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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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O Tri e a Liga do JJ pelos olhos de uma criança de oito anos

Por: Miguel Morgado

 

Num dia de todas as emoções, numa Liga que ficou para decidir na última jornada, eu, adepto e amante de futebol que sou, confesso que padeci de uma espécie de tentação eremita momentânea. E logo no dia D de uma das épocas mais intensas de que me recordo. Dentro e fora de campo. A culpa? Inesperadamente, tive de ouvir, em alto e em bom som, a voz de um miúdo de oito anos a falar de futebol. Do Benfica e do Sporting; dos golos; de Rui Vitória e Jorge Jesus e, claro, dos craques que dão os pontapés na bola e são a razão do jogo. Talvez por isso, optei por abstrair-me do mundo e ouvir alguém que acrescenta pureza ao jogo. Televisão nem vê-la, rádio no silêncio e redes sociais em modo off.

 

 

Terminou a Liga. Falou-se de cérebros, vouchers, Ferraris, malas, processos, vendedores de pipocas e criações e cópias. Ah...e de árbitros. Pelo meio, no facebook e no twitter, muita bola cá, bola lá entre Mr. Burns e o presidente adepto. Na guerra da comunicação até as operadoras lutaram pelos direitos de TV. Do jogo, de Renato Sanches, Slimani, João Mário ou Jonas, falou-se pouco, assim como do Porto e da sua mudança de regime. JJ termina a época como começou, a  falar do outro – do Benfica e de (Rui) Vitória (que não ficou calado). O Benfica conquista o 35º título e foi tricampeão, o 6º da sua história. E o primeiro que assisto enquanto adepto ao lado de um miúdo de 8 anos.

 

A uns quilómetros de distância de Lisboa e sem saber o que se passava na capital ou em Braga, o pecado foi mais forte e numa espreitadela a uma app fico a saber que o Sporting vencia na cidade dos Arcebispos e o nulo perdurava na Luz. Por breves minutos, poucos, mas que ainda assim possibilitaram uma inundação de mensagens de uma euforia leonina descontrolada, que levavam a crer que o título poderia ir para o homem que “batizou” este campeonato como a “Liga do JJ”. Mensagens e euforia viriam a terminar abruptamente. Um silêncio curto foi substituído por SMS de outra cor, que aumentavam de som à medida que se marcavam golos, uns atrás de outros, fechando a época com aquilo que o futebol tem de mais bonito: os golos.  

 

Voltando atrás no relato, quis o destino que entre um “bola cá, bola lá”, tivesse de levar um dos filhos, por sinal benfiquista, a uma festa. No regresso, com o título de campeão já entregue, tive de fazer um trajeto entre a Praia Grande e Lisboa com amiguinhos e amiguinhas e, em especial, com um miúdo (que não é meu, mas poderia ser), com a energia típica dos 8 anos, a gritar “Benfiiiicaaaaaaa”, “SLB, SLB, Glorioooossssoooooo” e “tricampeões”, impondo-me um fair-play improvável, considerando o estado de espírito...

 

...Bom, a criança lá pulava no banco de trás enquanto eu racionalizava que teria de recuar 39 anos para se conhecer algo igual, e em jeito provocatório, para combater o sexto tri, lá deixei cair que já tinha visto os tris, os tetra e o penta do Porto, mas reconhecia que do Sporting, bom .. dali, nada nas últimas décadas. Tri e tetra foi algo que se perdeu entre os anos 40 e 50 do século passado.

 

Ora bem, com as ruas de Lisboa pintadas de vermelho e branco, os gritos do miúdo abafavam as buzinas e outras tentativas de cânticos daqueles por quem passávamos. Afinal, a criança, um misto de Renato Sanches e João Mário em termos físico-técnico vocais, estava a festejar como se não houvesse amanhã. Ele que só tem 8 anos e que se recorda destes três títulos ganhos pela equipa da Luz e que, pelos seus olhos e cabeça, tem a capacidade para ver que o Benfica teve mais vitórias, que bateu o record de pontos de José Mourinho (2002-2003), que fez mais golos, que Jonas foi o rei dos marcadores, que Renato Sanches é uma estrela e que está de malas feitas para Munique ainda antes do Europeu, que Rui Vitória afinal não foi o Rui “Derrota”, que o Sporting está melhor e fez um grande campeonato, Slimani e João Mário são uma “máquina” e que Jorge Jesus ganhou títulos ... no Benfica, ajudando ao tri. Em resumo, viu aquilo que mais interessa (ou deveria interessar): o que se passou dentro de campo. Pelo lado mais puro. O resto fica para outros verem.       

 

 

JJ vs Rui Vitória, Mr. Burns vs Bruno de Carvalho, tu falas e eu respondo

 

Vamos então ver com os nossos olhos o que se passou. Jorge Jesus não é um profeta, mas está lá quase. No dia da apresentação como treinador do Sporting Clube de Portugal, afirmou que, a partir de então, em Portugal, não haveria dois mas três candidatos ao título. 34 jornadas depois esteve (quase) certo. Porque afinal foram só mesmo duas equipas, a anterior que representou e a atual que lutaram até à última jornada. A profecia de alguns, no entanto, manteve-se. Jesus volta a perder um campeonato no último terço. De fora das contas ficou, estranhamente, o Porto. E para meia-surpresa, entrou, um Benfica que assumia uma renovação, com Rui Vitória.

 

O Leão venceu a Supertaça, entrou a pés juntos sobre o seu eterno rival privado do “tal” cérebro, mas com as “ideias” do criador. A troca de palavras entre os dois eternos rivais estendeu-se do balneário ao plano da comunicação entre um especialista, João Gabriel, conhecido por Mr. Burns, e outro que em nada fica atrás na língua, Bruno de Carvalho, presidente dos Leões. No twitter, “casa” do primeiro, e no facebook, palco predileto do segundo, a guerra foi intensa. De um lado, Bruno de Carvalho, que transformou um clube quase falido num clube muito falado, tirou o coelho da cartola dos “vouchers”, no outro, Luís Filipe Vieira manteve-se sempre distante, optando pelo discurso da estrutura.  

 

No campo, o Sporting ganhou na Luz, somou vitórias e oito pontos de avanço. Fora dele, falou-se de Ferraris, recordou-se o passado de cada um dos que se sentam no banco, de quem tinha “ganho bola” e de quem tinha demorado 20 anos a chegar ao clube com mais títulos em Portugal. Slimani abriu o dossier dos castigos e dos processos, enquanto o Porto de Casillas e das contratações falhadas perdia pontos, mudou de treinador, perdeu ainda mais vezes e ficou de fora da luta precocemente. Rui Vitória operou uma revolução no plantel, perde pesos pesados e mete os miúdos, um deles, Renato Sanches, que carregou a equipa ao colo e viria a trazer o tema “idade” e “pernas partidas” para a Guerra Santa de Bruno de Carvalho.

 

Com a luta dos clube ao rubro a NOS e a MEO, operadoras que compraram os direitos de transmissão, não ficaram atrás. O tema arbitragem ganha força, JJ vê a vantagem encurtar até ser ultrapassado por aquele que nem sequer considera ser treinador, na única derrota e únicos pontos perdidos nos duelos entre os grandes. Octávio Machado entra em campo para “falar daquilo que vocês sabem que eu estou a falar”, ataca Victor Pereira e cada uma das últimas jornadas o homem do apito é devidamente escrutinado, mesmo antes de ser nomeado. Jonas e Mitroglou continuam a marcar, Renato Sanches a correr, Slimani não desarma e João Mário arma todo o jogo. Os golos em cima da hora são a demonstração que a sorte dá muito trabalho num campeonato em que só faltava entrar em campo o “jogo da mala”, mas a suspeição de compra de resultados viria a ter expressão prática na II Liga, diga-se.

 

Terminar tal como começou. A falar do outro

 

O campeonato terminou. No tapete verde, o Benfica, atacado, unido e identificado que foi o “inimigo externo”, foi campeão. A aposta de Vieira, a estrutura e treinador, resultou, enquanto o Sporting que cresceu e muito até poderia ter ganho. O Arouca está na Europa, o Tondela operou o milagre da manutenção e o Tri do Benfica é conseguido em três anos de mandato de Bruno Carvalho e mais um período de seca de um Porto e de um Pinto da Costa que já não é assim tão unânime nem tão dominador.

 

No apito final da Liga, o Marquês encheu, a festa alargou-se para além do Terreiro do Paço, e Alvalade recebeu em apoteose os vice-campeões. Jonas e Slimani marcaram. Vieira discursou e Bruno de Carvalho caminhou entre os seus, do MacDonald’s ao Estádio. Fora das quatro linhas, Jesus despede-se da época tal como começou: a falar do outro, do clube que representou e do treinador que o substitui, de criações e cópias, lamentando que o melhor não ganhou e Octávio Machado, por sua vez, fala de Victor Pereira como merecedor da camisola do 35º título. Rui Vitória coloca nas dedicatórias o homem das pipocas à frente de Jorge Jesus.

 

A discussão segue dentro de momentos, de certeza, nas redes sociais, onde não estiveram, na última noite, nem Bruno de Carvalho, nem Mr. Burns. Mas também um pouco por todo o lado, onde aposto que o miúdo de 8 anos não deixará de gritar o nome do clube tricampeão que conquistou o 35º título após 34 jornadas. Ou seja de falar daquilo que de mais puro existe no futebol.

 

publicado às 09:59

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