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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

Cidade em lume brando

Por: Pedro Rolo Duarte

Esta semana, na véspera do jogo do Benfica com o Besiktas, o treinador Rui Vitória tinha marcado uma conferência de imprensa para o final da tarde. Eu estava no carro, parado no trânsito, quando liguei o rádio e ouvi o jornalista, que esperava a chegada do técnico, lamentar o atraso no começo da sessão: “Rui Vitória está bloqueado no trânsito da cidade, e por isso a conferência de imprensa vai começar mais tarde”.

 

 

Poucos dias antes, tinha lido uma notícia que dizia que a Área Metropolitana de Lisboa denunciara a degradação dos transportes públicos na capital, admitindo que a oferta global teria descido, nos últimos cinco anos, 25 a 30%. Demétrio Alves, da dita AML, falava de políticas desastrosas “que levaram o sistema de transportes a ter um nível de qualidade muito baixo e inaceitável”. Como exemplo, revelava que o Metro de Lisboa perdeu mais de 300 trabalhadores nos últimos anos. Dois ou três dias depois, soube-se que a Fertagus cancelou mais 5 ligações entre as duas margens do Tejo (todas nas chamadas horas de ponta) por falta de trabalhadores para as cumprirem…

 

 

Como se de uma bomba-relógio se tratasse, tudo parece “combinado” para que o caos se instale na capital, e para que os mais bonitos sonhos do presidente Fernando Medina se transformem no pesadelo dos lisboetas. Na verdade, o estaleiro em que a cidade se transformou, e que em muitos casos merece aplausos, elogios, reconhecimento, está assente sobre pressupostos que podem ter pés de barro - ou, pior ainda, nem sequer terem pés.

 

 

Não adianta embelezar a cidade, resolver pequenos quistos que a deformam (o Cais do Sodré é um bom exemplo…), forçar os cidadãos a deixar o carro em casa e utilizarem transportes públicos, incentivar o uso da bicicleta ou mesmo a caminhada a pé - e depois não ter resposta adequada às condições já criadas.

 

 

Leio no Facebook de Teresa Leandro: “Há mais de um mês que diariamente, às horas a que viajo de metro, que são as de ponta, há "perturbações" numa linha qualquer. Todos os dias. Ontem calhou-me a mim, com a amarela. Uso a linha verde da estação de Alvalade até ao Campo Grande, onde tomo a amarela até ao Marquês de Pombal. Em condições normais, 20 a 25 minutos costumavam chegar para fazer todo o percurso, mesmo com mudança de linha. Não no último mês e meio. Resignei-me a começar a sair de casa mais cedo, já a prever a forte probabilidade de atrasos”.

 

 

É neste quadro que a “rentrée” se faz na cidade de Lisboa. É certo que temos dezenas de eventos culturais e desportivos, vivemos na cidade mais animada do planeta. Mas, ao mesmo tempo, sofremos os problemas de sempre, as deficiências de sempre, as impossibilidades de sempre.

 

 

Agora, com esses “complementos” inesperados: em vez de ruas, estaleiros. Em vez de alcatrão, pó. Em vez de horas de ponta, horas perdidas todo o dia. Quando começar a chover a sério, o caos passará a Inferno. Espero que a impaciência não dê lugar à violência - e a cidade não se torne palco de batalha campal…

 

 

15 anos depois, três links sobre o dia negro de 11 de Setembro…

 

 

São quatro minutos arrepiantes, produzidos pela revista Time, que contam a história de uma das fotografias mais marcantes do 11 de Setembro de há 15 anos, em Nova Iorque. “The Falling Man” é, simbolicamente, o que todos sentimos naquele dia: estávamos entre a vida e a morte.

 

 

O ainda vivo “Usa Today” - epifenómeno da imprensa dos anos 80 de que deixámos de ouvir falar há tanto tempo… - recupera na sua edição digital dez questões esquecidas, ou pouco debatidas e investigadas, sobre aquele dia negro de 2001…

 

 

Algo me diz que vamos ter saudades de Barack Obama. Talvez por isso, não resisto a deixar aqui o link para que possam ver/ouvir o extraordinário discurso com que assinalou o 15º ano sobre os atentados de Nova Iorque.

publicado às 11:45

Sim, e o contrário também

Por: Pedro Rolo Duarte

Ou muito me engano, ou Álvaro Cunhal deu algumas voltas na tumba no fim‑de‑semana passado. Coerente, firme, implacável, teimoso, julgo acertar se disser que não lhe passaria pela cabeça engolir a “geringonça”, obrigando-o - como obrigou Jerónimo de Sousa - a, num único discurso, dizer que sim e que não, isto e o seu contrário, estamos mas não estamos.

 

 

Cito: “As opções do PS e a sua assumida atitude de não romper com os constrangimentos externos são um grave bloqueio à resposta aos problemas do país. O futuro de Portugal exige a ruptura com as imposições e chantagens que visam perpetuar a submissão, a exploração, o endividamento e o empobrecimento”.

 

 

Mas, e ao contrário, nem por isso o PCP deixará de viabilizar um Orçamento para 2017, assim ele mantenha o “compromisso de reverter direitos e rendimentos”, garantindo que vai “inverter o curso para o desastre económico e social que vinha sendo imposto”.

 

 

Ou seja, desde que os mínimos olímpicos se mantenham, o PCP engole o sapo (maior do que o das famosas presidenciais com Mário Soares…).

 

 

De passagem, Jerónimo de Sousa insiste na tecla da saída do euro como parte da solução dos problemas nacionais, quer cunhar a moeda portuguesa, e sublinha a necessidade da nossa autonomia económica, financeira, cambial e fiscal, numa claríssima demarcação da União Europeia e de tudo o que o PS (…e o PSD, e até o CDS) manifestam como essencial e fundador.

 

 

Se eu fosse militante do partido e estivesse naquela tarde escaldante de domingo a ouvi-lo, acharia que estava a sofrer os efeitos de uma insolação. É possível estar contra a essência, a raiz, a “causa das coisas” de um governo e de uma política, e ao mesmo tempo votar e caucionar esse mesmo governo em nome de magras recuperações de direitos para os trabalhadores, em geral, e a função pública, em particular? Como se concilia o voto num orçamento com a firme defesa do abandono da moeda única? Como se fala da “política de direita e de submissão à União Europeia e ao Euro”, ao mesmo tempo que se aceita, na Assembleia da Republica, as traves mestras que a suportam?

 

 

A lista de perguntas é tão grande como o discurso de Jerónimo de Sousa. Mas, ao ouvir o líder do PCP, interroguei-me sobre o que será, política e eticamente, mais sério e correcto: deixar um país à deriva, como está a suceder em Espanha, porque não se cede ao que se julga essencial; ou ceder no essencial, mesmo que para isso o discurso contradiga a acção?

 

 

Não tenho uma resposta taxativa (há muito que me deixei disso…). Mas uma coisa sei: Jerónimo de Sousa e o PCP estão claramente a viajar na maionese. Neste caso, numa maionese talhada pelas contradições entre o que defendem e o que depois fazem. Estarão a ficar iguais aos “outros”?

 

 

Rentrée em três actos…

 

 

Enquanto por cá os canais de televisão apontam as suas armas pesadas para o horário nobre - novelas, séries, reality-shows… -, nos Estados Unidos da América as séries continuam no trono do rei, destronando filmes e concursos e programas de informação. Neste link, a lista da revista Time para as 12 séries imperdíveis da estação. Entre o cabo, os canais clássicos e o Netflix, mais tarde ou menos cá chegarão…

 

 

É seguramente a transferência do ano na imprensa portuguesa: Vasco Pulido Valente deixa o Público - e por esta via, o papel impresso - e entra no mundo digital, já em Outubro, com duas crónicas semanais (sábado e domingo) no jornal Observador. Antecipando a transferência, deu uma longa entrevista a Vítor Matos que, embora publicada no jornal em Junho, vale a pena reler agora, quando o seu regresso se aproxima…

 

 

Não houve jornal que não lhe dedicasse umas linhas, nem rede social onde não fosse referida a toda a hora: a síndrome pós-férias, quase classificada como mais uma doença na já longa lista das estranhas patologias psicológicas, mereceu do nosso vizinho digital El Español uma matéria que vale a pena ler. Por um lado desmascara uma invenção que nos dava imenso jeito, por outro explica o fenómeno pelo lado cientifico.

publicado às 11:49

Revolução na escola

Por: Pedro Rolo Duarte

É bem mais do que uma notícia, é uma revolução, ou pelo menos o começo de uma revolução: o Governo decidiu oferecer os manuais escolares a todos os alunos do 1º ano de escolaridade.

 

 

Daqui a dias, 80 mil crianças vão começar a vida estudantil com uma aprendizagem dupla: a ler, escrever e contar; mas também a pensar no seu semelhante, na conservação, na sustentabilidade. E nos custos que os seus familiares suportam com a educação.

 

 

Não foi manchete de qualquer jornal, mas devia ter sido. É a primeira medida efectivamente relevante e transversal que vejo tomar-se para começar a pôr alguma ordem na desordem geral do sistema educativo. Não apenas porque se inicia um processo de reutilização de manuais (ninguém espera que funcione a 100% nos primeiros anos…), que beneficia toda a gente - a começar no ambiente e a acabar na bolsa dos pais… -, como se desenha, por fim, a ideia de um programa educativo coerente, consequente e com alguma durabilidade no tempo de aplicação dos programas escolares.

 

 

Claro que a medida teria de ter oposição, a começar na Comissão do Livro Escolar da APEL, que veio argumentar com a liberdade de escolha, com os abatimentos no IRS de quem compra livros escolares, e até mesmo com uma estapafúrdia comparação com os gastos das famílias em roupa… Não surpreende, se pensarmos que esta Comissão é formada por elementos pertencentes aos dois grupos editoriais líderes no comércio dos manuais escolares. O negócio pode derrapar…

 

 

Como não surpreende uma reportagem que revelava o trabalho de propaganda destes grupos editoriais, no momento da escolha dos livros recomendados, juntos dos professores. Presentes de toda a espécie misturam-se com pressões directas, em acções que em tudo se assemelham às que, no passado, levaram os médicos a ter de regular fortemente o trabalho dos famosos “delegados de propaganda médica”.

 

 

Pelos vistos, no mundo da educação há muito por fazer para tornar transparente a política do manual escolar. E nesse sentido, a medida do Governo, que promete ir alargando, no futuro, aos anos seguintes, é não apenas certa e revolucionária - é, ela própria, pedagógica e higiénica para o gigantesco universo que, daqui a poucos dias, começa mais um ano lectivo.

 

 

Às vezes penso que só há más notícias pela manhã. Mas afinal não é sempre assim.

 

 

A ler. Para ler. Lido.

 

 

Em poucas semanas, deixaram-nos dois dos mais relevantes nomes da edição literária das últimas décadas: André Jorge, o homem da “Cotovia”, e agora Fernando Guedes, a alma da antiga “Verbo”. Entre os obituários que lhe fizeram, gostei especialmente daquele que o também editor Jorge Colaço deixou no jornal Observador. É ler…

 

 

Eu já sabia que era viciado em café. Mas agora percebo porquê. E querem saber a verdade? Por mim, pode ser…

 

 

O Facebook e os seus famosos algoritmos continuam a dar que falar. Nesta matéria publicada pelo The Guardian não apenas se conta o que pode acontecer quando se deixa à solta a máquina tecnológica como, em anexo, se publica o testemunho de quem trabalhou justamente no departamento que define o que vemos e não vemos…

publicado às 11:47

Agir, e não apenas reagir

Por: Pedro Rolo Duarte

Sem preconceitos: é no mínimo estranho que o “mundo pule e avance” a ritmos e passadas tão diferenciadas conforme as áreas que queiramos observar. Dos anos 60 até ao começo do século XXI, e refiro-me apenas à Europa, vimos os homossexuais ganharem os direitos mais que legítimos ao casamento ou, nos casos mais avançados, à adopção; vimos a discriminação sexual, racial, religiosa, diminuir ou mesmo desaparecer; vimos a liberalização ou, pelo menos, a descriminalização do consumo de algumas substancias “perigosas”… Enfim, poderia elencar uma lista longa de mudanças sociais que, se pensarmos nos séculos passados, foram rápidas - e que foram acompanhadas pelas leis de cada país, de forma a harmonizar e equilibrar a vida dos cidadãos.

 

Se entrarmos no domínio científico, nomeadamente da medicina, temos uma revolução permanente. A investigação, a cura de algumas doenças, a evolução do pensamento sobre a dor, a eutanásia, o prolongamento ilimitado da vida, levaram a novas formas de actuar, e por consequência legislar, que acompanham, senão a par e passo, de muito perto, o conhecimento da prática legal.

 

No entanto, estas passadas civilizacionais não foram acompanhadas de outras, que mereciam uma igual reflexão e mudança. Os casos recentes da imunidade diplomática dos filhos do embaixador do Iraque (que terão agredido quase até à morte um jovem português), e a polémica recorrente sobre as penas - ou falta, ou leveza, das mesmas… - aplicadas aos incendiários, são apenas dois bons exemplos de como, na justiça, nem sempre conseguimos modernizar procedimentos e leis ao ritmo dos factos e da sua recorrência.

 

 

O episódio dos filhos do embaixador iraquiano é, em termos criminais, uma excepção, mas acordou o país para uma medida que vem dos anos 60 do século passado, à época enquadrada num ambiente peculiar, e que talvez hoje não faça grande sentido, pelo menos nas formas de que se reveste. Na verdade, os miúdos, em legítima defesa ou não, puseram um seu semelhante entre a vida e a morte, de forma bárbara, e não podem passar incólumes pelo que fizeram. Tenham 17 ou 20 anos, sejam filhos de quem forem. E o facto, ainda que pontual, merece que se repense o conceito de “imunidade”. Não apenas para diplomatas e seus familiares, mas também para deputados e outros detentores de cargos públicos. Num tempo marcado pela corrupção e pelo lóbi desenfreado, parece-me razoável repensar a ideia de “imunidade” e, no mínimo, limitar essa “mordomia” em toda a frente política…

 

Já no caso dos incendiários, invariavelmente tidos como inimputáveis, ou libertados poucos dias depois de detidos, a coisa é mais grave. O país é anualmente delapidado de uma das suas maiores riquezas - e as causas da tragédia passam tanto pelo louco fascinado por chamas como pelos negócios que a terra queimada proporciona. Nesse quadro, a legislação terá de ser mais dura, mais rigorosa, e mais eficaz. Os pirómanos deviam, mais do que estar presos, trabalhar para remediar o mal que fizeram; as investigações policiais deveriam ser mais eficazes e chegar ao cerne dos negócios que ganham com os incêndios; e o próprio crime associado ao fogo devia ser tipificado de forma a conseguir chegar a quem realmente põe Portugal, todos os anos, a arder.

 

No caso dos diplomatas como dos fogos, o problema é o mesmo: pela excepção ou pela sazonalidade, não tarda esquecemos o tema. Até à próxima tragédia. E é por isso que nuns casos o mundo “pula e avança”, e noutros fica em banho-maria…

 

 

Semana para ler, ouvir e ver…

 

Terminados os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, é tempo de balanços. A cidade não renasceu, mas ficou claramente diferente e, segundo o insuspeito The New York Times, melhor. Vale a pena ler a reportagem que sai fora do domínio das medalhas e das modalidades e entra pela cidade dentro…

 

“The Pigeon Tunnel: Stories from My Life” é o primeiro livro autobiográfico de John le Carré, e está a ser aguardado com enorme expectativa. Enquanto promete para 3 de Setembro a publicação de um excerto da obra, o britânico The Guardian convidou actores de primeira linha para lerem na edição online bocados dos clássicos livros do escritor. Eis aqui um dos exemplos: Tom Hiddleston lê um trecho de “The Night Manager” (“O Gerente da Noite”, na tradução portuguesa)… Que prazer ouvir!

 

E porque estamos a chegar ao fim das férias, prolongo-as um pouco mais sugerindo um olhar atento sobre a edição espanhola da excelente Condé Nast Traveller. Neste caso, escolhi uma infografia que dá que pensar: ela divide o mundo em função do número de pessoas que fala cada idioma. E se “a nossa pátria é a nossa língua”, então as fronteiras do globo andam muito longe da realidade…

publicado às 14:00

A impunidade do Estado

Por: Pedro Rolo Duarte

 

Se não fosse triste e lamentável, podia ser de rir, ou uma notícia do “Inimigo Público”: uma instituição do Estado, o Tribunal de Contas, num relatório sobre a execução orçamental da Administração Central, crítica o Estado a que pertence por exigir aos contribuintes o que o próprio Estado não cumpre…

Não percebeu? Nem eu.

 

 

Vamos devagar: uma das missões do Tribunal de Contas é fiscalizar a forma como o Estado, através dos Governos e da Autoridade Tributária, cumpre e faz cumprir a lei e os Orçamentos. Nesse âmbito, divulga relatórios em que analisa o que foi feito, o que está mal, o que está certo.

 

 

No Relatório divulgado há dois dias, e relativo a 2015, o Tribunal de Contas vem dizer algo que todos nós, cidadãos, já sentimos na pele de alguma maneira: que os atrasos do fisco, por exemplo, na devolução de impostos ou na correcção de erros, não é minimamente penalizada; ao contrário, se o cidadão se atrasa ou se engana, lá vem a multa, os juros, e às vezes a conta bancária congelada.

 

 

O Tribunal de Contas dá um exemplo: os prazos legais para fechar a contabilidade do Estado são invariavelmente “queimados” - mas exigidos aos contribuintes e sujeitos a multa caso os cidadãos escorreguem nas datas. Diz o relatório (e estou a citar o Diário de Notícias): "Pelas razões que levaram à implementação do E-fatura, em poucos meses, é mais do que oportuno que o Estado, o Ministério das Finanças e a AT também apliquem, como administradores de receitas públicas, os princípios e procedimentos que tornaram obrigatórios aos contribuintes por os reputarem essenciais para a eficácia do controlo dessas receitas”.

 

 

E é aqui que começa a gargalhada. É que o Tribunal vem debitando esta lengalenga todos os anos, mas nada acontece: não há multas ao Estado, não há responsáveis punidos, não há juros a reverter para os contribuintes. O contrário também se mantém inalterado: não é por o Estado ser incompetente, nem por o Tribunal de Contas o sublinhar, que o cidadão é premiado e, pelo menos, amnistiado ou absolvido dos seus delitos menores…

 

 

Estamos portanto no domínio da comédia, em rigor da farsa: as instituições fiscalizam, fazem relatórios, criticam. Nada muda, nada acontece. Impune, o Estado persiste em ser mau pagador, incumpridor, e laxista. Tudo o que não perdoa ao contribuinte que o sustenta e lhe dá sentido. Parece um gozo, uma espécie de brincar ao faz-de-conta entre instituições do mesmo Estado, jogando apenas entre elas - só que os peões do jogo são adultos, as suas vidas, o dinheiro de todos.

 

 

No fim, como sempre, quem se lixa é o mexilhão. Lá está: se não fosse triste, dava para rir.

 

 

Para ler obrigatoriamente esta semana…

 

 

A reportagem da Esquire norte-americana sobre as consequências práticas da legalização e/ou descriminalização do consumo de drogas leves em alguns estados dos EUA. Ou melhor: como os grandes cartéis e traficantes de drogas pesadas responderam a esta aparente machadada no seu negócio…

 

 

A imprensa francesa reflecte a forma como se deve cobrir o tema “terrorismo” e os ataques que a Europa tem sofrido. Eis aqui, na Motherboard, o que está a acontecer e a forma inteligente como se pode encarar esta ameaça diária.

 

 

O Diário de Notícias tem vindo a publicar excelentes entrevistas no âmbito de uma época, o Verão, em que teoricamente temos mais tempo para ler. Há dias, publicou uma conversa entre Céu Neves e a realizadora Leonor Teles (jovem premiada pelo filme “Balada de Um Batráquio”), que é um belíssimo exemplo do que pode constituir uma nova geração de criadores. Mais focada, mais atenta, mais humilde. A ler.

publicado às 10:41

Demagogia é…

Por: Pedro Rolo Duarte

Quando era adolescente, havia nos jornais (e nos pacotes de açúcar?) uns casais de bonecos com um ar vagamente pateta que acompanhavam frases - igualmente tolas, na maioria dos casos - sob o genérico “Amor é…”.

 

Nas últimas semanas lembrei-me deste casalinho, mas por motivos um pouco mais sérios. Por exemplo, a polémica a respeito das novas taxas de IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis), que levou, no limite, a líder centrista Assunção Cristas a afirmar, no Facebook, que “O sol já paga imposto! Parece inacreditável, mas é mesmo verdade: as casas com boas vistas ou exposição solar, independente da localização ou do rendimento do proprietário, passam a ter o IMI agravado”. A ignorância da deputada já vinha a queimar mato nas redes sociais, com todo o estilo de gozos, críticas, e um coro indignado e revoltado.

 

Pois bem…

 

Demagogia é… vir dizer que “O Sol Já paga imposto”, quando a lei que agora se discute é de 2007 (por acaso também de um governo socialista, o de José Sócrates…), tem 13 itens sobre “qualidade e conforto”, e a única novidade que o actual governo introduziu foi reajustar (bem ou mal, é outra discussão…) as taxas, aumentando nuns casos, diminuindo noutros…

 

Demagogia é… virem os proprietários que vendem e arrendam casas por valores que variam conforme a exposição solar ou a vista, a varanda ou a localização, indignarem-se agora com um imposto que avalia os imóveis da mesma forma que eles próprios os avaliam. Para os donos, o preço pode subir porque os seus apartamentos têm vista - para serem taxados, não gostam da ideia. Dois pesos, duas medidas.

 

Mas há mais: é que nestas semanas também se tem falado muito das viagens a França, por ocasião do Euro 2016, que a GALP pagou a alguns membros do Governo, e que pôs meio mundo a exigir a demissão dos “beneficiados”. Sem dúvidas o afirmo: no lugar do Secretário de Estado Rocha Andrade, que é politicamente responsável por um conflito de milhões que a petrolífera deverá ao fisco, nem hesitava na demissão. Mas já sabemos que na política nem todos seguem o mesmo código de conduta ético e moral…

 

De qualquer forma…

 

Demagogia é… Fazer deste caso uma bandeira da moral e dos bons costumes, quando quase todos os jornalistas, directores de jornais, administradores, editores, em lugares relacionados com as empresas que têm orçamentos para estes convites, ou que são anunciantes dos meios, passam a vida nos camarotes dos estádios de futebol em jogos cujos bilhetes não são “low cost”, em viagens pagas a todos os cantos do mundo, nas zonas VIP dos Festivais de Verão, em almoços e “eventos” recheados com presentes de toda a espécie.

 

Demagogia é… Os mesmos políticos que pedem agora cabeças a rolar no Governo, terem, no passado, quando governavam, aceitado o mesmo tipo de convites, viajado a expensas de empresas e grupos de empresários. Muitos deles, agora em companhias privadas (com quem antes se relacionaram enquanto governantes), continuam a sentar-se nos camarotes reservados.

 

E sem querer dramatizar o que é, em si, um drama maior, demagogia também é associar a calamidade dos incêndios a um Governo ou a um ministro. Ninguém, no seu perfeito juízo, quer ver Portugal a arder. O tema não devia servir de arma de arremesso político. Além de demagógico, é infeliz. O momento é de unir, não de dividir.

 

A carinha apatetada dos bonecos do “Amor é…” é a mesma que qualquer um de nós pode fazer perante estes “escândalos”, e este drama maior. Ainda que, como no amor, por detrás destas aparentes patetices, estejam assuntos muito sérios que ajudam a explicar o verdadeiro estado da Nação.

 

Talvez possa rematar assim: “Demagogia é… amar o próximo quando é conveniente. E dizer que nunca se amou quando a conveniência se torna muito inconveniente”.

 

 

Para ouvir esta semana…

 

E talvez ler também: aqui pode saber tudo o que há para saber sobre a morte, aos 81 anos, de Marianne Ihlen, a mulher que inspirou canções de Leonard Choen como a clássica "So Long, Marianne”. As canções, os links, os testemunhos, um excelente trabalho de rádio com extensão digital…

 

A “Mojo” é talvez a mais interessante revista sobre música pop/rock que se publica na Europa - por ser simultaneamente actual sem esquecer o passado. Isto, se ainda considerarmos que o Reino Unido pertence à Europa…

 

“Brexists” à parte, a “Mojo” está viva e recomenda-se, no meio do pandemónio de falências e insolvências que assola o mundo dos media. Neste mês de Agosto, está à venda a sexta edição de uma das suas marcas laterais: a “Mojo’60", uma revista trimestral sobre a música dos anos 60. A capa desta edição é dedicada a Jimi Hendrix, do Verão de 1966 até ao final de 1967. Uma revista nostálgica, mas cheia de boa música…

 

As eleições nos EUA também chegam à música - a revista Rolling Stone revela esta semana um video com uma versão de "Born in the USA”, de Bruce Springsteen, interpretada pelos Arcade Fire em Ontário, no WayHome Festival. Ainda que seja no Canadá, a revista interpreta o facto como um sinal de oposição à eleição de Donald Trump. Seja ou não, vale a pena ouvir…

 

 

publicado às 10:10

Uma brincadeira séria

Por: Pedro Rolo Duarte

Subitamente, num Verão manchado pelo sangue e pelo terror, um jogo veio abanar as vidas de milhões de pessoas e, ainda que por minutos, deixá-las fora da loucura que nos rodeia e entrar numa bastante mais pacata aventura: apanhar, com um telemóvel, bicharocos que julgávamos desaparecidos.

 

 

Eu, pelo menos, julgava. Se me dissessem, há um mês, que os Pokemóns, que dominaram o universo infantil do meu filho no final dos anos 90, iriam voltar com mais força, mais vida, e agora iam arrebatar os mais novos e os mais velhos em simultâneo, não acreditaria. Mas, cada vez mais, o mundo é inacreditável - e no entanto, existe…

 

 

O jogo “Pokemon Go”, que está a dar a volta à cabeça de meio-mundo por todo o globo, batendo recordes de downloads de uma aplicação em escassos dias (mais de 75 milhões em apenas 20 dias, sendo certo que está disponível em apenas 32 países), é um caso de estudo - por todos os motivos, incluindo os mais inesperados, como a sucessão de notícias que motivou em todos os media. O sucesso do jogo, e a figura dos jogadores, na rua, de telemóvel em punho, junto com os faits-divers do costume (da igreja que atrai fieis com Pokemóns, à PSP empenhada em também os “caçar”…), criaram rapidamente uma onda de gozo e até de maledicência sobre o jogo. Nada de novo. Sempre que há um fenómeno viral, há logo um grupo de intelectuais desconfiados…

 

 

… Nada mais precipitado e sem sentido. Descarreguei o jogo para perceber o fenómeno - mas talvez convenha avisar previamente que nunca gostei de jogos de computador, consola ou telefone; e continuo a não gostar nem praticar. Que me lembre, o único a que achei alguma graça foi o “Guitar Hero”, da Playstation, porque me permitiu voltar a uma paixão de infância: a bateria! Dito isto, a “app” que fez renascer a Nintendo - em todos os sentidos, a começar no seu valor comercial… - constitui a primeira aproximação entre a virtualidade dos jogos e a realidade dos lugares por onde andamos. Nesse sentido, é muitíssimo bem conseguido, porque mistura o puro entretenimento - apanhar bonecos que não estão em lado nenhum, mas estão nos nossos telefones… - com conhecimento sobre a cidade onde nos encontramos. Descobri, por exemplo, o significado dos símbolos que estão incrustados na parede do edifício onde vivo, como descobri que há um castelo de brincar, para crianças, aqui no bairro…

 

 

Por outro lado, e numa reflexão mais séria, “Pokemon Go” faz os jogadores saírem do ninho, do seu reduto. Traz as pessoas para a rua - e ao misturar virtualidade com paisagem real, humaniza o jogo e quem o joga. Com isso, abre portas para toda uma nova filosofia no que aos dispositivos móveis diz respeito: não são mais objectos fechados onde mergulhamos em mundos muitas vezes inexistentes, tornam-se parte da realidade de cada um. E são estas evoluções, ou novidades, que ajudam a tornar tão popular - e instantâneo… - o que seria apenas mais um jogo para telemóveis.

 

 

 

Ignorar ou depreciar, apenas porque se tornou um sucesso e dá origem a situações ridículas - como a que se viveu há dias no Central Park de Nove York, com milhares de pessoas a procurar um Pokemon raro… - é passar ao lado do começo de mais uma revolução que a tecnologia desencadeia. Esta é, claramente, uma brincadeira muito séria. O começo de uma nova era.

 

 

Lido esta semana…

 

 

E mantendo-me no fenómeno Pokemon Go, eis como foi visto pelo CEO da Vaynermedia, Gary Vaynerchuk, um especialista no mundo digital e nos serviços que ele pode prestar à comunidade. Um olhar mais próximo do mercado, mais longe da brincadeira que anda a contaminar toda a gente…

 

 

Uma das leituras leves que recomendo sempre, a quem me pede um palpite, são os livros de Jeffrey Archer. Menosprezado pela critica, é um excelente contador de histórias, um conhecedor profundo do mundo anglo-saxónico, e as suas “sagas” são finas misturas de vidas reais - umas mais modestas, outras mais bem sucedidas, nos fundo todas muito semelhantes… -, com sentimentos comuns a todos nós, em histórias muito bem construídas e sempre empolgantes. A  mais recente, que em três volumes explora praticamente um século da vida de uma família, os Clinfton, já tem edição em português dos dois primeiros livros. O terceiro, “This Was a Man”, será lançada em Novembro nos Estados Unidos e no Reino Unido, e mais tarde traduzido para português. Mas acompanhar o site do escritor, e dentro dele o seu blog, é uma boa aproximação à leitura de “O Segredo Mais Bem Guardado”, a segunda parte deste gigantesco quadro, já editado entre nós.

 

 

No próximo sábado, dia 30, a Livraria Lello, uma clássica do Porto, vai viver um momento especial: o lançamento mundial do livro "Harry Potter and the Cursed Child - Parts I & II”, com a presença de dois dos actores que entraram na peça que deu origem a este regresso de Potter. Os actores que protagonizam Severo Snape e Rúbeo Hagrid vão estar, à meia-noite (a Lello abre de propósito para esta noite de festa…), a receber os primeiros compradores do novo livro, que é assinado não apenas por J. K. Rowling, mas também por Jack Thorne e John Tiffany, já que se trata da passagem a “escrito” da peça de teatro que anima os palcos londrinos. Sem querer revelar nada, deixo aqui o link para a crítica que esta semana saiu no britânico The Guardian. Não, não é sobre o livro - é ainda sobre a peça… Mas abre o apetite!

 

 

publicado às 10:24

Um circo romano nos EUA

Por: Pedro Rolo Duarte

Às vezes pergunto-me: que mais pode a candidatura de Donald Trump fazer, a começar no próprio candidato, para demonstrar que não quer governar um país, mas quer montar um circo romano em Washington? A esta pergunta, espanto dos espantos, responde o “povo” com apoios, aplausos, uma Convenção rendida ao populismo tragicamente funcional, e uma sequência de dias em que raramente passam 24 horas sem que haja mais um escândalo, mais uma surpresa, mais qualquer coisa que nos deixa boquiabertos ou incrédulos.

 

 

Sou sincero: incrédulo, já não. Tudo é possível naquele mundo onde, depois de um discurso da barbie Melania Trump cheio de frases “roubadas” a Michelle Obama, vem uma colaboradora do marido, Meredith McIver, pedir desculpa pelo erro cometido. Terá sido ela a escrever o discurso, a partir de “pensamentos” da mulher do candidato - e como não confirmou a origem das frases, tomou-as como originais… É extraordinária a forma como tudo isto passa incólume e Trump, sem hesitações, não aceita a demissão da “autora” e afirma que “as pessoas cometem erros inocentes”…

 

 

É isto que os americanos estão a aprender a aceitar como possível e normal, para não dizer desejável. A mentira, a xenofobia, o racismo, o populismo, o plágio, todo este conjunto ideológico e ético, que na Europa crescemos aprendendo a rejeitar e a combater, é agora arma de propaganda barata para que o cidadão americano comum, seguramente na mais profunda ignorância sobre as consequências de tal opção, se deixe levar e acredite que resolve os problemas do seu país.

 

 

Os Estados Unidos da América conseguem, neste começo de século XXI, juntar o melhor e o pior sem distinção nem razão. O país das oportunidades e da meritocracia, o país onde todos têm oportunidade, o país que descobre-inventa-fabrica-vende, o país onde errar faz parte do caminho e não é argumento de exclusão, o país multicultural que nasceu e cresceu justamente por causa dessa miscigenação - esse mesmo, é o país onde a erva daninha de um Donald Trump tem terra fecunda para crescer sem que pareça haver quem lhe faça frente. Dizem que é o preço a pagar pela democracia - eu acho que são apenas juros de agiotas…

 

 

A Casa Branca tem tido inquilinos perigosos e pouco confiáveis - o apelido Bush seria suficiente… -, mas nunca esteve tão perto do abismo como em 2016, com este homem que começou por ser um “fait-divers” e é hoje um caso sério. Muito sério.

 

 

Se a História das ultimas décadas nos tem provado que a globalização não é apenas uma palavra para encher a boca dos economistas e gestores, a caminhada de Donald Trump até à Presidência dos EUA não é um problema apenas “deles”. É de todos nós. No período negro que temos vivido, entre crises profundas e terrorismo extremo, um homem destes a mandar na América não é ameaça menos grave. Sérgio Godinho bem disse que “Isto anda tudo ligado”. Há forma de desligar? Parece tarde demais.

 

 

Leituras na rede a não perder (porque a morte dos blogues foi noticia claramente exagerada…)

 

Luís Naves é um credenciado jornalista do Diário de Notícias, além de escritor com romances publicados. Ligado ao blog Delito de Opinião, tem escrito, sob a “tag” “cadernos contemporâneos”, alguns posts tão enxutos quanto valiosos. Assinalando os 80 anos da Guerra Civil Espanhola, aqui vos deixo um exemplo desse minucioso, delicado e excelente trabalho de jornalismo e memória. Que tanta falta nos faz…

 

 

“Eu escrevia. Sempre escrevi. E tinha medo. Também sempre tive medo. Escrevia para ser lida e tinha tanto medo de ser lida: e se não prestasse para nada?”. Presta. O que escreve Eugénia de Vasconcellos (e pode ser lido em livro, por exemplo em “Camas Politicamente Incorrectas da Sexualidade Contemporânea”) é um dos valores acrescentados do blog Escrever é Triste, onde se junta um generoso numero de excelentes autores, de Manuel S. Fonseca a Pedro Bidarra, de Henrique Monteiro a Diogo Leote. Recomendo todos, mas sublinho o meu gosto especial pela escrita de Eugénia.

 

 

Já há um livro que carimba o blog e lhe prolonga o nome: “Por Falar Noutra Coisa”, de Guilherme Duarte, é um dos fenómenos de sucesso que marca os tempos actuais no mundo dos blogues. Entre o humor e o sarcasmo, entre a critica e o gozo puro, Guilherme vai a todas, da política à vida comum, das tendências às suas manias pessoais. No começo pode provocar alguma comichão, mas depois percebe-se o autor e a coisa passa…

publicado às 11:16

O vizinho do lado

Por: Pedro Rolo Duarte

É de uma enorme presunção auto-citar-me, bem sei - mas depois do massacre de Orlando, no fim de semana passado, tornou-se irresistível. Escrevi neste mesmo espaço, há oito dias: “O Ocidente receia o Estado Islâmico, o fundamentalismo, a loucura que não poupa nada nem ninguém, que não olha a meios para atingir fins - e que, acima de tudo, tem conseguido quase sempre surpreender nos momentos menos esperados, nos lugares mais improváveis.

 

Nessa medida, o mais provável é que o Campeonato Europeu de Futebol decorra com normalidade, sem ataques, sem ameaças, sem mácula. Mas o objectivo fundamental do terrorismo islâmico já está mais do que conseguido: incutir em todos nós a semente do medo, o culto de prevenção, e a tranquila aceitação de políticas violadoras da nossa privacidade, e da nossa liberdade de movimentos, em nome da segurança, em nome da paz”.

 

Infelizmente, tive razão. Mas bem pior do que isso, irrelevante face à dimensão dos acontecimentos, é perceber que nesta guerra surda entre nós e “eles”, nem é preciso organização ou estrutura: qualquer ser, nem me atrevo a chamar-lhe humano, pode ter a iniciativa de se armar e atirar a matar, seja pela causa (que provavelmente nem sabe bem qual é…), seja por pura homofobia, racismo ou loucura. E nunca tardam 24 horas até que o denominado estado islâmico venha reclamar os louros.

 

É mais grave do que há oito dias escrevi. É um caos imprevisível e incontrolável, impossível de prevenir ou detectar. Como um vírus, dissemina-se sem que se veja, é aproveitado por quem tem algo a ganhar com isso - e é improvável que venhamos a saber se tem algum fundamento organizado ou sequer uma vaga ideologia, religião, causa, que justifique o massacre. Entrámos no reino da loucura - e neste quadro, aproveita quem quer e pode, e sofre quem não tem sequer forma de se defender.

 

O atentado, massacre, carnificina, como queiram chamar-lhe, de Orlando, é talvez a mais grave ameaça à cultura ocidental desde há muitos anos. Porque passa ao lado de organizações, estruturas, planos de ataque, terrorismo organizado. Resulta apenas da vontade de um homem, influenciado por essa sombra escura, religiosa, cultural, social, que paira sobre nós permanentemente. Durante muito tempo, chamámos-lhe fundamentalismo religioso, que desembocava em terrorismo - o que pressupõe organização e planificação.

 

Agora, temos de lhe arranjar outro nome. Porque passou a ser a ameaça do vizinho do lado, onde se confundem e misturam preconceitos, credos, psicoses. E já ninguém põe as mãos no fogo pelo vizinho do lado.

 

Para ler na rede por estes dias…

 

Nada como ir à fonte quando o tema é quente: a cobertura do jornal New York Times sobre o atentado de Orlando, que vitimou mais de 50 pessoas e se tornou no maior massacre em solo americano desde o 11 de Setembro, tem sido exemplar. No rigor, no cuidado com a especulação, na actualização permanente. Um exemplo, de que os assinantes usufruem totalmente, mas os visitantes também podem acompanhar.

 

De hoje a oito dias, a Grã-Bretanha vai às urnas, em referendo, decidir se quer ou não permanecer na União Europeia, num processo a que se chamou, para facilitar a linguagem, “Brexit”. Para quem ainda tem dúvidas sobre o que está em causa, esta página da BBC põe tudo em pratos limpos. Vale a pena.

  

No dia 26 de Junho, a Espanha tenta, pela segunda vez este ano, encontrar estabilidade governativa, entre os novos partidos que agregaram a indignação e a contestação gerais, e os velhos partidos que andam aos papéis, a tentar recuperar o espaço perdido. Ainda que seja claramente apoiante do PSOE, o diário El Pais tem feito uma cobertura mais clara, explicativa e inteligente do que os seus concorrentes. Fica a minha sugestão.

 

 

 

 

publicado às 11:03

Alívio? Qual alívio?

 Por: Pedro Rolo Duarte

No começo, também suspirei de alívio: um ecologista conseguira vencer a escalada, aparentemente imparável, da extrema-direita nas eleições austríacas, numa segunda volta renhida até ao último minuto. Mas foi só no começo.

 

Quando os números finais apareceram, os títulos dos jornais - Áustria rejeita Presidente de extrema-direita, ou Áustria derrota extremistas - eram mais desejo do que facto. Na verdade, foram apenas 31 mil votos que deram a vitória a Alexander Van der Bellen, numa eleição onde 86% dos operários votaram no extremista Norbert Hofer, permitindo-lhe fracturar ainda mais o país com a ideia de que o povo está com ele, e as elites com o Presidente eleito. Quanto aos partidos clássicos, melhor nem falar…

 

Qualquer que seja o ponto de vista, o caso austríaco veio confirmar a fúria populista, xenófoba e anti-europeia que grassa por toda a Europa, numa vaga de fundo que contraria todos os pressupostos que nos trouxeram até aqui no projecto europeu (com excepção de Portugal e Espanha, que preferem a extrema-esquerda para abrigarem as suas indignações e revoltas…). É um momento triste e lamentável, o que vivemos, por mais que o possamos querer entender.

 

Não me parece que seja uma questão eminentemente política - mas antes, uma revelação da raça tal e qual ela é, quando se sente ameaçada ou acossada por algo cujos contornos desconhece. Pode ser a complexa questão dos refugiados ou a simples aritmética de uma Europa onde os países ricos contribuem para que os países pobres deixem de o ser. Tanto faz. A cultura do individualismo é mais forte do que qualquer boa vontade. A sociologia e a psicologia talvez expliquem melhor a evolução política na Europa, e o estado a que chegámos, do que propriamente a falência dos modelos dos partidos clássicos do centrão, ou o cansaço que todos sentimos de governações mal sucedidas, muitas vezes corruptas, quase sempre ineficazes face às promessas do costume.

 

No Portugal brando e tranquilo, onde a revolução maior é um Governo sustentado numa maioria parlamentar que se parece mais com uma gelatina do que com um bolo, o que se passa no resto da Europa parece interessar pouco. Mas sou obrigado a confessar: não fiquei nada aliviado com os resultados das eleições na Áustria. E apesar de ter nascido bem depois de 1945, já acreditei mais que os europeus tinham aprendido de vez a lição - e, podendo não saber o que queriam, sabiam claramente o que não queriam. Hoje, já não digo nada. Ou digo: aliviado, não estou.

 

Mais leituras para esta semana…

 

É o momento de ouro do humor no Brasil dos dias que correm. Já saltou fronteiras, de tal forma que um dos seus principais autores (e actor), está em Portugal, numa digressão de enorme sucesso por todo país (ver programa e datas aqui…). Mas para conhecer bem a fundo esta equipa da “Porta dos Fundos”, nada como ir ao site oficial do grupo, e depois deixar deslizar o dedo pelos cliques nas dezenas de videos disponíveis no Youtube. Um deles, este, é tão actual que ficou a minha escolha desta semana…

  

O jornal digital Observador fez dois anos de vida e, numa manobra que alguns consideram genial, e outros uma espécie de rendição ao velho papel para efeitos de facturação, publicou uma edição impressa, de grande qualidade, muito bem desenhada por Jorge Silva. Quase todas as matérias constituem um “best of” do jornal, mas há alguns exclusivos (entretanto já disponibilizados online). De todos, destaco a excelente entrevista a Pedro J. Ramirez, o temido ex-director do espanhol El Mundo - e que, uma vez dispensado do cargo com uma indemnização milionária, decidiu investir todo esse dinheiro num novo jornal online, o El Español. Vale a pena ler a entrevista na íntegra.

 

O debate sobre o futuro da imprensa diária, em papel ou online, gratuita ou paga, não acaba. Tem já alguns dias aquela que considero talvez a melhor análise (e argumentação também…) sobre a matéria. Está assinada por Lydian Polgreen, editora do New York Times baseada em Joanesburgo, África do Sul, e pode ler-se aqui

 

 

publicado às 10:59

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