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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Declaro abertos os Jogos do Rio, celebrando a 31ª Olimpíada da era moderna! Oi?

 Por: Miguel Morgado

 

O Rio de Janeiro e o Brasil atiram para trás as palavras Dilma, Impeachment e Lava-Jato e unem-se à volta da cultura, história, celebridades e música brasileira, tudo iluminado pela chama olímpica. Zika, segurança e atrasos, é só dar um “jeitinho, 'né”. Portugal leva 92 atletas de 16 modalidades, abençoados pelo Cristo Redentor. E Marcelo Rebelo de Sousa espera entregar medalhas, com vista para o Cristo-Rei.  

 

 

Hoje, 5 de agosto, cerca das 24h00 (20h00 no Rio de Janeiro) começam os XXXI Jogos Olímpicos de Verão da Era Moderna. Ao longo de quase quatro horas aguarda-se a proclamação, em pleno Estádio Maracanã, em inglês, francês e em bom português, da frase “declaro abertos os Jogos Olímpicos...”. Dez segundos de fama para Michel Temer, presidente interino, a que se seguem muitos mais segundos de uma música para “abafar” assobios, numa cerimónia em que tudo aponta para que seja o tenista Gustavo Kuerten a entrar com a chama olímpica. Sobre quem acende a Pira, nada se sabe. Sabe-se que haverá uma na Igreja da Candelária. Pelo meio, com direção criativa de Daniela Thomas, Fernando Meirelles (“Cidade de Deus”) e Andrucha Waddington, coreografado por Steve Boyd, americano que conta com treze eventos olímpicos, com orçamento mais de dez vezes inferior a Londres 2012, há dança, música, luzes, fogo de artifício, os esperados “uaus” de espanto, história e celebridades. E aqui entram figurões e grandes nomes do MPB, entram Gilberto Gil e Caetano Veloso, novas vozes, do rap e hip hop, MC Soffia (12 anos que “arrasam” nas redes sociais) e Karol Conka, desfilará a top model Gisele Bündchen ao som de “A garota de Ipanema”, entre olhares indiscretos e olhos regalados, Lea T, brasileira transexual, a primeira do género a fazê-lo numas olimpíadas. O desfile das delegações começa com a Grécia, e em seguida os países entram por ordem alfabética. No P de Portugal, desfilam 92 atletas liderados pelo porta-estandarte velejador João Rodrigues, com sete participações nestas andanças, o “país” dos refugiados é o penúltimo, e na sequência o Brasil entra com a promessa de delírio total dos presentes.

  

Hoje o Rio de Janeiro é e continua lindo. Hoje é feriado na cidade maravilhosa. E começam as Olimpíadas. E cariocas e brasileiros, como uma espécie de bipolaridade, esquecem tudo o que antecedeu recentemente num país sem tradição olímpica mas que cujos anos mais recentes levou a cabo esforços e investimentos olímpicos para pôr de pé um Mundial, em 2014, e agora, dois anos depois, os JO Rio 2016.

 

A partir da meia-noite espera-se que o Estádio Mário Rodrigues Filho, vulgo Maracanã, se transforme numa enorme pista de dança e convívio entre nações. Mas se rebobinarmos, a música foi, até hoje, outra. Zika. Dilma. Impeachment. E Lava-Jato. Quatro palavras que atingiram elevados índices de “popularidade” no Google quando se procura por Brasil. Se juntarmos as últimas três obtemos uma frase que resume quase tudo de que se falou e ainda se fala de e no Brasil, de Brasília à Cidade Maravilhosa. É assim: a operação Lava-Jato, a maior investigação levada a cabo pela Policia Federal brasileira, mega-escândalo de corrupção, originou um processo de impeachment que levou à destituição de Dilma Roussef, a presidente do Brasil, entretanto substituída por Michel Temer, presidente interino. Uma “tempestade perfeita”, vendaval político que só encontra paralelo com o da Ditadura Militar de 1985, misturado com uma recessão económica quase sem precedentes.

 

Ou seja, dos JO do Rio de Janeiro propriamente ditos só se falou dos atrasos em relação à construção de infraestruturas, a (ausência de) despoluição da baía de Guanabara e da Lagoa Rodrigo de Freitas, do doping de atletas russos, dos perigos do vírus, a quarta palavra, a Zika, que preocupa autoridades sanitárias e organizações desportivas, atletas, ao ponto de alguns de renome, em especial no golfe, não terem embarcado para o Brasil, e que afastou igualmente turistas e, finalmente, das questões de segurança.

 

E por falar em segurança, ao todo 85.000 mil profissionais, divididos entre agentes, forças de segurança pública e soldados que terão à sua guarda os 10.500 atletas em representação de 206 países. 17 dias na luta por 306 provas com medalhas, sendo que 161 são provas masculinas, 136 femininas e 9 são mistas. 42 desportos, sendo que há duas novidades: o golfe e o râguebi. 

 

Portugal, com 92 atletas representando 16 modalidades, terá José Garcia, ex-canoísta, como Chefe de missão de Portugal. Há atletas medalhados (Nelson Évora), repetentes (Telma Monteiro), naturalizados (Tamila Holub, nadadora nascida na Ucrânia e a mais jovem atleta lusa presente) e muitas esperanças face às mais recentes conquistas em diversas modalidades, seja na Canoagem (Fernando Pimenta), Ciclismo (Rui Costa), no Taekwondo (Rui Bragança), no Ténis de Mesa (equipa), no Atletismo (Patrícia Mamona e Sara Moreira), no Judo (Telma Monteiro) e no Futebol, seleção sub-23 que regressa ao palco olímpico depois Atenas 2004. A correr por fora estará a ginástica de trampolins (Ana Rente) ou tiro (João Costa).

 

O Navio Escola Sagres (NRP Sagres), embaixada nacional itinerante durante o maior acontecimento desportivo a nível mundial e que será a primeira edição de sempre de uns Jogos Olímpicos numa nação de língua oficial portuguesa, dará assistência a toda a comitiva hospedada na Aldeia Olímpica que, segundo números do Comité Olímpico Português (COP), rondará as 180 pessoas, entre atletas, treinadores, ‘staff’ COP, equipa médica e fisioterapeutas, chefes de equipa por modalidade, 45 profissionais de media de 19 órgãos de comunicação social e o departamento de comunicação do COP (duas pessoas).

 

Medalhas? Ouro? Prata? Bronze? Essa é sempre a pergunta demasiado cara para ser feita e à qual ninguém avança com números. Favoritos? À partida, remo, judo, ténis de mesa, atletismo... À saída das Terras de Vera Cruz, quando a popa do Navio Escola Sagres apontar ao Cristo Redentor, esperemos que, no Torna Viagem, traga o porão carregado de metal precioso e que rume aos jardins do Palácio de Belém, onde à sua espera estará Marcelo Rebelo de Sousa. Aguardaremos então pelo desenlace de encerramento dos Jogos Olímpicos Rio 2016. E pela cerimónia ainda no segredo dos Deuses. Para ser vista por 3.5 mil milhões de pessoas em todo o mundo.

 

publicado às 20:47

Uma olímpica vergonha. No Rio, só mesmo levando a situação na desportiva

Por: José Couto Nogueira

 

Os jogos do Rio de Janeiro ainda não começaram e já se amontoam os problemas, desde raptos e roubos a obras atamancadas e poluição persistente. A recessão que assola o país e a incompetência crónica da gestão da cidade antecipam, para muitos, um resultado que vai do embaraçoso para o descalabro. Ainda assim, a pouco mais de uma semana do arranque dos Jogos, sobra a esperança que os atletas e as provas compensem tudo o resto.

 

 

A cidade onde se realizam os Jogos Olímpicos é escolhida com grande antecedência, entre vários concorrentes, para que se possa preparar para um evento de magnitude faraónica, com uma escala universal. Por um lado, nenhuma cidade tem infraestrutura montada para tantos eventos desportivos a acontecer ao mesmo tempo; por outro, deseja superar sempre as anteriores em grandeza, organização e beleza. Tóquio, que será a cidade dos Jogos Olímpicos de Verão de 2020, foi escolhida em 2013. Para os japoneses, é tempo de sobra para organizar minuciosamente todos os pormenores.

 

Também parecia muito tempo quando, em 2009, o Rio de Janeiro ganhou a competição para receber os jogos deste ano. Nessa altura o Brasil estava em curva económica e social ascendente, e o Presidente Luís Inácio Lula da Silva, reeleito com mais de 60% dos votos em 2006, parecia imparável. O PT não era apenas uma forma de gestão do país, tinha uma programação ideológica muito forte, tanto para o Brasil como para todos os países sul e centro americanos com governos de esquerda. A realização da Copa do Mundo em 2014 e das Olimpíadas em 2016 seriam celebrações da “nova ordem” que o Partido dos Trabalhadores queria exibir com aparato.

 

Só que, entretanto, muita coisa aconteceu no Brasil. Dilma Rousseff, eleita em 2011, mostrou-se uma administradora inábil e incompetente, levando o país para uma recessão que agora se pensa que só abrandará em 2020. Por outro lado, tem-se descoberto aos poucos que o grandioso projecto social do PT incluía uma corrupção a níveis estratosféricos, mesmo para o Brasil. Dilma foi afastada e está metida num processo de impedimento, enquanto o país é governado interinamente por um Presidente fraco e impopular. A gestão da coisa pública está praticamente suspensa, enquanto os políticos de todas as cores se contorcem num jogo labiríntico para se salvarem a si próprios e enterrar os outros. O desemprego anda na ordem dos 11% e contabiliza-se um recorde de falências de empresas pequenas e grandes. Não há grandes condições de prestar atenção aos Jogos Olímpicos e muito menos de gerir as estruturas necessárias ou de tirar partido da promoção nacional que o evento proporcionaria.

 

No epicentro da tempestade está o Rio de Janeiro. A cidade foi escolhida porque é linda, entre a montanha e o mar, com um clima tropical suave. Mas é linda nos bilhetes postais e nos vídeos. Diz quem lá mora que desde a gestão Brizola (91-94) que a incompetência dos edis (“prefeitos”) só tem par na corrupção desenfreada a todos os níveis. A criminalidade é assustadora. Há 16 assassinatos por dia só na cidade do Rio de Janeiro, com 6,3 milhões de habitantes, comparando com 48 assassinatos diários em todo o território dos Estados Unidos, com 320 milhões de habitantes.

A rua é partilhada entre a Polícia Militar, a Milícia, os gangues de traficantes e o crime juvenil, de puxão. As pessoas de fora, facilmente distinguíveis pela cor de pele e falta de samba, são roubadas na rua, pelos táxis, nos serviços, nos arrastões de praia.

Não há grande hipótese de um estrangeiro atravessar a cidade com uma câmara ao pescoço, uma mochila, ou alguma coisa de valor, e sair incólume.

 

Prevendo um grande número de visitantes incautos, a Prefeitura criou uma corpo extra, a Força Nacional, formado por voluntários das polícias e dos bombeiros de todo o país. Chegados ao Rio há três meses, os supranumerários ainda não conseguiram receber salário. Foram instalados em apartamentos sem camas, sem água, electricidade ou televisão, num bairro social que é dominado pela Milícia, que se recusa a fornecer esses serviços sem pagamento. Ora a Milícia é uma força semi-legal, formada por moradores e polícias fora das horas de serviço, que inicialmente se propunha a expulsar os traficantes de drogas, mas que acabou por se tornar uma gangue de extorsão ela própria. (Quem viu os dois filmes “Tropa de Elite”, de Wagner Moura, conhece a história.)

A polícia propriamente dita – chamada Polícia Militar – e os bombeiros, estão neste momento em greve por falta de pagamento de salários, pelo que não é de esperar muito empenho durante os jogos. Têm aparecido no aeroporto com uma grande faixa onde se lê “Welcome to hell”.

 

 

Noutra vertente, as obras destinadas aos pavilhões, ao alojamento dos atletas e jornalistas e os melhoramentos nos transportes estão atrasadas e algumas não ficarão prontas a tempo – talvez não fiquem prontas nunca. Os custos, sobrecarregados com luvas para todos os sectores da administração, ultrapassaram largamente o valor orçamentado. A semana passada começaram a chegar delegações e começaram os problemas. Os australianos foram para hotéis e queixaram-se dos canos entupidos, das poças de água dentro dos apartamentos, da falta de lâmpadas. Eduardo Paes, o prefeito, respondeu delicadamente que se eles quisessem até lhes punha cangurus nos módulos habitacionais para que se sentissem em casa. Mas os americanos, suecos e portugueses também já se queixaram de que nada funciona. Paes deve ser bipolar, pois tão depressa afirma que os jogos são uma oportunidade perdida como que tudo vai correr maravilhosamente.

 

Mas não é só a Vila Olímpica, domicílio dos atletas, que tem problemas. O metro especial para os jogos, que atravessa a cidade até à Vila, está por acabar, assim como a autovia rápida. Uma pista de bicicletas panorâmica, junto ao mar, caiu há um mês, matando dois ciclistas. As fotografias mostram que foi mal desenhada e construída com materiais ordinários. Custou 45 milhões de dólares, pagos a dez empresas. Quanto à baía da Guanabara, onde se realizarão as provas náuticas, ainda esta semana apareceu um cadáver a boiar. Nas imagens aéreas vêem-se frigoríficos, sofás e objectos não identificados a flutuar numa massa acastanhada com grandes manchas verdes. Eduardo Paes já admitiu que a despoluição não virá a tempo.

 

Um contentor com equipamento para uma equipa da televisão alemã desapareceu ainda no aeroporto. Dado o escândalo, a polícia lá o encontrou três dias depois, num armazém cheio de contentores de proveniências várias. Jason Lee, atleta neozelandês de Jiu-Jitsu, foi apanhado na rua e obrigado a fazer vários levantamentos em máquinas ATM. Pelos vistos a sua especialidade não o salvou dos perigos da rua. Aliás, são esses “pivetes” o grande problema. Porque as gangues de traficantes, bem organizadas, não terão nenhum problema em fazer acordos com as forças da ordem; também lhes interessa que os seus negócios paralelos – drogas e prostituição – corram bem, num ambiente seguro para os visitantes. Agora, os pivetes, são operadores independentes. Andam pela cidade em pequenos grupos e atacam tudo o que vêem pela frente, com o descaramento de quem não tem nada a perder.

 

Enfim, chova sangue ou caiam tijolos do céu, no próximo dia 5 de Agosto terá lugar a cerimónia de abertura dos Jogos Rio 2016. A Presidenta suspensa, Dilma, não comparece, pois não teria direito às honras da praxe, o que seria constrangedor. O Presidente interino Temer, espera-se que vá. Como se prevê que será Pelé a acender a pira olímpica. O espectáculo musical conta com Anitta, Caetano Veloso, Elza Soares, Ludmilla, Gilberto Gil e Wesley Safadão.

 

Talvez Gisele Bündchen desfile numa passarela que na verdade será criada virtualmente a partir de uma projeção do calçadão de Copacabana, ao som de “Garota de Ipanema” de Tom Jobim. No mundo inteiro, 3,5 mil milhões de pessoas vão assistir, na segurança dos seus sofás. No Rio, estarão muitos milhares dos mais ousados.

 

publicado às 13:27

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