroso, para além da versão oficial de envolvimento de Fethulah Gullen – um antigo aliado de Erdogan que se auto-exilou da Turquia – "fala-se de militares da região do Sudeste, da fronteira com o Iraque, o Irão, a Síria, o mesmo é dizer aquela em que há combates a sério com os curdos e contacto com o conflito sírio mais próximo".

 

A mesma fonte dá conta de outra versão, "um golpe militar à egípcia, de militares laicos". O que até faria sentido com a oposição do Egipto, ainda ontem no Conselho de Segurança da ONU, a um voto de confiança no regime de Erdogan. Militares "enganados, que esperavam uma grande mobilização, popular que não ocorreu", é também outra hipótese credível. Mas no fundo está sempre o mesmo problema: "A mobilização através das mesquitas (de oposição à revolta) foi muito intensa", explica Paulo Pedroso.

 

A 2260 quilómetros de Istambul - e mais uns quantos de Ancara -, há flores na rua, na Promenade des Anglais. Um soldado de Alá ou um simples louco - ou uma clara mistura de ambas as doenças – puxou da sua profissão para matar pessoas. Ao volante e aos ziguezagues com um camião de entregas – a sua ocupação definida -, por uma das artérias mais conhecidas do planeta Terra, foi matando os ‘enfants de la patrie’ que encontrava pela frente, alguns mesmo crianças, que comemoravam a dia nacional de França. Por alguma razão desconhecida, todos os tiros disparados pela polícia e que pontificavam o pára-brisas do veículo, estavam do lado errado e tardaram em atingi-lo. No caminho para o paraíso, matou pelo menos 84 cidadãos, e deixou entre a vida e a morte mais de 50. Pelo menos uma das vítimas era uma muçulmana.

 

E prometo que esta será a última citação deste texto. É um comunicado difundido pelo alegado ‘estado islâmico’, alguns dias antes de Mohamed Bouhlel, tunisino com autorização de residência e trabalho em França, ter dado à chave de ignição da camionete da morte. "Se não tiverem engenhos explosivos ou balas para matarem infiéis americanos e infiéis franceses, ou os seus aliados, esmaguem as cabeças deles com pedras, chacinem-nos com uma faca, atirem o vosso carro contra eles, atirem-nos de um sítio qualquer, sufoquem-nos ou envenenem-nos".

 

Bouhlel era um homem que "cuidava dos seus filhos". Palavra de vizinhos.

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publicado às 10:06

Todos diferentes, todos bons rapazes portugueses!

Por: Márcio Alves Candoso

 

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Vamos falar de futebol. Um português nascido no Brasil corta uma jogada perigosa da equipa adversária na sua grande-área. A bola é recolhida por um preto da Musgueira, que avança no terreno até ter a noção do melhor passe. Manda o esférico para um mulato da Amadora, que a mete num menino branco e pobre da Madeira. Este remata à baliza, mas o guarda-redes contrário só tem tempo de a defender para um espaço vazio. Nesse mesmo sítio, surge um cigano e marca golo.

 

A ocorrência é verídica. Aconteceu na semana passada, aos 117 minutos de um jogo que, normalmente, só dura 90, e chegou e sobrou para que a selecção nacional de Portugal derrotasse a perigosa Croácia. Esta é a história de 23 rapazes, entre os 18 anos e os trinta e muitos, que têm em comum vestir a camisola das quinas e a cruz da Federação Portuguesa de Futebol. Falam todos português, ainda que um ou outro o conjugue malzinho. Nas suas origens, está um país pequenino, que andou pelo mundo inteiro, muito coeso na sua diferença. São todos portugueses. A nenhum lhe passará pela cabeça meter uma bomba no Rossio. Agnósticos, ateus ou cristãos, não importa. Um tem antepassados judeus. Todos filhos da cultura lusitana.

 

Há gente de todo o lado. Rui Patrício é de Marrazes (Leiria), e divide a baliza com Anthony Lopes, que nasceu nos arredores de Lyon (França) e Eduardo, um trasmontano de Mirandela. Na defesa, Cédric Soares é o actual lateral direito. Veio da Alemanha, nascido mesmo ao lado da fronteira com a Suíça, mas chegou a Portugal – zona de Lisboa - com apenas dois anos, trazido pelos pais emigrantes. Divide o lugar com Vieirinha, um rapaz de Guimarães. À excepção do guarda-redes titular, que actua no Sporting, jogam todos no estrangeiro.

 

No meio da defesa está um mestiço que fala à Norte. E nem podia ser de outra maneira, já que Bruno Alves nasceu e foi criado na Póvoa de Varzim. É filho da antiga glória local, o brasileiro Washington. Tem estado no banco, dando o lugar a Ricardo Carvalho, o mais velho da selecção, que começou a carreira na sua terra natal – Amarante. Parece ter perdido a titularidade, por sua vez, para José da Fonte, um seu vizinho de Penafiel. Já Pepe – mais exactamente Képler Laveran Lima Ferreira – veio de Alagoas (Brasil) com 18 anos, para tentar a sua sorte no Marítimo. Depois de Deco, foi o segundo brasileiro a envergar a camisola da selecção nacional; mas, ao contrário do ‘mágico’, cedo aprendeu o hino que canta sempre antes do jogo começar.

 

No lado esquerdo da defesa, um açoriano mestiço e um branco nascido em França dividem o lugar. Eliseu nasceu num bairro de Angra do Heroísmo (Terceira), filho de pais cabo-verdianos, e é o primeiro jogador do arquipélago a tornar-se campeão nacional desde que Mário Jorge e Mário Lino o fizeram nas décadas de 50 e 70. Mas, ao contrário dos seus conterrâneos, não veste a camisola do Sporting – é benfiquista desde pequenino. Para encontrar um benfiquista açoriano campeão, é preciso recuar até aos anos 40, altura em que o faialense Joaquim Teixeira envergou a camisola do ’Glorioso’ e da selecção. Açoriano e benfiquista era o Mário Bettencourt Resendes, saudoso campeão de jornalismo; outras ‘guerras’...

 

Raphael Guerreiro – é mesmo assim, com ‘ph’ – nasceu canhoto perto de St.Denis, no nordeste de Paris. Jogar no Stade de France, se Portugal chegar à final, será para ele quase um regresso a casa, depois de ter passado os anos mais recentes na Bretanha e de agora rumar a Dortmund, na Alemanha. O pai emigrante também foi jogador de futebol. Gostava de actuar no Benfica, mas para já ainda não foi possível.

 

No meio-campo, a parte mais defensiva – a chamada ‘posição seis’ - é dividida entre dois rapazes de Sintra. Danilo Pereira veio de Bissau (Guiné) e William Carvalho tem ascendência angolana. Mais à frente aprece Adrien Sébastian Pérrouchet Silva, nascido em Angoulême e criado em Arcos de Valdevez. A 650 quilómetros de distância da terra minhota, nasceu João Moutinho,’marafado’ de Portimão. Já Rafael Silva, mais conhecido por Rafa, é um dos dois únicos lisboetas de gema a actuar na selecção.

 

No Porto, mais concretamente em Pedras Rubras, nasceu João Mário, que havia de tomar o avião para Lisboa para representar o Sporting. É de família angolana - os pais são de Luanda – e tem dois irmãos na alta roda do futebol – o bracarense Wilson Eduardo e o jogador de futsal do Belenenses, Hugo Eduardo. Seu vizinho de nascimento é André Gomes – Grijó, Gaia -, que cedo rumou ao Benfica de agora actua no Valência de Espanha.

 

O puto da selecção é uma obra do bairro da Musgueira, em Lisboa. Mas como tantos dos seus companheiros de infância, nasceu filho de africanos – uma cabo-verdiana e um são tomense. Renato Sanches acaba de ser vendido ao Bayern. Já Ederzinho António Macedo Lopes – cujo diminutivo é Éder – veio da Guiné com tenra idade para a zona centro do país. Distinguiu-se na Académica.

 

Sobram os três ases deste baralho de naipes coloridos. São também os mais conhecidos, neste desporto onde quem vai à frente e marca mais golos é menino querido das multidões. Luís Carlos Almeida da Cunha – mais conhecido por Nani – nasceu na Amadora e começou no Massamá, terra de descendentes africanos e de primeiros-ministros migrantes. Os pais são cabo-verdianos, onde nasceram igualmente os seus irmãos.

 

Já Ricardo Quaresma é mais que uma mistura, é várias. A mãe é uma angolana morena e o pai – de que há pouca memória – é cigano. Nascido e criado em Lisboa, é sobrinho-neto do grande Artur Quaresma, que foi campeão no Belenenses. O ’Harry Potter’ – nome que lhe vem da magia que faz com os dois pés – joga agora na Turquia.

 

Deixei para o fim o menino pobre que fez o passe para o golo no jogo contra a Croácia, e que no desafio com a Hungria tinha já marcado dois, um do tipo ‘mostra lá outra vez, que eu até troquei os olhos’ e outro de cabeça. A ‘primeira exportação da Madeira’ - bate a banana, segundo a mãe dele – está cotado como o melhor jogador do mundo. É também o desportista mais bem pago do planeta, e já bateu quase todos os recordes que há para bater. Hoje tem pela frente o recorde de Platini, o jogador que até hoje marcou mais golos em campeonatos da Europa de futebol. Falta-lhe um para igualar, com dois passa a ser o maior. Chama-se Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro.

 

Vêm de todo o lado. Não têm em comum a raça. Têm a raça portuguesa. E agora venha de lá a Polónia!

 

PS – Já que falamos de pessoas unidas na diferença, aqui fica uma anedota que os polacos contam. Uma vez, durante a II Guerra Mundial, as SS alemãs invadiram uma pequena vila polaca e fizeram refém toda a população. Um jovem conseguiu fugir à vigilância nazi, mas pouco depois tinha as SS no seu encalço. Um dos soldados apontou a arma com intenção de abater o rapaz. Mas do Céu chegou a voz de Deus. ‘- Pára, não podes fazer isso, esse rapaz vai ser Papa!’, falou lá do alto Deus. O soldado tremeu, baixou a arma e perguntou:’ – Senhor, e eu?’.. ‘- Tem calma tu vais a seguir!’…

publicado às 12:42

Brexit? Três contra um em como ficam!

Por: Márcio Alves Candoso

 

Enquanto as sondagens se revelam inconclusivas na definição de um vencedor claro no referendo britânico sobre a continuidade na União Europeia, as casas de apostas britânicas não têm dúvidas. O ‘stay’ vai ganhar.

 

Comecemos pelo ‘rock’. Na célebre música dos anos 80, os ‘Clash’ perguntavam se deviam ficar ou deviam partir. E asseguravam que, se partissem, isso iria trazer problemas; mas se ficassem, eles apareceriam em dobro. Ao indeciso ‘should I stay or should I go’ respondem, quase sem querer, os ‘Jets’. ‘Para que te mostre o que tenho, preciso de saber de que é que necessitas’. E concluem: ‘So put ya money where ya mouth is’. A expressão idiomática inglesa, que serviu de tópico ao único grande êxito comercial desta banda australiana, quer dizer o seguinte: ‘arrisca o teu dinheiro naquilo em que acreditas; faz, em vez de só conversares’.

 

É assim que os ‘Jets’ resolvem a questão lançada na primeira estrofe do tema. Aí, interrogam-se sobre se estão no paraíso ou no inferno. E decidem que é com a crença e com o risco - que se demonstra pelo investimento financeiro, ou seja, a aposta naquilo em que se acredita – que se resolve o dilema.

 

A ideia parece estar a ser seguida pelos britânicos, no que diz respeito às apostas que têm vindo a efectuar nos últimos dias. No Reino Unido tudo serve para apostar, seja o desporto ou a política, passando pelo nome do primeiro filho de William e Kate, qual é a probabilidade de nos encontrarmos com um extra-terrestre ou adivinhar quando será o fim do mundo. Neste último caso, os ‘brokers’ estão indecisos sobre que chances hão-de dar aos apostadores. E isto por uma questão ética - quem quer que ganhasse não seria ressarcido da sua aposta…

 

Mas enquanto as sondagens se revelam inconclusivas na definição de um vencedor claro no referendo britânico sobre a continuidade na União Europeia, as casas de apostas não têm dúvidas. O ‘stay’ (fica) vai ganhar. Na ‘SkyBet’ pagava-se ontem 2,25 libras por cada uma se a aposta fosse ‘leave’ (saír), enquanto com a vitória do ‘stay’ o apostador só ganha quatro em cada 11 moedas que arrisque. Na ‘Paddy Power’, o ‘exiting’ paga seis para um, enquanto o ‘remain’ não vai além de um em cada dez. Entretanto, na sondagem ontem divulgada pelo ’Financial Times’, que faz uma média de todas as mais recentes publicadas, o ‘sim’ à saída ficava ligeiramente acima do ‘não’ – uns 45% contra 44%.

 

 

 

O ‘Daily Telegraph’ sustentava, esta manhã, que o referendo britânico à continuidade na UE – popularmente conhecido por ‘Brexit’ – era já o maior acontecimento das casas de apostas da história do Reino Unido, batendo o anterior recorde da eleição do Presidente dos EUA, em 2012. Só na ‘BetFair’ entraram mais de 60 milhões de libras (cerca de 78 milhões de euros), quando no caso da eleição de Obama esse montante ascendeu a 40 milhões (52 milhões de euros). A casa londrina, como a maior parte das suas concorrentes, está a apostar num 3 contra 1 a favor do ‘fica’, que se traduz em percentagens a rondar os 75/78% de apostas na manutenção da união com a Europa. ‘LadBroker’, ‘William Hall’ – todos os quadros visitados vão no mesmo sentido.

 

A credibilidade das casas de apostas foi reforçada nas eleições legislativas de 2014. Enquanto as sondagens davam uma luta renhida entre os partidos Conservador e Trabalhista, os jogadores não tiveram dúvidas em dar a maioria aos ‘Tories’, numa percentagem de 80% para 20%. E a verdade é que o partido liderado por David Cameron ganhou mesmo com maioria absoluta. Já no referendo para a independência da Escócia ocorreu uma situação idêntica, com os apostadores a acertarem na manutenção da união com a Inglaterra, perante sondagens inconclusivas.

 

Recentemente, assiste-se em Inglaterra e em outros países a estudos académicos que pretendem encontrar a base científica para a razão por que os apostadores são mais certeiros do que os eleitores sondados. Há várias teorias, desde a ascensão de um grupo cada vez mais alargado de pessoas que mentem deliberadamente quando interrogadas sobre a sua preferência política - que seria uma forma de afirmação de rebeldia inorgânica cada vez mais acentuada – até àqueles que, mais prosaicamente, afirmam o tal ditado: ‘put your money where your mouth is’. Como nas séries policiais, ‘follow the money’ parece ser a chave para encontrar o criminoso ou, neste caso, o eleitor verdadeiro. Outra hipótese reconhece que há deficiências técnicas nos métodos de sondagem, nomeadamente naquelas que insistem em apurar a tendência através de chamadas telefónicas para aparelhos fixos, cada vez mais em desuso.

 

Interessante também é verificar qual o montante médio de aposta daqueles que querem ficar com a União e daqueles que querem sair. O ‘stay’ vale 450 libras (585 euros) por cada boletim entregue, enquanto o ‘leave’ se fica pelas 75 (97,5). No entanto – e é aqui que pode estar o pauzinho na engrenagem - algumas casas anunciaram que o número de apostadores na saída era em maior número que os que preferem continuar ligados ao Continente. Na verdade, embora o ‘stay’ tenha mais apoiantes do lado conservador, a verdade é que a classe trabalhadora está em boa parte ligada ao ’leave’.

 

Os analistas têm dificuldades em compreender como é que os líderes de quatro dos cinco maiores partidos – o UKIP de Nigel Farage é a excepção - apoiam o ‘stay’ e, no entanto, as sondagens continuam a ser inconclusivas. Alguns, no entanto, encontram já a resposta.

 

Muitos britânicos acreditam que a imposição de regras por parte da União Europeia, a par da imigração em massa, estão a mudar a face do país e a estragar a velha democracia; isto para além de porem em causa empregos e redes sociais de apoio. Segundo estatísticas hoje divulgadas pela imprensa londrina, mas que o Governo queria guardar até depois do referendo, estima-se que, só no ano passado, a população da Grã-Bretanha tenha crescido em mais 513 mil pessoas, dos quais 335 mil imigrantes directos; cerca de 170 mil dos quais sem trabalho garantido.

 

Já para John Harris, colunista do ‘The Guardian’, a culpa é do neo-liberalismo, que tornou precários muitos dos novos empregos. Uma análise difícil de sustentar, se acreditarmos que nas gerações mais novas – onde a precariedade é mais visível – o voto pelo ’stay’ é mais consistente.

 

Talvez o divórcio entre governados e governantes, a não compreensão dos novos anseios das populações, entaladas entre padrões de vida mais apertados e uma abertura de mercados que lhes trouxe poucos benefícios directos - ao contrário da banca e do mercado financeiro em geral, que perderá bastante com a saída do Reino Unido – os leve a pensar que mais vale a pena sair. Para lá de todo o populismo e agressividade deste processo referendário - que levou até ao praticamente inédito assassinato de uma deputada, a trabalhista pelo ’stay’ Joe Cox -, mais consistente será pensar que quem ataca as nações dificilmente poderá pretender governar povos.

 

Mas o dinheiro poderá falar mais alto. Várias previsões apontam para perdas significativas do produto interno bruto (PIB) britânico com a saída da União Europeia. Já foi isso que impulsionou os escoceses a ficarem unidos à Inglaterra, e poderá ser suficiente para que tudo fique na mesma quando, lá para as quatro da madrugada, os resultados se tornarem mais conclusivos. É que, ao contrário da canção dos ’Clash’, o ‘stay’ não resolve nada; mas o ‘leave' piora tudo.

 

publicado às 17:02

Isabel, Chefe de Estado

Por: Márcio Alves Candoso

 

 

Na mesma semana, o Reino Unido vai estar ocupado com a celebração do 90º aniversário da mais icónica das suas cidadãs - e cidadãos. Elisabeth of Windsor, conhecida entre nós por rainha Isabel II de Inglaterra, bateu no ano passado o recorde de permanência no trono britânico, que pertencia à sua trisavó Vitória. De um pedestal que reconhece apenas como um ‘dever’ e não como uma prerrogativa, que aliás ganhou por mero acaso das contingências histórias, Isabel tem preferido sempre ir de encontro aos cidadãos anónimos, mostrar-se sem ser demasiado conhecida.

 

 

Na tabela de vendas de ‘hardbacks’, capítulo de ‘não-ficção’, o livro que sobressai esta semana no mercado britânico tem um título interrogativo. ‘And the Weak Suffer What They Must?’ Essa é a pergunta de Yannis Varoufakis, autor da obra que lidera a lista dos mais procurados, destronando – talvez pela novidade – uma série de três livros humorísticos que vinham dominando as preferências do público há mais de dois meses. Trata-se, aliás, de uma das duas entradas directas para o ’top ten’, sendo a restante uma dissertação sobre a importância do ‘rock’ dos anos 70, que ocupa agora a oitava posição. Não é claro qual a importância que os britânicos atribuem, nos dias de hoje, à procura de soluções para os pecados que o ex-ministro grego das Finanças insiste em denunciar em mais um livro. ‘Uma batalha titânica pela integridade e identidade europeias, contra o crescente autoritarismo e corrupção, que promovem a desigualdade’ – é esta a sinopse que a ’Amazon’ traça do conteúdo do livro da ‘pop star’ da esquerda europeia. Mas, num país onde se travam razões sobre as vantagens e desvantagens de pertencer à União Europeia, é talvez sintomático o interesse que um heterodoxo como Varoufakis desperta no púbico.

 

Margaret Thatcher, a primeira-ministra conservadora britânica por quem, diz-se, a rainha não morria de amores, acusou-a um dia de votar no Partido Social-Democrata então nascente, após uma divisão dos Trabalhistas que levaram Roy Jenkins e David Owen a criar a nova formação política. Como em todas as - poucas – tentativas de ligar a soberana a alguma facção ou ideologia dos seus súbditos, o Palácio de Buckingham apressou-se a negar a preferência. Mas os biógrafos da casa real – uns autorizados, outros nem por isso – são unânimes em considerar que a rainha sempre pendeu, em toda a sua vida privada, para uma espécie de centro-esquerda europeu. Não é por acaso que se diz que o seu primeiro-ministro favorito - dos doze que já empossou – foi Harold Wilson, do ‘Labour’.

 

Em Portugal, quando se quer falar das peculiaridades da actual Constituição, no que diz respeito aos poderes do Chefe de Estado, costuma dizer-se que ele não é a Rainha de Inglaterra, numa alusão à importância executiva que o monarca britânico tem vindo a perder no último século e meio. Salvo erro, a ideia tornou-se pública pela palavra de Mário Soares, que fazia uma interpretação extensiva das suas funções enquanto Presidente da República, tanto quanto a Constituição revista em 1982 lho permitia.

 

Mas se é verdade que Isabel II tem os seus poderes restringidos pela lei – a monarquia constitucional liberal rege a Inglaterra e as suas possessões -, a sua influência no seu longo reinado não é despicienda. A mais recente intervenção da rainha na política terá sido por ocasião do referendo com intenções independentistas da Escócia. Isabel II terá deixado escapar, numa declaração que os especialistas apelidaram de que ‘mais pública não poderia ter sido’, a frase que não traduzo: ‘Well, I hope people will think very carefully about the future’.

 

Nesses dias de chumbo da política britânica, autores e jornalistas bem próximos do primeiro-ministro, David Cameron, revelaram que ele, normalmente frio e maquiavélico em relação à política quotidiana, terá passado um mau bocado, demonstrando assinalável nível de stress; diz quem dele está próximo, que a sua irritação com a indecisão escocesa levou a mulher a quase não o reconhecer, perdendo cabelo nesse anseio conjugal.

 

O Palácio de Buckingham, como sempre tem feito através da história recente, publicou um comunicado a negar o envolvimento da rainha na questão da independência da Escócia. Fê-lo como deve ser, ou seja, depois de todos os jornais já terem publicado as declarações de Isabel II… Diz quem sabe que a rainha terá dado uma ajuda preciosa ao ‘não’ à independência da parte norte da Grã-Bretanha. Uma guerra que, aliás, algumas das suas antepassadas, com relevo para Maria Stuart e Isabel I, não desdenhariam.

 

Nos rodapés da história, diz-se que terá sido, até hoje, a única rainha a saber mudar um pneu de um carro ou a mudar-lhe o óleo.

 

Se as revistas cor-de-rosa e os ‘yellow papers’ não se cansam de escrutinar a vida mundana, amorosa ou – até - escandalosa da família real britânica, a verdade é que Isabel II tem escapado quase sempre à opinião negativa dos vendedores de papel impresso. E da única vez que ficou na mó-de-baixo, em 63 anos de reinado, apressou-se a acertar o passo – ou não fosse ela uma militante convicta das virtudes militares. Logo após a morte de Diana Spencer, na altura já separada do seu primogénito e presuntivo herdeiro, a rainha terá sido, segundo a opinião pública, demasiado fria e formal, não se prontificando a participar nas homenagens póstumas à ‘princesa do povo’. Em poucas horas percebeu o erro, e juntou-se aos seus, como sempre fez, aliás, desde que na II Guerra, com 18 anos, se pôs ao volante das ambulâncias e dos camiões do Serviço Auxiliar Territorial (ATS). Nos rodapés da história, diz-se que terá sido, até hoje, a única rainha a saber mudar um pneu de um carro ou a mudar-lhe o óleo.

 

A monarquia caiu-lhe nos braços por força de uma abdicação nunca totalmente explicada, mas especulada mais do que muito. A ascendência germânica da família real britânica, por força do casamento da puritana Vitória com Albert de Saxe-Coburgo Gotha, terá levado o presuntivo rei Eduardo VIII, tio de Isabel, a proclamar mais em privado que em público as suas preferências pelo lado alemão entre as duas guerras mundiais. Oficialmente, foi por se casar com uma senhora divorciada que deixou o trono londrino; mas há muitos que dizem que não. E a cadeira real sobrou para o pai de Isabel, irmão mais novo de Eduardo, que governou como pôde o Império Britânico.

 

Cedo, no entanto, Isabel demonstrou ter ideias políticas, tanto quanto os apertados trâmites da lei lho permitiam. O primeiro-ministro Anthony Eden que o diga, quando foi forçado a demitir-se do cargo após o fracasso da tomada do Canal do Suez, aventura que contou com a oposição frontal da rainha. Ou Ian Smith, quando declarou a independência unilateral e minoritária da Rodésia ‘branca’, sendo por tal afastado da Commonwealth pela rainha. Ou Margaret Thatcher, que Isabel considerava ‘insensível’ aos pobres e ‘teimosa’, e que não contou com o aval real quando se negou a alinhar nas sanções internacionais contra o ‘apartheid’ sul-africano. Ou Ronald Reagan, que foi censurado fortemente pela invasão de Grenada. Ou, de outro modo, Nelson Mandela, que viu Isabel II apoiá-lo logo no início do seu mandato como presidente da África do Sul; são poucas, em toda uma vida, as fotos mais sorridentes e demonstradoras de admiração como aquelas que Isabel II deixou que lhe tirassem quando se encontrou com o primeiro presidente negro da antiga possessão britânica.

 

Regrada mais que puritana, decente mais que moralista, Isabel II casou por amor com um tipo autoritário e pouco culto, que no entanto tem cumprido a preceito as funções de consorte. O apoio que lhe tem dado, publicamente expresso por Isabel em discurso por altura do seu jubileu como rainha, fica a léguas da preponderância que Albert terá tido na primeira parte da vida de Vitória, outra rainha icónica da Grã-Bretanha.

 

a nossa mais velha aliada foi o que foi: uma mulher do tempo da guerra, patriota e piedosa, que gosta de cumprir um dever

 

Pela pena de Andrew Marr, o ‘Sunday Times’ da presente semana traça um perfil da soberana um pouco antípoda da caricatura de vestes garridas e ‘cara de Miss Piggy’ – que ela assume quando está irritada – que geralmente lhe é atribuída. Num tempo em que a fama vai e vem, em que o público espera surpresa e divertimento, ela representa a perenidade sem perder o humor britânico que lhe é característico. Quem não se lembra da rábula com James Bond (Daniel Craig, na ocasião) que protagonizou aquando da abertura dos Jogos Olímpicos de Verão de 2012, em Londres?

 

Quem a conhece, diz que não vai abdicar em favor do filho de 67 anos; talvez a educação de Carlos – que é já um dos mais velhos herdeiros de coroa da história das monarquias -, deixada aos cuidados de um tio-avô marialva e de um pai mais que rústico, seja a maior falha desta mulher que, aos 13 anos, sonhava ser campeã de natação. Sóbria – troca o gin das falecidas mamã e irmã por um ‘Earl Grey’ com leite e sem açúcar - a nossa mais velha aliada foi o que foi: uma mulher do tempo da guerra, patriota e piedosa, que gosta de cumprir um dever. Assim os joelhos, sua única falha de uma saúde de ferro, lho permitam uma outra vez.

 

E o futuro? Nas ‘pools’ da Grã-Bretanha, o neto William já vai à frente, como favorito para a sucessão, do filho Carlos, um tipo decente mas estranho, que deambula entre o jogo de pólo, a arquitectura alternativa, a homeopatia e as preocupações ambientais. Depois da morte de Diana, uma verdadeira ‘insider’ na família real britânica, resta Kate Midletton para dar um ar de graça a uma monarquia renovada. Com uma diferença em relação à defunta sogra – é que o neto da rainha escolheu-a entre todas as múltiplas candidatas, e ela ao princípio nem achou grande piada ao rapaz. O pai, Carlos, terá sido aconselhado pela sua amante de sempre, e actual mulher, Camilla, a desposar a virgem Diana, que ele levou para casa sem estar muito convencido da trama. O povo britânico sabe destas coisas...

 

No Natal ou quando ela quiser, Lilibeth, do alto dos seus 90 anos, costuma dar bonecos aos bisnetos, que lhe chamam ‘gan-gan’ em privado. Um dia destes, aposto, dá-lhes um cavalo, filho ou neto de um daqueles 22 com que já ganhou as corridas de Ascot.

 

 

publicado às 23:51

Isabel, chefe de Estado

Por: Márcio Alves Candoso

Na tabela de vendas de ‘hardbacks’, capítulo de ‘não-ficção’, o livro que sobressai esta semana no mercado britânico tem um título interrogativo. ‘And the Weak Suffer What They Must?’. Essa é a pergunta de Yannis Varoufakis, autor da obra que lidera a lista dos mais procurados, destronando – talvez pela novidade – uma série de três livros humorísticos que vinham dominando as preferências do público há mais de dois meses. Trata-se, aliás, de uma das duas entradas directas para o ’top ten’, sendo a restante uma dissertação sobre a importância do ‘rock’ dos anos 70, que ocupa agora a oitava posição.

 

Não sei qual a importância que os britânicos atribuem, nos dias de hoje, à procura de soluções para os pecados que o ex-ministro grego das Finanças insiste em denunciar em mais um livro. ‘Uma batalha titânica pela integridade e identidade europeias, contra o crescente autoritarismo e corrupção, que promovem a desigualdade’ – é esta a sinopse que a 'Amazon' traça do conteúdo do livro da ‘pop star’ da esquerda europeia. Mas, num país onde se travam razões sobre as vantagens e desvantagens de pertencer à União Europeia, é talvez sintomático o interesse que um heterodoxo como Varoufakis desperta no púbico.

 

Na mesma semana, o Reino Unido vai estar ocupado com a celebração do 90º aniversário da mais icónica das suas cidadãs - e cidadãos. Elisabeth of Windsor, conhecida entre nós por rainha Isabel II de Inglaterra, bateu no ano passado o recorde de permanência no trono britânico, que pertencia à sua trisavó Vitória. De um pedestal que reconhece apenas como um ‘dever’ e não como uma prerrogativa, que aliás ganhou por mero acaso das contingências histórias, Isabel tem preferido sempre ir de encontro aos cidadãos anónimos, mostrar-se sem ser demasiado conhecida.

 

Margaret Thatcher, a primeira-ministra conservadora britânica por quem, diz-se, a rainha não morria de amores, acusou-a um dia de votar no Partido Social-Democrata então nascente, após uma divisão dos Trabalhistas que levaram Roy Jenkins e David Owen a criar a nova formação política. Como em todas as - poucas – tentativas de ligar a soberana a alguma facção ou ideologia dos seus súbditos, o Palácio de Buckingham apressou-se a negar a preferência. Mas os biógrafos da casa real – uns autorizados, outros nem por isso – são unânimes em considerar que a rainha sempre pendeu, em toda a sua vida privada, para uma espécie de centro-esquerda europeu. Não é por acaso que se diz que o seu primeiro-ministro favorito - dos doze que já empossou – foi Harold Wilson, do ‘Labour’.

 

Em Portugal, quando se quer falar das peculiaridades da actual Constituição, no que diz respeito aos poderes do Chefe de Estado, costuma dizer-se que ele não é a Rainha de Inglaterra, numa alusão à importância executiva que o monarca britânico tem vindo a perder no último século e meio. Salvo erro, a ideia tornou-se pública pela palavra de Mário Soares, que fazia uma interpretação extensiva das suas funções enquanto Presidente da República, tanto quanto a Constituição revista em 1982 lho permitia.

 

Mas se é verdade que Isabel II tem os seus poderes restringidos pela lei – a monarquia constitucional liberal rege a Inglaterra e as suas possessões -, a sua influência no seu longo reinado não é despicienda. A mais recente intervenção da rainha na política terá sido por ocasião do referendo com intenções independentistas da Escócia. Isabel II terá deixado escapar, numa declaração que os especialistas apelidaram de que ‘mais pública não poderia ter sido’, a frase que não traduzo: ‘Well, I hope people will think very carefully about the future’.

Nesses dias de chumbo da política britânica, autores e jornalistas bem próximos do primeiro-ministro, David Cameron, revelaram que ele, normalmente frio e maquiavélico em relação à política quotidiana, terá passado um mau bocado, demonstrando assinalável nível de stress; diz quem dele está próximo, que a sua irritação com a indecisão escocesa levou a mulher a quase não o reconhecer, perdendo cabelo nesse anseio conjugal.

 

O Palácio de Buckingham, como sempre tem feito através da história recente, publicou um comunicado a negar o envolvimento da rainha na questão da independência da Escócia. Fê-lo como deve ser, ou seja, depois de todos os jornais já terem publicado as declarações de Isabel II… Diz quem sabe que a rainha terá dado uma ajuda preciosa ao ‘não’ à independência da parte norte da Grã-Bretanha. Uma guerra que, aliás, algumas das suas antepassadas, com relevo para Maria Stuart e Isabel I, não desdenhariam.

 

Se as revistas cor-de-rosa e os ‘yellow papers’ não se cansam de escrutinar a vida mundana, amorosa ou – até - escandalosa da família real britânica, a verdade é que Isabel II tem escapado quase sempre à opinião negativa dos vendedores de papel impresso. E da única vez que ficou na mó-de-baixo, em 63 anos de reinado, apressou-se a acertar o passo – ou não fosse ela uma militante convicta das virtudes militares. Logo após a morte de Diana Spencer, na altura já separada do seu primogénito e presuntivo herdeiro, a rainha terá sido, segundo a opinião pública, demasiado fria e formal, não se prontificando a participar nas homenagens póstumas à ‘princesa do povo’.

 

Em poucas horas percebeu o erro, e juntou-se aos seus, como sempre fez, aliás, desde que na II Guerra, com 18 anos, se pôs ao volante das ambulâncias e dos camiões do Serviço Auxiliar Territorial (ATS). Nos rodapés da história, diz-se que terá sido, até hoje, a única rainha a saber mudar um pneu de um carro ou a mudar-lhe o óleo.

A monarquia caiu-lhe nos braços por força de uma abdicação nunca totalmente explicada, mas especulada mais do que muito. A ascendência germânica da família real britânica, por força do casamento da puritana Vitória com Albert de Saxe-Coburgo Gotha, terá levado o presuntivo rei Eduardo VIII, tio de Isabel, a proclamar mais em privado que em público as suas preferências pelo lado alemão entre as duas guerras mundiais. Oficialmente, foi por se casar com uma senhora divorciada que deixou o trono londrino; mas há muitos que dizem que não. E a cadeira real sobrou para o pai de Isabel, irmão mais novo de Eduardo, que governou como pôde o Império Britânico.

 

Cedo, no entanto, Isabel demonstrou ter ideias políticas, tanto quanto os apertados trâmites da lei lho permitiam. O primeiro-ministro Anthony Eden que o diga, quando foi forçado a demitir-se do cargo após o fracasso da tomada do Canal do Suez, aventura que contou com a oposição frontal da rainha. Ou Ian Smith, quando declarou a independência unilateral e minoritária da Rodésia ‘branca’, sendo por tal afastado da Commonwealth pela rainha. Ou Margaret Thatcher, que Isabel considerava ‘insensível’ aos pobres e ‘teimosa’, e que não contou com o aval real quando se negou a alinhar nas sanções internacionais contra o ‘apartheid’ sul-africano. Ou Ronald Reagan, que foi censurado fortemente pela invasão de Grenada.

 

Ou, de outro modo, Nelson Mandela, que viu Isabel II apoiá-lo logo no início do seu mandato como presidente da África do Sul; são poucas, em toda uma vida, as fotos mais sorridentes e demonstradoras de admiração como aquelas que Isabel II deixou que lhe tirassem quando se encontrou com o primeiro presidente negro da antiga possessão britânica.

 

Regrada mais que puritana, decente mais que moralista, Isabel II casou por amor com um tipo autoritário e pouco culto, que no entanto tem cumprido a preceito as funções de consorte. O apoio que lhe tem dado, publicamente expresso por Isabel em discurso por altura do seu jubileu como rainha, fica a léguas da preponderância que Albert terá tido na primeira parte da vida de Vitória, outra rainha icónica da Grã-Bretanha.

 

Pela pena de Andrew Marr, o ‘Sunday Times’ da presente semana traça um perfil da soberana um pouco antípoda da caricatura de vestes garridas e ‘cara de Miss Piggy’ – que ela assume quando está irritada – que geralmente lhe é atribuída. Num tempo em que a fama vai e vem, em que o público espera surpresa e divertimento, ela representa a perenidade sem perder o humor britânico que lhe é característico. Quem não se lembra da rábula com James Bond (Daniel Craig, na ocasião) que protagonizou aquando da abertura dos Jogos Olímpicos de Verão de 2012, em Londres?

Quem a conhece, diz que não vai abdicar em favor do filho de 67 anos; talvez a educação de Carlos – que é já um dos mais velhos herdeiros de coroa da história das monarquias -, deixada aos cuidados de um tio-avô marialva e de um pai mais que rústico, seja a maior falha desta mulher que, aos 13 anos, sonhava ser campeã de natação. Sóbria – troca o gin das falecidas mamã e irmã por um ‘Earl Grey’ com leite e sem açúcar - a nossa mais velha aliada foi o que foi: uma mulher do tempo da guerra, patriota e piedosa, que gosta de cumprir um dever. Assim os joelhos, sua única falha de uma saúde de ferro, lho permitam uma outra vez.

 

E o futuro? Nas ‘pools’ da Grã-Bretanha, o neto William já vai à frente, como favorito para a sucessão, do filho Carlos, um tipo decente mas estranho, que deambula entre o jogo de pólo, a arquitectura alternativa, a homeopatia e as preocupações ambientais. Depois da morte de Diana, uma verdadeira ‘insider’ na família real britânica, resta Kate Midletton para dar um ar de graça a uma monarquia renovada. Com uma diferença em relação à defunta sogra – é que o neto da rainha escolheu-a entre todas as múltiplas candidatas, e ela ao princípio nem achou grande piada ao rapaz. O pai, Carlos, terá sido aconselhado pela sua amante de sempre, e actual mulher, Camilla, a desposar a virgem Diana, que ele levou para casa sem estar muito convencido da trama. O povo britânico sabe destas coisas...

 

No Natal ou quando ela quiser, Lilibeth, do alto dos seus 90 anos, costuma dar bonecos aos bisnetos, que lhe chamam ‘gan-gan’ em privado. Um dia destes, aposto, dá-lhes um cavalo, filho ou neto de um daqueles 22 com que já ganhou as corridas de Ascot.

publicado às 15:33

Só à estalada: uma história do tabefe em Portugal

Por: Márcio Alves Candoso

 

 

O sucedâneo do 'Big Brother' ou da 'Casa dos Segredos', que está neste momento em cartaz televisivo, chama-se 'Quinta'. Já foi 'Quinta das Celebridades', e perdeu o sobrenome provavelmente pela falta de notoriedade pública dos actuais residentes. Mas o enredo continua a agarrar os telespectadores, se não já ao nível das audiências de antanho, pelo menos com uma capacidade de sobrevivência notável. Os 'happenings' sucedem-se a um ritmo ora produzido, ora espontâneo. Um dos mais impressivos dos tempos recentes foram as estaladas que o concorrente Pedro Capitão deu ao seu companheiro/antagonista Pedro Barros, numa altercação animada no passado mês de Janeiro.

 

O combate entre o efeminado agressor alentejano e o espadaúdo modelo - que o provocou vezes sem conta, a última das quais (a gota que terá que terá feito transbordar o copo) foi atirar-lhe água – saldou-se por uns tabefes na cara e no peito deste último. Pedro Barros, o provocador, foi, aliás, acusado de estar com os copos. Vai na volta, o Pedro Capitão dos trejeitos e voz afunilada deu-lhe uns safanões de menina que foram considerados bofetadas. O resto da história é que foi expulso – a agressão física é oficialmente proibida lá na 'Quinta' –, sendo reintegrado mais tarde, porque o sujeito tem imensa graça e é popular que se farta. O agredido é que não sobreviveu muito, e foi dos primeiros a fazer as malas do programa apresentado por Teresa Guilherme.

 

A história da estalada em Portugal tem passado por diversas vicissitudes, e entrou mesmo na cultura popular. A cantora Ruth Marlene teve, há anos, um consumado êxito com a canção 'Só à Estalada', cujos versos referem que, 'Quando os rapazes vêm com ela fisgada / Daqui não levam nada / E quando algum quer fazer logo marmelada / Então só à estalada/ Então só à estalada'. E, noutra parte do poema, pode ouvir-se que: 'Estou prevenida pois já sei como é que é / Por isso mesmo fui aprender karaté'. Uma defesa da honra e da integridade física que se aceita e à qual ninguém botará defeito.

 

O caso mais recente da lusitana história da estalada não tem, até ao momento, repercussões físicas de qualquer tipo. É sabido que, após um truculento e ácido artigo de Augusto M. Seabra no 'Público', em que o crítico atacava quer a competência de João Soares para o cargo de ministro da Cultura, quer os seus métodos - que envolveriam 'compadrio, prepotência e grosseria', adjectivando-o ainda de 'derrotado nato' -, João Soares reagiu na sua conta do Facebook. Afirmava a intenção de se encontrar com Seabra para lhe dar 'umas salutares estaladas', que aliás estavam 'prometidas desde 1999, altura em que, segundo o visado, o crítico terá dito sobre ele 'umas aleivosias e calúnias'.

 

De caminho, o ex-presidente da Câmara de Lisboa e filho do antigo Presidente da República, Mário Soares, recordava também que estava em falta com o mesmo tratamento a Vasco Pulido Valente, igualmente cronista do 'Público', que em Março se lhe referiu como 'lamentável personagem'. A propósito da demissão de António Lamas, o controverso gestor do Centro Cultural de Belém, VPV escrevia: 'não se percebe toda esta palhaçada, excepto se pensarmos que ele [João Soares] é no Governo um verbo de encher e que o PS o atura por simples caridade.

 

O duelo para defesa da honra e a eventual calúnia, ultraje ou infâmia a ele asociados vem dos primórdios da Idade Média, e resultou em Portugal em diversas cenas mais ou menos públicas até meados do século XX. De Afonso Costa a João Franco, de António Granjo a Eduardo Swalbach, do Conde de Penha Garcia a Francisco Solano de Almeida, de Caeiro da Matta a Anselmo Braancamp, muita foi a elite política urbana que sonegou aos tribunais as suas quezílias públicas ou privadas. Tratava-se de uma suposição de que os cavalheiros, como outrora os cavaleiros, tinham sobre as massas uma posição que lhes permitia tratar das questões da justiça pelas suas próprias mãos. O povo esmurrava-se na taberna, os senhores degladiavam-se com apertadas regras, casaca e chapéu alto. A testosterona tem luta de classes...

 

já o génio guerreiro Sun Tzu tinha sobre o duelo uma visão negativa. Criticava aos homens o 'orgulho e vaidade' a que, segundo ele, chamavam impropriamente 'defesa da honra'. Da França dos espadachins aos pistoleiros do far-west, dos duelos de chicote do sertão brasileiro às pistolas com testemunhas de Inglaterra, foi durante muito tempo através do derramamento de sangue que os nobres e outros titulares trataram dos seus problemas. António José de Almeida, o político republicano que foi Presidente da República, terá sido, segundo reza a História, o primeiro português a ser desafiado para um duelo e a não aceitar, sem que lhe tivesse caído a honra na lama. Um fenómeno de modernidade, na altura.

 

As excepções, já no tempo do Estado Novo, que, mais do que fechar os olhos aos duelos, como era uso da justiça mais branda da 1ª República, os criminalizou, são escassas. É de escola o exemplo de Francisco Sousa Tavares, que sendo oficial miliciano quis desagravar uma afronta de um seu superior hierárquico desafiando-o para um duelo; o qual nunca chegou a concretizar-se.

 

A espada e a pistola foram modernamente substituídos pela pena. E o interessante é que ambas andaram, desde os primórdios da Idade Média, casadas. Eggil Kalagensson foi um poeta e guerreiro viking que, no século X, primeiro terá lançado um código de conduta de duelos, bem a par das regras de cavalaria em uso no tempo. Mas não deixou de usar a escrita para afrontar os que se lhe opunham.

 

Mais prosaicamente – ou com menos pompa – vários escritores do século XIX, conhecidos pela pena afiada, não deixaram, no entanto, de usar as mãos e alguns esticadores de braço – a célebre bengala – para pedir contas a adversários e homens que lhes tinham lançado críticas mais ou menos ferozes.

Eça de Queiroz referia, em carta a Teófilo Braga, algumas das passagens da sua obra: 'A sociedade que cerca esses personagens - o formalismo oficial (Acácio), a beatice parva de temperamento irritante (D. Felicidade), a literaturazinha acéfala (Ernestinho), o descontentamento azedo e o tédio da profissão (Juliana), e às vezes, quando calha, um pobre bom rapaz (Sebastião). Um grupo social, em Lisboa, compõe-se com pequenas modificações, destes elementos dominantes. Eu conheço uns vinte grupos assim formados. Uma sociedade sobre estas falsas bases não está na verdade: atacá-las é um dever. [...] Merecem partilhar com o Padre Amaro da bengalada do homem de bem'.

 

Antero de Quental, Ramalho Ortigão, Sampaio Bruno, Aquilino Ribeiro ou João Gaspar Simões foram alguns dos muitos que se envolveram em bengaladas, ou foram desafiados, no Chiado ou não só, à porta da Bertrand como em campo aberto.

 

A Idade das Luzes e o Iluminismo começaram, aos poucos, a tornar fora de moda os duelos e os desagravos  mais por armas que por palavras. A morte de Alexander Hamilton, que foi secretário de Finanças de George Washington, num duelo com o seu adversário Aaron Burr, 3º vice-presidente dos EUA, tomou repercussões tais que, a partir daí, a justiça começou a reprimir, de forma mais cerce, os habituais desaguisados resolvidos à pistola pelos politicos oitocentistas.

 

Mas Andrew Jackson, anos depois, ainda seria vítima de um tiro num ombro, apanhado num duelo que lhe provocou dores para o resto da vida. Alexandrer Pushkin foi morto em duelo, depois de ele próprio já ter descrito vários nos seus poemas. Coisas do destino da pena e da espada, mas também da tela – dos cowboys a Barry Lindon (filme icónico de Stanley Kubrick), a 'verdade' das armas, da honra e da cobardia têm sido alvo preferencial dos cineastas.

 

As paixões mortas em meio literário deram azo a grandes confrontações, como a que José Saramago e António Lobo Antunes protagonizaram durante anos. Rimbaud e Paul Vérlaine, Jean-Paul Sartre e Albert Camus, Mário Cesariny e António Pedro, foram outros tantos. Sobre o poeta-pintor do surrealismmo, escreveu Jorge de Sena umas quadras de uma truculência verbal a roçar a infâmia. A questão coimbrã deu espada entre Antero e Ramalho, e a verbalização do insulto ganhou foros de arte, com o 'Manifesto Anti-Dantas' de Almada Negreiros. Talvez a mais famosa de todas as 'punições' literárias terá sido a bengalada de Carlos Eduardo a Dâmaso Salcede, numa tarde do Chiado; mas foi apenas num livro, Os Maias.

 

O resultado imediato da desbragada verve de João Soares é conhecido. O ministro demitiu-se, alegando por um lado não querer prejudicar o Governo, mas também a necessidade de manter intacto 'o direito à expressão de opinião e palavra'. A questão talvez ainda faça correr alguma tinta. Como o chefe do Executivo dizia ontem, 'um ministro tem de lembrar-se sempre que o é, mesmo à mesa do café'.

Qual o valor do Facebook e de outras redes sociais na opinião dos cidadãos que são, também, figuras públicas?

 

No Facebook, aliás, corre célere a piada, os ataques e os apoios a João Soares. Uma jurista conhecida pelo invulgar traço de ironia, de seu nome Alice Coutinho, lembrava ontem, sobre os titulares governativos da pasta da Cultura:

'O Santana Lopes batia com a porta, o Sousa Lara queimava livros, o Carrilho dava uns tabefes, o João Soares ameaça dar. Eu não quero nada com essa gente da cultura'.

Para logo, num comentário, ser recordada pelo jornalista e antigo membro da direcção do 'Público', Joaquim Vieira: 'E então o Francisco José Viegas, que mandou os inspetores tributários tomarem no pacote?' Vai linda a democracia, e a cultura é de uma gente outra...

 

Mas, nestas coisas da honra e da truculência, até o Papa Francisco tomou recentemente partido. 'A liberdade de expressão é um direito. Mas se alguém ofender a minha Mãe, de certeza que leva um murro', disse o chefe de todos os católicos. Está o ateu João Soares desculpado...

 

No meio de tudo isto, com certeza de forma involuntária, vai a família Soares escrever, na sua saga, o valor da bofetada. Se o pai virou uma campanha presidencial desfavorável após a estalada que levou na Marinha Grande, já o filho deitou a perder uma carreira como ministro, sem sequer ter levantado a mão mais do que lhe permitiu a palavra.

 

 

Torno público que apresentei esta manhã ao Senhor Primeiro Ministro, António Costa, a minha demissão do XXI Governo...

Posted by João Soares on Friday, April 8, 2016

 

 

publicado às 22:58

Morreu o homem dos sete instrumentos

Por: Márcio Alves Candoso

 

 

Quando o autarca Carlos Meireles conheceu Maria, uma prostituta de alta roda que, mais tarde, viria a perceber-se que o levou à certa na triste sina da corrupção por chantagem, fez-lhe a seguinte pergunta: 'Diga-me uma coisa... O que é que você faz?' E ela respondeu: 'Tudo!' Nicolau Breyner também. O personagem que o actor interpretou no filme 'Call Girl', de António Pedro Vasconcelos, foi apenas mais um da multifacetada carreira de um homem que nos deixou ontem de surpresa - ele adorava pregar partidas.

 

Dele disse o crítico Eurico de Barros que não houve, em Portugal, cinema que chegue para o mostrar em toda a sua dimensão dramática. Os mais de 40 filmes que interpretou têm valores diferentes. E terá sido apenas já depois dos 50 anos que Nicolau brilhou, a espaços, no grande écrã.

 

'Anarquista de centro', como se denominou um dia em termos políticos, esteve nas eleições de 1969, como recordou ontem o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues; mas concorreu, já depois do 25 de Abril, com o apoio do CDS, à Câmara de Serpa, sua terra natal alentejana. 'Perdi para o candidato da CDU, de quem hoje sou grande amigo, e ainda bem, ele é um excelente autarca', afirmou Nicolau.

 

 É difícil encontrar quem tenha criado e mantido inimizades com Nicolau Breyner. 'Nunca vi ninguém chatear-se com ele', disse ao SAPO24 o actor António Capelo, que com ele trabalhou, muito, na área da ficção televisiva. 'Nunca o vi pôr-se em bicos de pés, tentar roubar protagonismo fosse a quem fosse'.

 

'Representar, para ele, era como respirar', sustentou António Capelo. 'Não fazia esforço nenhum, saía-lhe de uma forma natural: e era escusado, nunca sabia o texto', lembra o colega de profissão. O que vai de encontro à ideia que o próprio tinha sobre si. 'Dizem que isto de ser actor é 75% de esforço e 25% de talento; eu acho que é precisamente o contrário', afirmou numa entrevista.

 

'Ele não gostava de repetir', relembra Virgílio Castelo. 'Dizia que saía sempre melhor à primeira, e até assegurava, com graça, e enquanto director de actores, que primeiro se grava e depois se ensaia', revelou o actor. O que é corroborado pelo cineasta António Pero Vasconcelos, que, para além de admirar essa capacidade, se queixava de que isso, por vezes, impedia os outros de evoluírem. 'Às vezes são precisos vários 'takes', e para ele isso não era necessário', recorda.

 

A sua generosidade e falta de noção do dinheiro é quase lendária entre os colegas de profissão. 'Cada vez que ganho muito dinheiro há em mim um sentimento de vergonha', adiantaria noutro espaço. 'Ele falou-me de querer comprar uma quinta no Brasil, e eu andei por lá a ver se arranjava algo', recorda Capelo, ele próprio um apaixonado pelo país e que lá detém propriedade. 'Mas depois nunca mais aparecia com o dinheiro; foi o Moita Flores que me disse para tirar daí a ideia, já que ele nunca tinha que chegasse, não poupava', revelou a mesma fonte.

 

 

Muitos recordam que, sem Nicolau, nem nunca na vida teriam chegado a ser actores. Como Nuno Homem de Sá, que está nas novelas televisivas pela mão de Nicolau Breyner, e que recorda que 'aos 18 anos andava sem saber o que fazer da vida, e foi ele que me trouxe para aqui, que me deu a mão'. Ele, Nicolau, soube cedo que queria palco, embora a veia lhe latejasse mais para a ópera. Um dia percebeu que os cantores líricos tinham de levar uma vida muito regrada. 'Não era para mim', confessou.

 

A positividade perante a vida é um traço que todos os que o conheceram realçam. 'Nunca remei contra a maré', afiançou já depois dos 70 anos. Mas pensou no que ainda havia para viver, quando há seis anos o cancro lhe bateu à porta. Aparentemente, não foi disso que morreu. Se bem que tenha frisado que, nessa altura, percebeu que tinha que pensar mais na sua mortalidade.

 

Nem naquele que foi, talvez, o maior papel da sua vida enquanto actor de cinema – o inspetor Joaquim Malarranha de 'Imortais' - deixou de ser, sempre e só, um extraordinário feitor de verosimilhança humana. A capacidade de identificar, aparentemente sem esforço, os traços dominantes dos papéis que lhe cabiam, fez dele, também, um dos actores mais populares do seu tempo e, eventualmente, mesmo o mais conhecido da sua geração. António Capelo costumava chamar-lhe 'Nossa Senhora de Fátima'. 'Onde ele aparecia, toda a gente o conhecia e queria vê-lo; era uma aparição', graceja.

 

Um talento que começou a revelar-se cedo. No Conservatório foi um aluno brilhante e, recém-formado, foi Vasco Morgado que o levou para a revista. A comédia é, aliás, o lado mais conhecido de um homem dos sete instrumentos. 'Andei vinte anos a fazer comédia e 20 anos a fazer drama', dizia como que em sumário. Mas 'fiz muitas coisas na vida que ainda hoje estou para perceber porquê'.

 

Boémio, lutador de pés e mãos pelos cabarets, coureur de femmes, Nicolau Breyner confessou que o pai o 'acusava' de fazer 'caridade sexual'. 'Não sabia dizer que não', revelou. Um dia, no meio de uma gravação de novela, o estúdio pára durante meia-hora. 'O Nicolau tinha ido divorciar-se', recorda António Capelo. 'Para ele, a conquista era um exercício lúdico permanente', recordou o actor Virgílio Castelo.

 

Carlos Matos Gomes, autor do livro Nó Cego (sob o pseudónimo de Carlos Vale Ferraz) que levou António Pedro Vasconcelos a criar o argumento de 'Imortais', recorda ao SAPO24 que foi complicado encontrar o actor para a personagem do inspector Malarranha, que gostava de fados e tinha uma amante à moda antiga. 'Tinha de ser um tipo que gostasse de música', recorda o antigo coronel do Exército português. 'Foi o António Pedro [Vasconcelos] que se lembrou do Nicolau, e ele foi impressionante na interpretação que fez, até porque nunca tinha feito um papel daquele género', afirma.

 

'Ele olhou para o guião, leu uma parte do romance, e apanhou desde logo as características e todos os cambiantes do inspector', referiu Matos Gomes, que recorda com um sorriso a 'interpretação dele quando está com a Filó [a secretária de quem era amante no filme]'. Por curiosidade, conta que o mesmo esteve para ser rodado, em parte, em Moçambique, mas Samora Machel, então presidente daquele país africano, não deixou.

 

Do Nicolau Breyner precursor da indústria de ficção televisiva já toda a gente falou. 'Irritava-me que não fizéssemos coisas como os brasileiros', desabafou um dia, para justificar como, com Thilo Krassman e com o apoio da RTP, construiu 'Vila Faia', a primeira telenovela portuguesa. Anos mais tarde havia de montar a sua prórpia produtora, a NBP, que trouxe para o grande público um significativo número de novos actores, deu alento e visibilidade aos antigos e criou uma 'nova fórmula de fazer coisas com que o público se identificasse', como definiu ontem o actor Diogo Infante. A 'invenção' de Herman José, no 'Feliz e Contente' do ínício dos anos 80, terá sido certamente ao seu maior achado.

 

A televisão ficará sempre na história que todos contarão de Nicolau Breyner. O teatro não, 'aquela caixinha é muito pequena, muito fechada', dizia, como lembrou ontem a actriz Guida Maria, para quem Nicolau Breyner 'era desconcertante no seu humor; às vezes era preciso dizer-lhe para parar com as anedotas, porque antes de entrar em cena temos de nos concentrar; ele não, acabava de dizer uma graçola, entrava no palco e era um tipo completamente diferente e embrenhado no papel'.

 

'Tinha amigos de todos os géneros, sempre com grande calor humano; era impossível ficar-lhe indiferente', sustentou Virgílio Castelo. 'Era um menino de 75 anos', afirmou. Foi por ele que ontem, menos de uma hora depois da notícia da sua morte, Marcelo Rebelo de Sousa abandonou uma reunião para expressar a sua consternação, saudade e recordações ao país que recentemente o elegeu. 'Nunca tinha visto um Presidente da República fazer isto pela gente que pinta a cara', afirmou Simone de Oliveira.

 

Actor, cantor - chegou a concorrer ao Festival da Canção, em 1968, tendo arrancado o quarto lugar com 'Pouco Mais' -, produtor, realizador, professor – mantém uma escola de artes de palco, a NBA -, Nicolau Breyner fez de tudo um pouco.

 

Deixa saudades, ele que dizia que era 'o gajo menos saudosista do mundo'. Se não fosse católico praticante, seria 'adorador do sol', afirmou recentemente. Também por isso, gostava de ter morrido 'num daqueles dias chuvosos, frios, com vento, para não ter pena', dizia. Morreu num dia de sol. Ele não programava muito a sua vida, diz quem o conheceu.  

 

 

 

 

 

 

publicado às 08:09

Ode ao Cais

Por: Márcio Alves Candoso

 

Apetece-me citar, estragar, tomar conta, corromper e recompor Álvaro de Campos. Sozinho, num cais deserto numa noite de Inverno, olho em volta tudo aquilo que já partiu e tudo o que antes de mim já lá estava. Piso o chão de rosa e ajuízo os telhados encalhados dos andares de cima das discotecas, a esta hora ainda fechadas. Hoje, segunda, não há Jamaica e tenho que esperar pelo Tokyo. Onde se espera, aqui, pelo passado?

 

 Imagem do facebook do Tokyo 

 

Só eu, para chegar a este mundo àquela hora. Ninguém vem ao Cais antes da uma. Ao Cais que importa, ao que me interessa, porque nunca há horas de silêncio nestas ruas. Há miúdas louras com mantas largas nas esplanadas, uma é mãe e outra é filha, de tão parecidas as descubro, e a mais nova encosta a cara ao ombro da mais velha como num seguro de vida, ou num muro que nos guarda do que está lá fora.

 

Descubro a rota numa porta que diz Copenhaga em língua estrangeira – 'Copenhagen'. Já não cheira a gritos de marinheiros nem a perfumes de rameiras. As gargalhadas são sonoras, mas é do outro lado da rua, onde os taxistas jogam à moeda.

 

O segurança com identificação, cabelo à navalha e cachecol que tapa a boca, mal terá os 30 anos que me separam dos dias claros em que deixei o Cais de madrugada. Mexe um café e solta a sua jovem ignorância às minhas perguntas desnecessárias, só para meter conversa. 'Ali não era...? Não sabe se era, a era dele é outra. E eu disfarço as dúvidas que não tenho com um sorriso de quem escapou a todos os murros dos seguranças de outrora.

 

Toca em todo o lado a mesma música boa. Os miúdos que chegaram agora da Universidade de Erasmus ficam parvos a olhar para o 'Roterdão'. São só rapazes e o porteiro nega a entrada. Trouxessem as miúdas, assim não dá vista ao salão, é preciso equilibrar os pares de pernas. Mas lá dentro está o patrão, que perdeu parte da mão num acidente de mota. Por acidente, diz ele, foi ficando no Cais mais tempo do que o que pensava. O filho está de partida para o Luxemburgo, que isto um dia ainda encerra.

 

 O Jamaica

 

Ninguém gosta de ouvir dizer que vai acabar o Europa, o Tokyo e o Jamaica. A concorrência não é para aqui chamada. Se os 'nobres' do Cais chamam a rapaziada daqui, de além mar e das novas épocas, a todos calha a sorte e a moeda de troca. Vieram jornalistas estrangeiros para ver a rua rosa, e tornaram famoso o Cais que agora sobra em tribunais de arbitragem.

 

Toda a gente que interessa sabe a história; e ninguém quer adormecer com ela. Nos jornais, todos os dias se fala do encerramento iminente das discotecas dos 40 anos que nos separam das portas fechadas. Foi em 1975 que Mário Dias começou a pôr música no 'Jamaica', que os esquerdistas deitavam contas às ideias novas e às que tinham tido encerradas, e que as prostitutas deixaram de mandar sozinhas naquele lugar que as obrigava a partilhar as festas com toda a marinha do mundo.

 

Marinheiros da NATO nas ruas do Cais do Sodré, em 1981.

 

Lá estão elas, com os seios à mostra e de boca escancarada, com o copo na mão e um marinheiro à ilharga, mas só já nas pinturas que sobraram nas parededs do 'Copenhagen'. Para vê-las, é preciso contornar a Rua Nova do Carvalho e escutá-las, em parte velhas, nas esquinas que não têm discotecas. Murais imorais que o mal apessoado Campos nunca viu, mas que inventou no grito que o amigo marinheiro Jim Barns lhe ensinou:

 

'Ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò - yyy...
Schooner ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-oò -yyy...'

 

'I'm a romantic fool', cantam Martha and the Muffins, 'far away in time', na 'Echo Beach' inventada nas areias do Lago Ontario. A mesma música que a miúda de 37 anos dança atrás daquilo que parecem pianos ou gira-discos, se calhar porque a mãe lha cantava quando a mão lhe embalava o berço. 'Aqui não morre ninguém!' É assim que me diz do seu apreço e escolha pelo Cais, ao invés dos mais de três sítios onde trabalhou e ficou desempregada. DJ no feminino, e ainda agora se faz cedo.

 

No Tokyo sou dos primeiros, com uma petição assinada à porta – já cá faltava – contra todos os que querem apagar o cais de desembarque das gerações todas que cá se fazem depois da abrilada. E mesmo das anteriores, como a senhora que não me liga nada, porque vê logo que não me vai tocar na carteira, e eu desajeitado em conversas desta Praça da Ribeira só levo com um 'eu só cá vim ver a bola', mais uma meia-volta de anca larga, e 'adeus ó vai-tim-bora, que desses tenho eu cá resmas'...

 

Acompanham-me na ronda à porta do Tokyo um rapaz de barbas à lenhador e calças maneiristas, uma miúda de argola no pequenino nariz, que é a namorada, e duas outras, uma das quais com cabelo que tapa tudo à sua volta e dentro dela, de volta que vem dos estendais de roupa cara de uma loja bem no centro de Lisboa. Mais abaixo, duas venezuelanas trintinhas, que não respondem a pergunta nenhuma e se queixam de Chavéz e de Maduro. Eu 'está bem, e que tal isto aqui?' Nem uma, nem duas.

 

No palco ouve-se um grupo que tapa o som de fundo, um 'mix' curioso e bem montado. São os Lisbon Underground Burlesque, que só o digo porque me escreveram no bloco de notas que trago sempre comigo, que o barulho e o strobe não me deixam decorar o assunto. O patrão, que conheci em tempos, deu às de vila-diogo e só volta para a semana. Deixo o contacto, ainda quero ouvir o Fernando contar outra vez os desenganos. Como é mesmo aquela história da renda que ele queria que o senhorio lhe aumentasse, em troca de não chatear a molécula com despejos?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os Lisbon Underground Burlesque.

 

E quando o Zé Pedro dos 'Xutos' aportava de madrugada, há tanto tempo que nem sequer era ainda muito conhecido? E quando a namorada de um tipo que toca mal que se farta e canta ainda pior aterrou de cabeça na sanita e só eu é que a fui buscar?

Já não há o 'Changri-La', que era uma casa que foi conquistada aos proxenetas já nos anos oitentas. Agora chama-se 'Champanharia', coisa fina a dar-se bem com os bares mais proletas da banda larga da rua. Tento perceber onde era o banco onde me sentei com a Teresa e a Lina, fazendo peito aos chungas que salivavam pelas pernas delas, e só não apanhei uma tareia porque entretanto veio a bem ditosa segurança. Ainda um dia, na minha entrevista com Deus, hei-de perguntar porque é que em tantas noites sujas nunca levei na cara.

 

No Jamaica, no Tokyo e no Europa vai ser parido um hotel. Onde existe o Oslo e o Liverpool – dois outros bares, que todos têm os nomes das terras de onde os marinheiros chegavam – ergue-se dentro em pouco outro, mas este sem expulsão de história popular. Hotéis é coisa que falta e é rara, na Lisboa destas eras, onde um dia destes 'olhai senhores' uns para os outros, perdidos em 'good mornings' e 'parties' de 'tea', porque já ninguém vai ter cara para mostrar a terra. No Facebook, na bela página que tem por nome 'sensivelmente idiota', quem lá manda escreveu:

 

'Soube que o Jamaica, o Tokyo e o Europa vão fechar para abrir um hotel. Que alegria no meu coração lisboeta. Fechem, fechem tudo! (…) Inaugurem faixas só para tuk-tuks e proíbam portugueses no 28 (…) Cuspam no Público, no Sol e no DN, forrem os quiosques a The Sun, Bild e Le Figaro. Liguem teleféricos, rodem rodas gigantes e aterrem um aeroporto no Terreiro do Paço. Não párem (...) Arrendem Lisboa inteira. Os lisboetas que se fodam!'

 

Noutro lado, um comentário dá-me conta de um rapaz, agora pelos seus vinte e tais, que apenas diz: 'Os meus pais contaram-me que se conheceram e começaram a namorar no Jamaica'. Não sentem um arrepio?

 

Esta é a noite mais pequena da vida airada de um gajo que já teve idade para isto. Longe do Sodré, que com o tempo assim foi sendo conhecido, nome de gente marítima que remonta ao século XV, esse das descobertas primeiras de onde partiram outrora, antes de mim, outros de mim. Visito os bares, as discotecas onde aprendi a segurar um bêbado e a amar uma mulher. Ah, todo o cais é uma saudade de pedra...

 

* (enquanto pensava nisto, reli a 'Ode Marítima', de Álvaro de Campos. Há por aí espalhadas várias frases roubadas e outras modificadas)

 

publicado às 14:46

Até tu, Nova Zelândia?

Por: Márcio Alves Candoso

 

Quando se abre a Constituição da República Portuguesa, logo após o 'Preâmbulo', naquele capítulo que fala dos 'Princípios Fundamentais' – que vêm, note-se, ainda antes dos 'Direitos e deveres fundamentais' – dá-se de caras com 11-artigos-11 que descrevem as coisas básicas que há que saber e respeitar quando se é português. Está lá o território, a cidadania, a soberania, o hino... e a bandeira.

 

Diz lá que é a verde-rubra da República, com os castelos e as quinas ao centro, no meio de uma esfera dourada universal que, com seus arcos de metal, canta o meio-dia na Terra que lhe foi centro, entretanto substituída pelo Sol. Mais nenhum país do mundo ostenta tal ornamento no estandarte nacional. Dir-se-ia que o Mundo, e mesmo o Universo todo, é uma descoberta de Portugal. Que a esfera tenha sido inventada na China, antes ainda de Cristo descer à Terra, é coisa que não nos contaram na primária.

 

Vamos falar de bandeiras. Não de todas, mas aquelas que as Nações, as Pátrias e os Estados – que às vezes, com muita sorte, são tudo uma mesma coisa – têm por símbolo distintivo. Um pano, não mais do que isso, ao lado do qual se perfilam militares, que se ergue quando ganhamos nos Jogos Olímpicos, se vê de longe nos edifícios públicos e por vezes até cobre caixões de heróis ou de simples mortais.

 

 

É de guerra que se fala quando se procura a aurora primeira da bandeira. Ao princípio, as cores que pintavam panos distinguiam batalhões e armadas. Se as flâmulas eram iguais, eram dos nossos; diferentes, do inimigo. Foi assim com os romanos e na Alta Idade Média. Começaram por roubar os símbolos aos escudos e a outros sinais de comando já existentes desde a Antiguidade. Foi só transformá-los em panos.

 

As bandeiras mudam com a circunstância. Mas não para os circunspectos dinamarqueses. Desde o século XIII que aquela gente vive debaixo da cruz branca sobre fundo vermelho. É, de longe e sem interrupções, a bandeira há mais tempo ao serviço oficial. O século XIII é, aliás, um tempo em que as bandeiras nacionais encontram lar. Foi Afonso X, o 'Sábio', rei de Leão e Castela que fazia cantigas de amor e missa na língua erudita da época – o galaico-português – que primeiro definiu o conceito e as regras das bandeiras. Um tipo decente – renunciou a ser rei do Algarve, em favor de Portugal.

 

As bandeiras contam histórias, mostram o País que representam ou os progressos que a eles estão associados. Prantam plantas, como a do Canadá ou do Líbano, tesouros nacionais, como o templo de Angkor na do Cambodja, ideologias, como as que têm estrelas amarelas de cinco pontas, típicas dos países comunistas que cantam a penta-unidade entre soldados, operários, camponeses, jovens e intelectuais, ou símbolos religiosos, como é exemplo a de Israel, ontentando a estrela de David.

 

Há as bandeiras pan-árabes, que têm a cor preta de Maomé, o branco do califado omíada, o verde dos fatimidas e o vermelho dos carijitas, uma espécie de protestantes do Islão. Há as eslavas, que torcem e retorcem o vermelho, branco e azul – a que a Ucrânia e a Bulgária fugiram – ou as africanas, com seu verde, amarelo, vermelho e até preto, unindo a tradição rastafari do Messias da Etiópia semi-cristianizada e desde sempre independente, com o negro da afirmação continental moderna.

 

Todas as bandeiras contam uma história. A da Índia tem o verde muçulmano ao lado do laranja hindu. A 'roda de bicicleta' ao centro tem 24 aros, que repesentam as 24 horas do dia. Diz-se que a da Áustria, com o duplo vermelho entrecortado de branco, nasceu quando Leopoldo IV, ao chegar de uma batalha, reparou que o seu uniforme alvo estava manchado de sangue; mas, na parte de dentro, tudo continuava branco. Por milagre, tratava-se do sangue de outro que não do arquiduque.

 

 

Há a bandeira do 'Decepado', Duarte de Almeida, que segurou o estandarte de Portugal mesmo depois de lhe cortarem as mãos, na malfadada batalha de Toro, era Afonso V rei de Portugal e pretendente de Castela. Há as bandeiras brancas da paz ou da rendição – que não são a mesma coisa - e as negras da miséria, que é sempre igual. Há as do arco-íris, adoptadas por aqueles que defendem a semelhança dos sexos na diversidade do amor. E há a bandeira hasteada ao contrário, que em termos militares simboliza a tomada do território pelo inimigo e um lancinante pedido de socorro; não era essa a ideia do Presidente cessante quando içou a verde-rubra de pernas para ao ar, comemorando a República, a 5 de Outubro de 2012. E no entanto...

 

Os impérios deixam marcas nas colónias. Não é por acaso que a bandeira de Ceuta tem os campos triangulares a preto e branco, como Lisboa, ostenta o escudo de armas do reino de Portugal e a cidade tem como lema 'sempre nobre, leal e fidelíssima cidade de Ceuta'. O mesmo ocorre em muitas possessões do antigo Império Britânico, que ainda hoje levam a 'Union Jack' – bandeira do Reino Unido – num dos cantos do rectângulo flamular.

 

Bandeira actual da Nova Zelândia, com a Union Jack

 

Os casos mais conhecidos de identificação britânica são, hoje em dia, a Austrália e a Nova Zelândia. Ou eram. A partir de hoje e até ao próximo dia 24 de Março, os neo-zelandeses são convidados a votar, através de referendo, na persistência da actual bandeira ou na sua substituição por outra, entretanto escolhida como possível alternativa.

 

É preciso perceber o que é a Nova Zelândia para comprender o porquê da possibilidade de mudança. Há uma piada recorrente que diz que a Nova Zelândia não existe. Na maior parte dos planisférios, que gostam de pôr o Oceano Pacífico nas pontas e a Europa e a África ao centro, a Nova Zelândia é aquela coisa retorcida, lá em baixo ao fundo à direita; às vezes nem sequer se vê, porque a partição do mapa corta os antípodas.

 

 

Mas o pior de tudo é que não é qualquer um que distingue a bandeira da Nova Zelândia da da Austrália. E, já se sabe, os pequenos é que têm de se pôr em bicos de pés, os grandes vêem sempre o espectáculo como se estivessem na primeira fila. A Nova Zelândia, coitada, além de ainda ficar mais longe do resto do planeta do que os seus vizinhos mais próximos – de Sidney a Wellington são uns 'meros' 2200 quilómetros, tantos como daqui à Holanda, pátria da velha Zelândia – tem como estandarte algo muito semelhante ao que se ergue na enorme Austrália.

 

Mas há mais. Ao contrário dos aborígenes australianos, cuja sorte malvada faz corar de vergonha os índigenas norte-americanos, os povos autóctones da Nova Zelândia têm vindo, paulatinamente, a afirmar os seus direitos. Desde o início do século XX, aliás, que as armas do brazão da Nova Zelândia ostentam, ao lado de uma mulher branca – a cara chapada de Alice Spragg, uma 'socialite' de Wellington – um guerreiro maori. Tanto ou tão pouco que os 'pakheas' – nome maori para os colonizadores brancos, mas que muitos descendentes de europeus assumem sem qualquer afronta, até para se distinguirem de imigrantes recentes, os 'tauiwi' – já começam, nas suas franjas mais conservadoras, a torcer o nariz. Há quem diga que ser maori, na Nova Zelândia, já é um privilégio.

 

Daí que manter as armas do Reino Unido esteja a ficar fora de moda. E há que inovar. Para isso, o Governo local lançou um concurso público de ideias, que pudesse trazer à estampa uma nova bandeira para ombrear com a velha. Foram exactamente 10.292 os desenhos que, ao longo do ano passado, deram entrada nos escritórios do comité oficial instalado de propósito para escolher a alternativa. Nesse caminho, o Executivo de Wellington já gastou 26 milhões de dólares locais (qualquer coisa como 16 milhões de euros) na empreitada.

 

O processo passou por diversas fases. Em primeiro lugar, foram escolhidos 40 desenhos, que foram postos à consideração dos 4,5 milhões de neo-zelandeses residentes, mais os cerca de um milhão de emigrantes. Depois foram escolhidas quatro possíveis bandeiras, três das quais muito parecidas. Uma ganhou. E é essa, a par da actual, que vai ser posta em referendo a partir de hoje.

 

Imagem da bandeira que a Nova Zelândia vai referendar em março de 2016. 

 

No fundo, trata-se de mandar, ou não, para os anais da História a Union Jack, substituindo-a pela folha de feto que é endémica na flora neo-zelandesa, e que já representa o país nas camisolas das selecções de vários desportos, e desde logo no mais importante, o râguebi. A 'silver fern' deverá aparecer sobre fundo negro e azul, de forma oblíqua na diagonal do rectângulo, acima das quatro estrelas da constelação do Cruzeiro do Sul que já fazem parte da bandeira actual. Ganhou a uma outra em tudo igual, excepto na cor preta – tinha essa parte a vermelho.

 

Segundo as sondagens mais recentes, cerca de metade dos neo-zelandeses estão disponíveis para uma mudança; mas 24% adiantou que faz depender o seu voto da hipótese escolhida. Espera-se uma luta renhida, na terra planetária que mais tarde foi habitada. Só há sete séculos – o tal XIII desta história das bandeiras – é que chegou gente da Polinésia, da Malásia e, eventualmente, da China insular, à Nova Zelândia.

 

Eu, por mim, cheguei mais tarde. Quando, em 1998, aterrei em Wellington, tinha a ideia de ir encontrar uma Austrália mais pequena. Vinha de Sidney, Melbourne e arredores e estava fascinado com a alegria, a liberdade, o mar surfista e as belezas naturais ou maquilhadas da ilha que é um continente. Nada mais falso. As neo-zelandeses de compridas saias pretas e golas até ao pescoço ficam coradas quando a gente as interpela nas ruas. Os homens pouco elegantes que povoam os bares às seis da tarde são de trato distante. Pode ter sido pouca sorte minha. Afinal, nem tive tempo de ver as ovelhas.

 

publicado às 15:21

Os meus ecos de Umberto

Por: Márcio Alves Candoso

 

 

Achei interessante ir ler, no Facebook, o que se diz de Umberto Eco. Soa-me como a vingança. O homem que abominava as redes sociais – 'deram o direito a falar a legiões de idiotas' – não escapou, na sua morte, ao escrutínio das mesmas. Mas presto-lhe vassalagem. Ele tinha razão quando disse – e se mais não dissesse, e muito disse, isso quase bastava para a imortalidade – que não há texto ou livro que escape, nem que se complete, sem a interacção do leitor. Na verdade, é de uma 'obra aberta' que falamos quando lemos as diversíssimas leituras que todos fazemos das mesmas coisas que o mesmo diz. O eco – sim, não escapo ao som e ao signo – das suas palavras é entendível de modo diverso conforme o receptor. E mais do que isso – cada um amplia a parte da sua imensa retórica que mais lhe interessa. Quem fala de tudo e de todos arrrisca-se a milhentas interpretações, ou era essa mesmo a sua intenção? Talvez só o próprio Umberto soubesse responder a isto.

 

Há, nos computadores e na Internet, tal como Eco soube antes de todos, uma perversão do tempo, no que ao passado e à História diz respeito. Vejamos o 'word' em que agora escrevo. Se não o sinalizar com uma data, basta um dia mudar-lhe vírgulas para que ele assuma o tempo novo e revisto; e perde-se para sempre o dia em que escrevi primeiro. Por velhice ou sabedoria – ou as duas coisas entrelaçadas –, Umberto Eco ficou-se pelos livros, quer os ensaios que enunciou abundantemente enquanto académico, quer os romances que, segundo ele, começou a escrever quando já tinha feito quase tudo – ou seja, aos 48 anos. Ou ainda, e sempre numa versão do próprio, porque quando não se pode teorizar deve narrar-se.

 

O que é um pouco a vida que lhe fui apercebendo. Um homem que dizia que a mentira tem muito mais interesse do que a verdade – 'o que torna os signos interessantes não é servirem para dizer a verdade, mas poderem ser usados para mentir ou falar de coisas que nunca vimos' –, tinha por força de ir além da criação de uma ciência. Para quem, como eu, ainda hoje ser semiótico e não semiológico faz quase tanto sentido como a frase de Bond 'shaked not stirred', é evidente que se pode ler Eco no esoterismo ou na sua recriação quase cómica. E no entanto – lembram-se? - foi por causa do riso que morreram frades.

 

Aliás, numa das suas últimas entrevistas – já se pode dizer últimas, e não 'mais recentes', porque a morte dá-nos o direito a só ter passado -, o professor de Bolonha e autor de 'O Nome da Rosa' anunciava que não tinha ainda iniciado a sua próxima obra, que era um ensaio sobre a comédia. Não teve tempo. Alguém aí para o fazer? Não se importará Eco, de certeza, com isso. Não um homem que dizia que a literatura universal era sempre repetição, e que já Homero repetia a tradição oral, milenar, anterior a ele. 'Se os textos são máquinas preguiçosas que precisam da colaboração do leitor, então este, quando passa a escritor, reescreve essa mesma obra que o influenciou'. E 'quando lemos um livro devemos perguntar a nós próprios não o que diz, mas o que significa'. Foi ele que disse, e já não pode voltar com a palavra atrás.

 

Lembro-me bem do dia em que Umberto Eco me foi apresentado. Lembro? Não, minto. Sei porque dato os livros que vou comprando, e a minha memória é tão só isso e o efeito que me ficou de os ler. É um daqueles ensaios curtos, sessentistas, sem data por mim descoberta mas exalando data no que escreve, que o autor publicou por volta da 'Obra Aberta' e dos 'Apcalípticos e Integrados'. Era sobre vestuário, uma paixão minha antiga, que Eco titulou de forma banal 'O Hábito faz o Monge'. Nos livros, como ele dizia, por vezes procura-se uma forma de nos justificarmos; e eu fiquei contente, naquele Fevereiro de 79 em que li o texto, quando ele me disse que, no que vestimos, está uma forma de nos exprimirmos, que é algo mais do que comunicarmos e diferente de exibirmo-nos. Daí partia para a arte da sedução pelo gesto/signo, os trajes do teatro como denotações, ou a mini-saia, que naquele tempo, dizia ele, na Catânia [Itália profunda] transmitiria a ideia de uma rapariga leviana, em Milão a de uma rapariga moderna, em Paris a de uma rapariga, tão só, e em Hamburgo, no 'red district' da Rieperbahn, poderia muito bem ser um rapaz...

 

Sobre o islamismo e a sua invasão da Europa, assume a sua faceta de 'pop-star' que é um pouco parte da sua segunda metade da vida

Falava de religião mas não esquecia o diabo. Era tão incoerente como qualquer um que muito pensa, muito escreve e muito diz. Na revisitação que lhe faço, à hora da sua morte, encontro o que sempre dele tive – umas coisas sim, outras coisas não. Umberto Eco é, para além de um precursor, um 'self-service' de citações. Não esqueceu que a religião tanto pode ser, como dizia Marx num dia aziago, o 'ópio do povo', como a sua cocaína, porque para muitos funciona como um despertar e acelerar a revolta, tida como redenção.

 

Sobre o islamismo e a sua invasão da Europa, assume a sua faceta de 'pop-star' que é um pouco parte da sua segunda metade da vida. Tão depressa lemos textos em que fala de 'nazismo islâmico' – mas pior que o primeiro, porque este está no meio de nós, não para lá de uma fronteira de guerra que dele nos separa, e que nos permitiu combatê-lo eficazmente, segundo Eco – como em seguida se mostra entre o justificativo e o complacente para com as migrações actuais. Umberto Eco era um europeísta convicto. Em dez minutos, no mesmo texto, assume o terror pelo futuro dos netos, numa sociedade islamizada e numa Europa que 'vai mudar de cor', na qual vai 'correr muito sangue', logo antes de afirmar que, quem não encarar a mudança - que prevê inelutável – 'mais vale suicidar-se'. Acredita que, um dia, se encontrará um novo equilíbrio, como depois das invasões bárbaras no Império Romano, mas que antes acontecerá 'algo de terrível'.

 

Mas culpa a França, por ter querido impor a ética da República aos migrantes – ele não põe 'i' antes da palavra – sem nunca ter conseguido integrá-los, afastando-os para guetos nos subúrbios. 'Se os muçulmanos morassem em redor de Nôtre-Dame seriam diferentes', sustentou já depois dos atentados ao 'Charlie Hebdo'. 'Um muçulmano em França torna-se fundamentalista porque a sua integração não foi completa nem podia ser, a longo prazo pode haver integração, mas no curto não; e a não integração produz uma reacção que só pode ser o ódio', afirma. Parece óbvio, que para o historiador/filósofo, o 'longo prazo' tem uma largura imensa.

 

Um homem que, de si próprio, dizia que o fim da vida lhe tinha dado para odiar a Humanidade, continuava a ser um optimista a quem, aparentemente, tinham roubado o húmus de que alimentava essa esperança, roteada na guerra erm Itália e nas esquinas onde se escondia, diz ele, 'porque numa esquina há sempre dois lados para onde fugir'. Da Universidade onde passou grande parte da vida – principalmente em Bolonha, mas convidado em Columbia, Toronto, Harvard, Collège de France e mais meia dúzia – dizia agora que era boa ideia tê-la aberto a tanta e tanta gente. Mas logo depois aduzia que o facilitismo recente encerra uma perversão inelutável. 'Nos três primeiros anos [das faculdades] os alunos não lêem livros com mais de cem páginas; no meu tempo tive que ler milhares e milhares de páginas e não morri por causa disso', desabafava.

 

Termino com uma nota pessoal. Umberto Eco, a certa altura, 'meteu-se' com o Super-Homem. Não um ensaio sobre Nietzsche, mas sim sobre o personagem da BD americana. Sob o seu olhar semiótico – que não é, cedo uma vez mais à anedota, ver só com um olho -, o leitor das aventuras do 'homem de aço' inventado por Jerry Siegel é subjugado à condição de fantoche dominado pela propaganda do poderio norte-americano, ilustrada na força do super-herói que tudo resolve em três tempos. Uma imagem que faz ascender o cidadão comum, personificado pelo seu alter-ego Clark Kent, ao seu desejo de perfeição, ao rechaçar da sua impotência para vencer as frustrações. Baseado no que lhe impelem as aspirações de status, de nível social, inconscientemente integrado, o sujeito esquece-se e perde a sua identidade.

 

Mas eu sempre quis ser Clark Kent. Já não vou poder perguntar a Eco se tenho alguma coisa de errado.

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado às 20:08

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