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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

A democracia directa tem destas coisas

Por: Paulo Ferreira

 

As lideranças fracas tenderão mais a “chutar para referendo” as decisões que potencialmente dividam o país ao meio, onde o deve e haver da mercearia eleitoral não é claro. E fica sempre bem dizer que se dá “a voz ao povo”

 

A democracia e os seus instrumentos essenciais são uma coisa fantástica enquanto produzem resultados com os quais concordamos. Mas quando vence o “outro lado” o povo passa de inteligente a estúpido, a lucidez foi vencida pelo medo e a seriedade perdeu para o populismo.

 

É sempre mais fácil arrumar a questão desta forma e seguir em frente, do mesmo modo, até à próxima batalha eleitoral. O que dá trabalho e demora tempo é identificar as causas do falhanço, entendê-las e tentar alterá-las.

 

O resultado do referendo britânico foi um abalo que apanhou muita gente de surpresa. As últimas sondagens tinham-nos dito que o “ficar” estaria à frente do “sair” por uma margem que se estava a consolidar. Mas não foi assim.

 

Entristece-me a potencial saída do Reino Unido da União. Sem eles, a Europa não é a mesma coisa. Não só em questões como a dimensão, o poder económico do bloco, o contributo para a defesa comum ou a diplomacia mas, também, porque a voz crítica e desconfiada que os britânicos sempre fizeram questão de manter no palco europeu é, em si mesma, um contributo positivo.

 

Não me parece que alguém ganhe com a saída dos britânicos. Nem os próprios, já que ao estarem fora do euro mantêm já um elevado grau de liberdade nas políticas económicas, monetárias e orçamentais.

 

Mas é mesmo assim. Foi dada a voz ao povo e o povo disse de sua justiça numa decisão de enorme importância que, para muitos, tem contornos trágicos.

 

Nos últimos dias li e ouvi muita gente diabolizar David Cameron por ter convocado o referendo, vendo aí o pecado original deste tema. Certamente que se os 52%-48% (arredondados) tivessem sido ao contrário, o mesmo Cameron estaria a ser elogiado pelos mesmos por ter vencido e arrumado, por muitos anos, a questão sempre latente no Reino Unido da permanência na UE.

 

A utilização dos instrumentos de democracia directa, como o referendo, é das mais complexas e sensíveis.

 

A teoria e o politicamente correcto dizem-nos que quanto mais, melhor. Por princípio, é mais legítimo chamar milhões de cidadãos a tomar uma decisão do que deixá-la nas mãos de umas escassas centenas de deputados que foram eleitos pelo mesmo voto popular mas que podem, em dossiers concretos, fazer um julgamento diferente do da base popular que os elegeu.

 

Mas, por outro lado, transformar a democracia numa sucessão de referendos levar-nos-á a um mundo melhor? Tenho dúvidas.

 

Li por estes dias nas redes sociais um comentário com o qual concordo (lamento, mas já não consigo identificar o autor). Dizia, sobre a utilização de referendos, que se em Portugal se consultassem os eleitores sobre a introdução da pena de morte ou o acolhimento de imigrantes e refugiados talvez tivessemos uma surpresa do “povo dos brandos costumes”. É muito possível que sim, que uma maioria se pronunciasse a favor da primeira e contra o segundo. E isso seriam, a meu ver, dramáticos retrocessos civilizacionais.

 

O que para mim não faz sentido são consultas populares sobre direitos individuais que, quando exercidos por alguém, não interferem na liberdade alheia. Casamento entre pessoas do mesmo sexo e direitos associados, eutanásia, interrupção da gravidez até determinado período ou consumo de drogas leves devem, no meu entender, ser legislados no sentido de maximizar a liberdade e equiparar direitos sem me dar sequer a opção de interferir ou opiniar sobre as opções do meu vizinho. A vida dele é com ele. A minha é comigo.

 

Diferentes são os temas que dizem respeito à organização política do país que, de forma directa ou indirecta, interferem na vida de todos. O grau de envolvimento com a União Europeia, a regionalização ou mudanças profundas no sistema eleitoral são assuntos que a todos dizem respeito porque interferem com a organização da vida colectiva e com as instituições que a decidem e colocam em prática. Ao impacto destas ninguém escapa, para o bem e para o mal.

 

Mas, ainda assim, estes temas devem ser colocados a consulta popular? Isso terá mais a ver com as forças e fraquezas das lideranças políticas do momento do que com níveis de amor à democracia. Líderes fortes, com uma visão estratégica consolidada e com dimensão pessoal e política para suportar as consequências das suas decisões terão mais facilidade em decidir contra aquilo que são os sentimentos da opinião pública. Das lideranças políticas espera-se que estejam melhor habilitadas a tomar decisões complexas e muitas vezes duras, com longas listas de prós e contras, do que o cidadão médio. Foi assim que Helmut Khol fez a reunificação alemã e levou o seu país para o euro ou que Churchill optou por enfrentar Hitler.

 

Já as lideranças fracas tenderão mais a “chutar para referendo” as decisões que potencialmente dividam o país ao meio, onde o deve e haver da mercearia eleitoral não é claro. E fica sempre bem dizer que se dá “a voz ao povo”.

 

Seja como for, o que não se pode nem deve é fazer a pergunta quando não se está disponível para aceitar todas as consequências de uma resposta. Voltando ao Brexit, é isso que tem acontecido demasiadas vezes na União Europeia, com a repetição de referendos até que produzam a resposta “certa”. Essa é também uma das causas que afasta os cidadãos da Europa e repetir novamente o erro não só seria irónico como podia ser ainda mais trágico.

 

Outras leituras

  • “Brexit” é o novo “o mundo mudou”? Claro que, em termos de comunicação política, é um óptimo pretexto para assumir a deparragem das previsões. Se tem grande ou pequeno impacto de facto é uma questão bem diferente.

 

  • Tudo o que vá para além de uma sanção simbólica a Portugal, sem custo financeiro, por violação da meta do défice do ano passado será inaceitável. A menos que a Comissão Europeia queira brincar com o fogo.
publicado às 11:39

Brexit? Três contra um em como ficam!

Por: Márcio Alves Candoso

 

Enquanto as sondagens se revelam inconclusivas na definição de um vencedor claro no referendo britânico sobre a continuidade na União Europeia, as casas de apostas britânicas não têm dúvidas. O ‘stay’ vai ganhar.

 

Comecemos pelo ‘rock’. Na célebre música dos anos 80, os ‘Clash’ perguntavam se deviam ficar ou deviam partir. E asseguravam que, se partissem, isso iria trazer problemas; mas se ficassem, eles apareceriam em dobro. Ao indeciso ‘should I stay or should I go’ respondem, quase sem querer, os ‘Jets’. ‘Para que te mostre o que tenho, preciso de saber de que é que necessitas’. E concluem: ‘So put ya money where ya mouth is’. A expressão idiomática inglesa, que serviu de tópico ao único grande êxito comercial desta banda australiana, quer dizer o seguinte: ‘arrisca o teu dinheiro naquilo em que acreditas; faz, em vez de só conversares’.

 

É assim que os ‘Jets’ resolvem a questão lançada na primeira estrofe do tema. Aí, interrogam-se sobre se estão no paraíso ou no inferno. E decidem que é com a crença e com o risco - que se demonstra pelo investimento financeiro, ou seja, a aposta naquilo em que se acredita – que se resolve o dilema.

 

A ideia parece estar a ser seguida pelos britânicos, no que diz respeito às apostas que têm vindo a efectuar nos últimos dias. No Reino Unido tudo serve para apostar, seja o desporto ou a política, passando pelo nome do primeiro filho de William e Kate, qual é a probabilidade de nos encontrarmos com um extra-terrestre ou adivinhar quando será o fim do mundo. Neste último caso, os ‘brokers’ estão indecisos sobre que chances hão-de dar aos apostadores. E isto por uma questão ética - quem quer que ganhasse não seria ressarcido da sua aposta…

 

Mas enquanto as sondagens se revelam inconclusivas na definição de um vencedor claro no referendo britânico sobre a continuidade na União Europeia, as casas de apostas não têm dúvidas. O ‘stay’ (fica) vai ganhar. Na ‘SkyBet’ pagava-se ontem 2,25 libras por cada uma se a aposta fosse ‘leave’ (saír), enquanto com a vitória do ‘stay’ o apostador só ganha quatro em cada 11 moedas que arrisque. Na ‘Paddy Power’, o ‘exiting’ paga seis para um, enquanto o ‘remain’ não vai além de um em cada dez. Entretanto, na sondagem ontem divulgada pelo ’Financial Times’, que faz uma média de todas as mais recentes publicadas, o ‘sim’ à saída ficava ligeiramente acima do ‘não’ – uns 45% contra 44%.

 

 

 

O ‘Daily Telegraph’ sustentava, esta manhã, que o referendo britânico à continuidade na UE – popularmente conhecido por ‘Brexit’ – era já o maior acontecimento das casas de apostas da história do Reino Unido, batendo o anterior recorde da eleição do Presidente dos EUA, em 2012. Só na ‘BetFair’ entraram mais de 60 milhões de libras (cerca de 78 milhões de euros), quando no caso da eleição de Obama esse montante ascendeu a 40 milhões (52 milhões de euros). A casa londrina, como a maior parte das suas concorrentes, está a apostar num 3 contra 1 a favor do ‘fica’, que se traduz em percentagens a rondar os 75/78% de apostas na manutenção da união com a Europa. ‘LadBroker’, ‘William Hall’ – todos os quadros visitados vão no mesmo sentido.

 

A credibilidade das casas de apostas foi reforçada nas eleições legislativas de 2014. Enquanto as sondagens davam uma luta renhida entre os partidos Conservador e Trabalhista, os jogadores não tiveram dúvidas em dar a maioria aos ‘Tories’, numa percentagem de 80% para 20%. E a verdade é que o partido liderado por David Cameron ganhou mesmo com maioria absoluta. Já no referendo para a independência da Escócia ocorreu uma situação idêntica, com os apostadores a acertarem na manutenção da união com a Inglaterra, perante sondagens inconclusivas.

 

Recentemente, assiste-se em Inglaterra e em outros países a estudos académicos que pretendem encontrar a base científica para a razão por que os apostadores são mais certeiros do que os eleitores sondados. Há várias teorias, desde a ascensão de um grupo cada vez mais alargado de pessoas que mentem deliberadamente quando interrogadas sobre a sua preferência política - que seria uma forma de afirmação de rebeldia inorgânica cada vez mais acentuada – até àqueles que, mais prosaicamente, afirmam o tal ditado: ‘put your money where your mouth is’. Como nas séries policiais, ‘follow the money’ parece ser a chave para encontrar o criminoso ou, neste caso, o eleitor verdadeiro. Outra hipótese reconhece que há deficiências técnicas nos métodos de sondagem, nomeadamente naquelas que insistem em apurar a tendência através de chamadas telefónicas para aparelhos fixos, cada vez mais em desuso.

 

Interessante também é verificar qual o montante médio de aposta daqueles que querem ficar com a União e daqueles que querem sair. O ‘stay’ vale 450 libras (585 euros) por cada boletim entregue, enquanto o ‘leave’ se fica pelas 75 (97,5). No entanto – e é aqui que pode estar o pauzinho na engrenagem - algumas casas anunciaram que o número de apostadores na saída era em maior número que os que preferem continuar ligados ao Continente. Na verdade, embora o ‘stay’ tenha mais apoiantes do lado conservador, a verdade é que a classe trabalhadora está em boa parte ligada ao ’leave’.

 

Os analistas têm dificuldades em compreender como é que os líderes de quatro dos cinco maiores partidos – o UKIP de Nigel Farage é a excepção - apoiam o ‘stay’ e, no entanto, as sondagens continuam a ser inconclusivas. Alguns, no entanto, encontram já a resposta.

 

Muitos britânicos acreditam que a imposição de regras por parte da União Europeia, a par da imigração em massa, estão a mudar a face do país e a estragar a velha democracia; isto para além de porem em causa empregos e redes sociais de apoio. Segundo estatísticas hoje divulgadas pela imprensa londrina, mas que o Governo queria guardar até depois do referendo, estima-se que, só no ano passado, a população da Grã-Bretanha tenha crescido em mais 513 mil pessoas, dos quais 335 mil imigrantes directos; cerca de 170 mil dos quais sem trabalho garantido.

 

Já para John Harris, colunista do ‘The Guardian’, a culpa é do neo-liberalismo, que tornou precários muitos dos novos empregos. Uma análise difícil de sustentar, se acreditarmos que nas gerações mais novas – onde a precariedade é mais visível – o voto pelo ’stay’ é mais consistente.

 

Talvez o divórcio entre governados e governantes, a não compreensão dos novos anseios das populações, entaladas entre padrões de vida mais apertados e uma abertura de mercados que lhes trouxe poucos benefícios directos - ao contrário da banca e do mercado financeiro em geral, que perderá bastante com a saída do Reino Unido – os leve a pensar que mais vale a pena sair. Para lá de todo o populismo e agressividade deste processo referendário - que levou até ao praticamente inédito assassinato de uma deputada, a trabalhista pelo ’stay’ Joe Cox -, mais consistente será pensar que quem ataca as nações dificilmente poderá pretender governar povos.

 

Mas o dinheiro poderá falar mais alto. Várias previsões apontam para perdas significativas do produto interno bruto (PIB) britânico com a saída da União Europeia. Já foi isso que impulsionou os escoceses a ficarem unidos à Inglaterra, e poderá ser suficiente para que tudo fique na mesma quando, lá para as quatro da madrugada, os resultados se tornarem mais conclusivos. É que, ao contrário da canção dos ’Clash’, o ‘stay’ não resolve nada; mas o ‘leave' piora tudo.

 

publicado às 17:02

O dia de todas as decisões

 Por: Pedro Rolo Duarte

 

Hoje é o dia. Hoje vamos saber se a Grã-Bretanha vai fazer desmoronar a União Europeia - ou se, não a desfazendo, a vai deixar ferida, enquanto o país recupera da explosão programada que criou no reino de vários reinos…

 

As sondagens foram variando ao longo do tempo, mas é evidente que todas mostram o mesmo cenário: uma profunda divisão interna, provocada por fenómenos tão díspares quanto a imigração e a moeda única, o terrorismo e a balança comercial. Neste quadro, o debate foi de tal forma confuso, que até a intenção de voto dos ingleses se foi dispersando ao longo do tempo.

 

Como português, e defensor da causa europeia, espero que o referendo mantenha o Reino Unido debaixo da bandeira azul estrelada. Mas não deixo de pensar nos paradoxos desta “união”, um mês depois de ter aterrado em Manchester, onde estuda o meu filho, e me ter voltado a confrontar com duas moedas, câmbios e taxas de juros nas operações bancárias. Na verdade, a Grã-Bretanha tem estado sempre com um pé dentro e outro fora do projecto europeu, numa fina mistura entre o “adepto” e o “sócio”. Sem colocar numa balança o que ganha e perde com esta postura, ela traduz uma eterna desconfiança em relação à UE, e uma ameaça permanente sobre a ideia fundadora desta União. Por outro lado, ao mesmo tempo, enquanto trocava euros por libras, não deixava de notar em placas como a que está pregada numa pequena ponte no MediaCityUK, uma renovada zona da cidade onde hoje funcionam, entre outras, a BBC: “This project has been part-financed by the European Community”...

 

… O melhor dos dois mundos, portanto. Não deixa de recorrer aos financiamentos possíveis na Europa, como não deixa de criticar políticas sociais que podem levar a um fluxo migratório indesejável neste momento. Duvida da União, mas beneficia por lhe pertencer, ainda que parcialmente.

 

O que daqui resulta, neste dia de referendo, é uma questão mais global e abrangente: saber até que ponto o Reino Unido, centro da democracia mundial, vai saber, com a palavras dos seus cidadãos, mostrar que permanece fiel às ideias humanistas que também orientam a União Europeia, mesmo quando falha nas suas intenções. E tem falhado bastante.

 

Porém, há que reconhecer a evidência: estaríamos hoje bem piores se não tivesse havido quem pensasse um projecto europeu. E não falo apenas dos países mais pobres. Falo também daqueles que, no equilíbrio possível entre economias diferentes, puderam crescer num espaço sem ameaças maiores nem abismos nas fronteiras. Nesta Europa cheia de imperfeições, todos ganhamos com a União - ao contrário da ideia feita segundo a qual os países mais pobres beneficiam mais do que os ricos… -, e até o dividido Reino Unido faz parte dos que têm mais a ganhar do que a perder. Mais logo saberemos se os britânicos pensam o mesmo…

 

 

Leituras boas da semana

 

Excelente o artigo de Nora Kelly na revista norte-americana The Atlantic sobre a relação entre Donald Trump e a televisão, e como pensa o putativo candidato resolver a questão…

 

José Milhazes é, indiscutivelmente, o português que melhor conhece a Russia e o que a rodeia. Num excelente artigo publicado há dias no jornal online Observador, explica com clareza as relações entre o país de Putin e os seus vizinhos - ou seja, nós, os europeus…

 

Aconteça o que acontecer com a nossa selecção no próximo sábado, o conselho serve: perdoar, esquecer, prolonga a vida. O artigo vem na insuspeita Time e serve para qualquer resultado: se sairmos vitoriosos, podemos perdoar os erros passados. Se perdermos, é mais saudável esquecer do que ficar a remoer e a culpar os Ronaldos desta vida…

 

publicado às 08:34

Isabel, chefe de Estado

Por: Márcio Alves Candoso

Na tabela de vendas de ‘hardbacks’, capítulo de ‘não-ficção’, o livro que sobressai esta semana no mercado britânico tem um título interrogativo. ‘And the Weak Suffer What They Must?’. Essa é a pergunta de Yannis Varoufakis, autor da obra que lidera a lista dos mais procurados, destronando – talvez pela novidade – uma série de três livros humorísticos que vinham dominando as preferências do público há mais de dois meses. Trata-se, aliás, de uma das duas entradas directas para o ’top ten’, sendo a restante uma dissertação sobre a importância do ‘rock’ dos anos 70, que ocupa agora a oitava posição.

 

Não sei qual a importância que os britânicos atribuem, nos dias de hoje, à procura de soluções para os pecados que o ex-ministro grego das Finanças insiste em denunciar em mais um livro. ‘Uma batalha titânica pela integridade e identidade europeias, contra o crescente autoritarismo e corrupção, que promovem a desigualdade’ – é esta a sinopse que a 'Amazon' traça do conteúdo do livro da ‘pop star’ da esquerda europeia. Mas, num país onde se travam razões sobre as vantagens e desvantagens de pertencer à União Europeia, é talvez sintomático o interesse que um heterodoxo como Varoufakis desperta no púbico.

 

Na mesma semana, o Reino Unido vai estar ocupado com a celebração do 90º aniversário da mais icónica das suas cidadãs - e cidadãos. Elisabeth of Windsor, conhecida entre nós por rainha Isabel II de Inglaterra, bateu no ano passado o recorde de permanência no trono britânico, que pertencia à sua trisavó Vitória. De um pedestal que reconhece apenas como um ‘dever’ e não como uma prerrogativa, que aliás ganhou por mero acaso das contingências histórias, Isabel tem preferido sempre ir de encontro aos cidadãos anónimos, mostrar-se sem ser demasiado conhecida.

 

Margaret Thatcher, a primeira-ministra conservadora britânica por quem, diz-se, a rainha não morria de amores, acusou-a um dia de votar no Partido Social-Democrata então nascente, após uma divisão dos Trabalhistas que levaram Roy Jenkins e David Owen a criar a nova formação política. Como em todas as - poucas – tentativas de ligar a soberana a alguma facção ou ideologia dos seus súbditos, o Palácio de Buckingham apressou-se a negar a preferência. Mas os biógrafos da casa real – uns autorizados, outros nem por isso – são unânimes em considerar que a rainha sempre pendeu, em toda a sua vida privada, para uma espécie de centro-esquerda europeu. Não é por acaso que se diz que o seu primeiro-ministro favorito - dos doze que já empossou – foi Harold Wilson, do ‘Labour’.

 

Em Portugal, quando se quer falar das peculiaridades da actual Constituição, no que diz respeito aos poderes do Chefe de Estado, costuma dizer-se que ele não é a Rainha de Inglaterra, numa alusão à importância executiva que o monarca britânico tem vindo a perder no último século e meio. Salvo erro, a ideia tornou-se pública pela palavra de Mário Soares, que fazia uma interpretação extensiva das suas funções enquanto Presidente da República, tanto quanto a Constituição revista em 1982 lho permitia.

 

Mas se é verdade que Isabel II tem os seus poderes restringidos pela lei – a monarquia constitucional liberal rege a Inglaterra e as suas possessões -, a sua influência no seu longo reinado não é despicienda. A mais recente intervenção da rainha na política terá sido por ocasião do referendo com intenções independentistas da Escócia. Isabel II terá deixado escapar, numa declaração que os especialistas apelidaram de que ‘mais pública não poderia ter sido’, a frase que não traduzo: ‘Well, I hope people will think very carefully about the future’.

Nesses dias de chumbo da política britânica, autores e jornalistas bem próximos do primeiro-ministro, David Cameron, revelaram que ele, normalmente frio e maquiavélico em relação à política quotidiana, terá passado um mau bocado, demonstrando assinalável nível de stress; diz quem dele está próximo, que a sua irritação com a indecisão escocesa levou a mulher a quase não o reconhecer, perdendo cabelo nesse anseio conjugal.

 

O Palácio de Buckingham, como sempre tem feito através da história recente, publicou um comunicado a negar o envolvimento da rainha na questão da independência da Escócia. Fê-lo como deve ser, ou seja, depois de todos os jornais já terem publicado as declarações de Isabel II… Diz quem sabe que a rainha terá dado uma ajuda preciosa ao ‘não’ à independência da parte norte da Grã-Bretanha. Uma guerra que, aliás, algumas das suas antepassadas, com relevo para Maria Stuart e Isabel I, não desdenhariam.

 

Se as revistas cor-de-rosa e os ‘yellow papers’ não se cansam de escrutinar a vida mundana, amorosa ou – até - escandalosa da família real britânica, a verdade é que Isabel II tem escapado quase sempre à opinião negativa dos vendedores de papel impresso. E da única vez que ficou na mó-de-baixo, em 63 anos de reinado, apressou-se a acertar o passo – ou não fosse ela uma militante convicta das virtudes militares. Logo após a morte de Diana Spencer, na altura já separada do seu primogénito e presuntivo herdeiro, a rainha terá sido, segundo a opinião pública, demasiado fria e formal, não se prontificando a participar nas homenagens póstumas à ‘princesa do povo’.

 

Em poucas horas percebeu o erro, e juntou-se aos seus, como sempre fez, aliás, desde que na II Guerra, com 18 anos, se pôs ao volante das ambulâncias e dos camiões do Serviço Auxiliar Territorial (ATS). Nos rodapés da história, diz-se que terá sido, até hoje, a única rainha a saber mudar um pneu de um carro ou a mudar-lhe o óleo.

A monarquia caiu-lhe nos braços por força de uma abdicação nunca totalmente explicada, mas especulada mais do que muito. A ascendência germânica da família real britânica, por força do casamento da puritana Vitória com Albert de Saxe-Coburgo Gotha, terá levado o presuntivo rei Eduardo VIII, tio de Isabel, a proclamar mais em privado que em público as suas preferências pelo lado alemão entre as duas guerras mundiais. Oficialmente, foi por se casar com uma senhora divorciada que deixou o trono londrino; mas há muitos que dizem que não. E a cadeira real sobrou para o pai de Isabel, irmão mais novo de Eduardo, que governou como pôde o Império Britânico.

 

Cedo, no entanto, Isabel demonstrou ter ideias políticas, tanto quanto os apertados trâmites da lei lho permitiam. O primeiro-ministro Anthony Eden que o diga, quando foi forçado a demitir-se do cargo após o fracasso da tomada do Canal do Suez, aventura que contou com a oposição frontal da rainha. Ou Ian Smith, quando declarou a independência unilateral e minoritária da Rodésia ‘branca’, sendo por tal afastado da Commonwealth pela rainha. Ou Margaret Thatcher, que Isabel considerava ‘insensível’ aos pobres e ‘teimosa’, e que não contou com o aval real quando se negou a alinhar nas sanções internacionais contra o ‘apartheid’ sul-africano. Ou Ronald Reagan, que foi censurado fortemente pela invasão de Grenada.

 

Ou, de outro modo, Nelson Mandela, que viu Isabel II apoiá-lo logo no início do seu mandato como presidente da África do Sul; são poucas, em toda uma vida, as fotos mais sorridentes e demonstradoras de admiração como aquelas que Isabel II deixou que lhe tirassem quando se encontrou com o primeiro presidente negro da antiga possessão britânica.

 

Regrada mais que puritana, decente mais que moralista, Isabel II casou por amor com um tipo autoritário e pouco culto, que no entanto tem cumprido a preceito as funções de consorte. O apoio que lhe tem dado, publicamente expresso por Isabel em discurso por altura do seu jubileu como rainha, fica a léguas da preponderância que Albert terá tido na primeira parte da vida de Vitória, outra rainha icónica da Grã-Bretanha.

 

Pela pena de Andrew Marr, o ‘Sunday Times’ da presente semana traça um perfil da soberana um pouco antípoda da caricatura de vestes garridas e ‘cara de Miss Piggy’ – que ela assume quando está irritada – que geralmente lhe é atribuída. Num tempo em que a fama vai e vem, em que o público espera surpresa e divertimento, ela representa a perenidade sem perder o humor britânico que lhe é característico. Quem não se lembra da rábula com James Bond (Daniel Craig, na ocasião) que protagonizou aquando da abertura dos Jogos Olímpicos de Verão de 2012, em Londres?

Quem a conhece, diz que não vai abdicar em favor do filho de 67 anos; talvez a educação de Carlos – que é já um dos mais velhos herdeiros de coroa da história das monarquias -, deixada aos cuidados de um tio-avô marialva e de um pai mais que rústico, seja a maior falha desta mulher que, aos 13 anos, sonhava ser campeã de natação. Sóbria – troca o gin das falecidas mamã e irmã por um ‘Earl Grey’ com leite e sem açúcar - a nossa mais velha aliada foi o que foi: uma mulher do tempo da guerra, patriota e piedosa, que gosta de cumprir um dever. Assim os joelhos, sua única falha de uma saúde de ferro, lho permitam uma outra vez.

 

E o futuro? Nas ‘pools’ da Grã-Bretanha, o neto William já vai à frente, como favorito para a sucessão, do filho Carlos, um tipo decente mas estranho, que deambula entre o jogo de pólo, a arquitectura alternativa, a homeopatia e as preocupações ambientais. Depois da morte de Diana, uma verdadeira ‘insider’ na família real britânica, resta Kate Midletton para dar um ar de graça a uma monarquia renovada. Com uma diferença em relação à defunta sogra – é que o neto da rainha escolheu-a entre todas as múltiplas candidatas, e ela ao princípio nem achou grande piada ao rapaz. O pai, Carlos, terá sido aconselhado pela sua amante de sempre, e actual mulher, Camilla, a desposar a virgem Diana, que ele levou para casa sem estar muito convencido da trama. O povo britânico sabe destas coisas...

 

No Natal ou quando ela quiser, Lilibeth, do alto dos seus 90 anos, costuma dar bonecos aos bisnetos, que lhe chamam ‘gan-gan’ em privado. Um dia destes, aposto, dá-lhes um cavalo, filho ou neto de um daqueles 22 com que já ganhou as corridas de Ascot.

publicado às 15:33

European Union made in England

Por: António Costa

 

David Cameron conseguiu o acordo que queria, e que precisava de ter, com os outros líderes europeus para defender a continuação do Reino Unido na União Europeia. Graças a mais uma mão-cheia de exceções, particularmente o estatuto especial do país na zona euro e a defesa de mecanismos de supervisão bancária próprios, o referendo do próximo dia 23 de Junho vai ter a participação ativa do primeiro-ministro inglês no ‘não’ ao Brexit.

 

Em primeiro lugar, houve um acordo, e isso vale (quase) por si. Em mais uma daquelas maratonas negociais – com Merkel a mexer os cordelinhos sem aparecer e Hollande a não mexer os cordelinhos apesar de aparecer mais -, David Cameron, Juncker e Tusk percebiam que tinham de ter um entendimento. Seria mau para o Reino Unido e seria péssimo para a União Europeia. Não por acaso, todos suspiraram, desde logo uma longa lista de empresários e gestores britânicos, das maiores empresas e bancos, que assinou um manifesto a apoiar Cameron e a permanência no espaço europeu comunitário. O referendo não está ganho, mas está mais perto disso.

 

O Reino Unido reforçou os mecanismos de ‘saída’ da União Europeia, os instrumentos que lhe permitirão dizer não a uma participação em planos de integração decididos pela Alemanha e França, as formas de limitar a entrada de imigrantes e os respetivos custos e, claro, a autonomia do centro financeiro mais importante da Europa, a City. Do lado da União Europeia, voltou-se a ganhar tempo.

 

Num quadro de pressão extrema sobre o projeto europeu, porque as exigências do euro continuam a não ser entendidas e percebidas – veja-se o caso de Portugal -, porque não há uma resposta para a imigração e para os refugiados, a proliferação de regras específicas para o Reino Unido tem um risco: abre uma caixa de Pandora para outros países. O que poderão dizer Merkel e a Comissão Europeia nesse caso? Os países não valem todos o mesmo, apesar da retórica política, sabemos isso... Mas também é preciso dizer que o Reino Unido tem, desde o início dos tempos, um estatuto especial, e todos os outros sabem disso. E todos têm, ainda, mais vantagens do que desvantagens em estar na União Europeia e no euro, como se percebe pelo caso grego.

 

Provavelmente, terá também começado aqui uma nova fase de desenvolvimento da União Europeia. Por um lado, um arrefecimento do ativismo burocrático e legal, e centrado no essencial; depois, um aumento das negociações bilaterais que permita manter o ritmo da integração. Será mais difícil, provavelmente mais lento do que seria necessário, mas mais bem recebido pelas populações dos países da União. Uma nova fase europeia made in England.

 

AS ESCOLHAS

 

Não se trata de uma escolha, porque, como se sabe, as únicas coisas certas na vida são a morte e os impostos. É sobretudo uma necessidade, a de acompanhar o primeiro dia de debate do Orçamento do Estado, hoje no Parlamento. Sem surpresas, a Esquerda Parlamentar anunciou o voto favorável a um orçamento que, dizem, é do PS, não vá a coisa dar para o torto. E tem tudo para isso.

 

Hoje, no Diário Económico, uma entrevista a Vítor Bento. O economista e ex-presidente do Novo Banco diz em público o que começa a ser sussurrado nos corredores do poder, a nacionalização do Novo Banco. Por duas razões, a segunda menos discutida. A primeira, claro, resulta da ideia de que é cada vez mais difícil vender o Novo Banco. Mas é o segundo argumento que vai dar mais brado: Bento vai mais longe e avisa para os riscos de uma transferência do poder de decisão de todos os bancos privados para Espanha. A discussão só agora começou.

 

E, agora, do outro lado do Atlântico, as primárias estão em velocidade de cruzeiro e, no fim de semana, na Carolina do Sul, Donald Trump e Hillary Clinton, sobretudo o primeiro, reforçam as suas posições. E o mundo treme com a expectativa de ter Trump e Putin em cimeiras internacionais. Leia aqui, no SAPO24, o que está em causa nas eleições norte-americanas.

publicado às 11:07

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