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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Se fosse atleta olímpico, preferia a medalha de prata ou a de bronze?

Por: Pedro Fonseca

Por vezes, menos é mais. É o caso dos medalhados olímpicos. As razões parecem simples, depois de se perceber porquê - razões que curiosamente podem ser aplicadas a outras actividades.

 

Os Jogos Olímpicos no Brasil antecipavam entregar 812 medalhas de ouro, outras tantas de prata e 864 de bronze. A previsão pode não ser fiável, devido aos empates que se têm sucedido.

 

Mas, se fosse um dos mais de 10 mil atletas presentes, e ficasse afastado do primeiro lugar, preferia receber a medalha de prata ou a do terceiro lugar?

 

A resposta não é fácil mas, por razões emocionais, os atletas que recebem a medalha de bronze aparentam ficar mais felizes do que aqueles que se posicionam em segundo lugar. O que motiva essa aparente felicidade? Porque o perdedor do primeiro lugar compara-se com quem o ganhou, enquanto quem fica em terceiro analisa a sua performance atlética perante quem não recebeu qualquer galardão.

 

E porque se fala de "aparente felicidade"? Porque a investigação científica que valida esta ideia baseia-se na análise de imagens, fotografias ou vídeos, dos medalhados nos pódios olímpicos.

 

Um dos estudos mais citados neste tipo de investigação, "When Less Is More: Counterfactual Thinking and Satisfaction Among Olympic Medalists", data de 1995 e analisou os atletas dos Jogos Olímpicos de 1992, em Barcelona (Espanha).

 

Victoria Medvec, Scott Madey e Thomas Gilovich, do departamento de psicologia das universidades de Cornell e de Toledo, declaram que não podem sugerir uma certeza de que ficar em segundo lugar "leva sempre a uma menor satisfação", até porque não estudaram a "duração dos efeitos" ao longo do tempo.

 

O trabalho destes investigadores incluiu três estudos diferentes, em que analisaram a cobertura televisiva dos Jogos, um outro de análise a entrevistas tidas após os resultados e um último em que entrevistaram os próprios atletas.

 

No primeiro caso, os participantes no estudo viram as imagens das reacções imediatamente após o fim das provas olímpicas dos segundo e terceiro lugares. Depois, fizeram o mesmo quando estes atletas subiram ao pódio para receberem as medalhas.

 

Esses participantes, que tinham de validar a "emoção expressa de cada atleta", foram 20 estudantes da universidade de Cornell, desinteressados e desinformados dos desportos, para evitar qualquer conhecimento prévio sobre os atletas.

 

As competições atléticas providenciam uma óptima precisão, uma "ordem linear" validada e objectiva (os empates são raros). Nesse ambiente, as "respostas emocionais" mostraram que os bronzes pareciam mais felizes do que os pratas.

 

Perante estes "pensamentos contrafactuais", como lhes chamam os investigadores (e que, de forma simples, significam o que as pessoas comparam dos seus triunfos com o que podiam ter atingido), é verdade que os vencedores da medalha de prata também estiveram perto de perderem para o bronze, "mas uma comparação social, para baixo", não é indicativa de "uma mudança de 'status'", porque nenhum venceu a prova "mas ambos ganharam medalhas". Além disso e por causa dessa situação, a comparação entre o terceiro e o quarto lugar é totalmente diferente.

 

Os medalhados com bronze "são susceptíveis de concentrarem os seus pensamentos contrafactuais para baixo", enquanto isso "não existe na comparação ascendente entre segundo e terceiro lugar". Por isso, nesta "assimetria na direcção da comparação contrafactual, a pessoa que está objectivamente pior (o medalhado com bronze) pode mesmo assim sentir-se mais recompensado do que a pessoa que é objectivamente melhor (o medalhista de prata)".

 

Em resumo, há casos em que "menos é mais"...

  

 

Ouro, prata, bronze, muito bom, bom e suficiente

O estudo de Medvec, Madey e Gilovich demonstra um outro tipo de análise social interessante para áreas onde a competência pessoal dos melhores lhes pode trazer dissabores emocionais quando ela é avaliada por entidades externas para a hierarquizar.

 

Na escola, um estudante que falha um "muito bom" e apenas recebe "bom" pode sentir-se menos gratificado do que um outro que consegue um habitual "suficiente". Ou "considere uma pessoa que acerta correctamente em todos menos num número da lotaria. Esse indivíduo perde o jackpot mas normalmente ganha um prémio" considerável, num valor que, "sem dúvida, fornece algum prazer, mas o conhecimento de saber que perdeu o jackpot surge de vez em quando e arruína momentos de outra forma felizes".

 

A discussão sobre esta abordagem não é nova. Em 1890, em "The Principles of Psychology", William James explicava o problema da auto-estima perante as pretensões e o sucesso: "assim, temos o paradoxo de um homem envergonhado até à morte porque é apenas o segundo pugilista ou o segundo remador no mundo. Ou seja, ser capaz de vencer toda a população do mundo menos um não é nada; ele comprometeu-se a si mesmo a ganhar a esse um e, enquanto o não fizer, nada mais conta".

 

As pretensões prévias à competição olímpica são também o que pode revelar algum desapontamento entre os medalhados de prata e de bronze, afirma um outro estudo, "Expectations and emotions of Olympic athletes".

 

Peter McGraw, Barbara Mellers e Philip Tetlock, das universidades do Colorado e da Califórnia, explicaram em 2004 que os medalhados de prata "são mais propensos a ficarem desapontados porque as suas expectativas pessoais são mais elevadas do que as dos medalhados de bronze".

 

O estudo partiu do "aspecto surpreendente" do trabalho de Medvec e dos outros investigadores ao afirmar que "as expectativas anteriores dos atletas não tinham efeito significativo nas suas emoções".

 

Ao re-examinarem esse estudo, usando técnicas semelhantes de visualização de resultados dos jogos de Barcelona mas para os atletas nos Jogos Olímpicos de 2000 (Sydney, na Austrália), os investigadores usaram 26 estudantes da Ohio State University igualmente desinteressados em desporto.

 

A visualização das imagens, classificadas em termos de sentimentos entre 1 (agonia) e 10 (felicidade), mostrou que os vencedores tinham uma média de 7,9, enquanto os medalhados com prata chegavam aos 6,6 e os de bronze aos 6,3. Os atletas sem acesso ao pódio ficavam numa média de 4,3.

 

Os autores introduziram uma outra variante de análise, explicando a diferença entre atletas. Um medalhado de prata que se aproximou da vitória e bateu por larga margem o terceiro no pódio terá sentimentos diferentes daquele que ficou longe do primeiro lugar mas próximo do medalhado de bronze. Ou seja, "a única maneira razoável de imaginar o medalhado de prata a fazer uma comparação para cima seria se tivesse expectativas prévias de ser medalha de ouro".

 

 

De volta às medalhas (e ao IRS)

Perante a emoção e o triunfo das medalhas, é bom recordar que elas são "recentes" nos Jogos Olímpicos.

 

Os Jogos Olímpicos remontam a 776 antes de Cristo e foram banidos durante séculos até Pierre de Coubertin os ter reinventado no século XIX, mas foi apenas nas competições de 1904, na cidade norte-americana de St. Louis, que surgiram as medalhas.

 

Até 14 de Agosto, Portugal já conquistou 24 medalhas olímpicas – 12 de bronze, oito de prata e quatro de ouro (a última foi o bronze da judoca Telma Monteiro nestes Jogos Olímpicos no Brasil).

 

Monteiro recebeu uma medalha pesada e diferente dos anteriores galardoados, e muito diferente das primeiras obtidas pelos portugueses nos Jogos Olímpicos de 1924 (Paris). "As medalhas dos Jogos Olímpicos do Rio são as maiores e mais pesadas da história", porque cada medalha tem um diâmetro de 85 milímetros e pesa meio quilo.

 

Cada medalha de ouro é, na realidade, pouco dourada e muito mais prateada. Ela é composta por 92,5% de prata, 6,16% de cobre e apenas 1,34% é realmente ouro. Mesmo assim, cada uma vale cerca de 600 dólares, segundo o Conselho Mundial de Ouro, sem ir a leilão, onde a importância do medalhado e a data do triunfo acrescentam valores à licitação.

 

Além das medalhas, um triunfo olímpico implica ainda outros ganhos para os desportistas portugueses. Segundo uma portaria de 2014, um campeão olímpico recebe 40 mil euros, enquanto um segundo lugar vale 25 mil euros e um terceiro classificado se fica pelos 17,5 mil euros.

 

Se existir um recorde olímpico ou do mundo, o desportista arrecada 15 mil euros. E, refere Abílio Rodrigues, da Faculdade de Direito da Universidade do Porto, pode nem sequer estar sujeito a IRS.

 

Como os olímpicos têm bolsas atribuídas pelo Comité Olímpico de Portugal para a sua preparação, pretende-se "que os atletas integrados nos programas de preparação de cada ciclo olímpico beneficiem de melhores condições que desejavelmente lhes possibilitem o alcance de resultados desportivos que dignifiquem o país, demonstrando assim a importância política e social assumida pelo Direito Fiscal".

 

Sabendo que há países que pagam muito mais aos seus medalhados e outros que cobram impostos por esses prémios, falta um estudo sobre o impacto não apenas emocional mas financeiro nos vencedores olímpicos das medalhas de ouro, prata e bronze.

publicado às 11:49

É mesmo a morte do VHS ou apenas uma notícia manifestamente exagerada?

Por: Pedro Fonseca

 

A última empresa japonesa a fabricar leitores de cassetes de vídeo anunciou que os vai deixar de produzir, mas a notícia não é radical porque o mesmo fabricante está a ter sucesso nos equipamentos combinados para discos DVD e cassetes VHS. E a morte anunciada do VHS já tem muitos anos...

 

 

A Funai Electric anunciou que vai deixar de fabricar a 30 de Julho os seus leitores de videocassetes de Video Home System (VHS), um formato que foi lançado há precisamente 40 anos. Mas a morte do VHS já tinha sido anunciada há vários anos e por variadas razões.

 

A empresa, citada pelo jornal Nikkei, afirma ter chegado a vendas de 15 milhões de unidades por ano, mas os números relativos ao ano passado não passaram das 750 mil unidades comercializadas - isto quando a competição com os formatos DVD e Blu-Ray começam igualmente a esmorecer.

 

Era a última empresa no Japão - e, segundo várias fontes, no mundo - a comercializar estes equipamentos (conhecidos em inglês por VCR, de "videocassette recorders "), sob a sua marca ou para empresas de electrónica de consumo como a Sanyo (da Panasonic), Sharp, Toshiba ou Denon.

 

Combinados ainda dão lucro

 

A Funai alegou a falta de componentes para interromper a produção destes equipamentos, que era feita na China. Porém, não se sabe se estes fabricantes chineses vão continuar a produzir os leitores de VHS, se resolverem a escassez de componentes. No entanto, a Funai pode não estar a abandonar o negócio dos VCR. No seu relatório anual, dos resultados financeiros até 31 de Março passado, a empresa alega que a venda de equipamentos audiovisuais "cresceu devido às boas vendas dos modelos Combo DVD/VCR".

 

Entre o ano fiscal de 2014 e de 2015, um outro documento interno mostra que a venda de leitores de DVD aumentou igualmente devido a esses "combos", modelos combinados de leitores de DVD e VCR, enquanto todos os outros decresceram - nomeadamente gravadores de DVD ou na gama Blu-Ray.

 

Da luta de formatos...

 

A Funai "recebeu um grande número de chamadas de proprietários japoneses de cassetes VHS desesperados, porque ainda não tinham transferido as suas recordações preciosas de casamentos e outro tipo de eventos especiais para outros formatos", disse um porta-voz de empresa.

 

A empresa fabricava estes equipamentos desde 1983, após ter perdido a guerra de formatos que então ocorreu, com a sua Compact Video Cassette (CVC) - uma proposta portátil, por ter uma fita magnética mais pequena - a não se impor perante o Betamax e o VHS, numa luta pela liderança que o último acabou por ganhar.

 

Um outro formato, o LaserDisc, nunca se conseguiu sequer apresentar como concorrente, apesar das suas melhores capacidades em termos de vídeo e som. Mas não permitia a gravação, ao contrário dos descendentes CD, DVD ou Blu-Ray.

 

Os leitores de Betamax no mercado doméstico foram descontinuados em 2002 (o formato diferente Betacam continuou a ser usado em usos profissionais nas produtoras de vídeo e televisões), até que em Novembro do ano passado a Sony parou com a sua produção destas cassetes no Japão.

 

A 27 de Outubro de 2008, foi a fabricante JVC (que tinha liderado o lançamento do VHS) a interromper o fabrico de leitores neste formato, quando o DVD se instalava como alternativa.

 

...à evolução tecnosocial

 

Os contributos para o fim da indústria analógica das cassetes de vídeo surgiram de várias frentes, das operadoras de televisão por cabo (com ofertas de canais de filmes) ou propostas como o Tivo e até a TV interactiva, em Portugal (pela então TV Cabo) e ainda pela pirataria de conteúdos proporcionada pela Internet.

 

Houve outras razões, mais desconfortáveis e mesmo egoístas, como a necessidade de o interessado num filme se deslocar a um videoclube para o alugar em cassete e, depois, efectuar uma nova deslocação para a devolver. A Netflix resolveu esse problema, mas evoluiu depois para o sistema de vídeo online.

 

As cassetes VHS continuam a circular, nomeadamente entre coleccionadores, com alguns a pagarem até 2.000 dólares por edições raras, tornando-as no vinil da gravação de vídeo analógico, como comparava a Mental Floss relativamente ao mercado paralelo e bem sucedido dos coleccionadores de discos de vinil.

 

Mas Tania Loeffler, analista da IHS Technology, considera que os VCR "não vão regressar como o vinil", devido à sua má qualidade de imagem.

 

"Diferente do vinil, onde realmente se tem uma melhoria da fidelidade sonora, o VHS tem uma mais baixa resolução do que o DVD, e o som nem sequer é comparável", nota igualmente Caetlin Benson-Allott, professora de estudos cinematográficos e de media na norte-americana Georgetown University, em entrevista à Slate.

 

Sinais precoces

 

 Sendo pragmáticos, a morte do VHS já estava anunciada há anos. A Funai apenas pode estar a colocar o último prego no caixão.

 

Em meados da década de 90, eram vendidos mais de 200 milhões de VCR por ano, apesar dos receios da pirataria pela indústria cinematográfica. O sucesso decorria igualmente por a JVC ter licenciado a tecnologia VHS a qualquer fabricante que pagasse pelos direitos de uso.

 

Em 2010, a Associação do Comércio Audiovisual de Portugal (ACAPOR) dizia que a cadeia de videoclubes Blockbuster "cai aos pés da pirataria provocando um dano incomensurável em todo o mercado videográfico", ao anunciar o fecho de lojas em território nacional, mas também porque, no início de 2009, a Blockbuster fechou centenas de lojas e outros videoclubes não aguentaram igualmente a evolução para uma nova geração de visualização de filmes.

 

Dessa época pode-se recuar até Agosto de 2005. "A ideia de que os videoclubes vão magicamente desaparecer por alguma razão é estranha", dizia Tom Adams, presidente da consultora Adams Media Research, ao New York Times. "É ainda a forma mais popular de ver filmes".

 

Mas a visão já estava errada, porque esse era o ano da erosão do VHS nos EUA, quando cadeias como a Circuit City e a Best Buy deixaram de vender VCR nos EUA, até porque 88% dos lares americanos já tinha um (percentagem que baixou para 58% em 2013), contabilizava a The Atlantic.

 

Os dados para os EUA eram inabaláveis: entre 2000 e 2004, a Consumer Electronics Association estimava que a venda de VCR tinha passado de 1,8 mil milhões de dólares para apenas 144 milhões, enquanto projectava a venda de apenas 2,8 milhões de unidades para 2015, perante os 23 milhões vendidos em 2000.

 

Na sua recente entrevista, Caetlin Benson-Allott mostrava-se mesmo surpreendida por ainda se fabricarem VCR, quando a JVC os parou de produzir em 2008 e, anos antes, quando as pessoas começaram a ver mais DVD do que cassetes VHS.

 

O impacto das consolas de jogos

 

Em 2002, pela primeira vez, as vendas dos leitores de DVD ultrapassaram as dos VCR. Para isso contribuiu, em muito, a venda de consolas de jogos com leitores incorporados de DVD. O primeiro caso ocorreu em 2000, quando a Sony lançou a PlayStation 2 (PS2) no Japão e, posteriormente, noutros mercados internacionais, tornando-se um sucesso de vendas. O DVD tornou-se a tecnologia mais rapidamente adoptada de sempre.

 

Em Fevereiro de 2004, a Viacom queria abandonar o negócio da Blockbuster Video, após resultados financeiros decepcionantes (e não encontrar comprador para o negócio do aluguer de vídeo, onde detinha mais de 80%). Nessa altura, o negócio de aluguer de vídeos que se tinha iniciado com uma loja em Dallas, em 1985, contava com 8.500 lojas e 48 milhões de assinantes.

 

A movimentação para o abandono ocorreu igualmente num dos maiores mercados de electrónica na Europa. A 22 de Novembro de 2004, o jornal britânico The Telegraph noticiou a "sentença de morte" do VHS, após a cadeia de venda de produtos de electrónica de consumo Dixons ter anunciado que ia deixar de vender VCR.

 

"Dizemos adeus a um dos mais importantes produtos na história da tecnologia de consumo", afirmava John Mewett, director de marketing da cadeia de venda de electrónica de consumo da Grã-Bretanha. "Estamos a entrar na idade do digital e a nova tecnologia do DVD representa uma mudança na qualidade de imagem e conveniência".

 

Em resposta a esse abandono, a JVC respondeu à Dixons afirmando haver "cerca de dois milhões de novas vendas de VCR", pelo que isso demonstrava existir procura pelos consumidores. JVC que, recorde-se, iria abandonar o mercado dos VCR quatro anos depois.

 

A procura era tanta que a agência noticiosa Reuters contava como, à época, os assaltantes de casas já nem sequer levavam os leitores de VHS "porque os novos custam tão pouco que ninguém quer um modelo em segunda mão".

 

Interesse no software para vendas de hardware

 

Os fabricantes de equipamentos electrónicos tendem a lançar novos produtos que possam captar a economia dos utilizadores - nem sempre pelas melhores razões para o consumidor. Um formato triunfador terá um espaço de tempo para se impor à concorrência, mesmo não sendo o melhor em termos técnicos. A luta entre o VHS e o Betamax é desde então um interessante "case study".

 

O lançamento há uma dúzia de anos de uma outra guerra de formatos, desta vez no mundo dos DVD - onde competiam cinco alternativas, nem sempre compatíveis entre si: DVD-R, DVD-RW, DVD+R, DVD+RW e DVD-RAM - mostraram como o consumidor estava a ser levado para formatos proprietários (software) que nada lhe trariam de bom, excepto estar sempre a adquirir novos equipamentos (hardware).

 

O modelo nem sequer é recente. De forma simplista, pense-se na compra das lâminas de barbear para um suporte de uma dada marca. Qualquer outra não irá funcionar nesse suporte. Onde está defendido o interesse do consumidor? O mesmo se passa com as plataformas de vídeo.

 

Caetlin Benson-Allott salienta que a longevidade das fitas magnéticas VHS é superior à de um DVD - 25 anos, para um uso médio, e cinco a 10 anos para um DVD-R, enquanto o VHS pode durar 50 anos, "se bem acondicionado".

 

Mas há uma outra questão quando os fabricantes terminam a produção de formatos e de equipamentos: "perdemos a história do cinema e da televisão de cada vez que se muda de formatos", diz. E lembra como as cassetes Betamax foram concebidas pela Sony para serem similares ao tamanho de um livro. "A visão original era a de ter uma biblioteca de cinema e televisão tal como se tinha uma querida biblioteca de livros".

 

Com a decisão da Funai, o utilizador não terá qualquer biblioteca física de vídeos VHS ou Betamax e do DVD só se poderá falar daqui a uns anos. Entretanto, perdeu muitos vídeos do cinema, da televisão ou pessoais.

publicado às 10:29

Há um algoritmo a analisar tatuagens. E isso pode tornar-se uma ameaça às liberdades

Por: Pedro Fonseca

 

Usadas para identificação pessoal, as tatuagens podem ser um perigo. Os Estados Unidos estão a ampliar um polémico programa de reconhecimento biométrico que arrancou com imagens tatuadas de presos, mas que já contempla também pessoas simplesmente mandadas parar na rua pela polícia. Para a Electronic Frontier Foundation, este programa pode representar uma ameaça à liberdade de expressão. 

 

 

A tatuagem "já foi uma das poucas formas de identificação de um indivíduo", explica o Ministério da Justiça no anúncio da exposição "Tatuagem", que vai estar no MUDE - Museu do Design, em Lisboa, entre Dezembro e 1 de Março de 2017, da responsabilidade do Instituto Nacional de Medicina Legal.

 

texto aborda ainda o lançamento do livro "Álbum de Tatuagens", da Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais, que relembra como, em 1915, "se inscreviam todas as tatuagens dos reclusos, com o intuito de fazer um correto reconhecimento do indivíduo e estudar o seu percurso de vida através da iconografia tatuada". No álbum, eram reproduzidas as imagens inscritas nos reclusos "mas também se registavam a respectiva localização no corpo" e dados do processo. "Muitos reclusos apenas sabiam identificar outros com quem tinham cometido crimes através das tatuagens que tinham ou pessoas com quem se tinham cruzado", pelo que surgiam alcunhas como o "Manuel das cruzes", provavelmente uma pessoa com várias cruzes tatuadas.

 

"Nos inúmeros desenhos de tatuagens encontram-se elementos como nomes de pessoas, barcos, aviões, peixes, armas, condecorações, elementos iconográficos que remetem para aspectos políticos, culturais e religiosos, entre outros". São precisamente estes aspectos que estão agora a ser motivo de polémica, por um programa semelhante, mas actualizado tecnologicamente e que recorre a algoritmos de identificação biométrica nos EUA.

 

Ameaça às liberdades

 

Há dois anos que o FBI norte-americano tem um programa para reconhecimento de tatuagens. Segundo revelou recentemente a Electronic Frontier Foundation (EFF), este programa levanta sérias questões sobre a Primeira Emenda da Constituição do país, relativa à liberdade de expressão. O programa de identificação tecnológica de "tattoos" foi lançado pelo National Institute of Standards and Technology (NIST) em 2014, usando uma base de dados  de 15 mil imagens, recolhidas pelo Biometric Center for Excellence do FBI a prisioneiros ou outras pessoas simplesmente mandadas parar na rua pela polícia, mas registadas sem o seu consentimento, critica a organização de defesa de direitos digitais.

 

As tatuagens "podem revelar quem somos, as nossas paixões, ideologias, crenças religiosas e até as nossas relações sociais", diz a EFF, salientando que é por tudo isso que os "algoritmos automatizados" ameaçam as liberdades civis.

 

Símbolos selectivos

 

As tatuagens podem representar "erros que fizemos na juventude", mas também serem "símbolos que representam a herança étnica ou o orgulho nas filiações, como as unidades militares, a pertença à igreja ou a ideologia política", assim como de "músicos ou filmes que nos encantaram" e o nascimento ou morte de familiares. Ou, até, serem sinais médicos que podem ajudar numa emergência. Em resumo, diz a EFF, as tatuagens "revelam onde estivemos, quem somos e quem esperamos ser".

 

Elas são uma forma selectiva e expressiva das pessoas demonstrarem as suas crenças pessoais e, para as forças de autoridade, de identificação "cultural, religiosa e política", segundo a EFF, apesar de assim poderem ajudar na identificação policial ou por videocâmaras de membros de "gangues, sub-culturas, crenças religiosas ou ritualísticas, ou ideologia política".

 

Para as autoridades, são "apenas identificadores biométricos". É nesse campo que se coloca o problema da liberdade de expressão, dado uma tatuagem ser algo inscrito "na nossa pele", pelo que a sua identificação automática levanta questões relativas à Primeira Emenda.

 

A tecnologia de reconhecimento dos "tattoos" permite efectuar "ligações entre pessoas com tatuagens temáticas similares ou fazer inferências sobre as pessoas a partir das suas tatuagens". O alerta da EFF surge no âmbito de uma campanha mais generalizada sobre o acesso das autoridades a tecnologias biométricas - como o reconhecimento facial ou da íris e as impressõs digitais.

 

Exploração privada

 

O programa "Tattoo Recognition Technology" tem três vertentes: Evaluation (Tatt-E), Best Practices (Tatt–BP) e Challenge (Tatt-C). Este último foi o responsável pelo registo das 15 mil imagens, recolhidas entre Setembro de 2014 e Maio de 2015, que "foi distribuído a 19 organizações - cinco instituições de investigação, seis universidades e oito empresas privadas".

 

Vários documentos mostram que o conjunto de dados "foi fornecido a partes terceiras com reduzidas restrições sobre quem pode aceder às imagens e durante quanto tempo elas serão mantidas", diz a EFF, salientando que algumas dessas imagens são de "partes íntimas dos corpos". A organização pretende que as cópias dessa base de imagens sejam devolvidas e destruídas.

 

A organização afirma ainda que as imagens do programa do NIST foram parar às mãos de empresas privadas como a MorphoTrak, "uma das maiores" no negócio da identificação pessoal biométrica, e sem "escrutínio ou validação ética" para a sua exploração. A MorphoTrak é a subsidiária norte-americana da Morpho, empresa da Safran (ex-Sagem Défense Sécurité), e está envolvida no reconhecimento de tatuagens desde 2009, em projectos de investigação com a Michigan State University (MSU) para "o desenvolvimento de identificação avançada e técnicas de análise para investigações criminais".

 

Falhas éticas

 

Para a organização de defesa de direitos civis, por outro lado, o programa de investigação do NIST "está tão cheio de problemas que a EFF acredita que a única solução para o governo é suspender o programa imediatamente", escrevia em Junho passado, nomeadamente por as imagens obtidas coercivamente a presos conterem "informação pessoal ou simbolismo religioso ou político".

 

 

Os investigadores do NIST "falharam" nos protocolos que deviam ser seguidos na investigação com humanos, ainda segundo a EFF, e apenas "pediram autorização dos supervisores após o primeiro maior conjunto de experiências estar completo", sem lhes revelarem a origem das tatuagens. Assim, o NIST e o FBI "tratam os prisioneiros como um fornecimento infindo de dados gratuitos".

 

O NIST assegura que a base de dados não se integra na regulação federal de investigação científica sobre humanos, mas reconhece que as "tatuagens fornecem informações valiosas sobre as filiações ou crenças de um indivíduo e podem suportar a verificação da sua identidade". Após as críticas da EFF, a instituição federal removeu referências públicas às tatuagens religiosas ou políticas.

 

O problema é que os investigadores ligados a instituições governamentais estão obrigados a um conjunto de regulações e princípios éticos, conhecido por Common Rule. Este foi "adoptado por mais de 15 agências federais, incluindo o NIST", refere a EFF, mas o projecto Tatt-C não seguiu essas regras, apesar de lidar com presos. Os investigadores envolvidos declararam não saber que isso era requerido, ainda segundo a organização.

 

O FBI ainda não comentou o assunto.

 

Mais 100 mil tatuagens

 

Este Verão, o NIST pretende activar a próxima fase do programa, o Tatt-E, com o registo de mais 100 mil imagens de "tattoos", provindos das autoridades nos estados da Florida, Michigan e Tennessee. O organismo federal está aparentemente a seguir os protocolos da Common Rule, nomeadamente nos pedidos de aprovação aos seus superiores, e salienta em documentos internos que a identificação pela tatuagem pode ser útil em casos de catástrofes ou de crimes.

 

Isso já sucedeu no Brasil, onde a identificação de uma jovem foi conseguida pela tatuagem que tinha num braço.Mas, como demonstra Oren Segal, director do Center on Extremism da Anti-Defamation League, estas imagens são problemáticas, porque os mesmos símbolos tatuados podem - além de estarem desactualizados perante devaneios juvenis - ter sentidos duais.

 

Por exemplo, a imagem dos martelos cruzados do grupo racista skinhead Hammerskins é também usada pelos fãs do álbum "The Wall", dos Pink Floyd. E mesmo a suástica nazi é um "símbolo sagrado e tem um significado espiritual para os nativos americanos, budistas e hindus".

 

Créditos/ Foto de destaque

Uma tatuagem feita por Dave Lum, um "tattoo artist" (Museu da Tatuagem de Amesterdão)

 

publicado às 19:35

Só existem sete histórias e seis emoções?

Por: Pedro Fonseca

 

A ficção foi reduzida à aritmética, mas isso não significa que tenha menor valor literário. Sobretudo quando se sabe que podem existir apenas sete modelos de narrativa de ficção e as emoções não ultrapassam as seis variantes. Da literatura ao cinema e à publicidade, os exemplos são muitos. Não acredita?

 

 

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Vemos filmes e lemos livros e, em muitos casos, dizemos: já vi ou li algo semelhante - mas não é possível estabelecer o porquê, em muitos desses casos. Mas "os avanços na capacidade de computação, processamento de linguagem natural e digitalização de texto tornam agora possível estudar a evolução de uma cultura através dos seus textos usando uma lente de 'big data'", ou análise de grandes quantidades de dados, explicam Andrew Reagan, Lewis Mitchell, Dilan Kiley, Christopher Danforth e Peter Dodds, no texto "The emotional arcs of stories are dominated by six basic shapes".

 

Os investigadores das universidades norte-americana de Vermont e da australiana de Adelaide referem que os "arcos emocionais" analisados a partir de 1.737 obras de ficção em inglês, disponibilizadas no repositório gratuito de livros Project Gutenberg, mostram um conjunto de "seis trajectórias nucleares que formam os blocos fundadores de narrativas complexas". Os investigadores detectaram que certos "arcos emocionais têm um maior sucesso, medido pelos 'downloads'". E alertam que tendemos "a preferir histórias que se encaixam em modelos que [nos] são familiares e a rejeitar narrativas que não se alinham com as nossas experiências".

 

Lembram a teoria da narrativa em três actos de Aristóteles (o conflito emerge no acto um, surgem pontos de viragem nos actos seguintes, para se encerrar com "a resolução final"), mas salientam que o lado emocional não segue esse modelo, embora "exista como parte dessa narrativa toda", através da identificação dos motivos na história. Os investigadores registam a existência de várias elaborações anteriores sobre "padrões básicos" das narrativas para terminar uma ficção. Em 1959, Foster-Harris defendeu a existência de apenas três, a partir de uma situação de conflito (final feliz, final infeliz e tragédia).

 

Há ainda o modelo das sete possíveis histórias/narrativas em que um indivíduo se confronta com ele próprio, com a natureza, com outro indivíduo, com o ambiente, com a tecnologia, com o sobrenatural ou com um poder mais elevado. Para Christopher Booker, no livro "The Seven Basic Plots: Why We Tell Stories" (2005), estas estruturas narrativas são igualmente sete (ganhar ao monstro, gozar com os ricos, a demanda/busca, a viagem, comédia, tragédia e o renascimento).  Na apresentação do seu livro, aponta-se que existe "apenas um pequeno número de 'narrativas básicas'", considerando exemplos desde os antigos mitos e histórias do folclore até às novelas da "grande literatura" ou filmes e telenovelas actuais.

 

Um outro autor, Ronald Tobias, considera que podem existir "20 Master Plots", incluindo a metamorfose, a ascensão ou a "descensão", e Georges Polti chega mesmo às 36, abordando variações como a rivalidade, o sacrifício por paixão ou os crimes de amor.

 

Porque é importante a emoção?

 

Numa análise a "Understanding The Seven Basic Plots", considera-se que este tipo de "aproximações reducionistas" apontam para uma "mensagem de que um escritor quase não terá esperança em criar um enredo original. Isso não é uma perspectiva particularmente útil para um escritor que está a tentar desenvolver uma nova e excitante ideia de história".

 

Contrapondo essa crítica à de "Dramatica: A Theory of Story", considera-se que esta última teoria "não limita as possibilidades" e podem mesmo existir mais de 32 mil variações de histórias. Mas este tipo de pensamento abre caminho para outros sectores o adaptarem à sua área de trabalho. Foi o caso da publicidade.

 

Num texto de Outubro de 2012, "7 Basic Types of Stories: Which One Is Your Brand Telling?", a revista do sector AdWeek questionava a originalidade dos criadores publicitários para afirmar que o "desafio" perante apenas sete formas de contar uma história passava por escolher a que melhor se ajustava à marca que estavam a vender.

 

Para cada um dos modelos narrativos de Booker, a revista escolheu vários exemplos:

1) ganhar ao monstro: Apple;

 

2) confronto com os ricos: Johnnie Walker;

 

3) demanda/busca: o filme "Senhor dos Anéis";

 

4) viagem e regresso: Corona;

 

5) comédia: Old Spice (apostou nesta estratégia há anos e lançou recentemente um novo vídeo);

 

6) renascimento: Gatorade;

 

7) tragédia: são casos difíceis e raramente a publicidade pode ser tentada a aproveitá-la, pelos resultados negativos que daí podem advir.

 

Para os investigadores que consideram existir seis "arcos emocionais", a sua existência "é importante para o sucesso" de uma narrativa mas também para o desenvolvimento de tecnologias emergentes e noutras abordagens geográficas. "Os arcos emocionais das histórias podem ser úteis para ajudar a desenvolver argumentos e a ensinar senso comum aos sistemas de inteligência artificial", dizem, para concluir que "de profundo interesse científico será o grau em que poderemos eventualmente perceber a paisagem completa das histórias humanas, e as aproximações geradas pelos dados terão um papel crucial".

 

Noutra direcção, e por analisarem apenas as obras em inglês, os investigadores abriram caminho a outros interessados para fazerem o mesmo nas suas línguas. "Será interessante ver como os arcos emocionais variam de acordo com a língua ou cultura, como têm variado ao longo do tempo e também como os livros factuais se comparam", sintetizava a revista Technology Review.

 

publicado às 10:10

Pode um deputado dizer m**** na Assembleia da República?

Por: Pedro Fonseca

 

Poder pode, mas não será transcrito para memória futura. Sucedeu com um deputado do PS em Maio passado, mas o termo em calão não foi escrito no Diário da Assembleia da República. Ao contrário do que ocorria no pós-25 de Abril. Uma pesquisa nos debates parlamentares em democracia mostra que a palavra foi usada sem ser censurada no pós-25 de Abril, mas de há 30 anos para cá passou a ser oficialmente omitida.

 

 

Eram 10 horas e 3 minutos quando se iniciou a reunião plenária no passado dia de 20 de Maio na Assembleia da República. A ordem de trabalhos para essa manhã incluía uma recomendação do PSD ao Governo para a adopção de medidas para promover "a dinamização e o crescimento do sector do turismo em Portugal", defendida pelo deputado social-democrata Paulo Neves.

 

No âmbito dos pedidos de esclarecimentos sobre a iniciativa parlamentar, Carlos Pereira, vice-presidente do grupo parlamentar do PS e presidente do PS-Madeira, foi o primeiro a tomar a palavra para dar "uma resposta natural, quanto mais não seja para os seus ex-colegas de Governo", focando-se não no turismo, mas nos "progressos notáveis na reposição dos equilíbrios macroeconómicos".

 

Os vários protestos do PSD levaram o deputado do PS a notar o "burburinho insuportável na bancada do PSD" acrescentando que era "impossível continuar a falar". O presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, pediu então "aos Srs. Deputados da bancada do PSD para interpelarem o orador de forma mais suave, para que ele possa continuar a falar".

 

Perante a situação, e "para salvaguarda da saúde dos Srs. Deputados do PSD, vou mudar de tema", declarou Carlos Pereira. "Não falo mais daquilo que é o delírio da vossa exposição de motivos", optando por passar ao turismo, o tal tema inscrito na agenda para esse dia.

 

É então que o deputado socialista comete um lapso linguístico. Diz ele, segundo o Diário da Assembleia da República (DAR), que o "o turismo tem um impacto significativo no desenvolvimento das regiões e os senhores desinvestiram significativamente nessa matéria e acabaram por ter uma ausência total de mecanismos de apoio às empresas de turismo, na sua maior parte microempresas, que, hoje, têm problemas significativos no que é a sua solvabilidade".

 

Na realidade, como foi revelado pelo jornal Público e pode ser comprovado em vídeo, o que ele diz é "o turismo tem um impacto significativo no desenvolvimento das regiões e os senhores desinvestiram significativamente nessa merda, nessa matéria", como emendou rapidamente. Para quem espera encontrar no DAR a transcrição fiel dos debates parlamentares, verá que no desse dia não vai encontrar o termo "merda" - apesar de o mesmo já constar dos dicionários.

 

Quando a linguagem não era politicamente correcta

 

Uma pesquisa sobre a mesma palavra nos debates parlamentares em democracia devolve vários resultados, pelo que a palavra foi usada sem ser censurada no DAR. Até há cerca de 30 anos. O último registo ocorre a 7 de Janeiro de 1983, quando o deputado do PSD Lemos Damião diz ser "pena que o Sr. Deputado Mário Tomé, em vez de se chamar Tomé, não tenha outro nome. Se se chamasse Lacerda, eu, que não tenho jeito, certamente teria facilidade em lhe fazer uns versos..." O então deputado da UDP, Mário Tomé, responde: "Se é para o mandar à merda, eu mando-o!".

 

Em 18 de Fevereiro de 1982, Francisco Sousa Tavares (deputado do PSD) insurgiu-se com o PCP, usando "do direito de defesa, uma vez que fui atacado pessoalmente, aliás como é costume", e salientava que os comunistas usavam "permanentemente uma linguagem de ofensa e de ataque pessoal inadmissível nesta Câmara". E prosseguia: "é muito mais ofensivo as expressões que usam e as indirectas do que mandar à merda uma pessoa. Isso não ofende ninguém, pois é uma expressão à antiga portuguesa de uma pessoa que está aborrecida".

 

No seguimento desta disputa, António Lopes Cardoso, líder da União da Esquerda para a Democracia Socialista (UEDS), questionou a mesa da AR sobre os "critérios", que deviam ser "objectivos da opinião pública. É o peso, pejorativo ou não, que em termos de opinião pública tem a linguagem usada que devem ser os critérios da Mesa e não a interpretação de que cada um se socorre, ou seja, se badameco é mais ou menos insultuoso do que anticomunista primário ou se mandar à merda é mais ou menos insultuoso do que dizer 'vá àquela parte'". Em resumo, não sabendo desses critérios de liderança parlamentar, "cada um de nós usará os seus critérios, e não sei onde é que chegaríamos", defendeu Lopes Cardoso.

 

A disputa verbal entre Sousa Tavares e o PCP não era nova. Antes, a 6 de Janeiro desse mesmo ano de 1982, o então deputado comunista Jerónimo de Sousa atirava ao deputado do PSD que "a sua voz grossa não me impressiona e, para o acalmar, devo dizer-lhe que sou capaz de falar mais grosso do que o senhor". Após os aplausos da bancada do PCP, Sousa Tavares responde: "Idiota!"

 

Após explicar o seu passado fabril e parlamentar, o actual secretário-geral do PCP mandou então calar o deputado do PSD, por "mandar 'bocas'" e "ofender esta Assembleia", ao que Sousa Tavares respondeu: "Olhe, vá à merda! Idiota! Mandrião! Vá trabalhar, que foi aquilo que nunca fez na vida! Calaceiro!". Sousa Tavares aparenta liderar o uso da palavra merda na Assembleia da República, qualquer que fosse a situação parlamentar. A 18 de Janeiro de 1980, na discussão final do Programa do Governo, questionava como "cada português trabalhador pagava 30 000$ para a 'merda' - desculpem-me a expressão - dos seguros sociais que nós temos".

 

Mas o primeiro, em democracia, a usá-la deve ter sido Américo Duarte, da UDP. Em Novembro de 1975, ficou registado no então Diário da Assembleia Constituinte que, "se há alguma coisa de inovador, é vermos um primeiro ministro mandar à merda dezenas e dezenas de milhares de trabalhadores". Referia-se a Pinheiro de Azevedo, primeiro-ministro do VI governo provisório (e último), que tomara posse em Setembro desse ano.

publicado às 10:48

Semana laboral de 35 horas? E porque não 33, 20 ou mesmo 15 horas?

Por: Pedro Fonseca

 

A redução do tempo de trabalho tem sido uma miragem. Com o aumento da produtividade tecnológica, era suposto o ser humano ter mais tempo de lazer. Isso não sucedeu e não vai acontecer a breve prazo. Em Portugal, os trabalhadores do sector público têm de volta, desde ontem, uma semana de 35 horas mas, no lado privado, é um assunto que nem vale a pena discutir. Porque não?

 

 

Os trabalhadores da Função Pública vão passar a ter um "período normal de trabalho" de 35 horas semanais, segundo o decreto-lei aprovado a 20 de Junho, promulgado pelo Presidente da República (com alerta para uma fiscalização sucessiva pelo Tribunal Constitucional, para evitar aumentos na despesa pública) e que entrou em vigor a 1 de Julho.

 

As despesas com pessoal "não podem exceder os montantes relativos à execução de 2015", excepto quando "razões excecionais fundadamente o justifiquem" e com autorização do Ministério das Finanças. As soluções departamentais serão negociadas entre os ministérios e os sindicatos do sector, diz ainda o decreto-lei.

 

No sector privado, as 35 horas são assunto tabu e a Confederação Empresarial de Portugal (CIP) revelou que nem sequer é tema a discutir. Porque não, sendo um assunto com tantos pontos de vista diferentes e alguns bem sustentados por empresários?

 

Por exemplo, em 1970, o consultor de gestão Riva Poor defendeu no livro "4 Days, 40 Hours" um maior horário laboral diário mas também um maior fim de semana, de três dias. Apesar da polémica, só algumas empresas e instituições públicas nos EUA adoptaram um modelo intermédio, libertando a tarde de sexta-feira.

 

Este tipo de semana laboral mais encurtada pode ter vantagens, como escrevia Andrew Simms, autor de "Cancel The Apocalypse: The New Path To Prosperity", em Fevereiro de 2013 no The Guardian. Simms salientava o ter-se mais tempo livre, menor poluição nos dias com reduzidas deslocações para o local de trabalho e recordava a decisão do governador Jon Huntsman do estado norte-americano do Utah que, em 2008, percebeu como podia poupar dinheiro ao encerrar cerca de 900 edifícios públicos, colocando 18 mil dos 25 mil funcionários a trabalhar apenas quatro dias por semana. Os serviços essencias - como a polícia - não foram abrangidos pela medida. "Em seis meses, as queixas caíram para zero", refere Rex Facer, da Brigham Young University, que defendeu e analisou a medida e os seus impactos.

 

Claro que, sem a sua remuneração ter sido afectada, oito em 10 dos trabalhadores afectados "gostou" da medida e dois terços considerou mesmo ser mais produtivo. A moral no trabalho aumentou e decresceu o absentismo, assim como as emissões de carbono. Aliás, um estudo do Centre for Economic and Policy Research apontou que a diminuição das horas de trabalho a nível mundial podia diminuir o aquecimento global para metade até 2100. O programa no Utah terminou em 2011, quando o presidente Obama nomeou Huntsman para embaixador na China.

  

E na Europa?

 

A maioria dos países europeus parece ter aversão a diminuir o tempo de trabalho, como revela a posição da portuguesa CIP, sem sequer a querer discutir. Um outro estudo, revelado em Maio passado e sobre trabalhadores de um lar de reformados em Svartedalens (Suécia), demonstra como um dia de trabalho de seis horas - sem cortes remuneratórios - é mais satisfatório, contribuindo para menos faltas ao trabalho, mais produtividade e melhor saúde dos trabalhadores.

 

O estudo, financiado pelo governo sueco (após ter abandonado um outro, que se desenvolveu entre 1989 a 2005 por falta de dados), comparou a produtividade das enfermeiras naquele estabelecimento com um outro lar e revelou que foram pedidas menos de metade de baixas médicas ou ausências no horário laboral do que no "grupo de controlo", segundo um dos investigadores, Bengt Lorentzon.

 

Na Holanda, o modelo seguido foi diferente e, segundo Simms, relativamente à década de 1990, os serviços públicos contrataram mais 80% de novos funcionários, sendo dos maiores apoiantes do trabalho parcial - um terço dos homens e 75% das mulheres adoptaram este modelo.

 

A Holanda é o país europeu com mais população a trabalhar a tempo parcial, segundo dados do Eurostat relativos a 2014. Enquanto a média europeia é de 8,7% para homens e 32% de mulheres, esse valor sobe neste país para 26,8% e 76,6%, respectivamente para homens e mulheres que trabalham menos de 36 horas por semana. Em Portugal, ambos os valores não ultrapassavam os 15% (a média masculina acompanhava a europeia, com as mulheres ligeiramente mais à frente).

 

No Reino Unido, com uma semana média de 48 horas no trabalho, a "mensagem" do ainda primeiro-ministro David Cameron "parece ser de que podemos todos esperar trabalhar mais e durante mais tempo, e muito provavelmente com um menor salário", referia Simms, notando a existência de horas de trabalho sem remuneração - "cinco milhões de trabalhadores dão o equivalente a um dia livre aos seus empregadores por semana", afirma.

 

A união Reino Unido-EUA

 

No mundo anglo-saxónico, quem parece trabalhar mais são os ricos e as mulheres com mais formação. No estudo "The rich best-educated revealed as 'super-working class'", de Abril de 2014, elaborado por Jonathan Gershuny e Kimberly Fisher da universidade inglesa de Oxford, eles notam que o trabalho pago em 16 países desenvolvidos - incluindo a Europa continental mas não Portugal - passou de 5h50 para as 6h10. "Os mais bem formados trabalham mais do que o faziam" na década de 1960, mas a explicação pode estar por os "seus empregos serem mais satisfatórios, emocionalmente e intelectualmente", nota Gershuny.

 

Na introdução ao trabalho, os autores lembram que o economista John Maynard Keynes defendeu em 1924, perante a "mudança tecnológica" que poderia garantir um crescimento na produtividade económica, um objectivo para uma semana de trabalho de "apenas 10 ou 12 horas" (tese que abandonou mais tarde). Nas décadas seguintes, "e por variadas razões", socialistas, liberais e conservadores olharam para a diminuição do tempo de trabalho como algo "natural" e "concomitante com o progresso económico", questionando-se igualmente o que fariam as pessoas com esse tempo livre.

 

Na realidade, Keynes antecipou que o progresso tecnológico levaria a uma semana de 15 horas de trabalho mas apenas em 2030, com o futurólogo Herman Kahn a seguir-lhe os passos e a antecipar nos anos de 1960 que os EUA haveriam de ter "um dia, 13 semanas de férias e uma semana de quatro dias de trabalho", como lembrava a Bloomberg.

 

Segundo a OCDE, os norte-americanos trabalham cerca de 38,6 horas por semana - sendo "uma nação de 'workaholics'", nas palavras de Pramila Rao, professora de gestão de recursos humanos da Marymount University. Mas o número de horas laborais pode ser maior: eles trabalham em média 47 horas por semana e um quinto chega mesmo às 59 horas semanais - com uma nota adicional: são os ricos ou aqueles em posições mais bem pagas (advogados, gestores, engenheiros, financeiros - homens, na sua maioria) quem trabalha durante mais tempo, refere a The Week.

 

O que dizem os ricos?

 

Neste assunto, todos têm as suas opiniões e, dependendo da idade, as suas convicções. Por exemplo, a ligação entre a duração do tempo de trabalho e a felicidade é muitas vezes colocada em contraponto. Um exemplo: num inquérito a 4.600 pessoas feito por investigadores da universidade canadiana de British Columbia, nota-se como as pessoas (principalmente aquelas com mais idade) tendem a preferir o tempo ao dinheiro, em termos de maior felicidade.

 

Por outro lado, há quem olhe para o modelo "tempo é dinheiro". O mexicano Carlos Slim, que já foi o homem mais rico do planeta devido aos seus negócios nas telecomunicações ou no sector mineiro, defendeu em 2014 uma semana de trabalho de uns três dias - não para ele mas para todos. "Deve-se ter mais tempo na vida para si próprio e não apenas quando se tem 65 anos e se é reformado", disse à CNN. A contrapartida era ter um horário laboral de 11 horas diárias e uma reforma a partir dos 75 anos, dando assim mais tempo aos trabalhadores para "o entretenimento, família e formação para melhores empregos".

 

A posição de Slim foi sustentada em Fevereiro passado por investigadores num documento publicado pela universidade australiana de Melbourne. Para os trabalhadores com mais de 40 anos, trabalhar cerca de 25 horas por semana é mais produtivo, em termos cognitivos. Apesar de não analisar as camadas etárias abaixo daquela idade, o estudo é "potencialmente significativo" se extrapolado para uma população mais envelhecida e que se reforma mais tarde.

 

O trabalho "Use It Too Much and Lose It? The Effect of Working Hours on Cognitive Ability", que avaliou trabalhadores da Austrália, não nota diferenças significativas entre homens e mulheres, sugerindo que os trabalhadores com mais idade "podem manter a sua capacidade cognitiva trabalhando a tempo parcial", cerca de 20 a 30 horas por semana (25 a 30 para homens e 22 a 27 para mulheres). Em resumo, dizem os investigadores, "demasiado trabalho pode ter efeitos adversos no funcionamento cognitivo".

 

Perante isto, convém perguntar: quem quer ter trabalhadores com "efeitos adversos no funcionamento cognitivo"?

 

publicado às 14:31

E se não formos seres originais mas sim uma simulação de computador?

Por: Pedro Fonseca

 

E se a nossa realidade não fosse mais do que um videojogo de que somos personagens? Uma Matrix? Quando uma das mentes mais brilhantes do nosso tempo vem dizer que acredita nessa possibilidade, a discussão está relançada. De Isaac Asimov a Elon Musk, dos filmes à física, a ideia de vivermos num universo virtual tem os seus apoiantes. Mas é uma ideia intelectualmente sustentável? Temos tecnodeuses capazes de alterar a realidade por um capricho?

 

 

Elon Musk, criador de várias empresas tecnológicas, acredita que o ser humano pode estar a viver num ambiente de videojogo, numa criação virtual que pouco se diferencia do que entendemos por realidade "real". Musk está entre as 70 pessoas mais ricas dos EUA, sendo fundador, CEO e CTO da SpaceX (colonização de Marte e viagens a alta velocidade no sistema Hyperloop), co-fundador, CEO e responsável de produto da Tesla Motors (carros eléctricos); co-fundador e presidente da SolarCity, co-presidente da OpenAI (desenvolvimento de inteligência artificial benéfica para a humanidade); co-fundador da Zip2 - comprada pela Compaq em 1999, numa operação que o tornou multimilionário e lhe permitiu lançar a empresa de pagamentos online PayPal, adquirida em 2002 pela eBay.

 

argumento de Musk é o de uma sociedade recente, olhando para os videojogos e outras tecnologias. Diz, para sustentar a sua posição: há 40 anos, tivemos o jogo Pong, mas actualmente "temos simulações foto-realistas, em 3D, com milhões de pessoas a jogar ao mesmo tempo, e está a ficar melhor a cada ano. Em breve, teremos a realidade virtual, a realidade aumentada". Perante estes avanços tecnológicos, e assumindo que a qualidade gráfica dos jogos se vai tornar indistinguível da realidade, e avançando para o futuro ("10 mil anos no futuro não é nada na escala da evolução" humana, diz Musk), porque não considerar este cenário? "Diga-me o que está errado neste argumento", questiona, "existe alguma falha nesta argumentação?"

 

O tema já foi retratado em filmes como "They Live", de John Carpenter em 1988, ou nos três episódios da série Matrix, dos irmãos Wachowski, lançados entre 1999 e 2003. Neles, o ser humano vive num cenário criado por entidades externas (ou extraterrestres), que o conduzem a uma existência de escravo laboral sem se dar conta disso. 

 

Segundo Kevin Kelly, "o primeiro a colocar no papel a ideia ultrajante de um computador de todo o universo foi o escritor de ficção científica Isaac Asimov. No seu pequeno conto "The Last Question", situado em 2061, "o ser humano cria um computador inteligente o suficiente para lançar novos computadores mais inteligentes". Em cada uma das fases de desenvolvimento, os seres humanos perguntam à máquina "se sabe como reverter a entropia". E, de cada vez, ela responde: "dados insuficientes para uma resposta significativa". E a "história termina quando as mentes humanas se fundem na mente do computador, que agrega toda a massa e energia do universo. Depois, o computador universal descobre como reverter a entropia e criar um universo".

 

Escravos das máquinas

 

 

Esse universo está criado e existem pelo menos 16 sinais de como somos "escravos da Matrix", exista ela ou não, segundo um artigo da Waking Times. Entre eles, contam-se o pagar impostos a pessoas que se querem ver na prisão, ir ao médico mas continuar doente, trabalhar muito para se receber pouco, assumir créditos para uma vida orientada para o consumo, viver para conversar com pessoas sobre o que se vê na televisão (com menor interesse local mas mais nacional, mais desporto ou outras "distrações sem sentido"), assumir que o governo torna a sociedade mais segura com mais armas, depender da sociedade farmacêutica para a gestão da vida mental ou da alimentação processada ("sinal de que a matrix o programou para dar menor valor à saúde e ao seu futuro do que à gratificação imediata").

 

Musk aparenta estar mais próximo de pensadores como Nick Bostrom, que em "Are You Living in a Computer Simulation?" apontava como hipótese que "quase de certeza vivemos numa simulação de computador", para demonstrar ser possível a crença de nos tornarmos "pós-humanos" com a "falsa" possibilidade de criar simulações de antepassados, "a menos que estejamos vivendo actualmente numa simulação".

 

Bostrom, professor da Oxford University, aponta a ficção científica e a crescente capacidade informática para sustentar as simulações futuras de que "nós" não seremos "seres biológicos originais" mas podemos ser "mentes simuladas". E "portanto, se nós não pensamos que estamos a viver actualmente numa simulação de computador, não temos direito a acreditar que vamos ter descendentes que irão executar muitas dessas simulações dos seus antepassados". Para Bostrom, há uma hipótese de um número reduzido de pessoas viver numa simulação (muito perto de apenas uma). Mas se isso for verdade, "então quase de certeza vivemos numa simulação".

 

Em Novembro de 2013, um artigo na revista Discover colocava a mesma questão: "vivemos na Matrix"? A resposta era dada de uma forma bastante explícita: "por fantasioso que possa parecer, alguns filósofos têm sustentado que estamos de facto mais provavelmente como inteligências artificiais presas num universo falso do que como mentes orgânicas" no mundo real. No entanto, "se isso fosse verdade, as próprias leis da física que nos permitem conceber tal tecnologia de verificação da realidade podem ter pouco a ver com as regras fundamentais que regem o meta-universo habitado pelos nossos simuladores. Para nós, esses programadores seriam deuses, capazes de mudar a realidade por um capricho".

 

Criacionista, evolucionista ou trans-humanista?

 

 

Elon Musk não parece caber nesse discurso, que até pode ser visto como um apoio ao criacionismo. Ou seja, se vivemos numa realidade virtual, alguém a teve de conceber, um criador universal ou, de forma mais fácil, um deus. Perante o evolucionismo do século XIX e a publicação do livro “A Origem das Espécies”, de Charles Darwin, o criacionismo aponta Deus como criador de todas as coisas. Em síntese, "será que a vida moderna na Terra evoluiu ao longo de milhões de anos ou foi criada num piscar de olhos por Deus?"

 

No livro "The Engineer - Follow Elon Musk on a journey from South Africa to Mars", o autor Erik Nordeus descreve como Musk é provavelmente pouco religioso e nunca rezou quando esteve quase a morrer devido à malária. Nordeus também nota que, quando questionado sobre a existência de uma "inteligência maior", Musk disse não acreditar, porque então teria de se questionar de "onde veio essa inteligência maior"?

 

Musk parece mais adepto dos trans-humanistas, "uma classe de filosofias de vida que procura a continuação e a aceleração da evolução da vida inteligente além das suas limitações de forma e das limitações humanas actuais através da ciência e da tecnologia, guiada por princípios e valores de promoção da vida". Num apanhado das suas ideias, explica que "não se vê alguém com 90 anos de idade e que seja super-rápido mas a sua visão é má. Todo o sistema está a ser desligado. Para mudar isso de forma séria, é preciso reprogramar a genética ou substituir todas as células do corpo".

 

Se há uma realidade virtual em que o ser humano existe, ao longo da sua vida, ela foi criada por alguém "num piscar de olhos" ou por uma evolução tecnológica? Há uma "metafísica da realidade virtual" em que vivemos?

Estamos mesmo numa realidade virtual? Uma resposta sobre a possibilidade de vivermos num universo virtual surgiu em 2001, quando se tentou calcular os recursos necessários para uma simulação desse tipo e o resultado pareceu "impossível".

 

Seth Lloyd, engenheiro de mecânica quântica no MIT, calculou o número de "operações em computador" que o "nosso universo realizou desde o Big Bang - basicamente, todos os eventos que já aconteceram. Repeti-los, e gerar uma cópia perfeita da realidade até ao último átomo, necessitaria de mais energia do que o universo tem". Seria preciso um computador "maior do que o universo", explicou Lloyd.

 

Quanto ao futuro, "podemos ser capazes de encaixar seres humanos nas nossas caixas de simulação dentro de um século", antecipa Silas Beane, físico nuclear da Universidade de Washington (Seattle).

 

A geração da realidade que conhecemos como simulação informática gera igualmente dúvidas sobre a qualidade tecnológica dos artefactos da mesma. Em 2007, John Barrow, da Cambridge University, apontou que uma "simulação de realidade imperfeita teria falhas detectáveis". De forma simplificada, seriam necessárias actualizações ao sistema operativo da realidade para ela continuar a funcionar sem problemas.

 

Já alguém fez "reset" à sua realidade?

publicado às 10:25

Rendimento mínimo: utopia ou existência decente para todos?

Por: Pedro Fonseca

 

A Suíça votou contra o "sonho marxista" - mas não de esquerda... - para ter um rendimento básico universal. Este prossegue a sua caminhada sem grandes apoios. Em Portugal, já foram conseguidas as assinaturas para levar o assunto à Assembleia da República.

 

 

A Suíça decidiu este domingo rejeitar em referendo o rendimento básico universal ou individual (RBI). Segundo os dados oficiais provisórios, quase 77% dos suíços rejeitou a proposta em referendo. Mais de 568 mil votantes disseram sim à iniciativa, enquanto quase 1,9 milhões optou pelo não. O referendo, que envolvia outros quatro temas diferentes, teve uma participação de 46,4%. Zurique foi o cantão com mais apoiantes da iniciativa, com mais de 110 mil votos pelo sim, perante mais de 330 mil pelo não.

 

Para os defensores da medida, os resultados são animadores: "uma pessoa em cinco votou a favor [do RBI], ou seja, podemos falar num sucesso", disse Sergio Rossi, professor de economia e membro do comité de apoio da iniciativa ao SwissInfo.

 

O tema é polémico e, segundo algumas sondagens anteriores ao referendo, 72% dos votantes suíços era contra a adopção do RBI proposta em Outubro de 2013 por uma petição assinada por 125 mil pessoas. Tanto o Conselho Federal como o Parlamento eram contra a iniciativa, por "fragilizar a economia suíça e o sistema de segurança social, dado ser possível que menos pessoas escolham trabalhar", com impacto no mercado laboral e num provável aumento de impostos para financiar a medida. Mas, mesmo que fosse aprovada, ela não seria aplicada de imediato, sendo antes remetida ao Parlamento para propostas de alteração à Constituição.

 

Num texto sobre "a genealogia de uma utopia", o jornal francês Le Monde explicava recentemente como o RBI era "uma ruptura completa com o dogma segundo o qual apenas o trabalho pode gerar um rendimento". Assim, trata-se de "dar a cada indivíduo, desde a sua nascença até à sua morte e qualquer que seja a sua actividade, um rendimento suficiente para satisfazer as suas necessidades elementares, tendo por objectivo erradicar a pobreza".

 

Na explicação do governo suíço, visava-se referendar uma alteração constitucional para permitir um rendimento básico a "todos os que vivem na Suíça, independentemente de quanto ganham ou dos bens que tenham". Sem quaisquer condições impostas para receber o RBI, "os autores da iniciativa acreditam que ela assegura uma existência decente para todos". Mas, segundo o governo, nem o valor mensal ou os meios para a financiar estavam estabelecidos, devendo o Parlamento suíço definir ambos no caso de aprovação no referendo.

 

Os críticos apontam a medida como um "sonho marxista", com todos - em teoria - a terem um mínimo decente de sustento para a sua vida.

 

Os apoiantes vêem o RBI como uma garantia de "vida digna", como muitas constituições defendem. No caso português, a Consituição afirma como uma das "tarefas fundamentais do Estado" a promoção do "bem-estar e a qualidade de vida do povo e a igualdade real entre os portugueses, bem como a efectivação dos direitos económicos, sociais, culturais e ambientais, mediante a transformação e modernização das estruturas económicas e sociais".

 

O RBI é igualmente tido como uma alternativa num mercado de trabalho que caminha a passos largos para a automação, com a robótica a ocupar diferentes cargos antes desempenhados pelos humanos. Não só se pretende atenuar o choque social que isto poderá gerar, como se alega que uma sociedade baseada na automação industrial, numa escassez demográfica e numa maior riqueza mundial (mal distribuída) poderá sustentar uma mudança de mentalidades.

 

 

O que é o RBI?

 

O RBI é "uma resposta para a próxima época de abundância material e desemprego tecnológico; uma mudança fundamental na atitude", permite "tipos de criatividade e de contribuição, incluindo o sector voluntário, sem exigir que os destinatários procurem emprego remunerado", bem como "remove" o estado da vigilância com "que trata todos os beneficiários de pagamentos pela comunidade como sendo suspeitos", nomeadamente pela obtenção ilegal de subsídios ou de fuga aos impostos, explicava o site Transpolitica.

 

O RBI tem problemas ainda sem resolução, como a sua aplicação a emigrantes temporários. A declaração suíça é clara: em caso de aprovação, o RBI só se iria aplicar a quem vive (legalmente) no país.

 

Apesar da teoria, a prática do RBI é complicada mas ganha cada vez mais adeptos que tentam limar os problemas da sua eventual aplicação e obviar a declarações como "se se paga a pessoas para não fazerem nada, elas não farão nada", na síntese de Charles Wyplosz, professor de economia do Geneva Graduate Institute.

 

Um estudo da Basic Income Earth Network (BIEN) considera que apenas 2% das pessoas iriam parar de trabalhar no caso de receberem o RBI (um outro inquérito a nível europeu aponta para 4%). Entrevistas a pouco mais de mil suíços revelaram que, mesmo entre os jovens, aqueles que iriam deixar de trabalhar eram casos de reduzida dimensão - apesar de um terço considerar que não eles mas os "outros irão parar de trabalhar".

 

67% acreditava que o RBI iria "libertar as pessoas dos seus medos existenciais", 54% iria continuar os estudos, 53% tenderia a passar mais tempo com a família, 40% ia dedicar-se ao voluntariado e 22% lançava um negócio pessoal.

 

Num inquérito telefónico a 10 mil pessoas nos 28 países europeus, a média de apoio a esta medida atingia os 64%, com a Espanha a liderar o apoio à medida com 71%, seguida da Itália com 69%. No inquérito, revelado em Maio passado, 64% votaria a favor num referendo sobre o RBI, com 24% a ser contra. Mas o inquérito "mostra uma correlação entre o nível de consciência sobre o RBI e o nível de apoio. Por outras palavras, quanto mais as pessoas sabem sobre a ideia, mais tendem a apoiá-la".

 

História de um rendimento não garantido

 

Segundo a BIEN, a origem do RBI remonta ao século XVI, mas, mais recentemente, teve vários defensores de peso e alguns trabalhos académicos. Dos não citados no histórico da BIEN, consta uma obra de 1967 de Martin Luther King, Jr., que escreveu - citado pela FiveThirtyEight - sobre como "a solução para a pobreza é aboli-la directamente por uma medida agora bastante discutida: o rendimento garantido". Dois anos depois, em "The Macroeconomics of a Negative Income Tax" (NIT), Hyman Minsky concluía tratar-se de um "instrumento complexo, e o seu uso pode levar a efeitos colaterais não intencionais e indesejáveis".

 

Entre 1968 e 1980, os EUA testaram o NIT nalgumas (poucas) cidades mas o suficiente para Karl Widerquist, da Georgetown University-Qatar, considerar que foram um "falhanço político", sem se conseguir responder ao impacto no mercado de trabalho: "não mais de 5 a 7%" entre os subsidiados primários e "um pouco mais" nos secundários desistiram do emprego. Mas, segundo Widerquist, não se generalizou o abandono laboral e os que reduziram as horas no trabalho procuraram outros objectivos, incluindo estudar.

 

Desde os anos 80 do século passado, com Ronald Reagan nos EUA e Margaret Thatcher no Reino Unido, ocorreu uma diminuição do Estado social e quaisquer ideias sobre o RBI foram arrumadas. Até que começou a ressurgir em diferentes locais.

 

A Finlândia foi a primeira nação a propor formalmente um RBI. Seguiu-se a Suíça com a proposta de referendo sobre o assunto, a província canadiana do Ontário e, em Março passado, a Nova Zelândia. Também a Itália, através do movimento 5 Stelle, assim como Portugal, onde o movimento Rendimento Básico foi criado em Março de 2013 e é associado da BIEN.

 

Em França, prevê-se um "livro branco" sobre o assunto, a tempo das eleições presidenciais de 2017, quando foi naquele país, em 1985, que surgiu a Association pour l’instauration d’un revenu d’existence (AIRE) e, um dos seus fundadores (Yoland Bresson), criou a BIEN no ano seguinte, com o holandês Philippe Van Parijs.

 

Segundo o Le Monde, a ideia do RBI situa-se na "tradição comunista" de que, para quem participa na criação da riqueza comum, esta deve ser partilhada entre todos, consoante as suas necessidades, bem como na "tradição liberal" de que todos devem partir de uma mesma base, independentemente do berço onde nasceram. O jornal francês lembra que, por exemplo, foi este movimento que esteve na origem do rendimento mínimo de inserção (criado em 1988 e adaptado para Portugal em 2003 como Rendimento Social de Inserção).

 

Quando ao RBI, recorda igualmente que seria um meio de recusar empregos mal pagos (os " bullshit jobs", na expressão do antropólogo David Graeber). Mas a confusão ideológica sobre o RBI é enorme. Por exemplo, ainda segundo o diário francês, alguma da oposição ao RBI surge de ideólogos da esquerda, porque consideram tratar-se "na realidade de desmantelar a Segurança Social. Uma inesperada oferta aos patrões, em resumo". Mas, explica Van Parijs, o RBI iria aumentar o poder de negociação dos que recebem menos no mercado de trabalho e forçar "as empresas a melhorarem os salários ou as condições de trabalho dos empregos menos atractivos".

 

 

"Follow the money"

 

Uma das questões principais neste debate sobre o RBI é precisamente o dinheiro. Segundo o economista Samuel Bendahan, "é o problema com o conceito. Pode ser entendido como um rendimento de existência ou como um complemento de salário". No primeiro caso, o trabalhador tem armas para "não depender do trabalho e, assim, do patronato", equilibrando "as relações de força" ou incentivando-se a iniciativa pessoal.

 

Para outros, o RBI substitui todas as ajudas sociais e, logicamente, a intervenção do Estado na vida pessoal. Com um menor grupo de funcionários públicos, a segurança social passaria a ser assegurada pela escolha individual em entidades privadas. Da mesma forma, seria desnecessário um ordenado mínimo, fragilizando as posições sindicais.

 

Em resumo, com um RBI baixo, devido aos constrangimentos orçamentais, "se não se acabam com as outras ajudas, onde encontrar o dinheiro para dar 800 euros por mês a cada cidadão? É impossível", afirma Bendehan.

 

Na Finlândia, o instituto de segurança social Kela divulgou no final de Março um relatório preliminar sobre o RBI, onde aponta diferentes modelos. A versão final será apresentada em Novembro, com uma maior explicitação dos diferentes modelos, a tempo da adopção do modelo experimental a vigorar no período 2017-18, com a avaliação de resultados calendarizada para 2019.

 

Segundo o Kela, a experiência do RBI "é um dos passos a tomar para alinhar o sistema de segurança social finlandês com as mudanças na natureza do trabalho, para tornar o sistema mais participativo e reforçar os incentivos ao trabalho, para reduzir a burocracia e simplificar o agora complicado sistema de benefícios de uma forma que garanta a sustentabilidade das finanças públicas". Até porque, como diz a instituição, se um RBI incondicional substituir "o existente sistema de provisão social", ele terá de ser "substancial" e, por isso, dispendioso.

 

A instituição parece defender mais um modelo parcial, por consolidar benefícios actuais, propondo experiências ao nível nacional mas também regional. O Kela nota que, por exemplo, para os pais solteiros a pagarem rendas elevadas em Helsínquia, um re-ajustamento com o RBI poderia "aumentar a pobreza e criar mais dificuldades financeiras".

 

Mas talvez uma das respostas mais eficazes sobre o RBI surja não de países ocidentais mas do Quénia. Michael Faye, co-fundador e responsável pela organização não-governamental Give Directly, anunciou que esta vai lançar um projecto para dar um rendimento básico a 6.000 pobres nos próximos 10 a 15 anos. "Para ser honesto, um RBI a longo prazo nunca foi testado, muito menos rigorosamente avaliado", diz, nomeadamente considerando quatro princípios essenciais: ser universal, aleatório, a longo prazo e suficiente para se viver.

 

E em Portugal?

 

O RBI também tem apoiantes em Portugal. O Pessoas-Animais-Natureza (PAN) quer um grupo de trabalho na Assembleia da República para estudar a criação do RBI.

 

No site do Rendimento Básico, entende-se que "a quantia deve ser suficiente para garantir condições de vida decentes, que estejam de acordo com os padrões sociais e culturais do país", devendo "estar ao nível de risco de pobreza de acordo com os padrões europeus, o que corresponde a 60% do denominado rendimento mediano por adulto equivalente no país".

 

Algo semelhante é dito numa petição e que já obteve a assinatura de mais de 5.000 pessoas.

 

Na linha de oposição ao RBI por parte de ideólogos da esquerda, Francisco Louçã é um bom exemplo. No blogue Tudo Menos Economia (jornal Público), argumentava em Março de 2015 que o RBI "é estranhamente injusto, porque paga o mesmo ao pobre e ao rico, e é mal fundamentado, porque não propõe qualquer forma consistente de pagar a conta".

 

Por exemplo, "se o subsídio de desemprego é substituído pelo RBI, então alguns dos desempregados vão perder uma parte do seu rendimento (porque o subsídio ainda toma em consideração o valor dos salários sobre os quais se faziam os descontos e pode ser superior ao RBI)".

 

Calculando um RBI em Portugal de 420 euros - verba inferior ao salário mínimo -, "alguns dos desempregados deixariam imediatamente de poder pagar as despesas que têm, na compra da casa ou na educação dos filhos, ficando sem tempo de readaptação, porque o RBI seria inferior ao subsídio a que teriam direito. Nestes casos, o RBI não combate a pobreza, contribui para ela". Nesse sentido, "se é só para combater a pobreza, então a escolha mais lógica é uma política condicionada à redução da pobreza".

 

Considerando que "o RBI é uma obrigação contraída em nome do Orçamento de Estado (é o Estado que paga)", Louçã diz existirem "formas interessantes de financiamento de políticas sociais. Para dar exemplos com que concordo: o imposto sobre as grandes fortunas, a tributação das heranças, a taxação das mais valias urbanísticas, taxas sobre indústrias extractivas e outros impostos verdes, o fim de isenções e benefícios injustificados, a redução da evasão fiscal, tudo isso assegura receitas fiscais e melhora a justiça dos impostos".

 

No entanto, "o melhor resultado" dessas tributações "nem de longe nem de perto se aproxima do valor necessário para pagar o RBI. Mesmo que aumentassem espectacularmente a receita fiscal, não bastaria".

 

Louçã faz as contas: "Em 2013, a população de Portugal era de 10.562.178 almas. A receberem todos 420 euros por mês, 14 meses no ano, o custo da medida é de aproximadamente 61.700 milhões de euros. Noto desde já que este valor é muito reduzido para cada pessoa, abaixo do salário mínimo nacional, e dificilmente pode ser defendido como garantindo uma 'vida digna', precisamente porque corresponde ao limiar de pobreza. Compararei por isso os resultados com os de outros dois valores para o RBI (700 euros, um pouco abaixo do salário médio em Portugal, e 1.000 euros, um pouco acima). Nestes casos, o custo directo da medida seria de 103 mil milhões e de 147 mil milhões de euros por ano, respectivamente".

 

Mesmo tendo em atenção que o Estado deixaria de pagar algumas subvenções que Louçã calcula em 9.500 milhões de euros ("1.700 em acção social, 2.000 em subsídio de desemprego, 391 em subsídio de doença, 639 em abono de família, 200 em CSI, 300 em RSI, 3.500 em pensões de sobrevivência e invalidez, etc.)", com uma receita fiscal calculada em 38.874 milhões de euros em 2015, "é preciso conseguir mais cerca de 50 mil milhões para pagar o novo compromisso do RBI a 420 euros por pessoa. Para isso, é forçoso mais do [que] duplicar a cobrança de impostos, que teria que passar de 22% do PIB para 53% (no caso de RBI a 700 euros os impostos teriam que passar a ser 76% do PIB, ou seja, teriam que quadruplicar, e no caso do RBI a 1.000 euros o Estado teria que cobrar em impostos 102% do PIB, o que é evidentemente ilógico e impossível)".

 

Segundo este professor universitário, para se pagar o RBI, "a maior parte das pessoas tem de pagar muito mais impostos" e isto "conduziria a um Estado cobrador como jamais alguém o imaginou".

 

Para já, a Suíça evitou este cenário.

publicado às 18:21

As melhores cidades para quem não vai de férias sem internet

Por : Pedro Fonseca

 

Há um site que indexa diferentes localidades com mais potencial para quem gosta de viajar e trabalhar com uma boa ligação à Internet. Mas as propostas também passam por outros factores, como a temperatura ou a verba mensal necessária para viver nesses locais. As primeiras cidades portuguesas da lista são uma surpresa.

 

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Braga, Aveiro e Funchal são as melhores cidades em Portugal para os turistas que pretendem ter um bom acesso à Internet, um bom clima e não querem gastar muito. Só depois surgem Lisboa, Porto e Coimbra. Os dados constam da Nomad List, um índice actualizado regularmente e que analisa vários parâmetros para cada uma das 633 cidades registadas no final de Maio.

 

Na 24ª posição, Braga tem uma temperatura média de 17° centígrados, um acesso à Internet de 30 megabits por segundo (Mbps) e um orçamento mensal necessário de 1.077 euros. Em 31º, Aveiro tem a mesma velocidade de acesso à Internet, para uma necessidade orçamental de 1.811 euros por mês, enquanto o Funchal se fica pela 52º posição, também com um acesso a 30 Mbps mas um custo mais acessível de 1.416 euros.

 

Seis posições depois, surge Lisboa, com um custo mensal de 1.578 euros mas acesso à Internet a 40 Mbps, a mesma velocidade que oferece o Porto (classificado em 84º), com um valor mensal de 1.563 euros. Por fim, nas cidades portuguesas, surge Coimbra na 119ª posição, com um valor mensal de 1.818 euros e um débito de 30 Mbps.

 

No total, as cidades portuguesas nem sequer estão mal classificadas, comparadas com outras como Madrid (182ª posição), Bruxelas (341ª), Barcelona (376ª), Paris (389ª) ou Amesterdão, que surge no 437º lugar. No entanto, estas cidades acabam por ser penalizadas pelas necessidades financeiras mais elevadas do que as cidades de Portugal.

 

O mesmo sucede com Maputo, em Moçambique, que ocupa a 597ª posição, com um custo mensal de 2.478 euros e uma rede de acesso à Internet a apenas 2 Mbps, ou a capital angolana Luanda (608ª), com uma necessidade de orçamento mensal de 3.697 euros e um acesso a 5 Mbps.

 

No topo da Nomad List estão cidades da Tailândia, com velocidades de acesso entre os 15 e os 40 Mbps mas custos mais acessíveis. A lista é liderada por Banguecoque (1.268 euros mensais), seguindo-se Ko Samui (818 euros), Ko Lanta (730 euros) e a ilha de Phuket (899 euros).

 

Na quinta posição, surge Las Palmas, nas ilhas Canárias (Espanha), com um valor mensal de 1.385 euros, regressando-se depois à Tailândia com Chiang Mai, por um valor mensal de 851 euros e acesso à Internet a 20 Mbps. Curiosamente, quando a Nomad List foi lançada há dois anos, era a localidade líder, segundo a Slate France. Em sétimo lugar surge Budapeste, com um custo por mês de 1.316 euros e, depois, a primeira cidade norte-americana, Austin (no Texas), com um valor mensal necessário de 2.322 euros e acesso à Internet a 80 Mbps.

 

Esta velocidade no acesso só é ultrapassada por Timisoara, na Roménia, com 90 Mbps, Hong Kong (95 Mbps), Bucareste (100 Mbps), as sul-coreanas ilha de Jeju e a capital Seul (ambas com 100 Mbps), e as norte-americanas Chattanooga (110 Mbps), Kansas City (150 Mbps) e a líder Provo, com uma velocidade registada de 165 Mbps.

 

Parâmetros em análise

 

O site emite ainda algumas comparações com a cidade de onde se está a aceder. Por exemplo, é dito que Provo "é 2% pior do que Lisboa para viver e trabalhar para os nómadas digitais", embora não se justifique porquê. Para hierarquizar as cidades mais apetecíveis para os viajantes, a Nomad List não usa só aspectos como a velocidade de acesso à Internet, a temperatura local ou o valor mensal necessário para ali viver.

 

Há outros parâmetros como o divertimento, a vida nocturna, Wi-Fi gratuito, locais para trabalhar ("coworking"), ar condicionado ou aquecimento, qualidade de vida, segurança, relação com estrangeiros, mulheres ou gays, a fluência em inglês e a tolerância racial.

 

Noutra secção, é analisado o custo de vida, com valores locais para preços em apartamentos, quartos de hotel ou arrendamento por serviços online, preços de viagens, bem como de um refrigerante, cerveja ou café. O site compila ainda informação sobre a região onde está localizada a cidade, incluindo temperaturas ao longo do ano, domínio religioso, melhor operadora aérea ou de telecomunicações. Numa parte mais interactiva, é possível falar com pessoas que estão ou estiveram nos locais.

  

Um de 12 projectos em 12 meses

 

A Nomad List foi lançada há dois anos por Pieter Levels, um holandês que se considera ele próprio um nómada digital. A 24 de Junho de 2014, disponibilizou uma hiperligação na sua conta de Twitter para uma folha de cálculo onde tencionava agregar os dados, preenchida por outros viajantes.

 

Num fórum online, onde também a divulgou, explicou que pretendia saber os valores de uma "curta estadia num hostel, hotel ou apartamento no centro [da cidade], trabalhar num espaço de 'coworking' e ter uma refeição básica três vezes por dia. É o estilo de vida médio do nómada digital", considerando desde logo que os valores por uma estadia mais curta seriam mais caros do que para um residente.

 

Na altura, dizia igualmente querer rentabilizar o site vendendo "guias urbanos específicos para nómadas", explicando que o projecto fazia parte do seu objectivo de lançar 12 startups em 12 meses, anunciado antes, a 1 de Março de 2014.

 

A então NomadList era um "índice vivo das melhores cidades para viver e trabalhar remotamente", que venderia os referidos guias mas também "kits nómadas" com passes diários para trabalhar em "coworking", um cartão SIM para o telemóvel ou tablet e uma estadia em hotel. Mas tudo se passava ainda num relativo segredo.

 

O anúncio público ocorreu por engano. A 29 de Julho, como explica no seu site, estava a actualizar o servidor informático quando colocou o site online, sem querer, e começou a receber mensagens no Twitter. No mesmo dia, um artigo no TechInAsia divulgava a intenção das 12 startups num ano.

 

Sobre a NomadList, dizia então que, "com uma crescente comunidade de trabalhadores à distância, penso que é uma grande audiência para desenvolver algo".

publicado às 00:32

Podem as palavras cruzadas ser plagiadas?

Por: Pedro Fonseca

 

Tecnologias de Big Data ajudaram a detectar algumas semelhanças num dos autores de palavras cruzadas mais reputados nos Estados Unidos. Como diz um cruciverbalista português ( se não sabe o que é, continue para a linha seguinte), "não façam isso, as coisas descobrem-se... sempre!”

 

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Timothy Parker é um dos autores de palavras cruzadas - ou cruciverbalista - mais divulgado no mundo dos media em inglês. Desde 1999, as suas palavras cruzadas foram das mais vendidas nos Estados Unidos mas, segundo revelou a FiveThirtyEight no início de Março passado, "mais de 60 puzzles individuais copiavam elementos" dos do jornal New York Times (NYT) publicados anos antes, sendo assinados com pseudónimos. "Temas, respostas, grelhas e pistas" do NYT foram re-utilizados, assim como problemas de palavras cruzadas antigas do próprio Parker, usando nomes de autores falsos.

 

O "escândalo", como lhe chamou a FiveThirtyEight, foi descoberto por fãs deste passatempo, usando "ferramentas digitais" para análise ao jornal norte-americano de larga circulação USA Today e ao Universal Crossword, um serviço de syndication que revende palavras cruzadas para centenas de meios de comunicação social, sendo o direito de autor para ambos detido pela empresa Universal Uclick.

 

Parker recebeu menções no livro de recordes Guinness, foi considerado multimilionário devido a esta actividade e tinha alegadamente um grupo de 60 pessoas a trabalhar na Universal, onde era o editor responsável pelo resultado final. Esta empresa confirmou "algumas das alegações" no início de Maio e suspendeu Parker durante três meses, afirmando que no seu regresso haverá uma "forte segunda linha" na revisão dos desafios e que ele não voltará a colaborar para o USA Today.

 

O cruciverbalista explicou entretanto que se tratava de "uma coincidência" e não olhava para as palavras cruzadas do NYT "há anos". No entanto, mais de mil desafios de palavras cruzadas da Universal e quase 450 do USA Today tinham 75% de semelhanças com outros anteriores. O jornalista do FiveThirtyEight validou a existência de dezenas de "réplicas" - em termos de letras e espaços a negro -, no caso de Parker. Ao desvalorizar o caso, ele declarou que tendo editado "mais de 15 mil [palavras cruzadas], não estou de todo surpreendido", e que no caso da arrumação gráfica, não se preocupava se ela já tivesse sido usada, "se for boa para a minha audiência".

 

Plágio sem intenção

 

O negócio das palavras cruzadas não é pequeno mas requer alguma criatividade num processo que facilmente se pode tornar repetitivo. O site Crossdown explica as regras que se devem seguir na criação de bons desafios de palavras cruzadas, seguindo as indicações da editora Simon & Schuster, que primeiro as comercializou, e não é uma tarefa fácil. O alegado plágio pode mesmo ocorrer sem intenção.

 

Em 2009, o cruciverbalista Matt Gaffney criou um problema muito semelhante ao de um outro autor. Na revista Slate, assumiu o erro e explicou detalhadamente o que sucedeu, lembrando que a comunidade de criadores de palavras cruzadas nos EUA era pequena - cerca de 300 pessoas a trabalhar para os maiores meios de comunicação social - e, "assim como no jornalismo ou na literatura, o plágio é criticado no mundo das palavras cruzadas" e facilmente descoberto. Mas Gaffney concorda que só devem existir "umas duas dúzias de temas" nas palavras cruzadas, e que muitos dos criadores as repetem.

 

A industrialização das palavras cruzadas

 

Os elogios na descoberta do alegado plágio de Parker vão para a base de dados informática que permitiu validar as coincidências. Foi uma "ferramenta de justiça", considerou Gaffney, enquanto Will Shortz, responsável pelo passatempo no NYT, declarou que "isto nunca seria conhecido excepto na idade electrónica, quando se podem detectar estas coisas".

 

O caso iniciou-se em Fevereiro passado, quando Ben Tausig, um outro cruciverbalista, revelou na sua conta de Twitter que um problema seu de 2004 entregue à Universal e publicado no USA Today fora re-utilizado com pseudónimo em 2008 e novamente usado já este ano. Ele detectou todas as variações usando uma base de dados criada por Saul Pwanson e que integra mais de 51 mil problemas de palavras cruzadas de 11 meios, incluindo as do NYT desde 1942, do Washington Post desde 1992 ou do Los Angeles Times desde 1996.

 

Segundo Tausig, o mais estranho nesta história é a existência de 65 temas do NYT reproduzidos na Universal ou no USA Today, mas só um exemplo replicado em sentido contrário. Mesmo se esses 65 pudessem ser duplicados por acaso, as hipóteses de irem todos num único sentido "são minúsculas".

 

Pwanson, que apenas estava a testar correlações entre grandes quantidades de dados (Big Data), confessa que não esperava por estes resultados. "É a industrialização", quando "é difícil criar umas boas palavras cruzadas". Mas, como explicava Gaffney, as "palavras cruzadas são como flocos de neve" e "mesmo as que parecem muito semelhantes ainda são únicas".

 

Em Portugal, o cruciverbalista Paulo Freixinho também aconselha sobre o plágio nas palavras cruzadas: "não façam isso, as coisas descobrem-se... sempre!”

publicado às 00:21

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