Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

E se a Apple deixar os governos saber tudo sobre o seu iPhone?

 Por: José Couto Nogueira

 

Segurança nacional ou privacidade do cidadão? É a pergunta que se impõe na disputa que opõe a Apple ao FBI. O debate que está a decorrer nos Estados Unidos pode afectar os utilizadores de telemóveis (e, por extensão, de qualquer equipamento ligado à rede) em todo o mundo. Sim, isto tem a ver consigo e vai querer saber porquê.

 

 

A questão do acesso do Estado aos dados pessoais do cidadão – através dos organismos policiais, fiscalizadores e de contra-espionagem - tem sido discutida desde que a Internet se popularizou. Contudo, quando Edward Snowden revelou publicamente a magnitude da intromissão do governo norte-americano nas comunicações, a discussão deixou de ser académica, ou técnica, e passou para a esfera judicial.

 

Que o governo chinês espie os seus cidadãos com um exército de inspectores, é um facto histórico; que o governo norte-coreano não o faça simplesmente porque ninguém na Coreia do Norte tem Internet, é sabido; que certas ditaduras tentem atabalhoadamente fazê-lo, não surpreende; agora que nos países ocidentais, onde o cidadão é protegido por uma série de garantias, possa acontecer, é inaceitável.

 

Acontece à socapa? Provavelmente. Mas, mesmo assim, é muito diferente do que ser legal e aceite. E, se ocorre nos Estados Unidos, onde é escrito praticamente todo o software usado nos computadores, pode acontecer em qualquer país. No caso dos telemóveis, que é onde se concentra esta guerra judicial, basta lembrar que os dois sistemas operacionais usados planetariamente são o IOS da Apple e o Android da Google, empresas sediadas na Califórnia.

 

Tudo mudou em 2013, com as revelações de Snowden. Anteriormente, as empresas de comunicações, ou de equipamento de comunicações, cooperavam com as autoridades quando os tribunais assim o mandavam. Mas Snowden provou que as agências de segurança nacional espiolhavam não só os utentes, mas também as próprias empresas. Daí que a Apple tenha criado um sistema operacional que é impossível de descodificar, mesmo pela própria Apple. O software para fazê-lo simplesmente não existe. E há a tese de que o software tem a protecção de direitos de autor como qualquer outro texto. Escrevê-lo por ordem judicial, na opinião de alguns especialistas, seria o mesmo que condicionar um autor na sua liberdade de expressão.

 

Qual é a password?

 

Tecnicamente, não se trata de decifrar a encriptação, mas sim de descobrir a palavra-passe. O sistema IOS está feito de maneira que ao fim de dez tentativas com palavras-passe erradas, todos os dados da memória do smartphone são apagados. O caso específico refere-se ao iPhone utilizado por um dos terroristas que mataram 14 pessoas em San Bernardino, na Califórnia. O FBI quer que a Apple escreva um programa capaz de ultrapassar a segurança do aparelho. Apenas isso.

 

A Apple tem vários argumentos para não o fazer. Primeiro, não quer piratear (hack) a sua própria tecnologia. Segundo, se o fizer está a colocar em risco a privacidade de todos os utilizadores; uma vez criado, não se sabe onde o programa irá parar. O FBI e outros departamentos de segurança do governo ficam em roda livre para fazê-lo quando quiserem. Mais ainda, os governos de outros países podem exigir o mesmo, e excluir a empresa dos seus países se não o fizer – a China vem logo à cabeça.

 

O FBI diz que a Apple está a exagerar, uma vez que lhe pede que a própria empresa desbloqueie apenas um telemóvel e não todos os que fabricou. E que se trata de um caso de segurança nacional, para descobrir os cúmplices dos dois terroristas, antes que cometam mais atentados.

 

As opiniões dividem-se. Bill Gates começou por apoiar Tim Cook, o presidente da Apple, mas depois voltou atrás e acha que o FBI tem razão. Não que a opinião dele valha mais do que institucionalmente, uma vez que a Microsoft tem muito pouca penetração no mercado de smartphones. Mas Sundar Pichai, o director da Google, dona do Android, que compete com o IOS pelo domínio do mundo (sobretudo através da Samsung), apoia a Apple, e esse apoio tem muito peso. Mark Zuckerberg também acha que Tim Cook tem razão. E o Facebook na última contagem (ontem?), tinha mil e seiscentos milhões de utilizadores.

 

Zuckerberg aliás, tem tido muitos problemas com vários governos por questões de privacidade. O último caso foi, recentemente, com a Índia, onde as autoridades queriam proibir o Facebook, alegando que partilhava indevidamente informações privadas – mas na realidade o que preocupa o governo indiano, como todos os governos, é a possibilidade das redes sociais difundirem informações quase instantaneamente, sem controle.

 

Os cidadãos, a acreditar numa sondagem do Pew Research Center, estão a favor do Governo. 51% acham que a Apple devia ceder e só 38% acham que não devia. Mas os cidadãos, apesar dos mais interessados, serão os últimos a decidir, nesta disputa de gigantes, que certamente irá enriquecer grandes escritórios de advocacia.

 

Amigos, precisam-se!

 

A 16 de Fevereiro, um juiz federal decretou que a Apple tinha de fazer o que o FBI pedia até sábado, 26. Mas sábado passou e a empresa não o fez. Aliás, fez: pediu a dispensa do juiz, pois considera que a decisão viola os direitos da Primeira e Quinta emendas da Constituição. Se viola ou não, outro tribunal o decidirá. Entretanto, o decreto do juiz baseou-se numa lei de 1789, há muito esquecida, e que se aplicava a correio em papel.

 

Nesta terça, dia 1 de Março, a Comissão para Assuntos Judiciários da Câmara de Representantes debruça-se sobre o assunto. O director do FBI e o principal advogado da Apple são testemunhas. O assunto interessa a todas as empresas do biosistema das comunicações, que seguem atentamente o processo. Pierre Louette, ex-director da Orange francesa, diz que há muito tempo que estes problemas se levantam, mas que agora terá finalmente de se decidir alguma coisa, e “as empresas de comunicações vão precisar de ter muitos amigos”.

 

Amigos são sempre úteis, mas o que a Apple agora precisa é de advogados. E dos bons. Quanto aos utilizadores de todo o mundo, que já são espiolhados a torto e a direito, no fundo a preocupação é mais familiar do que civil. Quer dizer, que a Autoridade Tributária investigue pela calada, não há nada a fazer; agora, se lá em casa tiverem acesso aos dados do telemóvel, isso é que é o diabo... 

publicado às 10:12

O céu (ou, melhor dito, a Terra) está pejada de nuvens

Por: José Couto Nogueira

 

Sim, você já navegou nas nuvens. Numa, ou em mais do que uma, várias ao mesmo tempo. Não é um imperativo, ou resultado da sua vontade; é uma situação incontornável – não há nada que possa fazer para o evitar.

 

 

Não nos estamos a referir às belas nuvens que se apreciam das janelas do avião, quando vamos daqui para paragens mais macias. Nem à expressão “estar nas nuvens” que nos acontece quando não prestamos atenção à áspera realidade. Nem sequer àquele filme com o George Clooney em que ele ganha a vida a despedir pessoas.

Não. Estamos a referir-nos à “nuvem”, “the cloud”, essa abstracção informática que toda e qualquer pessoa sentada à frente dum computador utiliza, mesmo que não saiba. Chama-se “nuvem” não porque seja fofa e redondinha, mas porque esconde coisas. Como em “nevoeiro”.

 

Estranho, não é? Mas em informática há muitas coisas estranhas. Que não sabemos o que são, mas que precisamos de saber para que servem, porque nos servimos delas. O que não precisamos de saber, por exemplo, é que o termo é usado pelos maluquinhos dos computadores – os geeks – desde 1977, ainda a Internet não existia, tal como a conhecemos hoje.

 

Mas chega de conversa. Imagine uma biblioteca cheia de livros, folhetos, memórias descritivas, arquivos disto e daquilo. Quais livros? Todos. E que contem, além desses livros, folhetos, etc., os seus documentos, fotografias e tudo o mais que você produziu ou passou pela sua mão. Uma biblioteca gigantesca com tudo catalogado e que tem uma secção só com os seus papéis. Você vai à biblioteca e consulta a sua papelada, ou dá uma olhadela na papelada comum. Alguns documentos estão em estantes abertas, acessíveis a toda a gente, outros ficam em armários fechados e só podem ser vistos pelos seus proprietários, ou por quem os seus proprietários querem que veja. Isso é a nuvem.

 

Agora imagine que você tem dois computadores, um de secretária e outro portátil, ou tem um computador e um smartphone, ou um tablet. Como faria antigamente (“antigamente” quer dizer há dez anos) para partilhar a sua papelada entre esses vários aparelhos? Fazia uma cópia em disco, ou numa pen (isso já menos “antigamente”) e depois lia essa cópia no outro aparelho. Tinha de estar sempre a fazer cópias dum lado para o outro.

 

Nas grandes empresas, com centenas, milhares de computadores, era mais complicado, mas acabava por ser mais simples: havia um computador com grande capacidade que guardava os arquivos de todos os PCs e distribuía a informação. Foi assim que a nuvem começou a funcionar, como uma rede uns tantos computadores.

 

Isso era antigamente. Só as grandes empresas tinham as suas nuvens privadas. Mas as médias empresas também tinham arquivos para guardar e não podiam ou queriam investir em equipamento e instalações. Assim, pela ordem natural do empreendedorismo, houve quem se lembrasse de alugar espaço. Para quê investir a construir um grande armazém para o “arquivo morto”, se o podemos alugar?

 

À escala mundial, há grandes alugadores que talvez nunca tenha ouvido falar, como a Oracle ou a Centrilogic. E alguns que talvez utilize sem se aperceber, como a Google ou a PT. (Se está a ler isto, é porque acedeu à nuvem da PT.) Outros ainda que ninguém imagina que estão nesse negócio, como a Amazon ou a AT&T.

 

As próprias marcas de computadores também têm as suas nuvens, para que os utilizadores possam fazer a tal partilha entre os seus portáteis e smartphones. A Apple tem o iCloud, a Microsoft o OneDrive. Essas, você também usa sem saber. Ou pode inscrever-se e navegar em nuvens de terceiros, como a Dropbox ou a Evernote.

 

O negócio de alugar “espaço digital” é gigantesco. Não estamos a exagerar. As nuvens no mundo real são edifícios de dimensões piramidais (como as pirâmides do Egipto). Construídos em regiões remotas, porque ninguém precisa de lá ir, normalmente perto de rios, para a água arrefecer os equipamentos.

 

Gostaria de ver um desses edifícios? Não precisa de ir muito longe; na Covilhã fica um dos maiores do mundo. Na Covilhã, aqui tão perto.

 

Mas então, se não se paga para usar as nuvens, como é que o negócio é tão fabuloso? Agora já pode perceber porquê: as pessoas não pagam porque usam muito pouco espaço; as empresas, que precisam de muita armazenagem, e em duplicado (para ter cópias de segurança) pagam milhões de dólares, de euros, libras ou yuans pelo serviço. E os serviços públicos também. Imagine o espaço que a simpática Autoridade Tributária precisa para guardar as continhas de dez milhões de contribuintes! E, como se prevê que as necessidades de armazenamento cresçam exponencialmente nos próximos anos, a competição é enorme. Parece que a Amazon está a querer competir com a Oracle e a AT&T e portanto a baixar os preços.

 

Pois é, as nuvens do século XXI já não são redondas e cheias de anjinhos. A não ser que você os tenha no seu arquivo...

 

 

 

publicado às 16:25

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D