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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

Podemos fechar os olhos? Obviamente, não. Podemos fechar as portas? Também não.

Por: Francisco Sena Santos

 

O que é que aconteceu na noite de fim de ano na grande praça diante da majestosa catedral e da estação central de comboios de Colónia? Foi uma noite de vergonha, com intoleráveis ataques a centenas de mulheres. O corpo e a intimidade da mulher – das mulheres -  foi o principal alvo. Os homens que em grupo meteram as mãos em cima das muitas mulheres que ali estavam para celebrar, na sua principal praça de festa, a entrada no novo ano, tinham como objetivo central o máximo que conseguissem de exploração sexual. De abuso e posse daquelas mulheres livres.

 

Os relatos das atacadas referem que eles as apalpavam de todos os modos, metiam-lhes as mãos entre as pernas, rasgavam-lhes blusas, apertavam-lhes o peito, mordiam-nas, tentavam, quase sempre em grupo, levar a violação ao extremo. Além de assaltarem a liberdade e a dignidade, também roubaram carteiras e telemóveis. Muita gente estava bebida. Os assaltantes machistas organizavam-se em rodas em volta de mulheres sozinhas ou em pequenos grupos para as poderem molestar, tocar, assaltar, despir e violar. Como é isto possível? Como é possível que num momento de máximos alertas na Europa a polícia não tenha intervindo? Como é possível que acontecimentos assim sinistros tenham sido silenciados pela imprensa durante uns quatro dias?

 

Sabe-se que pelo menos 516 mulheres apresentaram, entretanto, queixas por agressões naquela praça naquela noite. Os agressores são genericamente referidos como norte-africanos e árabes. As revelações sobre os acontecimentos animalescos e violentos nessa noite de 31 de dezembro em Colónia começaram a surgir na imprensa alemã somente a 4 de janeiro.  Negligência ou tentação dos jornalistas para, na ocasião ultra-sensível das controvérsias em volta do acolhimento a refugiados, evitar pôr os migrantes sob os focos? Terá havido um dilema entre a defesa das mulheres e a defesa dos migrantes? Como quer que seja, os jornalistas alemães já estarão a discutir o que os levou a falhar. Uma falha que até pode ter uma causa inócua: estava toda a gente em modo feriado. Mas não deixa de ser uma falha.

 

São corajosas as mulheres abusadas que, embora com lágrimas nos olhos mas de cabeça erguida, denunciam o ataque que sofreram que, de facto, é um ataque à nossa civilização que preza a cultura de liberdade e tolerância. Ao denunciarem, elas fazem suscitar a indispensável reflexão e discussão que desperta a consciência crítica sobre o que está em causa.

 

Em fundo, há duas questões prioritárias: a violência sobre as mulheres e a integração na vida europeia de jovens provenientes de culturas machistas onde a mulher é vista como uma propriedade do homem e onde a relação com a sexualidade ainda tem contornos medievais com o homem a julgar que dispõe hegemonicamente, a seu prazer, do corpo da mulher. É o caso de lugares do mundo árabe-muçulmano onde o fanatismo religioso pretende que as mulheres sejam escravas e submissas.

 

O desprezo pela liberdade da mulher é uma doença transversal a diferentes culturas, países e religiões. E traduz-se em repetidos episódios de violência. Está também dentro de nós, na nossa Europa. Um estudo apresentado há dois anos pela Agência Europeia para os Direitos Fundamentais (FRA) revela que em cada três mulheres europeias com mais de 15 anos uma revela já ter sofrido violências físicas e/ou sexuais. As agredidas, na maior parte dos casos, conhecem os agressores: são pais, padrastos, irmãos, tios, amigos da família. Tudo isto está contido num estudo que tem por base entrevistas com 42.000 mulheres em 28 países europeus.

 

Mas este caso da noite de passagem de ano em Colónia – há relatos de outros em outras cidades alemãs, o que já levou as autoridades alemãs a falarem de ataque organizado – remete unanimemente para agressores da bacia sul do Mediterrâneo. Apareceu logo quem apontasse o dedo aos refugiados a quem Merkel abriu as portas no último verão.  Custa crer que os agressores possam ser os novos refugiados. Não parece provável que gente que acaba de arriscar a vida para chegar à terra ambicionada arrisque pôr a esperança em causa encurralando-se numa noite de loucura. Aliás, os indícios já disponíveis apontam para imigrantes de segunda ou terceira geração, jovens socialmente débeis que se consideram discriminados na Europa e que sentem que conquistam poder ao impor o medo.

 

Não sabemos ao certo o que estava na cabeça dos agressores. Nem sabemos exatamente quem são. Sabemos que a maioria deles tem origens no mundo árabe-muçulmano. Supõe-se que a maioria dos agressores vem do meio dos imigrantes, não do dos refugiados. Mas sabemos pouco sobre eles. Estamos, provavelmente, perante questões novas que resultam da brusca abertura do mundo islâmico ao modo de vida na civilização ocidental.  Acolher os que procuram refúgio é um nosso dever. Mas o acolhimento não pode ser apenas abrir-lhes os braços, ajudá-los a arranjar casa e trabalho e dar-lhes documentos. Requer de todos a aceitação de um contrato social com a modernidade da vida nas sociedades ocidentais. Talvez seja preciso pensar numa mediação. Há que tratar a questão dos valores incontornáveis a fazer compreender, partilhar e defender.

 

Não podemos fechar os olhos ao que aconteceu em Colónia e em outras cidades alemãs. Mas também não podemos fechar as portas aos que nos pedem refúgio. Há questões para discutir e tratar, designadamente as que cruzam migrantes e as questões de género. Com os direitos e a liberdade da mulher em igualdade com as questões da independência e da liberdade de expressão, religiosa e política. Uma interessante investigação publicada em Washington pelo Politico Magazine alerta para a tendência para, em resultado da migração proveniente do sul, com ampla maioria masculina, estar em alteração o equilíbrio de género na Europa. Predominância de homens.  Há que ponderar os efeitos a médio e longo prazo destas mutações.

 

Enfim, tanto para refletir e discutir. É seguramente um tema adequado para discussão na campanha presidencial portuguesa, que tão alheia tem estado das questões da Europa. O que aconteceu em todas as Colónias (Berlim, Bielefeld, Hamburgo, Stuttgart e outras cidades) não pode ser minimizado e também há que prevenir a instrumentalização xenófoba e racista que explora os medos frente ao outro e que já está a atacar. A tensão é inquietante. Obviamente, não são as mulheres europeias quem tem de mudar.

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

O terrorismo, outra vez. Agora em Sultanahmet, o terreno entre as duas grandes mesquitas na mais turística Istambul. Seguir aqui, aqui, ou aqui no SAPO.

 

O preço do petróleo baixou para 30,6 dólares por barril. Em Junho de 2008 passou os 145 dólares.

 

Primeiras páginas escolhidas hoje: esta, do Guardian. E estas, reproduzidas no SAPO JORNAIS: a do Libération, a do Daily Mail, a do Le Temps, a do Público e a do DN. Todas com o ovni pop Ziggy Stardust que fez vibrar o mundo e que descolou para os céus com uma canção a que chamou Lazarus.

 

Há que seguir logo à noite o legado histórico do presidente Obama sobre o estado da nação americana.

publicado às 10:10

Imigrantes ou migrantes, tanto faz. Há um muro à sua espera

Por: Alice Barcellos

 

Na sua maioria estão em fuga dos seus países de origem destroçados pela guerra – Síria e Afeganistão. Vêm à procura de asilo político e de um novo começo. Aspirações que têm pela frente vários muros a escalar.

 

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 Família síria chega à ilha de Kos, Grécia. Foto: AFP

 

A História ensina-nos sempre lições e mostra-nos como o tempo é algo tão relativo. No ano passado, assinalaram-se 25 anos da queda do Muro de Berlim. Fizeram-se reportagens, entrevistas sentidas, reconstituições da data; líderes políticos passaram mensagens de paz e solidariedade. Lembrar para que nunca mais volte a acontecer.

 

A verdade é que, nem um ano volvido da celebração desta data, a Europa está mais dividida do que nunca, e o pior é que alguns destes muros não são físicos, são barreiras invisíveis construídas por ideias e políticas – talvez as mais difíceis de derrubar.

 

O que são 25 anos na história recente da Europa e do Mundo? Quase nada ou muito tempo, dependendo da perspectiva que se tenha e da análise que se faça. É muito, se pensarmos em tudo o que mudou ao nível político, social e económico durante este um quarto de século. É pouco, quando constatamos que erros do passado continuam a repetir-se aqui tão perto. É tão pouco quando ainda tantos de nós têm vivas as memórias de uma Europa dividida.

 

Abafada pelas notícias da crise na Grécia, a Hungria foi anunciando ao mundo o sucesso da construção de um muro na fronteira com a Sérvia. O governo de Budapeste quer travar a entrada de imigrantes. Só este ano já foram mais de 78 mil pessoas a tentar entrar na Hungria pela fronteira com a Sérvia. Destas, poucas realmente conseguiram. O Governo só concedeu asilo a 240 pessoas durante este ano e tem recebido críticas por causa do repatriamento sistemático dos imigrantes ilegais.

 

Imigrantes ou migrantes, tanto faz, na sua maioria estão em fuga dos seus países de origem destroçados pela guerra – Síria e Afeganistão. Recorrem a esta porta de entrada na Europa para depois tentarem seguir viagem para outros países, como Alemanha ou Áustria. Vêm à procura de asilo político e de um novo começo. Aspirações que vão, a partir de agora, ter de “escalar” um muro de 175 quilómetros de comprimento e quatro metros de altura, que custou 21 milhões de euros.

 

A Hungria, que entrou para a União Europeia em 2004, tem sido criticada por outros parceiros, mas nada que tenha demovido o governo de Victor Órban de desistir da ideia de um muro como forma de combater o enorme fluxo migratório que está a atingir a Europa.

 

Por ironia do destino (ou não), no mesmo período em que o governo húngaro se congratulou ao mundo pela sua solução para travar a imigração, a UE erguia também um muro à volta da Grécia e das soluções apresentadas por Tsipras e Varoufakis, rodeado de números, memorandos e exigências. Nas ruas, o povo grego batia com a cara nas portas fechadas dos bancos. Mais um tijolo no muro invisível que vai dividindo a Europa.

 

Apesar da divisão de ideias e mentalidades, a Europa continua a ser o local de sonho e segurança para muita gente, principalmente para quem está numa situação miserável, a fugir de guerras e conflitos. Para quem já não tem mais nada a perder a não ser a própria vida. E qual tem sido a resposta da Europa a estas pessoas? Muros.

 

Antes da Hungria, já outro Estado-membro da UE tinha optado por esta solução. A Bulgária começou a construir, no ano passado, um muro de 32 quilómetros na sua fronteira com a Turquia e tem planos de alargá-lo por mais 82 quilómetros nos próximos tempos. A guerra civil na Síria, que assola o país desde 2011, já causou mais de 4 milhões de refugiados. Metade destes está na Turquia, que faz fronteira com a Síria e que se tornou o país com mais refugiados do mundo.

 

Mais recente é o muro em que se transformou Calais. Se antes a cidade portuária era um ponto de ligação entre França e Inglaterra, e continua a ser para quem tem um passaporte, agora é um limbo para milhares de imigrantes que tentam a sua sorte numa fronteira cada vez mais vigiada.

 

Em julho, o Reino Unido anunciou o financiamento de 9,9 milhões de euros para a construção de uma nova vedação em Coquelles, além de assegurar o reforço da segurança na entrada para o Canal da Mancha.

 

O discurso anti-imigração de David Cameron e companhia conseguiu desfigurar a realidade que se vive em Calais, fazendo daquela fronteira um “campo de batalha” contra a imigração ilegal, que conseguiu roubar a atenção dos media.

 

Mas contra factos não há argumentos: este ano chegaram a Calais entre a 2 a 5 mil pessoas, contra as 200 mil que chegaram a Itália e Grécia. Entre os países da UE mais procurados por imigrantes, Inglaterra é o que menos concede asilo: em 2014, o país recebeu quase 26 mil pedidos de asilo e concedeu 10.050. A Alemanha concedeu 97.275 e a França 68.500.

 

Erguem-se novos muros em Calais, vedações são reforçadas, há mais arame farpado e polícias, mas o Mediterrâneo continua a ser a principal rota para aqueles que procuram entrar na Europa. Rota para milhares, cemitério para outros tantos, o mar que, outrora, ligou países e culturas é, hoje, cenário de tragédias constantes.

 

Foi a partir dos botes sobrelotados de olhares perdidos e desesperados que começamos a ouvir os termos “migrantes” e “ilegais”. Mais um “mito” criado à volta de quem aqui chega que é, sobretudo, refugiado (62% dos que chegaram à Europa pelo Mediterrâneo fogem das guerras na Síria, no Afeganistão e Sudão). E, acima de tudo, são pessoas. São vidas arrebentadas por guerras e outros tantos horrores que vão sofrendo desde que resolvem fugir da morte quase certa nos seus países.

 

É este facto tão simples que tem passado ao lado, como um barquinho de papel numa piscina, dos nossos líderes políticos. É inconcebível virar as costas e fechar as portas a estas pessoas. Vai ser fácil acolhê-las e lidar com a maior crise de refugiados desde a II Guerra Mundial? Não. Mas continuar a erguer muros e a fechar os olhos não pode ser a única e vergonhosa resposta que temos para dar.

 

Alice Barcellos é jornalista de profissão e poeta de coração. Nasceu no Rio de Janeiro, em 1986, mas trocou a cidade Maravilhosa pela cidade Invicta há 15 anos. Adora contar estórias, quer seja em texto, fotografia ou vídeo. Quando não está a trabalhar no SAPO (e em outros projetos que vai participando), gosta de ter a cabeça voltada para o mar e para os livros, para os seus gatos e cadela ou jogar conversa fora com amigos.

publicado às 11:03

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