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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Isto não é um país, é um campeonato de narrativas

Por: Paulo Ferreira

Nenhum país sobrevive se apenas puder optar entre velhas ilusões e novas privações. Mas é com isso que governo e oposição de direita estão a confrontar o país. 

 

 

Se o povo se alimentasse de narrativas éramos o país mais obeso do mundo. E se as narrativas significassem prosperidade seríamos o farol das civilizações.

 

 

Tudo, hoje, está reduzido a narrativas. Não há confronto de propostas políticas. Há uma guerra de narrativas. Não há governação nem alternativas. Há argumentários que têm como único objectivo sacudir a água do respectivo capote.

 

 

A indigência reinante tem um problema: as narrativas colocam-nos sempre a discutir o passado e não se vê ninguém preocupado com o futuro e com os caminhos que possam resgatar-nos da enrascada permanente em que nos vamos acostumando a viver.

 

 

O mais largo que os agentes políticos conseguem ver são três meses: como vai ser o Orçamento para 2017? Vai ter mais austeridade? Como vai ser apresentado a Bruxelas? Antes ou ao mesmo tempo que entra no Parlamento? E como se convence, de uma assentada, Wolfgang Schauble, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa?

 

 

Certo, certo é que, aconteça o que acontecer, por alturas do Natal teremos em cena duas narrativas alternativas sobre o que entretanto se passar.

 

 

Desde o famosíssimo PEC IV que as narrativas tomaram o centro do palco político. A culpa foi tua. Não, foi tua. A esquerda atirou-nos para o “buraco”. A direita está a escavar o “buraco”. Uns porque chamaram a troika depois de levarem o país à bancarota. Outros porque foram além da troika.

 

 

Não há paciência. Banif, Novo Banco, Caixa Geral de Depósitos, sanções de Bruxelas, crescimento económico, desemprego, investimento, exportações, consumo privado, execução orçamental, défice público, dívida, credibilidade externa, emigração, tudo, mas rigorosamente tudo, está reduzido a longas disputas sobre culpados e graus de culpa.

 

 

Claro que toda a esta discussão é estéril de qualquer proveito para o país. Primeiro porque o rigor dos factos é, por regra, a primeira vítima neste tipo de algazarras. Depois porque a honestidade intelectual de alguns dos principais protagonistas partiu há muito para parte incerta, se é que alguma vez ali habitou.

 

 

E ainda que isto fosse conduzido com o mínimo de elevação, teria apenas o valor de uma autópsia: com o mal irremediavelmente consumado, resta apurar causas. Só para que conste.

 

 

Este ambiente podre tomou conta da prática política porque as coisas estão a correr mal. Correm mal ao governo, herdeiro legítimo da delinquência orçamental socialista. E tudo servirá para justificá-lo. Será culpa da herança, do estado da banca, do Brexit, de Bruxelas, da economia internacional, dos mercados, das agências de rating ou dos empresários que estão contra esta solução política. Será culpa de tudo menos da acção e das opções do próprio governo, claro está.

 

 

Este é mais um projecto de comunicação do que de governação, à procura de criar na generalidade da população uma sensação de melhoria enquanto se esperam eleições.

 

 

Do lado da oposição a prática não é melhor. Tudo também preso a narrativas, uma tentativa de ditar posições apenas para que fiquem registadas em acta. Mas não se vê ali a construção de qualquer alternativa estruturada que vá além do “a culpa é do governo”.

 

 

Nenhum país sobrevive se apenas puder optar entre velhas ilusões e novas privações. Mas é com isso que governo e oposição de direita estão a confrontar o país.

 

 

Isto está a correr mal ao governo mas também à oposição. Mas sobretudo corre mal ao país, que não vê como vamos sair daqui. E não há guionistas que consigam fazer disto uma boa narrativa porque neste campeonato não há vitórias morais.

 

 

 

Outras leituras

 

 

Orban e Trump, ambos muito bem acompanhados um pelo outro. Nada de bom se pode esperar quando o populismo e o radicalismo assumem os comandos.

 

 

Tudo indica que vem aí multa para Portugal, embora relativamente leve. O Governo já anunciou que vai processar a Comissão Europeia. Chegará para mostrar serviço aos parceiros que apoiam o Governo ou o Bloco cumpre a ameaça e propõe formalmente um referendo sobre a Europa?

publicado às 00:35

A reflexão dos manifestos bancários

 

Por: António Costa

Vem aí mais um grupo que quer uma reconfiguração da banca portuguesa e até tem um site oficial, com personalidades que, elas próprias, já tiveram o poder de influenciar o desenho do sistema financeiro, e fizeram-no, não necessariamente da melhor forma, como se constata hoje. O que quer este novo grupo?

 

Em primeiro lugar, é um grupo de reflexão que foge, e bem, da lógica primária do manifesto anti-qualquer coisa, neste caso anti-Espanha, a pior forma de por o problema. Se há problemas, e há, temos de olhar para Lisboa em primeiro lugar e não para Madrid. Estas iniciativas podem até ter um fim bondoso, desde logo evitar que seja o BCE a decidir o que se passa em Lisboa do ponto de vista acionista dos bancos, mas parecem esquecer que o que determina a configuração de um sistema – bancário ou outro – é a disponibilidade de quem tem capital para nele participar. Quando são outros os interesses, regra geral dá maus resultados, porque não é sustentável. Mais ainda quando os destinatários destes pedidos são os governantes que decidem envolver-se com o dinheiro de terceiros, leia-se dos contribuintes.

 

O grupo de reflexão – promovido por João Salgueiro à cabeça e com nomes como Bagão Felix, Eduardo Catroga, Rui Rio ou Diogo Freitas do Amaral – apresenta-se com um documento de 14 pontos em que dá o exemplo (mau) do Banif. Que, seguramente, ninguém quer repetir. O verdadeiro alcance, esse, é outro, é o destino do Novo Banco, primeiro, e do Millennium bcp, depois. E poderia incluir-se aqui a Caixa Geral de Depósitos, que o governo de António Costa quer manter 100% pública a todo o custo, falta saber qual, e com que objetivos.

 

É público que este grupo nasceu numa lógica anti-espanholização da banca portuguesa, mas esta é a sua primeira e maior dificuldade. Só Espanha tem interesse em meter dinheiro nos bancos portugueses e pouco de preferência. Com o apoio do BCE, sim, que prefere tratar Portugal como uma nova província espanhola. Mas não há capital privado em Portugal, Angola já não tem a disponibilidade financeira de outros tempos e os chineses desapareceram. Sobram, em última análise, os mesmos de sempre, os contribuintes, para participarem à força num qualquer movimento de nacionalização, provavelmente do Novo Banco.

 

Nas próximas semanas, vamos todos perceber que este grupo de reflexão tem, em última análise, esta proposta a fazer. Porquê? Porque a venda do Novo Banco será um calvário, e salvaguardadas as devidas distâncias, vai aproximar-se do que foi o processo do Banif. Ainda chegaremos ao momento em que estaremos a discutir as consequências do futuro do Novo Banco, para os contribuintes e para os outros bancos do sistema.

 

Quais serão os efeitos práticos previsíveis deste novo grupo de reflexão? Além da promoção de umas reuniões com Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa, além da discussão pública, desejável, muito poucos. Seria muito desejável que os bancos portugueses tivessem capital português e de várias outras origens para garantir concorrência na afectação do financiamento, mas isso (já) não está nas mãos do Governo, deste ou de outro.

 

O que os governos podem fazer – e devem – é criar as condições para a atração de investimento estrangeiro de várias nacionalidades, para a banca e para outros setores, e para a formação de riqueza no país que permita ter empresas capitalizadas que não dependam dos bancos para o seu futuro. Se fizerem isto bem, já não é pouco.

 

 

As escolhas:

António Costa vai perceber que não basta garantir a sobrevivência da ‘geringonça’. O líder da CGTP, seguramente coordenado com o PCP, vai promover uma semana de luta entre os dias 16 e 20 de Maio. E promete tudo, isto é, greves, manifestações e concentrações. Com um objetivo em mente, como se pode ler em www.economico.pt. É preciso acabar com a caducidade dos contratos e renovar a contratação coletiva, ou seja, é preciso proteger o que resta do poder da CGTP nas empresas.

 

Finalmente, descubra a Semana do Empreendedorismo de Lisboa, que começa hoje e prolonga-se até ao próximo dia 8. Parece uma brincadeira do destino, depois de uma semana em que a Uber foi alvo de todas as ameaças, em que os organismos públicos, incluindo as câmaras de Lisboa e Porto, dão os sinais errados de apoio a uma corporação contra o novo tempo, chega a semana dos empreendedores que sonham ser um novo Uber. Uma semana cheia, que pode consultar aqui www.lisboastartupcity.pt.

 

Tenha uma boa semana.

publicado às 12:09

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