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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

Uma ilusão a menos

Por: Pedro Rolo Duarte

 

Oito dias depois, passado o choque inicial, as cabeças arrefecem e os comentários sobre o resultado do referendo no Reino Unido vão mudando de tom. No começo, parecia uma maré alta em tempos de marés vivas - e a histeria atravessava os que defendiam o brexit tanto quanto os que julgavam essencial a permanência do país na União Europeia. O cataclismo foi garantido de ambos os lados.

 

Agora, a “vitória” começa a ser distribuída por toda a gente: os que defendiam a saída da União continuam satisfeitos com o resultado do referendo, mas perderam a pressa na saída; os que viam no abandono britânico o terramoto que iria matar a Europa unida começam a vislumbrar no triste resultado algumas oportunidades. Repensar a Europa. Refundar a Europa. Corrigir a Europa.

 

Para quem, como eu, chegou à maioridade quando o processo de adesão à (então) CEE começou - e atravessou os anos 80 e 90 assistindo ao milagre da multiplicação das auto-estradas, ao enriquecimento de meio-mundo, ao “desenvolvimento” traduzido em multibancos, vias verdes e centros comerciais, ao fim dos tormentos nas fronteiras e à chegada, impante, de uma nova moeda -, o momento que vivemos, qualquer que seja o desenlace, é igual ao sinal de trânsito que nos indica “estrada sem saída”. É o fim desse aparente paraíso em que os mesmos países que, menos de 50 anos antes, se confrontavam impiedosamente numa guerra insana e esmagadora, estavam agora juntos e estáveis à procura de um crescimento sustentável e de um ambiente próspero para os seus cidadãos, em democracia e liberdade.

 

Foi esta ideia que alimentou a minha adesão ao projecto europeu. Como se, por fim, olhássemos uns para os outros e percebêssemos que pertencíamos a uma mesma raiz, mesmo que com crescimentos e ideias diferentes.

 

Afinal, não é bem assim. Ainda há quem ache que há seres humanos de primeira e de segunda, ainda há quem queira defender o seu território com medo de “invasões bárbaras”, ainda há quem não tenha percebido que, num mundo globalizado, quanto mais nos fechamos,  mais ameaçados estaremos (como ainda há dois dias se viu em Istambul)…

 

O resultado do referendo no Reino Unido foi mais decepcionante do que se tivesse ocorrido, com igual resultado, em qualquer outro terreno europeu - justamente porque o país reclama para si uma democracia com História, e uma certa arrogância política e cultural. Que não se traduz na resposta à pergunta mais básica de todas. A que define o futuro, independentemente das contingências do presente.

 

 

Uma semana quente…

 

Depois do referendo britânico, vieram as eleições espanholas - com menos respostas do que as desejadas, e mais surpresas do que as esperadas. Seguia-as por aqui, com dinamismo e muita informação, apesar da colagem obvia ao PP…

 

… Mas ainda sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, a mais resumida e clara soma de consequências encontrei-a, online, no Financial Times

 

Menos de dois minutos: um excelente video produzido pela revista The Economist sobre a felicidade na Europa. Em semana de ressaca do brexit, vale a pena…

publicado às 08:38

A democracia directa tem destas coisas

Por: Paulo Ferreira

 

As lideranças fracas tenderão mais a “chutar para referendo” as decisões que potencialmente dividam o país ao meio, onde o deve e haver da mercearia eleitoral não é claro. E fica sempre bem dizer que se dá “a voz ao povo”

 

A democracia e os seus instrumentos essenciais são uma coisa fantástica enquanto produzem resultados com os quais concordamos. Mas quando vence o “outro lado” o povo passa de inteligente a estúpido, a lucidez foi vencida pelo medo e a seriedade perdeu para o populismo.

 

É sempre mais fácil arrumar a questão desta forma e seguir em frente, do mesmo modo, até à próxima batalha eleitoral. O que dá trabalho e demora tempo é identificar as causas do falhanço, entendê-las e tentar alterá-las.

 

O resultado do referendo britânico foi um abalo que apanhou muita gente de surpresa. As últimas sondagens tinham-nos dito que o “ficar” estaria à frente do “sair” por uma margem que se estava a consolidar. Mas não foi assim.

 

Entristece-me a potencial saída do Reino Unido da União. Sem eles, a Europa não é a mesma coisa. Não só em questões como a dimensão, o poder económico do bloco, o contributo para a defesa comum ou a diplomacia mas, também, porque a voz crítica e desconfiada que os britânicos sempre fizeram questão de manter no palco europeu é, em si mesma, um contributo positivo.

 

Não me parece que alguém ganhe com a saída dos britânicos. Nem os próprios, já que ao estarem fora do euro mantêm já um elevado grau de liberdade nas políticas económicas, monetárias e orçamentais.

 

Mas é mesmo assim. Foi dada a voz ao povo e o povo disse de sua justiça numa decisão de enorme importância que, para muitos, tem contornos trágicos.

 

Nos últimos dias li e ouvi muita gente diabolizar David Cameron por ter convocado o referendo, vendo aí o pecado original deste tema. Certamente que se os 52%-48% (arredondados) tivessem sido ao contrário, o mesmo Cameron estaria a ser elogiado pelos mesmos por ter vencido e arrumado, por muitos anos, a questão sempre latente no Reino Unido da permanência na UE.

 

A utilização dos instrumentos de democracia directa, como o referendo, é das mais complexas e sensíveis.

 

A teoria e o politicamente correcto dizem-nos que quanto mais, melhor. Por princípio, é mais legítimo chamar milhões de cidadãos a tomar uma decisão do que deixá-la nas mãos de umas escassas centenas de deputados que foram eleitos pelo mesmo voto popular mas que podem, em dossiers concretos, fazer um julgamento diferente do da base popular que os elegeu.

 

Mas, por outro lado, transformar a democracia numa sucessão de referendos levar-nos-á a um mundo melhor? Tenho dúvidas.

 

Li por estes dias nas redes sociais um comentário com o qual concordo (lamento, mas já não consigo identificar o autor). Dizia, sobre a utilização de referendos, que se em Portugal se consultassem os eleitores sobre a introdução da pena de morte ou o acolhimento de imigrantes e refugiados talvez tivessemos uma surpresa do “povo dos brandos costumes”. É muito possível que sim, que uma maioria se pronunciasse a favor da primeira e contra o segundo. E isso seriam, a meu ver, dramáticos retrocessos civilizacionais.

 

O que para mim não faz sentido são consultas populares sobre direitos individuais que, quando exercidos por alguém, não interferem na liberdade alheia. Casamento entre pessoas do mesmo sexo e direitos associados, eutanásia, interrupção da gravidez até determinado período ou consumo de drogas leves devem, no meu entender, ser legislados no sentido de maximizar a liberdade e equiparar direitos sem me dar sequer a opção de interferir ou opiniar sobre as opções do meu vizinho. A vida dele é com ele. A minha é comigo.

 

Diferentes são os temas que dizem respeito à organização política do país que, de forma directa ou indirecta, interferem na vida de todos. O grau de envolvimento com a União Europeia, a regionalização ou mudanças profundas no sistema eleitoral são assuntos que a todos dizem respeito porque interferem com a organização da vida colectiva e com as instituições que a decidem e colocam em prática. Ao impacto destas ninguém escapa, para o bem e para o mal.

 

Mas, ainda assim, estes temas devem ser colocados a consulta popular? Isso terá mais a ver com as forças e fraquezas das lideranças políticas do momento do que com níveis de amor à democracia. Líderes fortes, com uma visão estratégica consolidada e com dimensão pessoal e política para suportar as consequências das suas decisões terão mais facilidade em decidir contra aquilo que são os sentimentos da opinião pública. Das lideranças políticas espera-se que estejam melhor habilitadas a tomar decisões complexas e muitas vezes duras, com longas listas de prós e contras, do que o cidadão médio. Foi assim que Helmut Khol fez a reunificação alemã e levou o seu país para o euro ou que Churchill optou por enfrentar Hitler.

 

Já as lideranças fracas tenderão mais a “chutar para referendo” as decisões que potencialmente dividam o país ao meio, onde o deve e haver da mercearia eleitoral não é claro. E fica sempre bem dizer que se dá “a voz ao povo”.

 

Seja como for, o que não se pode nem deve é fazer a pergunta quando não se está disponível para aceitar todas as consequências de uma resposta. Voltando ao Brexit, é isso que tem acontecido demasiadas vezes na União Europeia, com a repetição de referendos até que produzam a resposta “certa”. Essa é também uma das causas que afasta os cidadãos da Europa e repetir novamente o erro não só seria irónico como podia ser ainda mais trágico.

 

Outras leituras

  • “Brexit” é o novo “o mundo mudou”? Claro que, em termos de comunicação política, é um óptimo pretexto para assumir a deparragem das previsões. Se tem grande ou pequeno impacto de facto é uma questão bem diferente.

 

  • Tudo o que vá para além de uma sanção simbólica a Portugal, sem custo financeiro, por violação da meta do défice do ano passado será inaceitável. A menos que a Comissão Europeia queira brincar com o fogo.
publicado às 11:39

A culpa é mesmo de Bruxelas?

Por: António Costa

 

Há hoje na Europa comunitária uma espécie de sentimento anti-Bruxelas, que se materializou, ironicamente, num referendo no país mais protegido das imposições da União Europeia do ponto de vista político e económico-financeiro. Se calhar, porque, na realidade, os responsáveis da crise da União Europeia estão, em primeiro lugar, nas capitais dos seus 28 estados-membros.

 

É fácil responsabilizar a União Europeia, os burocratas de Bruxelas e as instituições europeias pela estagnação do projeto político que começou, lá atrás, com a comunidade do carvão e do aço. A seguir, aparecem na lista dos mais procurados por esta crise a chanceler Merkel e os sucessivos presidentes da Comissão Europeia. Serão mesmo os culpados disto tudo?

 

A União Europeia, mesmo com a lógica da bicicleta que tem sempre de estar em movimento, foi o suporte da paz e do desenvolvimento económico da Europa nos últimos 40 anos. A cada novo passo, foi inclusiva, cresceu, mas manteve os compromissos iniciais de promoção da recuperação dos que estavam mais atrasados. Com muito dinheiro, suportado pelos orçamentos nacionais e pelas transferências entre países, com outro pressuposto relevante: os líderes e os cidadãos dos países menos desenvolvidos fariam o que fosse necessário para prepararem os seus respetivos países para as novas exigências de um mercado único, primeiro, e de uma moeda única, depois. É claro que o resto do mundo não estava parado e isso era, em si mesmo, uma outra dificuldade, esta externa, para a construção da União Europeia e do euro.

 

Mesmo nos países que mais beneficiaram da União Europeia e do euro, como Portugal, há uma clara falta de memória, seletiva, sim, sobre a história desde 1986. Os fundos comunitários, um mercado único para as empresas e pessoas, a redução brutal dos juros cobrados ao país porque assumimos o compromisso do euro. O que fizemos com essas vantagens, particularmente a partir de 1995? Pouco e mal. É por isso incompreensível, por exemplo, um espírito tão pouco crítico ao período 1995/2001, com o Governo de António Guterres, provavelmente o pior desde a entrada na CEE em 1986.

 

A Comissão Europeia e algumas das suas direções-gerais ganharam uma vida própria, para lá do voto dos eleitores europeus, especialmente à medida que o grupo cresceu e passou a ser mais difícil consensualizar posições. Do diálogo e da diplomacia, passamos para o voto dos mais fortes, que aliás se acentuou desde a crise financeira de 2007/2008. Os principais líderes europeus e a própria comissão cometerem erros, sim, uns de comunicação, outros de substancia. Mas, na verdade, sempre para corrigirem os pecados originais de um projeto político que ganhou expressão monetária e uma moeda única e que, eles próprios, foram impossíveis de gerir por razões de política interna de cada país. O pedido de resgate em 2011 é disso um exemplo, está longe de ser o único.

 

Os cidadãos da União Europeia estão desiludidos, e quando há momentos de decisão, como foi o caso do referendo no Reino Unido, o discurso político não ajuda. Pelo contrário, mostra todos os dias que ninguém sabe muito bem qual é o passo seguinte, ninguém (nos) apresenta novos desenvolvimentos que mobilizem, apenas a ideia de que as alternativas são piores. Não é fácil, assim, destruir a força crescente dos movimentos nacionalistas à Esquerda e à Direita, como se vê por essa Europa fora, que se alimentam das crises, do desemprego, da pobreza.

 

A bicicleta europeia não pode continuar a andar como se nada fosse, mas convém que os governos dos países da União Europeia façam um mea culpa, assumam as suas responsabilidades, porque é claramente aí que estão as respostas. A transferência de responsabilidade para Bruxelas é popular, e dá votos internamente, só que não corresponde à verdade da história. E dificulta ainda mais o que vem aí a seguir.

 

A crise financeira e económica desde 2008 e o que se seguiu nos anos seguintes mostra que nem todos os países, nem todos os governos, nem todos os cidadãos estão preparados para as exigências de uma moeda única. Pelo contrário, há um desgaste social enorme. E também mostra que estamos a chegar ao limite das possibilidades dos governos que têm de convencer as respetivas populações a pagarem, com os seus impostos, o que é necessário para manter uma moeda única nos termos em que ela existe hoje.

 

Os resultados das eleições espanholas, sem serem definitivos é totalmente clarificadores, são um bom augúrio, porque os discursos fáceis anti-Europa não ganharam, perderam até votos. Por isso, no meio desta turbulência e de mares nunca dantes navegados, nem tudo está perdido.

 

 

As escolhas

 

Os ingleses decidiram sair da União Europeia, bem, nem todos, mas os suficientes para uma vitória do Brexit. Depois do colapso dos mercados na sexta-feira, e quando anda tudo à procura de respostas, desde logo no próprio Reino (ainda) Unido, o ministro das finanças inglês, defensor do ‘remain’, garantiu hoje que o país está preparado para viver fora do espaço comunitáriowww.bbc.com. Estará mesmo ou, como em outros países, a Democracia popular vai ser ultrapassada pela Democracia representativa?

 

Ronaldo não desiste, especialmente quando perde, e na seleção até perde muito. Messi desistiu porque perdeu. A dias de mais uma final, e quando sabemos que estamos longe de ser favoritos, esta diferença é uma lição para o país. Os resultados podem ser acompanhados aqui, em 24.sapo.pt.

 

Tenham uma boa semana e Portugal Allez

 

 

 

 

 

publicado às 11:32

Um dia a Europa foi assim

Por: Rute Sousa Vasco

 

Aconteceram várias coisas naquele ano. O FC Porto foi campeão da Europa de futebol pela primeira vez. O Nelson Piquet foi tricampeão na Fórmula 1. A 24 de Junho, exactamente no dia que hoje se assinala, nasceu Lionel Messi. Também foi o ano em que Carlos Drummond de Andrade nos deixou. E, segundo a ONU, esse foi também o ano internacional dos desabrigados ou sem-abrigo, como preferirem.

 

A British Airways foi privatizada e os U2 lançaram The Joshua Tree. O então presidente da Disney, Michael Eisner, e o que seria o futuro presidente de França, Jacques Chirac, assinaram o acordo para a construção da Disneyland em Paris. Em Inglaterra, a primeira-ministra chamava-se Margaret Thatcher e, a 31 de março desse ano, deu uma entrevista de 45 minutos à televisão soviética.

 

Foi o ano em que Portugal assinou com a China o acordo para a entrega de Macau. Os Simpsons apareceram pela primeira vez como pequena animação num programa de televisão chamado The Tracey Ullman Show.

 

E um miúdo com 18 anos, Mathias Rust, piloto na força áerea da República Federal da Alemanha conseguiu furar o espaço aéreo soviético e aterrar um avião na Praça Vermelha, em Moscovo. Foi preso. Uns dias depois, Ronald Reagan que era presidente dos Estados Unidos, numa visita a Berlim desafiou Mikhail Gorbatchev, que era presidente da União Soviética, a derrubar o muro de Berlim, que era um muro que dividia as duas Europas, ocidental e de leste, desde os anos 60.

 

O Acto Único Europeu foi aprovado pela Comunidade Europeia.

Existiam cinco mil milhões de pessoas no mundo (hoje somos sete mil milhões).

Os Pink Floyd, sem Roger Waters, lançaram o álbum “A momentary lapse of reason”.

 

Os meus amigos geeks talvez não saibam, mas foi também o ano em que Larry Wall criou a linguagem de programação Perl.

E no cinema, o Oscar desse ano foi para o filme Platoon – Os bravos do pelotão. Paul Newman ganhou o óscar de melhor actor com o filme The Color of Money e Michael Caine o de melhor actor secundário, tal como Dianne Wiest, em Ana e suas irmãs, de Woody Allen.

 

Este foi o mundo que me foi apresentado em 1987, quando estava a entrar na idade adulta. Tinha coisas erradas. A Thatcher mandava em Inglaterra, o Reagan nos Estados Unidos e havia um homenzinho chamado Ceausescu na Roménia onde aconteciam atrocidades que viríamos a descobrir poucos anos depois. Mas para quem estava a terminar o liceu, havia no ar algo que nos dizia que as coisas iam ficar melhores. Que os bons iam ganhar. Que tínhamos uma grande aventura pela frente.

 

Passaram-se quase 30 anos. E hoje sei que, de alguma forma, estamos a assistir a qualquer coisa de importante para a história dos próximos 30 anos.

 

De forma egoísta e conservadora, desejei que a resposta britânica fosse “ficar” em vez de “sair”. Para que o mundo que é apresentado aos meus filhos que agora chegam à idade adulta fosse mais parecido do que diferente. Para que soubéssemos com o que contávamos (mesmo que não gostássemos disso há muito tempo) e para contarmos com algum contraponto ao eixo-central europeu (Alemanha com França a reboque). Para ‘dar um tempo’ à relação.

 

A verdade é que há muito tempo que não se sente que os bons vão ganhar e que qualquer coisa boa está para acontecer. Vivemos de medo em medo na Europa. Os fantasmas que estávamos a querer expulsar em 1987 regressaram todos, ou quase todos. É uma Europa que não hesita em humilhar os mais fracos, em vergar-se aos mais fortes, sem que se descortine o espírito europeu no discurso sem alma dos tecnocratas de Bruxelas.

 

É também uma Europa que faz justiça à sabedoria popular que diz que quem com ferro mata, com ferro morre. Ainda se lembram do que muitos disseram aquando do referendo na Grécia, há dois anos? Querem democracia? Paguem. Porque, no fim do dia, o projecto europeu é uma grande caixa registadora.

Os gregos não podiam pagar -  os ingleses podem. Vão dizer o quê agora?

 

Boris Johnson e Nigel Farage, dois dos rostos da campanha pelo Brexit, estão longe de ser os Robins dos Bosques da Europa. Pelo contrário.

 

E o apoio "desinteressado" de Putin, Trump e Marine Le Pen ao Brexit mostram, claramente, que uma Europa sem Reino Unido não é uma melhor Europa.

 

Mas às vezes as coisas certas acontecem ou são precipitadas da maneira errada. Escrevo isto e tremo por todas as memórias da história comum europeia, por todas as vezes em que nada disto foi verdade. Depois houve esta ou aquela excepção em que isso pode ter acontecido. Escrevo isto e lembro-me de uma frase do romance "Pai Nosso" da Clara Ferreira Alves em que somos advertidos a prestar atenção a todas as coisas que acontecem pela primeira vez.

 

Ainda assim. 

O Brexit, em si mesmo, pode não ser uma coisa má – é sim garantidamente o início de algo que não sabemos o que vai ser.

É garantidamente o sinal desesperado, porque todos os outros já existiram, de que precisamos de uma nova Europa.

 

(P.S. – E, na política mais caseirinha, para quem duvidava que António Costa era um homem de sorte, as teimas estão tiradas.)

 

Tenham um bom fim de semana

 

 

Outras sugestões:

 

Este foi um texto escrito pelo Pedro Santos Guerreiro no Expresso, um dia antes do jogo Portugal – Hungria, um dia antes do microfonegate. Um dia antes de um jogo de sofrimento e, de alguma forma, redenção. Porque amanhã, mesmo com Brexit, o Euro2016 continua, aqui fica como recomendação de leitura porque vale a pena.

 

E agora, Espanha. No domingo, realizam-se as eleições que – provavelmente – irão indicar quem ficará à frente dos destinos do país. Num tempo que grande turbulência europeia, são ainda mais importantes. Aqui  é um bom sítio para seguir o que se vai passar no país ao lado.

 

 

 

 

 

publicado às 12:03

Brexit? Três contra um em como ficam!

Por: Márcio Alves Candoso

 

Enquanto as sondagens se revelam inconclusivas na definição de um vencedor claro no referendo britânico sobre a continuidade na União Europeia, as casas de apostas britânicas não têm dúvidas. O ‘stay’ vai ganhar.

 

Comecemos pelo ‘rock’. Na célebre música dos anos 80, os ‘Clash’ perguntavam se deviam ficar ou deviam partir. E asseguravam que, se partissem, isso iria trazer problemas; mas se ficassem, eles apareceriam em dobro. Ao indeciso ‘should I stay or should I go’ respondem, quase sem querer, os ‘Jets’. ‘Para que te mostre o que tenho, preciso de saber de que é que necessitas’. E concluem: ‘So put ya money where ya mouth is’. A expressão idiomática inglesa, que serviu de tópico ao único grande êxito comercial desta banda australiana, quer dizer o seguinte: ‘arrisca o teu dinheiro naquilo em que acreditas; faz, em vez de só conversares’.

 

É assim que os ‘Jets’ resolvem a questão lançada na primeira estrofe do tema. Aí, interrogam-se sobre se estão no paraíso ou no inferno. E decidem que é com a crença e com o risco - que se demonstra pelo investimento financeiro, ou seja, a aposta naquilo em que se acredita – que se resolve o dilema.

 

A ideia parece estar a ser seguida pelos britânicos, no que diz respeito às apostas que têm vindo a efectuar nos últimos dias. No Reino Unido tudo serve para apostar, seja o desporto ou a política, passando pelo nome do primeiro filho de William e Kate, qual é a probabilidade de nos encontrarmos com um extra-terrestre ou adivinhar quando será o fim do mundo. Neste último caso, os ‘brokers’ estão indecisos sobre que chances hão-de dar aos apostadores. E isto por uma questão ética - quem quer que ganhasse não seria ressarcido da sua aposta…

 

Mas enquanto as sondagens se revelam inconclusivas na definição de um vencedor claro no referendo britânico sobre a continuidade na União Europeia, as casas de apostas não têm dúvidas. O ‘stay’ (fica) vai ganhar. Na ‘SkyBet’ pagava-se ontem 2,25 libras por cada uma se a aposta fosse ‘leave’ (saír), enquanto com a vitória do ‘stay’ o apostador só ganha quatro em cada 11 moedas que arrisque. Na ‘Paddy Power’, o ‘exiting’ paga seis para um, enquanto o ‘remain’ não vai além de um em cada dez. Entretanto, na sondagem ontem divulgada pelo ’Financial Times’, que faz uma média de todas as mais recentes publicadas, o ‘sim’ à saída ficava ligeiramente acima do ‘não’ – uns 45% contra 44%.

 

 

 

O ‘Daily Telegraph’ sustentava, esta manhã, que o referendo britânico à continuidade na UE – popularmente conhecido por ‘Brexit’ – era já o maior acontecimento das casas de apostas da história do Reino Unido, batendo o anterior recorde da eleição do Presidente dos EUA, em 2012. Só na ‘BetFair’ entraram mais de 60 milhões de libras (cerca de 78 milhões de euros), quando no caso da eleição de Obama esse montante ascendeu a 40 milhões (52 milhões de euros). A casa londrina, como a maior parte das suas concorrentes, está a apostar num 3 contra 1 a favor do ‘fica’, que se traduz em percentagens a rondar os 75/78% de apostas na manutenção da união com a Europa. ‘LadBroker’, ‘William Hall’ – todos os quadros visitados vão no mesmo sentido.

 

A credibilidade das casas de apostas foi reforçada nas eleições legislativas de 2014. Enquanto as sondagens davam uma luta renhida entre os partidos Conservador e Trabalhista, os jogadores não tiveram dúvidas em dar a maioria aos ‘Tories’, numa percentagem de 80% para 20%. E a verdade é que o partido liderado por David Cameron ganhou mesmo com maioria absoluta. Já no referendo para a independência da Escócia ocorreu uma situação idêntica, com os apostadores a acertarem na manutenção da união com a Inglaterra, perante sondagens inconclusivas.

 

Recentemente, assiste-se em Inglaterra e em outros países a estudos académicos que pretendem encontrar a base científica para a razão por que os apostadores são mais certeiros do que os eleitores sondados. Há várias teorias, desde a ascensão de um grupo cada vez mais alargado de pessoas que mentem deliberadamente quando interrogadas sobre a sua preferência política - que seria uma forma de afirmação de rebeldia inorgânica cada vez mais acentuada – até àqueles que, mais prosaicamente, afirmam o tal ditado: ‘put your money where your mouth is’. Como nas séries policiais, ‘follow the money’ parece ser a chave para encontrar o criminoso ou, neste caso, o eleitor verdadeiro. Outra hipótese reconhece que há deficiências técnicas nos métodos de sondagem, nomeadamente naquelas que insistem em apurar a tendência através de chamadas telefónicas para aparelhos fixos, cada vez mais em desuso.

 

Interessante também é verificar qual o montante médio de aposta daqueles que querem ficar com a União e daqueles que querem sair. O ‘stay’ vale 450 libras (585 euros) por cada boletim entregue, enquanto o ‘leave’ se fica pelas 75 (97,5). No entanto – e é aqui que pode estar o pauzinho na engrenagem - algumas casas anunciaram que o número de apostadores na saída era em maior número que os que preferem continuar ligados ao Continente. Na verdade, embora o ‘stay’ tenha mais apoiantes do lado conservador, a verdade é que a classe trabalhadora está em boa parte ligada ao ’leave’.

 

Os analistas têm dificuldades em compreender como é que os líderes de quatro dos cinco maiores partidos – o UKIP de Nigel Farage é a excepção - apoiam o ‘stay’ e, no entanto, as sondagens continuam a ser inconclusivas. Alguns, no entanto, encontram já a resposta.

 

Muitos britânicos acreditam que a imposição de regras por parte da União Europeia, a par da imigração em massa, estão a mudar a face do país e a estragar a velha democracia; isto para além de porem em causa empregos e redes sociais de apoio. Segundo estatísticas hoje divulgadas pela imprensa londrina, mas que o Governo queria guardar até depois do referendo, estima-se que, só no ano passado, a população da Grã-Bretanha tenha crescido em mais 513 mil pessoas, dos quais 335 mil imigrantes directos; cerca de 170 mil dos quais sem trabalho garantido.

 

Já para John Harris, colunista do ‘The Guardian’, a culpa é do neo-liberalismo, que tornou precários muitos dos novos empregos. Uma análise difícil de sustentar, se acreditarmos que nas gerações mais novas – onde a precariedade é mais visível – o voto pelo ’stay’ é mais consistente.

 

Talvez o divórcio entre governados e governantes, a não compreensão dos novos anseios das populações, entaladas entre padrões de vida mais apertados e uma abertura de mercados que lhes trouxe poucos benefícios directos - ao contrário da banca e do mercado financeiro em geral, que perderá bastante com a saída do Reino Unido – os leve a pensar que mais vale a pena sair. Para lá de todo o populismo e agressividade deste processo referendário - que levou até ao praticamente inédito assassinato de uma deputada, a trabalhista pelo ’stay’ Joe Cox -, mais consistente será pensar que quem ataca as nações dificilmente poderá pretender governar povos.

 

Mas o dinheiro poderá falar mais alto. Várias previsões apontam para perdas significativas do produto interno bruto (PIB) britânico com a saída da União Europeia. Já foi isso que impulsionou os escoceses a ficarem unidos à Inglaterra, e poderá ser suficiente para que tudo fique na mesma quando, lá para as quatro da madrugada, os resultados se tornarem mais conclusivos. É que, ao contrário da canção dos ’Clash’, o ‘stay’ não resolve nada; mas o ‘leave' piora tudo.

 

publicado às 17:02

Até tu, Nova Zelândia?

Por: Márcio Alves Candoso

 

Quando se abre a Constituição da República Portuguesa, logo após o 'Preâmbulo', naquele capítulo que fala dos 'Princípios Fundamentais' – que vêm, note-se, ainda antes dos 'Direitos e deveres fundamentais' – dá-se de caras com 11-artigos-11 que descrevem as coisas básicas que há que saber e respeitar quando se é português. Está lá o território, a cidadania, a soberania, o hino... e a bandeira.

 

Diz lá que é a verde-rubra da República, com os castelos e as quinas ao centro, no meio de uma esfera dourada universal que, com seus arcos de metal, canta o meio-dia na Terra que lhe foi centro, entretanto substituída pelo Sol. Mais nenhum país do mundo ostenta tal ornamento no estandarte nacional. Dir-se-ia que o Mundo, e mesmo o Universo todo, é uma descoberta de Portugal. Que a esfera tenha sido inventada na China, antes ainda de Cristo descer à Terra, é coisa que não nos contaram na primária.

 

Vamos falar de bandeiras. Não de todas, mas aquelas que as Nações, as Pátrias e os Estados – que às vezes, com muita sorte, são tudo uma mesma coisa – têm por símbolo distintivo. Um pano, não mais do que isso, ao lado do qual se perfilam militares, que se ergue quando ganhamos nos Jogos Olímpicos, se vê de longe nos edifícios públicos e por vezes até cobre caixões de heróis ou de simples mortais.

 

 

É de guerra que se fala quando se procura a aurora primeira da bandeira. Ao princípio, as cores que pintavam panos distinguiam batalhões e armadas. Se as flâmulas eram iguais, eram dos nossos; diferentes, do inimigo. Foi assim com os romanos e na Alta Idade Média. Começaram por roubar os símbolos aos escudos e a outros sinais de comando já existentes desde a Antiguidade. Foi só transformá-los em panos.

 

As bandeiras mudam com a circunstância. Mas não para os circunspectos dinamarqueses. Desde o século XIII que aquela gente vive debaixo da cruz branca sobre fundo vermelho. É, de longe e sem interrupções, a bandeira há mais tempo ao serviço oficial. O século XIII é, aliás, um tempo em que as bandeiras nacionais encontram lar. Foi Afonso X, o 'Sábio', rei de Leão e Castela que fazia cantigas de amor e missa na língua erudita da época – o galaico-português – que primeiro definiu o conceito e as regras das bandeiras. Um tipo decente – renunciou a ser rei do Algarve, em favor de Portugal.

 

As bandeiras contam histórias, mostram o País que representam ou os progressos que a eles estão associados. Prantam plantas, como a do Canadá ou do Líbano, tesouros nacionais, como o templo de Angkor na do Cambodja, ideologias, como as que têm estrelas amarelas de cinco pontas, típicas dos países comunistas que cantam a penta-unidade entre soldados, operários, camponeses, jovens e intelectuais, ou símbolos religiosos, como é exemplo a de Israel, ontentando a estrela de David.

 

Há as bandeiras pan-árabes, que têm a cor preta de Maomé, o branco do califado omíada, o verde dos fatimidas e o vermelho dos carijitas, uma espécie de protestantes do Islão. Há as eslavas, que torcem e retorcem o vermelho, branco e azul – a que a Ucrânia e a Bulgária fugiram – ou as africanas, com seu verde, amarelo, vermelho e até preto, unindo a tradição rastafari do Messias da Etiópia semi-cristianizada e desde sempre independente, com o negro da afirmação continental moderna.

 

Todas as bandeiras contam uma história. A da Índia tem o verde muçulmano ao lado do laranja hindu. A 'roda de bicicleta' ao centro tem 24 aros, que repesentam as 24 horas do dia. Diz-se que a da Áustria, com o duplo vermelho entrecortado de branco, nasceu quando Leopoldo IV, ao chegar de uma batalha, reparou que o seu uniforme alvo estava manchado de sangue; mas, na parte de dentro, tudo continuava branco. Por milagre, tratava-se do sangue de outro que não do arquiduque.

 

 

Há a bandeira do 'Decepado', Duarte de Almeida, que segurou o estandarte de Portugal mesmo depois de lhe cortarem as mãos, na malfadada batalha de Toro, era Afonso V rei de Portugal e pretendente de Castela. Há as bandeiras brancas da paz ou da rendição – que não são a mesma coisa - e as negras da miséria, que é sempre igual. Há as do arco-íris, adoptadas por aqueles que defendem a semelhança dos sexos na diversidade do amor. E há a bandeira hasteada ao contrário, que em termos militares simboliza a tomada do território pelo inimigo e um lancinante pedido de socorro; não era essa a ideia do Presidente cessante quando içou a verde-rubra de pernas para ao ar, comemorando a República, a 5 de Outubro de 2012. E no entanto...

 

Os impérios deixam marcas nas colónias. Não é por acaso que a bandeira de Ceuta tem os campos triangulares a preto e branco, como Lisboa, ostenta o escudo de armas do reino de Portugal e a cidade tem como lema 'sempre nobre, leal e fidelíssima cidade de Ceuta'. O mesmo ocorre em muitas possessões do antigo Império Britânico, que ainda hoje levam a 'Union Jack' – bandeira do Reino Unido – num dos cantos do rectângulo flamular.

 

Bandeira actual da Nova Zelândia, com a Union Jack

 

Os casos mais conhecidos de identificação britânica são, hoje em dia, a Austrália e a Nova Zelândia. Ou eram. A partir de hoje e até ao próximo dia 24 de Março, os neo-zelandeses são convidados a votar, através de referendo, na persistência da actual bandeira ou na sua substituição por outra, entretanto escolhida como possível alternativa.

 

É preciso perceber o que é a Nova Zelândia para comprender o porquê da possibilidade de mudança. Há uma piada recorrente que diz que a Nova Zelândia não existe. Na maior parte dos planisférios, que gostam de pôr o Oceano Pacífico nas pontas e a Europa e a África ao centro, a Nova Zelândia é aquela coisa retorcida, lá em baixo ao fundo à direita; às vezes nem sequer se vê, porque a partição do mapa corta os antípodas.

 

 

Mas o pior de tudo é que não é qualquer um que distingue a bandeira da Nova Zelândia da da Austrália. E, já se sabe, os pequenos é que têm de se pôr em bicos de pés, os grandes vêem sempre o espectáculo como se estivessem na primeira fila. A Nova Zelândia, coitada, além de ainda ficar mais longe do resto do planeta do que os seus vizinhos mais próximos – de Sidney a Wellington são uns 'meros' 2200 quilómetros, tantos como daqui à Holanda, pátria da velha Zelândia – tem como estandarte algo muito semelhante ao que se ergue na enorme Austrália.

 

Mas há mais. Ao contrário dos aborígenes australianos, cuja sorte malvada faz corar de vergonha os índigenas norte-americanos, os povos autóctones da Nova Zelândia têm vindo, paulatinamente, a afirmar os seus direitos. Desde o início do século XX, aliás, que as armas do brazão da Nova Zelândia ostentam, ao lado de uma mulher branca – a cara chapada de Alice Spragg, uma 'socialite' de Wellington – um guerreiro maori. Tanto ou tão pouco que os 'pakheas' – nome maori para os colonizadores brancos, mas que muitos descendentes de europeus assumem sem qualquer afronta, até para se distinguirem de imigrantes recentes, os 'tauiwi' – já começam, nas suas franjas mais conservadoras, a torcer o nariz. Há quem diga que ser maori, na Nova Zelândia, já é um privilégio.

 

Daí que manter as armas do Reino Unido esteja a ficar fora de moda. E há que inovar. Para isso, o Governo local lançou um concurso público de ideias, que pudesse trazer à estampa uma nova bandeira para ombrear com a velha. Foram exactamente 10.292 os desenhos que, ao longo do ano passado, deram entrada nos escritórios do comité oficial instalado de propósito para escolher a alternativa. Nesse caminho, o Executivo de Wellington já gastou 26 milhões de dólares locais (qualquer coisa como 16 milhões de euros) na empreitada.

 

O processo passou por diversas fases. Em primeiro lugar, foram escolhidos 40 desenhos, que foram postos à consideração dos 4,5 milhões de neo-zelandeses residentes, mais os cerca de um milhão de emigrantes. Depois foram escolhidas quatro possíveis bandeiras, três das quais muito parecidas. Uma ganhou. E é essa, a par da actual, que vai ser posta em referendo a partir de hoje.

 

Imagem da bandeira que a Nova Zelândia vai referendar em março de 2016. 

 

No fundo, trata-se de mandar, ou não, para os anais da História a Union Jack, substituindo-a pela folha de feto que é endémica na flora neo-zelandesa, e que já representa o país nas camisolas das selecções de vários desportos, e desde logo no mais importante, o râguebi. A 'silver fern' deverá aparecer sobre fundo negro e azul, de forma oblíqua na diagonal do rectângulo, acima das quatro estrelas da constelação do Cruzeiro do Sul que já fazem parte da bandeira actual. Ganhou a uma outra em tudo igual, excepto na cor preta – tinha essa parte a vermelho.

 

Segundo as sondagens mais recentes, cerca de metade dos neo-zelandeses estão disponíveis para uma mudança; mas 24% adiantou que faz depender o seu voto da hipótese escolhida. Espera-se uma luta renhida, na terra planetária que mais tarde foi habitada. Só há sete séculos – o tal XIII desta história das bandeiras – é que chegou gente da Polinésia, da Malásia e, eventualmente, da China insular, à Nova Zelândia.

 

Eu, por mim, cheguei mais tarde. Quando, em 1998, aterrei em Wellington, tinha a ideia de ir encontrar uma Austrália mais pequena. Vinha de Sidney, Melbourne e arredores e estava fascinado com a alegria, a liberdade, o mar surfista e as belezas naturais ou maquilhadas da ilha que é um continente. Nada mais falso. As neo-zelandeses de compridas saias pretas e golas até ao pescoço ficam coradas quando a gente as interpela nas ruas. Os homens pouco elegantes que povoam os bares às seis da tarde são de trato distante. Pode ter sido pouca sorte minha. Afinal, nem tive tempo de ver as ovelhas.

 

publicado às 15:21

Referendos a liberdades individuais? Não, obrigado

Por: Paulo Ferreira

 

O conservadorismo moral e comportamental é absolutamente legítimo e cada um deve praticar o que quer para si. O que já não é legítimo é que os que o escolhem para si no uso da sua inalienável liberdade e em nome do ideal de sociedade que defendem, o queiram impor ao resto dos cidadãos.

 

É sempre assim. Não há tema dito fracturante que se discuta sem que o referendo seja chamado à conversa. Agora é a eutanásia, antes tinha sido o aborto. Vá lá que o casamento homossexual escapou sem se ter levantado grande vozeria a defender que o povo devia ser consultado.

 

É o exercício mais puro da democracia, dizem, ouvir os cidadãos em questões que dividem a sociedade. Discordo. Quando estão em causa liberdades individuais que não interferem em direitos alheios - e é só destas que falo - “chutar” a decisão para referendo é a) uma hipocrisia dos representantes eleitos do povo, que não querem ter o onús de decidir temas polémicos e b) é dizer a cada um dos cidadãos que ele tem todo o direito não só de de opiniar como de decidir sobre a vida privada e íntima do vizinho. Reforço, para que não restem dúvidas: quando está em causa o exercício de um direito próprio, de decisão individual, que não coloca em causa nenhum outro direito de terceiros, que legitimidade temos para, colectivamente, condicionar essa decisão? A eutanásia é um desses temas.

 

Defendo que deve ser concedido o direito a uma morte digna a doentes terminais que a ciência médica considera inequivocamente irrecuperáveis e que esse direito deve poder ser exercido por vontade consciente e manifesta do próprio. Se esse direito vier a ser legalizado com todos os cuidados que o tema impõe ninguém, nunca, está obrigado a exercê-lo. A decisão cabe sempre ao íntimo de cada um, em decisão individual ou familiar. Mas, e a perversidade está aqui, a não legalização da eutanásia condiciona e interfere na liberdade individual dos que preferiam exercê-la nas condições extremas em que pode ser aplicada.

 

O que se passa sempre nestes debates sobre questões comportamentais e liberdades individuais é que a fatia importante da sociedade que tem princípios mais conservadores tenta impor esses seus princípios a todos. O conservadorismo moral e comportamental é absolutamente legítimo e cada um deve escolher e praticar o que quer para si. O que já não é legítimo é que os que o escolhem para si no uso da sua inalienável liberdade e em nome do ideal de sociedade que defendem, o queiram impor ao resto dos cidadãos.

 

Referendar questões destas tem a perversidade de transmitir aos cidadãos que cada um deles tem uma palavra a dizer sobre os comportamentos alheios, interferindo na sua esfera de liberdades individuais. É dar a cada eleitor uma voz que é, a meu ver, ilegítima. Eu não quero decidir se o vizinho pode ou não praticar eutanásia, colocando-se-lhe essa questão. Nem tão pouco se ele pode ou não casar com uma pessoa do mesmo sexo. É com ele. Independentemente das opções dele, as minhas ficam intactas. Ele pode decidir que sim e eu que não, com a mesma legitimidade. E se ele não pode impor-me o sim eu não devo contribuir para impor-lhe o não.

 

Então e 230 deputados podem fazê-lo? Podem e devem. É para isso que são eleitos. Para tomar decisões informadas, esclarecidas, sustentadas pela melhor evidência científica, quando for caso disso. E para depois serem avaliados pelos eleitores sobre as decisões que tomam.

 

Querem referendar coisas? Aqui vai uma lista de temas sobre a organização do país (e não da casa de cada um), sobre direitos e deveres colectivos (e não individuais que em nada interferem com o colega do lado), sobre mudanças que interferem sempre na vida de cada um: regionalização, Segurança Social, tectos máximos para impostos e despesa pública, manutenção ou saída do euro, sistema eleitoral, mudanças profundas na educação pública. Se queremos aprofundar a democracia directa temas não nos faltam. Tão fracturantes quanto os outros mas com uma enorme diferença: nestes somos todos afectados directa ou indirectamente e estamos sempre a decidir sobre os nossos direitos e deveres. É muito mais saudável do que querer decidir sobre o que o vizinho pode ou não fazer quando nada disso interfere na nossa vida.

 

Outras leituras

  • O smartphone mais barato do Mundo custa seis euros e é indiano. Porque a democratização da tecnologia é também um factor de combate à exclusão e as comunicações deixaram de ser um luxo e passaram a ser um bem essencial.

  • Nem tudo na Europa está feito e moldado à vontade alemã. O Banco Central Europeu é a prova disso.
publicado às 10:53

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