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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Quem decide o que aparece no Facebook? O debate já começou

Por: Paulo Ferreira

A pedagogia, a pressão e denúncia públicas e a liberdade de escolha dos utilizadores serão, no fim do dia, os meios mais eficazes para prevenir os excessos de zelo e as práticas abusivas das plataformas electrónicas na selecção de informação

 

 

Perdoem a heresia de me citar a mim próprio mas, como verão, a realidade é que se atravessou descaradamente no caminho. A propósito de algumas propostas para limitar a divulgação de informação relacionada com atentados terroristas, perguntava aqui mesmo há pouco mais de um mês se a icónica fotografia da miúda vietnamita, nua, a fugir do napalm seria hoje publicada.

 

A resposta chegou nos últimos dias e teve como protagonista o Facebook: essa publicação estaria hoje, no mínimo, seriamente ameaçada. Numa era marcada pela ditadura do politicamente correcto e pela paranóica tentativa de higienização de todo o espaço público começamos a deixar de distinguir a essência de cada coisa tomando tudo pela aparência, pelo embrulho, pelo seu valor facial. Se parece, é. Mas pode não ser.

 

Uma criança nua numa foto não é necessariamente um incentivo à pedofilia da mesma forma que a nudez não pode ser confundida com pornografia.

 

O problema não está apenas no Facebook, nos seus cegos algoritmos - haverá algoritmos que não sejam cegos? - ou nos seus colaboradores ignorantes, sem referências históricas e culturais. Basta ver o pudor hipócrita com que os meios de comunicação tradicionais americanos tratam tudo aquilo que seja a nudez ou o calão.

 

Mas, pela dimensão e predominância que adquiriram na distribuição da informação, as plataformas electrónicas são uma parte importante de um problema que as sociedades ocidentais terão que discutir abundantemente: o controlo, hierarquização e formas mais ou menos veladas de censura da informação.

 

É verdade que estas empresas não são órgãos de comunicação social no seu sentido tradicional porque não produzem elas próprias informação ou entretenimento. Não têm redacções próprias com jornalistas, não estão sujeitas aos seus códigos de ética e deontológicos nem a leis que regulam a comunicação social. No entanto, e como já se percebeu, enquanto plataformas de distribuição elas têm poder para decidir que conteúdos produzidos por outros podem ser publicados por eles e vistos pelo público.

 

 

A primeira tentação de muitos será a imposição de regulação administrativa, proibindo algumas práticas e criando regras para outras. Esse é o caminho perigoso. É isso que fazem os regimes autoritários que olham para a liberdade de expressão e de informação como uma ameaça às sociedades. E será tão estúpido tentar travar administrativamente estes novos meios electrónicos e a forma como funcionam como seria proibir a Uber, para citar o exemplo mais à mão de um avanço tecnológico que está a desafiar velhas formas de fazer negócio e servir clientes.

 

Hoje, graças à internet e às redes sociais, há muito mais gente a ler notícias, a reter alguma informação e a perceber o que se passa no mundo do que há duas ou três décadas. Fazem-no entre um vídeo de gatinhos e outro de acidentes de automóvel? Sim, mas fazem-no.

 

A pedagogia, a pressão e denúncia públicas e a liberdade de escolha dos utilizadores serão, no fim do dia, os meios mais eficazes para prevenir os excessos de zelo e as práticas abusivas.

 

Foi isso que aconteceu agora mesmo com o Facebook neste caso da fotografia da criança vietnamita. A censura da foto foi noticiada e partilhada em todo o mundo também através do próprio Facebook. A empresa percebeu o erro e recuou. Certamente que nunca até hoje tanta gente tinha visto a foto icónica da Guerra do Vietname, o que ela representou e o horror que retrata. O passo seguinte, em muitos meios de comunicação internacionais, foi o debate sobre a necessidade do Facebook ter editores capazes de seleccionar e hierarquizar informação de uma forma sensata e conhecedora, para além dos automatismos do algoritmo.

 

Mas o tema é muito mais complexo. Há uns meses o debate nos Estados Unidos era o inverso e a acusação era que os editores que trabalham os “trending topics” do Facebook teriam um enviesamento que estaria a privilegiar informação e temas mais favoráveis aos democratas por oposição aos republicanos. O debate levou a empresa a alterar a sua prática, automatizando o que era até então feito por pessoas. Muitos duvidam que isso resolva alguma coisa. Mas a discussão está em curso e a aprendizagem colectiva também. A vigilância e os alertas públicos são instrumentos mais poderosos do que muitas vezes podemos pensar. Para já, fizeram a devida justiça à foto de Kim Phuc. E provavelmente preveniram que um destes dias alguém sentado em frente a um computador em Silicon Valley trate por igual os frescos da Capela Sistina e uma performance de Cicciolina.

 

 

Outras leituras

 

Pode o estado de saúde de um candidato ajudar a decidir a eleição presidencial norte-americana? O certo é que em cerca de um ano Donald Trump passou do fanfarrão que iria apenas animar as primárias republicanas a candidato com séria chance de chegar à Casa Branca.

publicado às 03:46

Se Ferreira do Amaral falasse em inglês…

Por: Paulo Ferreira

O deslumbramento por declarações de economistas estrangeiros não faz sentido, sobretudo quando, por regra, esses economistas conhecem o país e a nossa economia muito pior do que os seus colegas portugueses e não têm qualquer capacidade de decisão sobre o país.

 

 

Um francês pode estar apenas a ler um folheto de supermercado que a mim parecerá sempre que está a dizer coisas interessantíssimas e muito profundas num programa de Bernard Pivot. E um alemão, ainda que esteja de livro de instruções da máquina de lavar na mão, soará sempre a um filósofo discípulo de Hegel ou Heidegger. Talvez, neste caso, esteja a ser condicionado por Caetano Veloso para quem “está provado que só é possível filosofar em alemão”. E estas coisas, cantadas em português com sotaque do Brasil marcam muito mais.

 

 

Ou então é simplesmente um traço de provincianismo semelhante ao que marca a nossa relação com a tribo dos economistas.

 

 

Em Portugal temos, felizmente, economistas para todos os gostos, feitios e utilidades e é fácil encontrar dois que discordem sobre uma qualquer matéria e que defendam as suas posições com competência. É a vantagem das ciências sociais, como a Economia: todos têm a enorme vantagem de estar potencialmente certos até se passar da teoria à prática. Quando se passa.

 

 

Mesmo as propostas mais arrojadas dentro do “status quo” e das opções estratégicas que o país tomou encontram competentíssimos defensores, que nos fazem sempre pensar e até vacilar sobre aquilo que temos como certezas económicas - se é que tal coisa existe.

 

 

A velha questão da entrada e da permanência de Portugal no euro é um desses temas. João Ferreira do Amaral é a voz mais audível que sempre foi contra a adesão do país à moeda única, numa fase em que o caminho estava só no início. Mas também Miguel Cadilhe, por exemplo, discordou dessa opção política.

 

 

 

Hoje, Ferreira do Amaral mantém que o país teria vantagens em deixar a moeda única. Publicou, inclusive, o livro “Porque devemos sair do euro” há três anos onde explica tim-tim por tim-tim porque é que, no seu entender, deixar o euro é imperioso para que o país saia da crise - ou para que a crise saia do país. E é acompanhado nessa sua teoria por muitos economistas, sobretudo mais à esquerda.

 

 

Mas Ferreira do Amaral, como a generalidade dos economistas portugueses, tem dois problemas em nada relacionados com a sua competência, lucidez e seriedade intelectual: não se expressa normalmente em inglês e nunca ganhou um Nobel.

 

 

Não fosse assim e as suas ideias seriam certamente muito mais destacadas e debatidas. Prova disso foi o que aconteceu esta semana com a entrevista dada por Joseph Stiglitz à Antena Um. O economista americano defendeu também que a saída do euro é, no seu entender, o caminho a seguir. Ora, isto dito em inglês e ainda por cima “por um Nobel da economia” ganha logo outro peso na agenda.

 

 

Este deslumbramento por declarações de economistas estrangeiros - sejam eles de direita ou de esquerda, alemães ou americanos - não faz sentido, sobretudo quando associado a outras duas características: por regra, esses economistas conhecem o país e a nossa economia muito pior do que os seus colegas portugueses e não têm qualquer capacidade de decisão sobre o país. Neste sentido, é muito mais importante para nós - porque pode mexer verdadeiramente nos nossos bolsos - a opinião de um qualquer analista anónimo de uma agência de rating ou de um banco de investimento que transaciona dívida portuguesa do que todos os Nobel da Economia juntos.

 

 

Tivesse Ferreira do Amaral falado em inglês há duas décadas e provavelmente o nosso destino teria sido diferente. Melhor? Nunca saberemos porque essa contra-prova nunca poderá ser feita. Que o desenho do euro está inacabado desde o início é consensual. Que, apesar disso, a nossa vida teria sido mais fácil e mais próspera fora da moeda única como ela existe é que levanta muito mais dúvidas. Os modelos económicos podem indicar que sim, que conseguiríamos mais crescimento, mais emprego e mais prosperidade se tivéssemos usado a liberdade da política económica que o facto de ficarmos fora da moeda única nos teria permitido.

 

 

A questão é que os modelos económicos não incorporam a vontade e qualidade das lideranças políticas. E o que temos assistido ao longo da nossa relativamente curta vida democrática é que os graus de liberdade da política económica são, por regra, utilizados para a asneira imediata ou a prazo.

 

 

Com liberdade cambial e monetária não é descabido imaginar que hoje poderíamos ser uma pequena economia carregada de inflação, com degradação constante do poder de compra e uma competitividade refém da desvalorização cambial. Foi assim durante toda a década de 80 e mesmo no início dos anos 90, quando o país começou a preparar-se para a entrada no euro, não faltaram vozes contra a chamada “política do escudo forte”. Uma delas foi até a de Braga de Macedo, então ministro das Finanças, e levou à demissão de um na altura jovem vice-governador do Banco de Portugal, António Borges.

 

 

De então para cá, a nossa incapacidade para nos governarmos está à vista, apesar da boleia que apanhámos das taxas de juro muito baixas por empréstimo da credibilidade alemã e dos abundantes pacotes de fundos comunitários. A oposição a políticas de rigor que cumpram o objetivo de ter um orçamento equilibrado são, a esse nível, um sinal que só nos pode deixar muito desconfiados.

 

 

Outras leituras

 

Está em curso mais um dos casos clássicos das “zangas de comadres”, desta vez entre Fernando Lima, que durante décadas foi a “sombra” de Cavaco Silva, e o ex-Presidente da República. Tudo para nos recordar que é demasiado cedo para fazer balanços completos da vida política do homem que mais tempo nos liderou nas últimas três décadas.

 

A Lego é um interessante caso-estudo. Na era da electrónica para os mais novos, a resistência, a reinvenção e o crescimento de um dos mais clássicos brinquedos mostra que há um caminho paralelo aos apelos tecnológicos.

publicado às 12:25

Eu ainda sou do tempo em que o Bloco e o PCP…

Por: Paulo Ferreira

Começamos a ter saudades dos velhinhos PCP e Bloco de Esquerda, sempre atentos e vigilantes a tudo o que tivesse um aspecto mais duvidoso nos negócios, fossem eles públicos ou privados. Mas o poder está a “normalizá-los”.

 

 

A grande diferença entre o resgate em curso da Caixa Geral de Depósitos e o de um banco privado é que neste último caso os accionistas podem decidir não ir “a jogo”, recusar o aumento de capital e, com isso, atirar o banco para o colo - e o bolso - dos contribuintes.

 

 

Com a Caixa, banco público, fica tudo em família logo à partida. Os accionistas finais e os contribuintes são uma e a mesma entidade e, portanto, as duas opções são apenas uma: ou pagam ou pagam.

 

 

Dir-se-á que, no caso da Caixa, estamos pelo menos a capitalizar uma empresa que “é nossa”. Isso só em parte é verdade. No passado a Caixa foi mais “deles” do que “nossa”. Deles, entenda-se, empresários, políticos e amigos de políticos que fizeram do banco público o bordel financeiro que se sabe, de agência de emprego a balcão de financiamento a fundo perdido.

 

 

Vamos ter a esperança que a classe política queira, pelo menos para efeitos de registo histórico, perder um pouco de tempo a separar o trigo do joio desse passado para percebermos quem, como e em quanto beneficiou do banco público para interesses privados.

 

 

É precisamente nestes momentos que começamos a ter saudades dos velhinhos PCP e Bloco de Esquerda, sempre atentos e vigilantes a tudo o que tivesse um aspecto mais duvidoso nos negócios, fossem eles públicos ou privados. E, convenhamos, ocasiões não faltaram para deixar a extrema esquerda carregada de razão quando falava da “economia de casino” e das “negociatas do grande capital”. Os capitalistas estão a conseguir em poucos anos o que o marxismo não conseguiu em dois séculos: destruir o capitalismo.

 

 

Mas o poder produz estes milagres. Mudam-se as posições e tudo muda com elas. A brandura e a compreensão com que comunistas e bloquistas aceitam agora que vá mais dinheiro para a banca chega quase a ser enternecedora. Sim, é para a Caixa, banco do Estado. Mas não exigem sequer saber porque é que o banco do Estado precisa de quase 4.000 milhões de euros dos contribuintes? Não era suposto que o banco público, só pelo facto de o ser e com todas as virtudes daí decorrentes, dispensasse estas ajudas típicas de “gangsters financeiros”? Não vão querer apresentar facturas a Joe Berardo, Manuel Fino ou Armando Vara?

 

 

E o envolvimento de capitais privados no plano de capitalização? São mil milhões de euros em obrigações subordinadas. É dinheiro que virá dos grandes grupos financeiros mundiais - até pode vir do Goldman Sachs, quem sabe… -, de fundos de investimento “agiotas”, de fundos de pensões privados que transformam a Segurança Social “num negócio”. Vamos todos pagar juros a esta gente por eles colocarem capitais especulativos na Caixa e ajudarem a viabilizar o plano de recapitalização?

 

 

Aguarda-se também uma posição forte contra os 700 milhões de euros que estão reservados para pagar indemnizações na dispensa de trabalhadores. Sim, serão saídas negociadas que poderão chegar a 3000 funcionários, mas sempre nos habituámos a ter no Bloco de Esquerda e no PCP dois intransigentes defensores do emprego, da manutenção dos postos de trabalho existentes e da criação de mais. Ainda que patrões e empregados possam estar aparentemente de acordo sobre a rescisão dos contratos, restam sempre dúvidas sobre a pressão e a eventual coação que possam existir para reduzir a folha de salários.

 

 

E é assim que vamos assistindo à “normalização” do Bloco e do PCP.

 

 

 

Nos últimos anos, quando havia um crescimento económico de 1,1% o PCP dizia que isso era “apenas o abrandamento do ritmo da recessão”. Agora o PIB cresce um quarto desse valor e não se ouvem os comunistas. Quando a taxa de desemprego começou a cair dizia-se que “os números do desemprego reflectem cada vez menos a realidade do mercado de trabalho”. Imagina-se que agora, por mágica, os números que são calculados da mesma forma pelas mesmas entidades, já sejam verdadeiros.

 

 

E a forma como ambos os partidos reagiram ao caso das viagens de membros do governo a convite da Galp são, nesta matéria, o teste do algodão: o exercício do poder desfigura muita gente.

 

 

É “realpolitik”, dir-se-á. Alguns fins considerados mais importantes obrigam a muito contorcionismo nos meios. É possível. Mas não deixa de ser perturbador que padrões éticos e de separação de águas que pareciam tão exigentes e tão diferenciadores dos partidos do “arco do poder” possam cair, afinal, à primeira necessidade de circunstância.

 

 

Provavelmente, a grande diferença que nestas matérias nos habituámos a constatar entre o BE e o PCP, por um lado, e o PS, o PSD e o CDS, por outro, não está na ideologia nem na “massa” de que são feitos os homens e mulheres. Está apenas no poder que se tem ou não.

 

 

Outras leituras

 

 

Aqui ao lado, em Espanha, há quase um ano que não há um governo em plenitude de funções. E, olhando para a economia, até não está a correr mal de todo…

publicado às 11:16

Portugal tem mesmo de continuar a ser assim?

Por: Paulo Ferreira

 

A prevenção e combate aos fogos florestais é um assunto que precisa de todos os ingredientes em que, por regra, somos medíocres: estudo e planeamento, acção coordenada e colaboração entre várias “capelinhas”, estabilidade de políticas, avaliação e eventuais correcções.

 

 

Não preciso de consultar as estatísticas para perceber que o último ano em que houve uma vaga de incêndios invulgarmente trágica foi em 2010. Como é que sei? Porque nas últimas horas foram várias as pessoas que republicaram artigos escritos em Agosto desse ano nos jornais ou nas suas páginas de redes sociais. Fizeram “copy+paste” sem tirar nem pôr, sem mudar uma vírgula, para mostrar que a única coisa que muda são as árvores que ardem porque o que desapareceu há seis anos já não desaparece agora.

 

 

Dois exemplos: Pedro Ivo Carvalho, no Jornal de Notícias e Francisco Seixas da Costa, - a quem abusivamente pedi “emprestado” o título deste artigo - que na sua página de Facebook escreveu na terça-feira:

 

“FLORESTAS

Porque será que, acabado o verão, acabam de imediato as reuniões e reflexões sobre política florestal, ninguém mais fala da questão da limpeza das matas e tudo entra num total esquecimento até ao ano seguinte, até aos primeiros incêndios, altura em que tudo recomeça, da mesma forma, como no ano anterior?

Portugal tem mesmo de continuar a ser assim?

(Escrevi isto no meu blogue a 13.8.2010)”

 

 

Em Portugal a floresta é duas vezes vítima na nossa falta de planeamento, de organização, de exigência, de execução de políticas públicas e posterior avaliação e de responsabilização: a primeira é com a quantidade de árvores abatidas para se imprimirem os "n" relatórios, estudos e reflexões sobre a reforma do sector, a prevenção e combate aos fogos; e a segunda é quando tudo arde porque nada de relevante se fez.

 

Não há governo que não prometa uma “Reforma da Floresta” e António Costa não foi excepção, como acabámos de assistir. Mas já os anteriores governantes anunciaram mudanças de fundo que ou não foram aplicadas ou estavam mal desenhadas desde o início. Foi assim em 2006 e já tinha sido assim em 2003. Isto para ficar apenas na primeira metade da primeira página de uma arcaica pesquisa no Google.

 

Já chamámos especialistas norte-americanos e chilenos para nos ajudarem a combater os fogos.

 

Na década passada, a chamada sociedade civil deu um contributo para o assunto através da Cotec. Foi feito um estudo aprofundado financiado por mais de uma dezena de empresas sobre a prevenção e combate aos fogos florestais, a partir da experiência das melhores práticas internacionais.

 

O que se desconhece é o resultado de todas as reformas, contributos e iniciativas. Não sabemos o que foi feito ou não foi e que impacto teve na floresta, na sua conservação e valorização sustentável porque em Portugal não há o bom hábito de avaliar o resultado das políticas públicas ou os danos causados pela sua ausência.

 

Por estes dias, dada a tragédia sobretudo na Madeira, não será o momento para grandes ou pequenas reflexões. O tempo é de controlar danos e cuidar da melhor forma de todos os afectados. Vai fazer-se o rescaldo, tudo vai acalmar e os incêndios deixam os alinhamentos dos telejornais. Daqui a algumas semanas, é muito provável que Fátima Campos Ferreira conduza mais um debate sobre o tema no Prós e Contras, quando o programa regressar em Setembro. Será mais um e é um clássico dos anos em que arde demasiada floresta. Aliás, se quisermos perceber o que não funciona no país basta revisitar a longa carreira deste programa da RTP e verificar os temas que são recorrentes sem que, discussão após discussão, se encontre alguma evolução - já agora, o primeiro programa foi em Outubro de 2002 e colocava a pergunta: “Os portugueses são pouco produtivos?”. Não nos soa estranho, pois não?

 

O que nunca foi feito foi passar à pratica um plano com cabeça, tronco e membros, que resista às mudanças de ministro ou de governo e que, daqui a uns anos, possa ser avaliado e corrigido se necessário for.

 

 

O assunto é complexo. Tem uma enorme diversidade de partes interessadas - “stakeholders”, como agora se diz - que vão da família com uma pequena parcela de terreno onde construiu a sua casa até às grandes empresas de celulose. Tem um enorme impacto económico. Requer uma coordenação forte entre o Estado central e o poder local. Precisa de importantes contributos dos registos de cadastro das propriedades mas também de medidas penais para os incumpridores a vários níveis. Requer mudanças de hábitos, de educação e de espírito cívico por parte de grandes e pequenos proprietários que podem ser incentivadas com as medidas correctas.

 

Ou seja, o assunto precisa de todos os ingredientes em que, por regra, somos medíocres: estudo e planeamento, acção coordenada e colaboração entre várias “capelinhas”, estabilidade de políticas, avaliação e eventuais correcções.

 

Não estando estas coisas no nosso ADN, talvez a responsabilização dos decisores políticos pelo que não fizeram e deviam ter feito pudesse dar uma ajuda.

 

Daqui a algumas horas Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa aterrarão no Funchal para mostrar solidariedade e confortar as vítimas. Até à próxima tragédia, com estes ou outros actores políticos, onde os discursos se repetirão.

 

 

Outras leituras

 

 

Assunto encerrado, diz António Costa sobre o caso dos governantes que viajaram a convite da Galp. Com sorte e o esquecimento da opinião pública nem é necessário fazer a prometida alteração à lei para clarificar este tipo de situações.

publicado às 13:46

A fotografia da miúda vietnamita, nua, a fugir do napalm seria publicada hoje?

Por: Paulo Ferreira

As limitações externas ao direito de informar podem ser um caminho sem fim. Hoje é o nome dos terroristas, para tentar evitar mais atentados. Amanhã pode ser o próprio acto terrorista, cuja omissão informativa, se fosse possível, seria ainda mais eficaz nesse propósito de travar a repetição.

 

 

Como combater o terrorismo, este terrorismo que vivemos? A pergunta sugere mil e uma respostas ou sugestões, num problema onde há mais dúvidas do que certezas. Mas sabemos duas coisas: não há uma solução mágica, que seja rápida e eficaz; e qualquer caminho que seja escolhido terá sempre um custo para ser avaliado ao lado dos benefícios.

 

 

Uma das questões centrais está na conciliação das nossas liberdades individuais e colectivas com as eventuais derivas securitárias e policiais que podem justificar-se em função da ameaça.

 

 

Mas queria centrar-me num ponto concreto, que é o da liberdade vs. responsabilidade do jornalismo e da informação.

 

 

O assunto tem sido discutido na Europa, a propósito de propostas para condicionar um ou outro aspecto das notícias relacionadas com a cobertura de atentados terroristas. Ontem, aqui mesmo, o Francisco Sena Santos reflectiu sobre o assunto e sobre o fenómeno de repetição que as notícias podem suscitar em relação a determinados factos. E isso deve fazer-nos pensar.

 

 

A informação e o jornalismo têm impacto público e condicionam vidas individuais e fenómenos colectivos. Diria que é também para isso - ou sobretudo para isso? - que existem. O seu valor social e democrático está precisamente aí, na capacidade de intervir através da informação, do relato e interpretação de factos. E o seu impacto é tanto maior quanto maior for a qualidade do jornalismo que é feito.

 

 

Não podemos, por isso, querer simultaneamente comer o bolo e ficar com ele intacto.

 

 

O jornalismo mexe com pessoas, pode destruir empresas e governos, interfere na nossa qualidade de vida. Pode fazer centenas perder empregos ou ameaçar a segurança militar ou financeira de um país. Pode alterar o curso de uma guerra, intensificando-a, ou contribuir mais rapidamente para a paz.

 

 

Se estes impactos são reais e se preferíamos não ter alguns deles a pergunta que temos sempre que fazer é esta: quem pode e deve criar excepções que limitem a liberdade e o dever de informar para além das melhores práticas que estão previstas na generalidade das democracias liberais e que já fazem parte das leis?

 

 

Para além destas, por regra fico de pé atrás em relação a qualquer limitação ao relato de factos que podem ser de interesse público ou que fazem parte de uma história que está a ser contada.

 

 

E a minha desconfiança vai desde a mais insignificante trivialidade - já repararam que nos jogos de futebol agora são ocultadas as caricatas invasões pacíficas de campo feitas por adeptos isolados com mais ou menos roupa? - até temas importantíssimos como o que estamos agora a discutir, o terrorismo. Porque a essência do mecanismo é a mesma: alguém, motivado certamente pelas melhores intenções, cria ou seguere a criação de uma fonteira nova, mais recuada, no direito e dever de informar.

 

 

A sugestão para a omissão do nome de terroristas nas notícias é um desses casos. Percebo a intenção, que é boa e pretende dar um contributo positivo, tentando travar a glorificação dos terroristas entre os apoiantes extremistas. Não sei se essa limitação informativa teria algum impacto real, ainda que fosse respeitada pela totalidade dos órgãos de informação institucionais, sobretudo nesta era em que somos todos “jornalistas” com capacidade para publicar nas plataformas electrónicas.

 

 

Mas o princípio da limitação à informação e das regras gerais e cegas é um mau caminho que não nos leva, tudo ponderado, a um sítio melhor. Sobretudo quando impostas por fora.

 

 

Tal como acontece, em regra, nas notícias sobre suicídios, são os jornalistas, a cada momento, que reflectem e decidem sobre a sua divulgação. Os casos isolados, individuais, por regra não são noticiados. Mas há casos em que o suicídio é notícia, e muito importante. Os casos dos 30 funcionários da France Telecom que, entre 2008 e 2009, puseram termo à vida são um bom exemplo disso. Cada um deles foi uma decisão individual mas ninguém contesta a importância de os noticiar para nos obrigar a reflectir sobre o que lhes poderá ter estado na origem.

 

 

Raramente as questões editoriais e os dilemas que são colocados às redacções são a preto e branco e susceptíveis de uma prática comum binária, sim ou não.

 

 

As limitações externas ao direito de informar podem ser um caminho sem fim. Hoje é o nome dos terroristas, para tentar evitar mais atentados. Amanhã pode ser o próprio acto terrorista, cuja omissão informativa, se fosse possível, seria ainda mais eficaz nesse propósito de tentar evitar a repetição.

 

 

Encontram-se sempre “bons” motivos de segurança pública, defesa nacional ou ordem social para tentar travar a divulgação de algumas informações ou imagens. Desde as fotos das urnas em que os soldados americanos caídos no Iraque regressavam ao seu país até aos incêndios florestais no tempo do Estado Novo, que eram censurados, levando gente mais antiga a concluir erradamente que “no tempo do Salazar não havia incêncidos”.

 

 

Apesar de tudo, dos abusos e de más práticas jornalísticas, continuo a não encontrar melhor local para tomar as decisões sobre o que publicar ou não publicar do que as redacções. São os jornalistas que devem fazê-lo, caso a caso, e ponderando tudo o que pode estar em causa em cada opção concreta. Devem ponderar os vários conflitos que se colocam entre direitos fundamentais - direito de informar vs. direito ao bom nome ou à reserva de vida privada, por exemplo -, decidir e depois ser avaliados e julgados por eles. Julgados pelo público, em primeiro lugar. Nos tribunais, se for caso disso.

 

 

Indo mais longe na reflexão.

 

 

Será que a icónica foto da criança vietnamita a fugir de um ataque de napalm hoje seria publicada na capa de um jornal ou revista? Em 1973 o fotojornalista Nick Ut ganhou o prémio Pulitzer por ela.

 

 

Ainda sobre o Vietnam, hoje seria divulgada a foto da execução de um jovem vietcong pelo chefe da polícia de Saigão?

 

 

A divulgação destas e de outras imagens e a intensa cobertura jornalística contribuíram para pôr fim ao conflito. E é possível que o fim da Segunda Guerra tivesse sido acelerado se se conhecessem e o mundo visse as atrocidades massivas que os nazis estavam a praticar nos campos de concentração.

 

 

Não tenho dúvidas que uma sociedade mais bem informada é sempre melhor do que outra em que há limitações informativas. Ainda que essas limitações tenham a boa intenção de proteger essas sociedades dos seus próprios males.

 

Outras leituras

 

- Pedem-se os estudos aos grupos de trabalho. Mas se as conclusões não agradam, eles ficam na gaveta. Para quê então gastar tempo e recursos a fazê-los se os governos decidem o que bem entendem independentemente das opiniões dos peritos a que pedem conselhos?

 

- Um país seguro como o nosso tem muito valor. Assim o saibamos capitalizar.

 

publicado às 15:34

Isto não é um país, é um campeonato de narrativas

Por: Paulo Ferreira

Nenhum país sobrevive se apenas puder optar entre velhas ilusões e novas privações. Mas é com isso que governo e oposição de direita estão a confrontar o país. 

 

 

Se o povo se alimentasse de narrativas éramos o país mais obeso do mundo. E se as narrativas significassem prosperidade seríamos o farol das civilizações.

 

 

Tudo, hoje, está reduzido a narrativas. Não há confronto de propostas políticas. Há uma guerra de narrativas. Não há governação nem alternativas. Há argumentários que têm como único objectivo sacudir a água do respectivo capote.

 

 

A indigência reinante tem um problema: as narrativas colocam-nos sempre a discutir o passado e não se vê ninguém preocupado com o futuro e com os caminhos que possam resgatar-nos da enrascada permanente em que nos vamos acostumando a viver.

 

 

O mais largo que os agentes políticos conseguem ver são três meses: como vai ser o Orçamento para 2017? Vai ter mais austeridade? Como vai ser apresentado a Bruxelas? Antes ou ao mesmo tempo que entra no Parlamento? E como se convence, de uma assentada, Wolfgang Schauble, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa?

 

 

Certo, certo é que, aconteça o que acontecer, por alturas do Natal teremos em cena duas narrativas alternativas sobre o que entretanto se passar.

 

 

Desde o famosíssimo PEC IV que as narrativas tomaram o centro do palco político. A culpa foi tua. Não, foi tua. A esquerda atirou-nos para o “buraco”. A direita está a escavar o “buraco”. Uns porque chamaram a troika depois de levarem o país à bancarota. Outros porque foram além da troika.

 

 

Não há paciência. Banif, Novo Banco, Caixa Geral de Depósitos, sanções de Bruxelas, crescimento económico, desemprego, investimento, exportações, consumo privado, execução orçamental, défice público, dívida, credibilidade externa, emigração, tudo, mas rigorosamente tudo, está reduzido a longas disputas sobre culpados e graus de culpa.

 

 

Claro que toda a esta discussão é estéril de qualquer proveito para o país. Primeiro porque o rigor dos factos é, por regra, a primeira vítima neste tipo de algazarras. Depois porque a honestidade intelectual de alguns dos principais protagonistas partiu há muito para parte incerta, se é que alguma vez ali habitou.

 

 

E ainda que isto fosse conduzido com o mínimo de elevação, teria apenas o valor de uma autópsia: com o mal irremediavelmente consumado, resta apurar causas. Só para que conste.

 

 

Este ambiente podre tomou conta da prática política porque as coisas estão a correr mal. Correm mal ao governo, herdeiro legítimo da delinquência orçamental socialista. E tudo servirá para justificá-lo. Será culpa da herança, do estado da banca, do Brexit, de Bruxelas, da economia internacional, dos mercados, das agências de rating ou dos empresários que estão contra esta solução política. Será culpa de tudo menos da acção e das opções do próprio governo, claro está.

 

 

Este é mais um projecto de comunicação do que de governação, à procura de criar na generalidade da população uma sensação de melhoria enquanto se esperam eleições.

 

 

Do lado da oposição a prática não é melhor. Tudo também preso a narrativas, uma tentativa de ditar posições apenas para que fiquem registadas em acta. Mas não se vê ali a construção de qualquer alternativa estruturada que vá além do “a culpa é do governo”.

 

 

Nenhum país sobrevive se apenas puder optar entre velhas ilusões e novas privações. Mas é com isso que governo e oposição de direita estão a confrontar o país.

 

 

Isto está a correr mal ao governo mas também à oposição. Mas sobretudo corre mal ao país, que não vê como vamos sair daqui. E não há guionistas que consigam fazer disto uma boa narrativa porque neste campeonato não há vitórias morais.

 

 

 

Outras leituras

 

 

Orban e Trump, ambos muito bem acompanhados um pelo outro. Nada de bom se pode esperar quando o populismo e o radicalismo assumem os comandos.

 

 

Tudo indica que vem aí multa para Portugal, embora relativamente leve. O Governo já anunciou que vai processar a Comissão Europeia. Chegará para mostrar serviço aos parceiros que apoiam o Governo ou o Bloco cumpre a ameaça e propõe formalmente um referendo sobre a Europa?

publicado às 00:35

É isto o novo normal? E vamos habituar-nos a ele?

Por: Paulo Ferreira

Terrorismo, derrocada da banca, extremismos. O pior caminho que podemos trilhar é o de olhar para isto tudo como uma nova normalidade, encontrando um outro equilíbrio e o conforto possível. Porque daí não virão nunca respostas, nem soluções, nem mudanças tão firmes quanto sensatas.

 

Os sobressaltos sucedem-se e cada um deles aumenta os riscos que pendem sobre as nossas cabeças. É o terrorismo e as suas variadas formas, propósitos e geografias. É a prolongada estagnação económica, que ameaça os equilíbrios que fomos construindo durante décadas. É a banca, que tomou como refém o dinheiro dos contribuintes. É o Brexit e a machadada que dá na União Europeia. É a crise de refugiados com o humanismo a que nos obriga. É agora a Turquia, num reforço da deriva autoritária contra tudo o que são os valores que gostamos de atribuir à Europa. É o crescimento dos extremismos e do radicalismo ideológico.

 

Chegámos até aqui lentamente, passo a passo e começamos a ter a perigosa percepção de que “isto” é normal.

 

Cada novo ataque terrorista, por mais hediondo que seja, é cada vez mais um. Todos lamentamos, todos choramos as vítimas e nos indignamos com a barbaridade: como é possível? Mas regressamos à nossa normalidade cada vez mais depressa. O 11 de Setembro - já lá vão 15 anos - e a série da Al Qaeda que continuou em Londres e em Madrid já estão tão longe… Já morreram outros milhares de inocentes depois disso e há quem defenda que temos que nos habituar poque vai continuar a ser assim. Temos mesmo? Devemos habituar-nos?

 

Outro plano, que nós portugueses conhecemos por experiência própria: a banca. Aqui não se trata de ceifar vidas humanas no sentido literal mas da ameaça à nossa forma de vida e à prosperidade a que temos direito. Lembram-se do BPN e do escândalo que foi a derrocada, a nacionalização e a conta que todos estamos a pagar? Dizia-se que tínhamos “batido no fundo”. Somos ingénuos, porque o fundo não era ali. O fundo está, afinal, lá muito mais abaixo e provavelmente ainda não chegámos lá. Depois disso foi o BPP, o BES e os efeitos colaterais na PT, o Banif, agora a capitalização da Caixa. Tudo cada vez mais olhado como fazendo parte da normalidade. Lá fora - que não é verdadeiramente lá fora, as contas destas coisas são sempre mais ou menos partilhadas - a Itália está com um problema bancário de 300 mil milhões e a Alemanha tem o seu Deutsche Bank com uma factura estimada de 150 mil milhões. Os problemas da banca tornaram-se tão normais como o calor em Agosto e o frio em Janeiro.

 

E os refugiados, que continuam a morrer às centenas e os cadáveres a darem às nossas costas, obrigando-nos a refazer as estatísticas?

 

Recordam-se quando os partidos extremistas eram vistos como uma ameaça por chegarem aos 4% ou 5% em eleições? Eles aí estão agora, a disputar o poder taco a taco, nalguns casos. Junte-se, para compor o quadro, a real possibilidade de virmos a ter Donald Trump na Casa Branca e Marine Le Pen no Eliseu. Assustador, não é? Aos nossos olhos pode ser, mas não desprezemos arrogantemente os milhões que votam neles e noutras propostas políticas extremas, venham elas da direita ou da esquerda.

 

Elas são sobretudo alimentadas pelos receios de cidadãos pacatos que, inquietos com a falta de respostas das instituições em que já confiaram no passado, decidem apoiar soluções radicais para resolver problemas que eles sentem como sendo também radicais. É a lógica do “para grandes males, grandes remédios”, embora estes remédios sejam verdadeiramente uma nova doença.

 

O pior caminho que podemos trilhar é o de olhar para isto tudo como uma nova normalidade, encontrando um novo equilíbrio e o conforto possível. Porque daí não virão nunca respostas, nem soluções, nem mudanças tão firmes quanto sensatas. Faltam lideranças capazes, é certo. Essa é mais uma perigosa normalidade.

 

Sobre os sapos conta-se a conhecida experiência laboratorial. São sensíveis à temperatura, claro, e se atirados para uma taça com água a ferver eles saltam imediatamente dali para fora. Mas se forem colocados num tacho com água à temperatura do lago onde vivem eles ali ficam quietos. E se esse tacho for aquecido em lume muito brando o animal vai-se acostumando e não é accionado o instinto que o leva a fugir. Até morrerem cozidos quando a água ferve. É assustador pensar que podemos estar hoje a ser estes sapos.

 

Outras leituras

 

Há cerca de um mês tivemos um momento alto de demagogia por parte de António Costa com a tirada (cito de cor): tantos problemas graves para resolver na Europa e Bruxelas preocupa-se é em aplicar sanções a Portugal. Independentemente da injustiça das sanções no nosso contexto, esta abordagem transborda a populismo. Senão, veja-se o que se passa hoje no nosso Parlamento: tantos problemas sérios para resolver no país e os deputados preocupados com os cogumelos shiitake.

 

Não aprendemos mesmo com os erros passados. Os contribuintes vão pagar 10 milhões de euros em vez dos automobilistas, que beneficiam de um desconto de 15% em algumas portagens. Era importante ter estudos sérios sobre o verdadeiro impacto desta redução de preços na circulação nestas auto-estradas. Quantos condutores deixarão de utilizar vias alternativas porque a portagem desceu de 10 euros para 8,5 euros? Quando as contas puderem ser feitas será já demasiado tarde.

publicado às 11:52

Escolas privadas? Claro. Cada um paga a sua

Por: Paulo Ferreira

 A inversão de papéis é, a maior parte das vezes, um teste à coerência de muita gente. E é isso que estamos a confirmar nesta prolongada, mas saudável, discussão sobre os contratos de associação entre o Estado e escolas privadas.

 

Penso que por esta altura os cidadãos com um interesse mediano pela vida política e colectiva do país já terão percebido os traços gerais do que está em causa. Sobretudo agora, que o futebol foi de férias e libertou disponibilidade temporal, mental e emocional para coisas menos importantes como esta da educação das nossas crianças.

 

E a questão, nua e crua, é esta: deve o Estado financiar escolas privadas quando há escolas públicas nas proximidades com capacidade para garantir o inquestionável acesso universal ao ensino? Obviamente que não.

 

Este é um dossier em que o Governo tem razão no essencial. E o essencial é que os recursos públicos são escassos e que, por isso, devem ser sempre racionalizados. Não faz sentido pagar duas vezes a mesma coisa: na capacidade instalada numa escola pública e no pagamento a entidades privadas que prestem esse mesmo serviço em nome e substituição do Estado.

 

O princípio defendido e colocado em prática pelo Ministério da Educação está correcto. Mas depois podemos e devemos refinar a análise. O que é que protege de melhor forma o dinheiro dos contribuintes: abrir mais cinco turmas numa escola pública ou pagar a uma privada para o fazer? Isso já depende do chamado custo de oportunidade e as contas devem ser feitas caso a caso, zona a zona. Se a escola pública tem capacidade para acolher mais turmas sem aumento da estrutura - construir mais um pavilhão, por exemplo - ou sem fazer crescer de forma mais do que proporcional o corpo docente e de apoio, provavelmente ficará mais barato abrir aí essas turmas do que pagar a privados para o fazer. Mas pode haver casos em que pagar aos privados é, ainda assim, mais económico do que alargar as matrículas no público. Duvido é que haja contabilidade analítica de jeito para o sector escolar que permita trazer esta racionalidade à decisão e à discussão, mas isso já é outra questão.

 

Não sendo o principal, há também aqui um sub-tema que tem a ver com o ensino de inspiração religiosa. Muitas escolas privadas fazem-no e muitos pais querem-no para os seus filhos, uns e outros no mais básico uso da liberdade e sem que isso belisque a qualidade genérica do ensino. Mas a questão é diferente quando uma dessas escolas é a “escola pública” na zona, através de um contrato de associação precisamente porque não há ali meios do Estado. Eu não gostaria de ver os meus filhos obrigados, por falta de alternativa, a frequentar um estabelecimento com uma formação que inclua, por exemplo, a doutrina ou prática de ritos religiosos, sejam eles quais forem.

 

Mas cá estamos, então, na tal inversão de papéis.

 

Muitos dos que estão sempre disponíveis para rasgar as vestes pela redução da despesa do Estado, pela racionalidade com que é aplicado o dinheiro dos contribuintes, pelo princípio do utilizador-pagador e contra a subsidiação abusiva e que gera dependência, esquecem agora todos esses saudáveis princípios para manter o “status quo”. Invocam a defesa de um princípio de liberdade de escolha que, neste caso, não está em causa: quem quer, pode continuar a inscrever os filhos numa escola privada, desde que pague por isso e sem a ajuda dos impostos dos outros.

 

Do outro lado, vemos preocupação com os dinheiros públicos a quem nunca a demonstrou, preocupação com a eficiência da gestão num ministério mastodôntico onde quase 300 professores estão destacados para trabalho em sindicatos - uma boa parte dos quais pagos integralmente pelos contribuintes -, indignação com manifestações públicas e “esperas” ao primeiro-ministro a quem passou os últimos quatro anos a fazê-las por causas menos importantes.

 

Pois é. Os interesses particulares e corporativos só são perversos quando não são os nossos. A despesa pública só é má quando é gasta com o sector do lado. A liberdade de escolha é óptima quando é sustentada, em parte, pelo dinheiro dos contribuintes. A mobilização para manifestações é ridícula quando é feita por escolas privadas, mas se for para o sindicato de Mário Nogueira defender a sua presença farta à mesa do Orçamento do Estado ja é legítima e um acto de cidadania. Um pouco mais de coerência, por favor.

 

 

Outras leituras

  • Por falar em corporações, cá está uma semelhante às que gravitam em torno do Ministério da Educação. Esta, dos estivadores, tem a possibilidade de causar danos à economia do país em nome das “progressões automáticas na carreira” e coisas do género.

 

publicado às 09:56

Os sinuosos labirintos da memória

Por: Paulo Ferreira

A memória que Zeinal Bava tinha perdido para dar explicações sobre 900 milhões de euros regressou agora para justificar como 18,5 milhões vieram do GES para uma conta sua.

 

A notícia estava na última edição do semanário "Expresso". Zeinal Bava confirma que a ES Enterprises, “off shore” do Grupo Espírito Santo que funcionava como “saco azul” do grupo através da qual se faziam pagamentos que estão a ser investigados pelas autoridades, lhe transferiu 18,5 milhões de euros.

 

Essa transferência ocorreu em 2012 e o gestor justifica-a com detalhe: que era para que um grupo de altos quadros da PT comprassem acções da empresa, que o plano não foi em frente porque entretanto o próprio Bava saiu para assumir funções na brasileira Oi, que depois não foi fácil devolver o dinheiro ao verdadeiro dono porque entretanto o grupo Espírito Santo colapsou, que a devolução foi feita já este ano com juros e tudo.

 

Podemos sempre perguntar porque é que, no ano que separou a sua ida para o Brasil da derrocada do GES, não saldou essas contas. Afinal, sempre eram 18,5 milhões de euros que estavam numa conta sua e que não lhe pertenciam. Mesmo para Zeinal Bava, isto não serão trocos e como gestor experimentado e especialista em finanças sabe que um crédito não é a mesma coisa que ter dinheiro em caixa.

 

Mas mais do que esmiuçar pormenores das explicações dadas por Bava - as autoridades o farão se acharem relevante, por exemplo para saber se a privatização de que os quadros estavam à espera para comprar acções da PT não tinha já ocorrido em 2011 quando acabou a “golden share” do Estado - o que se assinala é o regresso da sua memória.

 

Quatro anos depois, o gestor explica publicamente em detalhe quem, quando, como e porquê 18,5 milhões de euros entraram e sairam da sua conta para um propósito empresarial relacionado com a gestão da PT.

 

Mas no ano passado, na Comissão Parlamentar de Inquérito à queda do BES/GES, Zeinal Bava não conseguiu recordar nada, mas mesmo nada, de factos que tinham ocorrido apenas 10 meses antes: quem, quando, como e porquê sairam 900 milhões de euros das contas da PT para investir em papel comercial da Rio Forte, empresa integrada no grupo accionista Espírito Santo.

 

A selectividade da memória tem destas coisas, como sabemos. Zeinal Bava quer estar longe desses dinheiros. No caso dos ruinosos 900 milhões emprestados pela empresa a um accionista falido, estar longe é demonstrar toda a ignorância possível sobre o processo de decisão.

 

Mas no caso dos 18,5 milhões não pode dizer que não sabia, porque eles estavam há quatro anos no seu bolso. Aqui, há que usar de toda a lucidez e memória para justificar de forma convincente a transferência. E sabemos que quantos mais detalhes, mais verosímil se pode tornar uma história.

 

Está muita coisa em jogo para muitos dos protagonistas do caso BES/GES/PT. Há investigações em curso, processos a correr em tribunal, responsabilidades para apurar, civis ou criminais. E todos estão devidamente alertados para o facto de tudo o que disserem poder ser utilizado contra ou a favor de cada um no decurso dos trabalhos da justiça.

 

Mais importante do que os lapsos e regressos individuais da memória, são as lições colectivas que podem e devem tirar-se deste caso exemplar. O colapso do GES e o impacto demolidor que teve na PT ocorreram há muito pouco tempo mas parece que já foram há uma eternidade. Não porque alguma coisa de relevante tenha mudado entretanto na prática regulatória, na governação das empresas ou na transparência dos negócios, mas porque vamos assimilando e desvalorizando. Os escândalos sem nome de há dois anos são hoje apenas pequenos sobressaltos na estrada.

 

Dá ideia que coisas destas podem voltar a acontecer ao virar da esquina, como se vai vendo com o que se passa no sector bancário.

 

Gestores e accionistas defendem-se com perdas selectivas de memória. Colectivamente, a nossa defesa é nunca a perder.

 

Outras leituras

 

  • Os distribuidores tradicionais de televisão tornam-se os “donos da bola”, ou seja, dos conteúdos. E alguns jogos das finais das competições europeias vão ser transmitidos em directo através do YouTube. O mundo da televisão vai acabando da forma como o conhecemos.
  • França, provavelmente o país mais irreformável da Europa, está novamente a ferro e fogo. Agora por causa da proposta de alterações nas leis do trabalho feita pelo governo socialista de Hollande, que bate recordes de impopularidade. É tão mais fácil fazer promessas na campanha eleitoral…

 

publicado às 10:19

Os salários, o ovo e a galinha

O que nasce primeiro, o desenvolvimento ou os salários mais altos? A ordem não é indiferente e a confusão entre causas e consequências é comum

 

Há poucos temas que atraiam mais demagogia do que a discussão sobre níveis salariais e ordenados mínimos. E a confusão começa logo na mistura pouco inocente ou pouco informada entre causas e consequências.

 

Que em Portugal o salário mínimo é miserável e as retribuições médias são medíocres é um dado objectivo. E não é preciso comparar com os países mais próperos da Europa, basta ter a noção do que pode uma família fazer com os 530 euros de salário mínimo ou mesmo com os cerca de 1.000 euros de retribuição média para perceber que somos um país pobre.

 

Estes são os dados. E a questão é esta: os salários são baixos porque a economia é pouco desenvolvida e competitiva ou a economia é pouco desenvolvida e competitiva porque os salários são baixos?

 

Não tenho dúvidas que os baixos salários são uma consequência e não uma causa. São uma consequência de um dado essencial, que é a produtividade.

 

Diz-nos a Pordata - pode consultar aqui - que em 2014, em média, cada português produziu 70,1 enquanto cada trabalhador da UE produziu 100. Esta é a causa. E a consequência da pobre produtividade são, entre outras, os pobres salários.

 

Podemos e devemos discutir quais são os motivos de produzirmos tão pouco quando até trabalhamos mais horas e como devemos aumentar a eficiência do nosso tempo. Esse é um exercício fundamental para que alguma coisa se altere.

 

É da fraca gestão e organização das empresas. É dos custos de contexto que o Estado impõe. É de maus hábitos de trabalho e fraca qualificação de muitos de nós. É dos custos excessivos de alguns serviços básicos como as telecomunicações ou energia. É do facto de termos um tecido empresarial que ainda está muito posicionado em produzir com baixo valor acrescentado, baixa inovação, baixo design. É da probreza da nossa marca-país e da inexistência de marcas de produtos e serviços fortes que levem os consumidores a pagar mais por eles. É disto tudo e muito mais.

 

O caminho para o desastre, que já percorremos abundantemente nas últimas décadas, é pretender aumentar os salários administrativamente mais do que a produtividade. A consequência disso é a perda de capacidade competitiva das empresas, a incapacidade de estas conseguirem meios para investirem e se modernizarem, as falências, os despedimentos, o aumento do desemprego, num ciclo vicioso que perpetua a pobreza ou, quanto muito, o país de “remediados”.

 

Já tivemos tempo para aprender mas teimamos em olhar para as consequências, lamentando-as, sem observar as causas, combatendo-as.

 

E isso acontece porque discursos como o que fez o primeiro-ministro esta terça-feira são muito mais populares do que elaborar sobre a necessidade de aumentar a produtividade.

 

Disse António Costa: “Quando vemos alguns, cá dentro ou na Europa, a dizerem que em Portugal nós não nos desenvolveremos aumentando o salário mínimo nacional porque estamos condenados a viver num país de baixos salários e de pobreza, nós temos que dizer: Não. Não aceitamos viver num país de pobreza e de baixos salários”. De facto, são palavras capazes de fazer levantar uma plateia. É importante este inconformismo de não aceitar viver num país de pobreza e baixos salários. Mas é altamente demagógico insinuar que isso acontece porque há uma espécie de forças ocultas que nos impedem de ter retribuições mais altas. A haver conspiração, os conspiradores somos nós. Somos nós - governos, empresários, gestores, trabalhadores - que não temos sabido criar condições para produzir mais e ganhar em conformidade. É legitimo ambicionar ter ordenados à dimanarquesa. Mas não é possível tê-los, de forma sustentada, enquanto mantemos a produtividade à portuguesa. E se isto não é assim, António Costa está no sítio certo para o demonstrar. E para, a seguir, ganhar um Nobel e ser canonizado. Seria totalmente merecido.

 

 

OUTRAS LEITURAS 

- … e enquanto a economia não crescer bastante - a Irlanda anda já pela casa dos 5% ou 6% - durante vários anos, é certo que vamos continuar na mediocridade salarial e de properidade. As notícias são, nesta frente, más mas não surpreendentes. Se há coisa em que os políticos e governantes são peritos é em prever o futuro muito melhor do que ele acontece. No programa eleitoral do PS previa-se um crescimento de 3% para o próximo ano. A previsão do governo é agora de 1,8%.

 

- A ironia é que é um governo de esquerda a obrigar algumas empresas a aceitarem as regras de mercado mesmo quando os seus accionistas e gestores preferiam manter o seu “quintal” bem murado. A certeza é que o tema BPI está ainda no início. Aguarda-se a resposta angolana.

 

publicado às 09:44

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