Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

Lembra-se da última vez que jantou sem que houvesse um telemóvel à mesa?

Por: Helena Oliveira


Um passeio com os seus filhos em que tenha resistido a dar um olhinho ao Facebook. Ir para a cama com a sua cara-metade, resistindo a espreitar o que de tão importante se estaria a discutir no Twitter. Ou passar uma hora a olhar o pôr-do-sol e a pensar só com os seus botões, resistindo a tocar nos ditos homólogos do smartphone. Lembra-se quando foi a última vez?

 

Se respondeu que sim a mais do que uma destas perguntas, parabéns. Tal significa que controla a tecnologia e ela não o controla a si. Mas se não resiste a seguir as histórias ininterruptas que o universo digital nos oferece e prefere teclar em vez de conversar face a face, é uma boa oportunidade para perceber por que motivo Sherry Turkle, uma das mais reconhecidas especialistas do mundo em interações entre humanos e máquinas, lançou um livro em que faz um apelo coletivo à recuperação da conversa olhos nos olhos… sim, as que costumávamos ter antes de sermos silenciados pela tecnologias que nos oferecem comunicação e interação ilimitadas.

 

“Os nossos smartphones [e companhia limitada] não são meros acessórios, mas sim poderosos dispositivos psicológicos que alteram não só o que fazemos, como o que somos”. A frase é de Sherry Turkle, do MIT, doutorada em sociologia e psicologia da personalidade por Harvard e investigadora, há mais de 30 anos, da forma como os humanos interagem com os computadores e com a inteligência artificial.

 

 Sherry Turkle, imagem de jeanbaptisteparis, licença CC-SA 2.0, via Wikimedia Commons

 

Mas, e ao contrário de vários especialistas em tecnologia que, de pioneiros evangelistas e otimistas da Internet, se transformaram em acérrimos críticos da mesma, como é o caso de Jaron Lanier, autor do livro “You Are Not a Gadget”, ou do ainda mais reconhecido Nicholas Carr, cujo manifesto “ The Glass Cage” se tornou num case study obrigatório e num retumbante sucesso de vendas, ou ainda de Andrew Keene, que no seu livro “The Internet Is Not the Answer”,Turkle opta por uma abordagem empírica dos vários problemas que identifica no mundo “netcêntrico” da atualidade. Além disso, tem o dom de ser uma “moderada” no que à diabolização das tecnologias diz respeito. Crente dos inegáveis benefícios que o progresso tecnológico propicia, mas cética q.b. dos admiráveis mundos novos que nos são ofertados pela magia digital, Turkle tem, contudo, o enorme poder de nos inquietar. Porque nos obriga a olhar para nós. E para além de nós.

 

A viagem que a fundadora e diretora do programa do MIT Technology and Self iniciou há mais de três décadas, com pleno otimismo, tem vindo a sofrer alguns revezes menores, em conjunto com abalos profundos, os quais foram devidamente registados numa trilogia de livros que lhe conferiram um reconhecimento ímpar e o estatuto de ser considerada como uma espécie de “consciência” para o mundo tecnológico, como a apelidou o The New York Times.

 

Em termos muitos gerais e, em particular na última década, Turkle tem vindo a alertar para o facto de cada vez esperarmos e exigirmos mais da tecnologia e, em simultâneo, sermos cada vez menos exigentes no que respeita aos nossos relacionamentos, aqueles que são “reais e humanos”. Mas antes de mergulharmos na sua mais recente obra –  publicada em Outubro último e intitulada “Reclaiming Conversation: The Power of Talk in a Digital Age” - , vale toda a pena fazer um breve rewind e ter uma ideia da evolução do seu trabalho, na medida em que o mesmo conta uma história em que o elenco, e sem fazermos muito esforço, é composto por todos nós.

 

 O primeiro livro de Sherry Turkle, sobre “computadores e pessoas” foi publicado em 1984 e intitulava-se “The Second Self. Nestes anos idos do século passado e uma década antes de nos rendermos ao poder mais do que sedutor da Internet que viria a mudar o mundo, já a autora encarava a tecnologia não somente como uma ferramenta, mas como parte (ainda que futura) das nossas vidas sociais e psicológicas. Ao longo dos vários anos da sua investigação, Turkle foi alterando o seu enfoque de pesquisa, substituindo o relacionamento “um-para-um” existente entre os computadores e os indivíduos, pelo papel que os primeiros tinham em moldar os relacionamentos entre as pessoas.

E é assim que surge, em 1995, o livro Life on the Screen: Identity in the Age of the Internet” que se debruçava sobre “as novas oportunidades de explorar as identidades online”. Nessa altura, Turkle era admiradora confessa dos espaços fornecidos pelos ambientes virtuais, especialmente aos jovens, que serviam de terreno para experimentação de outras identidades e, segundo acreditava, ajudariam no processo de se definir aquela que seria a “mais verdadeira” de todas.

Finalmente, em 2011, publica em livro o resultado do seu estudo etnográfico, feito ao longo de 15 anos e com base em largas centenas de entrevistas e experiências com crianças, jovens e adultos, o qual viria a ser intitulado Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other. Neste, que está muito perto de constituir um tratado por excelência sobre as relações humanas na era digital, é expressa a preocupação crescente de que os computadores (e demais dispositivos), em vez de se tornarem catalisadores para se repensar a nossa identidade, surgem antes como os responsáveis por abalar, de forma significativa, a capacidade de nos relacionarmos, com significado, uns com os outros. Mas também connosco próprios.

 

Afinal, todos sabemos que usamos a tecnologia para controlar e não para sermos controlados por ela.

 

Estamos a ser silenciados pela tecnologia

 

“Blá, blá”, poderemos todos afirmar se esta aparente filosofia da treta surgir numa jantarada de amigos, enquanto cada um de nós, às claras ou sub-repticiamente, vai dando um olhinho ao que se passa no Facebook, envia um tweet inadiável ou googla como vai estar o tempo amanhã. Afinal, todos sabemos que usamos a tecnologia para controlar e não para sermos controlados por ela. Mesmo que ela seja omnipresente, na mão ou à mão, esteja sempre em cima da mesa onde jantamos, na cama onde nos deitamos com a nossa cara-metade, nos passeios que damos com os nossos filhos, nas reuniões de trabalho em que colegas com gosto por se ouvirem a si mesmos nos obrigariam a morrer de tédio – se não existisse a “bela altura para ver a campanha da La Redoute” – ou enquanto fingimos que ouvimos a nossa mãe a contar a sua última incursão pelos descontos do Continente e estamos a ver o que se publicou, nos últimos minutos, no Instagram.

Sim, vivemos no mundo da conexão incessante e da comunicação constante. Mas para a investigadora há um senão: “estamos a ser silenciados pelas tecnologias”, numa espécie de “cura para a conversa”, e em que “este silêncio significa que a nossa capacidade para nos relacionarmos com os outros está também a desaparecer”. E com ela, a aptidão para a introspeção, para a empatia e para a autorreflexão.

 

Exagero? Talvez não. Se não, vejamos.

 

A lâmpada de Aladino e os 3+1 desejos

Quando, em Alone Together, observou as interações das pessoas com os robots, e as entrevistou sobre a sua relação com os computadores e telemóveis, Turkle traçaria os caminhos através dos quais as novas tecnologias transformam os velhos valores em obsolescência. “Quando substituímos os cuidadores humanos por robots ou um animal de estimação por uma versão robótica do mesmo começamos por argumentar que estas substituições são ‘melhor do que nada’ mas, no final, acabamos por as considerar ‘melhor do que qualquer outra coisa’ – mais limpas, menos arriscadas e menos exigentes”, escreve.

 

As interações observadas por Turkle entre as pessoas e a inteligência artificial patente nestes novos robots remetem para a questão do “vivo o suficiente”. Como alerta, e no que respeita aos mais novos, “esta geração de crianças tem algo especifico em mente quando afirma que as ‘coisas estão suficientemente vivas’”, afirmou, em entrevista à revista Time, aquando do lançamento de Alone Together. “O robot é suficientemente vivo para ser meu amigo” é uma expressão recorrente por parte das crianças entrevistadas por Turkle. Ou seja, o que significa que algo é suficientemente vivo para ser, por exemplo, um professor? Ou suficientemente vivo para fazer companhia a um idoso?

O que Turkle considera é que, cada vez mais, vivemos num mundo em que os relacionamentos são medidos como “melhor do que nada”. Se uma criança é alérgica a animais, então ter um robô de estimação é melhor do que não ter nenhum, mais ainda porque não morre e pode ser desligado para não nos incomodar. Ou seja, um animal de estimação robot é melhor do que um real, porque nos oferece coisas que um ser vivo nunca poderia oferecer: uma espécie de controlo total, sem surpresas e uma relação feita à medida na qual as coisas acontecem exatamente como nós queremos. E esta premissa serve também para a forma como nos relacionamos com as nossas identidades online. O controlo dos relacionamentos é, para a investigadora do MIT, um tema fulcral na era da comunicação digital.

 

E basta pensarmos um bocadinho para admitir que, muitas vezes, a preferência pelo virtual em detrimento do real acaba por ser uma opção consciente de muitos de nós. Tal como ao escolher um robot para fazer companhia a uma criança, quantos de nós optam pelo tão necessário sentimento de pertença oferecido pelos media sociais, na medida em que “ali” não existem os perigos e os compromissos que as interações numa comunidade “real” encerram? E a autora sabe do que fala porque nas centenas de entrevistas que tem feito observa, mais vezes do que seria normal, um profundo desapontamento com os seres humanos, que têm falhas e são distraídos, carentes e imprevisíveis, ao contrário das máquinas que foram concebidas para não “serem” nenhuma destas coisas.

 

texting, os tweets, os emails, as mensagens instantâneas ou os snapchats – uma espécie de torpedos vertiginosamente rápidos próprios da comunicação online – substituíram as conversas face a face

 

Assim, a talvez maior novidade que salta à vista no novo livro de Turkle – que, desta feita, não tem robots como personagens – é o surgimento de uma insatisfação, crescente, com a tecnologia, a qual foi confessada por muitos dos entrevistados, crianças e jovens incluídos, os quais, ao longo dos últimos cinco anos, serviram de “material humano” para esta sua mais recente investigação, e que a autora interpreta como um “sinal de esperança”.

 

Escrevendo que o texting, os tweets, os emails, as mensagens instantâneas ou os snapchats – uma espécie de torpedos vertiginosamente rápidos próprios da comunicação online – substituíram as conversas face a face, a especialista em tecnologia e relações humanas afirma também que, talvez pela primeira vez, as pessoas começam a ter alguma noção das suas consequências. “O excesso de confiança nos dispositivos está a danificar a nossa capacidade de termos conversas com valor uns com os outros – a coisa mais ‘humana’ que fazemos – porque o universo digital fragmenta a nossa atenção e diminui a nossa capacidade para a empatia”, pode ler-se revista The Atlantic. De certa forma, o seu mais recente livro pode ser considerado como um alerta para o facto de que “a submissão extasiante às tecnologias digitais conduziu ao atrofio das capacidades humanas, em particular da empatia e da autorreflexão, e que chegou o tempo de nos reafirmarmos, comportarmo-nos como adultos e colocar a tecnologia no seu devido lugar”.

 

Todavia, o problema é que, para a esmagadora maioria das pessoas, a vida já não faz sentido sem uma ligação ilimitada e contínua aos dispositivos digitais. E tal deve-se ao facto de, aparentemente, tal como uma espécie de lâmpada de Aladino, que nem precisa de ser esfregada, mas apenas ligada, a tecnologia concede, de mão beijada, pelo menos três irresistíveis desejos. “O primeiro é o de que seremos sempre ouvidos; o segundo é o de termos o poder de colocar a nossa atenção ao serviço de qualquer coisa que desejemos e o terceiro, é o de que nunca estaremos sozinhos”, escreve.

 

A tecnologia oferece-nos ainda um extra: para além de nos servir de consolo, de refúgio, funciona como um amigo que está sempre presente ou como uma apólice de seguro contra o aborrecimento.

 

Complementarmente e mais generosa do que o próprio Aladino, a tecnologia oferece-nos ainda um extra: para além de nos servir de consolo, de refúgio, funciona como um amigo que está sempre presente ou como uma apólice de seguro contra o aborrecimento. Para além de nos ofertar, basta que o queiramos, uma versão melhor de nós mesmos – aquela que escolhemos mostrar aos nossos seguidores e em que o enfoque pelo que realmente somos é substituído por uma autorrepresentação ideal e pela ânsia do feedback instantâneo. E o que esquecemos, ou em que nem sequer reparamos, é que estes “eus” que idealizamos acabam por deixar os outros, os verdadeiros, completamente sozinhos. Os eus ideais digitais comunicam sem cessar, mas cada vez sentem maior receio em comunicar face a face. “Optamos pelos nossos telefones em vez de escolhermos estar com os outros”, afirma Turkle, e isso acontece nas amizades, nas famílias, nos relacionamentos amorosos e no local de trabalho. E se acontece com os adultos, mais facilmente acontece com os jovens e com as crianças que estão a crescer num ambiente em que os olhos nos olhos estão a ser largamente ultrapassados pelos olhos nos ecrãs.

 

Mais preocupante ainda é o facto de que muitas das coisas que constituem a essência da humanidade começam a estar seriamente ameaçadas quando optamos por as substituir pela comunicação eletrónica. “Se não nos conseguimos separar dos nossos smartphones, acabamos por ‘consumir’ os outros em ‘bits e pedacinhos’ e é como se os usássemos como peças sobressalentes que suportam os nossos egos frágeis e vulneráveis”, acrescenta ainda. Mas o problema é que “estarmos sozinhos com os nossos telefones é, também, a nova forma de estarmos juntos”, acrescenta ainda Turkle.

 

Shame on us!?

 

À primeira vista, e talvez à segunda também, o discurso de Turkle pode parecer meio apocalíptico e até moralista. Afinal, todos nós sabemos que a vida que é exposta, por exemplo, no Facebook - desde os relatos de férias fantásticas, aos feitos individuais que partilhamos com resultados sempre excelentes, às festas a que vamos e onde nos divertimos imenso, entre outras maravilhas similares –é cor-de-rosa demais para ser verdade. Mas, talvez o mais surpreendente, como afirma a investigadora, é que “na ânsia de sermos ouvidos [ou lidos] pelos que estão “longe”, corremos o sério risco de perdermos aqueles que mais perto de nós estão”. Ou seja, publicar fotografias dos nossos lindos filhos, por exemplo, não substitui a nossa presença “verdadeira” nas suas vidas. “Que disparate”, apressamo-nos nós a ripostar. Mas não existirá aqui um fundo de, pelo menos, alguma verdade?

 

Existe um ciclo, vicioso e que se perpetua, que é preciso quebrar: os pais oferecem telemóveis aos filhos; os filhos aprendem que a batalha da atenção que desejam dos pais não pode ser vencida pois estão a competir com os seus smartphones sofisticados e interessantíssimos, acabando por se refugiarem nos seus próprios telemóveis

 

No seu livro, Turkle examina todos e cada um dos aspetos da conversação – seja aquela que temos com nós mesmos, com a família e com os amigos, com os professores e parceiros românticos, com colegas e clientes ou com a ‘coisa pública’ alargada – fazendo um excelente trabalho a demonstrar que todos eles sofrem de uma “erosão eletrónica”. E o que mais inquieta na leitura – e que é comprovado por várias entrevistas e experiências que a autora levou a cabo com adultos, mas também com muitas crianças e jovens – é o afastamento e desresponsabilização que muitos pais têm em relação aos seus filhos exatamente porque com tanta coisa “importante” para partilhar, comentar, gostar, com emails de trabalho para responder, com apps a apitar, o smartphone tem, tal como os membros da família que connosco vivem, o seu “prato” à mesa ou o seu lugar nos supostos momentos de lazer em que nos devíamos “contentar” com a mera presença de quem gostamos.

 

Esta “morte” das conversas em família é uma das secções do livro de Turkle que, pelo menos para os que são pais, obrigará (ou assim se espera) a parar por uns instantes – sem existir necessidade de irem a correr googlar sobre possíveis traumas que estejam a infligir nos seus rebentos – e a ver o filme – não no Netflix, mas na sua própria cabeça – dos que se reúnem todos os dias com os que vivem lá em casa, mas também com os que vivem nas redes sociais.

 

Para Turkle, existe um ciclo, vicioso e que se perpetua, que é preciso quebrar: “os pais oferecem telemóveis aos filhos; os filhos aprendem que a batalha da atenção que desejam dos pais não pode ser vencida pois estão a competir com os seus smartphones sofisticados e interessantíssimos, acabando por se refugiarem nos seus próprios telemóveis. De seguida, os pais utilizam a absorção dos filhos como permissão para usarem os seus smartphones tanto quanto desejam (…)”.

 

Razão alguma teria Steve Jobs quando fez saber ao mundo que, em sua casa, o iPad era fruto proibido nas mãos dos filhos.

 

De acordo com as inúmeras experiências, entrevistas e estudos que tem feito, Turkle não tem pruridos em afirmar que “são muitas as crianças e jovens que estão a crescer sem nunca terem tido uma conversa com os seus pais que não tivesse sido interrompida por um dispositivo digital”. E, mais grave ainda, ao aprenderem que, independentemente do que façam, nunca conseguirão competir com estes “seres tecnológicos preferidos”, as crianças crescem num ambiente não só privado de palavras por parte dos adultos, mas também de contactos visuais duradouros. O mesmo vale para a era dos tablets que, de forma fantástica, conseguem entreter as crianças à hora do jantar e até substituem os pais à cabeceira dos filhos contando-lhes histórias para adormecer. Razão alguma teria Steve Jobs quando fez saber ao mundo que, em sua casa, o iPad era fruto proibido nas mãos dos filhos.

 

Colocando todo o ónus nos ombros dos pais – conseguindo que muitos destes se sintam realmente culpados - Turkle afirma que a única forma de quebrar este ciclo é responsabilizar os adultos e recordar-lhes que são eles os mentores dos filhos. Mas, e em simultâneo, a autora também reconhece a dificuldade da adoção de novos comportamentos. “Os (ou pelo menos alguns) pais temem ficar para trás na mestria tecnológica face aos filhos; as conversas com os mais novos exigem tempo e paciência e é muito mais fácil e cómodo demonstrar o amor parental através da publicação de fotos ou ‘gracinhas’ dos filhos nas redes sociais”, ironiza. Mas o que estas atitudes representarão na vida de uns e outros pode vir a não ser facilmente apagado no futuro. Na vida não há “undo” ou “unsubscribe”. E se é para nos sentirmos culpados, que seja mais tarde do que nunca.

 

Uma app que alerte para um “DO NOT DISTURB”?

 

Compreender o que está em jogo nesta submissão e utilização viciante dos dispositivos digitais poderá ajudar a alterar os nossos comportamentos, não só para o bem dos nossos descendentes, mas para o nosso próprio bem. Autoestima, capacidade para estarmos sós, confiança, empatia, pensamento crítico e monotasking. No final do livro de Turkle, estas são as mais-valias que poderiam resultar se existisse um dispositivo que nos encorajasse a não estarmos constantemente ligados. Mas um interface desta natureza, escreve, iria ameaçar a esmagadora maioria dos modelos de negócio da indústria tecnológica, cujos lucros gigantescos derivam, diretamente, da força de (a)tração cada vez mais forte que nos mantém colados aos nossos mais fiéis amigos tecnológicos.

 

Entre inúmeras experiências narradas ao longo de livro, uma delas conta o que aconteceu, num campo de férias, com jovens divididos em dois grupos: aos que era permitido utilizar telemóveis e tablets “normalmente”, e um outro, no qual qualquer dispositivo eletrónico era proibido. Este grupo “device-free” começou por apresentar sintomas próprios de uma “cura para um vício”, com amuos e irritações a pautar os comportamentos dos miúdos nos primeiros dias. Até que, rendendo-se às evidências, acabaram por descobrir que era possível, e muito divertido, conversarem e brincarem entre si sem recurso à tecnologia.

 

Assim, a especialista em psicologia humana oferece argumentos sólidos que ajudam a compreender a importância de existirem “espaços sagrados” livres de dispositivos digitais – em que a única atividade permitida é a velha conversa, com nós próprios e/ou com os outros, a leitura de histórias em conjunto, um simples jantar sem talher para o telemóvel ou uma sala de estudo com apenas livros e cadernos –, em conjunto com o abandono do mito que nos faz acreditar que o multitasking é imperativo no dias que correm no que respeita à boa produtividade, substituindo-o pelo “unitasking”, o qual nos obriga a concentrar numa tarefa de cada vez e resistir à urgência de endeusarmos o smartphone como a ferramenta universal que tudo consegue substituir.

 

Em 2014, uma pesquisa realizada pelo Pew Research Center, comprovou que as pessoas são menos propensas a expressar as suas opiniões nos medias sociais quando temem que os seus seguidores possam discordar delas

 

E por várias e importantes razões.

 

Se nos habituámos a acreditar que o tempo em que estamos sós, connosco mesmos, podia ser “curado” e resolvido pela presença da tecnologia, está na altura de nos lembrarmos que essa capacidade para a solidão nos ensina a concentrar, a imaginar e a criar, a ouvirmo-nos a nós próprios e a desenvolvermos o nosso “eu” verdadeiro, competências cruciais para as conversas que mantemos face a face.

 

Quando falamos com alguém em pessoa somos forçados a reconhecer a sua humanidade ou, por outras palavras, a recuperar a empatia perdida – que nada mais é do que a capacidade de nos colocarmos na pele dos outros e de os reconhecermos como humanos que são, com virtudes e defeitos, e não como seres virtuais que “são muito mais felizes do que nós” e que, por exemplo no Facebook, nos fazem temer contrariar ou discordar dos seus pontos de vista legitimados por um sem número de likes (em 2014, uma pesquisa realizada pelo Pew Research Center comprovou que as pessoas são menos propensas a expressar as suas opiniões nos medias sociais quando temem que os seus seguidores possam discordar delas).

 

Por outro lado, porque se as tecnologias digitais representam a cura para o aborrecimento, está também comprovado que é nas alturas de tédio que mais desenvolvemos a nossa criatividade e imaginação. E porque a lista já vai longa, a autora sugere veementemente o abandono do multitasking pela concentração numa tarefa só, de cada vez, resistindo à dispersão e fragmentação promovidas constantemente pelos apelos sedutores do universo digital – o “uni” ou “monotasking” é, para a autora, a “the nex big thing”.

 

“Recuperar a conversação” é a proposta de Sherry Turkle. Em conjunto com a promessa de que, se usarmos a tecnologia com parcimónia, as nossas crianças terão um melhor desenvolvimento, os nossos estudantes aprenderão melhor e os colaboradores terão uma melhor performance, se os seus “mentores” optarem por uma substituição das “salas de chat” por salas de conversas face a face.

 

Para Turkle, ainda vamos a tempo de corrigir alguns erros e de nos lembrarmos de quem somos – criaturas com história(s), psicologicamente ricas, capazes de terem relacionamentos complexos, de exporem os seus pontos de vista sem temor de serem criticados, que gostam de arriscar e que compreendem que a melhor forma de nos relacionarmos com aqueles de quem gostamos é olhá-los nos olhos.

 

P.S. para os que chegaram ao fim, sem terem tweetadosnapchatado ou googlado: é favor partilhar este artigo no Facebook. Mas só depois de terem deitado os filhos e lhes terem contado uma história…

 

 

publicado às 15:15

Quer acabar com uma relação? Os "wakaresaseya" podem ser a solução

Por: Pedro Fonseca

 

O rompimento de relações pessoais ou laborais por um separador profissional chegou ao mundo ocidental, mais de uma década após terem montado negócio no Japão.

Pagar a um estranho para acabar com uma relação pessoal ou laboral é uma nova moda no ocidente, mas existe há mais de uma década no Japão.

 

"Uber para fim de relações" é como lhe chama a revista The Atlantic, revelando como se podem terminar relações pessoais a troco de um pagamento. Por 10 dólares, a The Breakup Shop envia uma mensagem SMS em nome de quem quer acabar com uma relação pessoal. Por mais 10 dólares, o envio é feito por carta em papel. Por 30 dólares, a carta conterá "nomes, explicações e outros detalhes" para ajudar a perceber que é mesmo o fim da relação e não se trata de uma piada. O preço é o mesmo para o assunto ser resolvido por telefone.

Não é novidade, acabar uma relação por SMS, mas é ainda melhor: sem espaço para a reconciliação, o The Breakup Shop tem uma panóplia de prendas para amenizar a separação, de óculos a copos de vinho.

 

Qual a razão para este tipo de serviço? "Evitar a confusão e ansiedade que pode surgir quando uma separação oficial é evitada a favor de um longo processo", diz o site.

Um dos fundadores do serviço, MacKenzie, diz ter tido a ideia a partir de problemas com uma companheira ocasional, enquanto o seu irmão e parceiro de negócio Evan concorda com o modelo. Ambos recusaram revelar o apelido à revista. A empresa argumenta que "qualquer pessoa merece ser solteira", com "produtos concebidos para dar paz de espírito quando termina a sua relação, minimizar o desconforto e maximizar o potencial para uma amizade a longo prazo". E apresenta no seu blogue casos de sucesso, como o de Samantha, que resultou em melhores vidas sentimentais para ambos os parceiros daquela relação terminada.

 

A empresa argumenta que "qualquer pessoa merece ser solteira"

 

Há razões contra este tipo de serviços - por questões de empatia, decência humana ou "pelo facto de que a tua mãe te educou melhor do que isto", diz a The Atlantic. Até porque o modelo ocidental é mais tecnológico e, assim, mais frio do que sucede no Japão há vários anos.

 

Há mais de uma década que este país tem os chamados separadores profissionais, os “wakaresaseya”, cujo negócio é destruir relações, sejam amorosas ou profissionais.

 

Uma das primeiras revelações aos ocidentais deste fenómeno ocorreu na revista “Look Japan”, em Março de 1998, onde se explicava que terminar uma relação “não é afinal tão difícil de concretizar” e uma mulher declarava ter pago mais de 15 mil dólares para conseguir que um homem se separasse da sua esposa para poder depois casar com ele. O seu sucesso deu mesmo origem a uma manga, denominada "Wakaresaseya no Koi".

 

Os “wakaresaseya” podem parecer personagens miseráveis, mas cumprem a estranha função social de garantir que uma sociedade acaba com relações sentimentais ou comerciais sem grande tumulto. O seu aparecimento no Japão tem essas razões sociais devido à dificuldade em quebrar laços estabelecidos - sejam sentimentais ou comerciais. No caso das mulheres, não são elas quem tradicionalmente pode acabar uma relação amorosa, um papel que cabe ao homem. Por isso, também elas recorrem aos “wakaresaseya” para aparentarem ceder à iniciativa do homem.

 

O termo japonês designa uma categoria profissional, bem remunerada e com trabalho assegurado mesmo em tempos de crise. Funcionando numa linha paralela à dos detectives privados, os “wakaresaseya” são contratados para acabar com uma ligação amorosa, terminar um casamento ou finalizar uma relação profissional. Os clientes tanto podem ser uma família que não aprecia de todo o namoro da filha, um jovem que quer afastar um concorrente da sua amada, uma esposa cansada do casamento, um homem que se quer separar da amante ou um patrão que deseja despedir um empregado.

 

“Os intermediários são muito importantes na cultura japonesa mas muitos estão a ser eliminados pelas mudanças sociais”, explicava Shizuo Machizawa, psiquiatra e professor na Universidade de Rikkyo, em Tóquio, ao LA Times. “Desse modo, os serviços comerciais florescem para preencher essa lacuna”. 

Das armadilhas provocadas à criação de falsos eventos, o que interessa é o resultado pelo qual o cliente paga. “Se este não fosse o meu negócio, considerava que muito do que fazemos é imoral”, afirmava Hiroshi Ito, “wakaresaseya” da Office Shadow, uma da cerca de uma dúzia de empresas a operar no Japão, principalmente em Tóquio e Osaka, e que lidava no auge do negócio anualmente com milhares de casos, obtendo uma facturação de dezenas de milhões de euros.

 

Empresas como a Lady's Secret Detective asseguram obter 95% de resultados positivos e manterem-se dentro da lei. Mas movem-se numa zona cinzenta, até pelas possíveis relações ilegais úteis para lidar com clientes mais difíceis. Depois, há ainda fotografias obtidas de forma disfarçada ou o desvio de documentos incriminantes.

 

O perfil de um “wakaresaseya”

 

Os “wakaresaseya” são recrutados pelas suas diferentes capacidades. Têm de ser bons actores, deter um grande poder de iniciativa e de decisão perante situações inimagináveis e ter uma boa percepção do ser humano. Se necessário, representam desde altos funcionários governamentais a donas de casa ou produtores cinematográficos. “Temos locutores, médicos, advogados, hospedeiras, estrangeiros, transsexuais, cães e gatos”, exemplificava um responsável de uma empresa relativamente aos seus 180 “wakaresaseya”. Estas empresas não têm dificuldades em recrutar novos elementos, sendo que os aprovados seguem para cursos sobre questões legais, artes marciais e representação.

 

A Lady's Secret Detective cobrava 6.000 dólares por mês para terminar uma relação, o que podia demorar entre dois a três meses, e tinha uma preenchida lista de espera. “Tivémos pedidos desde a noiva de um jogador profissional de basebol que queria que terminássemos o namoro do seu namorado com outra mulher, à esposa de um político que queria que o separássemos da sua amante para evitar que [a relação] fosse divulgada antes das eleições seguintes”, lembrava então um gestor de uma destas empresas.

 

Alguns clientes desesperados apresentam-se no primeiro encontro com 5.000 dólares no bolso mas um bom “wakaresaseya”, por um trabalho específico, pode receber até 150 mil dólares. Hiromi Fukuda, por exemplo, assumiu recentemente poder facturar cerca de 200 mil dólares anuais.

 

Após a entrega de um sinal, o “wakaresaseya” inicia um trabalho de investigação sobre a “queixa”, para a validar. Começa com o cliente, passa para os vizinhos ou colegas de trabalho, tenta obter comprovativos das preferências e estilo de vida do “alvo”. Esta informação é vital para construir o “cenário” e montar a “armadilha” para convencer o “alvo” a desistir.

 

Este pode igualmente ser conduzido a uma armadilha sexual, a partir de um encontro fortuito num bar, numa festa ou noutro local público. O “momento de fraqueza” é registado em fotografias e revela-se normalmente suficiente para obter o resultado pretendido.

Os homens são alvos fáceis e nem desconfiam porque lhes surge uma oportunidade daquelas. “Podem ser sempre seduzidos se as operacionais forem razoavelmente bonitas”, afirmava Kiyoshi Hiwatashi, director do Lady's Secret Service. “É uma certeza. Os homens são fundamentalmente ingénuos”. E quanto mais elevado é o estatuto social, empresarial ou político do "alvo", mais funcional é a ameaça apontada a um escândalo.

 

Os mais teimosos podem ser confrontados com provas falsas (como enormes dívidas), que degeneram na visita de falsos mafiosos para assegurarem a cobrança. Ameaças à carreira profissional também fazem "maravilhas" para enfraquecer laços frágeis, complementadas muitas vezes com a ajuda de um recente “amigo” que ajuda o “alvo” a aceitar a separação.

 

Finalmente, por uma soma adicional, o “wakaresaseya” assegura que não haverá contactos posteriores entre os separados. “É como uma operação ao cancro, retira-se o tumor mas tem de se garantir que ele não volta a crescer”, dizia Hiwatashi.

 

Das famílias às empresas

 

Estas empresas nem sempre gostam de separar famílias constituídas. “Espero intencionalmente quatro ou cinco dias para ver se eles realmente o querem fazer”, referia Hiroyuki Yoshida, presidente da Office Shadow. “Precisamos de saber o quão sérios estão antes de destruirmos vidas normais e as relações emocionais das pessoas”. Até porque nem todos os casos são fáceis de resolver: a Daiko Research Office (DRO) teve um marido que não queria largar a amante, mesmo depois de esta ter sido repetidas vezes desacreditada. Ao fim de dois anos, a empresa montou um esquema onde ele foi confrontado com uma dívida dela de 160 mil dólares. Entre pagar e abandoná-la, a escolha recaiu na segunda opção. “Para os homens japoneses, o amor nunca é para sempre, se começa a custar muito”, salienta Yasuyuki Takase, presidente da DRO.

 

No caso das empresas, os “wakaresaseya” podem ser úteis na descoberta de mentiras nos currículos ou nalguns erros do passado de um trabalhador cujo patrão se deseja ver livre dele.

 

Outra forma eficaz é disseminar rumores no local de trabalho para o levar a desejar sair por vontade própria, poupando à empresa o pagamento da indemnização. Mas nem os patrões estão a salvo de executivos ambiciosos ou de concorrentes que podem contratar “wakaresaseya” para os desacreditar ou revelar em público os prejuízos da empresa, levando à sua demissão.

 

O fenómeno atinge toda a sociedade japonesa e até os mais novos estão atentos aos “wakaresaseya”. “Enquanto a maior parte das pessoas noutros países nunca pensaria em contratar alguém para arranjar uma separação, os jovens japoneses parecem pensar actualmente que podem pagar para afastar os seus problemas”, nota o presidente da DRO. “As relações estão a ser tratadas como algo que compraram numa loja”.

 

“As relações estão a ser tratadas como algo que compraram numa loja”

 

Todo este ambiente de mentiras e separações acaba por se revelar danoso na própria vida pessoal dos “wakaresaseya”. “Eu não acredito que me vá casar alguma vez”, explicava Hiroshi Ito, o “wakaresaseya” da Office Shadow. “As relações humanas parecem-me agora tão frágeis”. Também Hiroyuki Yoshida, presidente da Office Shadow, afirmava ter “experimentado as profundezas do inferno” e “é demasiado. Acaba-se por não confiar nas pessoas”.

 

Aliás, o perigo de não se manter neutral nesta profissão pode ocorrer, com nefastas repercussões. Em 2010, um tribunal de Tóquio sentenciou Takeshi Kuwabara a 17 anos de prisão pela morte da amante Rie Isohata, após ter sido pago para a seduzir como "wakaresaseya" pelo marido, para este obter provas para um divórcio. Depois de se apaixonarem, ele contou-lhe o que tinha feito, ela quis separar-se e Kuwabara matou-a.

publicado às 20:34

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D