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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Estamos quase todos em espera. O paciente europeu resiste?

Por: Francisco Sena Santos

Estamos quase todos à espera e o sentimento é mais de ansiedade ou até de temor do que de ilusão e esperança. Nem me refiro ao que se vive dentro de Portugal onde, apesar de tendências para alguma baixeza assaltar o espaço de discussão pública, as tensões dos últimos anos parecem atenuadas. O sobressalto é o que está à nossa volta, fora de portas, mas a determinar a vida de todos.

 

Andámos muitos anos a ouvir falar de integração europeia – e isso trouxe aos portugueses desenvolvimento e incomparavelmente melhor qualidade de vida. Agora constatamos a desintegração europeia. Até uma voz de topo como é a da chanceler Merkel assume que a Europa vive fase crítica. A Europa tornou-se um condomínio onde todos discutem, onde uns têm poderes que escapam aos outros e onde não há a solidariedade nem o melhoramento social que foi o fundamento da União. A atmosfera não está propícia para a boa convivência nem para os ideais.

 

Há uma pergunta fundamental: como é possível que o ideal europeu, que chegou a ser tão entusiasmante, se tenha transformado em algo que gera tanta repulsa que já levou os britânicos a votarem pelo divórcio enquanto em muitas partes da Europa crescem as forças nacionalistas e anti-europeias? As causas são certamente muitas. Algumas passam pela memória que se apaga, outras por desconfortos na vida de agora.

 

Na memória, efeito de décadas de prosperidade e paz, está a diluir-se o sentimento de insegurança bélica do pós- Segunda Grande Guerra (39-45) que tinha levado Churchill, há precisamente 70 anos (setembro de 1946), a pronunciar em Zurique o famoso discurso em que, com o estatuto de vencedor moral e material do nazismo, apelou à criação dos Estados Unidos da Europa. Esse esquecimento do fantasma da guerra tende a ser um erro perigoso, até porque as últimas décadas têm mostrado, dos Balcãs à Ucrânia, como a guerra permanece como ameaça dentro do continente europeu. E crescem fricções que podem gerar mais faíscas.

 

O desconforto da vida europeia de agora passa pelas sucessivas crises. Há culpas atiradas sobre a mal planeada introdução do Euro no 1º de janeiro de 2002. Há o desastre que veio com o colapso financeiro de 2007 e as políticas de dura austeridade impostas a seguir, penalizando em especial as pessoas dos países da Europa do Sul com desemprego, involução da qualidade de vida e crescendo da desesperança. Há a crise suscitada pelo acolhimento – que é nosso dever – dos refugiados e a amálgama que mistura tradições diferentes com terrorismo. Também há a reconhecida grande falta de estadistas, políticos visionários capazes de instalar confiança e futuro.

 

Woody Allen disse uma vez que a vocação do político de carreira é fazer de cada solução um problema. Talvez se tenha inspirado em Ezra Pound que teorizava que governar é a arte de criar problemas cuja solução é um enredo que agarra os cidadãos. Imagino que o caso presente na Europa nem tenha tanta sofisticação, tão medíocres têm sido várias das personagens de topo. Merkel revelou-se no último ano, para muitos (sou um deles) com surpresa, uma estadista que respeita o valor fundamental da tolerância, com a sua corajosa política de acolhimento de refugiados. É uma opção com alto preço político: há duas semanas caiu para terceiro lugar e foi ultrapassada pelo pior adversário, o partido xenófobo AfD, no seu estado natal de Meclenburgo-Pomerânia, e neste domingo caiu cinco pontos descendo para 18% em Berlim, a capital governada pelo SPD. Não perdeu a calma nem o discurso, repetiu que a Alemanha não pode abandonar a Grécia e a Itália sozinhas com os refugiados, embora não possa voltar a receber um milhão de migrantes num só ano.

 

Merkel representa neste desafio do acolhimento o melhor do espírito europeu. É o oposto de Marine Le Pen. É de notar que são mulheres quem lidera as duas frentes políticas que se confrontam sobre valores fundamentais na Europa. E ambas têm eleições cruciais no ano que vem.

 

A prova das urnas, quando sopram corrosivos ventos nacionalistas, parece estar a ser um condicionamento para a procura de soluções europeias. A França tem presidenciais e legislativas em abril do ano que vem: Hollande está com muito pouco espaço, o confronto tende a ser entre o moderado Juppé e a populista le Pen. A Alemanha tem legislativas daqui a um ano e Merkel pode perder o poder. No horizonte mais imediato está o referendo anti-refugiados promovido por Orban na Hungria (é tempo de a Europa seguir a sugestão luxemburguesa de afastar a Hungria do clube europeu, não partilha os ideais fundamentais) e a repetição da finalíssima das presidenciais na Áustria, com o líder da extrema-direita à frente nas sondagens. A direita populista também tem promessa de avanços nas eleições holandesas. Acresce para este frustrante bloqueio europeu o referendo constitucional em Itália, decisivo para o governo de Renzi, um dos líderes – com Costa e Tsipras - de uma alternativa da Europa do Sul e o impasse político em Espanha.

 

Quando Merkel falou de Europa em estado crítico talvez não quisesse chegar ao ponto de dizer que a Europa está em coma assistido. Mas o tempo da União Europeia pode estar a esgotar-se.  O risco sério é o de desintegração mas ainda há esperança, pode haver energia e sonho para uma refundação. A dúvida é: quem pode liderar e como uma ambição assim?

 

A atual União Europeia está estilhaçada. De modo simplista há quatro partes principais: há o diretório franco-alemão que às vezes integra a Itália e que pretende impor a sua vontade muito germânica; há a linha dura do Norte encabeçada pela Finlândia e vários acólitos; há o grupo EuroMed que envolve os países do sul agora governados à esquerda, de Portugal à Grécia, incluindo França, Itália, Malta e Chipre – também a Espanha que, invocando estar com governo interino, mandou um secretário de Estado para a representar na cimeira de Atenas; e há o grupo de Visegrado, quatro países do Leste, Polónia, Hungria, República Checa e Eslováquia, que levantam um muro contra os migrantes.

Vários destes países da Europa Central e de Leste agem como se a União Europeia já não contasse – embora tenham sido grandes beneficiários dos fundos europeus. Funcionam com modelos assentes no baixo custo do trabalho e salários reduzidos. Grande parte da força económica dos tigres da Europa de Leste decorre de terem beneficiado do calendário: tiveram o fôlego dos fundos de solidariedade quando o resto da Europa apanhou com os apertos orçamentais do Pacto de Estabilidade.  As economias de Leste crescem todas acima dos magros 1,6% da média da zona euro. A Polónia cresceu 3,7% e a Roménia 4,2% no ano passado. É facto que a Irlanda, nossa parceira nos resgates, cresceu 4,8% em 2014, beneficiando dos amplos incentivos fiscais.

 

São economias que cresceram com a solidariedade europeia. Mas várias não retribuem com o respeito dos valores e direitos fundamentais. É assim que nesta ocasião extremamente delicada a Europa precisa desesperadamente de líderes com ideais e vontade. O paciente europeu requer um tratamento de choque. O problema é que a espera se prolonga e está difícil vislumbrar alguma esperança. Mas não é impossível voltarmos a uma Europa de partilha de culturas, de convivência em solidariedade e de melhoramento social. A Europa precisa tanto desse novo e grande impulso, pensado para as pessoas e não para os mercados. Sem solidariedade a democracia perde a alma.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

 

O que é que foi mais explosivo, as bombas ou a cobertura mediática das bombas em Nova Iorque? É uma atmosfera que dá pontos a Trump? Uma amostra com primeiras páginas de hoje nos EUA. Também no Reino Unido.

 

 

Está a chegar o automóvel sem condutor.

 

 

Entra em cartaz a competição pelos Óscares de 2017.

 

 

Uma primeira página escolhida no SAPO JORNAIS.

publicado às 08:20

Há duas Merkel? E o que nos falta

Por: Francisco Sena Santos

 

Alguém dá conta por aí de algum dirigente que seja capaz de nos mobilizar para sonharmos, com bases consistentes, com um futuro comum exaltante? Alguém capaz de conduzir, com convicção, um pacto de confiança entre a liderança política e a cidadania?

 

 

Vivemos os últimos anos em torno de um tríptico: "crise, austeridade, sacrifício". Sabemos que estava muita coisa mal e que era preciso emendar. Mas as opções de austeridade adotadas como remédio só serviram para reforçar a desconfiança dos cidadãos nas instituições internacionais e nos dirigentes políticos em funções. Todos sentimos que os Estados fragilizados se tornaram reféns do sistema financeiro. A boa saúde de um país deixou de ser medida pela sua força criativa e pela robustez da sua justiça social e solidariedade. Passou a ser medida pelos indicadores da economia, o défice, a dívida, a balança comercial. Os números em vez de as pessoas. 

 

Estou entre os que rogaram pragas ao modo de austeridade que teve como locomotiva a chanceler Merkel. Mas há que reconhecer que, com a crise dos refugiados que tentam avançar a pé para dentro da Europa, Merkel mostrou ser líder com estatura. Proclamou "vamos cuidar deles", e a força principal da Alemanha, aparelho de estado e cidadãos, uniu-se para transformar o verbo em ação. A política alemã, nesta crise dos refugiados, está a funcionar como modelo de solidariedade, aliás, como nenhuma outra na Europa - alguns países, como a Hungria, com dirigentes de mediocridade moral, enfurecem-nos e envergonham-nos como europeus, perante imagens que relembram um passado abominável. Mas também é facto que a Alemanha tem a puxar por ela a prosperidade económica e a baixa demografia.

 

Habituámo-nos a olhar com desconfiança para os litígios, os ritos e as palavras vazias dos políticos. Nunca me passou pela cabeça que viesse um dia a pensar que Merkel também pode ser uma referência moral, uma líder capaz de impulsionar a generosidade e a solidariedade. Está a saber fazê-lo com esta tragédia dos refugiados. Lástima que tenha sido diferente com os povos submetidos à troika.

 

Voltemos ao princípio: onde é que está, em Portugal, um líder político capaz de nos desassossegar e, apesar das clivagens, mobilizar para uma  boa ambição comum com construção de territórios de futuro? Um líder, por exemplo, capaz de compreender que as artes podem contribuir para mudar o nosso olhar e a nossa maneira de estar. Precisamos dos frutos da imaginação.

 

Duas leituras que recomendo hoje sobre o desafio que a escolha de Corbyn para lider dos trabahistas britânicos representa para a Esquerda europeia. Vale a pena ler esta análise no The Guardian. E esta no El País.

 

Nota do SAPO24: este texto foi escrito no dia 11 de setembro, embora a publicação tenha sido feita a 15 de setembro.

publicado às 10:16

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