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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

A nossa taça e as medalhas deles

Por: Pedro Rolo Duarte

 O Presidente da Republica condecorou ontem os cinco atletas medalhados no Campeonato Europeu de Atletismo que, azar dos azares, decorreu em simultâneo com a fase final do Europeu de Futebol - e por isso perdeu a batalha pelo mediatismo e a notoriedade que os tempos actuais promovem, mesmo quando querem ser imparciais. Houve logo quem se insurgisse contra a injustiça de que sofriam os atletas de Amesterdão face aos atletas de Paris - ignorando que a diferença não resulta do desmerecimento pelos feitos conquistados, mas “apenas” da capacidade que o futebol tem de juntar um tão gigantesco número de seguidores.

 

É um fenómeno de massas transversal, incontrolável, em muitos momentos até incompreensível - e que por isso mexe com milhões de pessoas, o que explica que mexa com milhões de euros. Deixo aos sociólogos explicações mais detalhadas para o impacto de uma bola a rolar por entre 22 homens… Mas é esse fenómeno, e esse impacto, que obriga os media a ir atrás dele, forçando a uma união nacional que acaba por colocar ao mesmo nível a imprensa desportiva, a generalista de referência, a popular, as redes sociais, as rádios, as televisões. Todos ficam estranhamente parecidos num momento como este - e todos procuram espelhar de forma verdadeira e próxima o sentimento dos portugueses.

 

Na verdade, Marcelo Rebelo de Sousa fez exactamente o mesmo que a maioria dos media: só quando acordou da bebedeira colectiva da Taça de Campeões Europeus em mãos portuguesas olhou à volta - e viu que havia mais mundo para lá de uma bola de futebol e de uma selecção vitoriosa. Nesse mundo por ver estavam outros heróis nacionais, como estavam noticias de tragédias, sanções e demais “ninharias”…

 

Tentou remediar os estragos com mais comendas. Não vai conseguir. Os estragos não foram feitos por ele. São a consequência de um tempo em que os factos se esmagam uns aos outros por força do envolvimento popular que têm, do dinheiro que envolvem, e da forma como emocionalmente afectam aqueles que os sentem como seus. E tudo isto é uma pescadinha de rabo na boca. Nunca acaba. É sempre bonito ouvir Fernando Santos ou Ronaldo dizerem que a Taça é de todos os portugueses, e confirmar nas manifestações populares esse sentimento de propriedade - mas todos sabemos que constitui uma enorme falácia. A Taça é daqueles jogadores, daquela equipa técnica, e de quem os patrocinou. Foram eles que jogaram, deram o litro, se magoaram, acertaram, erraram, e no fim ganharam. Também são eles que ganham vencimentos milionários, que são disputados por clubes de todo o mundo, e que vivem num universo exclusivo e muito particular. Nós, comuns espectadores, apenas caucionamos e justificamos todo aquele aparato.

 

Neste quadro, por maior que seja o talento dos atletas de Amesterdão (e quem diz os atletas pode dizer os arquitectos, os bailarinos, os cantores, os escritores…), não há comenda ou elogio que esbata o abismo entre o mundo dos milhões e o outro - o que vive daquilo de que realmente é feita a vida. E é por isso que dizemos que a Taça é nossa, ao mesmo tempo que sentimos que as medalhas do atletismo são da Sara Moreira, da Patrícia Mamona, da Dulce Félix, da Jéssica Augusto e do Tsanko Arnaudo.

 

Paixão, dedicação, entrega, orgulho. Somos todos iguais - mas é mesmo verdade que uns são mais iguais do que outros. Como se costuma dizer, “sem desmerecer”…

 

Coisas boas de uma semana histórica

Sendo embora parte interessada - os ingleses aspiravam ir à final deste Europeu… -, nem por isso a BBC deixou de resumir exemplarmente, em e minutos, o evoluir do campeonato do começo até à taça nas mãos de Ronaldo. Vale a pena ver o apuro, o bom gosto e a qualidade deste trabalho final da estação britânica.

 

No balanço do Euro 2016, uma das questões que fica em aberto: será melhor ou pior um campeonato com mais equipas, ou seja, com os 24 países que entraram na competição deste ano? O jornal francês Liberation encontrou argumentos contra e a favor e pô-los lado a lado. É ler e pensar…

 

Já tem alguns meses, mas é dos mais sarcásticos videos da equipa da “Porta dos Fundos” sobre o universo do futebol, das transferencias de jogadores, e até das formas como se encaram os diversos países e clubes, Benfica incluído… Riam com eles!

 

publicado às 10:36

Lisboa que sobe e desce

Por:Pedro Rolo Duarte

 

 Anualmente, a prestigiada e atenta revista “Monocle” dedica parte de uma edição ao ranking das melhores cidades do mundo para viver. A lista é elaborada a partir de uma série de critérios, nem todos óbvios, mas todos ligados à vida quotidiana das cidades: desde a facilidade em jantar depois das dez da noite às horas anuais de sol, passando pelo nível de aceitação de animais domésticos nos espaços públicos, a revista considera itens como estes ao lado dos clássicos desemprego, população, integração religiosa, etc.

 

Lisboa faz parte das 25 cidades “top” há vários anos, tendo vindo a subir na tabela: em 2014 estava no 22º lugar, em 2015 subiu para o 18º, e este ano ficou no 16º. O comentário do jornalista encarregue de justificar a classificação sublinha a cada vez maior convivência entre o lado histórico da capital portuguesa e o seu crescente cosmopolitismo e modernidade. No fim, nas recomendações para melhorar a qualidade de vida, fala de dramas verdadeiramente assustadores para todos, como os números do desemprego jovem (34,4%), e do caos do trânsito na cidade, que faz a cabeça em água, a muitos de nós, diariamente.

 

Tenho um especial interesse por estes olhares que vêm de fora e surpreendem com pormenores que nos escapam, mas também se equivocam com aparências sem fundamento. Nesse sentido, a classificação de Lisboa no ranking da “Monocle” mostra uma verdade - uma metrópole em mudança -, mas passa ao lado de uma ameaça real para quem vive na capital: cada vez é mais fácil ser turista na cidade, na mesma proporção em que é cada vez mais difícil viver nela.

 

É indiscutível que os últimos anos trouxeram vida a Lisboa, espaços públicos de qualidade, oferta cultural, requalificação de bairros, comércio cosmopolita, e uma diversidade de eventos e iniciativas que chegam a deixar-nos perdidos, de tanta oferta. Mas, ao mesmo tempo, além de se deixarem morrer ícones que faziam parte da nossa História e do nosso Património (ainda esta semana fechou mais uma loja clássica, a bicentenária “Tavares”, da Rua dos Fanqueiros…), tornou-se de tal forma prioritária a oferta turística que se negligenciaram as necessidades de quem vive e trabalha aqui. Lisboa é hoje uma cidade difícil para os lisboetas. Difícil na deslocação em transportes públicos, caótica no trânsito, cara na economia do dia-a-dia, escassa na possibilidade de habitar o centro da cidade. Em vez de servir os lisboetas, o poder local parece querer mandá-los para longe…

 

Quanto mais nos abrimos ao exterior, mais esquecemos quem já cá estava. Nessa medida, a qualidade de vida de Lisboa deteriora-se ano a ano, ao contrário do que faz crer o olhar distante e simpático da “Monocle”. Estamos a subir no ranking de quem nos visita - mas vamos a pique no coração de quem acorda todos os dias naquela que já foi, e cada vez menos é, a nossa “menina e moça”…

 

PS - Se calhar seria de esperar que escrevesse sobre o tema do dia, a passagem de Portugal à final do Euro 2016. Um orgulho para todos, sem dúvida. Mas eu não sou um especialista em futebol, sou apenas um espectador entusiasmado. E se passo a vida a criticar os “achistas” que enxameiam Portugal palpitando sobre tudo e todos, não quero ser mais um treinador de bancada a dizer o que me vem à cabeça. Só espero que domingo haja festa!

  

 

Para ler sem falta esta semana…

 

Uma matéria muito prática e objectiva sobre alguns dos “luxos europeus” que os britânicos vão perder em breve. Saiu há dias no suplemento Mercados do jornal El Mundo.

 

Sofre de ansiedade? E se trocasse essa palavra por outra, que lhe retirasse a carga negativa que sempre lhe associamos? Um pequeno video - posso chamar-lhe reportagem… - da revista The Atlantic, explica como e porquê.

 

… E por falar em ansiedade, eis o site da revista mais zen que circula por aí. O preço de venda ao público não é muito zen - mas o site dá uma ajuda a tornar a nossa vida mais tranquila em torno do que é simples, natural, humano. Vale a pena descobrir a Kinfolk.

 

 

publicado às 09:38

Uma ilusão a menos

Por: Pedro Rolo Duarte

 

Oito dias depois, passado o choque inicial, as cabeças arrefecem e os comentários sobre o resultado do referendo no Reino Unido vão mudando de tom. No começo, parecia uma maré alta em tempos de marés vivas - e a histeria atravessava os que defendiam o brexit tanto quanto os que julgavam essencial a permanência do país na União Europeia. O cataclismo foi garantido de ambos os lados.

 

Agora, a “vitória” começa a ser distribuída por toda a gente: os que defendiam a saída da União continuam satisfeitos com o resultado do referendo, mas perderam a pressa na saída; os que viam no abandono britânico o terramoto que iria matar a Europa unida começam a vislumbrar no triste resultado algumas oportunidades. Repensar a Europa. Refundar a Europa. Corrigir a Europa.

 

Para quem, como eu, chegou à maioridade quando o processo de adesão à (então) CEE começou - e atravessou os anos 80 e 90 assistindo ao milagre da multiplicação das auto-estradas, ao enriquecimento de meio-mundo, ao “desenvolvimento” traduzido em multibancos, vias verdes e centros comerciais, ao fim dos tormentos nas fronteiras e à chegada, impante, de uma nova moeda -, o momento que vivemos, qualquer que seja o desenlace, é igual ao sinal de trânsito que nos indica “estrada sem saída”. É o fim desse aparente paraíso em que os mesmos países que, menos de 50 anos antes, se confrontavam impiedosamente numa guerra insana e esmagadora, estavam agora juntos e estáveis à procura de um crescimento sustentável e de um ambiente próspero para os seus cidadãos, em democracia e liberdade.

 

Foi esta ideia que alimentou a minha adesão ao projecto europeu. Como se, por fim, olhássemos uns para os outros e percebêssemos que pertencíamos a uma mesma raiz, mesmo que com crescimentos e ideias diferentes.

 

Afinal, não é bem assim. Ainda há quem ache que há seres humanos de primeira e de segunda, ainda há quem queira defender o seu território com medo de “invasões bárbaras”, ainda há quem não tenha percebido que, num mundo globalizado, quanto mais nos fechamos,  mais ameaçados estaremos (como ainda há dois dias se viu em Istambul)…

 

O resultado do referendo no Reino Unido foi mais decepcionante do que se tivesse ocorrido, com igual resultado, em qualquer outro terreno europeu - justamente porque o país reclama para si uma democracia com História, e uma certa arrogância política e cultural. Que não se traduz na resposta à pergunta mais básica de todas. A que define o futuro, independentemente das contingências do presente.

 

 

Uma semana quente…

 

Depois do referendo britânico, vieram as eleições espanholas - com menos respostas do que as desejadas, e mais surpresas do que as esperadas. Seguia-as por aqui, com dinamismo e muita informação, apesar da colagem obvia ao PP…

 

… Mas ainda sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, a mais resumida e clara soma de consequências encontrei-a, online, no Financial Times

 

Menos de dois minutos: um excelente video produzido pela revista The Economist sobre a felicidade na Europa. Em semana de ressaca do brexit, vale a pena…

publicado às 08:38

O dia de todas as decisões

 Por: Pedro Rolo Duarte

 

Hoje é o dia. Hoje vamos saber se a Grã-Bretanha vai fazer desmoronar a União Europeia - ou se, não a desfazendo, a vai deixar ferida, enquanto o país recupera da explosão programada que criou no reino de vários reinos…

 

As sondagens foram variando ao longo do tempo, mas é evidente que todas mostram o mesmo cenário: uma profunda divisão interna, provocada por fenómenos tão díspares quanto a imigração e a moeda única, o terrorismo e a balança comercial. Neste quadro, o debate foi de tal forma confuso, que até a intenção de voto dos ingleses se foi dispersando ao longo do tempo.

 

Como português, e defensor da causa europeia, espero que o referendo mantenha o Reino Unido debaixo da bandeira azul estrelada. Mas não deixo de pensar nos paradoxos desta “união”, um mês depois de ter aterrado em Manchester, onde estuda o meu filho, e me ter voltado a confrontar com duas moedas, câmbios e taxas de juros nas operações bancárias. Na verdade, a Grã-Bretanha tem estado sempre com um pé dentro e outro fora do projecto europeu, numa fina mistura entre o “adepto” e o “sócio”. Sem colocar numa balança o que ganha e perde com esta postura, ela traduz uma eterna desconfiança em relação à UE, e uma ameaça permanente sobre a ideia fundadora desta União. Por outro lado, ao mesmo tempo, enquanto trocava euros por libras, não deixava de notar em placas como a que está pregada numa pequena ponte no MediaCityUK, uma renovada zona da cidade onde hoje funcionam, entre outras, a BBC: “This project has been part-financed by the European Community”...

 

… O melhor dos dois mundos, portanto. Não deixa de recorrer aos financiamentos possíveis na Europa, como não deixa de criticar políticas sociais que podem levar a um fluxo migratório indesejável neste momento. Duvida da União, mas beneficia por lhe pertencer, ainda que parcialmente.

 

O que daqui resulta, neste dia de referendo, é uma questão mais global e abrangente: saber até que ponto o Reino Unido, centro da democracia mundial, vai saber, com a palavras dos seus cidadãos, mostrar que permanece fiel às ideias humanistas que também orientam a União Europeia, mesmo quando falha nas suas intenções. E tem falhado bastante.

 

Porém, há que reconhecer a evidência: estaríamos hoje bem piores se não tivesse havido quem pensasse um projecto europeu. E não falo apenas dos países mais pobres. Falo também daqueles que, no equilíbrio possível entre economias diferentes, puderam crescer num espaço sem ameaças maiores nem abismos nas fronteiras. Nesta Europa cheia de imperfeições, todos ganhamos com a União - ao contrário da ideia feita segundo a qual os países mais pobres beneficiam mais do que os ricos… -, e até o dividido Reino Unido faz parte dos que têm mais a ganhar do que a perder. Mais logo saberemos se os britânicos pensam o mesmo…

 

 

Leituras boas da semana

 

Excelente o artigo de Nora Kelly na revista norte-americana The Atlantic sobre a relação entre Donald Trump e a televisão, e como pensa o putativo candidato resolver a questão…

 

José Milhazes é, indiscutivelmente, o português que melhor conhece a Russia e o que a rodeia. Num excelente artigo publicado há dias no jornal online Observador, explica com clareza as relações entre o país de Putin e os seus vizinhos - ou seja, nós, os europeus…

 

Aconteça o que acontecer com a nossa selecção no próximo sábado, o conselho serve: perdoar, esquecer, prolonga a vida. O artigo vem na insuspeita Time e serve para qualquer resultado: se sairmos vitoriosos, podemos perdoar os erros passados. Se perdermos, é mais saudável esquecer do que ficar a remoer e a culpar os Ronaldos desta vida…

 

publicado às 08:34

Eles estão a ganhar

 

Por: Pedro Rolo Duarte

Aqui há dias, em Lisboa, numa grande superfície comercial, estava numa sapataria quando se ouviu um estoiro, algo que parecia ser um tiro, fora da loja, mas perto de nós. Assisti a um momento único: num ápice, a loja ficou vazia, havia sapatos espalhados pelo chão, e olhando o corredor daquela ala, percebi que as dezenas de pessoas que andavam às compras se apressaram a procurar lugar seguro, ou pura e simplesmente sair para a rua. O estoiro terá sido de um infantil e ingénuo balão - mas a reacção da massa colectiva foi semelhante à de uma potente bomba…

 

Umas semanas antes, tendo passado por Manchester, testemunhei o alarido mediático de uma ameaça terrorista no estádio do Manchester United - que levou à evacuação do recinto e adiou o ultimo jogo da “Premiere League” -, e veio a verificar-se ser apenas uma “falsa bomba”, estupidamente esquecida pela empresa que, dias antes, tinha justamente testado o sistema anti-terrorista no estádio do clube inglês.

 

A estes dois casos, inocentes e sem fundamento, juntou-se esta semana a captura de um presumível terrorista que, dizem as autoridades, estaria a planear 15 atentados terroristas em França, durante o Euro 2016. Foi detido pelos serviços ucranianos de segurança, há algumas semanas, mas só agora a notícia foi revelada. O arsenal que estava na sua posse é de respeito: cinco armas-automáticas Kalashnikov, mais de 5.000 balas, dois lança-mísseis, 125 quilos de dinamite e 100 detonadores.

 

Os media aproveitaram a embalagem da notícia para exibirem as medidas de segurança já visíveis em França, junto aos estádios, mas também nas principais atracções turísticas de Paris, e nas cidades por onde vai passar o futebol. Até a nossa selecção tem protecção especial. São manifestações de força, de prevenção, e formas de passar ao cidadão comum uma ideia de segurança, de paz, sem a qual o Europeu de futebol não pode ser bem sucedido.

 

Porém, como cantou Sérgio Godinho, “Na vida real as aparências estão do outro lado do espelho” - e a verdade é que estes três episódios revelam uma outra face da realidade: o Ocidente receia o Estado Islâmico, o fundamentalismo, a loucura que não poupa nada nem ninguém, que não olha a meios para atingir fins - e que, acima de tudo, tem conseguido quase sempre surpreender nos momentos menos esperados, nos lugares mais improváveis.

 

Nessa medida, o mais provável é que o Campeonato Europeu de Futebol decorra com normalidade, sem ataques, sem ameaças, sem mácula. Mas o objectivo fundamental do terrorismo islâmico já está mais do que conseguido: incutir em todos nós a semente do medo, o culto de prevenção, e a tranquila aceitação de políticas violadoras da nossa privacidade, e da nossa liberdade de movimentos, em nome da segurança, em nome da paz.

 

É a mais perversa das vitórias: sem mexerem um dedo, eles conseguem que cedamos em tudo, em todas as frentes, e nos deixemos conduzir como marionetas, sem cérebro nem liberdade - mas com a quase absoluta certeza de chegarmos a casa vivos depois de cada jogo. Ao que chegámos.

 

 

Esta semana, ainda em tempo de Feira do Livro

 

Não tarda faz 25 anos, mas continua a ser a mais brilhante, viva, romântica e (estranhamente coincidente…) história da Bossa Nova, da MPB e do fascinante mundo da cultura que o Rio de Janeiro exportou para todo o Globo no século XX. Durante anos, era preciso comprar pela net ou pedir a algum amigo que a trouxesse do Brasil. Graças à editora Tinta da China, tem agora uma edição exclusiva para Portugal: “Chega de Saudades”, de Ruy Castro, chegou! E ele anda por aí, na cidade…

Espero que se siga o seu “dicionário” consequente: “Ela é Carioca”…

 

Parece (leio Isabel Lucas no Público…), que terá sido, segundo o escritor Paul Metcalf, “um dos segredos mais bem guardados da literatura americana”. Mas o segredo chegou este ano (traduzido) a Portugal. “Manual para Mulheres de Limpeza” é um genial livro de contos, de Lucia Berlin, e foi a mais forte descoberta literária que tive nos últimos anos. Fica a sugestão, e o link para o que Isabel Lucas escreveu.

 

Em português chama-se “O Curso do Amor” e, para não variar, mistura o romance com a filosofia, o testemunho pessoal com a reflexão mais profunda sobre o que nem sempre parece relevante. Mas é. Trata-se da última incursão de Alain de Botton pelo mundo das relações humanas, e uma voltinha pelo site do autor abre o apetite para o livro que, por ser edição recente, tem destaque na Feira do Livro. É escolha segura…

 

publicado às 11:00

Uns para os outros

 

Por: Pedro Rolo Duarte

 

Desde que José Cid, num programa de rádio onde o entrevistei, em conjunto com o João Gobern, disse (e não estava a brincar…) que, se tivesse nascido em Inglaterra, era mais popular e amado que Elton John, porque acha que o inglês, ao pé dele, é artista de segunda, percebi todo o universo de Cid. As letras das favas e do chouriço e das bananas, a pose, a atitude em palco, e acima de tudo uma série de parafusos a menos.

 

Entrou na prateleira dos inimputáveis - dizem o que lhes passa pela cabeça, em geral ninguém presta grande atenção. Faz companhia a figuras como Alberto João Jardim, para citar apenas o mais óbvio.

 

Não me surpreendeu, por isso, a polémica instalada esta semana - mas pelos vistos em cima de uma entrevista que deu há alguns anos… - entre ele os transmontanos. Como não me surpreendeu a resposta trauliteira nas redes sociais (a ele e ao desgraçado do Nuno Markl, apanhado de lado sem culpa alguma…), que pelos vistos estão cheias de pequenos José Cid’s. Pessoas que usam a impunidade do anonimato para destilarem a bílis e fazerem das caixas de comentários, como alguém disse, o esgoto da internet. Ou seja, pessoas que estão bem para o José Cid, e vice-versa.

 

Porém, convém não confundir a mensagem com o meio. Não acho que as caixas de comentários sejam, em si, canos de esgoto. São o reflexo das tensões, dos ódios, das frustrações, que todos temos - e tanto servem para intoxicar a rede como para a limpar, nos momentos mais doces (basta Portugal marcar um golo no europeu…). Cada um de nós usa-as de acordo com a sua formação, os medicamentos que toma, ou apenas o bom senso, ou falta dele, que possa ter. São uma praça publica sem filtro, sem regra, sem controlo. Não consigo criticar aquilo que constituiu, no começo, a mais-valia da internet: o caos que resulta da liberdade total. Claro que tudo tem um preço, e quando o caos se transforma em difamação, mentira, plágio, ameaça, já há leis gerais que se aplicam - mas a tentação de regular mais e apertar a malha é grande. Sinceramente: isto é o que me preocupa mesmo quando sucedem casos como o de José Cid. É que estes casos são pontas de cigarro acesas na floresta dos que querem controlar, regular, legislar, e no fim de tudo censurar, o que é publicado na rede.

 

A tentação é grande e todos já a sentimos na pele. Um exemplo pessoal: sou admirador confesso do humor do João Quadros e do Bruno Nogueira - mas quando ouvi na rádio as crónicas que assinaram, há uns anos, na sequência da morte e da cremação do jornalista Carlos Castro, fiquei chocado. Mexeu comigo. Foram longe demais em relação à minha sensibilidade. A reacção imediata foi clara: “isto não devia ter ido para o ar”. Mas passados uns minutos, caí em mim e perguntei-me: quem sou eu para dizer que não devia ir para o ar, se sou o mesmo que defendo que o humor não tem limites?

 

Vejo agora Bruno Nogueira defender Nuno Markl e gosto do que vejo. Mas na verdade não andamos muito longe uns dos outros. Seja o Cid, o Bruno, ou o anónimo trauliteiro. A lógica é a mesma e tem uma frase popular que a define: “quem vai à guerra, dá e leva”. O Cid insultou os transmontanos, levou que contar. À medida e da mesma forma rasca e ordinária que usou para os gozar. Como se costuma dizer nos pátios das escolas: estão pagos. Uns com os outros. O único risco é que parvoíces desta natureza possam servir para limitar a liberdade de todos e de cada um. E isso já não tem graça alguma.

 

Leituras obrigatórias esta semana:

 

Basta verem a assinatura da entrevista para perceberem quão suspeita é a minha sugestão - mas mais do que o trabalho em si, sublinho uma história de vida incomum, daquelas que dava um filme para Oscar e tudo. Não conto mais nada…

 

A arte da entrevista tem que se lhe diga. Em Portugal, desde há uns anos, a jornalista que melhor tem tratado este formato nobre do jornalismo é indiscutivelmente Anabela Mota Ribeiro, nas páginas do Público. Boa parte do seu trabalho está felizmente disponível no blog que criou, o que nos permite recuperar conversas extraordinárias, diálogos ricos e saborosos, e uma variedade de personalidades que nos alargam horizontes. É bom passear por ali...

 

Há notícias que, por serem recorrentes - atentados nos países árabes, por exemplo - nos escapam por entre os dedos da mão. Felizmente, analistas como o espanhol Alberto Priego, vê mais longe - ou como costumo dizer, “vê mosquitos na outra margem”. Aqui, nesta análise sobre um atentado, no Iraque, cometido durante a final da Liga dos Campeões, coloca em cima da mesa a relação entre o desporto, a diversão, o ócio, e o que pensam sobre isso os fundamentalistas árabes…

 

publicado às 14:07

Aqui mesmo ao lado

 

Por: Pedro Rolo Duarte

 

“Os canais e os meios mudam, mas o jornalismo continua a ser o mesmo: procurar a notícia, decidir da sua relevância, exercer o contraditório com rigor, contá-la bem e publicá-la com liberdade”. As 34 palavras que fecham o editorial de ontem do diário espanhol El País, assinalando os seus 40 anos de vida, resumem o que fez deste jornal um dos mais respeitados do mundo, um dos maiores do mercado latino, e um exemplo de adaptação ao mundo digital e à informação nos tempos da tecnologia.

 

Baluarte da democracia que a Espanha viria a adoptar nos anos 70, o El Pais nunca escondeu a sua proximidade aos socialistas do PSOE, mantendo a tradição de boa parte da imprensa europeia (que em Portugal, lamentavelmente, não existe), de não esconder, antes assumir, as suas inclinações políticas. No caso espanhol, o jornal está bem acompanhado pelo concorrente El Mundo, próximo do PP, outro excelente exemplo de jornalismo, porventura mais ousado e moderno, mas não menos sério na abordagem da informação.

 

Ambos os diários enfrentam com ousadia o desafio das novas tecnologias, numa interacção cada vez mais dinâmica entre as edições impressas e as plataformas digitais - há reportagens do El Pais que ganham uma vida própria, complementar, enriquecida, nos videos que os leitores podem depois ver na Web -, enquanto perseguem um estilo de jornalismo que não exclui a informação dita mais popular, nem foge das matérias mais polémicas.

 

Num editorial recente no El Mundo, a respeito de uma entrevista que o jornal decidiu publicar com um preso, condenado a 40 anos de prisão pelo assassinato dos seus dois filhos em 2011, o director David Jimenez escrevia: “O jornalismo não é uma viagem à Disneylândia, porque a vida também não é; ignorar o mal não o faz desaparecer. Contá-lo e tratar de o desvendar perante a opinião publica é uma causa não apenas legitima, mas necessária”.

 

É esta abertura a todas as frentes da notícia que contribuem para que possamos olhar para El Pais e El Mundo como materiais que no futuro farão História. E é essa realidade que nos falta em Portugal.

 

Há amigos que estranham o facto de ser comprador habitual do “Público” e do “Correio da Manhã” (CM), e eu explico sempre a mesma coisa: se ler apenas um deles, fico com uma imagem distorcida da realidade - no CM, Portugal vive em estado de sitio, entre violações, catanadas, mortos, roubos, corrupção e Sócrates; pelo contrário, no “Público” praticamente não há criminalidade, a televisão não tem lixo nem reality-shows, há descobertas cientificas fascinantes e as pessoas que realmente marcam a nossa vida têm o obituário que merecem (exemplo recente: a morte do fotógrafo Pedro Cláudio ocupou duas páginas no “Público”, e não mais de 20 linhas no “Correio da Manhã”. Era o “Público” que estava certo, claro). Ou seja: no cruzamento da leitura dos dois jornais acabo por ficar diariamente com uma ideia do mundo em que vivo. Mas não é natural que tenha de ler dois jornais distintos para chegar a uma aproximação da realidade. E talvez esta obtusa circunstância explique o sucesso do “CM” e o declínio inexorável do “Público”: o primeiro por força do seu jornalismo popular, o segundo pelo desinvestimento claro na edição em papel e consequente fragilidade da plataforma online. Mas também pelo preconceito que o levou a ignorar meses a fio o caso Barbara Guimarães/Manuel Maria Carrilho - ou, esta semana mesmo, a polémica biografia onde se acusa Emídio Rangel de ser “culpado” pelos presumíveis vícios da ex-mulher Margarida Marante (sem que o próprio se possa defender, sem factos, sem provas…).

 

O exemplo do El Pais e do El Mundo, aqui mesmo ao lado, deveriam inspirar e convocar os editores da nossa imprensa de referência. Mas não me parece que tal suceda. Este aniversário redondo do diário que nasceu para “ajudar” a democracia espanhola a caminhar, depois de gatinhar, prova que os 40 são mesmo os novos 30. Mas não para todos…

  

 

ESTA SEMANA NÃO PASSEI SEM…

 

Ir ao Museu da Electricidade ver a edição 2016 da World Press Photo, exposição que reúne 150 das melhores fotografias que o jornalismo nos deu no último ano. Realidades cruéis, aqui e ali apaixonantes, sofridas, sentidas, há de tudo, até mesmo um português premiado - curiosamente, foto-jornalista de uma agência nacional, mas que foi ao Senegal por conta própria, e de licença sem vencimento, para captar a imagem que acabou por ser premiada…

Quem não puder vir a Lisboa, tem a exposição toda na net, ao alcance de um clique.

 

A matéria já tem alguns dias, mas vale a pena recuperá-la. O premiado Chef Tom Colicchio escreveu na “Time” sobre o desperdício alimentar. E disse: “Quando eu descobri que a América desperdiça 40% da sua comida, fiquei chocado. Este é um país onde cerca de 50 milhões de pessoas não têm a certeza sobre como vão conseguir a sua refeição seguinte… Ainda assim, deitam fora milhões de toneladas de alimentos por ano”. E reflecte sobre este crime sem punição e paradoxo sem explicação…

 

Num tempo em que a imprensa diária vive mais online do que no papel impresso, não podemos considerar perder tempo dar uma vista de olhos regular pelos jornais que, em todo o Mundo, vão vivendo entre um mundo e o outro. Este portal é mesmo uma porta aberta, organizada por continentes e por línguas (português incluído), dos jornais de todo o Globo. Nem que seja por passeio, vale a pena navegar aqui…

 

publicado às 09:59

Mudar, o verbo que não muda

 

Por: Pedro Rolo Duarte

 

Tudo indica que amanhã, em Lisboa, vai voltar a viver-se o caos que há uns meses paralisou literalmente a cidade: os taxistas voltam à rua com uma concentração às 8 horas e, a partir das 9, uma marcha lenta até à Assembleia da República, onde querem ser recebidos por António Costa. Florêncio de Almeida, presidente da Antral, já anda por aí nos noticiários…

 

 

A guerra é a mesma dos últimos tempos: a chegada da Uber a Portugal, a exigência de suspender os serviços da operadora, “porque há duas ordens de tribunal que os proíbem de operar”, e a reivindicação (do meu ponto de vista, a única legitima) de legislar no sentido de não haver situações de privilégio no sector.

 

Parece-me que a maioria dos taxistas quer mais do que isso, quer mesmo a Uber fora do mercado. Mas também me parece que a maioria dos consumidores quer apenas alterar a lei, de forma a que nem a Uber se aproveite dos buracos legais para fazer concorrência desleal ao serviço de táxis, nem os taxistas vivam num regalo de monopólio que dá para tudo, do serviço mais manhoso a uma espécie de cartel dominado por meia-dúzia. Há seguramente fórmulas de fazer conviver os dois serviços - tanto mais que o da Uber é elogiado pelos seus clientes e poderia elevar a qualidade geral do serviço de transporte urbano de passageiros (no Brasil, mesmo com protestos, a chegada da Uber levou taxistas a oferecer jornais, bebidas e doces aos clientes…).

 

Esta guerra é mais um dos muitos abanões que todos levamos a toda a hora, “sinais dos tempos” que mudam sem pedir licença. Se a minha classe profissional reagisse como os taxistas, bloqueava a Internet, que acabou com o modelo de negócio tradicional dos media, deixando à deriva (nalguns casos, falidos) jornais, revistas, televisões, numa oferta de informação brutal, gratuita, e onde todos podemos dizer de nossa justiça, sem filtro, sem regra, sem lei. Felizmente, os profissionais (e gestores) dos media não reagiram à bruta - e, aos poucos, às escuras, apalpando literalmente o terreno, tentam reenquadrar-se no universo da informação e perceber onde podem ir buscar a receita que lhes permita cobrir o custo e ganhar algum.

 

Podemos alargar este caos na gestão e optimização dos negócios, provocado pela tecnologia, ao comércio online, à banca, até às telecomunicações - que, em teoria, seriam as primeiras beneficiárias da revolução, não se dessem os “fenómenos” do tipo “whatsapp” ou “messenger”…

 

Neste quadro, a guerra dos taxistas ganha maior notoriedade porque paralisa as cidades, gera violência, dá directos emocionantes na TV - mas, se pensarmos um pouco, é apenas mais um conflito entre a velha e a nova economia. Vivemos um período - tão difícil e duro, quanto fascinante - de mudança radical de paradigma. O ser humano é resistente à mudança, e neste caso sofre na pele os efeitos da mudança. Mas há um facto incontornável: se nos adaptámos e aderimos de alma e coração à comunicação virtual, às redes sociais, à televisão dominada pelo nosso comando individual, às compras online em escassas horas… Bom, não podemos ignorar o reverso da medalha, o outro lado da moeda. Ele passa por formas diferentes de encarar o trabalho, de gerir os negócios. E de acordar diariamente. Tudo muda quando menos esperamos, ou mesmo quando acreditamos que talvez tudo fique na mesma. Não fica.

  

Coisas que me deixaram a pensar esta semana:

 

Extraordinária, para não dizer surpreendente, a ideia da revista “Monocle”, que por si só é um conjunto mensal de boas ideias, revelações e descobertas: um guia para fazer um país. Leu bem: construir uma nação. Infra-estruturas, legislação, sugestões nas áreas essenciais, da educação à justiça. Assim nasce um “guia” da revista, agora à venda online e em algumas livrarias internacionais, para quem queira meter-se nesses trabalhos: construir uma nação que funcione. Não é difícil pensar a quem nos apetecia oferecer a obra…

 

Qualquer comum consumidor urbano reparou certamente que a gigante McDonalds tem procurado, nos últimos anos, acertar o passo com o crescimento da tendência para a alimentação saudável, biológica, ou pelo menos mais equilibrada. Não querendo perder a sua fatia num negócio onde também começaram a operar “players” cuja imagem de marca é a fast-food saudável, a empresa desenvolveu produtos nessa área, das saladas aos wraps, da fruta fresca à sopa. Um artigo na revista “Money” surpreende com a mais básica das ideias: as saladas e essa súbita preocupação com a saúde não fazem parte do ADN da McDonalds. Talvez seja pouco inteligente tentar fazer hambúrgueres e batatas fritas passarem por peixe grelhado. E isso não é necessariamente mau, ou seja, talvez a McDonalds pudesse continuar como sempre foi. Os seus clientes parece que não se importam…

 

A rapidez com que tudo se vive chega a este ponto: o Facebook, que até ontem ou há dois dias era o rei das redes sociais, sente-se ameaçado pelos seus concorrentes Snapchat, Instagram e WhatsApp, e decide avançar para uma aplicação semelhante ao Snapchat (rede onde se podem colocar fotos e videos que duram apenas o tempo real em que são vistas, e depois desaparecem…), mas mais sofisticada. A quebra de 21% de tráfego no Facebook, em 2015, entre os seus 1.600 milhões de perfis, preocupa a empresa… 

publicado às 11:24

Ao Bloco: e na selecção de futebol, só homens?

 

Por: Pedro Rolo Duarte

 

Pedia ao Sapo24 que fizesse o obséquio de enviar esta crónica, sob a forma de carta, ao Bloco de Esquerda, esse baluarte da liberdade, que incendiou Portugal com a ideia de mudar a designação do Cartão do Cidadão, por entender que o nome discrimina as Cidadãs. Ontem soube-se que o Governo de António Costa está aberto a debater a ideia e criar um novo nome para o cartão - é no que dão os acordos de conveniência… Urge, por isso, fazer chegar esta carta ao BE…

 

 

“Caro Bloco de Esquerda (e quem o apoiar):

Sensível à problemática do género, e aos problemas que a nomenclatura pode provocar nessa busca incessante por uma paridade total, e também eu defensor de direitos e deveres iguais para ambos os sexos - aliás, para todos os sexos… -, venho por este meio apelar ao poder que a Assembleia da Republica vos confere, e à influência que conseguem ter na agenda mediática nacional, no sentido de conseguirem impedir imediatamente, antes que seja tarde, a realização dos Jogos Olímpicos do Brasil e do Campeonato da Europa de Futebol de 2016. Não sei se uma petição é suficiente - talvez uma providência cautelar, apelo ao Tribunal dos Direitos do Homem, reuniões extraordinárias da ONU…

 

Na verdade, ambos os eventos são exemplos acabados de discriminação de género - que, de resto, se alargam a todo o mundo do desporto. Não se compreende, à luz do que os senhores passam os dias a escrutinar, que haja futebol feminino e masculino - em vez de, como coerentemente devem defender, equipas mistas em campo. O mesmo se aplica ao ténis, ao atletismo, ao basquetebol, ao andebol, enfim: a todos os desportos, praticamente sem excepção.

 

Como aceitar que se realize um Campeonato Europeu de Futebol, onde aliás Portugal vai estar presente, sem que haja no relvado uma única mulher? Nem um arbitro do sexo feminino! Às mulheres, neste evento, está reservado o papel menor de assistir aos jogos, de trabalhar em bares ou serviços de hospedeiras - e o Bloco de Esquerdas tolera esta clara discriminação?

 

É certo que há futebol feminino - mas já se deram ao trabalho de aferir os valores monetários em causa no que às mulheres diz respeito? Ou de compararem a relevância dada, em emissão, aos jogos que as televisões transmitem?

 

O que digo sobre o futebol ganha estatuto de escândalo quando entramos no universo dos Jogos Olímpicos. Começando pelos números gerais: teremos 161 provas apenas masculinas, 136 apenas femininas, e apenas 9 mistas. Como se admite? Aproximemo-nos de Portugal: segundo o site do Comitê Olímpico nacional, dos 64 atletas que vão ao Brasil, apenas 25 são mulheres.

 

E poderia seguir para bingo, falando dos valores envolvidos nas competições de ténis femininas e masculinas, acabando no automobilismo e na ausência de mulheres na Fórmula Um.

 

Caro Bloco de Esquerda: está na hora de agarrarem este tema fracturante e o trazerem para as primeiras páginas dos jornais e dos debates televisivos”.

 

Pronto. Esta seria a carta que eu enviaria ao Bloco de Esquerda neste momento extremo (para não dizer absurdo e ridículo…) a que chegámos no debate sobre a igualdade do “género”.

 

Liberal, respeitador, aberto a todas as escolhas - e obviamente defensor da paridade máxima entre todos os “géneros” -, não deixo de verificar que o excesso de zelo, neste caso, prejudica o debate. Torna ridícula uma discussão que é séria. Desvaloriza uma causa válida. E, no limite, atrasa um caminho sério e consistente que Portugal, apesar de conservador e machista na essência, tem vindo a fazer com sucesso. E isso é mesmo o que mais irrita.

 

 

 

COISAS QUE A SEMANA ME DEIXOU

 

No mundo da comunicação, toda a gente se interroga sobre os modelos de negócios que farão o jornalismo, a publicidade e o marketing de amanhã. Este video não é muito recente, mas deixa pistas sobre as quais vale a pena pensar…

 

Já houve um tempo em que ser jornalista estava entre as profissões mais prestigiadas do mercado de trabalho. Pelos vistos, esse tempo acabou - e se os jornalistas já sentiam isso na pele, agora são os inquiridos dos estudos de opinião que começam a mostrar que percebem o que se passa à sua volta. Esta semana houve notícias sobre o ranking de profissões “boas” e “más”

 

Na semana em que se assinala mais um aniversário sobre a revolução que nos devolveu a liberdade, em 25 de Abril de 1974, sugiro uma visita a estes arquivos que a RTP primorosamente tem vindo a organizar. Para uns, recordação. Para outros, novidade. Para muitos, um sorriso ou uma lágrima ao canto do olho. Irresistível…

 

publicado às 09:48

O fim

Por: Pedro Rolo Duarte

 

A semana não tem sido apenas de chuva - tem sido mais escura que cinzenta, mais triste do que a palavra Primavera anunciava. Parece que a jornalista Tereza Coelho tinha razão: quando mais se bate no fundo, mais ele desce.

 

Ponho ao mesmo nível os escândalos Volkswagen, BES, WikiLeaks, e agora o Panama Papers. Todos nascem do mesmo defeito de fabrico humano: a ambição desmedida. E todos resultam de um mesmo raciocínio: é só um bocadinho, sou só eu, ninguém vai dar por nada.

 

Quando se revelam, quando se abatem sobre o comum dos mortais, os casos têm um de dois efeitos: ou nos deixam a pensar que somos totós por não fazermos o mesmo; ou nos deixam de rastos por chegarmos a esta fase do desenvolvimento humano e vermos que, afinal, boa parte dos que nos rodeiam são selvagens e aldrabões sem principio nem fim.

 

Faço parte do segundo grupo, e dou comigo na absurda situação de estar a ver as notícias sobre o Panama Papers ao mesmo tempo que a operadora que me serve ameaça cortar o serviço porque me atrasei no pagamento de uns escassos euros. É a velha máxima dos bancários: quando deves cem euros ao banco, o problema é teu; quando deves um milhão, o problema é do banco. Acrescento: se não quiseres dever, aldraba, corrompe, foge, mente, e no fim, sorri.

 

Batemos no fundo da ética, da seriedade, e do crédito nos políticos, nos gestores, até mesmo nalguns dos heróis que elegemos no mundo do desporto ou da cultura. Parece que se desmorona a ideia de honestidade associada àqueles que admiramos, ou pelo menos respeitamos. Deixámos de estar apenas no domínio do financiamento partidário, ou das empresas sem escrúpulos, para descermos ao rés-do-chão da existência: ter muito e querer ter mais, a qualquer preço, sem olhar a meios; enganar o Estado e com a mesma desfaçatez enganar clientes, sócios, no limite famílias; viver como se não houvesse regras, leis, como se fosse válida a frase “sem rei nem roque”.

 

Sinceramente, não tenho grande interesse em saber como vai acabar tudo isto, se haverá processos e prisões, responsáveis e casos exemplares - porque o desânimo e o descrédito são mais fortes e mais pesados, derrotam princípios e deixam-nos com poucos argumentos para educar bem os nossos filhos.

 

Achamos que o terrorismo é condenável e julgamo-nos superiores porque dialogamos e vivemos em (suposta) democracia. Na verdade, a corrupção e os negócios sujos do mundo do dinheiro constituem a nossa forma de exercer terrorismo. São minas em terreno que dizemos limpo. Arrasam países como bombas. E também matam - quando o desespero de um desempregado chega ao suicídio, ou quando o dinheiro não chega para a renda e “em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”.

 

Cada cêntimo opaco que esteja nos milhões de documentos do Panama Papers foi roubado a um de nós. Ter esta consciência é essencial para entender a gravidade do caso - e para perceber onde chegámos. Chegámos ao fim da linha. Já não há fundo onde bater para que ele desça ainda mais.

 

Esta semana não passo sem:

 

Sobre o mega-caso “Panama papers”, todos os jornais, e não apenas o Expresso, que integra a equipa da investigação, têm tentado traduzir em miúdos o que parece, e é, de uma complexidade que escapa à maioria. Mas nada como ir à fonte e visitar o site do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação. Não é tempo perdido…

 

Estreia hoje entre nós “Verdade”, a obra de estreia na realização do argumentista James Vanderbilt - um filme sobre jornalismo, sobre a investigação no jornalismo, sobre a verdade e a mentira, que parece feito à medida para a semana que estamos a viver. Com a garantia das prestações de Cate Blanchett, Robert Redford e Dennis Quaid, o filme tem por base o livro "Truth and Duty: The Press, the President and the Privilege of Power", de Mary Mapes, a produtora envolvida no caso que ficou conhecido como “Rathergate” (foi protagonizado pelo jornalista Dan Rather, da CBS), conta a história deste escândalo à volta de uma investigação sobre George W. Bush ocorrida em 2004.

 

Os 40 anos da Constituição da Republica Portuguesa foram assinalados por todos os media nacionais - mas esta reportagem do “Público” leva, para mim, a taça das taças… 

publicado às 09:23

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