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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Saint Denis

Por: Márcio Alves Candoso

 

"Na catedral dos franceses, ouço as balas repicar. Não se coroa Jeanne D'Arc. Prende-se quem me quer matar".

 

Há oito anos e alguns meses - era princípio de Verão - estive em Paris, por razões profissionais. Já o fizera várias vezes, e pelo menos duas mais, antes e depois, como turista.

 

Se lembro agora essa viagem é porque foi nessa altura que visitei a Catedral de Saint-Denis, nos arredores de Paris. Essa mesmo onde, reza a história bem ou mal contada, Joana D'Arc foi nomeada paladina de uma parte de França, na Guerra dos Cem Anos.

 

Num dia qualquer que não recordo - mas não será difícil situá-lo, já que ao mesmo tempo se disputavam as meias-finais de Rolland Garros, a alguns quilómetros de distância - fui convidado a assistir a um concerto que se realizava na referida catedral.

 

O maestro era Claudio Abbado, dirigindo a Orchestre National de France. O programa era uma chatice qualquer que não recordo, e a sonorização era um engodo terrível, feita de propósito para passar em directo na televisão, estragando todo o efeito que se espera obter quando se está numa catedral daquelas dimensões e época arquitectónica. Parecia que estava no Centro Cultural de Belém...

 

Às tantas saí. Não se sai a meio de um concerto gravado para a televisão. Mas eu não fico onde não gosto de ficar, onde sinto que estou a ser enganado e a ser usado como cenário. Um padre da Opus Dei deu-me uma reprimenda. Arrependeu-se logo de seguida, e esteve à beira de cumprir uma mortificação não ritual e infligida. Iconoclastias minhas...

 

Cá fora - não sei se conhecem - há um grande largo. A toda a volta de um dos símbolos de França, onde estão sepultados reis de mais de um milénio de história, onde as rainhas eram coroadas, numa devoção só interrompida durante a parte selvática da Revolução, estamos em território estrangeiro. Na praça de dimensões olímpicas, fazem-se os 'zidanes' e 'benzemas' do futuro, atrás de uma bola de couro velho.

 

A toda a volta, o kebab, as tajines e o couscous convivem com a Coca-Cola e a Kronenbourg, o cheiro a canela distingue-se e conjuga-se com o açafrão. Uma mulher de véu está parada ao lado de um homem que desfia o rosário que não é rosário, é misbaha, tão perto de mim na invocação de Deus.

 

Sentei-me sozinho na esplanada. Na Tunísia, uma década antes, senti-me mais à vontade. Mais em casa. Ali, o ambiente era hostil, até na cara do patrão da casa. Apeteceu-me voltar para dentro da grande abadia de França. Fui, meia refeição comida, procurar abrigo junto do brasileiro que conduzia o 'mini-bus' que nos tinha trazido, a mim e a mais alguns convidados, desde o hotel de 'charme' do Faubourg de Saint-Honoré até àquele lugar fora de portas.

 

Não me apetecia esperar, e pensei regressar mais cedo à noite de Paris daquele fim-de-semana festivo. Havia qualquer coisa na Pigalle e no Trocadero que eu não queria perder. Perguntei se havia metropolitano para o centro. Haver havia, mas não era aconselhável. De fato e gravata, botões de punho de ouro e lapis-lazuli, sozinho, branquela como vim ao mundo... 'É melhor não, 'monsieur''!

 

Fiquei-me pelo brasileiro, que falava que nem um brasileiro. Recentemente solteiro, lembro-me que se queixava que em Paris não havia uma única casa de passe de jeito... Pensei para comigo: quem precisa disso quando se vive em pleno território da liberdade?

 

Quando acordei do bom sono de terça-feira, Saint Denis apareceu-me no écrã, sem Stade de France que lá fica na memória destes dias. E não havia Claudio Abbado nem bolas de couro velho, e não cheirava a açafrão ou canela. Havia polícias e bombas suicidas. Não me admirei nem um segundo. Lembrei-me apenas que devo ter feito bem em não ter apanhado o metro, nem sequer aquele último de Truffaut, teatro de vida da resistência francesa à ocupação, a outra, a da II Guerra.

 

Junto à Pigalle, ao sul da catedral e a oeste de La République, onde tudo se passou na sexta-feira passada, lembro o Montmartre de Deneuve no filme, quando teve de continuar a ensaiar a peça que o marido judeu deixou a meio, fugindo para a cave do edifício, fugindo da morte certa, fazendo uma pausa na vida. Tem pouco a ver com o tempo que é a nossa nova trova que passa? Tem de ter, creio!

 

Et toi, Jeanne d'Arc, qu'est-ce que tu en penses?

 

Créditos da fotografia: 

Saint-Denis - Basilique - Extérieur façade ouest" by Ordifana75 - Own work. Licensed under CC BY-SA 3.0 via Commons

publicado às 08:28

Paris: Os maus da fita

Por: José Couto Nogueira

 

Desde Janeiro, quando dois ataques da Al-Qaïda incluiram a redacção da revista Charlie Hebdo, que os parisienses não passavam por tão grande pânico – aliás, maior, uma vez que desta vez ocorreram sete ataques simultâneos e morreu mais de uma centena de pessoas.

 

 

Ainda os mortos e feridos não tinham sido identificados, já François Hollande aparecia na televisão a anunciar “medidas implacáveis”, a começar pelo imprescindível e inútil fechamento das fronteiras. Imprescindível porque a primeira coisa que se faz depois dum assalto é trancar as portas, inútil porque hoje em dia o terrorismo é sobretudo perpetuado por muçulmanos nascidos na Europa. É que, entretanto, numa mudança que parte da opinião pública europeia não conseguiu ou não quer compreender, o terror mudou de protagonistas e de modus operandi.

 

Quanto aos protagonistas: a Al-Qaïda, que era o enfant terrible desde o atentado do 11/Set/2001 em Nova Iorque, é um grupo de amadores, quando comparados com a nova entidade surgida do quinto dos infernos, o auto-intitulado Estado Islâmico, também conhecido como ISIS (Islamic State of Iraq and the Levant) ou Daesh (em árabe). A Al-Qaïda era (e ainda é) uma organização sem território (pode estar em toda a parte) dedicada a atacar os Estados Unidos e seus aliados, acreditando estar no começo de uma longa luta contra o Grande Demónio, sem fim à vista.

 

O ISIS é uma religião salafita baseada em predições da mitologia muçulmana, segundo a qual o fim dos tempos está para breve e colocará frente a frente os “cruzados de Roma” contra os exércitos do Califado, um estado territorial em expansão permanente, a começar por uma área da Síria e do Iraque, com capital na cidade sagrada de Raqqa. Até chegar essa batalha final, os principais inimigos – e aqueles que têm sido massacrados sem dó nem piedade – são os outros muçulmanos, os shiitas, considerados apóstatas e muito mais culpados do que os cristãos, ou outras religiões.

A guerra contra os ocidentais, provocada mais porque os ocidentais resolveram que tal aberração não pode subsistir, é apenas uma faceta do domínio do mundo e da extinção das centenas de milhões de apóstatas shiitas. Estranhamente, o ISIS tem recrutado milhares de jovens entre os muçulmanos europeus de segunda geração (isto é, nascidos na Europa) e católicos arrependidos. Quer dizer, a grande movimentação de pessoas dispostas a lutar nesta “guerra santa” têm sido para entrar no Califado, e não para sair do Califado para a Europa. Isto significa que as polícias europeias têm prendido sobretudo jovens que querem fugir para o Iraque, e não que vêm do Iraque para a Europa.

 

Isto só para esclarecer – e é muito importante que se esclareça – que os milhões de sírios e que estão a fugir por terra e a nado para a Europa não vêm fazer terrorismo; estão precisamente a fugir dos massacres do ISIS, das forças do ditador sírio Bashar Al Assad, dos kurdos, e dos vários grupos de insurgentes que transformaram as cidades sírias em montes de entulho. Os terroristas do ISIS ou já nasceram na Europa, ou vêm de avião com bilhete pago e passaporte.

Agora, quanto ao modo de operar: a Al-Qaïda ataca alvos militares, ou inimigos específicos, como o Charlie Hebdo. O ISIS, agora em Paris, atacou alvos civis, indiscriminadamente escolhidos – inclusive em bairros classe-média baixa, onde vivem imigrantes. A ideia é semear o terror, fazer com que qualquer pessoa se sinta a perigo, mesmo que não tenha qualquer actividade a não ser viver o seu dia-a-dia pacatamente. Tanto faz se são americanos ou vietnamitas, ricos ou pobres, novos ou velhos; não são os fieis, não seguem os preceitos específicos das escrituras e ainda se atreveram a bombardear as terras sagradas do Califado.

Daí que este ataque de Paris, o primeiro organizado pelo Califado no estrangeiro, represente uma mudança radical, e para pior, do terror terrorista. Utiliza pessoas de nacionalidade europeia, recrutadas, por exemplo, entre os dez milhões de muçulmanos (e muitos não muçulmanos) que nasceram em França ou os muitos milhões que nasceram na Bélgica, na Holanda e na Grã Bretanha – jovens sem desígnio na vida e sem futuro para lá do salário mínimo, a quem a doutrinação dá um sentido à vida e permite ventilar as frustrações de uma sociedade de abundância que que só lhes dá miséria e exclusão.

 

É verdade, Paris ardeu na sexta-feira passada. Já Madrid tinha ardido em Atocha em 2004, e Londres em 2005 – nesses, ainda era a Al-Qaëda, mas já com os métodos do ISIS. Maiores deflagrações já estão prometidas para outras cidades europeias e americanas. Outras operações – dezenas, segundo os relatórios – têm sido evitadas pelas forças de segurança.

A Europa tem uma difícil tarefa pela frente; precisa manter as liberdades individuais que levaram séculos a conquistar e são a essência da vida ocidental; não pode descriminar os muçulmanos que fogem aos milhões do inferno sírio; e tem de descobrir uma maneira de eliminar o Califado sem se meter na tal batalha final na planície de Raqqa.

Paris não pode arder mais.

 

publicado às 10:17

E agora?

Por: Francisco Sena Santos

 

Tivemos a confirmação de que agora os terroristas matam também em Paris tal como fazem em Bagdad ou em Beirute. Já tinham atacado em Londres e em Copenhaga, como em Ankara ou em Tunes.

 

 

Os jihadistas que executaram, com máxima crueldade, demoradamente, a sangue frio, a carnificina no Bataclan e em outros cinco lugares na noite de barbárie em Paris, gritavam Allahu Akbar, literalmente Deus é Grande em árabe. São guerreiros kamikaze pela expansão de um califado que invoca abusivamente uma religião que nada tem de terrorista. Estes fanáticos que manipulam a religião como ideologia querem fazer vergar e submeter o mundo tolerante que é o nosso e que eles consideram de pecaminosos infiéis.

A motivação destes matadores é certamente a mesma dos que na véspera, em dois atentados, tinha causado a morte de 41 pessoas e ferimentos em mais de 200, em Beirute.

Também a dos assassinos que há dois sábados fizeram abater no Sinai egípcio um Airbus russo com 224 pessoas a bordo.

Ou a dos bombistas que há cinco sábados mataram 99 pessoas frente à gare ferroviária de Ankara.

É o mesmo terrorismo que em 26 de junho matou 38 turistas na praia de Sousse e que em 18 de março também levou 24 vidas no museu do Bardo em Tunes, estes dois ataques na Tunísia.

 

Estes são apenas alguns dos infames atentados que marcam este ano que começou com o ataque em 7 de janeiro ao Charlie-Hebdo. Aqui, o alvo eram os valores da França: a liberdade, a igualdade, a fraternidade. Alvo específico: a liberdade de expressão, a liberdade de denunciar pelo riso quem cultiva a intolerância. Já tinha sido um ato de guerra que nos fez a quase todos proclamarmos que também somos Charlie.

 

Agora, a frente de guerra amplia o seu alvo: todos passamos a estar na linha de mira desta barbárie. Os massacrados nesta noite de novembro em Paris são sobretudo rapazes e raparigas, jovens que tinham procurado o prazer de uma noite a ouvir música numa célebre sala de espetáculos de Paris, são os também jovens que petiscavam na esplanada de uma pizaria e os não tão jovens clientes de um restaurante asiático na zona da République, uma praça parisiense muito associada a manifestações pela liberdade. Eles tinham saído na noite que parecia amena desta sexta-feira para viver, beber e cantar. De facto, não imaginavam que lhes tinham declarado guerra.

Os passageiros do avião russo abatido há duas semanas no Sinai eram, a maioria, cidadãos russos de São Petersburgo que tinham ido em férias em Charm Al-Cheikh, praia no mar Vermelho.

 

Há um ponto comum a estas duas matanças nas últimas duas semanas: tanto a França como a Rússia iniciaram no final de setembro raids de bombardeamento sobre abrigos e campos de treino, na Síria, dos terroristas que pretendem devastar o Ocidente. Estamos em guerra e o campo de batalha não é apenas nos terrenos do Médio Oriente onde, com fatal precipitação, as potências ocidentais patrocinaram os ditadores em funções. Obviamente, eles mereciam ser combatidos, mas era preciso assegurar que a alternativa não seria uma terra de outros gangues ainda mais nocivos.

Este jihadismo do auto-proclamado califado islâmico está a ocupar esse espaço e tem sabido catequisar e converter jovens europeus para a sua guerra santa contra o Satã ocidental. Ou seja, o inimigo nem precisou de cavalos de Tróia para se infiltrar dentro da Europa. O inimigo nesta guerra também já está dentro da Europa, com passaporte europeu. Quantos serão os jihadistas nascidos, crescidos e residentes em França, à espera de serem ativados para o combate e prontos para o sacrifício em nome do que consideram ser a vontade de um deus? Muitos deles são jovens de segundas e terceiras gerações, descendentes de imigrantes chegados no século passado de África e do Médio Oriente. Tornaram-se combatentes ao serviço da causa terrorista e estão dentro da casa europeia.

 

E agora? Esta é a pergunta que costumava colocar Paulo Cunha e Silva ao juntar gente de múltiplas origens e saberes a quem desafiava para construir pontes que fizessem avançar soluções. Os líderes das maiores potências mundiais reúnem-se em cimeira G-20 este domingo em Antalya, na Turquia, com uma agenda que vai da economia ao clima, mas passando muito pela crise dos refugiados (tantos, tantos em espera de desesperar, da Turquia aos Balcãs, passando pelas ilhas gregas) e a guerra contra o terrorismo. Vão ter de pensar nas duas frentes desta guerra: a que está na Síria e no Iraque e a que está a avançar na Europa. Sendo que, frente ao ódio, importa que triunfe a liberdade, o que implica unidade, clareza e democracia. Os valores da França, liberdade, igualdade e fraternidade são a referência. Os ataques em Paris são ataques à liberdade, ao nosso modo de vida, são ataques a todos nós. Têm por alvo a alma da nossa sociedade.  Apetece clamar Je Suis Français e colocarmo-nos mobilizados ao lado dos cidadãos de um país que nos habituámos a sentir terra de asilo.

publicado às 09:54

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