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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Quem decide o que aparece no Facebook? O debate já começou

Por: Paulo Ferreira

A pedagogia, a pressão e denúncia públicas e a liberdade de escolha dos utilizadores serão, no fim do dia, os meios mais eficazes para prevenir os excessos de zelo e as práticas abusivas das plataformas electrónicas na selecção de informação

 

 

Perdoem a heresia de me citar a mim próprio mas, como verão, a realidade é que se atravessou descaradamente no caminho. A propósito de algumas propostas para limitar a divulgação de informação relacionada com atentados terroristas, perguntava aqui mesmo há pouco mais de um mês se a icónica fotografia da miúda vietnamita, nua, a fugir do napalm seria hoje publicada.

 

A resposta chegou nos últimos dias e teve como protagonista o Facebook: essa publicação estaria hoje, no mínimo, seriamente ameaçada. Numa era marcada pela ditadura do politicamente correcto e pela paranóica tentativa de higienização de todo o espaço público começamos a deixar de distinguir a essência de cada coisa tomando tudo pela aparência, pelo embrulho, pelo seu valor facial. Se parece, é. Mas pode não ser.

 

Uma criança nua numa foto não é necessariamente um incentivo à pedofilia da mesma forma que a nudez não pode ser confundida com pornografia.

 

O problema não está apenas no Facebook, nos seus cegos algoritmos - haverá algoritmos que não sejam cegos? - ou nos seus colaboradores ignorantes, sem referências históricas e culturais. Basta ver o pudor hipócrita com que os meios de comunicação tradicionais americanos tratam tudo aquilo que seja a nudez ou o calão.

 

Mas, pela dimensão e predominância que adquiriram na distribuição da informação, as plataformas electrónicas são uma parte importante de um problema que as sociedades ocidentais terão que discutir abundantemente: o controlo, hierarquização e formas mais ou menos veladas de censura da informação.

 

É verdade que estas empresas não são órgãos de comunicação social no seu sentido tradicional porque não produzem elas próprias informação ou entretenimento. Não têm redacções próprias com jornalistas, não estão sujeitas aos seus códigos de ética e deontológicos nem a leis que regulam a comunicação social. No entanto, e como já se percebeu, enquanto plataformas de distribuição elas têm poder para decidir que conteúdos produzidos por outros podem ser publicados por eles e vistos pelo público.

 

 

A primeira tentação de muitos será a imposição de regulação administrativa, proibindo algumas práticas e criando regras para outras. Esse é o caminho perigoso. É isso que fazem os regimes autoritários que olham para a liberdade de expressão e de informação como uma ameaça às sociedades. E será tão estúpido tentar travar administrativamente estes novos meios electrónicos e a forma como funcionam como seria proibir a Uber, para citar o exemplo mais à mão de um avanço tecnológico que está a desafiar velhas formas de fazer negócio e servir clientes.

 

Hoje, graças à internet e às redes sociais, há muito mais gente a ler notícias, a reter alguma informação e a perceber o que se passa no mundo do que há duas ou três décadas. Fazem-no entre um vídeo de gatinhos e outro de acidentes de automóvel? Sim, mas fazem-no.

 

A pedagogia, a pressão e denúncia públicas e a liberdade de escolha dos utilizadores serão, no fim do dia, os meios mais eficazes para prevenir os excessos de zelo e as práticas abusivas.

 

Foi isso que aconteceu agora mesmo com o Facebook neste caso da fotografia da criança vietnamita. A censura da foto foi noticiada e partilhada em todo o mundo também através do próprio Facebook. A empresa percebeu o erro e recuou. Certamente que nunca até hoje tanta gente tinha visto a foto icónica da Guerra do Vietname, o que ela representou e o horror que retrata. O passo seguinte, em muitos meios de comunicação internacionais, foi o debate sobre a necessidade do Facebook ter editores capazes de seleccionar e hierarquizar informação de uma forma sensata e conhecedora, para além dos automatismos do algoritmo.

 

Mas o tema é muito mais complexo. Há uns meses o debate nos Estados Unidos era o inverso e a acusação era que os editores que trabalham os “trending topics” do Facebook teriam um enviesamento que estaria a privilegiar informação e temas mais favoráveis aos democratas por oposição aos republicanos. O debate levou a empresa a alterar a sua prática, automatizando o que era até então feito por pessoas. Muitos duvidam que isso resolva alguma coisa. Mas a discussão está em curso e a aprendizagem colectiva também. A vigilância e os alertas públicos são instrumentos mais poderosos do que muitas vezes podemos pensar. Para já, fizeram a devida justiça à foto de Kim Phuc. E provavelmente preveniram que um destes dias alguém sentado em frente a um computador em Silicon Valley trate por igual os frescos da Capela Sistina e uma performance de Cicciolina.

 

 

Outras leituras

 

Pode o estado de saúde de um candidato ajudar a decidir a eleição presidencial norte-americana? O certo é que em cerca de um ano Donald Trump passou do fanfarrão que iria apenas animar as primárias republicanas a candidato com séria chance de chegar à Casa Branca.

publicado às 03:46

Eles querem tornar o sarcasmo online mais fácil de entender

Por: Pedro Fonseca

 

Investigadores portugueses e dos EUA desenvolveram uma rede neuronal para a detecção automática do sarcasmo nos media sociais. O modelo é mais fiável do que outros semelhantes, que usam a análise manual para obter resultados quase semelhantes.

 

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O sarcasmo nas redes sociais já pode ser detectado automaticamente, segundo um grupo de investigadores de Portugal e dos EUA, que desenvolveram um modelo de análise informática para entenderem o que pode ser um potencial enorme negócio. Silvio Amir, Paula Carvalho e Mário Silva, do INESC-ID Lisboa e do Instituto Superior Técnico (Universidade de Lisboa), com Byron Wallace e Hao Lyu, da Universidade do Texas em Austin (EUA), explicam em "Modelling Context with User Embeddings for Sarcasm Detection in Social Media" como criaram uma "rede neuronal" para a detecção automática do sarcasmo nas interacções em redes sociais, baseando-se na informação contextual de publicações anteriores dos autores.

 

A investigação incidiu na rede social Twitter e os investigadores apenas puderam, devido a restrições técnicas desta rede social, ter acesso a mil tuítes de cada utilizador, acabando por analisar 11.541 tuítes de 12.500 diferentes utilizadores.

 

No seu trabalho, os autores citam a definição do sarcasmo como um "caso especial de ironia", em que o seu "sentido literal é entendido como um insulto indirecto" - mas consideram que, "tal como outras formas de expressão subjectiva", os termos são difíceis de definir.

 

No caso das redes sociais, a questão não é a análise fraseológica - "uma exacta mesma frase pode ser interpretada como literal ou sarcástica" - mas depende de quem formula ou escreve com sarcasmo, assim como de um "terreno comum entre partes para ser entendido". Ao analisarem "o contexto" - ou seja, o autor - conseguem "ganhos significativos na precisão" dessa análise.

 

Apesar de assumirem que o trabalho não é inovador, por já existirem outros sistemas de análise de media sociais baseados no contexto passado do utilizador, o problema com estes últimos é a necessidade de terem funcionalidades complexas de classificação manual e a "incapacidade para detectar de forma fiável e interpretar linguagem figurativa".

 

Segundo os investigadores, "isto é particulamente relevante em domínios como as ciências sociais e políticas, em que o uso de dispositivos de comunicação figurativa como a ironia verbal (ou, de outra forma, o sarcasmo) é comum". Como explicava a TechCrunch, "a mesma exacta frase e pontuação podem significar coisas muito diferentes provenientes de diferentes pessoas. Imagine-se, por exemplo, a frase "Make America great again" a ser escrita no Twitter por um apoiante de Trump e por quem se opõe a ele. As mesmas palavras, [mas] significados completamente diferentes".

 

Perante um recente modelo de análise semelhante, mas manual, os investigadores asseguram conseguir uma "fiabilidade absoluta" de 87%, ou 2% acima dos modelos concorrentes. Por outro lado, acreditam que o seu modelo será "mais fácil de desenvolver noutros diferentes ambientes de media sociais".

 

Também a revista New Scientist demonstrava que, sem a ajuda de uma "hashtag" (classificador de expressões, como #ironia), analisar o "sarcasmo online pode ser difícil, mesmo para os seres humanos", pelo que para os computadores "é muitas vezes uma grande dor de cabeça". Mas é "um grande negócio", quando os "anunciantes publicitários registam as atitudes e estados de espírito das pessoas, [e] as empresas e os governos acompanham a opinião pública".

 

Assim, perceber o que realmente é dito nas redes sociais - sem as potenciais armadilhas irónicas - torna-se um desafio. E um potencial negócio.

 

O modelo, além de funcionar noutras redes sociais, também pode ser usado para diferentes línguas. E, como explicava Mark Carman, da australiana Monash University, será relativamente fácil integrar este modelo na análise emotiva dos utilizadores de redes sociais, tendências bolsistas, na análise de marcas e de apoio a clientes, ou em assistentes virtuais como o Siri.

 

Em resumo, "diga-me do que fala e eu posso dizer quem você é", explicava Silvio Amir à New Scientist.

 

O estudo, será apresentado amanhã, 11 de Agosto na conferência CoNLL, organizada pelo SIGNLL (Special Interest Group on Natural Language Learning) da Association for Computational Linguistics, em Berlim (Alemanha).

 

 

Créditos de imagem: http://time.com/3966291/donald-trump-insult-generator/

publicado às 21:33

O que não verá dos Jogos Olímpicos mesmo que aconteça

Por: Pedro Fonseca

 

Viu as imagens do músico brasileiro que transportava a tocha olímpica a mostrar as nádegas e a ser imobilizado pela polícia brasileira? Se as não conseguiu ver, é porque provavelmente estava sintonizado num dos canais de televisão credenciados para os Jogos Olímpicos, que decorrem de 5 a 21 de Agosto no Rio de Janeiro, no Brasil. É um controlo olímpico.

 

 

O Comité Olímpico Internacional tem regras rígidas para as pessoas credenciadas nas Olimpíadas publicarem nos media e nas redes sociais. De atletas a jornalistas, todos têm de cumprir estas regras ou podem ser penalizados. O músico Tarcísio Gomes transportava a tocha olímpica já dentro da cidade brasileira quando mostrou as palavras "Fora, Temer" escritas no rabo, em protesto contra o presidente interino Michel Temer. Mas a maior parte dos espectadores não viu nada disso - precisamente porque estas regras existem.

O transporte da tocha olímpica teve outros incidentes, mas poucos foram revelados nos orgãos de comunicação social credenciados.

 

Também a cerimónia de inauguração terá um truque sonoro, após a única frase que Temer irá dizer: "declaro abertos os Jogos do Rio, celebrando a 31ª Olimpíada da era moderna". Depois, a música será elevada para "evitar que as emissoras de televisão captem um possível momento constrangedor com vaias ou xingamentos do público contra Temer", antecipou o jornal Folha de S. Paulo.

 

Este controlo mediático, para que tudo pareça correr bem num evento desta dimensão, ocorre porque o Comité Olímpico Internacional (COI) tem regras para os credenciados em cada um dos seus eventos, além das emitidas pelos "comités olímpicos nacionais ou outras organizações".

 

 

Diário sim, notícia não

 

Este ano, as directrizes do COI para os media sociais e digitais (aprovadas em Outubro do ano passado e em vigor desde a abertura da Vila Olímpica, a 24 de Julho passado, até ao seu encerramento) implicam que "todos os atletas, técnicos, agentes, funcionários de comités olímpicos nacionais e de federações internacionais e membros de meios de comunicação credenciados" não podem visar nas suas mensagens "fins de protesto ou qualquer forma de propaganda política, religiosa ou racial".

 

Apesar do COI estimular a participação nesses media, impõe que tal só pode ser "feito em formato de diário na primeira pessoa" (para não se confundirem com notícias) e respeitadas as suas directrizes. Estas dizem, por exemplo, que "o uso de palavras ou imagens vulgares ou obscenas é proibido", mas não se explicita o que é "vulgar". E o texto opinativo é permitido mas é necessário deixar "claro que as opiniões expressas são" as dos autores.

 

Os credenciados estão ainda autorizados a registar "áudio ou vídeo dos eventos, competições ou quaisquer outras actividades que ocorrerem em locais olímpicos para seu uso pessoal", mas não o podem colocar nos media digitais - em "streaming" ou em qualquer outro tipo de media - sem aprovação prévia do COI. E "nenhum equipamento de TV, tripé ou monopé é permitido" para o registo e posterior partilha pessoal desses momentos.

 

Estes conteúdos "devem ser exclusivamente para uso pessoal e não podem ser carregados nem partilhados em qualquer site de Internet, blogue, página de media sociais, sites de partilha de fotos ou vídeos ou outras aplicações móveis". Ou seja, não é permitida a transmissão de imagens em "streaming" - mesmo nas competições em que entram os próprios atletas.

 

Controlo das marcas

 

Os credenciados para os Jogos Olímpicos também não podem usar os símbolos registados nem sequer a palavra “olímpico” ou outras relacionadas com as Olimpíadas, como emblemas ou mascotes dos comités olímpicos nacionais "e/ou Rio 2016", sem "a aprovação prévia por escrito" dos comités nacionais ou do organizador da Rio 2016.

 

Mesmo um endereço na Internet, nos media sociais ou em aplicações móveis que usem as palavras "olímpico", "olímpicos" ou outros termos semelhantes e que possam ser relacionados com os Jogos Olímpicos (incluindo "idiomas diferentes do português") "não são permitidos, a não ser quando aprovados previamente pelo COI".

 

O controlo destas marcas é de tal forma restrito que "as pessoas credenciadas não podem criar websites, aplicações ou quaisquer outros recursos autónomos com temas olímpicos", incluindo aqueles potenciais "para hospedar a cobertura dos Jogos". A restrição impõe-se igualmente a terceiros que façam a gestão desses endereços online ou em aplicações móveis.

 

Os direitos exclusivos incluem "o símbolo olímpico, bandeira, lema, hino e identificações (inclusive, mas sem limitação, 'Jogos Olímpicos' e 'Jogos das Olimpíada'), designações, emblemas, chamas e tochas, denominados, colectiva ou individualmente como 'Propriedades Olímpicas'").

 

Ainda segundo o COI, não é sequer possível "divulgar qualquer informação que seja confidencial ou privada em relação a outra pessoa ou organização" dentro da cidade olímpica - sem se especificar, mais uma vez, a abrangência desta norma.

 

As infracções permitem ao COI "cancelar o credenciamento da pessoa ou organização responsável", entre outras sanções com efeitos legais, nomeadamente sobre a violação dos direitos das suas marcas.

 

Por outro lado, "durante o período dos Jogos, as pessoas credenciadas não estão autorizadas a comercializar [as] suas actividades de medias sociais e Internet", mas "podem publicar sobre [os] seus patrocinadores, promover qualquer marca, produto ou serviço em media sociais ou digitais" após terem "obtido a aprovação prévia por escrito do COI ou do respectivo comité olímpico nacional".

 

Media exclusivos e justos

 

As normas para os orgãos de comunicação social são igualmente restritivas, nomeadamente na transmissão de imagens. O COI assume, num documento de Maio de 2015 sobre "as regras para acesso a notícias aplicáveis à transmissão dos jogos da XXXI Olímpiada", que "possui os direitos aos Jogos Olímpicos e a todos os eventos relacionados, incluindo todos os direitos de propriedade intelectual dos e para os Jogos Olímpicos, e todo o fundo de comércio associado, bem como todos os outros direitos, propriedades e participações de todos os tipos e natureza relacionados à organização e realização dos Jogos Olímpicos, incluindo a transmissão, cobertura e exibição dos Jogos Olímpicos e qualquer outra forma de exploração, registo, representação, comercialização, reprodução, acesso e disseminação por quaisquer meios ou mecanismos de qualquer tipo", sejam os "existentes actualmente ou desenvolvidos no futuro".

 

Apesar de os Jogos Olímpicos serem um evento de interesse público, apenas "as transmissoras detentoras de direitos (TDD) podem ter o direito de transmitir e exibir" os mesmos. Para o COI, "nenhuma outra organização pode transmitir e exibir som ou imagens em movimento de qualquer evento olímpico, especialmente sessões de treino, acções desportivas, a cerimónia de abertura, a cerimónia de encerramento e cerimónias de vitória, zonas mistas, entrevistas ou outras actividades que ocorram em locais olímpicos". Estas denominadas "Regras para Acesso a Notícias (RAN)" visam "o propósito exclusivo de permitir reportagens justas sobre os Jogos" durante os mesmo por quem não é detentor de direitos (os referidos TDD).

 

Assim, é "rigorosamente proibida" a transmissão de imagens "pela Internet, plataformas móveis ou de outra forma", até porque "o material olímpico só será fornecido a agências de notícias ou não-TDD caso estas forneçam uma garantia prévia por escrito, em forma e substância satisfatórias para o COI, de que cumprirão integralmente todos os termos e condições destas RAN".

 

Há, ainda assim, a possibilidade das não-TDD exibirem esses vídeos "somente com o acordo específico por escrito da TDD local". Neste caso, terão direito a seis minutos de "material olimpico por dia", que só "pode aparecer em no máximo três programas de notícias por dia" e "não mais do que dois minutos" a "ser usado em qualquer programa de notícias individual", que devem ainda "ser separados por um período de no mínimo três horas".

 

Em síntese, e apesar da enorme duração do "material olímpico", o COI define o tempo para os operadores transmitirem os seus conteúdos, influenciando a agenda noticiosa desses meios.

 

 

Gerir a "realidade concreta"

 

Como se não chegasse, esse "material olímpico só pode ser usado por um período de 48 horas após a conclusão do evento olímpico", e apenas pode ser usado posteriormente com "a autorização expressa por escrito do COI".

 

Os não-TDD não devem ainda "empreender entrevistas por [telemóvel] com atletas e representantes das equipas" e "não alterar nem modificar por quaisquer meios a realidade concreta de qualquer evento em transmissão ou exibição, dos participantes em tal evento, do desempenho de tal participante ou do local de qualquer evento".

 

Quando se pensa que um organizador olímpico chegou ao fim das exigências relativas à emissão noticiosa de um seu evento olímpico descobre-se que, "para fins de cobertura de conferências de imprensa oficiais", os não-TDD apenas as podem transmitir "sem quaisquer restrições territoriais, desde que haja um atraso de, pelo menos, 30 minutos a partir da [sua] conclusão".

 

Além das "reportagens justas", o COI prevê "adicionalmente" que "todo o material - sejam destaques, entrevistas ou outros clipes associados", deve igualmente "ser geobloqueado adequadamente para o território apropriado". Dito de outra forma, "a transmissão do material olímpico na Internet ou plataforma móvel não pode estar acessível para pessoas fora do território específico" e "qualquer transmissão" nesses meios "é expressamente proibida".

 

Este geobloqueio (que permite a emissão de vídeos num dado país mas não noutro), e que várias organizações europeias querem extinguir, foi igualmente abordado pela Comissão Europeia, mantendo excepções que o COI pode argumentar - com toda a razão, actualmente - serem válidas para estas suas "directrizes".

publicado às 21:14

Agora tu és um cavalo de corrida

Por: Rute Sousa Vasco

O que fica a saber do mundo, sobretudo em momentos de grande tensão, um leitor que lê informação nos sites e nas redes sociais? No conforto preguiçoso do seu sofá, ou no espaço higienizado do seu escritório, que informação é dada naquele fuso que se tornou obrigatório nas notícias – o “agora”? O que sabe, na realidade, o caríssimo leitor sobre o que se está a passar no interior de uma igreja no norte de França ou num restaurante, no sul da Alemanha?

 

 

Sabe o que lhe dizemos. Agora, dizemos que são dez feridos. Agora, dizemos que já há um morto. Daqui a um minuto, no próximo agora, dizemos que afinal são onze feridos. Depois dizemos que o morto é sírio e que terá sido abatido. Mais um agora, e afinal já se sabe que se suicidou. Dizemos que um padre foi morto por um mulçulmano. Dizemos que um miúdo matou outros dez, porque era muçulmano. Começou por ser turco, passou por alemão, agora parece que é iraniano e de extrema-direita. Afinal não, era só manipulação para dividir a opinião. Mais um agora e afinal há menos feridos. Melhorou. Mas afinal o padre foi degolado. Piorou.

 

 

É isto que se sabe. O que não se sabe é como hoje a informação se tornou, provavelmente, a área mais difícil e ao mesmo tempo mais fácil para se trabalhar. Tudo depende da perspectiva. É fácil publicar – fácil como nunca foi. É estranho o que significa hoje “publicar” – significa, em grande medida, seguir o que outros escrevem, nos seus sites, ou em redes sociais, onde no que respeita a primeiras notícias (ou últimas horas, como quiserem), o Twitter é rei. Quem é rei no Twitter? Depende. Há reis encartados pela reputação de anos, há oportunistas malévolos e há súbitas fontes de informação directas – como foi o caso da página de Twitter da polícia de Munique, na sexta-feira passada, que foi a referência de muitos jornalistas para seguir o tiroteio que teve lugar na cidade alemã.

 

 

Mas é mais difícil do que nunca trabalhar informação naquilo que distingue o jornalismo de um outro qualquer produto de consumo. Num negócio que luta por novas receitas e por novos modelos de negócio, tudo parece boa ideia a alguém em algum momento. Jornalistas, gestores, vendedores de publicidade, tecnólogos, gestores de redes sociais, por aí fora. E é legítimo – é preciso experimentar, é preciso testar, é preciso não desistir. O problema é que a linha que separa o que se pode fazer quando se trata de informação do que não se pode fazer é ténue para muitos, mas quase sempre está preparada para electrocutar. Uma vez passada, já alguém se fritou. E não tem problema – há muito lugar na selva dos media contemporâneos para produtos fritos, provavelmente até mais do que para o jornalismo saudável. Mas, é tal qual escrevia Katherine Viner, a directora do The Guardian, num artigo sobre a verdade nos tempos da tecnologia. “Nos últimos anos, muitas empresas jornalísticas afastaram-se do jornalismo de interesse público e apostaram em notícias junk-food, correndo atrás de pageviews e com a vã esperança de atrair cliques e publicidade (ou investimento) – mas, tal e qual como acontece quando comemos junk food, odiamo-nos por ter feito isso”.

 

 

Ser rápido tornou-se o requisito principal de uma profissão que tem como missão reunir factos e propor interpretações sobre os mesmos. Agora é suposto fazer isso em menos de 30 segundos, porque numa janela qualquer do nosso computador já outro editor em qualquer outro site ou rede está a ser mais rápido a teclar. Com erros inevitáveis, demasiadas vezes sem confirmação, cheios de verbos no condicional, aí vamos nós, em direcção ao precipício da publicação. Mas é preciso publicar, rápido.

 

 

Ao compasso impiedoso de cada tweet, de cada trending topic, de cada post, de cada link, de cada última hora.

 

 

E é também assim que estamos a deixar fermentar a selvajaria – a pior de todas, aquela que nos vai deixar selvagens perante a selvajaria do mundo lá fora.

 

 

Em muitas redacções, não se pensa, tecla-se. Quem quer discutir princípios e consequências, não tem perfil. Há métricas para avaliar quantos artigos são publicados ou produzidos – curiosamente o termo “escritos” quase caiu em desuso nesses espaços – por hora. Publica, publica, publica. O que conta é chegar primeiro e publicar muito. Não é um problema só nosso – é um problema da maior revolução de sempre na forma como comunicamos, informamos e nos relacionamos.

 

 

A New York Magazine entrevistou mais de quarenta jornalistas e profissionais de media sobre a sua profissão. Vale a pena ler os resultados integrais, mas deixo um pequeno aperitivo.

 

 

Dos inquiridos, 75% acham que a internet foi boa para o jornalismo. Mas 44% respondem que o jornalismo é hoje pior do que há dez anos versus 36,7% que consideram que está melhor. 75,2% afirmam que sentem pressão para produzir histórias que sejam atractivas para a audiência. E de onde sentem a principal pressão? Da audiência? Não. Do patrão (41,07%) e aquela que o próprio jornalista exerce sobre si próprio (36,5%). Audiência só conta 17,8% nesta equação.

 

 

Já agora, 81,5% destes inquiridos dizem que os media ajudaram a “criar” Donald Trump.

 

 

E é aqui que me lembro de uma pergunta que há sempre alguém que faz. Qual é o mal? Apetece-me hibernar cada vez que ouço esta pergunta. Não pela sinceridade e mesmo ingenuidade com que alguns a farão. Mas, mais uma vez, pela inconsequência. Qual é o mal de não ter mal perguntar sempre qual é o mal? É que nada tem importância, porque tudo só dura uns escassos minutos e depois ninguém se lembra. São Dorys, o peixinho de águas quentes, feliz porque desmemoriado.

 

 

Tenham um bom fim de semana

 

 

 

Outras sugestões de leitura:

 

 

Hoje as sugestões de leitura de ficam integralmente em casa, ou seja, no SAPO24. Porque a oferta é boa e vale a pena o vosso tempo.

 

 

A primeira sugestão é um artigo da Helena Oliveira sobre uma nova epidemia, a do narcisismo. Qual Narciso, há cada vez mais pessoas apaixonadas pelo seu próprio reflexo e assim se multiplicam posts, fotos, streaming da vida diária. Psicólogos, filósofos e outros cientistas sociais estão preocupados com uma epidemia que cresce mais depressa que a da obesidade.

 

 

A segunda gestão, na semana em que Hillary Clinton se tornou a primeira mulher candidata à presidencia americana por um dos grandes partidos, é a leitura do artigo do José Couto Nogueira sobre as mulheres que antes dela tentaram lá chegar

 

publicado às 14:41

A 'showciedade': há uma epidemia de narcisismo?

Por: Helena Oliveira

 

O narcisismo parece estar a contaminar as sociedades ocidentais como se de uma epidemia se tratasse. Os nossos egos estão, de acordo com vários estudos, a engordar a um ritmo bem mais acelerado do que a obesidade física, ela própria decretada como um dos grandes problemas das sociedades ocidentais. Ou seja, temos egos demasiado gordos. Culpa dos pais indulgentes, que transmitem aos filhos a ideia de que são “mais especiais do que os outros”, das redes sociais por proporcionarem o palco por excelência para quem procura exibir a sua grandiosidade ou apenas um “novo normal” ao qual nos temos de habituar?

 

 A modelo Gigi Hadid faz a vontade aos fãs e cumpre o ritual da selfie

 

Recordar-se-á o leitor de um famoso anúncio a uma marca que, há mais de uma década, questionava “se eu não gostar de mim, quem gostará”? E, se puxar pela memória, talvez se lembre também que, passado uns anos, a mensagem da mesma marca se inverteu e o slogan passou a ser “se eu gostar de mim, quem não gostará?”.

Pois bem, a ideia de este artigo não é a de escrever sobre mensagens subliminares veiculadas pelo admirável mundo da publicidade, mas a de alertar para um debate, que não sendo propriamente novo, tem vindo a ganhar contornos renovados com a emergência de uma sociedade em que o narcisismo – ou uma visão crescentemente insuflada do “eu” – parece estar a impregnar-se, crescentemente, em todas as suas esferas.

 

Poderíamos já saltar diretamente para o mundo virtual e culpar, de imediato, as redes sociais – que tão bem veiculam, 24/7, manifestações egocêntricas constantes – mas isso seria escolher o atalho antes de percorrer pelo menos uma boa parte do caminho. Sim, é verdade que ao longo dos últimos anos, e em particular com o advento do Facebook, do Twitter e do Instagram, se multiplicaram os estudos, e a literatura, no que respeita à tentativa de se estabelecer uma ligação direta entre o aumento do narcisismo e os media sociais. Mas, e como defendem também outros “especialistas” da praça, estes servem apenas de meios privilegiados e imediatos para expressar tendências narcísicas preexistentes. E sim, lá iremos, mas não antes de tentar dar uma ordem minimamente cronológica ao assunto.

 

Há já várias décadas, e em particular a partir dos anos 70 e 80 do século passado, que antropólogos, sociólogos e outros “ólogos” afins se uniram na caracterização da sociedade ocidental como “individualista”, fazendo correr rios de tinta sobre o fenómeno. É, no entanto, sobretudo no final do século XX e inícios do século XXI que uma mudança cultural mais alargada, envolvendo valores, crenças e práticas bem demarcadas, se pôs em marcha, e acelerada, no sentido do que já é defendido por vários pretensos entendidos no assunto como a “sociedade obsessivamente narcísica” ou a “epidemia do narcisismo”.

 

quais são as implicações psicológicas e éticas de um envolvimento constante, ou de uma verdadeira obsessão, com a vida passada num palco e à vista de todos

 

Para vários investigadores, uma reflexão sobre este narcisismo aparentemente descontrolado é de particular importância, e há duas perguntas que importa fazer: quais são as implicações psicológicas e éticas de um envolvimento constante, ou de uma verdadeira obsessão, com a vida passada num palco e à vista de todos e de que forma é que este fenómeno altera os nossos relacionamentos com os outros e a visão que temos de nós próprios.

 

Fome emocional ou verdadeiro amor?

 

Para alguns observadores, o fardo é colocado em cima dos ombros dos “novos pais”, que não se limitam a encorajar os seus filhos a alcançarem um saudável autoconhecimento. A título de exemplo, o psicólogo clínico Robert Firestone, no livro “The Self Under Siege: A Therapeutic Model for Differentiation”, afirma que para as crianças se sentirem seguras e terem confiança em si mesmas, é essencial que os pais saibam distinguir a “fome emocional” do verdadeiro amor. Este amor parental “genuíno” inclui carinho, afeição e uma sintonia no que respeita às necessidades das crianças, bem como a oferta de orientação e controlo quando apropriado. Ou, em suma, o tipo de amor que ajuda as crianças a desenvolver uma verdadeira autoestima e não traços de personalidade narcisistas.

 

 

Kevin Frazier, Daniela Ruah, Eric Christian Olsen, James Wolk, e Kirsten Vangsness não resistiram à selfie de grupo na última edição da Comic-Con.

 

Por outro lado, o debate extrema-se entre os que pretendem culpar a Internet e a sua capacidade para customizar as experiências que nela se tem de acordo com os nossos mais ínfimos desejos, o que nos pode tornar mais narcisistas, e os que defendem que esta constitui apenas o terreno apropriado para que traços preexistentes de narcisismo atinjam o seu esplendor.

 

Elias Abajoude, professor de psiquiatria em Stanford, escreve no livro “Virtually You: The Dangerous Powers of the E-personality”, que no espaço virtual muitas das interações físicas que restringem certos tipos de comportamento desaparece, permitindo que comportamentos como delírios de grandeza, narcisismo, malícia ou impulsividade venham mais facilmente ao de cima. Ou seja, “os traços [de personalidade] de que gozamos online podem ser incorporados nas nossas personalidades offline”.

 

De uma forma ou outra, e independentemente das “correntes”, o único consenso aparente parece residir no aumento do narcisismo no mundo ocidental. Resta saber se nos devemos preocupar seriamente com o mesmo ou se estamos, somente, a viver um “novo normal”.

 

Engordar o ego desde pequenino

 

A ideia de que o narcisismo não só está a aumentar descontroladamente, como está a tomar a forma de uma epidemia está bem expressa num livro, publicado em 2009, intitulado exatamente “The Narcissism Epidemic: Living in the Age of Entitlement” e escrito em co-autoria por Jean Twenge, doutorada em Psicologia, professora na Universidade de San Diego e autora do best-seller “Generation Me” e por W. Keith Campbell, também doutorado em Psicologia, docente na Universidade da Georgia e considerado como um dos maiores especialistas neste transtorno comportamental.

 

mulheres jovens palestinos tomar selfies durante confrontos com as forças de segurança de Israel na sequência de uma marcha contra a confiscação de terras da Palestina em 15 de abril de 2016 na vila do banco ocidental de Nabi Saleh perto de Ramallah .

 Palestiniana tira uma selfie no meio de confrontos com as forças de segurança de Israel

 

O livro, que retrata esta “distúrbio” como uma praga, avaliou 37 mil estudantes universitários e concluiu que os traços de personalidade narcísica estão a aumentar de uma forma tão rápida quanto os níveis de obesidade (em mais de 50% desde 1980), sendo esta uma das razões que levou os autores a considerarem o narcisismo como uma “doença epidémica”, numa espécie de “egos demasiado gordos”. O livro, que gerou bastante polémica e descrença q.b. por parte da comunidade académica –ao comparar décadas de resultados de testes de personalidade, Twenge concluiu que as gerações mais novas - nomeadamente a Y - são abusivamente privilegiadas, obcecadas por si mesmas e mal preparadas para a vida real – contribuiu, contudo, para estimular, ainda mais , o debate sobre o narcisismo.

 

Culpando a “cultura americana da autoestima exacerbada”, na qual todos os pais se esforçam por assegurar que as suas crias são “especiais” e cujos sentimentos de valor individual e “único” são considerados como pré-requisitos para o sucesso e não o resultado do mesmo, os autores desmontam os mitos prevalecentes que parecem indicar uma tolerância e até um encorajamento social do narcisismo: a de que este é um mecanismo próprio de uma autoestima elevada, ou, ao invés, de uma autoestima reduzida, de que um pouco de narcisismo é saudável e não faz mal a ninguém, de que os narcisistas são, na verdade, “superiores” e mais facilmente atingem o “sucesso” ou, e voltando ao anúncio que abriu este texto, de que temos de nos amar a nós próprios, em primeiríssimo lugar, para sermos capazes de amar os outros.

 

Tudo isto está presente na nossa cultura, defendem, e começa de imediato na tenra infância – parece que comprar t-shirts estampadas com a palavra “princesa” ou o seu correspondente masculino não constitui ação abonatória para os pais modernos. Para os dois psicólogos, as crianças de hoje crescem num mundo de aceitação “normal” de comportamentos e valores narcisistas, sendo que são muitos os pais e educadores que se esforçam por convencer os filhos de que estes são únicos e especiais, elogiando-os a toda a hora, satisfazendo todos os seus caprichos e conferindo-lhes grandes doses de poder.

 

crianças que cresceram a sentirem-se mais especiais do que os seus pares, acabam por se transformar em adultos que esperam, simplesmente, atingir o “sucesso” fácil e rapidamente – em conjunto com a fama e com o dinheiro que lhe é inerente 

 

Ora, e de acordo com Twenge e Campbell, incutir nas crianças este sentimento de unicidade nada mais é do que narcisismo puro e o mesmo chega a situações tão ridículas quanto o facto de 223 crianças nascidas na Califórnia nos anos 90 terem sido batizadas como Única(s), de existirem estabelecimentos do ensino pré-escolar que instituem o”Mês do Tudo Tem a Ver Comigo”, de alguns clubes de desporto infantil terem acabado com os resultados nos jogos, para não amolgarem os egos dos perdedores ou, no extremo oposto, de oferecerem troféus a todos os miúdos, só porque estão numa equipa. E, muito por causa disso, são também cada vez mais os estudos que comprovam que as crianças que cresceram a sentirem-se mais especiais do que os seus pares, acabam por se transformar em adultos que esperam, simplesmente, atingir o “sucesso” fácil e rapidamente – em conjunto com a fama e com o dinheiro que lhe é inerente – que se ofendem à mínima afronta relativamente à sua suposta superioridade e que, de forma rotineira, se consideram a exceção de qualquer que seja a regra.

 

Narciso, Freud, Ayn Rand, Greenspan, Breivick e Lance Armstrong?

 

Mais recente, num registo diferente, mas com algumas temáticas em comum, é o livro “The Life of I: The New Culture of Narcissism”, publicado em 2014 por Anne Manne, jornalista australiana e filósofa social, que cita igualmente um corpo crescente de pesquisa que demonstra o aumento do culto do narcisismo nos países ocidentais. Por exemplo, e tendo mais uma vez os estudantes universitários dos Estados Unidos como universo privilegiado de estudo, a autora garante que são cada vez mais os jovens que elegem a fama e a fortuna como os seus principais objetivos de vida e não, por exemplo, o bom caráter e o bem que faz fazer bem aos outros, mais consentâneos com as gerações mais velhas. Para a jornalista, o ‘umbiguismo’ atual está, também, a tornar-se num “novo normal”. E, em sintonia com Twenge e Campbell, também Anne Manne concorda que o narcisismo é estimulado por pais indulgentes, que não sabem estabelecer limites e que incutem nos filhos um sentimento de autoestima exagerado.

 

Apesar de o narcisismo ser terreno propício ao estudo por parte de psicólogos e psiquiatras, esta jornalista, mas também filósofa social, sempre se interessou por este “distúrbio de personalidade” e, no livro em causa, não só revisita as ideias de autoridades na matéria, como por exemplo as de Sigmund Freud, pioneiro no estudo sobre a temática, como dá exemplos de criaturas atuais que tão bem vestem as roupagens de Narciso - o jovem caçador que se apaixonou pelo seu reflexo – e que haveria de dar o nome, curiosamente pedido emprestado por Otto Frank, um colega do próprio pai da psicanálise, a todos aqueles que sentem “um apetite enorme e constante de serem admirados, que revelam sentimentos de superioridade, uma predisposição para a exploração, impulsividade e ausência de empatia e, talvez mais importante que tudo, uma agressividade retaliatória quando sentem que o seu ego inflacionado é, de alguma forma, ameaçado”.

 

Na sua cruzada de rever o trabalho de muitos investigadores académicos, entre outros apaixonados pela temática, Anne Manne garante que o narcisismo está em genuíno crescimento um pouco por todo o lado e, mais preocupante que tudo o resto, são os seus impactos tóxicos na comunidade, na cultura, na política, na economia e até no ambiente. Para a autora, a ideologia prevalecente do neoliberalismo alimenta a cultura do narcisismo e as consequências deste repasto são globais. Apontando o dedo às crenças e práticas construídas em torno da idolatria dos mercados e da glorificação da ganância, é na cultura do auto interesse, particularmente em voga a partir dos anos de 1980, que os comportamentos narcisistas encontraram terreno fácil para crescer e se multiplicarem.

 

Hillary Clinton: fazer selfies com apoiantes é um clássico das campanhas eleitorais 

 

Para exemplificar as múltiplas dimensões narcísicas do neoliberalismo, a jornalista australiana utiliza como exemplo uma das mais influentes defensoras do individualismo no século XX, a escritora, dramaturga e filósofa norte-americana (apesar de nascida e educada na Rússia) Ayn Rand. Tendo como base a filosofia aristotélica, Ayn Rand é a fundadora do objetivismo, que elege a razão e a lógica como a única forma de observar o mundo, ao mesmo tempo que defende fervorosamente que o indivíduo tem o direito de viver por amor a si mesmo e sem ser obrigado a se sacrificar pelos outros. Admiradora do egoísmo ético, do capitalismo do laissez faire, e do sistema que definiu baseado no reconhecimento dos direitos individuais, a filósofa que condenava, entre variadíssimas coisas, o altruísmo, haveria de servir de inspiração a muitos americanos, contando, no seu círculo íntimo de amigos e admiradores, com um acólito muito especial: o economista Alan Greenspan. Aquele que viria a ser presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos é, para Anne Manne (e não só), um dos grandes responsáveis pelos fundamentos da crise financeira global de 2008.

 

Um outro exemplo de como o narcisismo tem consequências e impactos globais negativos está relacionado com as alterações climáticas. Para a autora, o ceticismo persistente no que respeita ao aquecimento global é, também, um claro sintoma de um narcisismo crescente. A nível individual, a relutância em se alterar comportamentos em prol de um bem maior ou a inexistência de qualquer preocupação face ao planeta que iremos deixar às gerações futuras constituem sintomas claros de um narcisismo crescente. E, é claro, a nível político e económico, os interesses instalados da indústria dos combustíveis fósseis e o amor sem limites aos lucros de curto prazo encaixam igualmente bem nas características do mesmo.

 

Em “The Life of I”, e entre outros exemplos bem conhecidos, a autora traça o perfil do assassino em massa Anders Breivick, mas também do famoso ciclista americano, entretanto caído em desgraça, Lance Armstrong. No primeiro caso e recordando que apesar do termo “narcisista” não ter, na linguagem popular, uma conotação assim tão negativa, Anne Manne recorda que o mesmo é reconhecido como uma desordem da personalidade que inclui traços patológicos.

 

Recordando a publicação online do manifesto de “auto grandeza” com 1500 páginas escritas pelo assassino norueguês, a 22 de Julho de 2011, dia do massacre dos 69 jovens na ilha de na ilha de Utoya, o qual expressava a superioridade do mesmo face ao ódio visceral que manifestava contra muçulmanos, feministas ou multiculturalistas, e que acabou por resultar na morte de 77 pessoas no total, a autora elenca um conjunto de traços facilmente reconhecíveis nos narcisistas mais “psicologicamente desordenados”: a ideia de grandiosidade, a obsessão com a aparência, o culto da superioridade e a total ausência de empatia face aos demais.

 

Já o caso de Lance Armstrong é apresentado como um bom exemplo do “narcisismo no desporto”, acompanhado de corrupção e erosões de caráter, sendo que o que a autora pretende sublinhar é a ideia de que “não importa quem está no caminho, nem o como se chega lá, o que interessa é ganhar”. Ao questionar se a corrosão do caráter no desporto é emblemática de um sistema social mais alargado, Manne leva-nos a perguntar a nós mesmos se o narcisismo não é, afinal, o “caráter” dos nossos tempos ou o tal novo normal que muitos parecem defender.

 

Importante sublinhar é o facto de o narcisismo não constituir, simplesmente, “egoísmo ou vaidade exacerbados”. Citando Christopher Lasch, autor do livro “The Culture of Narcissism”, publicado em 1979, Manne recorda o que Lasch descreveu há quatro décadas e que tão bem parece encaixar em muitas das caracterizações que comummente são aplicadas à tão falada geração Y da atualidade: “superficialidade, incapacidade para o compromisso, uma autopreocupação alimentada pela ‘sociedade do espetáculo’ na qual as pessoas se comportam como ‘se as suas ações estivessem a ser gravadas e simultaneamente transmitidas a uma audiência invisível’”.

 

O que parece indicar que Lasch era um visionário ou não vivêssemos nós hoje num permanente espetáculo, ao vivo e em transmissão contínua, não só protagonizado por uma praga de Kardashians, mas também por especialistas em selfies, egocêntricos palradores e vaidosos em excesso que, a todo o momento, nos querem convencer de que não existe vida melhor que a deles.

 

#eu ou a vida no Inchagram e arredores

 

Uma pesquisa rápida no Google e chovem estatísticas, acompanhadas de inúmeros sites que “ensinam” a obter os melhores resultados de exposição possível comparativamente aos nossos pares. Mas fiquemo-nos pelos números: os utilizadores do Instagram partilham cerca de 70 milhões de fotos por dia; no Facebook, o upload de fotos chega aos 300 milhões diários, em cada 60 segundos são atualizados 293 mil estados, “postados” 3,5 mil milhões de likes num só dia e todos os dias são cerca de 1,4 mil milhões de pessoas – qualquer coisa como 20% da população mundial – que publicam detalhes da sua vida na ainda mãe de todas a redes; por último e no Twitter, 310 milhões de utilizadores enviam, diariamente, 500 milhões de tweets, 83% dos líderes mundiais têm aqui conta e Caitlyn Jenner foi a personalidade que mais rapidamente atingiu um milhão de seguidores (em apenas quatro horas).

 

todos os dias são cerca de 1,4 mil milhões de pessoas – qualquer coisa como 20% da população mundial – que publicam detalhes da sua vida na ainda mãe de todas a redes

 

Que terreno mais fértil do que este para acolher narcisistas e, consequentemente, para alimentar dezenas de estudos sobre a ligação direta entre o aumento do narcisismo e as redes sociais? Apesar de não existir um consenso generalizado sobre o fenómeno, inúmeras investigações têm sido levadas a cabo para comprovar que o aumento do Distúrbio da Personalidade Narcisista (ou transtorno, ou desordem, dependendo dos autores) está intrinsecamente relacionado com a ubiquidade dos media sociais. Comportamentos como as tentativas obsessivas de atrair o maior número possível de seguidores, a tendência exagerada de expor os pormenores da vida privada (desde que positivos, é claro) e a necessidade de se projetar uma imagem perfeita continuamente, têm sido descritos pelos investigadores como exemplos inequívocos da exibição de traços de personalidade narcisista nas redes sociais.

 

Trabalhadores da construção civil retratam-se com François Hollande 

 

Curioso é, contudo, o facto de em 1987 – e uns bons anos antes do boom da Internet – os psicólogos Hazel Marcus e Paula Nurius terem defendido a existência, em cada um de nós, de dois “eus”: um “eu agora” e um “eu possível”. Pois bem, seria então a Internet a possibilitar a qualquer pessoa optar pelo seu “eu possível” ou, pelo menos, apresentar uma versão desse “eu” tão desejado.

 

Num excelente artigo publicado pelo The New York Times, intitulado “Narcissism is Increasing. So You’re Not So Special”, o autor que o assina recorda o filósofo francês Jean-Jacques Rousseu e os seus escritos sobre o amour-propre, uma espécie de auto-amor baseado nas opiniões dos outros. Considerando-o como não natural e não saudável, Rousseau acreditava que a comparação social arbitrária levava as pessoas a desperdiçarem as suas vidas tentando parecer e soar atrativos para os demais. E isso, como sublinha o autor, é uma boa forma de descrever esta aparente epidemia que tanto debate está a causar. Como escreve “na mitologia grega, Narciso não se apaixonou por si mesmo, mas sim pelo seu reflexo. E se transpuséssemos o mito grego para a sua versão moderna, “Narciso iria apaixonar-se pelo seu próprio feed no Instagram e morreria à fome devido à contagem compulsiva do número dos seus seguidores”.

 

Ora, comportamentos compulsivos desta natureza são comuns em muitas pessoas que conhecemos, em particular nos casos em que uma selfie “perfeita” é publicada e existe uma verificação contínua do número de likes que a mesma vai gerando. Em linha com algumas das investigações que negam a relação direta entre o aumento do narcisismo e a utilização dos media sociais, o autor do artigo defende que não é o Instagram, ou os seus similares, que criam um narcisista, mas e tal como defendem também outros estudiosos do assunto, as redes sociais podem, sim, agir como um “acelerador”desta desordem, na medida em que oferecem a plataforma ideal para facilitar aquilo que os psicólogos denominam como o “exibicionismo da grandiosidade”.

 

De acordo com o Manual de Diagnóstico e Estatística de Distúrbios Mentais, nos Estados Unidos, o narcisismo é uma patologia bem definida, sendo claro que os narcisistas procuram os locais ideias nos quais podem ganhar a sua tão necessária audiência. E, no que a esta necessidade diz respeito, são as plataformas online que melhor palco oferecem para os que sentem uma urgência contínua de se autopromover, comportamentos estes exemplificados pela atualização do “estado” a cada cinco minutos, com a publicação frequente de fotografias de si mesmos, das festas que frequentam, das viagens que fazem, dos restaurantes exóticos que experimentam, dos feitos das celebridades que admiram, e de citações e mottos que servem para se auto glorificar.

 

Face à multiplicação de estudos sobre o aumento de narcisismo nas plataformas sociais, a versão online da famosa revista Psychology Today, lançada em 1967, efetuou um excelente trabalho de compilação dos mais importantes, sendo que alguns são merecedores de especial atenção. De acrescentar ainda que a maioria destes estudos tem como “alvo “ principal os representantes da geração Y, apesar de, em alguns casos, as conclusões baterem também nos egos dos mais “adultos”.

 

"o problema é que o Facebook oferece-nos uma visão limitada das vidas dos nossos amigos, sendo que essa mesma visão tende a ser irrealista" – e exibida sempre como muito mais positiva do que na verdade é

 

Apresentado na convenção anual da American Psychological Association, um estudo da responsabilidade de Larry Rosen, da California State University, demonstrou que os jovens que mais tempos passam no Facebook têm uma maior probabilidade de exibir tendências narcisistas, em conjunto com outros problemas comportamentais. O psicólogo em causa afirma também que os efeitos negativos relacionados com uma utilização abusiva dos media sociais incluem uma maior propensão para a vaidade, para comportamentos agressivos e antissociais, e que estes excessos podem resultar numa performance académica mais pobre.

 

Por seu turno, Dilney Gonçalves, da IE Business School em Madrid, conduziu um estudo que argumenta o que há muito é comummente sabido: a tendência que todos temos em avaliar o nosso sucesso na vida comparando-o com o dos outros. Como escreve “o problema é que o Facebook oferece-nos uma visão limitada das vidas dos nossos amigos, sendo que essa mesma visão tende a ser irrealista” – e exibida sempre como muito mais positiva do que na verdade é. O investigador acrescenta ainda que quanto mais amigos se tem, maior é a propensão para se passar o dia a ler, invejosamente, sobre as férias paradisíacas de um, a nova e gira namorada de outro ou a promoção fantástica que um outro ainda teve no seu já fantástico emprego.

 

Já os investigadores Laura Buffardi e W. Keith Campbell (o co-autor do livro “The Narcissism Epidemic: Living in the Age of Entitlement”) acima mencionado, levaram a cabo também um estudo, publicado no Personality and Social Psychology Bulletin, que comprova dados já previamente existentes. Como explica Buffardi, “concluímos que as pessoas mais narcisistas utilizam o Facebook com vista à sua autopromoção e de uma forma que pode ser facilmente identificada pelos outros”. O número substancial de “amigos” e a forma como os posts aparecem nas suas páginas correlacionam-se facilmente com as características identificadas nos comportamentos narcisistas, garantem ainda os dois psicólogos. E, se por um lado, sabemos que o Facebook se transformou numa parte normal da vida social – mesmo que virtual – de jovens e adultos, por outro, “os narcisistas usam-no exatamente da mesma forma com que se relacionam com os demais na vida real – para a autopromoção e com um especial ênfase na quantidade em detrimento da qualidade”.

 

Angela Merkel dá autógrafos enquanto jovens de uma escola se fotografam junto da líder alemã

 

Um outro estudo, da responsabilidade de Elliot Panek, da Universidade do Michigan, optou por analisar não só o Facebook, mas também o Twitter. De acordo com Panek, “através do Twitter, os jovens tentam alargar os seus círculos sociais e transmitir as suas opiniões”, sendo que ao longo do processo sobrestimam também o valor e importância das suas opiniões. Todavia, e de acordo com as conclusões do estudo, o resultado mais interessante cifra-se no facto de “entre os jovens adultos e estudantes universitários, termos concluído que aqueles que resultados mais expressivos tiveram para certas tipologias de narcisismo são mais adeptos do Twitter, ao passo que entre os adultos de meia-idade, os narcisistas elegem antes o Facebook para os seus posts de autopromoção”.

 

Muitos mais exemplos poderiam ser dados para ilustrar a ideia de que as redes sociais atraem os narcisistas como as abelhas são atraídas pelo pólen e, citando mais uma vez o trabalho de Laura Buffadi, existe um consenso alargado que “os narcisistas utilizam o Facebook e outras redes sociais porque acreditam que os outros estão realmente interessados nas suas vidas, ao mesmo tempo que é seu desejo inato quererem que os outros saibam tudo sobre as suas vidas também”. Consensual é também a ideia de que as redes sociais encorajam a autopromoção, na medida em que são os seus utilizadores que geram os conteúdos que as alimentam. Keith Campbell explica ainda que muitas pessoas utilizam estes meios para se “mostrarem importantes, se sentirem especiais e para ganharem atenção, status e autoestima”. Mas o problema, e mais uma vez, reside no facto de quase toda a gente que tem esta necessidade excessiva de mostrar o quão perfeita é a sua vida apresentar retratos irrealistas de si mesmos. Tal como as pessoas selecionam as suas melhores fotos para constarem no seu perfil (pelo menos, uma grande maioria), a tendência para povoarem os seus newsfeeds com os mais atraentes pedaços das suas vidas é exatamente a mesma.

 

A culpa é do Facebook?

 

Kim Kardashian e Kanye West num evento social: um casal que está e faz por estar sempre no centro das atenções

 

Mas se o Facebook, e seus similares, são indubitavelmente plataformas por excelência para muitos narcisistas, é impossível afirmar taxativamente que são as redes sociais as “culpadas” deste “pico narcísico”. E como afirma Shawn Bergman , um reconhecido psicólogo que estuda a geração Y, “existe uma significativa quantidade de pesquisa psicológica que demonstra que a personalidade de cada um de nós está quase completamente ‘estabelecida’ aos 7 anos de idade”. Assim, e dado que a política do próprio Facebook e de outras redes conexas não permite o registo de utilizadores com idades inferiores a 13 anos, “os traços de personalidade dos seus utilizadores estão já bem enraizados na altura em que as visitam pela primeira vez”.

 

Será que isso significa que, afinal, são os pais indulgentes os culpados desta pretensa epidemia? Não sabemos. Mas e já agora, aceite o convite para testar o seu nível de narcisismo. A não ser que se sinta demasiado especial para se dar a este trabalho.

 

 

 

 

 

 

publicado às 11:38

Nem nos deixam tempo para pensar

Por: Sena Santos 

Será que poderemos contrariar a perda do sentido do tempo? Cada dia há um qualquer acontecimento que remove e monopoliza o foco que incidia sobre o que tinha acontecido 24 horas antes, sem termos tido tempo para, em volta do caso anterior, tentar encontrar uma resposta justa que nos conduza à esperança.

 

Numa noite foi o terrorista que usou como bomba um TIR branco para, numa canalhada impensável num ser humano, massacrar as pessoas em festa em Nice. Ele usou o camião contra todos nós, para nos atropelar a todos. Na noite seguinte foi a brutalidade do estanho golpe na Turquia do sultão Erdogan. Passadas outras 24 horas, a notícia era a intolerável violência persecutória do ambicioso autocrata turco que se serve do golpe para reforçar o poder. Pelo meio, outra história, uma agitação e consternação nas redes sociais escritas em português: lastimava-se a revelação de que Liedson, o levezinho no futebol, o avançado que era um 31 para as defesas adversárias, teria morrido subitamente de AVC. Revelação nas redes sociais, sem referência a qualquer fonte. Até que apareceu o próprio levezinho, estupefacto, a avisar que continua “bem vivinho”, mas sem saber como é que alguém o declarou morto aos 38 anos.

 

Emily Bell, diretora do Tow Centre for Digital Journalism na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, escrevia há semanas que “as redes sociais estão a engolir o jornalismo, mas não apenas o jornalismo, engolem também a política, as histórias das pessoas, até a segurança”. Bell comentava que o ecossistema das notícias mudou mais nos últimos cinco anos do que em qualquer outro período dos últimos cinco séculos, desde o tempo de Gutenberg.

 

Há exatamente uma semana, Katharine Viner, diretora do The Guardian, publicou um essencial artigo de opinião em que analisa as profundas transformações que o jornalismo está a atravessar em consequência da consolidação das redes sociais. Viner, escolhida há um ano para substituir na direção do The Guardian o mítico Alan Rusbridger que fez o jornal britânico tornar-se líder global nas edições digitais, é uma mulher jovem mas muito experiente, competente. Ela alerta no texto publicado no dia 12 deste julho que as redes sociais, em vez de divulgar notícias que contribuem para o bem da sociedade e que são a essência do jornalismo, tendem mais para difundir o que está baseado em opiniões ou até rumores em vez de factos verificados.

 

Como surgiu a notícia falsa que galgou pelas redes sociais de que Liedson teria morrido?

E quando são publicadas as imagens de pessoas em agonia tombadas num passeio depois de terem sido esmagadas por um terrorista, como aconteceu na noite de quinta-feira, a liberdade está a ser respeitada?

Como comenta Katharine Viner, precisamos de meios de comunicação fidedignos, que contrastem os factos, que sejam intransigentes no rigor e que tenham sentido crítico sobre o que é noticiável.

 

As redes sociais trouxeram milhares de vantagens, mas tornaram mais difícil distinguir factos de não factos. Viu-se com o caso próximo de Liedson como é fácil fazer propagar uma informação que é falsa. Tal como se tinha visto na noite de 13 de novembro de terrorismo jiadista em Paris com os rumores de que, depois do Bataclan, o Centre Pompidou e o Louvre também estavam a ser atacados. Ou na quinta-feira funesta em Nice com a angústia a ser ampliada com boatos sobre tomada de reféns. Com ou sem deliberada malícia. Sem jornalismo. Com métodos que o jornalismo só pode recusar.

 

Vivemos tempos alucinantes. É uma era que provavelmente tem início em 2001, o ano da matança terrorista de 11 de setembro nos EUA. Vale lembrar essas horas que todos vivemos aterrados com os olhos presos aos ecrãs. Vimos em direto o impacto do segundo avião nas torres do World Trade Center. Vimos em direto o ataque ao Pentágono.  Vimos em direto o desmoronamento das torres. Foi uma tarde (no horário europeu) que parecia de prelúdio ao fim de um mundo. Não se sabia o que viria a seguir, sabia-se que a Al Qaeda estava a declarar guerra total ao nosso modelo de vida.

 

Agora, passados 15 anos, a Al Qaeda parece ter ficado desmembrada e enterrada com a morte de Bin Laden, mas das areias do deserto emergiram grupos e grupúsculos que estão a realizar a desestabilização terrorista do Ocidente ambicionada por Bin Laden. Dois anos e meio depois do 11 de setembro, em 11 de março de 2004, foi a matança de 200 pessoas e um milhar de feridos nos hospitais com as bombas nos comboios de Madrid. No ano seguinte, em 7 de julho de 2005, foram os ataques no metro de Londres, 56 mortos e 700 feridos. Veio 2007 e fomos apanhados pelo colapso do sistema de especulação financeira – desespero para tantos milhões de pessoas.  O terrorismo alastra de modo contínuo, por meio mundo. Os EUA estão massacrados por uma sucessão de episódios de violência racial. Há a infernal sequência de atentados terroristas na África central e mediterrânica, no Médio Oriente, no Paquistão, na Índia, no Bangladesh. E nem é preciso relembrar Paris e Bruxelas. Uma potência europeia decidiu sair da União Europeia. O que pode significar a separação de uma cidade universal como é Londres?  

 

As coisas acontecem e mal temos tempo para pensar na resposta justa. Provavelmente, é o que mais convém a quem nos ataca, sendo que o pensamento sereno e a inteligência estratégica são armas fundamentais para a nossa esperança.

 

A informação, rigorosa, sem dramatização, sem efeitos especiais, é outra arma vital num tempo em que, como evocou David Grossman numa entrevista ao La Repubblica, “o terrorismo está com uma força imensa, capaz de paralisar uma sociedade civil e reforçar os estereótipos racistas”. Grossman, grande escritor hebraico, valente militante pacifista, vive no centro de uma história dramática, a da guerra entre Israel e a Palestina, sofreu a dor da perda de um filho na guerra do Líbano, ele avisa-nos nesta entrevista ao La Repubblica: “É previsível que quanto mais uma sociedade estiver exposta ao terrorismo, tanto mais fortes se tornem as forças nacionalistas e racistas. Assim veremos nos próximos tempos a instalação de mais governos de direita que ao imporem medidas duras vão empurrar minorias para a posterior radicalização”.

 

Nestes dias decorre em atmosfera de epopeia a entronização de Donald Trump como candidato presidencial dos republicanos e não apenas os menos moderados nos EUA. Parece evidente que o derramamento de sangue como aconteceu em Dallas ou em Baton Rouge dá votos a Trump. Também parece claro que o triunfo das ideias de Trump não é coisa boa para a democracia.

 

As ferramentas que tínhamos para entender o que se passa à nossa volta não estão a responder. Os media serão preciosos se forem capazes de dar a mão para fazer compreender. Isso também implica saber dar consistência ao tempo.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

 

A repressão humilhante imposta pelo vencedor na Turquia. Milhares de soldados, juízes e procuradores, acusados de cumplicidade com os golpistas e com a oposição, estão na primeira linha da repressão desencadeada pelo regime de Erdogan. As imagens da agência ANSA que fazem a primeira página no L’Unità e no Corriere della Sera evocam as purgas na URSS de Estaline, na Alemanha de Hitler ou na China de Mao e Deng: centenas de militares prisioneiros, como se fossem animais lidados com desprezo, vergados, com o tronco nu, mãos algemadas atrás das costas. É a lógica do arbítrio de um regime que ameaça voltar à pena de morte.

 

 

O arrependido ghostwriter de Donald Trump: com remorso e com temores.

 

 

Faltam duas semanas para o começo dos Jogos Olímpicos. O que mexeu no Rio de Janeiro.

 

 

Uma primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS: o assunto também é o calor.

publicado às 10:09

Uns para os outros

 

Por: Pedro Rolo Duarte

 

Desde que José Cid, num programa de rádio onde o entrevistei, em conjunto com o João Gobern, disse (e não estava a brincar…) que, se tivesse nascido em Inglaterra, era mais popular e amado que Elton John, porque acha que o inglês, ao pé dele, é artista de segunda, percebi todo o universo de Cid. As letras das favas e do chouriço e das bananas, a pose, a atitude em palco, e acima de tudo uma série de parafusos a menos.

 

Entrou na prateleira dos inimputáveis - dizem o que lhes passa pela cabeça, em geral ninguém presta grande atenção. Faz companhia a figuras como Alberto João Jardim, para citar apenas o mais óbvio.

 

Não me surpreendeu, por isso, a polémica instalada esta semana - mas pelos vistos em cima de uma entrevista que deu há alguns anos… - entre ele os transmontanos. Como não me surpreendeu a resposta trauliteira nas redes sociais (a ele e ao desgraçado do Nuno Markl, apanhado de lado sem culpa alguma…), que pelos vistos estão cheias de pequenos José Cid’s. Pessoas que usam a impunidade do anonimato para destilarem a bílis e fazerem das caixas de comentários, como alguém disse, o esgoto da internet. Ou seja, pessoas que estão bem para o José Cid, e vice-versa.

 

Porém, convém não confundir a mensagem com o meio. Não acho que as caixas de comentários sejam, em si, canos de esgoto. São o reflexo das tensões, dos ódios, das frustrações, que todos temos - e tanto servem para intoxicar a rede como para a limpar, nos momentos mais doces (basta Portugal marcar um golo no europeu…). Cada um de nós usa-as de acordo com a sua formação, os medicamentos que toma, ou apenas o bom senso, ou falta dele, que possa ter. São uma praça publica sem filtro, sem regra, sem controlo. Não consigo criticar aquilo que constituiu, no começo, a mais-valia da internet: o caos que resulta da liberdade total. Claro que tudo tem um preço, e quando o caos se transforma em difamação, mentira, plágio, ameaça, já há leis gerais que se aplicam - mas a tentação de regular mais e apertar a malha é grande. Sinceramente: isto é o que me preocupa mesmo quando sucedem casos como o de José Cid. É que estes casos são pontas de cigarro acesas na floresta dos que querem controlar, regular, legislar, e no fim de tudo censurar, o que é publicado na rede.

 

A tentação é grande e todos já a sentimos na pele. Um exemplo pessoal: sou admirador confesso do humor do João Quadros e do Bruno Nogueira - mas quando ouvi na rádio as crónicas que assinaram, há uns anos, na sequência da morte e da cremação do jornalista Carlos Castro, fiquei chocado. Mexeu comigo. Foram longe demais em relação à minha sensibilidade. A reacção imediata foi clara: “isto não devia ter ido para o ar”. Mas passados uns minutos, caí em mim e perguntei-me: quem sou eu para dizer que não devia ir para o ar, se sou o mesmo que defendo que o humor não tem limites?

 

Vejo agora Bruno Nogueira defender Nuno Markl e gosto do que vejo. Mas na verdade não andamos muito longe uns dos outros. Seja o Cid, o Bruno, ou o anónimo trauliteiro. A lógica é a mesma e tem uma frase popular que a define: “quem vai à guerra, dá e leva”. O Cid insultou os transmontanos, levou que contar. À medida e da mesma forma rasca e ordinária que usou para os gozar. Como se costuma dizer nos pátios das escolas: estão pagos. Uns com os outros. O único risco é que parvoíces desta natureza possam servir para limitar a liberdade de todos e de cada um. E isso já não tem graça alguma.

 

Leituras obrigatórias esta semana:

 

Basta verem a assinatura da entrevista para perceberem quão suspeita é a minha sugestão - mas mais do que o trabalho em si, sublinho uma história de vida incomum, daquelas que dava um filme para Oscar e tudo. Não conto mais nada…

 

A arte da entrevista tem que se lhe diga. Em Portugal, desde há uns anos, a jornalista que melhor tem tratado este formato nobre do jornalismo é indiscutivelmente Anabela Mota Ribeiro, nas páginas do Público. Boa parte do seu trabalho está felizmente disponível no blog que criou, o que nos permite recuperar conversas extraordinárias, diálogos ricos e saborosos, e uma variedade de personalidades que nos alargam horizontes. É bom passear por ali...

 

Há notícias que, por serem recorrentes - atentados nos países árabes, por exemplo - nos escapam por entre os dedos da mão. Felizmente, analistas como o espanhol Alberto Priego, vê mais longe - ou como costumo dizer, “vê mosquitos na outra margem”. Aqui, nesta análise sobre um atentado, no Iraque, cometido durante a final da Liga dos Campeões, coloca em cima da mesa a relação entre o desporto, a diversão, o ócio, e o que pensam sobre isso os fundamentalistas árabes…

 

publicado às 14:07

Acredite se vir no Facebook. Ou se calhar, não

Por: Rute Sousa Vasco

 

Os adolescentes são a verdadeira medida do mundo nos dias que correm. Andam (alguns) adultos tão distraídos que lhes escapam os verdadeiros fenómenos contemporâneos. É possível que estes adultos não saibam quem é Candace Payne e isso só prova que estão mesmo distraídos.

 

O que os salva da total alienação é que, provavelmente, têm filhos, sobrinhos, afilhados ou filhos de amigos que são adolescentes. Eu sou salva diariamente pelos meus adolescentes. É por causa deles que sei coisas como, por exemplo, quem é Candace Payne. Mesmo que tenha demonstrado um desinteresse olímpico pelo tema e até alguma irritação pela sonoridade prolongada que lhe está associada. Claro que tudo isto durou apenas meia dúzia de horas até perceber que aquilo que me tinha sido mostrado através de uma rede social qualquer, era agora tema de notícias. E ainda muito antes de saber que Candace Payne se tornaria uma celebridade instantânea e que por causa de um vídeo de quatro minutos visto por quase 150 milhões de pessoas estaria no The Late Late Show de James Corden e seria apresentada a J.J Abrams e Mark Zuckerberg.

 

Para outros distraídos que ainda não sabem quem é Candace Payne, a história conta-se em poucas linhas. Candice é uma americana de 37 anos que decidiu comprar uma máscara do Chewbacca, o companheiro de Han Solo na Guerra das Estrelas, e experimentá-la no carro. Transmitiu essa “pequena alegria da vida”, como lhe chamou, para a sua rede de Facebook através do botão de “live” e as suas gargalhadas contagiaram pessoas em todo o mundo. O video tornou-se o live mais visto de sempre e Candice entrou nos trending topics da semana.

 

Há nesta nova ordem do mundo uma democratização que a torna, de alguma forma, justa mesmo que parva. Muitos dos conteúdos ‘virais’ são só parvos. Mas são vistos e partilhados por milhões de pessoas que os escolheram, recomendaram e elevaram à categoria de trending topic. Goste-se ou não, isto é democrático. Goste-se ou não, isto fura com o status quo dos suspeitos do costume, aquela meia dúzia que está sempre citada nas notícias, porque desde os tempos imemoriais prevalece entre (alguns) jornalistas o sentido de missão de, dia após dia, relatar que essas pessoas disseram coisas. É o chamado jornalismo do ‘disse que’ em detrimento do jornalismo do ‘fez o quê’.

 

Mas o video de Candice não é uma notícia. É outra coisa qualquer e conseguiu muito mais atenção do que as notícias, em média, conseguem. E essa alocação do nosso tempo disponível é que é um fenómeno que merece a nossa atenção. Numa conferência a que assisti recentemente, a Interact 2016, um dos oradores referiu que o tempo de atenção médio que hoje dedicamos a qualquer coisa que mexa online passou de 12 para 8 segundos. Estamos passos largos a caminho de sermos o peixinho vermelho no aquário redondo.

 

E, na selecção que fazemos, conta cada vez mais o poder da recomendação. As recomendações são uma indústria. Desenvolvem-se algoritmos nas mais diversas esferas para gerar recomendações, sugestões, listar mais populares, etc. Da precursora Amazon ao mais-querido do momento Netflix, este é um dos segredos do sucesso.

 

E, claro, há o Facebook. Essa rede de 1.6 mil milhões de utilizadores que se está a tornar, dia após dia, o editor de notícias favorito. Só que, na realidade, o Facebook não edita, tal como não escreve ou não produz conteúdo no sentido efectivo do tema. O Facebook escolhe, mediante critérios ou parâmetros que os seus engenheiros definem tendo como principal matéria-prima dados dos seus utilizadores, o que lêem, o que partilham, o que publicam. Esta é a parte benigna do processo – tão democrática, vista desta forma, como a possibilidade de Candice Payne se tornar uma celebridade do dia para a noite por causa de um vídeo com uma máscara do Chewbacca.

 

A parte mais obscura é aquela sobre a qual apenas podemos especular, porque certezas absolutas ninguém tem. O site Gizmodo trouxe essa discussão para a primeira linha de debate ao publicar acusações segundo as quais o Facebook omitia artigos com pontos de vista conservadores na sua seleção de histórias mais populares. Mark Zuckerberg percebeu que o assunto era sério e não perdeu tempo. Anunciou uma investigação interna, reuniu com os políticos da ala conservadora nos Estados Unidos e dias depois veio dizer que, mesmo sem qualquer sinal de enviesamento na selecção das notícias, o Facebook iria fazer mudanças para garantir a objectividade política.

 

Tudo isto mostra que o tema é sensível, sobretudo em ano de eleições nos Estados Unidos, sobretudo porque mexe com pessoas com poder de fogo. Mas, na realidade, todos os dias milhões de pessoas deixam-se editar pelas suas redes. Cada vez mais, vemos aquilo que os nossos amigos ou conhecidos nos mostram que estão a ver. Ou, sendo mais precisa, aquilo que as pessoas que gerem redes sociais dizem às máquinas para nos mostrar a partir do que os nossos amigos e conhecidos vêem.

 

Com uma particularidade deliciosa. Quando alguma coisa corre mal pode sempre dizer-se que a culpa é da máquina. Que é preciso ajustar o algoritmo. Esta é a desculpa que faz as delícias dos supremos manipuladores. Poder condicionar a opinião sem assumir qualquer responsabilidade na escolha, sem jornalistas a questionar orientações, sem editores a validarem informação. As acusações veiculadas no Gizmodo tiveram como fonte ex-colaboradores do Facebook, nomeadamente jornalistas ou “news curators”, que é uma forma moderna e, aparentemente, um termo de maior empregabilidade para designar editores.

 

Claro que os problemas tinham de vir daí. Os problemas vêm sempre das pessoas e, sobretudo, pessoas que trabalham com matéria tão sensível quanto a informação. Mas, mesmo que a maior parte da nação Facebook não se aperceba, o que a rede social se quer tornar é num gigantesco portal de notícias e de e-commerce. O maior, o mais influente, à escala global. E para servir notícias não basta apenas mastigar os dados da rede de cada um de nós. É preciso ter pessoas a seleccionar informação, a hierarquizar temas, a avaliar credibilidade de fontes. Deixem lá ver… a fazer jornalismo, mesmo que em modo menos convencional. Porque a alternativa é ter uma lista de “notícias” com muitos Chewbaccas e, infelizmente, para todos os que produzem informação, o Chewbacca até é um rei na selva de parvoíce que os indicadores de mais populares mostram em muitos sites.

 

As máquinas estão a ser ensinadas e estão a ficar melhores a cada dia.

 

As máquinas, tal como o Chewbacca, não têm culpa.

 

Só precisamos de não nos esquecer que, por trás das máquinas, estão homens e esperar que haja por aí uns quantos Han Solos quando os impérios contra-atacam.

 

Tenham um bom fim de semana

 

Outras sugestões de leitura

 

Já que estamos em modo redes sociais, fica aqui uma sugestão de leitura sobre o direito à privacidade assinado pelo Pedro Fonseca.

 

O Márcio Candoso escreveu esta semana sobre touros e óperas e o local onde ambos convergem. Se estão a pensar que nada os liga, leiam a história e vão perceber que não é bem assim.

 

E para rematar, uma daquelas histórias que nos faz sorrir e que já deve ser um trending topic. Sobre uns óculos esquecidos que se transformaram, também eles, numa celebridade. Ou, neste caso, numa obra de arte.

publicado às 11:26

Os idiotas perderam a modéstia

Por: Rute Sousa Vasco

 

Não tens opinião? Não és ferozmente contra o livro de Henrique Raposo sobre o Alentejo ou inequivocamente a favor do fim dos happy meals para o menino e para a menina? Não tens opinião? Não achas abominável o fim dos exames de aferição ou inominável o processo de reversão da privatização da TAP? Não és absolutamente a favor ou contra o aborto, a eutanásia, as despesas do veterinário para efeitos de IRS, a baixa do IVA na restauração, e, já agora, o Trump, o Lula, o Brexit, o Estado Islâmico?

 

Não tens opinião?! Que triste. Como és digno da tua existência?

 

A vida pública transforma-se assustadoramente num derby contínuo e em ambiente de rivalidade primitiva. Todo e qualquer tema é passível de se tornar numa enorme questão fracturante da nação e todos aqueles que não tomem partido por um dos extremos são vistos como xoninhas.

 

A futebolização da vida pública está a assumir traços francamente assustadores, em Portugal, como no Brasil, nos Estados Unidos ou em tantos outros sítios.

 

Há quem veja nesta radicalização da ‘conversa pública’ um efeito directo da facebookização das nossas vidas. Ou, sendo mais precisa, da permanente ‘socialização’ das nossas vidas. Estamos sempre em contacto, sentimos necessidade de ter coisas para dizer e o enorme espaço online é propício à emergência dos egos dos valentaços. Depois, é o efeito liceu. Cada valentaço ergue a sua corte e as cortes de vários valentaços confrontam-se como modo de afirmação. Da discussão de temas políticos à adopção de animais, tudo é terreno fértil para que imploda a grande cisão.

 

Na realidade, desconfio que somos todos pessoas muito mais sensatas, equilibradas e até interessantes ao vivo.

 

Há uns meses, Salvador Martinha contava em conversa com Rui Unas no podcast Maluco Beleza um episódio sintomático disto tudo. Segundo o Salvador, "uma pessoa muito conhecida, um colega nosso" recebeu, a certa altura, uma mensagem privada de alguém que lhe  dizia que devia morrer e outras coisas suaves como esta. A pessoa visada ficou incomodada com a agressividade e foi ver ao perfil da pessoa que enviou a mensagem como o podia contactar. Ligou para a empresa onde trabalhava, pediu para falar com ele e quando foi atendido explicou quem era e porque ligava. Do outro lado, já não estava um valentaço indignado. Era só um tipo normal que pedia desculpas e dizia que era tudo um mal-entendido. “Era a brincar”.

 

A intolerância perante opiniões contrárias – pior que isso, a indisponibilidade sequer para ouvir outras opiniões – está a transformar o mundo num sítio mais e mais perigoso. Como se Putins, Assads, Kim Jong-uns e, como não?, Trumps se multiplicassem no meio de nós, as pessoas comuns, os cidadãos que votam. Ou o inverso – como se eles só existissem porque, por alguma razão do foro psicológico, precisamos de líderes extremados, desequilibrados, que sejam a frente visível da humanidade mais animal e mais primitiva.

 

Há uns dias, alguém me falava do valor incrível da conversa. De como é importante conseguir conversar e não apenas discutir. Conversar é coisa humana. Conversar é cada vez mais coisa de humanos evoluídos e não trogloditas num tempo em que o recuo civilizacional é diário.

 

Os idiotas perderam a modéstia. Li esta expressão num artigo publicado pelo jornal online brasileiro de nome muito próximo a este onde escrevo, o 247. A autoria é de um jornalista, escritor e dramaturgo brasileiro, Nelson Rodrigues. O artigo que a menciona tem um ano e meio e relata a agressão verbal e quase física a Gregório Duvivier, humorista da Porta dos Fundos, por ter declarado apoio à reeleição, à época, de Dilma Roussef.

 

Duvivier não estava num comício. Não estava em palco a fazer piadas. Não estava a discutir com ninguém. Estava num restaurante, no Rio de janeiro, simplesmente, a almoçar.

 

Tenham um bom fim de semana.

 

Outras sugestões

 

Já que falamos de Gregório Duvivier, de radicalização, de Brasil, e da opinião forte sobre tudo e nada, aqui fica uma crónica assinada pelo próprio.

 

Sobre extremismos e afins, aqui fica outra visão. A vitória de Donald Trump nas eleições americanas é tão perigosa quanto o avanço do jihadismo, considera o Economist Intelligence Unit no estudo sobre os dez maiores riscos para o mundo.

 

Versão corrigida a 21 de março às 12h15:

 

Na primeira versão deste texto, o parágrafo sobre o Salvador Martinha tinha uma redacção diferente. Mediante o alerta de um leitor, fica feita a correcção e a explicação aos leitores. O episódio em causa tinha sido relatado desta forma por alguém que conhece bem os vários interlocutores. O que não dispensa a validação dos detalhes exactos, sobretudo quando a história nos chega oralmente e lá diz o ditado que quem conta um conto, acrescenta um ponto. 

Feita a correcção à história - é o Salvador Martinha que a conta, mas não ele quem a protagoniza- mantém-se a moral que fez com que a escolhesse para ilustrar o tema da crónica: os indignados e os valentaços que todos os dias encontramos online.

 

Há uns meses, Salvador Martinha contava em conversa com Rui Unas no podcast Maluco Beleza um episódio sintomático disto tudo. O Salvador escreveu um texto e um determinado senhor que ele não conhecia não gostou. Para expressar o seu desagrado escreveu na página de Facebook do humorista que ele devia morrer e outras coisas suaves como esta. O Salvador ficou incomodado com a agressividade e foi ver ao perfil da pessoa que fez o comentário como o podia contactar. Ligou para a empresa onde trabalhava, pediu para falar com ele e quando foi atendido explicou quem era e porque ligava. Do outro lado, já não estava um valentaço indignado. Era só um tipo normal que pedia desculpas e dizia que era tudo um mal-entendido. “Nada disso, senhor Salvador, eu até gosto muito do seu trabalho”.

 

 

publicado às 10:37

Os meus ecos de Umberto

Por: Márcio Alves Candoso

 

 

Achei interessante ir ler, no Facebook, o que se diz de Umberto Eco. Soa-me como a vingança. O homem que abominava as redes sociais – 'deram o direito a falar a legiões de idiotas' – não escapou, na sua morte, ao escrutínio das mesmas. Mas presto-lhe vassalagem. Ele tinha razão quando disse – e se mais não dissesse, e muito disse, isso quase bastava para a imortalidade – que não há texto ou livro que escape, nem que se complete, sem a interacção do leitor. Na verdade, é de uma 'obra aberta' que falamos quando lemos as diversíssimas leituras que todos fazemos das mesmas coisas que o mesmo diz. O eco – sim, não escapo ao som e ao signo – das suas palavras é entendível de modo diverso conforme o receptor. E mais do que isso – cada um amplia a parte da sua imensa retórica que mais lhe interessa. Quem fala de tudo e de todos arrrisca-se a milhentas interpretações, ou era essa mesmo a sua intenção? Talvez só o próprio Umberto soubesse responder a isto.

 

Há, nos computadores e na Internet, tal como Eco soube antes de todos, uma perversão do tempo, no que ao passado e à História diz respeito. Vejamos o 'word' em que agora escrevo. Se não o sinalizar com uma data, basta um dia mudar-lhe vírgulas para que ele assuma o tempo novo e revisto; e perde-se para sempre o dia em que escrevi primeiro. Por velhice ou sabedoria – ou as duas coisas entrelaçadas –, Umberto Eco ficou-se pelos livros, quer os ensaios que enunciou abundantemente enquanto académico, quer os romances que, segundo ele, começou a escrever quando já tinha feito quase tudo – ou seja, aos 48 anos. Ou ainda, e sempre numa versão do próprio, porque quando não se pode teorizar deve narrar-se.

 

O que é um pouco a vida que lhe fui apercebendo. Um homem que dizia que a mentira tem muito mais interesse do que a verdade – 'o que torna os signos interessantes não é servirem para dizer a verdade, mas poderem ser usados para mentir ou falar de coisas que nunca vimos' –, tinha por força de ir além da criação de uma ciência. Para quem, como eu, ainda hoje ser semiótico e não semiológico faz quase tanto sentido como a frase de Bond 'shaked not stirred', é evidente que se pode ler Eco no esoterismo ou na sua recriação quase cómica. E no entanto – lembram-se? - foi por causa do riso que morreram frades.

 

Aliás, numa das suas últimas entrevistas – já se pode dizer últimas, e não 'mais recentes', porque a morte dá-nos o direito a só ter passado -, o professor de Bolonha e autor de 'O Nome da Rosa' anunciava que não tinha ainda iniciado a sua próxima obra, que era um ensaio sobre a comédia. Não teve tempo. Alguém aí para o fazer? Não se importará Eco, de certeza, com isso. Não um homem que dizia que a literatura universal era sempre repetição, e que já Homero repetia a tradição oral, milenar, anterior a ele. 'Se os textos são máquinas preguiçosas que precisam da colaboração do leitor, então este, quando passa a escritor, reescreve essa mesma obra que o influenciou'. E 'quando lemos um livro devemos perguntar a nós próprios não o que diz, mas o que significa'. Foi ele que disse, e já não pode voltar com a palavra atrás.

 

Lembro-me bem do dia em que Umberto Eco me foi apresentado. Lembro? Não, minto. Sei porque dato os livros que vou comprando, e a minha memória é tão só isso e o efeito que me ficou de os ler. É um daqueles ensaios curtos, sessentistas, sem data por mim descoberta mas exalando data no que escreve, que o autor publicou por volta da 'Obra Aberta' e dos 'Apcalípticos e Integrados'. Era sobre vestuário, uma paixão minha antiga, que Eco titulou de forma banal 'O Hábito faz o Monge'. Nos livros, como ele dizia, por vezes procura-se uma forma de nos justificarmos; e eu fiquei contente, naquele Fevereiro de 79 em que li o texto, quando ele me disse que, no que vestimos, está uma forma de nos exprimirmos, que é algo mais do que comunicarmos e diferente de exibirmo-nos. Daí partia para a arte da sedução pelo gesto/signo, os trajes do teatro como denotações, ou a mini-saia, que naquele tempo, dizia ele, na Catânia [Itália profunda] transmitiria a ideia de uma rapariga leviana, em Milão a de uma rapariga moderna, em Paris a de uma rapariga, tão só, e em Hamburgo, no 'red district' da Rieperbahn, poderia muito bem ser um rapaz...

 

Sobre o islamismo e a sua invasão da Europa, assume a sua faceta de 'pop-star' que é um pouco parte da sua segunda metade da vida

Falava de religião mas não esquecia o diabo. Era tão incoerente como qualquer um que muito pensa, muito escreve e muito diz. Na revisitação que lhe faço, à hora da sua morte, encontro o que sempre dele tive – umas coisas sim, outras coisas não. Umberto Eco é, para além de um precursor, um 'self-service' de citações. Não esqueceu que a religião tanto pode ser, como dizia Marx num dia aziago, o 'ópio do povo', como a sua cocaína, porque para muitos funciona como um despertar e acelerar a revolta, tida como redenção.

 

Sobre o islamismo e a sua invasão da Europa, assume a sua faceta de 'pop-star' que é um pouco parte da sua segunda metade da vida. Tão depressa lemos textos em que fala de 'nazismo islâmico' – mas pior que o primeiro, porque este está no meio de nós, não para lá de uma fronteira de guerra que dele nos separa, e que nos permitiu combatê-lo eficazmente, segundo Eco – como em seguida se mostra entre o justificativo e o complacente para com as migrações actuais. Umberto Eco era um europeísta convicto. Em dez minutos, no mesmo texto, assume o terror pelo futuro dos netos, numa sociedade islamizada e numa Europa que 'vai mudar de cor', na qual vai 'correr muito sangue', logo antes de afirmar que, quem não encarar a mudança - que prevê inelutável – 'mais vale suicidar-se'. Acredita que, um dia, se encontrará um novo equilíbrio, como depois das invasões bárbaras no Império Romano, mas que antes acontecerá 'algo de terrível'.

 

Mas culpa a França, por ter querido impor a ética da República aos migrantes – ele não põe 'i' antes da palavra – sem nunca ter conseguido integrá-los, afastando-os para guetos nos subúrbios. 'Se os muçulmanos morassem em redor de Nôtre-Dame seriam diferentes', sustentou já depois dos atentados ao 'Charlie Hebdo'. 'Um muçulmano em França torna-se fundamentalista porque a sua integração não foi completa nem podia ser, a longo prazo pode haver integração, mas no curto não; e a não integração produz uma reacção que só pode ser o ódio', afirma. Parece óbvio, que para o historiador/filósofo, o 'longo prazo' tem uma largura imensa.

 

Um homem que, de si próprio, dizia que o fim da vida lhe tinha dado para odiar a Humanidade, continuava a ser um optimista a quem, aparentemente, tinham roubado o húmus de que alimentava essa esperança, roteada na guerra erm Itália e nas esquinas onde se escondia, diz ele, 'porque numa esquina há sempre dois lados para onde fugir'. Da Universidade onde passou grande parte da vida – principalmente em Bolonha, mas convidado em Columbia, Toronto, Harvard, Collège de France e mais meia dúzia – dizia agora que era boa ideia tê-la aberto a tanta e tanta gente. Mas logo depois aduzia que o facilitismo recente encerra uma perversão inelutável. 'Nos três primeiros anos [das faculdades] os alunos não lêem livros com mais de cem páginas; no meu tempo tive que ler milhares e milhares de páginas e não morri por causa disso', desabafava.

 

Termino com uma nota pessoal. Umberto Eco, a certa altura, 'meteu-se' com o Super-Homem. Não um ensaio sobre Nietzsche, mas sim sobre o personagem da BD americana. Sob o seu olhar semiótico – que não é, cedo uma vez mais à anedota, ver só com um olho -, o leitor das aventuras do 'homem de aço' inventado por Jerry Siegel é subjugado à condição de fantoche dominado pela propaganda do poderio norte-americano, ilustrada na força do super-herói que tudo resolve em três tempos. Uma imagem que faz ascender o cidadão comum, personificado pelo seu alter-ego Clark Kent, ao seu desejo de perfeição, ao rechaçar da sua impotência para vencer as frustrações. Baseado no que lhe impelem as aspirações de status, de nível social, inconscientemente integrado, o sujeito esquece-se e perde a sua identidade.

 

Mas eu sempre quis ser Clark Kent. Já não vou poder perguntar a Eco se tenho alguma coisa de errado.

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado às 20:08

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