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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Madrid nos mata. Outra vez

 

Por: Miguel Morgado

 

No Futebol, Fé e Fado (destino) andam, muitas vezes, de braço dado. 22 anos e um dia depois, três amigos repetem uma visita ao Santiago Bernabéu. Uma incursão a Madrid que mete rituais, carros avariados, política à mistura e uma repetição da história. No fim do dia acrescento ao puzzle o F de Família.

 

 

 

As deslocações ao estrangeiro em jogos para as competições europeias fazem parte do sonho de qualquer adepto de futebol que se preze. Visitar catedrais como São Siro (Milan e Inter), Celtic Park (Celtic), Vicente Calderón (Atlético de Madrid) ou Santiago Bernabéu (Real Madrid) entra nos desejos de quem gosta do jogo do 11 para 11. Seguindo um ritual que é mais ou menos comum nessas viagens, tive o privilégio de ter estado nesses, e noutros, estádios, em lazer e em trabalho. E de ter a companhia de um grupo de amigos mais ou menos fixo. Foi assim, por exemplo, a 13 de setembro de 1994 com Madrid como destino e Santiago Bernabéu como palco. E seria assim, 22 anos e um dia depois, marcando o regresso ao mesmo local onde a felicidade não tem sido regra.

 

Neste espaço de tempo, o carro cresceu, passou de um Citroen AX para um Ford de 7 lugares, o grupo, então de cinco, renovou-se e transformou-se num 6+1, sendo três deles repetentes e o “+1” uma boleia um tanto ou quanto inesperada que surgiu em Elvas e que explico mais à frente.

 

As viagens de hoje em nada se compararam com as do século passado, em que as estradas e o nosso tempo em tudo diferem. Recuemos a 1994. Mochilas preparadas, saída com antecedência de Lisboa, algo que a faculdade facilitava. Cavaco Silva como primeiro ministro. A autoestrada do lado português ligava Almada à Marateca, o resto nasceria para a Expo 98. Da fronteira lusitana até à capital espanhola mais de 400 quilómetros de asfalto, entre obras e limite de velocidade de 90 km/h. O socialista Felipe Gonzalez já então desenhava a ligação mais rápida entre as duas sedes ibéricas de governo.

 

Na altura, em 1994, a visita e estadia na Pension Hostal “Chelo”, na Gran Via, estendeu-se ao longo de três dias desdobrados por um roteiro gastronómico, cultural, entre museus e ensinamentos sobre a história de Espanha - ida ao Valle de los Caídos e ao el Escorial - e a experiência da “movida” numa Espanha mergulhada no desemprego (rondou os 25%). 

 

No que respeita ao futebol, razão primeira da excursão, o Real Madrid então treinado por Jorge Valdano e com artistas como Michel e Laudrup venceu, em jogo da 1ª mão da Taça UEFA, por 1-0 a equipa portuguesa que “calou” a afición madritista. Na formação então treinada por Carlos Queiroz  pontificava um tal de Luís Figo, formado no Sporting Clube de Portugal que viria a vestir a famosa camisola branca e a ser considerado o melhor jogador FIFA.

 

 

24 horas e 1200 km por um jogo de futebol

 

Avancemos agora um pouco mais de duas décadas. Nos preparativos, a pensão “Chelo” (cujo o mesmo quarto de 1994 serviu de porto de abrigo numa outra incursão futebolística a Madrid já neste século) chegou a entrar nos planos para o jogo de abertura da Liga dos Campeões. Questões de fé, família e compromissos profissionais obrigaram a uma viagem relâmpago de 24 horas.

 

Com a fronteira de Badajoz à vista, para abastecer o estômago dita a experiência acumulada que, para primeira refeição do dia, é melhor restringir as ambições ao nosso território. E assim foi feito em Elvas, na fronteira do Caia. E é aqui que entra para a história uma curiosa boleia.

 

Um carro de uns miúdos avariou. Miúdos que como nós tinha um mesmo destino e uma mesma missão: Madrid para ver o Sporting. Um puto de 20 anos sai do carro e vem ter connosco a pedir ajuda (leia-se boleia até Madrid).Os outros amigos seguiam em carro alugado em Elvas e / ou por outras boleias até à capital espanhola. Acrescentámos assim um elemento à comitiva. Com a Estremadura e a companhia de muitas matrículas portuguesas pela frente, entre a habitual discussão sobre o mundo da bola, o rapaz da boleia, após conversa rápida, lá nos conta que é jogador de rugby do CDUL. Já em Madrid, no almoço no “el Lateral”, restaurante na Calle Serrano, o apelido denunciou-o como sendo filho de um Secretário de Estado do anterior governo. Com os seus amigos vindos de Elvas a vaguear pelo Paseo de la Castellana, contas feitas, telemóveis trocados à cautela, informou que o seu regresso, sem data e hora marcada, seria tratado durante o resto do dia. Ou no dia seguinte. Uma normalidade para a idade e que arrancou sorrisos a quem tem idade para ser pai dele. “Ai quem me dera ter outra vez 20 anos....”, ouviu-se.    

 

As desculpas de Ronaldo na repetição da história

 

A cinco horas de distância para ver Ronaldo, Bale, William Carvalho, Adrien e Patrício, entra em campo o ritual de andar, parar, picar, beber, conversar, andar novamente até chegar a Chamartin onde é esperado um controle apertado de segurança na entrada, polícias que mais parecem Robocops, cavalos, cães com açaimes e tudo o mais. Os portugueses, uns mais conhecidos que outros, andam por todo o lado à porta do estádio. Lá dentro, na imensa multidão, sobressai Hermínio Loureiro, ex-secretário de Estado do Desporto (não é por acaso que se diz que política e desporto andam de mão dada).

 

 O arbitro apitou, a bola rolou, o público cantou, o Sporting marcou (primeiro), Gelson encantou, Ronaldo, o tal que andou vestido de verde e branco, marcou mas não festejou (já o tinha feito por duas vezes ao serviço do Manchester United), pediu desculpas, e, no final, o Real Madrid ganhou (2-1). Em jeito de ilustração “jogamos como nunca, perdemos como sempre”, foi a frase que repetidamente se escutou durante o tempo obrigatório de espera nas bancadas.

 

O F de Família falou mais alto

 

Fim de jogo. Dois táxis apanhados até à Calle Serrano, jantar numa cadeia de restaurantes, dose reforçada de cafeína, início de viagem pouco depois da meia-noite e o carro atestado numa saída na E-90. Seguindo a palavra mágica de Badajoz, os assuntos de futebol ficaram para trás e foram substituídos por filhos, trabalho e atualidade, do serviço nacional de saúde, do governo liderado por António Costa à crise política espanhola. A despedida de Espanha é feita num estação de combustível a escassos quilómetros do Caia. No tal local onde a história do carro avariado (algo mais comum do que se pensa) foi por instantes recordada e vivida na primeira pessoa quando a bateria do tal Ford de 7 lugares falhou. Boleia para 6 àquela hora não vinha nada a calhar. Valeu uns cabos salvadores. Safa!   

 

5h30 hora de chegada a Lisboa. Tempo de, mais uma vez, recordar 1994. Tudo porque, nesse ano, numa epopeia ao bom estilo camionista, depois de horas a fio a rolar por estradas nacionais no Citroen AX, uma vontade de começar o dia com uma bela bifana local levou a uma paragem em Vendas Novas. A noticia, às 7h00, de um segundo bloqueio da ponte 25 de abril deixou-nos, felizmente, fora do campo dos “últimos dias” de Cavaco Silva, desviando-nos para a reta do Infantado. Na altura, a inexistência de auto estrada em muito compensou. Hoje, ao invés, o tapete que liga as duas capitais contribuiu para que cumpríssemos o objetivo de tomar o pequeno almoço em casa. E no meu caso particular de celebrar, com um dia de atraso, às primeiras horas da manhã, o 10.º aniversário de uma das minhas filhas. Questões de família falam de facto mais alto.       

publicado às 10:55

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