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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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A minha praia, a sua praia e as praias às quais regressamos sempre

Por: Miguel Morgado 

 

Há mar e mar, há ir e regressar às praias onde aprendemos a nadar, boiar, mergulhar, surfar e namorar. Aqui não se pretende copiar o “guia” de Ramalho Ortigão - não temos esse dom! - nem fazer um guião moderno sobre areia e sal. Queremos, no entanto, deixar breves apontamentos que fazem parte da memória coletiva. Da bola de Berlim na praia do Barril, Tavira, aos croquetes do Palma, em Moledo, às ilhas, águas quentes e frias, ondas, neblinas matinais, ventanias estivais e nortadas, as barracas e o casario, as camisolas de lã, os escaldões e muito mais.

 

 

“Com os primeiros dias de setembro, terminou o período consagrado pela moda à vilegiatura de Sintra. Desde que o mês de agosto finda, até que S. Carlos começa, prescrevem as praxes que a estação marítima suceda à estação de montanha. Enchem-se nesta época, até deitar por fora, as praias de banhos da saída do Tejo e do litoral desde Setúbal até Âncora. Lisboa inteira debanda. [...] Mas de todas as praias portuguesas, é principalmente Cascais a que herda de Sintra a elite do seu verão”. O texto é retirado de “As Praias de Portugal: Guia do banhista e do viajante”, escrito por Ramalho Ortigão, em 1876, referindo-se a Cascais, rainha das praias portuguesas, sob o alto patrocínio da Família Real.

 

O autor de “As Farpas” retratou minuciosamente a paisagem, os hábitos, as "acomodações turísticas", deixou conselhos e recomendações, fossem elas "precauções higiénicas", duração de mergulhos e "socorros aos afogados", assim como uma "reconstituição dos temperamentos e dos caracteres pelo banho frio". 20 locais, todos a norte de Setúbal: Foz, Pedrouços, Póvoa de Varzim, Granja, Espinho, Ericeira, Nazaré, Figueira da Foz e Setúbal, praias de Leça e Matosinhos, as praias "de Pedrouços a Cascais" e as "praias obscuras", Âncora, Apúlia, Furadouro, Costa Nova, S. Martinho do Porto, Assenta, Santa Cruz, S. Pedro de Moel, Porto Brandão, Alfeite e Fonte da Pipa.

 

Ora reconheçamos que não temos o dom literário de Ortigão. E acrescentamos que a ida a praia há muito que deixou de ser privilégio da aristocracia e de gente fina que se fazia acompanhar pela criadagem, assim como as justificações para por o pé na água vão muito além dos fins medicinais.

 

Muitas das praias atrás elencadas, ainda hoje, são paragens obrigatórias de verão que passa de geração em geração. Sem pretender apresentar um guia exaustivo sobre a areia e sal, de praias mais bonitas ou mais in, começamos de chinelos e creme de proteção elevada e terminamos de casaco de lã vestido numa seletiva viagem pela costa continental portuguesa para depois apanharmos o voo e barco até aos Açores e Madeira. Há seguramente outras praias para além das que se seguem, não duvidamos, pelo que citamo-las quase de memória, com a certeza que estão, seguramente, cada uma delas, na cabeça de cada um de nós. 

 

Apanhar o comboio para a praia e comer uma bola de Berlim no Barril

 

As âncoras alinhadas na Praia do Barril, em Pedras d’el Rei, Tavira, para onde se chega passando uma ponte provisória com décadas e saltando para bordo de um comboio que faz lembrar o mítico anúncio dos chocolates de leite “Fantasia de Natal” são postais da praia com as melhores bolas de Berlim de que há memória e que, ano após ano, o “senhor Guerreiro” vende às famílias que em cada verão se estendem num areal que, infelizmente, vai estreitando.

Começa aqui a nossa viagem, numa praia que me é familiar, para onde fui em pequeno, durante os tempos de faculdade e agora casado, bom rapaz e com filhos. Esta zona do Algarve tem ainda como referência a praias de Monte Gordo e a Praia Verde, numa tradição que nasce na era democrática. Seguindo, damos um salto até à praia da Falésia, Albufeira, deslumbramo-nos com a Praia da Rocha, o Alvor ou com o areal da Meia Praia, em Lagos. Chegados a Sagres, soprados pelo vento, entramos na água gelada nas praias lá em baixo e assistimos ao pôr-do-sol cá em cima, na ponta mais ocidental de Portugal continental.

 

Rumamos a norte. A costa vicentina, outra tradição bem recente, servirá, por certo, para formar novas gerações de veraneantes. Aljezur, Odeceixe, Zambujeira do Mar, que entrou no mapa muito por culpa dos festivais de música, até Vila Nova de Mil Fontes. E aqui, neste refúgio alentejano, a divisão familiar ganha vida no areal e ondas do Malhão, uma praia que se divide em três, ou na paisagem escarpada dos Aivados.

 

Novo pulo. Grândola é Vila Morena e nas suas praias convivem ditas elites e famílias do Alentejo profundo que têm nestas areias finas a praia mais à mão. Entramos em Tróia, em Setúbal, e no mar azul turquesa da Figueirinha e chegamos a Sesimbra.  

 

Na Ericeira o Mar é mais azul e o sol só depois do meio-dia 

 

Neste jogo da memória, e no caso com propriedade de conhecimento de 25 verões bem passados, passamos para norte de Lisboa e para um local com tradição secular já referenciado por Ortigão. A Ericeira, vila de pescadores e de surfistas, hoje transformada em condomínios com piscina e vista de mar. A Ericeira do mar batido, dos limos e pedregulhos que subiam e desciam o areal consoante a força do mar, da areia grossa, das crianças atiradas para dentro de água quase à sua sorte para aprenderem a dar as primeiras braçadas com a ajuda dos “banheiros”, nome hoje substituído por Nadadores-Salvadores, da primeira ida para dentro de água com pranchas, dos toldos às riscas, dos queques e dos biscoitos comprados na Casa Gama, das brincadeiras nas Furnas e as noites na discoteca Ouriço (sim, porque sítio de praia que é praia tem de ter alguma desculpa para se ver o nascer do sol), em suma, na vila que se arroga em que ali “o mar é mais azul”. Sim, é. Mas, acrescentamos que para ver a cor do céu, que se espera ser azul nesta época, só mesmo, muitas vezes, depois do meio-dia.

A neblina matinal é característica, aliás, de toda esta costa, começando antes na Praia das Maçãs, Praia Grande e estendendo-se por Santa Cruz, Peniche, Baleal, Foz do Arelho, São Martinho do Porto e São Pedro de Moel, com as rebentações na areia e a disposição e arquitetura das moradias de férias influenciadas pelo estilo modernista e marcadas pela personalidade dos projetos e em que, seguindo um roteiro pelas mesmas, deparamos com o nome das famílias, ou na Nazaré, outrora frequentada por gente fina acompanhada das suas empregadas que iam a banhos para tratar maleitas e cuja promoção externa alterna entre os gritos das peixeiras de “room, chambre e zimmer” e a praia do Norte com o “canhão” adormecido neste mês.

Seguindo a Costa de Prata, o extenso areal da Figueira da Foz e o Casino, local de muitos flirts, a Praia de Mira, única do país com Bandeira Azul há 30 anos consecutivos e a sua Barrinha, uma piscina gigante natural, local colocado no mapa com as “invasões francesas” de turismo, a Tocha, Quiaios ou Torreira e os fundões da Furadouro, já em Aveiro, é só repescar e refrescar a memória.

 

Os Casinos à beira-mar plantados nas águas que quebram ossos

 

Entrada na Costa Verde, às praias do Norte. Na Invicta, o copo de fim de dia nos Inglesinhos, Leme e Luz, a Praia de Leça, outrora a preferida da colónia inglesa que residia no Porto, com o Clube de Vela Atlântico e vista para o restaurante Brisa Mar ou para Marisqueira de Matosinhos, o areal de Espinho e da Póvoa do Varzim, com tradição cosmopolita e com Casinos à beira-mar plantados para animar os serões e Vila do Conde.

Para Esposende, se na Apúlia, dividida entre a pesca e a apanha do sargaço, colorida por toldos e barcos, com dunas que protegem do vento forte e águas pouco revoltas com iodo qb cujo efeito terapêutico está à vista, já em  Ofir com o seu Pacha, a cura é outra. 

Em Viana do Castelo, em Afife e a Praia do Cabedelo, spots da preguiça ao sol e das caminhadas nas dunas e do surf. Tal como Ramalho Ortigão escreveu, há também Vila Praia de Âncora, no Minho. Acrescentamos Moledo, em Caminha, rica em iodo, provavelmente uma das praias menos democráticas do país. As águas geladas, quebra-ossos, as ventanias estivais convidam mais às camisolas de lã do que a proteções solares. O mar aqui abraça o rio, namora a montanha e tem debaixo de olho o forte da Ínsua e Espanha, na outra margem. Este é o fim de linha na costa continental portuguesa de que nos despedimos em beleza alimentados pelo famoso croquete do “Palma”.

 

Águas quentes no meio do Atlântico

 

Voamos para as ilhas, a Madeira em primeiro lugar. Se a tradição de outrora muitos madeirenses faziam das Canárias, Espanha, a sua praia de eleição, o extenso areal da ilha de Porto Santo, as piscinas do Lido ou as piscinas naturais de Porto Moniz tem resistido no tempo neste paraíso de águas. Já os Açores, cada ilha, entre Fajãs, pedras e areia fina e escura, cada qual terá, com certeza, a sua história. Biscoitos e Prainha, na terceira, Almoxarife, no Faial e Ribeira Grande, em São Miguel, constituem exemplos que aqui destacamos.

 

Se começamos com o excerto de um clássico da literatura portuguesa, deixamos no final, como sugestão, em especial para uma nova geração, quiçá mais itinerante, o livro “Tanto Mar”, de Pedro Adão e Silva e João Catarino, escrito numa viagem num “Pão de Forma” pela costa continental portuguesa. Por certo, algumas das 10 praias descritas como as melhores para surfar lhe são familiares. Muitas outras poderíamos acrescentar. Para surfar, para nadar, mergulhar, bronzear ou namorar, umas fazem parte da nossa história e outras entrarão para memória futura.

publicado às 10:33

A Liga dos Aurélios?

Por: Miguel Morgado

 

Sabia que na época passada Maxi Pereira foi o rei da bola no pé (2639 toques), seguido do campeão europeu, João Mário? Já Gaitán com toque de Midas “deu” 14 golos. Jonas acertou sete vezes da marca de 11 metros e a cabeça de Slimani vale ouro em mais de 1/3 dos seus tentos. Que poderiam ser mais caso não tivesse falhado 20 golos certos. O Porto fez 570 remates e o Braga acertou 21 tiros no ferro. Dados que explicam o sucesso (e insucesso) passado e podem antecipar o que ai vem numa Liga onde moram, por enquanto, quatro “Aurélios”. Vamos às contas.

 

 

 

Aí está a Liga 2016-2017. No Seixal, em Alcochete ou no Olival, sabemos, por enquanto, que partiram Renato Sanches e Nico Gaitán, que os quatro “Aurélios” campeões europeus ainda moram, por enquanto, em Alvalade e que o Porto procura no “Somos Porto” a alma que perdeu no passado recente. Esses são os factos mais ou menos crus, mas que até ao fecho do mercado terão outros condimentos. Os números não mentem, diz-se, por isso olhemos para as estatísticas da época transacta para perceber a importância de jogadores e o sucesso (ou insucesso) das equipas. Números que, de certo, ajudam a perceber e antecipar a prova que está preste a arrancar. Um instrumento útil para treinadores e adeptos. E para presidentes dos clubes e empresários.

 

Ora bem. Peguemos então numa folha e apontemos. Sabemos de acordo com as estatísticas da 1ª Liga, que Jonas, avançado das águias, 16º jogador mais utilizado (33 jogos, 1 como suplente utilizado), contabilizou 2964 minutos e foi o melhor marcador com 32 golos. No outro lado da 2ª circular, morou, e mora ainda, Islam Slimani. Em 33 jogos acertou 27 vezes na baliza em 3013 minutos, o que fez do argelino o 15º jogador mais utilizado.

 

No duelo de pontas de lança, socorremo-nos de outras estatísticas. Esta disponibilizadas pelo “GoalPoint”, ficamos a saber que Jonas concretizou sete pontapés da marca de grande penalidade e foi quem rematou mais vezes (124 remates), o que fez do brasileiro o jogador com melhor taxa de concretização (25,80%). O clube que representa (15,90% taxa de concretização) liderou esses dados.

Já Slimani, com 65 remates enquadrados (entenda-se remates que poderiam ter resultado em golo) e o Sporting com 212 remates ficaram em 1ª lugar nessa estatística. A cabeça do avançado leonino vale ouro. Dos 27 golos marcados pelo argelino, 11 foram com a testa. Mas terá faltado algum discernimento, por vezes, na hora decisiva, desperdiçando 20 ocasiões flagrantes (de golo). Os leões forem quem também desperdiçou mais golos iminentes: 62 ocasiões no total. Números que poderiam ter alterado a história do campeonato e que explicam os menos 9 golos marcados que o velho rival.

 

De entre os “Aurélios” que jogam em Portugal, o muito cobiçado João Mário deu 2587 toques na bola ocupando a vice-liderança da estatística logo a seguir ao defesa direito portista Maxi Pereira (2639). Mas uma coisa é dar toques, a outra é ter um verdadeiro “toque de Midas” e colocar a bola no pé ou cabeça de um colega para que este finalize. E nesse campo, Gaitán foi o “rei” das assistências que levantaram os estádios: 14 que deram golo. Um número bem expressivo se olharmos que o clube que então representou, Sport Lisboa e Benfica, equipa que somou mais assistências (60) que resultaram nos 88 golos marcados. Com estes números, em especial os benfiquistas, podem começar a lamentar que o pé esquerdo do argentino vá, agora, entrar nas estatísticas da Liga Espanhola e do Atlético Madrid.  

 

Analisando ainda os dados disponibilizados pelo “GoalPoint”, o Futebol Clube do Porto foi a equipa que mais remates realizou, 570, sendo que desses, 66 provenientes de fora da área. Desses, 13 foram da responsabilidade do defesa Layún, que assim dividiu com Jonas as despesas do mais rematador antes dessa linha. Se Maxi Pereira foi aquele que mais vezes “levou a bola para casa”, o defesa da faixa contrária, Layún, tentou, de fora de área, fazer aquilo que os seus colegas não conseguiam: dar alegrias aos adeptos.

Mais motivos para sorrir poderia ter tido o Sporting Clube de Braga se algumas das 21 bolas enviadas ao ferro tivessem entrado. O avançado Hassan foi mesmo o mais “azarado” com cinco bolas a baterem onde não deviam.

 

Um Aurélio, dois Aurélios, três Aurélios...

 

O campeão em título, Benfica, parte para a nova época com o tetra como objetivo. Nas insígnias leva o título de equipa mais concretizadora com 88 golos (contra 22 golos sofridos o que a coloca como segunda melhor defesa da prova). A Liga atribui ainda às águias os prémios de Melhor treinador, Rui Vitória, revelação Renato Sanches e melhor jogador, a Jonas. Desses só o “bulo” da Musgueira já cá não mora. Até ver apostaram na contratação de diversos extremos (Carrilo) e na esperança de recuperação de outros (Sálvio).

 

No Futebol Clube do Porto, o homem que celebrizou a frase “Somos Porto” estará no banco dos dragões. A recuperação da mística está nas mãos de Espírito Santo que, para além dos milhões à disposição para investir, tem ainda muita massa crítica no Olival. Basta olhar para o umbigo do Dragão e perceber que aí mora não só o vencedor da 2ª Liga como também os campeões nacionais juniores. André Silva é um exemplo de recrutamento feito dentro de portas.    

 

Rui Patrício, Adrien, William Carvalho e João Mário, são os quatro “Aurélios” campeões europeus de futebol. Se o melhor guarda-redes da Liga (e do Europeu, diga-se), 4º jogador mais utilizado do campeonato português, com 3137 minutos e o tridente do meio-campo se mantiverem por Alvalade, apesar do forte assédio, em especial a João Mário, apelidado de “calminhas” pelo Mestre Aurélio Pereira, a equipa leonina ganha “reforços” de peso na luta pelo título nacional.

 

Caberá a Bruno de Carvalho e a Jorge Jesus avaliarem se podem, ou não, abdicar de um ou mais “Aurélios”, colocando no cesto, de um lado, o encaixe financeiro e, do outro, os pontos que esses jogadores podem valer no final da época. É por isso, no fiel da balança entre a cobiça e a cedência à tentação da venda dos “produtos” de Aurélio Pereira que poderá ditar o nome da Liga que agora inicia, podendo ser a Liga dos “Aurélios” caso estes campeões europeus nascidos em Alcochete não sigam as pisadas dos seus outros seis homónimos que andam por outras Ligas.

 

 

 

 

 

publicado às 09:16

Declaro abertos os Jogos do Rio, celebrando a 31ª Olimpíada da era moderna! Oi?

 Por: Miguel Morgado

 

O Rio de Janeiro e o Brasil atiram para trás as palavras Dilma, Impeachment e Lava-Jato e unem-se à volta da cultura, história, celebridades e música brasileira, tudo iluminado pela chama olímpica. Zika, segurança e atrasos, é só dar um “jeitinho, 'né”. Portugal leva 92 atletas de 16 modalidades, abençoados pelo Cristo Redentor. E Marcelo Rebelo de Sousa espera entregar medalhas, com vista para o Cristo-Rei.  

 

 

Hoje, 5 de agosto, cerca das 24h00 (20h00 no Rio de Janeiro) começam os XXXI Jogos Olímpicos de Verão da Era Moderna. Ao longo de quase quatro horas aguarda-se a proclamação, em pleno Estádio Maracanã, em inglês, francês e em bom português, da frase “declaro abertos os Jogos Olímpicos...”. Dez segundos de fama para Michel Temer, presidente interino, a que se seguem muitos mais segundos de uma música para “abafar” assobios, numa cerimónia em que tudo aponta para que seja o tenista Gustavo Kuerten a entrar com a chama olímpica. Sobre quem acende a Pira, nada se sabe. Sabe-se que haverá uma na Igreja da Candelária. Pelo meio, com direção criativa de Daniela Thomas, Fernando Meirelles (“Cidade de Deus”) e Andrucha Waddington, coreografado por Steve Boyd, americano que conta com treze eventos olímpicos, com orçamento mais de dez vezes inferior a Londres 2012, há dança, música, luzes, fogo de artifício, os esperados “uaus” de espanto, história e celebridades. E aqui entram figurões e grandes nomes do MPB, entram Gilberto Gil e Caetano Veloso, novas vozes, do rap e hip hop, MC Soffia (12 anos que “arrasam” nas redes sociais) e Karol Conka, desfilará a top model Gisele Bündchen ao som de “A garota de Ipanema”, entre olhares indiscretos e olhos regalados, Lea T, brasileira transexual, a primeira do género a fazê-lo numas olimpíadas. O desfile das delegações começa com a Grécia, e em seguida os países entram por ordem alfabética. No P de Portugal, desfilam 92 atletas liderados pelo porta-estandarte velejador João Rodrigues, com sete participações nestas andanças, o “país” dos refugiados é o penúltimo, e na sequência o Brasil entra com a promessa de delírio total dos presentes.

  

Hoje o Rio de Janeiro é e continua lindo. Hoje é feriado na cidade maravilhosa. E começam as Olimpíadas. E cariocas e brasileiros, como uma espécie de bipolaridade, esquecem tudo o que antecedeu recentemente num país sem tradição olímpica mas que cujos anos mais recentes levou a cabo esforços e investimentos olímpicos para pôr de pé um Mundial, em 2014, e agora, dois anos depois, os JO Rio 2016.

 

A partir da meia-noite espera-se que o Estádio Mário Rodrigues Filho, vulgo Maracanã, se transforme numa enorme pista de dança e convívio entre nações. Mas se rebobinarmos, a música foi, até hoje, outra. Zika. Dilma. Impeachment. E Lava-Jato. Quatro palavras que atingiram elevados índices de “popularidade” no Google quando se procura por Brasil. Se juntarmos as últimas três obtemos uma frase que resume quase tudo de que se falou e ainda se fala de e no Brasil, de Brasília à Cidade Maravilhosa. É assim: a operação Lava-Jato, a maior investigação levada a cabo pela Policia Federal brasileira, mega-escândalo de corrupção, originou um processo de impeachment que levou à destituição de Dilma Roussef, a presidente do Brasil, entretanto substituída por Michel Temer, presidente interino. Uma “tempestade perfeita”, vendaval político que só encontra paralelo com o da Ditadura Militar de 1985, misturado com uma recessão económica quase sem precedentes.

 

Ou seja, dos JO do Rio de Janeiro propriamente ditos só se falou dos atrasos em relação à construção de infraestruturas, a (ausência de) despoluição da baía de Guanabara e da Lagoa Rodrigo de Freitas, do doping de atletas russos, dos perigos do vírus, a quarta palavra, a Zika, que preocupa autoridades sanitárias e organizações desportivas, atletas, ao ponto de alguns de renome, em especial no golfe, não terem embarcado para o Brasil, e que afastou igualmente turistas e, finalmente, das questões de segurança.

 

E por falar em segurança, ao todo 85.000 mil profissionais, divididos entre agentes, forças de segurança pública e soldados que terão à sua guarda os 10.500 atletas em representação de 206 países. 17 dias na luta por 306 provas com medalhas, sendo que 161 são provas masculinas, 136 femininas e 9 são mistas. 42 desportos, sendo que há duas novidades: o golfe e o râguebi. 

 

Portugal, com 92 atletas representando 16 modalidades, terá José Garcia, ex-canoísta, como Chefe de missão de Portugal. Há atletas medalhados (Nelson Évora), repetentes (Telma Monteiro), naturalizados (Tamila Holub, nadadora nascida na Ucrânia e a mais jovem atleta lusa presente) e muitas esperanças face às mais recentes conquistas em diversas modalidades, seja na Canoagem (Fernando Pimenta), Ciclismo (Rui Costa), no Taekwondo (Rui Bragança), no Ténis de Mesa (equipa), no Atletismo (Patrícia Mamona e Sara Moreira), no Judo (Telma Monteiro) e no Futebol, seleção sub-23 que regressa ao palco olímpico depois Atenas 2004. A correr por fora estará a ginástica de trampolins (Ana Rente) ou tiro (João Costa).

 

O Navio Escola Sagres (NRP Sagres), embaixada nacional itinerante durante o maior acontecimento desportivo a nível mundial e que será a primeira edição de sempre de uns Jogos Olímpicos numa nação de língua oficial portuguesa, dará assistência a toda a comitiva hospedada na Aldeia Olímpica que, segundo números do Comité Olímpico Português (COP), rondará as 180 pessoas, entre atletas, treinadores, ‘staff’ COP, equipa médica e fisioterapeutas, chefes de equipa por modalidade, 45 profissionais de media de 19 órgãos de comunicação social e o departamento de comunicação do COP (duas pessoas).

 

Medalhas? Ouro? Prata? Bronze? Essa é sempre a pergunta demasiado cara para ser feita e à qual ninguém avança com números. Favoritos? À partida, remo, judo, ténis de mesa, atletismo... À saída das Terras de Vera Cruz, quando a popa do Navio Escola Sagres apontar ao Cristo Redentor, esperemos que, no Torna Viagem, traga o porão carregado de metal precioso e que rume aos jardins do Palácio de Belém, onde à sua espera estará Marcelo Rebelo de Sousa. Aguardaremos então pelo desenlace de encerramento dos Jogos Olímpicos Rio 2016. E pela cerimónia ainda no segredo dos Deuses. Para ser vista por 3.5 mil milhões de pessoas em todo o mundo.

 

publicado às 20:47

O Pokémon vai de férias para o Algarve. Vá com ele, por uma de quatro rotas alternativas

 

Por: Miguel Morgado

 

 

A realidade aumentada está na moda. Em agosto o país inclina a sul. Este ano o boneco virtual junta-se a todos aqueles que para aí rumam de férias. Ponto de partida? Imaginemos uma linha a sul de Lisboa que rasga horizontalmente o Alentejo e, em jeito de cascata, caça-Pokémons e automóveis percorrem as estradas nacionais. Sem portagens e com paragens sem preço, todas desaguam no mar, de Sagres a Vila Real de Santo António. Partamos, então, com mais de 30º à sombra.

 

Se é um leitor que tem sede de chegar ao seu destino de férias, no Algarve, e que se prepara para “voar” pela autoestrada, com uma breve paragem numa estação de serviço apinhada de gente com carros atolados de bagagem, bicicletas e alguns barcos de recreio, então as linhas que se seguem...são exatamente para si. Para si e para todos aqueles que decidiram, em agosto, rumar a sul, destino de eleição, há muito, de muitos de nós.

 

Este ano parece haver uma novidade: os Pókemon decidiram também ir de férias para o Algarve. No mundo da virtualidade imagine agora que são vários que se espalham todos para sul, à nossa frente. Por isso, siga-os e tente apanhar, pelo menos, aquele que vai de férias consigo. É este, o jogo que lhe propomos a seguir.

 

Para lá chegar podemos partir dos vários pontos cardeais do nosso rectângulo continental. Mas, para facilitar e porque não somos centralistas, a viagem aqui desenhada não se restringe a quem parte do Terreiro do Paço. Faz-se um pouco mais a sul de Lisboa, já do outro lado do rio Tejo. Sem ser a régua e esquadro, traçamos uma linha, mais ou menos horizontal e transversal, que rasga o Alentejo, partindo o país em dois.

Em jeito de cascata, o boneco virtual segue as rotas alternativas que o asfalto das estradas nacionais nos proporciona para chegar ao destino. De Sagres a Vila Real de Santo António, passando por Albufeira, no Barlavento ou Sotavento, na praia que escolheu estender a toalha ou numa qualquer vila na serra algarvia, se for esse o local eleito.

 

Por estas vias tudo será feito com tempo, aproveitando-o ao máximo. O imenso sol será nosso fiel companheiro, bem por cima das nossas cabeças ou do nosso lado direito. São também rotas para quem gosta e quer apreciar as várias e diversas paisagens que tem pela frente. Seja pelo litoral, interior ou a que segue o curso do rio Guadiana.

 

Há paragens obrigatórias. Canal Caveira a Alcoutim, praias no litoral alentejano, vilas alentejanas em que o tempo demora a passar, ou na estrada da serra do Caldeirão, onde cabines telefónicas da Portugal Telecom denunciam tempos de outrora. Pelo caminho, há nomes de terras de trazem à memória Minas de outros tempos que nos são familiares, umas encerradas outras recuperadas.

 

A paisagem é bucólica e diversificada. Há o amarelo torrado do Alentejo. O verde das serras e dos Parques Naturais. Observamos campos de milho, girassóis, olival, gado em pastagem e pás eólicas que com um toque de modernidade ajudam a pintar o quadro que nos espera. Há restaurantes de estrada e placas a anunciar fruta à venda. Há carros e camiões em movimento, estradas completamente vazias salpicadas por coelhos e gatos, sinais de limites de velocidade nas localidades que nos obrigam quase a parar no tempo e bicicletas com ciclistas que parecem terem perdido o pelotão da Volta a Portugal.

Nas vilas e aldeias, portas e janelas impedem o calor tórrido de entrar e as esplanadas de alguns cafés convidam viajantes e idosos locais a partilharem silêncios.

 

Comecemos então com a estrada nacional mais conhecida e frequentada. É um percurso que tem complementar no nome, mas que nesta altura tem estatuto de principal.

 

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IC1: Canal Caveira já tem minimercado

Em Alcácer do Sal, os ninhos que as cegonhas edificam servem de inspiração para a viagem que começou uns quilómetros mais atrás e nos guiará, em modo de voo plano pela planície, até ao Sotavento ou Barvalento algarvio.

 

Já foi a principal paragem, já perdeu o estatuto, esteve quase a sair do mapa e voltou nos anos mais recentes a ser (quase) aquilo que foi. Falamos de Canal Caveira, uma reta de cafés, restaurantes e do minimercado, que se alinham no sentido norte-sul, isto é, inclinado só para quem desce para o Algarve. Do lado inverso um imenso parque de estacionamento e uma ponte pedonal que parece servir de decoração, tantos são aqueles que arriscam a travessia mais direta ao café que está à mão de semear. Com estômago atestado, cumpre-se uma tradição. Mas, se quer acrescentar algo mais profundo da região, a seguir a Grândola, antes de Ermida do Sado, faça um desvio até as Minas de Lousal (minas de Pirites, já extinta) e revisite a história da vila no Museu Mineiro e no Centro de Ciência Viva do Lousal ou coma no restaurante Armazém Central.

 

Rode a chave da ignição de novo que é tempo de acelerar, porque as férias não esperam. Com mais ou menos tráfego, siga até Ourique, suba até Santana e São Marcos da Serra, e em São Bartolomeu de Messines ou desvia para Silves (N124) ou segue a linha do comboio até Tunes, Ferreiras, Albufeira. O mar está ali à vista. Passou rápido.

 

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Seguindo o curso do Guadiana pela N122  

Para o Pókemon que vem de Évora, passando pelas terras de vinho – Portel e Vidigueira –, em direção a Beja, não apanha o avião, antes calcorreia o asfalto e faz o desvio para Mértola e para o Parque Natural do Vale do Guadiana, pisando, mais à frente, a N122. Um desvio às Minas de São Domingos poderá fazer parte da sua rota. Com os semáforos e sinais a obrigarem à velocidade de 50 km/h no concelho de Mértola, em Vale do Açor de Cima, as cabines telefónicas com a insígnia Portugal Telecom levam-nos a quase parar como a recuar no tempo. E por falar em passado, a seta Pulo do Lobo aviva a memória política de tempos passados escritos na então jovem democracia.  

 

A seguir a Santa Marta é merecido o desvio, e pausa, em Alcoutim. Dai, pela estrada 122-1, quase que basta esticar o nosso braço esquerdo e tocamos no rio Guadiana e na vizinha localidade espanhola de Sanlucar de Guadiana. Serpenteie por essa estrada fora até Castro Marim (retomando aí o IC-127) ou siga pelo Azinhal e Junqueira até Vila Real de Santo António, onde desagua em algumas rotundas que ligam à famosa nacional 125. Chegamos, então, à ponta mais a leste do sotavento algarvio.

 

 

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Por entre Minas na N2 

Montemor-o-Novo marca outro ponto de partida deste jogo real que lhe apresentamos de chegar às praias algarvias por estradas sem portagens e com (obrigatórias) paragens que não têm preço.

 

Pela N2 siga até Santiago do Escoural. Na N2 contabilize Alcáçovas, Torrão, Odivelas, Ferreira do Alentejo – zona do imenso olival com o cunho Oliveira da Serra –, Ervidel, até aterrar num famoso eixo de Minas, das de Almina às de Neves Corvo: Aljustrel, Castro Verde e Almodôvar. Por aqui há algumas áreas de descanso que parecem elas mesmas estarem a viver esse estado de espírito de uma aparente imutabilidade eterna.

 

Nas imensas retas que antecedem a Serra do Caldeirão, alguns ciclistas vestidos a rigor parecem saídos da Volta a Portugal, mas não passa de pura ilusão. E talvez só com um truque de magia, perto de Barranco-o-Velho e Vale das Três Marias, uma antiga “Casa de Cantoneiros” da Junta Autónoma de Estradas, datada de 1936 arranjará comprador. Se andava à procura de uma, bom já deu por bem empregue a viagem. E por falar em oportunidades, em Besteiros encontra uma seta com as palavras “licor de medronho”. É parar, comprar e beber, só depois de já sentadinho e bem instalado, se faz favor. São Brás de Alportel marca um triângulo de soluções. Para Loulé com passagem por Querença pela N396, seguir em frente até Estói e Faro ou virar à esquerda (N270), para Tavira, fazendo parte da Algarviana. E por aqui ligue-se, por via transversal, quase até ao mar da costa Vicentina.

 

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Pelo parque natural do sudoeste alentejano e Costa Vicentina

 Aqui chegados, já fomos para o Algarve por três estradas nacionais. Mas há ainda um último itinerário. Recuemos até ao rio Sado. Em Setúbal, podemos apanhar o barco e navegar até à Comporta. Daí seguir pela N261-1 até Grândola ou, junto à costa, saltar até Melides (N201) e daí até Santiago do Cacém para apanhar a N120, vinda da “terra da fraternidade”.

Nesta estrada nacional, o Cercal é o próximo ponto de referência geográfica. Aí, de novo, duas hipóteses: ou seguimos pela serra do Cercal ou apanhamos o ar marítimo de Vila Nova de Mil Fontes (N390), para depois seguirmos para Odemira (pela N393) e retomar a nossa rota que nos levará a Odemira. A partir desta vila, entramos no Parque Natural do Sudeste Alentejano e Costa Vicentina. Carros com pranchas de surf empilhadas, para cima e para baixo, saltitando pelas imensas e belas praias da Zambujeira do Mar, Odeceixe e Aljezur. Uns quilómetros mais à frente, as curvas e contra curvas da Serra Espinhaço de Cão curvas levam-nos até Bensafrim e terminam em Lagos. Se tiver tendência para enjoar e porque a viagem já está quase no fim, opte antes pela estrada junto ao atlântico, pise as encostas da Bordeira e Carrapateira, aviste as pás eólicas que denunciam que estamos a chegar ao nosso destino, faça o desvio em Vila do Bispo (N268) e desagúe em Sagres. A ponta mais ocidental de Portugal continental e do Barlavento.

 

Chegamos. Apanhamos o último Pókemon. Como prémio nada melhor que um mergulho nas refrescantes águas desta ponta do Algarve. Ponto final destas linhas que nos levaram ao Algarve.

 

Rebobine, agora o filme. Regresse ao ponto de partida e pense antes de optar. Poderá ir pela via mais rápida, a 120 km/h, com os olhos fixos no carro da frente ou seguir os quatro caminhos que lhe apresentamos, por estradas nacionais e alguns troços regionais, traços bem vivos do passado e do presente e que nada têm de virtualidade.

 

Para o fim, um conselho: deixe o boneco da realidade aumentada em casa e desfrute de tudo o que o rodeia até chegar ao seu destino de férias. E aí chegado, desligue a chave da ignição e aproveite os dias para carregar baterias. As suas baterias.

 

Boas férias.

 

 

 

 

publicado às 09:45

Amanhã é dia de Taça e joga o Braga. Marcelo, o invasor de campo, é agora Marcelo, o presidente

Por: Miguel Morgado

 

Marcelo Rebelo de Sousa é um assumido adepto do Sporting de Braga e presenciou ao vivo todas as finais da Taça de Portugal em que o clube participou. Cinco até agora. Primeiro enquanto aluno, depois membro do governo, professor universitário, comentador político na televisão e, finalmente, estará no Jamor, no Estádio Nacional, na sexta final, pela primeira vez na pele de Presidente da República. Ele que já se transfigurou e foi um “invasor de campo” na sua estreia da prova “a doer”.

 

 

Pois é. Marcelo, o aluno, viu o Braga ganhar a única taça da sua história. Foi precisamente há 50 anos. Em 1966, então, com a idade de 17, ainda sem “pêra e bigode”, com “cachecol ao peito”, “frenético”, dando asas à inesperada alegria por causa do golo de Perrichon, saiu “disparado” das bancadas do Estádio Nacional e tentou, com uma “dinâmica” diferente dos dias de hoje, saltar para o campo para se juntar à festa bracarense. Mas a polícia não foi da mesma opinião e não deixou. Resultado? Levou “uma marretadazinha patriótica, suave e doce”, recorda Marcelo, comentador, em entrevista ao site da Federação Portuguesa de Futebol que recuperamos aqui nas vésperas da final do ano passado, com Sporting Clube de Portugal.

 

Domingo, o agora Chefe de Estado partilhará o palco com os artistas do tapete verde. Dita a tradição que o Hino Nacional seja escutado após o anúncio da sua presença. Dita igualmente o protocolo que Marcelo Rebelo de Sousa se sente na Tribuna presidencial e siga a tradição de, a partir do mais nobre lugar do Estádio, distribua medalhas por todos e entregue a Taça de Portugal só a uns, podendo nessa altura, finalmente, tocar no “caneco” que outrora lhe escapou ao toque aquando da tentativa de invasão.

 

Entre o protocolo e tradições, resta saber se tudo será “by the book” ou se, ao invés, Marcelo poderá surpreender, ou talvez não, e dar, antes do apito inicial, um mergulho à mata do Jamor, porque é ali que está a raiz e a razão da disputa da final da Taça de Portugal no Estádio Nacional, neste campo que é neutro e de todos. Se Marcelo dança em Moçambique ou assiste a inaugurações de “Padarias Portuguesas”, porque não vê-lo, em segurança, entre os seus e ao lado de todos os outros, vestindo a pele de presidente adepto, presidente dos Portugueses e adepto fanático do Braga, juntos na mesma pessoa fazendo pontes entre ambos.

 

Um especialista em finais e algumas histórias de várias delas

 

Os presidentes da República portuguesa assistem aos jogos e assumem, em regra, a despesa das entregas dos troféus e dos cumprimentos aos vencedores e vencidos. Há uns que não gostavam (Mário Soares), outros que sim (Jorge Sampaio) e outros a quem os jogadores não passaram cartão (em 2013 alguns dos craques do Benfica, de Jorge Jesus, não reconheceram e não cumprimentaram o presidente Cavaco Silva, na final perdida frente ao Vitória de Guimarães, de Rui Vitória). Já Marcelo diz-se especialista em finais.

 

Domingo a bola é redonda e são 11 contra 11. Sobre o estado de espírito do presidente da República terão a palavra o Futebol Clube do Porto e Sporting de Braga. Os dois clubes já por duas vezes se defrontaram numa final, uma no Estádio das Antas (1978) e outra no Jamor, dez anos depois. Seguiram-se outras finais bracarenses cujo resultado conheceu sempre o mesmo desfecho: a derrota. E na viagem pelo tempo há uma final que é sempre recordada. Na época 1981-1982, Quinito, treinador dos Arsenalistas, entra em campo vestido de fraque, mas o traje pouco ou nada adiantou, pois viria a ser o Sporting a fazer a festa. 

 

Falar da Taça de Portugal que hoje ganha o nome de Taça de Portugal Placard é falar, entre muitas outras, da final da contestação ao Estado Novo, em 1969, no Benfica-Académica, mas é também recordar a partida da consternação do “very light” e da morte de um adepto sportinguista no jogo com o eterno rival, em 1996. Ou do ano em que Manuela Ferreira Leite, assistiu à entrega da Taça a João Pinto, capitão do FC Porto, que venceu na finalíssima o Sporting, debaixo de uma chuva de garrafas de plástico. Houve finais em que a política falou mais alto: em junho de 1974, mês e meio depois do 25 de abril, antes do jogo, o hino nacional foi precedido do Grândola, Vila Morena.

Houve também jogos improváveis e cujo vencedor já não existe (Estrela da Amadora derrotou, em 1990, o Farense) ou cujo vencido também já desapareceu do mapa (Campomaiorense na final frente ao Beira Mar, numa final que teve a particulariedade de ser antecedida por uma oferta generosa do filho do Comendador Nabeiro – bifanas, imperiais, cafés Delta e música para todos os adeptos presentes no Jamor). Numa competição dominada pelos grandes, cinco equipas da 2ª divisão conseguiram chegar às finais: Setúbal, Estoril, Farense, Leixões (este da 2.ª B) e Desportivo de Chaves, mas nenhuma ganhou. Entre as curiosidades mais recentes destacamos a presença (2008), nas bancadas, de Jorge Jesus, assistindo a uma final leonina, talvez antecipando então que viria a caminhar com aquela gente.

 

O presidente adepto na festa do povo

 

A Taça de Portugal começa muito antes de se levantar o troféu, nas matas, epicentro de pic-nics, com couratos e bifanas, cervejas e vinho, sardinhas assadas e tudo o mais que sirva para fumegar. A Taça no Jamor é a festa de um povo que se espalha pelo imenso pulmão verde de Oeiras, com adeptos de barrigas mais ou menos proeminentes, a chutarem a bola mostrando, a quem passa, a razão de não estarem no palco principal, ou outros que preferem mesmo o desporto de levar o copo à boca. Ali, tudo se partilha, não há públicos nem privados. Comem todos do mesmo. É a essência do ser português. Por isso, não se admire de ver Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente adepto por lá. Antes de subir à Tribuna e cantar o Hino. Aguardaremos então pelo apito inicial e, já agora, depois pelo final para ver como e a quem fará a entrega da Taça de Portugal. 

publicado às 11:44

O Tri e a Liga do JJ pelos olhos de uma criança de oito anos

Por: Miguel Morgado

 

Num dia de todas as emoções, numa Liga que ficou para decidir na última jornada, eu, adepto e amante de futebol que sou, confesso que padeci de uma espécie de tentação eremita momentânea. E logo no dia D de uma das épocas mais intensas de que me recordo. Dentro e fora de campo. A culpa? Inesperadamente, tive de ouvir, em alto e em bom som, a voz de um miúdo de oito anos a falar de futebol. Do Benfica e do Sporting; dos golos; de Rui Vitória e Jorge Jesus e, claro, dos craques que dão os pontapés na bola e são a razão do jogo. Talvez por isso, optei por abstrair-me do mundo e ouvir alguém que acrescenta pureza ao jogo. Televisão nem vê-la, rádio no silêncio e redes sociais em modo off.

 

 

Terminou a Liga. Falou-se de cérebros, vouchers, Ferraris, malas, processos, vendedores de pipocas e criações e cópias. Ah...e de árbitros. Pelo meio, no facebook e no twitter, muita bola cá, bola lá entre Mr. Burns e o presidente adepto. Na guerra da comunicação até as operadoras lutaram pelos direitos de TV. Do jogo, de Renato Sanches, Slimani, João Mário ou Jonas, falou-se pouco, assim como do Porto e da sua mudança de regime. JJ termina a época como começou, a  falar do outro – do Benfica e de (Rui) Vitória (que não ficou calado). O Benfica conquista o 35º título e foi tricampeão, o 6º da sua história. E o primeiro que assisto enquanto adepto ao lado de um miúdo de 8 anos.

 

A uns quilómetros de distância de Lisboa e sem saber o que se passava na capital ou em Braga, o pecado foi mais forte e numa espreitadela a uma app fico a saber que o Sporting vencia na cidade dos Arcebispos e o nulo perdurava na Luz. Por breves minutos, poucos, mas que ainda assim possibilitaram uma inundação de mensagens de uma euforia leonina descontrolada, que levavam a crer que o título poderia ir para o homem que “batizou” este campeonato como a “Liga do JJ”. Mensagens e euforia viriam a terminar abruptamente. Um silêncio curto foi substituído por SMS de outra cor, que aumentavam de som à medida que se marcavam golos, uns atrás de outros, fechando a época com aquilo que o futebol tem de mais bonito: os golos.  

 

Voltando atrás no relato, quis o destino que entre um “bola cá, bola lá”, tivesse de levar um dos filhos, por sinal benfiquista, a uma festa. No regresso, com o título de campeão já entregue, tive de fazer um trajeto entre a Praia Grande e Lisboa com amiguinhos e amiguinhas e, em especial, com um miúdo (que não é meu, mas poderia ser), com a energia típica dos 8 anos, a gritar “Benfiiiicaaaaaaa”, “SLB, SLB, Glorioooossssoooooo” e “tricampeões”, impondo-me um fair-play improvável, considerando o estado de espírito...

 

...Bom, a criança lá pulava no banco de trás enquanto eu racionalizava que teria de recuar 39 anos para se conhecer algo igual, e em jeito provocatório, para combater o sexto tri, lá deixei cair que já tinha visto os tris, os tetra e o penta do Porto, mas reconhecia que do Sporting, bom .. dali, nada nas últimas décadas. Tri e tetra foi algo que se perdeu entre os anos 40 e 50 do século passado.

 

Ora bem, com as ruas de Lisboa pintadas de vermelho e branco, os gritos do miúdo abafavam as buzinas e outras tentativas de cânticos daqueles por quem passávamos. Afinal, a criança, um misto de Renato Sanches e João Mário em termos físico-técnico vocais, estava a festejar como se não houvesse amanhã. Ele que só tem 8 anos e que se recorda destes três títulos ganhos pela equipa da Luz e que, pelos seus olhos e cabeça, tem a capacidade para ver que o Benfica teve mais vitórias, que bateu o record de pontos de José Mourinho (2002-2003), que fez mais golos, que Jonas foi o rei dos marcadores, que Renato Sanches é uma estrela e que está de malas feitas para Munique ainda antes do Europeu, que Rui Vitória afinal não foi o Rui “Derrota”, que o Sporting está melhor e fez um grande campeonato, Slimani e João Mário são uma “máquina” e que Jorge Jesus ganhou títulos ... no Benfica, ajudando ao tri. Em resumo, viu aquilo que mais interessa (ou deveria interessar): o que se passou dentro de campo. Pelo lado mais puro. O resto fica para outros verem.       

 

 

JJ vs Rui Vitória, Mr. Burns vs Bruno de Carvalho, tu falas e eu respondo

 

Vamos então ver com os nossos olhos o que se passou. Jorge Jesus não é um profeta, mas está lá quase. No dia da apresentação como treinador do Sporting Clube de Portugal, afirmou que, a partir de então, em Portugal, não haveria dois mas três candidatos ao título. 34 jornadas depois esteve (quase) certo. Porque afinal foram só mesmo duas equipas, a anterior que representou e a atual que lutaram até à última jornada. A profecia de alguns, no entanto, manteve-se. Jesus volta a perder um campeonato no último terço. De fora das contas ficou, estranhamente, o Porto. E para meia-surpresa, entrou, um Benfica que assumia uma renovação, com Rui Vitória.

 

O Leão venceu a Supertaça, entrou a pés juntos sobre o seu eterno rival privado do “tal” cérebro, mas com as “ideias” do criador. A troca de palavras entre os dois eternos rivais estendeu-se do balneário ao plano da comunicação entre um especialista, João Gabriel, conhecido por Mr. Burns, e outro que em nada fica atrás na língua, Bruno de Carvalho, presidente dos Leões. No twitter, “casa” do primeiro, e no facebook, palco predileto do segundo, a guerra foi intensa. De um lado, Bruno de Carvalho, que transformou um clube quase falido num clube muito falado, tirou o coelho da cartola dos “vouchers”, no outro, Luís Filipe Vieira manteve-se sempre distante, optando pelo discurso da estrutura.  

 

No campo, o Sporting ganhou na Luz, somou vitórias e oito pontos de avanço. Fora dele, falou-se de Ferraris, recordou-se o passado de cada um dos que se sentam no banco, de quem tinha “ganho bola” e de quem tinha demorado 20 anos a chegar ao clube com mais títulos em Portugal. Slimani abriu o dossier dos castigos e dos processos, enquanto o Porto de Casillas e das contratações falhadas perdia pontos, mudou de treinador, perdeu ainda mais vezes e ficou de fora da luta precocemente. Rui Vitória operou uma revolução no plantel, perde pesos pesados e mete os miúdos, um deles, Renato Sanches, que carregou a equipa ao colo e viria a trazer o tema “idade” e “pernas partidas” para a Guerra Santa de Bruno de Carvalho.

 

Com a luta dos clube ao rubro a NOS e a MEO, operadoras que compraram os direitos de transmissão, não ficaram atrás. O tema arbitragem ganha força, JJ vê a vantagem encurtar até ser ultrapassado por aquele que nem sequer considera ser treinador, na única derrota e únicos pontos perdidos nos duelos entre os grandes. Octávio Machado entra em campo para “falar daquilo que vocês sabem que eu estou a falar”, ataca Victor Pereira e cada uma das últimas jornadas o homem do apito é devidamente escrutinado, mesmo antes de ser nomeado. Jonas e Mitroglou continuam a marcar, Renato Sanches a correr, Slimani não desarma e João Mário arma todo o jogo. Os golos em cima da hora são a demonstração que a sorte dá muito trabalho num campeonato em que só faltava entrar em campo o “jogo da mala”, mas a suspeição de compra de resultados viria a ter expressão prática na II Liga, diga-se.

 

Terminar tal como começou. A falar do outro

 

O campeonato terminou. No tapete verde, o Benfica, atacado, unido e identificado que foi o “inimigo externo”, foi campeão. A aposta de Vieira, a estrutura e treinador, resultou, enquanto o Sporting que cresceu e muito até poderia ter ganho. O Arouca está na Europa, o Tondela operou o milagre da manutenção e o Tri do Benfica é conseguido em três anos de mandato de Bruno Carvalho e mais um período de seca de um Porto e de um Pinto da Costa que já não é assim tão unânime nem tão dominador.

 

No apito final da Liga, o Marquês encheu, a festa alargou-se para além do Terreiro do Paço, e Alvalade recebeu em apoteose os vice-campeões. Jonas e Slimani marcaram. Vieira discursou e Bruno de Carvalho caminhou entre os seus, do MacDonald’s ao Estádio. Fora das quatro linhas, Jesus despede-se da época tal como começou: a falar do outro, do clube que representou e do treinador que o substitui, de criações e cópias, lamentando que o melhor não ganhou e Octávio Machado, por sua vez, fala de Victor Pereira como merecedor da camisola do 35º título. Rui Vitória coloca nas dedicatórias o homem das pipocas à frente de Jorge Jesus.

 

A discussão segue dentro de momentos, de certeza, nas redes sociais, onde não estiveram, na última noite, nem Bruno de Carvalho, nem Mr. Burns. Mas também um pouco por todo o lado, onde aposto que o miúdo de 8 anos não deixará de gritar o nome do clube tricampeão que conquistou o 35º título após 34 jornadas. Ou seja de falar daquilo que de mais puro existe no futebol.

 

publicado às 09:59

O mundo sabe que ... é um Sporting-Benfica

Por: Miguel Morgado 

 

 

Sporting-Benfica. O derby é muito mais que um jogo. É o duelo das nossas vidas. Une amigos e famílias. Mas também os divide. Atravessa gerações, de pais para filhos, de netos para avós. Uns estreiam-se no clássico pelas mãos dos familiares. Outros, não. No meu caso, um tenent-coronel foi o meu bilhete de entrada. Tudo porque o meu pai, que me levava a todo o lado, nunca me levou à tal partida. Já eu, com quatro filhos, dois do Sporting, uma do Benfica e outro ainda sem idade para escolhas, levei o mais velho, pela primeira vez, no ano passado. E repito neste sábado. Caro leitor, embarque comigo nesta viagem às raízes de uma paixão por um jogo especial. Talvez encontre semelhanças com o que se passa lá em casa.  

  

Spooooooortiiiinnnnng. Benfiiiiiicaaa. Cada vez que se aproxima o derby dos derbies uma voz começa a ecoar na minha cabeça. Já lá vão pelo menos, citando de memória, 34 ou 35 anos. Quase tantos quantos os tais jogos especiais a que assisti. A memória puxa as cores. Verdes, brancas e vermelhas. Os olhos atentam os cachecóis ao ar e as bandeiras ao vento. Os ouvidos escutam os tambores a rufar, as buzinas a apitar e as gargantas a cantar. As palmas batem umas nas outras. O corpo vibra com o estádio a transbordar de paixão. Uns experimentam o sabor da vitória. Outros, a azia da derrota.

 

Qualquer criança, a quem desde tenra idade seja injetada a paixão do futebol, sonha, um dia, estrear-se naquilo que é muito mais que um jogo. Seja pela mão do seu pai, pelo braço do seu avô, guiado pelo irmão mais velho ou por um tio afastado. O mesmo é válido para qualquer progenitor ou ascendente familiar. Os elos familiares, as cumplicidades, para muitos, começam nestes palcos. Lado a lado. De braço dado. De pé e sentados. Com sol ou chuva, de dia e de noite. Gritando, saltando, chorando, rindo, festejando e esquecendo. Avós, pais, filhos, netos, primos e tios - e acrescento, amigos, juntos naquela que é a segunda família.

 

Não fui exceção. Ou antes, fui. O meu pai, adepto do Sporting, uma clubite que herdou, ensinou-me que o Sporting-Benfica é muito mais que um simples jogo, levou-me e ao meu irmão a ver muitos jogos - dezenas deles ! -  percorreu connosco Portugal e além fronteiras. Tudo para ver o Sporting. Tudo, à excepção de um Sporting-Benfica ou Benfica-Sporting. Aquele jogo. O tal jogo. Estranho, dizem todos a quem conto isto.

Tem uma explicação, como tudo na vida. Perante o derby, o meu impôs-se uma tática anos a fio: abstrair-se do mundo. Ia trabalhar, folheava os livros nas livrarias do velhinho Centro Comercial Alvalade, Apolo 70 ou Arco Íris, em Lisboa. Mais recentemente, refugia-se no cinema. Simplesmente, não consegue ver. Os meus 44 anos ainda não me permitem encontrar explicação para esta espécie de hara-kiri. Não sei se o leitor compreende. Ele lá saberá o porquê. Adiante.

 

O meu primeiro derby

 

Ora, sem o empurrão do meu pai, com o meu avô materno adepto do Torreense, já sem a presença do meu avô paterno, o meu primeiro jogo do século foi na companhia de... um tenente-coronel que vivia no mesmo prédio onde morávamos. Foi a ele que o meu pai decidiu confiar os dois filhos, a alguém que, pelas insígnias ao ombro, impunha respeito. E ordem. E assim foi. Corria o ano de 1982, nos melhores lugares do estádio, na central, debaixo da pala do velho José de Alvalade, com os anéis olímpicos a servirem de auréola em cima da minha cabeça que vi aquele jogo. Com tanta gente respeitável (e velha) ao nosso lado, eu e o meu irmão comportamo-nos como verdadeiros meninos de coros, rapazes que mais pareciam ter saído do Colégio Militar. O Sporting venceu por 3-1. Jordão meteu os golos na baliza de Bento que acabou expulso por agressão ao capitão Manuel Fernandes. O máximo do vernáculo utilizado foi um “Buuuuu... fora o árbitro. O árbitro é ladrão. O árbitro é ladrão”.

 

Passaram uns anos, ganhei “asas” e vocabulário e comecei a ir ver os Sportings-Benficas com amigos. Mudei de lugar. Deixei de ver a bola sentado e passei a vê-la à distância, atrás das balizas, entre cabeças de gente que se acotovelava à minha frente. Com amigos, muitos dos quais ainda hoje me acompanham. O derby começava logo no início da semana. Nos bancos da escola e nas antecipações lá em casa. Antecipado que estava este fim de semana desde que era conhecido o calendário oficial da época, nesse dia, nada, mas mesmo nada, me poderia desviar da romaria a Alvalade. Uma caminhada que começava sempre à hora do pequeno almoço. Fosse a que horas fosse o encontro. Íamos para as concentrações. Juntava-me àquela família chamada “A Tribo do Futebol”. Saia de casa a gritar. Tinha voz até as cordas vocais me permitirem. A horas de distância do apito inicial, puxava dos pulmões um reforço para aguentar, metia pastilhas de mentol pela boca abaixo e resistia com as forças que quem corre maratonas.

 

O dia seguinte era (e muitas das vezes ainda continua a ser) preenchido com algumas horas de silêncio para recuperar a voz e outras tantas para mergulhar nas páginas do jornal desportivo publicado no dia seguinte. O resumo televisivo dos 90 minutos era momento de prime time lá em casa. Hoje, tudo é diferente. Já não se cola o ouvido ao rádio para saber se é penalty. No próprio estádio não desgrudamos os olhos do smartphone enquanto não escalpelizarmos as três repetições do lance. É golo. É grande penalidade. Tem de ser expulso.

 

Nestes jogos que já valeram dois pontos, valem três, nem mais ponto nem menos ponto, há derrotas, há empates e há vitórias. Umas mais expressivas que outras. Da adolescência recordo, em especial, alguns jogos. A tal tarde-noite de dezembro dos 7-1, em 1986. Aquela, num ano em que o Benfica terminaria campeão, serviu de consolo, numa espécie de troféu de caça, para quem torce pelos rapazes de verde e branco. Mais um pulo na história e na estatística e entra a célebre vitória do Benfica por 3-6. Recordo-o não tanto pelo passo de gigante que as águias viriam a dar rumo ao título, mas porque era dia da minha festa de anos. Tudo programado a seguir ao jogo. Restaurante marcado para mais de 40 pessoas. No final, sem recurso a telefonemas, emails, whatsapps, facebooks, faxes, pombos-correio ou outra forma, uma fibra óptica ligou a mente de todos os convidados e cada qual foi para casa. Uns a rirem. Outros a chorarem. Desconheço o estado de espírito do dono do restaurante. A viagem no tempo termina em 1999, ano de quebra do jejum leonino, em que um egípcio de nome Sabry gelou Alvalade e adiou por uma semana o festejo do título.  

 

A família entra em campo

 

Estamos a poucas horas de mais um jogo. Com quatro filhos lá em casa, dois rapazes e duas raparigas, os mais velhos são do Sporting, a número três na hierarquia decidiu pegar os irmãos (e resto da família) pelos cornos e assumiu-se como benfiquista. O outro, o benjamim, ainda não tem voto na matéria, embora, na privacidade das brincadeiras de todos os eles, seja uma verdadeira bola disputada entre quem está em minoria e os outros.

 

No ano passado, foi ano de estreia do rapaz mais velho na ida ao clássico dos clássicos. Confidencio que esteve para não ir. Tudo porque naqueles castigos de impulso que impomos, sobre os quais nem sabemos o porquê de o ter feito e que lá bem no intímo sabemos que não iremos cumprir, o tal castigo separava-o de entrar pela minha mão no jogo das nossas vidas. Com as lágrimas a caírem em jato pela cara, a palavra “vamos embora” serviu de aspirador daquelas cataratas do Niagara. Poderia ter outro castigo. Comer sopa de brócolos, peixe cozido todos os dias da semana seguinte, eu sei lá, qualquer coisa menos impedi-lo de ir à bola ver o tal jogo. E assim fomos e regressamos com um empate (1-1).

 

Este ano, o derby já começou. Já foi falado e falado lá em casa. Discute-se na rua. Nos cafés, nas escolas, nos transportes públicos e no local de trabalho. Programas televisivos e de rádio dedicam horas e horas aos 90 minutos de sábado. As redes sociais elevam o tom e estão a “bombar”, como diria o nosso ex-primeiro-ministro.

 

Eu vou. O meu filho de 11 anos também vai. O meu irmão leva a filha. Ah... o meu pai, que nunca entrou neste filme, vai ao cinema na companhia da mulher que, por acaso, é benfiquista. Já todos nós antecipamos o resultado. O meu filho confidenciou-me que, independentemente do desfecho final, vai entrar em casa a cantar a música “o mundo sabe que...” aos ouvidos da irmã, que é afeta do rival.

 

A ver vamos se não enfia a viola no saco.  

 

 

Nota do SAPO24

 

Conte-nos também as suas memórias do derby. Quando foi a primeira vez, qual o jogo que nunca esqueceu, como vai viver o derby de amanhã. Envie-nos a sua história para conteudos@mail.sapo.pt e as melhores serão publicadas aqui. 

 

(actualização a 7 de Março 2016, 11h00)

As outras memórias do derby podem ser lidas aqui.

 

publicado às 19:25

Um “ai o Carrillo” nas chinesices de Inverno

Por: Miguel Morgado

 

Entre referências a cabras, perus e galinhas chegou ao fim a longa novela peruana com Carrillo como personagem principal. Trocou o Sporting pelo Benfica. O presidente dos leões desvalorizou a perda do ativo e disparou nas redes sociais. Entretanto, a janela do mercado de inverno fechou na Europa mas a porta continua aberta, até ao final do mês, na China. Que entra no Ano do Macaco a gastar milhões. Por cá, há import-export com esse país grande que começa a gastar à sua dimensão. Na Liga e nos clubes. De lá vieram patrocínios. E para lá foi um “avioncito” e veio um “Pirata”. Antes, Jorge Mendes já tinha entrado em cena ao lado do Cirque du Soleil.  

Por razões profissionais, assisti à vinda de André Carrillo para o Sporting. Na altura questionei-me sobre a razão de, além do empresário (Elio Casaretto), acompanharem o jovem internacional peruano mais três figuras que se intitularam de diretor para o futebol, de marketing e ainda um cujo pelouro não ficou na memória. Hoje sei o porquê dessa, então, forte ligação de todos ao jogador que saiu do Allianza Lima para Portugal. A expectativa era que valesse ouro. E comissões. E valeu mesmo. Mas só para alguns. De fora destas contas ficou o clube que o trouxe.   

 

Janeiro é o mês conhecido como a “janela de Inverno” no mercado de transferências do futebol europeu. E é também um mês em que jogadores em fim de contrato podem assinar, livremente, por outro clube. Ora foi o que sucedeu com André Carrilo, internacional peruano de 24 anos que ainda veste as cores do Sporting Clube de Portugal mas que na próxima época muda-se para o eterno rival, Sport Lisboa e Benfica.

 

A mudança foi o ponto final numa novela que se arrastava, pelo menos, desde a temporada passada. Falamos da renovação do contrato de Carrillo com os leões. Pelo meio ouvia-se falar de meia Europa atenta e do piscar de olhos de Benfica e Porto a este diamante.

 

No longo duelo de vontades entre o presidente Bruno de Carvalho e o agente do jogador, Elio Casaretto, o jogador foi “encostado”, após uns pontapés na bola durante quatro jogos e mesmo depois de Jorge Jesus ter dito que este “daria milhões” ao clube. Como se viu, não deu e, por agora, os leões perderam financeiramente, já que nada retiram deste ativo (o Sporting pondera exigir em tribunal uma compensação financeira). Mas ao invés, deu - e muito - a ganhar ao agente e ao jogador, que além do prémio de assinatura receberá um ordenado muito superior ao que auferia pelas bandas de Alvalade. E poderá dar ao novo clube, caso o jogador dê o salto para outros palcos de cofres recheados.

 

Desportivamente, o Sporting sai, por enquanto, ileso. É líder, ex aequo com o Benfica. Mas aqui, meus senhores, é no final que as contas são feitas. E Carrillo, de águia ao peito, até pode receber as faixas de campeão pela equipa... liderada por JJ, o tal que saiu em sentido inverso. Ou então, se o Benfica conquistar o "tri", o peruano poderá dar no Seixal mais um passo na sua afirmação, podendo, no futuro, dar o retorno desportivo e financeiro de que dele se espera.

 

O fungagá da bicharada nas redes sociais

 

Com o peculiar estilo que carateriza o presidente do Sporting, a saída sem compensação de Carrillo não poderia passar sem polémica. E uma boa “peixeirada” das antigas. Ainda para mais para a equipa que viu arquivado o processo dos vouchers. Nas redes sociais (where else), numa mini-entrevista feita a si próprio, Bruno de Carvalho, escreveu dirigindo-se a Casaretto: «Permita-me, caro agente sem jogadores, um conselho: volte lá para o seu rebanho de cabras que no final do processo eu, como sempre fiz em todos os assuntos, explicarei a todos e de forma detalhada toda esta novela peruana.». Ou seja, BdC, “mandou” o empresário pastar cabras, deixando antever que será, nesta história, o último a rir. Mas faltou-lhe por agora, e não no futuro, fazer uma pergunta e dar a respetiva resposta. Explicar porque é que, com quase três anos de mandato e muitas renovações feitas, esta lhe escapou. Um próximo capítulo a seguir no Facebook.

 

Mas a bicharada virtual não se reduziu a cabras. A fábula do Bruno meteu ainda perus e galinhas numa resposta ao presidente Sindicato dos Jogadores Profissionais do Peru. Resumindo, o presidente dos leões (Rei da Selva) rugiu bem alto um “ai o Carrillo” em todas as direções. O jogador ainda hoje “jogaria na rua” se não fosse o clube que o projetou, o empresário não ganharia um “tostão” sem essa promoção e, em resposta a uma provocação de Casaretto sobre onde estaria BdC se não fosse o Sporting, retorquiu dizendo que o clube a que preside “estaria falido”. E à tal saída a custo zero, entre prémios de assinatura e comissões, diz que se devem acrescentar um número e muitas casas decimais.  

 

Com a Europa de janela fechada, a China assalta o mercado com milhões

 

O mercado de Inverno da bola europeia fechou sem grandes movimentações internas. Mas fora do espaço europeu, mexeu. E muito. A China é grande, quer ser grande e começa a gastar à sua dimensão no futebol. Neste mercado de inverno europeu, seis das cinco contratações mais caras envolveram clubes chineses: Alex Teixeira (50 M€), Jackson Martinez (42M€), Ramires (28 M€), Elkerson (18,5M€) e Gervinho (18M€). Estes e mais outros, tudo somado, até à data, ultrapassam os 300 milhões de euros. O mercado só fecha no final do mês. Um mês em que se inicia o novo ano. O Ano do Macaco que, dizem, será propenso ao risco e às mudanças. E gastos.

 

No que toca a Portugal, o Sporting reclama para si um negócio da China. Freddy Montero, “el avioncito”, saiu a troco de 5 milhões de euros para o Tianjin Teda e em sentido inverso veio Hérman Barcos, “el Pirata”. Dias antes, a Liga de Clubes tinha assinado um contrato de patrocínio com a gigante da tecnologia Ledman. Meio milhão de euros por época e outros “bónus” e a Ledman LigaPro arranca no próximo ano, já sem a cláusula de “obrigatoriedade” de inscrição de jogadores chineses nas primeiras 10 equipas na tabela classificativa.

 

 

Para a China, o rectângulo verde onde se joga futebol não se resume ao palco de uma atividade desportiva. É antes de mais o tabuleiro onde se jogará a mais pura das politicas de afirmação de poder e soberania no quadro da geopolítica. “O meu maior desejo para o futebol chinês é que os nossos clubes se possam transformar nos melhores do mundo”. A frase é de Xi Jinping, o homem forte da China.

 

Sempre atento, Jorge Mendes já tinha avisado do poderio desta nova superpotência. E não perdeu tempo. Enquanto Sporting e Benfica abrem escolas de formação naquele país - a China pretende abrir durante a próxima década 50 mil escolas de futebol -, o melhor empresário do mundo estabeleceu uma parceria com Guo Guangchang, líder da Fosun, donos do Cirque du Soleil visando trabalhar no desenvolvimento desportivo e comercial do futebol chinês. Para já, já, é dele uma das maiores transferência do ano 2016: Jackson Martinez. O tal que estava sentado no banco de suplentes do Atlético de Madrid. Parece piada de carnaval, mas não é. É que o futebol, apesar de quase possuir um ''mundo próprio'' e de muitas vezes viver imune e à margem de crises, na China, dia a após dia, ganha novos contornos. É só aproveitar.

publicado às 16:39

Os tostões do Tondela no negócio dos milhões

Por: Miguel Morgado

 

O melhor contrato é o MEO, ouve-se a norte. NOS é que conseguimos um acordo histórico, bradou Bruno de Carvalho. A Águia não quer ficar de bico calado e já se fala em cláusula de salvaguarda. Os “Três Grandes” do futebol português venderam jogos, camisolas, publicidade no estádio, televisões dos clubes e sabe-se lá mais o quê. Cada qual reclama que fez o melhor no negócio do século. Tal como no número de sócios e adeptos, a “galinha da vizinha” é sempre inferior à minha, agora transformada no meu contrato é maior que o teu. As operadoras agradecem. Porque o jogo é agora deles. Até 2030. E a “Liga dos Pequenos” está aí: “on sale”.

 

No mundo financeiro português os Bancos caem uns atrás dos outros. Contribuintes e investidores institucionais são chamados a garantir a sua sobrevivência. No mundo da bola, em ano de crise e com falta de liquidez, do banco das presidências das SAD parecem sair soluções miraculosas para o futuro do futebol nacional. Com a ajuda das empresas que começaram por vender telefones, telemóveis e que evoluíram para internet e televisão, a batalha pelo apetitoso conteúdo futebol trouxe para a mesa das negociações números nunca antes vistos: milhões, muitos milhões por jogos de futebol, que a partir de agora podem ser vistos nas múltiplas plataformas: tv’s, computadores, tablets, telemóveis e smartphones.  

O Sport Lisboa e Benfica foi o primeiro a abrir caminho. Luís Filipe Vieira preparava-se para desfilar na passadeira de figura do Ano com o mega-contrato de venda dos direitos televisivos dos jogos (em casa) do clube da Luz e com os direitos da exclusividade da Benfica TV. Um “kit” que deixa de parte as já patrocinadas camisolas e o estádio. As manchetes dos jornais cobriram-se de vermelho de reconhecimento.

 

Com a serenidade que se lhe reconhece, Pinto da Costa calou o vento suão que soprava e disse com pronúncia do norte: é MEO o melhor contrato. Os valores milionários oferecidos pela Altice/PT (dona do MEO) não mentiam e ultrapassam os dos encarnados. Para tal incluiu no pacote, para além dos jogos caseiros dos azuis e brancos e da televisão do clube, Porto Canal, o patrocínio nas camisolas e no estádio durante uma década.

 

Bruno de Carvalho tem dito (e mostrado) que o Sporting Clube de Portugal está na luta. No campo, nas palavras e na(s) exigência(s). Beneficiando de “outras guerras” ou pela audácia de saber esperar, o terceiro a fechar negócio surge como o primeiro em valores. Históricos no bolo final. Que é o que afinal conta para os adeptos. Nem que nesta espécie de Bolo Rei caiba lá muita fruta: as imagens de Slimani, JJ e companhia em Alvalade, a TV, a publicidade estática e virtual do estádio, camisolas, renegociações e sabe-se lá mais o quê. Afinal não estavam mesmo a saldo. NOS é que fizemos o acordo do século, gritam os leões. Será mesmo assim?

 

Uma década de bola numa operadora perto de si

 

Os três contratos não são comparáveis entre si porque em cima da mesa estão pacotes diferentes. Agora, o povo português, pouco sabichão na matemática, gosta muito, no entanto, de puxar pelo tamanho dos números. Avulso, sem interpretações e com muita emoção e pouca razão, o que interessa são os milhões que entram: os 400 de Benfica, os 457 do Porto ou os 515 dos leões (que reduzem-se a 446 milhões se falarmos só de vendas dos direitos televisivos). Juntos somam uma “pipa” de massa: mais de 1300 mil milhões de euros. Uma verba que, no entanto, não chega para a recapitalização do Novo Banco. Mas isso dos bancos foi chão que já deu uvas aos clubes de futebol. Agora é, como se vê, a vez das operadoras de telecomunicações entrarem em campo comprando e lutando pelo melhor conteúdo dos clubes: a bola e os craques.   

 

Sobre o que se assinou pouco ou nada sabemos. Todos os contratos têm cláusulas de confidencialidade. O do Benfica até parece permitir uma renegociação que o pode recolocar na liderança, numa espécie de vitória na secretaria. Da clareza dos números em bruto partimos para a certeza da duração: vão dos 10 aos 12,5 anos, entre imagens dos jogos e venda das televisões e exploração comercial. Uns a contar a partir de janeiro 2016, outros só em 2018. Ou seja até 2026, 2018 e 2030, respectivamente, mais ano ou menos ano, mais euro ou menos euros, os dois players do mercado das telecomunicações são agora também eles, e por muitos anos, os “donos da bola”. Os telespetadores agradecem, assim como os (aflitos) clubes, que ganham a curto prazo, embora desta enorme injeção de dinheiro nada se saiba quer quanto ao “quando”, quer quanto ao “montante” que entra durante o período definido, e se sairá para comprar craques ou pagar as contas. A certeza que existe por agora é que os clubes, à eterna discussão de quem tem mais adeptos, mais títulos ou melhor academia, somam agora uma nova sobre quem “fechou” hoje o mais alto valor neste negócio do século. 

 

A “Liga dos Pequenos” mostra o que vale

 

Fechado que está o assunto dos “Três Grandes” as atenções viram-se para a “Liga dos Pequenos”. A NOS deu ontem, penúltimo dia do ano, o pontapé de saída. Meteu mais oito clubes no pacote. A começar em 2019 e a terminar até dez anos depois. A bola está agora do lado da MEO. Porque o campeonato tem 34 jornadas e porque os “grandes” também jogam fora, o negócio é apetitoso. Pelo que o Tondela ou o União da Madeira ainda podem reclamar que fizeram o negócio de uma vida... medido em tostões.  

 

Hoje operadoras, clubes e telespetadores regozijam de contentamento. Daqui a 10 ou mais anos faz-se o balanço. E... bom, aí é “fazer a conta”, uma frase celebrizada por um ex-primeiro ministro, engenheiro de profissão, mas que se atrapalhou com tanto milhão. Logo se vê, dirão os clubes que vendem uma década de receitas de uma vez só. E, já agora, ninguém sabe como será a evolução do mercado, o das telecomunicações, das transmissões e do futebol. Mas como se diz na gíria, prognósticos só depois... do fim dos contratos. Até lá, caro leitor, toca a sintonizar o clube do seu coração, abram espaço aos artistas e deixem a bola rolar.

publicado às 19:26

Haka da Nova Zelândia ... silêncio por favor

 

Por: Miguel Morgado

 

Para os amantes de rugby, ver a Nova Zelândia e o “haka” é o sonho de uma vida. Foi a pensar nisso mesmo que, em novembro de 2014, comprei três bilhetes para o jogo da fase de grupos entre os All Blacks e a Geórgia, disputado no passado dia 2 de outubro, em Cardiff, no País de Gales. E foi aí também que vi um ensaio para a vida.

 

 

Gosto de rugby. De ver. Do que representa. Do que nos oferece e do que aprendemos. Cresci com o Torneio das “5 Nações”, nos idos anos 80. Nessa altura, andar vestido com as camisolas das seleções da Escócia ou da África do Sul era sinal de “sucesso” noutros campos. Não escapei a essa moda. Nem tão pouco de ter jogado (por pouco tempo). Fui e sou adepto. E espectador. E mais, sou pai de um jogador sub-12. Ele, a quem foi detetada epilepsia, dislexia e outras “ias”, após o “empurrão” do médico, entrou no maravilhoso e diferente mundo do rugby. Um universo de valores, entreajuda, respeito, de amizades e ensinamentos para a vida.  

 

Atualmente disputa-se o Campeonato do Mundo de Rugby em Inglaterra, evento que está a colocar a modalidade no epicentro das conversas sobre o mundo da bola (oval, no caso), seja pela espetacularidade do ambiente, pelo vídeo-árbitro ou pelo fair play que se vê a cada jogada deste jogo bruto disputado por cavalheiros. E eis que chegou a altura de usar os três bilhetes para o jogo da fase de grupos entre os All Blacks e a Geórgia, que comprei ... em novembro de 2014. Para o grande dia: 2 de outubro, em Cardiff, no País de Gales

 

De manhã, bem cedo, partimos. Feita a aterragem em Londres, seguiu-se uma verdadeira romaria até Cardiff, Estádio Millennium, o palco do encontro. Uma viagem de três gerações de uma família, do meu pai ao meu filho. Ele que ambiciona jogar pelos “Lobos”, é adepto do País de Gales e que tem no seu imaginário, desde que joga (já lá vão 4 anos), ver ao vivo e a cores os homens de preto a dançarem o “haka”, aquela dança tribal com que os All Blacks presenteiam os seus adversários e adeptos antes dos jogos.

 

No Estádio Millennium estavam 69109 pessoas. Leram bem. 69109 galeses, ingleses, georgianos, portugueses (denunciados por cachecóis do seu clube...de futebol) e, claro, uma enorme massa humana, que veste cor preta, a legião de adeptos da Nova Zelândia. Bancadas repletas de jovens universitários e de reformados, reformados de pernas pesadas....mas que bebem e cantam como adolescentes, homens e mulheres, pais e filhos, famílias inteiras que ali se deslocaram para presenciar, ao vivo e a cores, aquele momento. Os de preto ainda acrescentaram um adereço identificativo: o feto, planta transformada ícone cultural do país das ovelhas, estava estampado em caras, braços e tornozelos.  

 

Os anti-pop stars

 

Os olhos de quem lá estava e quem vê em televisões, tablets e outras plataformas, concentram-se no jogo. No campo e fora dele, este é especial. Os jogadores não são pop-stars desportivos, mas uns correm como o Bolt, outros têm os braços do Mike Tyson e ainda a “beldade” do Herrera (jogador de futebol do FC Porto). Não recebem salários de milhões, embora sejam seguidos por outros “ões” nos quatro cantos do mundo. Uns enrolam fitas à volta da cabeça, outros têm as orelhas que mais parecem pedaços de carne picada, tantas vezes a cabeça andou a roçar em pernas, troncos e membros. O sangue (ou lama) na cara faz parte da imagem de marca de qualquer fotografia. Ou selfie.

 

A humildade caracteriza-os a todos. É normal ver jogadores transportarem água para dentro de campo, entregando-a aos colegas que se contorcem com dores após uma placagem mais forte ou disputada uma bola na molhada (ruck).

 

"Uns enrolam fitas à volta da cabeça, outros têm as orelhas que mais parecem pedaços de carne picada, tantas vezes a cabeça andou a roçar em pernas, troncos e membros. O sangue (ou lama) na cara faz parte da imagem de marca de qualquer fotografia. Ou selfie."

 

Uma organização de pontapé para a frente e tudo ao molho

 

O jogo pauta-se por uma estratégia muito bem definida, embora aos olhos de quem pouco ou nada perceba mais pareça um jogo do pontapé para a frente, todos ao molho e fé em Deus numa espécie de bullying. Mas não é. Quem aqui joga são os bons, embora muitos tenham cara de maus. Cada qual desempenha um papel: o A depende do B, que por sua vez depende do C. Numa verdadeira coligação de forças, em formação ordenada, fazem parte todos do mesmo partido. Não deixam cair ninguém. Mesmo. Não há divisões nem cisões. Viram à esquerda e à direita, recuam e avançam com um objetivo: chegar lá à frente. Para marcar o ensaio. Sem individualismos, egoísmos ou excessos de protagonismos. Nem mesmo do árbitro que, com as câmaras ao peito mais parece um “robot cop”. Estranhamente, ou não, todos o respeitam. A ele e ao vídeo-árbitro, aquela pequena câmara que permite tirar dúvidas nos lances polémicos. Sem perdas de tempo, para que siga a bola e haja verdade desportiva. E no final, em corredor, vencedores e vencidos, todos se cumprimentam e batem palmas à vista de todos.   

 

Um ensaio para a vida

 

Adiante. O jogo a que assisti estava marcado para as 20h00. Vou confessar-vos: foram mais de 6 horas de viagem para chegar ao Estádio Millennium, num trajeto que se faz em 2h30m. Quando atrás escrevi “romaria” não foi ao acaso...

Dez minutos antes do grande acontecimento conseguimos estacionar o carro a “15 minutos a pé ou 10 a correr”, conforme informação dada à saída do parque de estacionamento. Ouvir, sentir e ver o “haka” estava à distância de uma corrida.

Em passo acelerado, com os meus 44 anos “puxei” pelo meu filho (11) e este pelo meu pai (a caminho dos 70). À entrada do mítico estádio ouvi um desabafo de alguém ao nosso lado que há 30 anos esperava viver o “momento”, mas que falhou devido ao trânsito. Também nós tínhamos perdido a dança. A tristeza de segundos foi ultrapassada por umas palavras, entre risos. “Não faz mal pai, não podíamos deixar o avô para trás”. Pois não. Esse não seria o espírito do rugby. E nem aquilo que nos ensina. Fomos uma equipa. Somos uma família. Daqui a uns quantos anos não sei se teremos hipótese de, juntos, concretizar o tal sonho. Sei somente que uma criança de 11 anos marcou, para mim, um ensaio para a vida.  

 

Ontem, 17 de outubro, começaram os quartos de final. Uma luta entre os planisférios Norte e Sul. Escócia-Austrália; Irlanda-Argentina; França e País de Gales-África do Sul e Nova Zelândia-França. Este último com a particularidade de juntar os finalistas da edição de 2011 na mesma cidade (Cardiff) onde os gauleses já bateram o seu adversário (nos quartos de final em 2007). Gostava de estar lá. Mas resta sentar-me à frente da televisão, para à hora marcada, ver, ouvir e sentir o “Ka mate! Ka mate! Ka ora! Ka ora!”. 

publicado às 10:31

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