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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

O naufrágio à nossa frente

 

Por: Francisco Sena Santos

 

É a imagem lancinante que documenta estes dias. É uma fotografia que nos confronta com o naufrágio. Mostra-nos o casco inclinado da barcaça que se vira e vemos muitas dezenas de figuras minúsculas que tentam algum meio para sobreviver, ou atirando-se ao mar ou agarrando-se à madeira do barco que talvez ainda flutue algum tempo mais. Sabemos que são mulheres, homens e crianças que tentam salvar-se no mar imenso. No Mediterrâneo, a quem os antigos romanos chamavam mare nostrum. Podemos seguir como que anestesiados, sem reagir, perante a perturbadora imagem de um naufrágio assim diariamente replicado?

 

É uma fotografia que documenta a queda a pique de tantas, não sabemos quantas, vidas. Muitas escapam ao naufrágio, outras sucumbem e ficam para sempre em lugares de fossa comum, localizados de modo vago como “ao largo da costa líbia”.  A história lembra o modo como Virgílio, há 20 séculos, descreveu o naufrágio da frota troiana de Eneias perante a fúria desencadeada pela poderosa e vingativa deusa Juno. No caso mostrado nesta imagem de agora, um bravo grupo da Guarda Costeira italiana conseguiu evitar a hecatombe e salvar a maior parte destas vidas. Também há gente valente de Portugal nestas operações de socorro. Mas não chega, os naufrágios fatais sucedem-se, todos os dias. O Alto Comissariado da ONU para os Refugiados reportou, a partir do testemunho de sobreviventes, cerca de 700 vidas perdidas só em três dos muitos naufrágios da última semana.

 Sabe-se que há muitos milhares de africanos que, frustrados na terra onde nasceram, dispostos a arriscar, estão nas margens da costa sul do Mediterrâneo na esperança de embarcar. Tendem a ser milhões. Muitos nem terão a noção das escassas perspetivas e dos perigos. São migrantes económicos, não preenchem as condições para serem considerados refugiados e assim obterem acolhimento. Mas são levados a ousar a sorte e estão à mercê da indústria contemporânea do tráfico de seres humanos.

 

No começo do outono, aquela fotografia do pequeno Aylan, vestido e calçado mas inerte pela morte na beira-mar de uma praia na Turquia, conseguiu acender a opinião pública europeia para a tragédia dos refugiados e impôs o debate político. Houve então muitas palavras, comoção de circunstância, mas por pouco, demasiado pouco tempo. A crise dos refugiados segue por tratar.

 

Agora, esta imagem da barcaça que se afunda volta a pôr diante dos nossos olhos um drama que resulta de uma das questões essenciais do nosso tempo, a da emergência migratória: os milhões de pessoas que estão num continente com 30 milhões de quilómetros-quadrados e que aspiram chegar à Europa. É preciso saber reagir e encontrar soluções humanas. Quais? Não sei. É uma tarefa para os políticos. Eles são eleitos com o encargo de encontrarem soluções para os problemas. Sendo que, continuando a desviar o olhar, continuando alheios ao sofrimento dos outros, continuando sem saber resolver com humanidade, continuando a silenciar este abandono, estamos todos a naufragar.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

O Prémio Camões vai este ano para o brasileiro de origem libanesa Raduan Nassar, pela “força poética da sua prosa”.  O escritor, que gosta de se dedicar à agricultura, não cultiva aparecer ou protagonizar entrevistas mas levantou a voz contra o afastamento de Dilma. É também autor de explosivos contos eróticos em que “a fricção dos discursos é tão ou mais erótica que a das peles”.

 

Agora é o Ministro da Transparência, apanhado em escutas: em sete dias já caíram dois ministros do governo transitório brasileiro que há 17 dias substitui o de Dilma.

 

Estão a começar as Festas de Lisboa. O programa está aqui.

 

Três primeiras páginas escolhidas hoje: esta, esta e esta.

 

publicado às 08:16

12 perguntas de 2015 para 2016

Por: Francisco Sena Santos 

 

Estamos a sair de um ano que fica marcado por alguns episódios que dão fôlego à esperança mas também pela proliferação do medo. Um 2015 que começou e terminou com as atrocidades em Paris, em que a organização com o nome mais pronunciado é a do autodesignado estado islâmico, e um ano que nos deixa num areal de inferno da nossa memória a imagem atroz do pequeno Aylan Kurdi, naufragado quando julgava fugir do calvário na Síria - retrato para nossa vergonha, e que resume todo o pesadelo dos que buscam refúgio com a aspiração de se livrarem da guerra e da pobreza. Mais de um milhão de refugiados nas portas da Europa. A solidariedade europeia de muitos chocou com a indiferença de tantos e até a vil perseguição pretendida por outros. Jóias arqueológicas como as de Palmira foram devastadas por mãos jiadistas.

 

É o ano em que com a chacina no centro social de San Bernardino subiu para 355 o número de matanças com armas de fogo num mesmo ano nos Estados Unidos da América – causaram mais mortes do que o número de baixas de soldados americanos nas guerras na frente externa. É o ano com temperaturas mais quentes desde que há registos, mas em que pela primeira vez há um acordo universal para proteger o clima do planeta. E tivemos a NASA Curiosity a mostrar-nos selfies de Marte que revelaram indícios de água líquida no planeta vermelho, portanto a possibilidade de algumas formas de vida. Temos um Papa, o mais revolucionário no topo da igreja católica, e uma referência moral neste nosso tempo. A Europa segue incapaz de dar boas soluções mas o espaço público está repolitizado. As eleições estão a virar a governação, tanto na Europa do Sul como na América do Sul. Cuba ficou menos ilha e o Irão volta a ser parceiro global. Em Portugal, os prejuízos da má banca continuam a ser socializados e pagos pelos contribuintes enquanto o lucro é privatizado. Os jornais, como as rádios e as televisões, precisam de excelência editorial e gente culta e inovadora para conquistar mais leitores que passem mais tempo a desfrutar informação com o contexto indispensável à compreensão do que está a acontecer, mas o que sai deste 2015 é o enfraquecimento das redações.

Os tempos que vivemos estão cheios de histórias dramáticas, em muitos casos trágicas, mas há que não desesperar, há que lutar por melhor. É assim que ficam 12 perguntas de 2015 para 2016

  1. Vamos continuar a confrontar-nos com a ameaça de atrocidades terroristas? Provavelmente, quase de certeza, sim. As organizações terroristas associadas ao chamado estado islâmico(EI) ainda estão a ampliar táticas e recursos para o ataque em curso: da guerra convencional ao terrorismo urbano, passando por operações de guerrilha. Por mais intelligence que seja envolvida é muito difícil que possamos ter, nos próximos meses, um escudo que nos defenda com eficácia e elimine o risco desses ataques.
  2. Há fim à vista para a guerra na Síria? Ainda vai demorar. A entrada em ação, em 30 de setembro, dos caça-bombardeiros russos alterou o mapa da guerra e ajuda as tropas sírias a recuperar algum terreno perante o EI. Mas o exército sírio apenas controla cerca de 25% do território do país, que é em grande parte de deserto. A Rússia está a dar a mão ao presidente Assad e a barrar a transição política que o Ocidente pretende, embora, neste momento, a prioridade seja eliminar o EI. Por agora, Moscovo está ao lado dos EUA, França e outros europeus contra a tomada de território da Síria pelo EI. Quando a mudança de regime voltar ao centro da discussão, Moscovo terá a chave. Até lá, muita vida vai continuar a ser perdida neste país que, há cinco anos, quando a guerra começou, tinha 23 milhões de habitantes. Com o êxodo de refugiados, agora, tem cerca de 16 milhões. Mas do Iraque vem, com a reconquista de Ramadi, um outro exemplo de como é possível fazer recuar o EI.
  3. Que resposta vai dar a Europa aos que aqui buscam refúgio? Tem sido e tende para continuar a ser um fracasso. Já está perdida a possibilidade de pôr a funcionar um sistema de asilo e refúgio eficaz conforme aos valores europeus. A Alemanha chegou-se à frente com atitude solidária e isso deu crédito a Merkel, mas não foi capaz de fazer valer uma resposta unificada europeia. A União Europeia está fragmentada, com países abertos à integração e outros a levantarem muros. Não é uma Europa à altura do Nobel da Paz que a distinguiu em 2012. E a Europa ainda tem pela frente a ameaça de crise grave com o referendo sobre a permanência britânica na União. A discussão sobre a União Europeia é fulcral e está estupidamente ausente no debate político português. A Europa, para que seja uma potência global neste século XXI, precisa de se impor como estado único, estado federal. Não se vê nas atuais elites dirigentes europeias alguém capaz para conduzir a renúncia necessária a uma quota de soberania nacional preservando o essencial na independência de cada nação.
  4. O preço da gasolina vai continuar por baixo? A revolução das fontes não tradicionais, liderada pelos EUA nos últimos seis anos, fez duplicar as alternativas energéticas norte-americanas. Má notícia para as oligarquias do Golfo, para a Rússia, Venezuela, Nigéria, México e outros grandes produtores. O barril de petróleo era negociado a 115 dólares no verão de 2014. Neste natal de 2015 vale à volta de 45 dólares. A retirada do embargo ao Irão vai alagar a oferta com mais um milhão de barris por dia. Há quem fale de barril de petróleo a 10/15 euros neste 2016. O mercado de futuros aponta para o barril a 60 dólares em 2020. Mas a queda do preço do petróleo ainda não está a ter um efeito tão estimulante sobre a economia dos países compradores quanto o efeito depressivo nos produtores. 
  5. O táxi tradicional vai sobreviver à entrada em cena da Uber? Vai ser difícil travar a coexistência. De certo modo, a Uber está para o táxi como as low cost para as companhias de aviação tradicionais. Embora a oferta Uber até contemple o padrão luxo. A sociedade Uber, nascida em Silicon Valley, propõe aos utilizadores de transporte público em automóvel uma alternativa, frequentemente mais barata, assente numa aplicação móvel. A chave para a operação rápida está na geolocalização dos nossos smartphones. O telemóvel está a mudar tudo na vida das pessoas. Há 7,3 mil milhões da assinaturas de telemóvel pelo planeta. Ainda estamos no começo da revolução smartphone que vai repercutir-se em todos os domínios. No século XVII, Christian Huygens inventou um motor para puxar água para a rega dos jardins do palácio de Versalhes. O desenvolvimento desse conceito de motor mudou a velocidade do mundo. O avanço da tecnologia do telefone móvel tem um impacto que não fica atrás do que foi gerado pela invenção do motor. A UBER tende a funcionar para o transporte em automóvel tal como a Airbnb para o aluguer de apartamentos. Ou a Amazon com os livros e tudo o mais.
  6. A TAP vai voltar a ter controlo acionista pelo Estado português? Há que esperar para saber. A determinação exibida por António Costa leva a crer que assim vai ser. A operação de reversão do negócio é mais um teste, também crucial, ao engenho negociador do primeiro-ministro. Costa vai conseguir envolver Neeleman (com Pedrosa) e mantê-lo como parceiro, embora minoritário? Negociação de alto voo.
  7. O governo do PS, suportado pelas esquerdas, vai atravessar todo o ano de 2016? Provavelmente, sim. O PCP, mesmo que proteste muitas vezes, vai cumprir o que ficou acordado. E nem PCP nem Bloco de Esquerda terão algum interesse, por agora, em novas eleições. De resto, a nova presidência da República (Marcelo, anunciam todas as sondagens) tenderá a ajudar.
  8. Com a saída, parece que agora mesmo irrevogável, de Paulo Portas da liderança do CDS/PP, com a coligação PàF onde o PP diluiu muito da sua identidade agora desfeita, que rumo vai tomar este partido? Mais PP com Nuno Melo ou mais CDS com Assunção Cristas ou Pedro Mota Soares? Vale ler esta análise. E também esta.
  9. Depois de um negro, uma mulher: Hillary Clinton vai ser eleita em 8 de novembro para suceder a Obama como presidente dos EUA? Salvo qualquer surpresa, sim. Sobretudo se o rival republicano tiver o absurdo folclore de Donald Trump. O multimilionário lidera as sondagens republicanas com 36 a 39% dos votos. Mas o sobrante eleitorado republicano não-Trump (60%) tende a unir-se em torno de uma alternativa: Marco Rubio, por seduzir o voto latino, poderia ser um adversário difícil para Hillary. Tal como Ted Cruz, tribuno poderoso e chefe da nova versão do tea party. Mas há que não negligenciar Trump. Em 1980, Jimmy Carter, candidato à reeleição, celebrou na sala oval quando soube que o rival seria um velho ator de Hollywood. Mas Ronald Reagan ganhou com 50,7% dos votos; campeão na comunicação, tornou-se uma figura marcante e ficou oito anos na Casa Branca.
  10. Há algum António Costa em Espanha? Há alguém que tenha engenho para juntar apoio parlamentar suficiente para formar governo numa Espanha política de pernas para o ar? Vários barões regionais socialistas estão a barrar opções ao seu líder, Pedro Sanchez. Parece mais provável que os espanhóis voltem a eleições que poderão conduzir ao mesmo impasse. Também impasse em volta da governação da Catalunha. Tudo bem explicado aqui. E aqui.
  11. Vamos ficar em 2016 com menos jornais que cultivem um serviço jornalístico de qualidade, pertinente e que nos lancem luz sobre o que é obscuro? É de recear que sim. Esta análise (artigo exclusivo para assinantes) é preciosa para entendermos o que está em causa.
  12. O que é que nos vai entreter, divertir ou fazer rir em 2016? Vamos vibrar com alguns jogos do Europeu de futebol (em França, de 10 de junho a 10 de julho) e com o espetáculo dos Jogos Olímpicos (Rio de Janeiro, 5 a 21 de agosto). No futebol português, o campeonato promete luta cerrada até ao fim. Federer e Djokovic vão continuar a encher os courts com o melhor ténis de sempre e Nadal talvez ressurja. Para ler, entre tanta coisa, é muito esperado Zero K de Don de Lillo. Já aí está a História das Terras e dos Lugares Lendários, de Umberto Eco. Será que vamos poder ler em português o regresso de Gay Talese a The Bridge? Ou Zona de Obras, de Leila Guerriero? Nos cinemas, Silence, de Scorsese, Julieta, de Almodovar, Ave Cesare, dos irmãos Coen, BFG, de Spielberg, e Hateful Eight, de Tarantino. Vai apetecer ver o que o cineasta Pedro Costa prepara para apresentar na Gulbenkian, juntando música e cinema. Há para ver em Serralves os 85 Mirós que antes do furacão da crise eram do BPN. Nas músicas há os Muse em maio, U2 em julho, e há Rock in Rio Lisboa que promete o pop de Taylor Swift. E quando será que o génio Chico Buarque volta a Portugal?

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA

 

O relatório anual de Repórteres sem Fronteiras revela que 110 repórteres foram mortos em 2015. Mortos pelo seu trabalho. Dois em cada três não estavam em teatro de guerra declarada, o que induz que foram mortos em lugares onde a criminalidade, seja de que tipo for, teme a imprensa. Altíssimo número de jornalistas sequestrados (54) e na prisão (153).

 

Quatro primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO JORNAIS: esta, esta e também esta, que nos remete para o smog que está a deixar Milão (e também Roma) sem carros. Já agora, também esta que vê Mourinho, algum dia, de volta ao Real Madrid.

publicado às 09:47

Banksy põe Steve Jobs num campo de refugiados

Steve Jobs, filho de migrantes sírios - é essa a ideia do artista Banksy na sua última intervenção em espaço público. A obra encontra-se desta vez no campo de refugiados de Calais, um dos locais da Europa onde a crise dos migrantes se tem feito sentir de forma mais aguda e dramática. 

 Steve Jobs, grafitti no campo de refugiados de Calais, por Banksy. Foto de Banksy.

 

A imagem mostra Jobs com uma mochila numa mão e um computador Apple na outra, e foi fotografada e publicada pelo próprio Banksy no seu website. Banksy comentou este seu trabalho no campo que é também conhecido como "A Selva": 'Muitas vezes fazem-nos crer que as migrações roubam os recursos dos países, mas Steve Jobs era filho de um imigrante sírio. A Apple é a empresa mais lucrativa do mundo, paga mais de 7 mil milhões de impostos por ano - e se existe, é apenas porque permitiram a entrada deste jovem vindo de Homs'.

 

Banksy criou já várias obras em resposta à crise dos refugiados, incluindo uma versão do quadro 'O Naufrágio da Medusa', de Géricault, que acrescenta ao célebre e polémico episódio dos náufragos abandonados um iate de luxo. O artista inglês tem também um projecto de construção de abrigos para os refugiados.

 

publicado às 18:04

E os refugiados?

Por: António Costa

 

 Deixemos a política doméstica por momentos. Já passaram mais de 48 horas sobre os horrendos atentados de Paris, os piores em solo francês desde a 2ª guerra mundial. Não é o tempo suficiente para conclusões sobre o estado de guerra em que todos nós, os ocidentais, vivemos, provavelmente sem nos darmos disso conta, mas já é possível identificar focos de risco. Há vários: onde é que o radicalismo jiadista e o islamismo se tocam, como é que o Ocidente responde ao terrorismo do Estado Islâmico, a política de segurança, por exemplo. Há um que, por estes dias, nos toca mais: os refugiados.

Era inevitável que o longo braço armado do jiadismo chegasse ao mesmo tempo que a Europa é invadida por refugiados que também fogem a este terror sob a forma de perseguição, violação, bombas, suicídios e medo. Medo é, talvez, a palavra mais forte, aquela que está por detrás de todas estas ações que, nos últimos anos, já tingiram vários continentes. E de mãos dadas com o medo está uma forma de vida que os jiadistas nos querem impor.

Ainda se sabe pouco sobre a extensão da rede que montou e executou os atentados de Paris – deixemos a contagem das vítimas para depois, já vai nas 129, isto já é suficientemente duro para nos atormentarmos a cada minuto que passa, e apoiemos as famílias dos que partiram – mas há suspeitas de que um dos terroristas teria passaporte europeu ‘arranjado’ na entrada de refugiados na Europa. Devemos, por isso, olhar duas vezes para cada um dos refugiados que já está na Europa ou para cada um que ainda quer entrar? Não e não e não.

Em primeiro lugar, há europeus seduzidos pelo Estado Islâmico, uma coisa absolutamente incompreensível, à qual temos de dar, e ter, uma resposta. Há franceses nestes atentados, com vida e mundo ocidental, portanto. Nem todos são muçulmanos que nasceram e viveram no médio oriente.

Depois, é fácil dizer que os refugiados são os menores dos culpados, claro; o mais difícil é fazer, como sempre. Há uma condição essencial para que os europeus, a maioria, pelo menos, mantenha os braços abertos aos refugiados. As autoridades europeias têm de garantir que a entrada é organizada e que os que entram são de facto identificados e registados. Em condições dignas e humanas. É a única solução, a que defende os refugiados da desconfiança dos europeus, e dos que querem aproveitar a sua entrada para se infiltrarem na Europa para executarem atentados.

É claro que a linha que separa uma estratégia securitária do respeito pelos direitos, liberdades e garantias dos refugiados é muito ténue, mas não é possível fugir a isto, a esta escolha. No equilíbrio entre segurança e liberdade individual, onde está a virtude? Não há uma resposta única, nem fácil, mas tem de ser dada, porque a outra vai ser pior, e será sempre no sentido de fecharmos as fronteiras a quem foge do terrorismo, de nos isolarmos, como se isso resolvesse o problema. Não resolverá, claro, mas a consequência imediata, de defesa, será essa, se os europeus não se sentirem seguros nos seus próprios países.

 

As escolhas

 

O mundo está a olhar para Paris, e para os atentados, enquanto em Lisboa domina a política, e não se pode dizer que seja a alta política. Cavaco Silva tem uma visita de dois dias à Madeira – pode acompanhar as últimas aqui no Sapo24 - e isso indica que não está com pressa para ouvir António Costa. Na verdade, já saberá o que o líder do PS lhe vai dizer, e o (não) acordo que lhe vai levar. O silêncio do Presidente é também uma forma de falar e de aumentar a pressão sobre os socialistas, mas também sobre o BE e do PCP. E se exigir mesmo um acordo, Catarina vai aproximar-se, mas dificilmente Jerónimo dará mais do que já deu. E depois?

 

publicado às 10:46

Uma gota no Oceano. Mas ir.

Por: Pedro Ribeiro

Nota do SAPO24: este texto foi publicado originalmente no blog do Pedro Ribeiro, Os dias úteis. Agradecemos ao Pedro a autorização para o republicarmos aqui, no SAPO24.

Ajuda a refugiados no campo de Gevgelija, Macedónia.

Quero falar-lhes de Kemal.

 

" i am just simple bosnian man my brother who want to others that what i want for myself"

 

Há ali um país, que é uma bomba relógio de tensões étnicas, e que um dia explodirá. Chama-se Macedónia, e a capital, Skopjie, está dividida entre uma parte mais moderna, macedónia, e uma mais desordenada e menos geométrica, de vielas e mesquitas, a parte albanesa. Ali a uns duzentos quilómetros, em direcção à Grécia, há uma deslumbrante estrada de montanha, com um rio em baixo, coisa de postal. Vai dar à cidade de Gevgelija, onde está instalado um campo de refugiados, gerido pela ACNUR, pela Cruz Vermelha, e por um exército de boa vontade formado por voluntários que decidiram estender a mão aos grupos, cada vez maiores, de pessoas que vinham a pé, da Grécia e do Inferno de países em guerra, países de pobreza extrema, estado islâmico assassino, à solta, cidades arrasadas, toda a esperança negada.

 

Esta cidade, em tempos chamada de Las Vegas dos Balcãs, por ter tantos casinos, tem um campo onde ninguém dorme. Está 24 horas seguidas a receber refugiados e a indicar-lhes o caminho para o comboio, os autocarros ou os táxis, que depois os levam mais para Norte, para o próximo campo, já na Sérvia. E daí hão de avançar sempre mais para norte: Croácia, Áustria, Alemanha. Talvez Noruega ou Suécia. O sonho de paz segue o sentido da bússola: é algures a Norte. 

 

No dia que lá passámos, no campo de Gevgelija, a ajudar como pudemos e soubemos, entraram neste campo mais de 10 mil refugiados. Da Síria, mas também da Somália, Eritreia, Sudão do Sul. E também Egipto. Sim. E Bangladesh, Paquistão, Irão e Afeganistão. Há de tudo. Um professor catedrático de História e História da Arte, que dava aulas numa universidade em Damasco e agora está ali, com a mulher e os dois filhos. A explicar que não entende como a Hungria fechou as fronteiras se, de 1946 em diante, assistiu a uma fuga em massa de refugiados que fugiam do controlo soviético e procuravam abrigo e futuro no ocidente europeu. "They must have forgotten", dizia ele, enquanto recebia a sandes, o sumo, as passas e, à entrada do campo, apresentava a mulher e os dois filhos. "If not Hungary, maybe Germany".

 

Um outro casal sírio perguntava-me, enquanto recebia a comida que nós tínhamos ali para lhes dar, acompanhada de um "welcome": de onde eu era. Portugal, respondi.

 

De trás dos pais, descobre-se um miúdo, 8/10 anos, que exclama, sorrindo "Portugal? Me too!", e aponta para a t-shirt onde está a foto e o nome de Cristiano Ronaldo.

 

Uma outra criança, esta de dois anos, com o pé ferido, chora, enquanto a minha mulher lhe limpa esse pé. Depois calçamos-lhe umas meias e uns ténis. E ilumina-se aquele rosto, um olhar de súbito conforto e o aconchego de uns pezinhos enfim quentes.

 

Uma mulher da Somália, com dois filhos pequenos, explica que perdeu marido, pais e sogros na travessia do mar que desaguou neste caminho das pedras, literalmente. E pergunta, na ingenuidade que diz muito sobre muitas destas pessoas e as expectativas que têm: "Germany, one day walk?

 

Não, minha senhora, ainda tem muito caminho de pedras para andar.

 

Fomos à Macedónia com a ideia de ajudar a descarregar as mais de 30 toneladas de ajuda que milhares de portugueses reuniram, para minorar o sofrimento destes refugiados em fuga. A associação "It's Our problem" e "A Solidariedade não conhece Fronteiras" lançaram esta iniciativa, as companhias de transportes TorresTir e Garland ofereceram os camiões e os serviços dos motoristas. A burocracia e a falta de um papel (parece um sketch, mas não) mantiveram os camiões, motoristas e carga humanitária retidos na alfandega da Macedónia primeiro e depois na da Sérvia. Dias de angústia, frustração e a constatação de que estes países estão prisioneiros de uma lógica de exercício do pequeno poder, corrupção latente, uma cortina de ferro que vive dentro das cabeças de funcionários mal pagos e sem mundo nem vontade de facilitar um milímetro. 

 

A ajuda do ACNUR em português foi decisiva e a carga humanitária foi enfim entregue a quem precisa, já na Croácia. Os milhares de portugueses que deram roupa, brinquedos e comida podem ficar descansados: a ajuda chegou. E, daquilo que vi, pode mesmo fazer a diferença. 

 

Mas gostava que conhecessem Kemal. 

 

"Leave emotions out of the camp", recomendava ele, de olhos cheios de lágrimas, perante uma mulher em pânico porque de repente não sabe da família, naquela confusão de gente e tendas com letras que ela não conhece, numa língua que não é a sua, num chão que lhe é tão estranho como seria Marte. 

 

Kemal é um bósnio que é o mais próximo que conheço de santidade em forma humana. Altruísmo, desapego a valores materiais, entrega total à causa da ajuda ao próximo. E gentileza em todos os momentos. Um exemplo que me ficará, para a vida. Um dia quero mostrar-lhe a minha terra, os nossos filhos, e explicar-lhes que foi este senhor de barba rala e olhos profundos que ficou com as mochilas da Maria, do Francisco e do Miguel cheias de brinquedos que foram deles e agora estão nas mãos de outras crianças, para quem um Capitão Gancho, um Dinossauro, um Homem Aranha são um tesouro e uma espécie de portal da imaginação de novo aberta para a infância, que está a acontecer e tem de acontecer, mesmo no meio deste pesadelo. 

 

Ter ido com a minha mulher, num labour of love, até este campo de refugiados. (Obrigado, Rita, por seres a minha Angelina Jolie. Gosto de pensar que isso faz de mim um bocadinho Brad Pitt. :-)) A sério, ter lá estado. E trabalhado para minorar o sofrimento daquela gente. Ter conhecido o Kemal, mas também a Mariana, a Cláudia, a Sandra e a Ana. O nosso improvisado guia que nos mostrou a cidade velha e nos deixou numa casa de chá turco, e nos ofereceu umas uvas sem graínha, enquanto ia fazer a sua reza do meio dia à mesquita. O Mohamed que tem uma loja e gasta boa parte do lucro a ajudar refugiados. 

 

Ter ido foi ter encarado de frente a diferença, e ter confirmado, uma vez mais, que mesmo nas mais extremas diferenças, somos mais parecidos do que pode parecer. Just people, não é?

 

Não sei como vai a Europa lidar com o que está a acontecer. Mas sei que ter o gesto de ajudar o próximo é um legado que se deixa. Todo o tempo da viagem pensei muito no Gonçalo, na Maria e na Mafaldinha. Da sorte que todos temos por nos termos a todos. Por termos nascido aqui e vivermos neste país. 

 

Esta viagem e esta experiência ficam para sempre, na pele e na memória. Como as experiencias da vida que marcam a fronteira entre um antes e um depois. 

 

Que tenha servido para ajudar, mesmo sendo uma gota no oceano como sabemos que foi. Oxalá. In sha Allah, como diria Kemal.

publicado às 15:05

Cenários de apocalipse neste inverno a chegar

Por: Francisco Sena Santos

 

Já estamos em Portugal quase todos a ir ao roupeiro buscar as roupas mais aconchegadas para o inverno. O frio chega à Europa ao mesmo tempo que centenas de milhar de refugiados de guerra. São, só neste último mês, 250 mil que batem à porta. A maior parte foge da guerra civil que desde 2011 devasta a Síria – agora, também tentam escapar aos bombardeamentos da aviação russa. Para maior desgraça, abeiram-se da Europa num tempo em que muitos países europeus estão a barricar-se como resposta à insegurança e aos medos que sentem. É assim que tantos países estão a fechar as fronteiras, os olhos, os ouvidos e a carteira do dinheiro para a ajuda.

 

Nas eleições deste domingo na Polónia venceu, com maioria absoluta, um partido ultranacionalista, anti-europeu, anti-imigrantes. O presidente deste vencedor PiS, iniciais do partido que se define do Direito e da Justiça, alertou num comício na última semana de campanha para o perigo de epidemias que representaria a chegada maciça de refugiados. Chegou a dizer que a cólera está a propagar-se pelas ilhas gregas e que na Áustria se multiplicam casos de disenteria. Também que os refugiados são portadores de parasitas que podem ser perigosos.

 

A Polónia, com 38 milhões de habitantes, é uma fortaleza económica e motor do leste europeu. Os números da economia crescem imparáveis desde 1990. Enquanto a Europa mergulhou em 2009 em crise e recessão, a Polónia desse tempo apenas viu abrandar o seu crescimento económico. O PIB polaco cresceu mais de 40% entre 2004 e 2014. É um país em expansão económica, mas à custa de muito aperto e insatisfação: mão-de-obra muito barata e escassos direitos sociais. O terreno ficou assim fértil para o discurso do PiS, partido cuja identidade se define pelo “contra”: contra as ingerências externas, contra o federalismo europeu, contra a abertura liberal, contra o controlo da economia pelo capital estrangeiro.

A esquerda polaca apareceu nestas eleições com discurso pró-europeu e o resultado é não haver um só representante da esquerda no parlamento de Varsóvia. O politólogo Kasimierz Kik explica no Libération que “os polacos estão fartos da Europa“ e é também por isso que estão a recusar as quotas de refugiados impostas por Bruxelas. Ele especifica: “Para um polaco, um estrangeiro é antes de tudo o mais um ocupante, um invasor, seja russo ou seja alemão”. Traumas antigos.

O PiS prometeu na campanha novos impostos sobre a banca e as grandes cadeias de supermercados (quase tudo com origem no estrangeiro, designadamente em Portugal, neste caso com denúncias específicas), prometeu aumentar os apoios às famílias pobres com filhos, e também prometeu reinstalar a velha confiança no sistema de segurança social do Estado. Este discurso nacionalista e de conservadorismo social rendeu maioria absoluta. E enquadra o paradoxo polaco: um dos países da “Nova Europa” que mais beneficiaram em fundos financeiros com a adesão (em 2004) à União Europeia põe no poder um partido nacionalista e contra a Europa. A postura populista sobre os estrangeiros, inspirada na do húngaro Orbán, pretende fazer de Varsóvia uma nova Budapeste: muro e arame farpado da Europa cristã frente à “invasão muçulmana”.

É certo que no último domingo a liderança da União Europeia reagiu e impôs um plano de urgência – para acolhimento de 100 mil dos muitos mais refugiados em espera. O comando desta Europa que tanto se sobressalta com as questões económicas e financeiras e que não levantou a mão quando a Hungria se pôs a levantar um muro na fronteira com a Croácia para barrar o caminho aos refugiados, agora, finalmente, está impor medidas humanitárias, garante refúgio temporário, comida e assistência médica para proteger os homens, mulheres e crianças que, em desespero, fogem da guerra. Mas o consenso de agora é apenas sobre 100 mil. Muitos refugiados continuam barrados numa fronteira dos Balcãs, sem teto, a sentir o inverno entrar. O primeiro-ministro esloveno alertou neste domingo em Bruxelas para um cenário de apocalipse.

Voltamos ao agasalho para o inverno: sabemos como nos queixamos quando o frio, o vento e a chuva nos apanham desprevenidos na rua ainda com roupa de meia-estação. Como será para aquela gente em ambiente hostil, sem abrigos nem radiadores? Sei que há em Portugal quem reclame toda a prioridade para o apoio aos nacionais que precisam de ajuda. Sim, muita gente precisa de socorro. Mas, apesar de tudo, para quem está no seu país, sempre há redes de apoio, a começar pela família e a continuar em sistemas de solidariedade que traduzem o melhor de nós. Aliás, algumas dessas redes estão já mobilizadas para o apoio aos refugiados de guerra.

 

A ler nos jornais, a ver nos ecrãs

 

Luaty Beirão tem toda a razão: após 36 dias de greve da fome, “a vitória já aconteceu”.

 

Geração frustrada na África do Sul. A BBC mostra-nos a nova consciência negra mas sem o sonho que Mandela abriu.

 

Reviravolta política na Argentina? Ninguém previa um cenário assim renhido para a segunda volta presidencial. No SAPO JORNAIS podemos ver como a bolsa de Buenos Aires está otimista e dispara 17%.

 

Os tuk-tuks de Lisboa chegam ao The New York Times.

 

Como o Libération conta a integração da kizomba, do kuduro e do funaná na paisagem musical portuguesa.

 

"Things to do in Portugal": estas evasões com olhar canadiano.

publicado às 08:28

Segurança Nacional

Por: Rute Sousa Vasco

 

Os russos bombardeiam a Síria, os americanos dizem que, por engano, os mísseis de Putin atingiram o Irão, a ONU quer um governo de união na Líbia e eu já tenho coisas combinadas.

 

Há poucas semanas, em pleno Verão, almocei em Lisboa com um amigo português que há muitos anos vive em França. No decorrer da conversa, falámos de refugiados. Por causa de refugiados falámos da guerra na Síria. Por causa da guerra na Síria, falámos da Turquia. Acabámos com ele a perguntar-me se eu teria mais duas horas para que me pudesse começar a explicar o que se está a passar.

 

Facto: os acontecimentos no Médio Oriente são complexos, nada binários e não se explicam entre dois cafés.

 

Facto: a maior parte de nós, ocidentais, europeus, portugueses, não tem disponibilidade para perceber o que se passa no seu próprio país, quanto mais lá longe.

 

Facto: as duas premissas anteriores podem conduzir-nos a tempos muito negros e isto não é uma afirmação produzida por causa do novo episódio de Segurança Nacional que ontem estreou em Portugal.

 

Todos os dias caem bombas, todos os dias morrem pessoas, todos os dias pessoas cujos nomes não memorizamos trocam acusações. Impressionam-nos famílias com velhos e bebés a jogarem a sua sorte em barcos sofríveis ou em percursos acidentados. Impressiona-nos o bebé Aylan. Impressiona-nos Noujain Mustaffa, a adolescente do sorriso doce. Enfurece-nos o proto-ditador húngaro, mesmo que não saibamos o nome. Enfurece-nos a lentidão da Europa. Enfurece-nos o vizinho do lado que vê perigosos radicais onde vemos simplesmente pessoas.

 

Mas, ainda assim, continuamos sem tempo para perceber o que se passa e provavelmente devíamos, há muito tempo, ter começado por aí.

 

Ontem à noite, em Londres, Meryl Streep falou no evento “Mulheres no Mundo” que foi organizado este ano pela primeira vez. O The Guardian faz-nos chegar as vozes de várias mulheres presentes neste encontro. Streep, a actriz que dará voz a Emmeline Pankhurst no filme “Suffragette”, lembrou que, apesar do direito do voto estar consagrado no Ocidente, ainda há muito para fazer. Ursula von der Leyen, a primeira mulher a ocupar o cargo de ministra da Defesa na Alemanha, também falou. Foi ela, mãe de sete filhos, que introduziu a licença parental partilhada na Alemanha (quando era ministra do Trabalho) e foi ela que recordou a grande tempestade que isso causou entre alguns homens de meia idade instalados na política e a enorme ajuda que teve de outros homens instalados na política.

 

Depois falou a rainha Rania, da Jordânia e não podia não falar de refugiados. Na Alemanha entram por dia, actualmente, 10 mil refugiados. A Jordânia, país ‘encravado’ entre a Síria, o Iraque e Israel, tem no seu território 1,4 milhões de refugiados sírios. São 20% da população e têm uma fatia de 25% do orçamento do país alocada.

 

“É como se o mundo árabe tivesse sofrido uma série de tremores de terra e todos os dias sentíssemos as ondas de choque”, disse Rania. Ela, nascida numa família palestiniana, pediu, uma vez mais, que o Ocidente não se deixe contagiar pela propaganda extremista. “É muito perigoso pensar no ISIS como islâmico porque de islâmico não tem nada …”.

 

A noite fechou com o testemunho de Vian Dakheel Saeed, uma representante Yazidi (comunidade étnico-religiosa curda) no parlamento do Iraque. Lembrou as 5800 mulheres e crianças raptadas pelo ISIS. Lembrou que muitas são vendidas como escravas sexuais. Lembrou que mil crianças entre os 3 e os 10 anos são mandadas pelo ISIS para campos de treino para se tornarem a próxima geração de terroristas. A irmã também falou. Delan Dakeel Saeed, médica no hospital universitário Rezgary, falou das violações de mulheres e de meninas e do horror que presenciam.

 

Ontem estreou em Portugal a nova temporada de Segurança Nacional. Numa das cenas iniciais, um dos protagonistas, Quinn, agente da CIA, é chamado a contar aquilo a que assistiu em dois anos na Síria. O discurso é contido, factual, desprovido de qualquer sinal de emoção.

 

Quinn é pressionado por outro elemento da CIA, sediado em Langley, na Virgínia, para que diga se a estratégia seguida pelos americanos é correcta ou não. O discurso azeda e termina com duas possibilidades de estratégia: ou se enviam não apenas tropas, mas também batalhões de médicos e professores para as zonas de guerra ou se transforma toda aquela zona num parque de estacionamento.

 

Para os cínicos: antes de responderem, oiçam os relatos de pessoas como as irmãs Dakheel Saeed e depois voltem a pensar no assunto.

 

Tenham um bom fim-de-semana!

 

Leituras sugeridas

 

Já que estamos em maré de nos interessarmos pelo mundo dos outros, fica a sugestão para lermos Svetlana Aleksievitch, a jornalista e escritora russa que ganhou o Nobel da Literatura. Já agora, Aleksievitch é autora de uma série de cinco volumes intitulada "Vozes da Utopia” que foi iniciada com "A Guerra Não tem o Rosto de uma Mulher" baseado em entrevistas a centenas de mulheres que participaram na II Guerra Mundial.

 

Porque a música nos ajuda a levar a vida para a frente, levamos John Williams para o fim de semana. Autor de bandas sonoras inesquecíveis como as de Star Wars, Tubarão, Indiana Jones, Harry Potter e Jurassic Park , foi o escolhido pela American Film Institute (AFI) para receber o prémio carreira deste ano. O melhor tributo é escutar a sua música.

 

A fechar, uma notícia curiosa e quem sabe animadora. Talvez a imortalidade seja uma … anémona. Os cientistas descobriram que este animal, que já se julgou ser uma planta e que partilha ancestrais comuns com os humanos, pode encerrar o segredo da imortalidade.

publicado às 09:54

A infeção

 Por: Francisco Sena Santos

Estamos disponíveis para partilharmos a mesa em convívio com um homem que é um ditador? Aceitamos que uma criatura que cancela as liberdades faça parte do clube com o qual nos identificamos e ao qual queremos pertencer? O homem é Viktor Orban, primeiro-ministro da Hungria e representa o primado da incivilidade na Europa. O clube é a União Europeia.

 

Orban é a criatura que está, com intolerável brutalidade, a fechar a porta aos refugiados, a colocar os migrantes como criminosos, num triste espetáculo que nos repugna a todos. O percurso deste Orban, agora com 52 anos, é uma história de contínua transgressão de básicos princípios democráticos. Já quis reintroduzir na Hungria a pena de morte. Promoveu medidas intimidatórias da liberdade de expressão e dos media, submetendo as rádios, as TVs e os jornais a controlo administrativo, isto é, censura. São conhecidas as suas pressões sobre juízes, o desprezo por homossexuais, a hostilidade com as minorias étnicas. A prática política de Orban nutre a xenofobia.

 

Consegue, apesar disto, seduzir o eleitorado húngaro que se rende ao carisma deste chefe. Líder do partido ultraconservador Fidesz, arrasa em sucessivas eleições, foi primeiro-ministro da Hungria entre 1998 e 2002, agora está em funções desde 2010. Orban interpreta o sentimento de ampla parte da população húngara bombardeada com mensagens que alertam para a ameaça à unidade da nação húngara com “a invasão de muçulmanos” capaz de inquinar a tradição cristã do país. O fantasma da “invasão inimiga” rende-lhe apoios e votos.

 

Gente como Orban tem posto a Europa à beira da bancarrota política.

 

Perante as emergências, as democracias europeias que foram capazes de ser altruístas no tempo da guerra fria (os europeus acolheram de braços abertos uns 300 mil refugiados húngaros quando, em 1956, os tanques soviéticos entraram em Budapeste) ou da reunificação alemã, agora, vacilam.

 

Na implosão da Jugoslávia, nos anos 90, a Europa tardou demasiado a agir e testemunhou as mais horríveis matanças em solo europeu desde o tempo da II Guerra Mundial. Uma liderança mais sábia e ágil poderia ter evitado tanto massacre, de Sarajevo ao Kosovo. Acabou por intervir com eficácia, mas depois de tanta vida perdida.

 

Neste último ano da crise grega o Euro esteve à beira de colapsar. Foi salvo depois de tanto tempo perdido e tanta amargura na vida de tanta gente.

 

Agora é Orban e outros como ele que aspiram pôr fim à Europa sem fronteiras de Schengen. Não pode consegui-lo. Porque a liberdade total de circulação entre os países, incluindo o programa Erasmus, é, para os cidadãos, a par da moeda única, o sinal mais concreto de existência da União Europeia.

 

Será que a União pode ter no seu interior criaturas, como Orban, que não querem respirar o espírito de liberdade, de humanismo, de justiça, de democracia e de solidariedade que são a alma fundadora da União Europeia?

 

No ano 2000, quando o xenófobo ultranacionalista Jorg Haider foi admitido no governo de Viena, os outros 14 Estados membros (então, a Hungria ainda estava em lista de espera para entrar no clube europeu) reagiram sem tibiezas e impuseram sanções políticas e diplomáticas à Áustria. Foram suspensos todos os contactos oficiais entre os países da União e o governo de Viena e os austríacos chegaram a ter suspenso o seu acesso às reuniões europeias. Haider, entretanto falecido, se o compararmos com Orban, quase aparece como um democrata.

 

Como é possível que os dirigentes europeus fiquem de braços cruzados perante esta continuada infeção húngara dentro da União? O que está a acontecer é uma vergonha para todos. Inaceitável.

 

Está evidenciado que é urgente que se abra a discussão sobre o que quer ser a Europa. Imprescindível e urgente.

 

VALE SEGUIR NOS PRÓXIMOS DIAS

 

O Papa Francisco, depois de abraçar Cuba (há quem diga que, apesar da subtileza papal, esta presença não teve o impacto da histórica visita de João Paulo II com o voto de que Cuba se abrisse ao mundo e o mundo se abrisse a Cuba), discursa amanhã no Congresso dos Estados Unidos (é a primeira vez de um papa na casa da democracia dos EUA) e depois de amanhã perante a Assembleia Geral da ONU. Há que ouvir com atenção e aqui temos um guiaaqui outro e aqui ainda um outro. O primeiro Papa que escolheu o nome de Francisco é, todos sabemos, um Papa que pensa e combate pelas pessoas. Tem dentro dele uma essencial energia revolucionária que traz a igreja para o mundo moderno. Tem a palavra certeira e justa, como também se vai ouvir na ONU.

 

A Catalunha vota no domingo em eleições autonómicas que são um teste à vontade independentista da mais pujante região ibérica. Quantos dos sete milhões e meio de catalães vão votar no domingo? Se a vitória dos independentistas for robusta, que efeito vai ter numa Espanha que rejeita qualquer separação? Estão aqui algumas chaves para entendermos o que está em causa.

 

Os dados das sondagens continuam a falhar a previsão de resultados eleitorais. Depois do Reino Unido, agora na Grécia. Tsipras, equilibrista mestre em estratégia política, soube levar o Syriza à vitória. Os eleitores gregos viram o Syriza como um mal menor perante os cenários de cedência da nova Democracia aos diktats do poder financeiro euroamericano. Fica para saber como vai Tsipras lidar com as nuvens negras que tem no horizonte.

 

O que nos dizem as sondagens portuguesas? A coligação de direita aparece na frente na tracking poll da Intercampus e na do CESOP. Vale sempre ler a análise de Pedro Magalhães.

 

PARA SEMPRE

 

Conheci e fiz-me amigo de um transmontano da melhor cepa, sábio amante de poesia, extraordinário editor de livros, ele foi a alma que deu grande corpo à Assírio & Alvim. Falo de Manuel Hermínio Monteiro, amigo dedicado a tantos que o estimavam. Os abraços deste homem de afecto e inteligência eram rijos e únicos. Ele sabia como ninguém entender os seus escritores. O Hermínio morreu há 14 anos, penso nele tantas vezes. Lembrei-me dele, mais uma vez, ao saber da morte de Vítor Silva Tavares, o editor resistente da &etc, um homem que nos pôs a ler livros (de Adília Lopes a Rilke) que logo ao primeiro olhar se sabia serem da &etc. Vale regressar à evocação de Vítor Silva Tavares através desta crónica, já com quase dois anos. Também no começo desta semana morreu Carmen Balcells, agente literária, figura chave para a literatura em castelhano do século XX. É muito bonita esta despedida.

publicado às 09:35

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