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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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O que não verá dos Jogos Olímpicos mesmo que aconteça

Por: Pedro Fonseca

 

Viu as imagens do músico brasileiro que transportava a tocha olímpica a mostrar as nádegas e a ser imobilizado pela polícia brasileira? Se as não conseguiu ver, é porque provavelmente estava sintonizado num dos canais de televisão credenciados para os Jogos Olímpicos, que decorrem de 5 a 21 de Agosto no Rio de Janeiro, no Brasil. É um controlo olímpico.

 

 

O Comité Olímpico Internacional tem regras rígidas para as pessoas credenciadas nas Olimpíadas publicarem nos media e nas redes sociais. De atletas a jornalistas, todos têm de cumprir estas regras ou podem ser penalizados. O músico Tarcísio Gomes transportava a tocha olímpica já dentro da cidade brasileira quando mostrou as palavras "Fora, Temer" escritas no rabo, em protesto contra o presidente interino Michel Temer. Mas a maior parte dos espectadores não viu nada disso - precisamente porque estas regras existem.

O transporte da tocha olímpica teve outros incidentes, mas poucos foram revelados nos orgãos de comunicação social credenciados.

 

Também a cerimónia de inauguração terá um truque sonoro, após a única frase que Temer irá dizer: "declaro abertos os Jogos do Rio, celebrando a 31ª Olimpíada da era moderna". Depois, a música será elevada para "evitar que as emissoras de televisão captem um possível momento constrangedor com vaias ou xingamentos do público contra Temer", antecipou o jornal Folha de S. Paulo.

 

Este controlo mediático, para que tudo pareça correr bem num evento desta dimensão, ocorre porque o Comité Olímpico Internacional (COI) tem regras para os credenciados em cada um dos seus eventos, além das emitidas pelos "comités olímpicos nacionais ou outras organizações".

 

 

Diário sim, notícia não

 

Este ano, as directrizes do COI para os media sociais e digitais (aprovadas em Outubro do ano passado e em vigor desde a abertura da Vila Olímpica, a 24 de Julho passado, até ao seu encerramento) implicam que "todos os atletas, técnicos, agentes, funcionários de comités olímpicos nacionais e de federações internacionais e membros de meios de comunicação credenciados" não podem visar nas suas mensagens "fins de protesto ou qualquer forma de propaganda política, religiosa ou racial".

 

Apesar do COI estimular a participação nesses media, impõe que tal só pode ser "feito em formato de diário na primeira pessoa" (para não se confundirem com notícias) e respeitadas as suas directrizes. Estas dizem, por exemplo, que "o uso de palavras ou imagens vulgares ou obscenas é proibido", mas não se explicita o que é "vulgar". E o texto opinativo é permitido mas é necessário deixar "claro que as opiniões expressas são" as dos autores.

 

Os credenciados estão ainda autorizados a registar "áudio ou vídeo dos eventos, competições ou quaisquer outras actividades que ocorrerem em locais olímpicos para seu uso pessoal", mas não o podem colocar nos media digitais - em "streaming" ou em qualquer outro tipo de media - sem aprovação prévia do COI. E "nenhum equipamento de TV, tripé ou monopé é permitido" para o registo e posterior partilha pessoal desses momentos.

 

Estes conteúdos "devem ser exclusivamente para uso pessoal e não podem ser carregados nem partilhados em qualquer site de Internet, blogue, página de media sociais, sites de partilha de fotos ou vídeos ou outras aplicações móveis". Ou seja, não é permitida a transmissão de imagens em "streaming" - mesmo nas competições em que entram os próprios atletas.

 

Controlo das marcas

 

Os credenciados para os Jogos Olímpicos também não podem usar os símbolos registados nem sequer a palavra “olímpico” ou outras relacionadas com as Olimpíadas, como emblemas ou mascotes dos comités olímpicos nacionais "e/ou Rio 2016", sem "a aprovação prévia por escrito" dos comités nacionais ou do organizador da Rio 2016.

 

Mesmo um endereço na Internet, nos media sociais ou em aplicações móveis que usem as palavras "olímpico", "olímpicos" ou outros termos semelhantes e que possam ser relacionados com os Jogos Olímpicos (incluindo "idiomas diferentes do português") "não são permitidos, a não ser quando aprovados previamente pelo COI".

 

O controlo destas marcas é de tal forma restrito que "as pessoas credenciadas não podem criar websites, aplicações ou quaisquer outros recursos autónomos com temas olímpicos", incluindo aqueles potenciais "para hospedar a cobertura dos Jogos". A restrição impõe-se igualmente a terceiros que façam a gestão desses endereços online ou em aplicações móveis.

 

Os direitos exclusivos incluem "o símbolo olímpico, bandeira, lema, hino e identificações (inclusive, mas sem limitação, 'Jogos Olímpicos' e 'Jogos das Olimpíada'), designações, emblemas, chamas e tochas, denominados, colectiva ou individualmente como 'Propriedades Olímpicas'").

 

Ainda segundo o COI, não é sequer possível "divulgar qualquer informação que seja confidencial ou privada em relação a outra pessoa ou organização" dentro da cidade olímpica - sem se especificar, mais uma vez, a abrangência desta norma.

 

As infracções permitem ao COI "cancelar o credenciamento da pessoa ou organização responsável", entre outras sanções com efeitos legais, nomeadamente sobre a violação dos direitos das suas marcas.

 

Por outro lado, "durante o período dos Jogos, as pessoas credenciadas não estão autorizadas a comercializar [as] suas actividades de medias sociais e Internet", mas "podem publicar sobre [os] seus patrocinadores, promover qualquer marca, produto ou serviço em media sociais ou digitais" após terem "obtido a aprovação prévia por escrito do COI ou do respectivo comité olímpico nacional".

 

Media exclusivos e justos

 

As normas para os orgãos de comunicação social são igualmente restritivas, nomeadamente na transmissão de imagens. O COI assume, num documento de Maio de 2015 sobre "as regras para acesso a notícias aplicáveis à transmissão dos jogos da XXXI Olímpiada", que "possui os direitos aos Jogos Olímpicos e a todos os eventos relacionados, incluindo todos os direitos de propriedade intelectual dos e para os Jogos Olímpicos, e todo o fundo de comércio associado, bem como todos os outros direitos, propriedades e participações de todos os tipos e natureza relacionados à organização e realização dos Jogos Olímpicos, incluindo a transmissão, cobertura e exibição dos Jogos Olímpicos e qualquer outra forma de exploração, registo, representação, comercialização, reprodução, acesso e disseminação por quaisquer meios ou mecanismos de qualquer tipo", sejam os "existentes actualmente ou desenvolvidos no futuro".

 

Apesar de os Jogos Olímpicos serem um evento de interesse público, apenas "as transmissoras detentoras de direitos (TDD) podem ter o direito de transmitir e exibir" os mesmos. Para o COI, "nenhuma outra organização pode transmitir e exibir som ou imagens em movimento de qualquer evento olímpico, especialmente sessões de treino, acções desportivas, a cerimónia de abertura, a cerimónia de encerramento e cerimónias de vitória, zonas mistas, entrevistas ou outras actividades que ocorram em locais olímpicos". Estas denominadas "Regras para Acesso a Notícias (RAN)" visam "o propósito exclusivo de permitir reportagens justas sobre os Jogos" durante os mesmo por quem não é detentor de direitos (os referidos TDD).

 

Assim, é "rigorosamente proibida" a transmissão de imagens "pela Internet, plataformas móveis ou de outra forma", até porque "o material olímpico só será fornecido a agências de notícias ou não-TDD caso estas forneçam uma garantia prévia por escrito, em forma e substância satisfatórias para o COI, de que cumprirão integralmente todos os termos e condições destas RAN".

 

Há, ainda assim, a possibilidade das não-TDD exibirem esses vídeos "somente com o acordo específico por escrito da TDD local". Neste caso, terão direito a seis minutos de "material olimpico por dia", que só "pode aparecer em no máximo três programas de notícias por dia" e "não mais do que dois minutos" a "ser usado em qualquer programa de notícias individual", que devem ainda "ser separados por um período de no mínimo três horas".

 

Em síntese, e apesar da enorme duração do "material olímpico", o COI define o tempo para os operadores transmitirem os seus conteúdos, influenciando a agenda noticiosa desses meios.

 

 

Gerir a "realidade concreta"

 

Como se não chegasse, esse "material olímpico só pode ser usado por um período de 48 horas após a conclusão do evento olímpico", e apenas pode ser usado posteriormente com "a autorização expressa por escrito do COI".

 

Os não-TDD não devem ainda "empreender entrevistas por [telemóvel] com atletas e representantes das equipas" e "não alterar nem modificar por quaisquer meios a realidade concreta de qualquer evento em transmissão ou exibição, dos participantes em tal evento, do desempenho de tal participante ou do local de qualquer evento".

 

Quando se pensa que um organizador olímpico chegou ao fim das exigências relativas à emissão noticiosa de um seu evento olímpico descobre-se que, "para fins de cobertura de conferências de imprensa oficiais", os não-TDD apenas as podem transmitir "sem quaisquer restrições territoriais, desde que haja um atraso de, pelo menos, 30 minutos a partir da [sua] conclusão".

 

Além das "reportagens justas", o COI prevê "adicionalmente" que "todo o material - sejam destaques, entrevistas ou outros clipes associados", deve igualmente "ser geobloqueado adequadamente para o território apropriado". Dito de outra forma, "a transmissão do material olímpico na Internet ou plataforma móvel não pode estar acessível para pessoas fora do território específico" e "qualquer transmissão" nesses meios "é expressamente proibida".

 

Este geobloqueio (que permite a emissão de vídeos num dado país mas não noutro), e que várias organizações europeias querem extinguir, foi igualmente abordado pela Comissão Europeia, mantendo excepções que o COI pode argumentar - com toda a razão, actualmente - serem válidas para estas suas "directrizes".

publicado às 21:14

Agora tu és um cavalo de corrida

Por: Rute Sousa Vasco

O que fica a saber do mundo, sobretudo em momentos de grande tensão, um leitor que lê informação nos sites e nas redes sociais? No conforto preguiçoso do seu sofá, ou no espaço higienizado do seu escritório, que informação é dada naquele fuso que se tornou obrigatório nas notícias – o “agora”? O que sabe, na realidade, o caríssimo leitor sobre o que se está a passar no interior de uma igreja no norte de França ou num restaurante, no sul da Alemanha?

 

 

Sabe o que lhe dizemos. Agora, dizemos que são dez feridos. Agora, dizemos que já há um morto. Daqui a um minuto, no próximo agora, dizemos que afinal são onze feridos. Depois dizemos que o morto é sírio e que terá sido abatido. Mais um agora, e afinal já se sabe que se suicidou. Dizemos que um padre foi morto por um mulçulmano. Dizemos que um miúdo matou outros dez, porque era muçulmano. Começou por ser turco, passou por alemão, agora parece que é iraniano e de extrema-direita. Afinal não, era só manipulação para dividir a opinião. Mais um agora e afinal há menos feridos. Melhorou. Mas afinal o padre foi degolado. Piorou.

 

 

É isto que se sabe. O que não se sabe é como hoje a informação se tornou, provavelmente, a área mais difícil e ao mesmo tempo mais fácil para se trabalhar. Tudo depende da perspectiva. É fácil publicar – fácil como nunca foi. É estranho o que significa hoje “publicar” – significa, em grande medida, seguir o que outros escrevem, nos seus sites, ou em redes sociais, onde no que respeita a primeiras notícias (ou últimas horas, como quiserem), o Twitter é rei. Quem é rei no Twitter? Depende. Há reis encartados pela reputação de anos, há oportunistas malévolos e há súbitas fontes de informação directas – como foi o caso da página de Twitter da polícia de Munique, na sexta-feira passada, que foi a referência de muitos jornalistas para seguir o tiroteio que teve lugar na cidade alemã.

 

 

Mas é mais difícil do que nunca trabalhar informação naquilo que distingue o jornalismo de um outro qualquer produto de consumo. Num negócio que luta por novas receitas e por novos modelos de negócio, tudo parece boa ideia a alguém em algum momento. Jornalistas, gestores, vendedores de publicidade, tecnólogos, gestores de redes sociais, por aí fora. E é legítimo – é preciso experimentar, é preciso testar, é preciso não desistir. O problema é que a linha que separa o que se pode fazer quando se trata de informação do que não se pode fazer é ténue para muitos, mas quase sempre está preparada para electrocutar. Uma vez passada, já alguém se fritou. E não tem problema – há muito lugar na selva dos media contemporâneos para produtos fritos, provavelmente até mais do que para o jornalismo saudável. Mas, é tal qual escrevia Katherine Viner, a directora do The Guardian, num artigo sobre a verdade nos tempos da tecnologia. “Nos últimos anos, muitas empresas jornalísticas afastaram-se do jornalismo de interesse público e apostaram em notícias junk-food, correndo atrás de pageviews e com a vã esperança de atrair cliques e publicidade (ou investimento) – mas, tal e qual como acontece quando comemos junk food, odiamo-nos por ter feito isso”.

 

 

Ser rápido tornou-se o requisito principal de uma profissão que tem como missão reunir factos e propor interpretações sobre os mesmos. Agora é suposto fazer isso em menos de 30 segundos, porque numa janela qualquer do nosso computador já outro editor em qualquer outro site ou rede está a ser mais rápido a teclar. Com erros inevitáveis, demasiadas vezes sem confirmação, cheios de verbos no condicional, aí vamos nós, em direcção ao precipício da publicação. Mas é preciso publicar, rápido.

 

 

Ao compasso impiedoso de cada tweet, de cada trending topic, de cada post, de cada link, de cada última hora.

 

 

E é também assim que estamos a deixar fermentar a selvajaria – a pior de todas, aquela que nos vai deixar selvagens perante a selvajaria do mundo lá fora.

 

 

Em muitas redacções, não se pensa, tecla-se. Quem quer discutir princípios e consequências, não tem perfil. Há métricas para avaliar quantos artigos são publicados ou produzidos – curiosamente o termo “escritos” quase caiu em desuso nesses espaços – por hora. Publica, publica, publica. O que conta é chegar primeiro e publicar muito. Não é um problema só nosso – é um problema da maior revolução de sempre na forma como comunicamos, informamos e nos relacionamos.

 

 

A New York Magazine entrevistou mais de quarenta jornalistas e profissionais de media sobre a sua profissão. Vale a pena ler os resultados integrais, mas deixo um pequeno aperitivo.

 

 

Dos inquiridos, 75% acham que a internet foi boa para o jornalismo. Mas 44% respondem que o jornalismo é hoje pior do que há dez anos versus 36,7% que consideram que está melhor. 75,2% afirmam que sentem pressão para produzir histórias que sejam atractivas para a audiência. E de onde sentem a principal pressão? Da audiência? Não. Do patrão (41,07%) e aquela que o próprio jornalista exerce sobre si próprio (36,5%). Audiência só conta 17,8% nesta equação.

 

 

Já agora, 81,5% destes inquiridos dizem que os media ajudaram a “criar” Donald Trump.

 

 

E é aqui que me lembro de uma pergunta que há sempre alguém que faz. Qual é o mal? Apetece-me hibernar cada vez que ouço esta pergunta. Não pela sinceridade e mesmo ingenuidade com que alguns a farão. Mas, mais uma vez, pela inconsequência. Qual é o mal de não ter mal perguntar sempre qual é o mal? É que nada tem importância, porque tudo só dura uns escassos minutos e depois ninguém se lembra. São Dorys, o peixinho de águas quentes, feliz porque desmemoriado.

 

 

Tenham um bom fim de semana

 

 

 

Outras sugestões de leitura:

 

 

Hoje as sugestões de leitura de ficam integralmente em casa, ou seja, no SAPO24. Porque a oferta é boa e vale a pena o vosso tempo.

 

 

A primeira sugestão é um artigo da Helena Oliveira sobre uma nova epidemia, a do narcisismo. Qual Narciso, há cada vez mais pessoas apaixonadas pelo seu próprio reflexo e assim se multiplicam posts, fotos, streaming da vida diária. Psicólogos, filósofos e outros cientistas sociais estão preocupados com uma epidemia que cresce mais depressa que a da obesidade.

 

 

A segunda gestão, na semana em que Hillary Clinton se tornou a primeira mulher candidata à presidencia americana por um dos grandes partidos, é a leitura do artigo do José Couto Nogueira sobre as mulheres que antes dela tentaram lá chegar

 

publicado às 14:41

As notícias fazem mal à saúde?

 

 

Por: Francisco Sena Santos

 

Rolf Dobelli (1966, Lucerna, Suiça), formado em filosofia, saltou para a fama na Alemanha com livros de leitura simples sobre bom desempenho no trabalho. 'The Art of Thinking Clearly' vendeu mais de 500 mil exemplares e está traduzido em 30 países, entre os quais Portugal, onde está disponível como 'A Arte de Pensar com Clareza' (Almedina, 2013). Dobelli gerou controvérsia quando publicou um artigo em que argumenta que a leitura, escuta ou visão das notícias que nos são constantemente servidas faz mal à saúde: perturba o estado emocional, afecta a capacidade de concentração, diminui a reflexão e a criatividade. Ele chega a sustentar que “o excesso de notícias está para o cérebro assim como o açúcar para o corpo”. Fala de abuso tóxico, que desgasta a memória breve e o potencial de pensamento com o consumo de informações que não tem qualquer utilidade prática. Denuncia o gasto inútil de energias que fazem falta ao bom jogging cerebral e ao pensamento ponderado, o slow thought, como lhe chama.

 

Não imagino que algum jornalista possa concordar com o essencial desta argumentação de Dobelli. Talvez o equívoco esteja no modo como ele põe a questão: não é nas notícias que há problema, poderá haver no modo como elas nos são servidas ou como as consumimos. Um noticiário é suposto ser uma ocasião de informação que acrescenta valor para a análise que nos permite entender o que está à nossa volta, perto e longe. Infelizmente, a prática diária está a mostrar-nos que é muito questionável o conteúdo de muitos noticiários cuja agenda, que produz efeito de contágio, vive da exploração de sentimentos e crimes. As deformações emocionais da realidade desviam o espaço que seria útil para dar a compreender mais do mundo.

 

Há tendência para redução nos jornais do espaço dedicado à análise dos media. Um dos casos que apetece analisar é o de um jornal de excelência, como é The Guardian, fonte de informação global e marca de qualidade consolidada ao longo de 195 anos. The Guardian foi criado em Manchester em 1821, a partir da filantropia da riquíssima família Scott que investiu na publicação de um jornal diário que pudesse noticiar e promover a causa da liberdade e do jornalismo liberal ao abrigo da pressão de interesses políticos ou económicos. Em fundo, The Guardian teve sempre alma liberal, entenda-se: de centro-esquerda. Sempre com grande dedicação às artes e à cultura. Em 1936, para consolidar o futuro do jornal em tempos turbulentos, a família Scott dedicou muito da sua enorme fortuna à criação de um avultado fundo financeiro, o Scott Trust, com dupla finalidade: garantir a independência e a perpetuidade do jornal. O fundo gera rendimentos com a exploração de outros negócios, sendo que o lucro reverte sempre para consolidar a marca Guardian News and Media.

 

É com esses vastos recursos e com a política editorial adoptada que The Guardian se tornou referência global no jornalismo. O facto de em 195 anos ter tido apenas 11 editores atesta a estabilidade do jornal e do grupo. Um dos editores mais marcantes é o visionário jornalista Alan Rusbridger, que dirigiu o jornal por 20 anos, entre 1995 e o verão passado. É com ele que The Guardian se expande para marca global. Rusbridger teve a possibilidade de dedicar muitos milhões de libras de orçamento anual para colocar The Guardian como o terceiro sítio digital de notícias em língua inglesa mais procurados no mundo (os dois primeiros são The New York Times e o popular Daily Mail, de Londres).  

 

Com Rusbridger, The Guardian recebeu em 2014, a meias com The Washington Post, o Pulitzer, o mais relevante prémio internacional de jornalismo, com as revelações de Edward Snowden. Antes, já tinha marcado a agenda informativa com os documentos Wikileaks sobre a guerra no Iraque e no Afeganistão. Rusbridger apostou o máximo de recursos que conseguiu na edição digital. Investiu milhões para criar um gigante digital nas notícias.

 

Mas o disparo da relevância e influência do jornal é acompanhado por escalada dos prejuízos. As contas de 2015 fecharam com o grupo de imprensa The Guardian News and Media no muito vermelho défice de 45 milhões de libras (60 milhões de euros). O fundo da família Scott caiu, nos primeiros seis meses de 2015, de 838,3 milhões para 740 milhões. A quebra tinha-se tornado contínua nos últimos cinco anos. The Guardian tem 1960 trabalhadores, sendo que 750 pertencem à área editorial. Está em aplicação um plano de contenção de gastos e aumento de receitas. Já implicou a redução de 300 postos de trabalho, entre despedimentos e rescisões amigáveis. A australiana Katharine Viner substitui agora Alan Rusbridger na direcção do jornal.

 

O que é que correu mal num jornal tão bem apresentado e tão influente? Por um lado, a crise económica que trouxe drástica quebra da publicidade. Essa baixa também frustrou as expectativas publicitárias para a edição digital. Mas a questão mais discutida é a gratuitidade da edição digital. Rusbridger foi intransigente a defender que a edição do jornal é sempre totalmente aberta e gratuita. Questão que sobra: sendo o jornalismo de qualidade um produto que requer investimentos substanciais, quem paga? É possível fazer bom jornalismo e não cobrar ao utilizador? Este é o tema essencial.

 

O risco de perder muito da qualidade no jornalismo talvez nos leve aquela ameaça de que fala Dobelli. Nunca - é de confiar - será caso para dizer que as notícias fazem mal à saúde. Mas poderemos ter, já estamos a ter, inflação de notícias que são lixo. Portanto, não trazem bem.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

A interrogação do Papa numa entrevista ao La Croix: “Frente ao terrorismo islâmico devemos interrogar-nos sobre o modo como um modelo muito ocidental de democracia foi exportado para países onde havia um poder forte, como o Iraque”.

 

O deserto no Egipto agora é também de turistas. As fotografias de Luca Campigotto, no La Repubblica, mostram-nos “os esplêndidos monumentos restituídos à sua pureza, mas também a desoladora falta dos visitantes que alimentavam a economia do país”.

 

A crise do regime chavista na Venezuela está em escalada imparável. A opinião num jornal da oposição em Caracas. E o relato na CNN. Depois da Argentina e do Brasil, a Venezuela é a próxima viragem política na América Latina cansada de etiquetas esquerdistas..

 

O júri do Man Booker Prize International preferiu a sul-coreana Han Kang a Agualusa, Ferrante e Pamuk. A escolha de 2016 é “The vegetarian”, a história “numa desconcertante miscelânea de beleza e horror” de uma mulher que se torna vegetariana.

 

Um desfile pelo festival de cinema em Cannes. Alguns dos filmes a ver nos próximos meses.

 

A BBC prepara-se para lançar uma plataforma rival da Netflix. É o futuro imediato.

 

 

publicado às 08:29

A verdade e outras mentiras

 

Por: Rute Sousa Vasco

 

Antes do Twitter e mesmo no princípio do Facebook, o programa de jornalismo com mais pergaminhos na América levou para o ar uma reportagem sobre o passado militar de George W. Bush. O programa chamava-se 60 Minutes, era então conduzido por Dan Rather e a reportagem foi emitida nas vésperas das eleições que opuseram Bush a Kerry, em 2004. Dan Rather, a sua produtora Mary Mapes e uma equipa de jornalistas do programa investigaram os factos referentes ao período em que George W. Bush prestou serviço militar e sobre a forma como alegadamente teria conseguido escapar à guerra do Vietname.

 

A reportagem foi para o ar na CBS em plena pré-campanha das eleições presidenciais de 2004 e tinha matéria de facto para poder influenciar o desfecho dessas mesmas eleições – um presidente que fugiu à guerra e que levou, anos depois, milhares de americanos para outra guerra é tudo menos um tipo simpático, além de outras idiossincrasias próprias da honra e glória ianque. Mas, acabou, na realidade, por simplesmente destruir a carreira de um dos mais conceituados jornalistas, da sua produtora e por prejudicar severamente todos os envolvidos na investigação jornalística.

Tudo começou com o ataque de alguns bloggers à reportagem, evoluiu para uma verdadeira caça às bruxas, quer a quem tinha dado testemunho aos jornalistas, quer aos próprios jornalistas, e acabou com Dan Rather, o rosto do 60 Minutes, a pedir desculpa, assumindo que a sua equipa tinha sido induzida em erro. É uma história minuciosa sobre factos, processos de trabalho em jornalismo e também sobre erros que se cometem em jornalismo.

A CBS contratou um grande escritório de advogados para escrutinar todos os envolvidos - uma espécie de comissão parlamentar de inquérito mas com consequências para os visados. Dan Rather abandonou o 60 Minutes, Mary Mapes não voltou a trabalhar em jornalismo – e já lá vão 12 anos – Bush foi reeleito e a CBS manteve o seu estatuto de empresa de media que influencia e é influenciada pelos políticos.

 

«Da mesma forma que Os Homens do Presidente não era sobre Nixon, Truth não é sobre George W. Bush (…) É muito mais sobre a interseção entre a América corporativa, o sistema político e os media. E também sobre o processo de compor uma reportagem. Creio que a única razão para voltar atrás no tempo, por mais recente que o ano de 2004 possa parecer, é se tem relevância ou interesse hoje, e eu creio que ainda há muitas questões acerca da forma como recebemos as notícias que não foram realmente publicadas. Creio que ainda não processámos na realidade a diferença entre factos e opiniões, portanto parece-me um filme bastante relevante e pertinente». Isto foi o que Cate Blanchett, que interpreta Mary Mapes no filme "Truth", disse em entrevista ao Notícias Magazine a propósito da história que protagoniza.

E, à parte da discussão sobre os factos que suportam o filme, esta é a discussão que interessa mais do que nunca: o que é hoje uma notícia, como consumimos as notícias, a diferença entre factos e opinião e, por inerência, a diferença entre o trabalho de fazer notícias e o hobby de produzir comentário avulso, seja em que meio ou rede social for.

 

Só essa distinção permite que passemos à discussão seguinte e que é sobre se precisamos de jornalismo e de jornalistas e, se sim, como deve esse trabalho ser realizado numa era que o conteúdo nos explode nas mãos e nos ecrãs a cada segundo. Só para nos situarmos: há imensos conteúdos e há poucas notícias, uma ‘história’ ou ‘estória’ não é forçosamente jornalismo (nem tem de ser) e optimizar audiências com técnicas de engadgment, analytics e gurus que ensinam quais as palavras certas a colocar num título também não é igual a jornalismo. Jornalismo tem implícita essa coisa fora de moda que é a ideia de serviço público e, contrariamente ao que muitos pensam, não é a profissão de quem tirou Comunicação Social ou de quem escreve posts a toda a hora. É a profissão de quem está disposto a comprometer-se com um conjunto de regras e de quem não se esquece, mesmo quando trabalha matérias mais ligeiras, que notícia é, em muitos dos casos, aquilo que alguém não quer que se saiba e que só importante se afectar a vida de terceiros. Senão é só coscuvilhice e má língua e disso estão as caixas de comentários assinadas por ‘anónimos’ e nick names cheias.

 

Para se ser jornalista hoje é importante perceber o negócio de media? Na minha opinião, é indispensável e os jornalistas, além de parte interessada, estão especialmente bem posicionados para entender o que está em jogo e promover a discussão pública. E sim, implica perceber de tecnologia, implica perceber de publicidade e de receitas obtidas com o trabalho jornalístico, implica saber ler indicadores e implica não ter medo de experimentar novas formas de fazer jornalismo. Mas, serve de muito pouco, se não se souber para que serve o jornalismo.

 

Para quem se interessar pelo tema, recomendo a leitura do livro “Salvar os Media”, escrito por Julia Cagé, professora assistente de Economia no Institut D’Études Politiques de Paris, e com prefácio do célebre Thomas Piketty. Que escreve a certo ponto “cada um de nós convirá que um jornal vivo e maltratado vale porventura mais que um jornal morto e respeitado”. Uma frase com um quê de Lili Caneças mas com bastante mais substância. Deste livro, importa reter várias outras pistas de discussão e alguns dados objectivos. Como, por exemplo, o valor das receitas de todos – todos – os jornais americanos versus as receitas de uma só empresa, seja o Google ou o Facebook. Ou sobre a vertigem do instantâneo e o valor que tem para os leitores. “Os jornais despendem uma crescente energia a publicar o mais depressa possível despachos de agências nos seus sítios na internet como se a capacidade de resposta no copia-e-cola tivesse mais importância que a recolha de informação original”.

 

A história de Dan Rather e Mary Mapes é sobre informação original e relevante. O filme resulta da adaptação do livro de memórias de Mary Mapes, Truth and Duty: The Press, the President, and the Privilege of Power e tem vários momentos de antologia. Deixo-vos com um. Mike Smith, um dos jornalistas da equipa do 60 Minutes, pergunta a Dan Rather por que se tornou jornalista. “Curiosidade”, é a resposta. Dan Rather devolve a pergunta a Mike Smith: “E tu, porque te tornaste jornalista?”. “Por tua causa”, é a resposta.

 

Tenham um bom fim-de-semana

 

 

Outras sugestões:

 

 

Para nos mantermos sintonizados no tema. Os jornalistas deixaram ontem Pablo Iglesias, a falar sozinho, depois do líder do Podemos ter feito um conjunto de acusações às alegadas motivações e dependências da classe jornalística. Nos comentários de redes sociais e das notícias percebe-se que muitos leitores concordam com o politico – precisamente por razões que também passam pela análise ao filme “Truth” e que ultrapassam em larga escala apenas os jornalistas. O que só reforça a importância de discutirmos quem escrutina os media, mas, tão ou mais importante, se também se escrutina todas as opiniões elevadas a factos.

 

E para aligeirar a sexta-feira, um belo trabalho da BBC sobre o clube-conto-de-fadas que está à beira de ganhar o campeonato inglês de futebol, o Leicester.

Começa assim: "Lie-kester."

"No, Leicester."

"Less-ester?"

"No, Leicester. As in Lester."

"Oh. Why is it pronounced like that?"

 

 

(*) Onde se lê agora ecrãs estava numa primeira versão cabeças. 

(...) Só essa distinção permite que passemos à discussão seguinte e que é sobre se precisamos de jornalismo e de jornalistas e, se sim, como deve esse trabalho ser realizado numa era que o conteúdo nos explode nas mãos e nos ecrãs a cada segundo.

publicado às 11:38

O sultão que fecha os jornais adversos

Por: Francisco Sena Santos

O governo turco que ontem esteve em Bruxelas a fazer-se caro, com exigências políticas e financeiras no bazar montado na cimeira da Europa – que tem estado bloqueada pela crise dos refugiados – é o mesmo que se dá mal com as liberdades, em especial a de informação.

 

No fim de semana, assaltou e pôs à sua ordem o controlo editorial do Zaman, o jornal diário com maior tiragem (770 mil exemplares por dia) na Turquia. Em 26 de novembro, o regime no poder na Turquia tinha mandado prender o director e o chefe de redação do histórico Cumhuriyet (este nome significa em turco "A República"), o jornal diário mais antigo na Turquia. Uma hostilidade que em ambos os casos resulta da publicação de notícias que desagradam ao governo turco que, autoritário, recorreu à polícia e aos tribunais para pôr aqueles jornais sob sua tutela, pretendendo que os jornalistas procedam como funcionários que seguem as instruções do poder. Há uma semana, tinha tocado à IMCTV, único canal nacional de televisão a reportar o ponto de vista não-governamental sobre as questões com os curdos: foi fechado, sem qualquer possibilidade de retomar as emissões.

 

Can Dundar é o director do Cumhuriyet. Em 26 de novembro passado estava a fechar a primeira página quando a polícia entrou pela redacção. Os agentes anunciaram que cumpriam uma ordem judicial e levaram para a prisão tanto o director, Can Dundar, como o chefe de redacção, Erdem Gul. Ambos foram encarcerados em regime de isolamento na prisão de Silivri, na periferia de Istambul.

 

Qual é o crime de que são acusados? Tornaram público um “segredo de Estado”. Os factos são estes: em janeiro de 2014, o Cumhuriyet noticiou que militares e agentes dos serviços secretos turcos tinham escoltado camiões que enviavam armas para rebeldes islâmicos dentro da Síria, designadamente para gente ligada ao auto-proclamado califado islâmico. O governo turco negou que o carregamento fosse de armas, disse que era apenas “ajuda humanitária” para o povo sírio. O presidente turco, Erdogan, ameaçou o Cumhuriyet, avisando que o jornal “iria pagar caro pelo que fez”. Em novembro passado, o jornal conseguiu acesso a um vídeo interno dos serviços secretos que mostrava, de modo indesmentível, que o carregamento que estava a ser conduzido para a Síria era mesmo de armas e munições. Em editorial, Can Dundar escreveu: “O Estado – nas costas dos cidadãos e do Parlamento – cometeu um acto ilegal ao traficar armas por meios ilícitos para um país em guerra civil. Se o Estado comete um acto ilegal, a imprensa não pode ficar mera espectadora que faz que não vê. Tem o dever de contar à população – cuja segurança está ameaçada – que tem o direito a saber tudo o que está a acontecer”.

 

Nesse mesmo dia, um juiz fez a vontade ao presidente Erdogan e ao seu governo, e colocou o jornal sob custódia e mandou prender o director e o chefe de redacção. A acusação invocou ter havido espionagem e violação de segredos de Estado. Can Dundar pediu para lhe levarem para ler na cadeia um exemplar do Quixote, de Cervantes. Sublinhou uma frase de um cristão prisioneiro: “Nunca me desamparou a esperança de ter liberdade”. O ataque ao director e ao chefe de redacção foi denunciado por muitas organizações internacionais. Mas muita imprensa turca fiel ao poder de ocasião acusou Dundar e Erdem de traição à pátria.

 

O chefe da oposição turca, porém, culpou o presidente Erdogan por estar a fazer da Turquia “um estado canalha”. Vai para duas semanas, em 25 de fevereiro, o Tribunal Constitucional turco ordenou a libertação imediata dos dois jornalistas, considerando que “o direito à liberdade de expressão e de imprensa foi violado”. Mas a acusação a Dundar e Erdem subsiste e mantem-se a reclamação de condenação a prisão perpétua, em julgamento marcado para 25 deste março.

 

Outro caso: na última sexta-feira, o governo turco decidiu chamar a si a condução do Zaman, o jornal mais lido na Turquia, e que desenvolvia uma linha editorial crítica do sistema de poder político encabeçado pelo presidente Erdogan. O jornal é privado, mas o governo, através de um tribunal de Istambul – tem havido sempre uma justiça colaborante -, como que o nacionalizou e nomeou uma administração judicial que por sua vez designou novos diretores, chefes e chefinhos, para o controlar.

 

Na noite da passada sexta-feira, Ishan Yilmaz, colunista do Zaman, ainda conseguiu descrever a Turquia em “pesadelo orwelliano” num artigo publicado na edição digital em língua inglesa com uma pergunta: “Será que a Turquia pode voltar à democracia?” A edição em papel do jornal de sábado ainda foi preparada pela direção legítima, apesar de oficialmente derrubada. Na manchete, lia-se, em turco, sobre um fundo a negro, “dia de vergonha para a imprensa livre”. No editorial era denunciada a “violação da liberdade de imprensa”. Nessa mesma madrugada a polícia assaltou a redacção do Zaman.

 

A edição de domingo já foi feita sob tutela e com a polícia dentro da redacção. A primeira página foi encabeçada com Erdogan a inaugurar a nova ponte sobre o Bósforo. A nova gerência proibiu reuniões de jornalistas e até as idas à casa de banho passaram a ser controladas. Os jornalistas deixaram de ter acesso aos servidores da internet no jornal. Na rua, cerca de duas mil pessoas que protestavam contra a tomada do jornal pelo poder governamental foram reprimidas pelos agentes, que usaram canhões de água e gás lacrimogéneo.


Assim vai a Turquia, submetida à vontade do chefe, o novo sultão, Erdogan. As vozes discordantes do poder são amordaçadas. A respiração de uma imprensa que faça contra-poder, primordial para a cidadania, está asfixiada. Provavelmente, os verdadeiros sultões do império otomano seriam menos intolerantes.

 

A Turquia é um país cheio de fascínio mas enrolado em múltiplas contradições. A promessa de coexistência harmoniosa entre a cultura islâmica e a democracia ocidental colapsou. O país que é importante aliado da NATO, tem a democracia doente: o estado de direito, a imprensa livre, a liberdade de expressão, a separação de poderes, os direitos das mulheres e das minorias (como a da enorme minoria curda), tudo está em causa nesta Turquia onde o autoritarismo ultranacionalista conservador islâmico do regime de Erdogan barra os valores humanos universais. The New York Times alerta, em editorial, para a "desintegração da democracia na Turquia".

 

Nas redacções, o clima de medo e intimidação leva à auto-censura.

 

Que lástima se a União Europeia sacrificar os valores a troco de interesses de curto-prazono caso, despachando para a Turquia o acolhimento aos refugiados, um assunto que está a causar ainda mais mossa à unidade europeia que a grande crise financeira iniciada em 2007. Não é tolerável fechar os olhos perante ataques à liberdade. Seria cometer um acto de inaceitável cumplicidade.

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

Marcelo promete ser um presidente de afetos e próximo das pessoas. Vai certamente desenvolver consensos e simpatias, ao estilo de Mário Soares que, ao longo do primeiro mandato presidencial, de 1986 para 1991, ampliou em vinte pontos a percentagem de votos (de 50,7% para 70,3%). Mestre na comunicação e na arte de criar empatia, Marcelo vai explorar o estado de graça que o rodeia. Fica para o jornalismo o desafio de, apesar do envolvimento da onda afetiva gerada, cultivar na observação a dose de distanciamento que permite a necessária curiosidade crítica.

 

O terrorismo do chamado califado islâmico avança pelo Norte de África. Nova violenta vaga de ataques na Tunísia.

 

Michael Bloomberg renuncia à hipótese de candidatura presidencial nos EUA. Quer evitar facilitar a vida a Trump. Boas notícias para Hillary.

 

Duas primeiras páginas escolhidas hoje: esta, do The Guardian, que mostra como a Geração Y está a ser sacrificada. E esta do El País, que nos conduz ao risco de dupla discriminação que correm as mulheres refugiadas. 

publicado às 07:14

A bela e o monstro

Por: José Couto Nogueira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Casaram, sexta-feira, numa bela e discreta cerimónia com cem convidados, na vetusta abadia londrina de St. Bride. Ele, Robert Murdoch, 84 anos, ela Jerry Hall, 59 anos.

 

Os convidados podiam não ser muitos para a importância do noivo e estrelato da noiva, mas incluíram, além de dois ministros britânicos, personalidades tão diversas como o banqueiro Rothschild, industriais tão poderosos que o vulgo nem conhece, Sir Bob Geldof, Sir Michael Caine, toda a família Jagger e até a ex do ex da noiva, Bianca Jagger. Há que assinalar ainda os editores do “Sun”, do “Daily Mail” e do “Times”, o Presidente da News Corporation, braço armado de Murdoch nos Estados Unidos, o escritor Tom Stoppard, o filósofo corporativo Alain de Botton, o fotógrafo estrela da década de 60, David Bailey e o Rolling Stone Bill Wyman.

 

Senhores bem na vida que casam com senhoritas bem apessoadas é o que não falta neste mundo. Ainda há pouco anunciaram o noivado, ou o ménage a deux, o riquíssimo escritor Mário Vargas Llosa, 80 anos (a fazer dia 28), e a sempre jovem Isabel Presley, plastificada nos sessentas.

O que espanta, ou pelo menos chama a atenção desde chiquérrimo enlace, são as diferenças de vivência e personalidade dos noivos.

Ela, Jerry Hall, texana de Gonzalez, alta e esbelta – apinocada com um vestido branco azulado de Vivienne Westwood, que se diz ter custado oito mil libras – começou como modelo, e nessa qualidade partilhou um apartamento em Paris com Grace Jones e Jessica Lange, até se juntar ao icónico ilustrador António Lopez, o que a lançou definitivamente. Mas chegou mesmo à fama em 1974, quando Brian Ferry lhe deu um anel de noivado e a colocou na capa do antológico album “Siren”, dos Roxy Music. Tem ainda no currículo a originalidade superlativa de ter deixado Ferry para juntar os Prada com Sir Mick Jagger – que por sua vez tinha deixado a superlativa Bianca. Terão feito um casamento não reconhecido pela lei inglesa em 1977, no Bali e tiveram quatro filhos. A música dos Stones “Miss You”, de 1978, foi feita por Mick para Jerry, assim como rock injuriado de Brian Ferry, “Kiss and Tell”, em 1988.

 

Enfim, uma musa.

 

 

Depois do divórcio do casamento duvidoso com Sir Mick, em 1999 (pela brejeira alegação de que ele a enganava) Jerry desapareceu no mapa, o que não é bom sinal para quem vive da luz. Eis senão quando, em Outubro do ano passado, Jerry conhece Robert, e os passarinhos voltaram a chilrear, os coelhinhos a namorar e as revistas sociais a fotografar.Mas, se Jerry Hall faz parte da espuma dos acontecimentos sociais, Robert Murdoch representa as águas profundas da media militante do capitalismo mais anti-social. Representa, não, é.

 

Nascido na Austrália, Robert começou na empresa local do pai News Limited e, passo a passo, tornou-se o maior empresário individual de media de que há memória. Só isso. Como?

Em 1969, desembarcou em Inglaterra, comprou os moribundos “News of The World” e “The Sun” e transformou-os nos tablóides mais ordinários e mais vendidos da Grã Bretanha. De caminho, destruiu completamente o sindicato dos tipógrafos e torceu o braço aos jornalistas, criando paralelamente condições de trabalho precárias para a imprensa e uma imprensa virada para o escândalo sem restrições. A luta com os tipógrafos, com Murdoch apoiado por legislação da sua grande amiga Margareth Tatcher, ficou conhecida nos anais das lutas sindicais britânicas como “o episódio de Wapping”.

 

Em 1985 comprou o conservador e envelhecido “Times” britânico e passou a defender as causas ultra-liberais. Tornava-se claro que a agenda de Murdoch não era o mundo fechado do jornalismo, mas sim a militância politica. Logo apontou as baterias para o mercado mais apetitoso dos Estados Unidos, onde já tinha o tablóide de escândalos “New York Post”.

Para encurtar uma longa história, hoje Murdoch é dono da 20th Century Fox (cinema) da Fox (televisão), Harper Collins (livros) “Wall Street Journal” (a bíblia diária do conservadorismo económico) e tem ainda conglomerados de media na Austrália, Canadá e Nova Zelândia.

 

A Fox News, a que não temos acesso em Portugal, porque aqui aquelas diatribes não fariam sentido, é o canal de tv mais reaccionário dos Estados Unidos (e, quiçá, do mundo), apresentando opiniões como notícias, sem qualquer preocupação com a verdade dos factos. Para dar um exemplo, entre milhões, um comentador de primeira linha (Glenn Beck) disse num debate: “Não gosto de futebol. Futebol é um desporto socialista, anti-americano.” Ora o futebol, como todos nós sabemos, foi inventado pela classe alta inglesa nos colégios exclusivos de Eton e Winchester e, durante as suas primeiras décadas, era exclusivo dos meninos de boas famílias, inclusive em Portugal, onde começou com o Clube Lisbonense e o Porto Cricket.

Mas na Fox é assim; alguém diz um disparate, e ninguém se preocupa em contestar ou verificar, desde que esse disparate esteja nos conformes do ideário político de Murdoch.

 

Entre condições laborais e editoriais impostas aos jornalistas e as toneladas de opinião criadas todos os dias para a televisão, rádio e imprensa, Murdoch, sozinho, pode ser considerado o maior vilão da história da comunicação.

Recentemente, em 2011, a batata ia-lhe rebentando nas mãos, quando veio a lume que os seus jornais ingleses usavam métodos inaceitáveis para obter material – ao ponto de gravar ilegalmente os telefonemas duma miúda que tinha sido raptada e assassinada. As investigações provaram que o “News of The World” e o “Sun” tinham gravado telefonemas de políticos importantes e figuras sociais, como o príncipe William, famílias de soldados mortos no Afeganistão e outros particulares que pudessem dar notícia. Também comprava informações da polícia e de todas as autoridades que a tal se prestassem.

Murdoch disse que não sabia de nada, o que é evidentemente impossível, e quem deu a cabeça ao cepo foram os seus directores, inclusive a chefe maior, Rebekah Brooks.

Rebekah essa que, ainda ruiva, mas envelhecida, esteve no casamento de sexta feira – dia em que foi anunciado que voltaria a dirigir o império de Murdoch na Grã Bretanha.

 

E assim voltamos ao casamento, e não será decente emitir juízos de valor, quer quanto ao enlace, quer quanto aos noivos.

Por acaso, pois a inspiração tem a ver com Jane Austen, acaba de sair um romance da especialista em literatura Helena Vasconcelos que se chama “Não há tantos homens ricos como mulheres bonitas que os mereçam”.

Jerry Hall é uma delas, com certeza.

 

 

 

 

publicado às 11:00

Comédia ou reality-show?

Por: Pedro Rolo Duarte

 

A Constituição da Republica Portuguesa não estabelece um patamar acima do qual (ou, mais rigorosamente, abaixo do qual…) a ideia de democracia ganha contornos de ridículo, absurdo, de estapafúrdio, de risível. Se o fizesse, tenho a certeza que os momentos que vivemos nestas semanas já estavam no top. Pior: o ridículo tem passado no horário nobre da TV.

 

Ter de ver, diariamente, debates (em que eles se levam a sério…) entre Tino de Rans e Marcelo Rebelo de Sousa, Maria de Belém e Sampaio da Nóvoa, Marisa Matias e Edgar Silva, Paulo Morais e Henrique Neto, Cândido Ferreira e Jorge Sequeira, e depois baralha e torna a dar para que todos se encontrem em igualdade de circunstâncias, tem qualquer coisa que anda entre a sitcom e o reality-show. São umas dezenas largas de horas de televisão sem qualquer sentido, na maioria dos casos sem conteúdo, entre pessoas que todos sabemos que não vão passar do primeiro domingo eleitoral. Numa absurda interpretação de equilíbrio informativo, os media alinharam nesta farsa, onde o critério não é jornalístico, é puramente aritmético e igualitário. Exactamente o contrário do que se pede ao jornalismo: escolha, hierarquia, relativização, análise e um sensato uso do tempo de antena.

 

Aquilo a que assistimos é a mais clara falta de bom senso e rigor. É colocar todos ao mesmo nível - uma falsidade -, e dar-lhes igual relevância, coisa que qualquer estagiário de jornalismo saberia que é, no mínimo, pouco criteriosa.

 

Aliás, ouvir os dez candidatos de olhos fechados é uma experiência fascinante, porque em segundos separamos o trigo do joio. Basta atentar na forma como falam. Usam sem qualquer pudor a expressão “quando eu for Presidente”, equiparam-se uns aos outros como se tivessem os mesmos percursos, confrontam-se militantes do mesmo partido (Henrique Neto e Maria de Belém, por exemplo) como se não fossem camaradas. Além da atitude previamente vencedora - alguém lhes ensinou, sabe-se lá porquê, que marketing politico é isso… -, resvalam frequentemente para áreas que não lhes dizem respeito, caso sejam eleitos, e que perigosamente revelam ignorância sobre os limites dos poderes presidenciais.

 

Assistir a este triste espectáculo remete-me para os primeiros anos da revolução, quando se levantava uma pedra da calçada e estava um partido politico lá debaixo, sempre disponível para governar. Mas há uma diferença substancial entre o ridículo de alguns desses momentos passados e o absurdo actual: é que nessa altura toda a gente se interessava por política e pelos caminhos que Portugal devia trilhar; hoje, vivemos a mais desinteressante campanha de que me lembro e corremos o risco de ter a mais alta taxa de abstenção de sempre. E isso não é apenas triste - é um falhanço do regime, num momento em que tanto precisamos de empenho e interesse. Não me espantaria se aparecesse um qualquer estudo de opinião que concluísse que esta overdose de debates contribui fortemente para a indiferença generalizada que por aí vai. Há pior, para quem quis igualdade de oportunidades e direitos iguais para todos?

 

COISAS QUE ME DEIXARAM A PENSAR ESTA SEMANA…

 

O brinquedo mais forte da minha infância foi indiscutivelmente o clássico Lego. Fui viciado em Legos, e passei essa paixão ao meu filho, que nasceu no momento em que, por força dos jogos de video e das consolas, a marca foi perdendo força e relevância. Felizmente, a primeira década do novo século trouxe uma nova vida à Lego, mercê de uma profunda remodelação no seu marketing, criatividade, produção de novidades, e alargamento a outras plataformas (incluindo o cinema). Hoje, a recuperação da Lego é um “case study”. Descobri um video onde se conta toda a história da empresa com amor, respeito, e bom gosto. Um documentário doce, este aqui… 

 

Corre por aí que a plataforma Twitter está a preparar-se para abrir a sua janela à possibilidade de se escreverem até dez mil caracteres em cada tweet. Fico na dúvida: um twitter com twitões é ainda um twitter?

 

De vez em quando, Umberto Eco levanta a voz e ainda consegue surpreender-nos. Este artigo que publicou na edição especial da revista britânica “Prospect” tem dado que falar. Vale a pena ler…

 

 

publicado às 10:35

Os tostões do Tondela no negócio dos milhões

Por: Miguel Morgado

 

O melhor contrato é o MEO, ouve-se a norte. NOS é que conseguimos um acordo histórico, bradou Bruno de Carvalho. A Águia não quer ficar de bico calado e já se fala em cláusula de salvaguarda. Os “Três Grandes” do futebol português venderam jogos, camisolas, publicidade no estádio, televisões dos clubes e sabe-se lá mais o quê. Cada qual reclama que fez o melhor no negócio do século. Tal como no número de sócios e adeptos, a “galinha da vizinha” é sempre inferior à minha, agora transformada no meu contrato é maior que o teu. As operadoras agradecem. Porque o jogo é agora deles. Até 2030. E a “Liga dos Pequenos” está aí: “on sale”.

 

No mundo financeiro português os Bancos caem uns atrás dos outros. Contribuintes e investidores institucionais são chamados a garantir a sua sobrevivência. No mundo da bola, em ano de crise e com falta de liquidez, do banco das presidências das SAD parecem sair soluções miraculosas para o futuro do futebol nacional. Com a ajuda das empresas que começaram por vender telefones, telemóveis e que evoluíram para internet e televisão, a batalha pelo apetitoso conteúdo futebol trouxe para a mesa das negociações números nunca antes vistos: milhões, muitos milhões por jogos de futebol, que a partir de agora podem ser vistos nas múltiplas plataformas: tv’s, computadores, tablets, telemóveis e smartphones.  

O Sport Lisboa e Benfica foi o primeiro a abrir caminho. Luís Filipe Vieira preparava-se para desfilar na passadeira de figura do Ano com o mega-contrato de venda dos direitos televisivos dos jogos (em casa) do clube da Luz e com os direitos da exclusividade da Benfica TV. Um “kit” que deixa de parte as já patrocinadas camisolas e o estádio. As manchetes dos jornais cobriram-se de vermelho de reconhecimento.

 

Com a serenidade que se lhe reconhece, Pinto da Costa calou o vento suão que soprava e disse com pronúncia do norte: é MEO o melhor contrato. Os valores milionários oferecidos pela Altice/PT (dona do MEO) não mentiam e ultrapassam os dos encarnados. Para tal incluiu no pacote, para além dos jogos caseiros dos azuis e brancos e da televisão do clube, Porto Canal, o patrocínio nas camisolas e no estádio durante uma década.

 

Bruno de Carvalho tem dito (e mostrado) que o Sporting Clube de Portugal está na luta. No campo, nas palavras e na(s) exigência(s). Beneficiando de “outras guerras” ou pela audácia de saber esperar, o terceiro a fechar negócio surge como o primeiro em valores. Históricos no bolo final. Que é o que afinal conta para os adeptos. Nem que nesta espécie de Bolo Rei caiba lá muita fruta: as imagens de Slimani, JJ e companhia em Alvalade, a TV, a publicidade estática e virtual do estádio, camisolas, renegociações e sabe-se lá mais o quê. Afinal não estavam mesmo a saldo. NOS é que fizemos o acordo do século, gritam os leões. Será mesmo assim?

 

Uma década de bola numa operadora perto de si

 

Os três contratos não são comparáveis entre si porque em cima da mesa estão pacotes diferentes. Agora, o povo português, pouco sabichão na matemática, gosta muito, no entanto, de puxar pelo tamanho dos números. Avulso, sem interpretações e com muita emoção e pouca razão, o que interessa são os milhões que entram: os 400 de Benfica, os 457 do Porto ou os 515 dos leões (que reduzem-se a 446 milhões se falarmos só de vendas dos direitos televisivos). Juntos somam uma “pipa” de massa: mais de 1300 mil milhões de euros. Uma verba que, no entanto, não chega para a recapitalização do Novo Banco. Mas isso dos bancos foi chão que já deu uvas aos clubes de futebol. Agora é, como se vê, a vez das operadoras de telecomunicações entrarem em campo comprando e lutando pelo melhor conteúdo dos clubes: a bola e os craques.   

 

Sobre o que se assinou pouco ou nada sabemos. Todos os contratos têm cláusulas de confidencialidade. O do Benfica até parece permitir uma renegociação que o pode recolocar na liderança, numa espécie de vitória na secretaria. Da clareza dos números em bruto partimos para a certeza da duração: vão dos 10 aos 12,5 anos, entre imagens dos jogos e venda das televisões e exploração comercial. Uns a contar a partir de janeiro 2016, outros só em 2018. Ou seja até 2026, 2018 e 2030, respectivamente, mais ano ou menos ano, mais euro ou menos euros, os dois players do mercado das telecomunicações são agora também eles, e por muitos anos, os “donos da bola”. Os telespetadores agradecem, assim como os (aflitos) clubes, que ganham a curto prazo, embora desta enorme injeção de dinheiro nada se saiba quer quanto ao “quando”, quer quanto ao “montante” que entra durante o período definido, e se sairá para comprar craques ou pagar as contas. A certeza que existe por agora é que os clubes, à eterna discussão de quem tem mais adeptos, mais títulos ou melhor academia, somam agora uma nova sobre quem “fechou” hoje o mais alto valor neste negócio do século. 

 

A “Liga dos Pequenos” mostra o que vale

 

Fechado que está o assunto dos “Três Grandes” as atenções viram-se para a “Liga dos Pequenos”. A NOS deu ontem, penúltimo dia do ano, o pontapé de saída. Meteu mais oito clubes no pacote. A começar em 2019 e a terminar até dez anos depois. A bola está agora do lado da MEO. Porque o campeonato tem 34 jornadas e porque os “grandes” também jogam fora, o negócio é apetitoso. Pelo que o Tondela ou o União da Madeira ainda podem reclamar que fizeram o negócio de uma vida... medido em tostões.  

 

Hoje operadoras, clubes e telespetadores regozijam de contentamento. Daqui a 10 ou mais anos faz-se o balanço. E... bom, aí é “fazer a conta”, uma frase celebrizada por um ex-primeiro ministro, engenheiro de profissão, mas que se atrapalhou com tanto milhão. Logo se vê, dirão os clubes que vendem uma década de receitas de uma vez só. E, já agora, ninguém sabe como será a evolução do mercado, o das telecomunicações, das transmissões e do futebol. Mas como se diz na gíria, prognósticos só depois... do fim dos contratos. Até lá, caro leitor, toca a sintonizar o clube do seu coração, abram espaço aos artistas e deixem a bola rolar.

publicado às 19:26

Se o conteúdo é rei o futebol é imperador

Por: Paulo Ferreira

Nestes dias finais do ano vai uma animação entre os principais clubes de futebol e os principais distribuidores de televisão com a sucessão de contratos sobre os direitos de transmissão dos jogos, cedências de canais de tv próprios, publicidade no estádio e outras ferramentas de comunicação.

Os contratos que estão a ser divulgados são relativamente semelhantes, embora com perímetros suficientemente variáveis para não permitirem a comparação directa entre os três clubes. Não se podem comprar montantes globais de cada acordo porque o que está dentro de cada “frasco” é diferente - nuns casos há patrocínio principal para aparecer nas camisolas, noutros não, por exemplo - e os prazos são também diferenciados. É preciso fazer muitas contas e ler as letras mais pequenas dos acordos para que se possa chegar a uma conclusão sobre ganhadores e perdedores.

 

O menos importante é mesmo essa lógica de “o meu é melhor do que o teu” em que as tribos do futebol são doutoradas, tudo discutido, obviamente, com a mesma objectividade e honestidade intelectual com que avaliam o penalti que se marcou ou o que ficou por marcar.

 

O interessante é olhar para o que estes acordos nos dizem sobre o sector dos media e da distribuição de conteúdos, sejam eles de informação, entretenimento, grandes espectáculos desportivos, ficção ou o que quer que seja.

 

Eles confirmam, se é que isso ainda é necessário, que o conteúdo é rei. As plataformas de distribuição são cada vez mais e tecnologicamente mais diversas mas a principal batalha está nos conteúdos. A questão não é tanto saber como se distribui mas sim o que se distribui. Porque já está tudo em todo o lado, graças à convergência tecnológica. Temos canais de televisão acessíveis através do computador, dos tablet ou smartphones que podemos ver em qualquer lado. E temos televisores com acesso à internet através dos quais podemos ver o Youtube, os vídeos do SAPO ou de qualquer outra plataforma web. Os adolescentes cá de casa são quem passa mais tempo em frente ao aparelho de televisão mas para fazer tudo menos aquilo a que se convencionou chamar televisão: canais formais, com uma grelha pré-estabelecida. Sabemos que é isto que se passa na generalidade das casas, em Portugal ou em qualquer outro país desenvolvido.

 

Se os conteúdos reinam, dentro destes o futebol é imperador. As audiências confirmam-no há muitos anos e não há razão para pensar que vai deixar de ser assim nos próximos anos. Podem aparecer entretanto outros formatos vencedores, como há década e meia apareceram os “reality shows” e depois se impuseram os concursos de talentos. Mas há espaço para todos, sem que uns anulem o impacto dos outros.

 

Outro sinal importante é a diferenciação das ofertas dos quatro operadores que nos levam televisão a casa: MEO, NOS, Vodafone e Cabovisão (além destes há a plataforma TDT para o serviço básico dos quatro canais chamados aereais e ARTV). É uma tendência relativamente recente mas que está a acentuar-se. No início, as ofertas de canais de televisão de cada operador eram relativamente semelhantes e a escolha entre um ou outro era feita sobretudo pelo preço - também ele muito alinhado -, pelo pacote de serviços ou pela percepção das funcionalidades tecnológicas: a net é fiável e veloz? conseguimos recuar quantos dias para ver os programas que não vimos quando foram transmitidos? quantos cartões de telemóvel e com que tarifários estão no pacote?

 

Depois começaram a aparecer alguns canais em exclusivo num ou noutro operador. Mas poucos conteúdos têm o poder do futebol para fazer, só por si, muitos clientes mudar de operador. Essa tendência vai agora acentuar-se. Os exclusivos pagam-se e no futebol os exclusivos pagam-se caros. E se se pagam caros, têm depois que ser rentabilizados pelos operadores, com pacotes tambem diferenciados e canais fechados com assinatura própria.

 

Nesta lógica, esta corrida aos direitos de transmissão do futebol não surpreende.

 

O que pode surpreender nestes negócios feitos entre o MEO e a NOS, por um lado, com o Benfica, Porto e Sporting, por outro, é o prazo de extensão dos contratos. Para os clubes, estes contratos a 10 e 12 anos dão uma garantia de estabilidade de receita num horizonte temporal longo, o que é bom para qualquer gestão.

 

Mas numa área em permanente evolução e onde a revolução é frequente, não sabemos se daqui a cinco anos aquilo que hoje parece ser um bom negócio não se tornará num fardo para uma das partes. No caso do FCPorto e do Sporting, os acordos de direitos televisivos estendem-se até 2028, o que é uma eternidade.

 

Basta recordar que há uma década e meia não havia Youtube nem Facebook e a Netflix não era sequer uma promessa. Que o iPhone só apareceu há oito anos e os tablet depois disso. Em cerca de uma década mudámos profundamente a forma como vemos televisão - é mais correcto dizer vídeo - e acedemos ao que queremos ver. Paralelamente, os modelos de negócio com os conteúdos também mudaram e a mudança não vai ficar por aqui. 

 

É fácil prever que em 2028 o futebol vai continuar a ser um espectáculo de massas mas poucos arriscarão apostar como é que vamos ver os jogos: em que aparelhos? e como vamos pagar por isso?

 

Era interessante conhecer com detalhe os contratos que estão a ser assinados, sobretudo que cláusulas de revisão contêm e em que condições, para perceber como uns e outros salvaguardam a necessária evolução.

 

 

OUTRAS LEITURAS 

  • A banca como poço sem fundo. Sabemos como começa o resgate de um banco mas nunca sabemos como acaba. São urgentes mudanças estruturais na gestão, a supervisão, na regulação e na própria actividade dos bancos. De que é que estamos à espera?

 

  • Temos um planeta lindo, que só melhora visto de longe. E a NASA não se cansa de nos provar isso mesmo. Espreitem aqui.

 

 

publicado às 11:12

A vitória da trampa. Ou deixem que vos entretenham

Por: Rute Sousa Vasco

 

Em julho deste ano, o site de informação americano Huffington Post anunciou que, daí para a frente, passaria a integrar a informação sobre a campanha de Donald Trump na secção de entretenimento em vez da secção de política. Esta semana,Trump escolheu como uma das suas bojardas a proposta (?) para que fosse inibida a entrada a todo e qualquer muçulmano nos Estados Unidos e o Huffinfgton Post mudou de ideias.

 

Numa nota editorial, Arianna Huffington, fundadora do site, explicou o porquê da mudança. Em julho, assumiram a cobertura da campanha de Trump como mero entretenimento, porque consideraram, pelos seus actos, que não era realmente a sério. Ou seja, que ele não queria realmente governar os Estados Unidos com aquelas propostas – apenas queria fazer show off.

 

A escalada verbal do candidato a candidato republicano fez com que o Huffington Post mudasse de ideias. Continua a ser uma campanha virada para o espectáculo, mas o espectáculo tornou-se perigoso. Diz Arianna: “Acreditamos que a forma como cobrimos a campanha deve reflectir esta mudança. E parte disso implica não deixarmos nunca de lembrar à nossa audiência quem é Trump e o que a sua campanha representa”.

 

Em Portugal somos, ao invés do que acontece nos Estados Unidos, muito sensíveis à tomada de posição pelos media. E a forma como olhamos para as pessoas com opinião é uma especíe de idiossincrasia nacional. Temos que os amar ou odiar – na maior parte dos casos é difícil simplesmente ouvir e depois pensar pela nossa cabeça. A soma disto à condição económica de país pobre, de dinheiro e tantas vezes de espírito, faz com que os jornais sejam mais pardos que transparentes na defesa das suas opções e, sobretudo, que subsista um temor em tomar partido.

 

É também por isso que a tribo dos comentadores cresce e multiplica-se. Um comentador é alguém de fora a quem se paga (ou não) para tomar partido e dizer porquê. Com sorte, e muito tempo para redes sociais, cai no goto da audiência. Se o pior azar acontecer – o dito comentador dizer ou fazer algo francamente estúpido e condenável–, quem o convida pode sempre demarcar-se e dizer que nada teve a ver com isso. E é também assim que nascem os nossos fenómenos de mediatismo: a América tem Donald Trump, nós temos Pedro Arroja.

 

Isto devia ser o que verdadeiramente nos preocupa. Uma espécie de mal para o qual não se antevê fim. Somos hoje uma espécie de sociedade de drogados em estupidez. Se é estúpido e ganhou forma de ‘conteúdo’, tem uma grande probabibilidade de ser um sucesso. As redacções disputam entre si a primazia na divulgação da estupidez, porque tudo é decidido a partir dos backoffices onde aprendizes de jornalistas foram enfiados a olhar para cliques. E, claro, se um link tem muitos cliques – é porque está a correr bem.

 

Não, não está a correr nada bem. E, lamentavelmente, usando uma frase do grande manipulador Frank Underwood, isto não é ‘bad for the greater good’. Isto é só mau sem que se aviste um bem maior. É mau em qualquer parte do globo, mas é muito pior nesta parte do globo que habitamos – porque é mais pequena e hoje a indústria das notícias, como outras, só tem viabilidade em doses XL. Nos Estados Unidos, como cá, a trampa é quem manda. Mas nos Estados Unidos, ao contrário de cá, há um número suficiente de pessoas para outras leituras, outros consumos de informação, que não trampa. E isso faz toda a diferença.

 

Qualquer site que se preze, incluindo este onde escrevo, tem a sua área de ‘notícias mais populares’. A popularidade tornou-se uma obsessão. A popularidade, acredita-se, vai salvar o negócio de informar. Se o mais popular é o que teve mais cliques, ao promovermos mais todos os mais populares, teremos a solução da multiplicação das audiências que irá salvar o negócio.

 

Só que não.

 

Esta semana, foi notícia que uma equipa das universidades do Minho e do Porto criou um sistema inteligente que sugere melhorias no desenho de notícias online antes da sua publicação, com vista a aumentar a sua popularidade. Segundo a nota enviada às redacções, o sistema permitiu, nos testes, aumentar 15% a probabilidade de uma notícia ser popular e ainda identificar a maioria (73%) das notícias que viriam a ser populares. “Há um interesse crescente por notícias online, face à expansão da Internet, e a previsão das notícias mais populares, medida pelo número de partilhas, é cada vez mais estudada e cobiçada pelas empresas e instituições”.

 

Esta equipa testou o que baptizou como “sistema de apoio à decisão inteligente” em quase 40.000 notícias publicadas desde 2013 no Mashable, o maior blogue mundial de notícias sobre novas tecnologias, que conta com 24 milhões de seguidores e 7,5 milhões de partilhas por mês. E os resultados mostraram que “a popularidade de uma notícia pode subir com uma fácil alteração, pelo seu autor, de atributos sugeridos como o número de palavras do título, as palavras-chave (já usadas noutras notícias) e a aposta em determinados links”.

 

É uma ciência, visto desta forma.

 

A tecnologia é preciosa em praticamente tudo o que fazemos. E os media não são excepção, pelo contrario. O volume de informação cresce todos os dias e as ferramentas tecnológicas são o que nos permite trabalhar melhor, analisar melhor e sobretudo encontrar padrões e notícias onde muitas vezes só parece existir ruído.

 

Mas primeiro temos de parar de nos enganar. A tecnologia resolve muita coisa – mas não resolve a estupidez e, mal usada, pode apenas ampliá-la. Em nome da popularidade. Por exemplo, este artigo sobre a águia que quase furou um olho ao Donald Trump foi de certeza bem mais popular do que a nota de Arianna Huffington sobre como fazer a cobertura jonalística da campanha do alegadamente candidato. Aqui, sim, talvez se possa dizer ‘ bad for the greater good’.

 

Tenham um bom fim de semana!

 

Sugestões

 

As razões pelas quais 'teenagers' dos 11 aos 15 anos são seduzidos pelo Daesh estão longe de ser simples de entender. E a forma como o conteúdo de recrutamento se multiplica é também assustadora. Como não vamos fechar a internet, temos de começar pelo mais importante que é o que se passa em casa, nas escolas e na promessa de vida que estes miúdos vislumbram.

 

É uma sugestão já com umas semanas, mas só hoje a posso fazer com conhecimento de causa neste espaço. Dêem por bem empregue duas horas do vosso tempo e comprem um bilhete de cinema para ver “Steve Jobs”, o filme de Danny Boyle. Michael Fassbender é soberbo e está justamente nomeado para os Globos de Ouro com este papel. Kate Winslet, sempre ela, igualmente imperdível.

 

E para fechar, fiquem com isto para exercitar a massa cinzenta durante as festas e vejam do que são capazes (atenção ao 'spoiler alert').

publicado às 08:57

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