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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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"Só há uma pessoa dentro do PSD que pode ter um projecto e uma dinâmica ganhadora a prazo: Carlos Moedas"

Por: Isabel Tavares

 

As autárquicas são o teste de sobrevivência do PSD de Passos Coelho e as perspectivas não lhe são favoráveis. É a análise de Nuno Garoupa que antecipa uma travessia do deserto aos sociais-democratas até uma nova "dinâmica ganhadora". 

 

 

Como vê o desafio das autárquicas?

Aí as coisas estão complicadas para o PSD, que parte de uma posição muito, muito difícil. Aliás, o meu prognóstico é que se Passos aguentar até lá, pode morrer na noite das autárquicas, porque vai ter uma situação muito complicada em Lisboa e no Porto, em Sintra, na Amadora, em Gaia, tudo grandes concelhos. Por mais que ganhe nos pequeninos, o resultado será muito mau. Para o PS, a questão que se coloca é se vai ou não ensaiar coligações com o Bloco e se isso é formalizado. Acredito que o PC queira ir a votos sozinho.

 

Passos Coelho cai nas autárquicas?

Não vejo como é que ultrapassa uma derrota nas autárquicas. O grande problema, e o que está a jogar contra o PSD, foram aqueles 38%. Se o PSD tivesse perdido as eleições taxativamente, Passos já teria saído porque tinha sido derrotado, já teria sido eleito um novo líder, já tinham passado à fase da autocrítica e estavam na fase seguinte. Mas o maldito resultado que não lhes deu para governar mas que, supostamente, lhes deu para ganhar as eleições, é o problema do PSD. É preciso um projecto novo, caras novas e avançar. O CDS fez isso.

 

Quem pode ser o sucessor de Passos Coelho?

O PSD vai atravessar uma fase como atravessou há dez anos – também aconteceu ao PS – e, possivelmente, terá um ou dois líderes antes de chegar àquele que ganha eleições.

 

E quem pode ganhar eleições?

Quanto a mim, só há uma pessoa dentro do PSD que pode ter um projecto e uma dinâmica ganhadora a prazo: Carlos Moedas, que está na Europa [comissário Investigação, Ciência e Inovação]. Até lá vamos andar com lideranças muito fracas, qualquer dos nomes que está em cima da mesa não tem condições para ganhar. E nem vou falar de outros nomes, como o da ex-ministra das Finanças, que isso deve ser para o PSD ficar atrás do CDS nas próximas legislativas. Já estou a ver a campanha do BE, e não vão ser cartazes com Jesus Cristo, vão ser cartazes com umas setas a dizer Arrow. O PS nem tem de se esforçar, o Bloco faz a festa toda.

 

Porquê Moedas?

É de uma geração mais nova e a única pessoa que saiu do governo anterior menos queimada. Também ninguém sabia quem era Passos, as coisas fazem-se. Hoje a comunicação social faz e desfaz.

 

Disse que «a realidade deriva quase sempre do trabalho dos meios de comunicação». Isso quer dizer que é uma realidade manipulada?

Não, é realidade, mas é feita…

 

É transgénica?

É transgénica, é isso, vamos utilizar essa palavra. Mas não é só em Portugal. Trump é um produto da comunicação. Nem ele imaginava. E hoje é difícil encontrar um líder que não seja ele próprio produto da comunicação. A questão é saber se ele tem alguma coisa além disso. Penso que algumas lideranças se esgotam nesse marketing. Mas é a comunicação que faz a realidade, acredito que um novo partido em Portugal só tem hipótese de ultrapassar a barreira dos 3% ou 4% se tiver caras mediáticas.

 

O PAN conseguiu eleger um deputado.

Vamos ver se se aguenta. A sorte é que as pessoas que conseguem faz­er isso têm uma personalidade autodestrutiva. Foi o caso de Marinho Pinto, que conseguiu a obra de passar de 8% para 1%, quando, em Itália, Grilli conseguiu chegar aos 25% e hoje, segundo as sondagens, é o maior partido. Outro erro tático brutal foi o de Paulo Morais. Aqueles 3% ou 3,5% numas eleições legislativas são dois deputados aos berros no Parlamento. Numas presidências, morreu ali.

 

Portugal ainda tem um eleitorado muito bipolarizado?

Sim. Grande parte, cerca de 4 milhões, vota sempre no mesmo partido - até o rato Mikey tinha tido 38%. Há 2 milhões que votam à direita, 1,5 milhões que vota PS e mais os 400 mil do PC. Mas um milhão é volátil e, cada vez mais, decide à última hora, em função da campanha. É aí que entra a realidade mediática, que não é o mesmo que realidade manipulada.

 

E a abstenção, vamos conseguir ver-nos livres dela?

A menos que haja um partido novo, movimentos novos, não vejo como. Há pessoas com 25 anos, 30 anos, que nunca votaram, o que significa que, provavelmente, nunca irão votar na vida.

 

publicado às 02:17

Andamos todos aos papéis

Por: Rute Sousa Vasco

 

A culpa é dos papéis. Os malditos dos papéis. O Panamá tem os seus, e nós temos os nossos.

 

Maria Luís Albuquerque garante que só soube que o Estado podia ter de gastar 2,2 milhões de euros no Banif a 12 de novembro de 2015. Diz ela que foi isto que disse ao seu successor, Mário Centeno, ainda que continuasse completamente imbuída da esperança de “uma venda vantajosa do banco”.

 

Mário Centeno garante que soube dos graves problemas do Banif exactamente um mês antes, a 12 de outubro, oito dias depois das eleições ganhas pelo PSD/CDS. E, nessa altura, Maria Luís terá comunicado a gravidade da situação e duas soluções possíveis, a resolução ou a liquidação. Segundo Centeno, além dele, António Costa e Passos Coelho também participaram na mesma conversa.

 

Tenham conversado todos em outubro, tenha Maria Luís Albuquerque apenas em novembro tomado consciência do cenário de resolução do Banif, o facto é que em dezembro estavam três soluções em cima da mesa: a fusão do Banif com a Caixa Geral de Depósitos, uma nova recapitalização pública, ou a criação de um "banco de transição", para ganhar tempo e vender depois melhor.

 

A 15 de Dezembro, Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, e António Varela, responsável pela supervisão do Banco de Portugal, foram para Frankfurt para uma reunião do Banco Central Europeu (BCE). Segundo António Varela contou aos deputados da Comissão Parlamentar de Inquérito ao Banif, pela parte que lhe tocava ia convencido de um cenário de ‘banco de transição’ – a tal solução para poder vender melhor.

 

Só que aqui entram os malditos dos papéis. O Panamá tem os seus, e nós temos os nossos. E os nossos papéis são emails trocados entre o BCE, a Comissão Europeia, o Governo português e o Banco de Portugal e não deixam margem para grandes lapsos de memória ou estados de alma. A Comissão Europeia informou as pessoas que achamos que mandam em Portugal que não autorizava a fusão do Banif com a Caixa Geral de Depósitos, nem a uma recapitalização do banco. E António Varela até podia estar, como Maria Luís, esperançoso, numa solução para o Banif que passasse por criar um banco de transição. A esperança é a última a morrer – mas que não seja por falta de informação.

 

E António Varela, o português que representa a supervisão dos bancos portugueses no BCE, já tinha sido devidamente informado, ainda antes da reunião de Frankfurt começar, que o Banco Central Europeu estava “inteiramente contra”. Disse-lho, por email, José Ramalho, seu colega no Banco de Portugal e em inglês: o Banif é para vender “with all means available”. Na realidade, a expressão não é sequer dele – recebeu-a de Jukka Vesala, o director-geral finlandês da supervisão no BCE que deu instruções de como tudo se deveria passar.

 

E é assim que três dias depois, 19 de dezembro, Danièle Nouy, presidente do Conselho de Supervisão do BCE, apresenta ao Governo português o ‘comprador’ do Banif, um noivo que encanta especialmente a matriarca Comissão Europeia, educado, competente e com futuro promissor como se pretende. A alegria pela escolha é tanta que nem vale a pena olhar para outros noivos: "A Comissão Europeia foi muito clara neste aspecto, por isso, recomendo que nem percam tempo a tentar fazer passar essas propostas.", disse Nouy ao nosso primeiro-ministro António Costa, segundo relato do jornal Público.

 

E assim foi como na história da Carochinha e do João Ratão. Lá caímos no caldeirão, sem honra nem glória, com um dote para lá de generoso pago pela família da noiva encalhada (que somos todos nós) mas deixando pessoas da Finlândia, França, Alemanha, Bruxelas felizes com a boda. Na Comissão Parlamentar de Inquérito ao Banif, João Almeida, deputado do CDS, resumiu assim: "o processo acabou com a imposição de um comprador único: o Santander. (…) O banco foi entregue. Desculpem, mas não consigo dizer vendido." 

 

Este é o relato de uma história que alguns deputados se têm esforçado por apurar e que vários jornalistas, com destaque para o trabalho do Público, têm procurado não apenas esclarecer como também manter viva. Porquê manter viva? Porque é difícil reter a atenção das pessoas, mobilizar a vontade das pessoas, interessar as pessoas por serem parte da solução – e não apenas por se indignarem com as soluções que lhes são impostas. Valdemar Cruz, jornalista do Expresso, perguntava esta semana isso mesmo, a propósito dos Panama Papers ou de outro escândalo qualquer.

 

Este escândalo, da banca, do Banif, da opacidade da democracia europeia, do dinheiro que alguém decide em nosso nome usar, é um escândalo nosso. Não é apenas nosso – mas este, do Banif, como antes do BES, como antes do BPN, como antes do BPP, é mesmo nosso. É o nosso dinheiro, são os nossos votos, é, no limite, o nosso orgulho ou a falta dele.

 

Esta semana, Pedro Passos Coelho disse numa entrevista à Antena 1, que, em 2011, o Banco de Portugal estimava que os bancos portugueses precisavam de 40 a 50 mil milhões de euros. Três vezes mais do que os 12 mil milhões previstos no memorando assinado com a Troika.

 

Esperem, talvez seja melhor assim: 50 mil milhões é um terço de toda a riqueza produzida em Portugal.

 

Ou ainda: são cinco vezes as despesas com a saúde em Portugal.

 

Ou seis vezes as despesas com a educação.

 

Isto é o nosso problema – depois deste, vem o inferno que são os outros, a Europa, e esse é um problema de 500 milhões de europeus.

 

Tenham um bom fim de semana

 

Outras sugestões:

 

Como se preparam para o mundo do trabalho os jovens que não querem ir para a universidade? Um estudo realizado na Grã-Bretanha demonstra que há uma cultura de desigualdade que penaliza os jovens que não querem estudar mais e que limita a mobilidade social. Um problema que não é só britânico.

 

A cobertura do grande tema da semana, os Panama Papers, levou o jornal Guardian a um novo recorde de audiência mediante uma cobertura intensa. Só na segunda-feira, dia 4 de abril, primeiro dia das revelações trazidas a público pelo consórcio internacional de jornalistas, o jornal inglês registou 10,4 milhões de visitantes únicos face a uma média de 8,5 milhões.

publicado às 11:23

Diz que vai ser uma campanha eleitoral

Por: António Costa

 

Teme-se o pior nesta campanha eleitoral até ao próximo dia 4 de Outubro, e à medida que os dias correm, surgem ideias estapafúrdias e dos partidos que, necessariamente, farão parte do próximo Governo, qualquer que venha a ser o figurino. Querem um exemplo? Se os lesados do BES já faziam parte dos escombros da criação ‘artificial’ do Novo Banco a partir de uma decisão errada e precipitada do governador do Banco de Portugal com o apoio explícito do Governo, agora também são instrumento de combate partidário.

 

Os lesados do BES foram induzidos em erro, criaram-lhes expectativas que, depois, foram defraudadas, mas isto já se sabe há um ano. O que estava guardado para lhes ser pago nas contas do BES, as famosas provisões, desapareceu nas contas do novo Banco – ou melhor, foi utilizado para outras emergências.

 

Quando Carlos Costa decidiu a resolução do BES, no início de Agosto, assumiu prioridades, e os lesados não estavam entre elas. É claro que a confirmação – expectável – do falhanço da venda do Novo Banco em plena pré-campanha só poderia ter maus resultados. Por todas as razões.

 

Em primeiro lugar, confirma que a resolução do BES foi um erro, que custou 4,9 mi milhões de euros, 3,9 mil milhões dos quais dinheiro dos contribuintes com a promessa de que será pago pelos bancos ao longo dos próximos 40 (!) anos. E, não, a alternativa não era entre nacionalização, como a do BPN, e a resolução, do Novo Banco. Havia uma terceira via, que o BCE e o Governo não quiserem seguir. Por razões diferentes. Azar. O nosso. E dos lesados do BES.

 

Como é que Pedro Passos Coelho e António Costa estão a responder ao caso-BES e ao problema dos lesados? Da pior forma, entre o patético e o irresponsável. O primeiro-ministro deu asas à sua veia criativa e, talvez incentivado pelo ambiente de campanha, sugeriu aos lesados do BES o lançamento de uma subscrição pública – ao estilo operação-coração lançada há uns anos pelo Benfica – para apoiar os que não têm condições económicas de aceder à justiça. Importa-se de repetir!? Então, é o próprio primeiro-ministro a reconhecer que não foi capaz de por a justiça ao serviço de todos, sobretudo daqueles que não têm condições económicas.

 

O líder do PS, por seu lado, garante que vai por o Estado a pagar o que os lesados do BES reclamam, um valor na ordem dos 600 milhões de euros, mais ou menos o que o Governo se comprometeu a cortar em pensões junto de Bruxelas e que António Costa diz não ser necessário cortar. Importa-se de repetir!? Portanto, um governo PS vai usar dinheiro dos contribuintes para substituir-se às responsabilidades do Novo Banco – entretanto desaparecidas por obra e graça... de Carlos Costa – e já agora da Justiça, que terá de ser chamada a este tema, mais tarde ou mais cedo.

 

E sobre o dia seguinte do Novo Banco ao anúncio de que não será vendido, só à espera das eleições, claro? Nenhum dos dois diz nada de jeito, que tranquilize. Apesar de estar em causa um banco que, na verdade, passará rapidamente ao regime de ‘nacionalizado’. Passos remete para Carlos Costa e António Costa remete para Passos Coelho e para Carlos Costa. Não há gestão, por melhor que seja, e a de Eduardo Stock da Cunha tem sido das boas, que resista a esta incerteza. Pois, havia quem esperasse uma campanha de mal a melhor, mas infelizmente, caminhamos de mal a pior.

 

O que não pode perder?

A tragédia dos refugiados atingiu um novo patamar, que põe em causa a própria Europa e a sua organização política. Como não há resposta integradas, cada país gere como sabe e pode, até não poder mais. Foi o caso da Alemanha. Pode ler no Diário Económico de hoje, com link direto aqui no Sapo24, a decisão de Angela Merkel de suspender unilateralmente o espaço Schengen de livre circulação de pessoas. E isto ainda só agora começou.

 

Porque o país e o mundo não são feitos apenas de más notícias – felizmente -, vale a pena ler o ranking internacional do Financial Times sobre as melhores escolas de gestão. E Portugal não está mal, tem dois mestrados entre os 250 melhores do mundo, os da Nova e Católica. Aí está uma pergunta a que Pedro Passos Coelho e António Costa deveriam dar resposta: o que se propõem fazer para duplicarmos, numa legislatura, a presença de escolas portuguesas neste ranking?

 

Hoje ficámos por aqui, para a semana regresso aqui ao Sapo24. Tenha uma boa semana.

publicado às 10:41

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