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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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O meu Euro é uma foto da Albânia

Por: Márcio Alves Candoso

 

Qual das duas melhores exportações da Madeira é a imagem mais adequada para Portugal? A pequena mas doce banana ou o grande e por vezes amargo Cristiano Ronaldo? O anúncio protagonizado por Dolores Aveiro, mãe do ‘melhor jogador do mundo’, faz-nos encarar um dilema. Mãe é mãe, e mesmo publicitária não tem dúvidas. Para ela é o seu ‘menine’, naquele foneticamente intransponível sotaque que, um dia, fez Herman José confessar os seus limites como imitador. Para nós… bem, tamanho – dizem – não é documento. Mais vale ser doce…

Só há 23 países no mundo com mais habitantes do que seguidores tem Cristiano no Facebook. Se a estes 60 milhões juntarmos os 15 do Twitter, então o número baixa para 18. Há mais ‘ronaldistas’ na rede do que franceses no planeta. Para quem não gosta de futebol, estas coisas deveriam fazer pensar.

 

Um dia, conheci um guarda-redes da Sanjoanense que tinha defendido um penalty de Eusébio. O homem tinha uma vida vulgar, mas haveria de levar para o túmulo – não sei o que é feito dele - um feito de que poucos se podem gabar. A partir de ontem, o poste direito da uma das balizas do ‘Parque dos Príncipes’, nessa segunda maior cidade portuguesa que é Paris, pode orgulhar-se de feito à altura do ’sapateiro’. Cristiano Ronaldo falha um penalty cada três anos. Aproveitou ontem para manter a regularidade…

 

Na noite quase de Verão que ontem apareceu por Lisboa, dizia a Isabel Tavares, minha querida camarada e novel colaboradora do ‘Sapo’, que não valia a pena escrever mais nada no FB, porque o melhor ‘poste’ tinha sido o do Ronaldo. Triste fado o da selecção portuguesa - atacámos como se não houvesse amanhã, e marcámos zero golos. Nem Quaresma de pés trocados – não há outro no mundo igual a ele, e acreditem que isto não é propaganda de cigano de feira - nem Nani de língua de fora nos valeram.

 

Mas talvez esteja na hora de mudar de fado. Kátia Aveiro, nascida Cátia Liliana, irmã do meio de Cristiano, e que começou sua carreira no ’music-hall’ como Ronalda, dá-nos hoje em dia uma visão muito diferente, e mais alegre, do que a triste melodia que carregamos em choro e mágoa, devaneio e realidade, silêncio, sombra e saudade, almas vencidas, noites perdidas, sombras bizarras.

 

O seu maior êxito proclama que ‘tu és a loucura que me faz vibrar/meu coração faz bum, bum sem parar’. É disto que a selecção precisa – um bater de corações, eventualmente apaixonado não pela Kátia mas por uma bandeira, um povo e um hino. Não vale a pena pedir menos a quem se propôs ser campeão da Europa.

 

Depois do jogo com a Áustria, estive a ver a actuação de Kátia no proverbial comício do PSD no Chão da Lagoa, e garanto-vos que pede meças e contornos roliços às melhores fintas do irmão mais novo. Com a vantagem, para apreciadores, de que a mini-saia é mais curta que os calções que a ‘Nike’ propôs à nossa selecção. Tenho para mim, aliás, que esta nova moda dos calções compridos afasta as senhoras das bancadas dos estádios e da televisão. Um assunto a rever…

 

Mas era suposto eu estar a falar de futebol. Opto pelos fãs, sem os quais não há 4-3-3 que resista. E os melhores do mundo são, com vossa licença, os irlandeses, que aliás, com grande pena minha, se arriscam a fazer as malas já no próximo jogo.

Faz-me confusão porque é que aquela gente se embebeda tanto ou mais que os ingleses, e em vez de distúrbios cantam o ‘Chiquitita’ dos ABBA com os seus opositores suecos. Deitam-se no chão às dezenas e o filme é passarem as pessoas aos semi-apalpões por cima deles. Toda a gente se ri. E fazem uma serenata a uma freira. E têm um cartaz, no tal jogo com a Suécia, em que convidam os fãs do adversário a ‘go back to your sexy wives’. Tem piada, só não sei se as irlandesas gostaram. Quantas Maureen O’Hara ainda há na ilha verde?

 

Enquanto isso, os russos arriscam-se a ser expulsos ainda antes de a sua frágil selecção ser eliminada, os ingleses fazem o que é costume – merda – e os croatas, turcos e albaneses estão na mira dessa impoluta agremiação que dá pelo nome de UEFA. Tudo jóia, se não fosse a vaca da Itália, que não joga uma pevide, mas ganha.

 

Voltando à história pátria, há coisas que não percebo. Estive a ver, todos ou quase todos os dias, os inquéritos da RTP aos tele-espetadores - segundo o acordo ortográfico, são os tipos que se espetam à frente da pantalha e que não a largam – e apontei os resultados. Seja a pergunta ‘Portugal vai ficar em 1ºlugar no Grupo F’, ‘Ronaldo é o melhor jogador dos últimos 20 anos’, ‘a actual selecção é melhor do que a de 2014’ ou ‘William Carvalho deve substituir Danilo’, o resultado é sempre o mesmo. Portalegre vota ao contrário do resto do País, às vezes acompanhado por Viseu e Évora. Não sei o que se passa com a interioridade, mas isto dava uma tese de Sociologia no ISCTE, eventualmente tutelada pelo Francisco José Viegas.

 

A verdade é que temos que ganhar aos húngaros. Até agora, o fado dos empates tem sido a sina que nos tolhe. A culpa, como dizia a minha amiga Magda Santos, é do ‘profeta’ Abrunhosa. ‘Tudo o que eu te dou, tu me dás a mim’, é a perfeita definição de um empate. Eu sempre disse que a canção, a ser uma do rapaz dos óculos, devia ser o ‘Talvez f.’, que bem traduzida para ouvidos austríacos haveria de lhes soar diferente da ‘Música no Coração’. Uma canção de amor não faz mossa. ‘Que mais te posso dar’? Quinze a zero, no mínimo, já lá dizia o grande Ricardo Araújo Pereira!

 

No entanto, está tudo em aberto. A esperança é a última a morrer. São onze para cada lado, se o árbitro não for italiano, e a bola é redonda. Prognósticos só no fim do jogo. Falho de mais lugares-comuns, vou contar uma história.

 

Eu já fui treinador de futebol. É verdade, tinha nove anos. O meu Pai tinha-me dado uma bola, o que me permitia ter alguma relevância no meio da rapaziada da 4ª classe da escola primária de Moncorvo. Torto de ambos os pés desde tenra idade, a única hipótese que tinha de jogar à bola era ser dono dela. Mas eu sempre gostei de ganhar e, graças a Deus, sempre tive a noção das minhas limitações.

 

Vai daí, fui ler um livro de táctica – acho que era do Heleno Herrera – que havia lá na biblioteca moncorvina. Os putos ranhosos, descalços ou aburguesados que me acompanhavam na escola, não tinham grande respeito por mim, no que concerne a andar à porrada, mas sabiam da minha enorme superioridade intelectual. O que, diga-se de passagem, em Trás-os-Montes nos anos 60 não era lá muito boa qualidade para ser chefe da malta. Mas convenci-os à custa de lábia – é assim que um gajo fraco e feio conquista, primeiro os miúdos e depois o resto…

 

Lembro-me dos nomes deles. Grandes craques, até ganhámos à 5ªclasse. O Meireles na baliza, como o pai dele também era nos seniores do Moncorvo. Nas laterais o Orlando, que era canhoto e rápido, e o Gomes, com um olho sempre no contra-ataque. No meio da defesa o Reis e o Teixeira, ou então o Olímpio, que era muito burro mas enorme; contava que lhe tinha caído um raio em cima, lá na quinta da Vilariça onde a família trabalhava, e que a partir daí tinha ficado taralhouco.

 

No meio-campo era o Artur, que depois viria a jogar a sério, e que era dos poucos que olhava para cima ao mesmo tempo que dominava a bola. A seu lado tinha o Mesquita, que não gostava de perder nem a feijões, e o Norberto que corria como Deus o dava pela extrema direita. Na frente, o Nélson Choça era uma espécie de Nené – nunca sujava os calções mas estava sempre à mama. O goleador por excelência. O Amândio era o distribuidor de jogo e eu, coitado, ficava para as dobras quando não havia mais ninguém.

 

Miúdos valentes. Lembro-me de dar uma sandes ao Norberto, o meu protegido, e a minha Mãe achar que eu era um alarve, porque chegava a casa cheio de fome. E do Branquinho, que não tinha sapatos e fugiu da escola na terceira classe para França, com o pai. E do Biló, que tinha como mãe uma senhora que não lhe sabia dizer quem era o pai. E do Salazar, que morreu de tuberculose ainda não tinha feito vinte anos. Coisas de antigamente.

 

Isto de jornalismo está pelas ruas da amargura. Só agora reparei que desleixei o título que dei a este texto. Então é assim: a foto mais partilhada, até agora, do Euro 2016, é a de duas albanesas bem nutridas e simpáticas, que fazem com as mãos o voo da águia que está na bandeira do seu país. Os homens, principais utilizadores desta coisa linda que se chama futebol, de vez em quando reparam no que é realmente importante.

publicado às 17:59

O que é que o Nuno Melo está a fazer no meio disto?

 Por: Márcio Alves Candoso (jornalista)

 

Na sua revisitação anual ao universo dos 'cliques' em causa própria, o Grande Google da Ocidental Praia Lusitana – mas podem tratá-lo apenas por 'Google', se forem lá de casa – elaborou um 'ranking' temático dos temas e pessoas, ou assim, que mais curiosidade causaram nos frequentadores internéticos que utilizaram aquele motor de busca.

Investigadores, profissionais de diversa estirpe e colheita, miúdas de 12 anos e ociosos vários que não sabem jogar às cartas, todo o bicho-careto dá ao rato em cima do Google, aumentado as 'pageviews' do ovo de Colombo inventado por Larry Page.

 

O Google dá-nos as pistas. Queremos saber, por exemplo, quem foram as personalidades internacionais que mais mereceram a atenção dos visitadores de computadores e telemóveis razoavelmente inteligentes. À cabeça, com algum destaque, vem Taylor Swift.

 

E perguntarão vocês, ou talvez não: quem é Taylor Swift? Eu, que sou um desinformado e um bronco a atingir provecta idade, não sabia. E por isso lá aumentei, eu próprio, o destaque da Taylor, não tendo descoberto se a menina sabe alguma coisa de costura (Taylor, estão a ver a piada?... Ok!...)

 

O que descobri, isso sim, é que canta e dança e não é de Paços de Brandão. E que, aos 26 anos, já vendeu 25,5 milhões de discos, o que a coloca no 78º lugar dos artistas com mais sucesso nas platinas de todos os tempos, à frente de Nirvana e ZZ Top e já a morder as canelas de Frank Sinatra ou dos Bee Gees. Costuma namorar em média três meses com actores e cantores igualmente famosos, e quando lhes calça os patins ou eles se esquecem dela escreve uma canção desesperada.

 

O que eu não perdoo aos fãs 'tugas' da menina é que, como homem da informação que sou, fui mesmo ouvir três coisas que ela escreveu e cantou. É uma base do jornalismo: se não sabes, estás calado ou vais tentar saber. Como a primeira hipótese me estava vedada, porque prometi às 'sapas' directoras que ia averiguar desta cena, fui mesmo torturar os ouvidos com aquilo. Há maneiras mais difíceis de ganhar a vida...

 

Não sei se a tal Swift – em português 'rápida', o que dá uma alfaiate rápida, ou seja, pronta-a-vestir, tal como a música que frequenta – descende do grande Jonathan e, se ele a tivesse conhecido, a trataria como gigante ou minorca liliputiana. Mas sei, desde há pedaço, que é amiga íntima de Selena Gomez que – tcharan!! - é a segunda mais visitada na tal lista da Google. Deve ser cunha... Até porque esta segunda já foi namorada de Justin Bieber, de quem a Taylor não gostava, tendo mesmo dito à amiga para o pôr a andar.

 

A lista segue com Kyllie Jenner, que ficou famosa num 'reallity show' da família Kardashian, e que é mesmo meia-irmã da Kim do excelso rabo, e filha daquele atleta campeão olímpico que há tempos resolveu que afinal era gaja, isto já com quase sessenta anos. Tudo muito melhor do que no tempo em que o circo tinha a mulher barbuda...

 

 

Vá lá que a quarta personalidade é a ex-'nossa' namorada Irina Shayk, e eu fiquei mais descansado porque afinal não ando tão a leste do paraíso, já que esta eu conhecia. O 'top five' termina com Ariana Grande, que é assim uma cena parecida com as outras todas.

 

Bebi um descafeínado – as emoções da pesquisa não aconselhavam mais cafeína – e tentei aumentar a minha cultura. Dei de caras com a pesquisa dos 'mais' de 'como ser...'. O que é que as pessoas procuram no Google? Em primeiro lugar, e sem surpesas, 'como ser feliz'.

 

Parece-me bem. A felicidade sempe foi uma ânsia humana, já desde os tempos em que Sísifo a perseguia, se bem que com bastante maldade associada. E se fintou a morte duas vezes seguidas, também teve as suas agruras na vida, acabando a empurrar pedras por uma encosta acima, o que, convenhamos, não é a melhor maneira de uma pessoa se alcandorar à felicidade. Ainda mais quando a parva da pedra insiste em cair pela ribanceira abaixo de cada vez que o pobre Sísifo está quase a alcançar o cume. Apeteceu-me dizer isto para vocês verem que eu também sei umas coisas cultas. E, se não soubesse, tinha bom remédio – ia ver ao Google.

 

Mas se a busca da felicidade é um tema basilar e transversal nas buscas, no que ao género diz respeito, a seguir vem uma coisa que é mais das raparigas, meninas, senhoras e gajas. 'Como ser bonita?'

 

Vendem-se diariamente milhões de revistas, cremes e agulhas que prometem às fêmeas alcançar essa ditosa meta. Se aquilo resulta ou não resulta é que eu já não sei. Eu, por mim, em matéria de beleza feminina 'compro' já feito, e o que eu gosto nelas nem eu sei bem. É assim uma coisa que não se encontra no Google. Mas podem continuar a tentar, mal não deve fazer...

 

Já a rapaziada prefere – e esta é a segunda entrada de busca mais usual, no ano da graça sem grande graça que agora termina – o 'como ser rico'. Aqui apetece cantar a obra-prima de Ellis Regina, a canção 'Como Nossos Pais', já que se percebe que isto não muda. Elas querem ser bonitas para que os ricos casem com elas, eles querem ser ricos para casar com as bonitas. E vai um 'Xanax' para a minha ansiedade reformista e revolucionária...

 

As mulheres, ou as que para lá caminham, querem ainda saber como ser modelo, actriz ou popular. Os peludos – se entretanto não tiverem optado por ser rapados – preferem indagar como ser bom aluno ou 'youtuber'. Boa sorte para todos...

 

Nos jogadores de futebol quase nada a assinalar, já que CR7 comanda seguido de perto e de baixo por Messi. Maxi Pereira, mais a sua polémica transferência, vem a seguir. Iker Casillas mais a sua namorada segue em quarto – com vista para o Douro – e o quinto é um tal de Pablo Osvaldo, que esteve no FC Porto até há pouco tempo, e que para além dos pontapés na bola dá fortes pontapés na vida, tendo adquirido a alcunha de 'bad boy'. Um exemplo para a juventude...

Mas o que me impressionou positivamente foi a lista de personalidades nacionais mais pesquisada. Não pela primeira, que é Maria Zamora, a actriz que morreu de forma inesperada, havendo fortes indícios – e aqui é que está o interesse da coisa – de ter sido assassinada por um ex-namorado que a perseguia. Sofia Ribeiro, a jovem actriz que luta contra um cancro da mama, vem em terceiro; Delfina Cruz, a desditosa actriz que morreu disso, depois de ter sido atropelada, vem em quarto; e a quinta é Joana Amaral Dias, penso eu que por razões visíveis...

 

Mas o que me impressionou foi a segunda entrada mais badalada. Nada menos nada mais do que Nuno Melo, o euro-deputado do CDS, membro da família Melo do Minho, que já nos deu um presidente da Assembleia da República e a mim uma amiga. Não sendo eu grande fã da criatura, sempre é um arejo saber que os portugueses se interessam por uma personalidade política que não se despe em revista nenhuma.

 

Mas a minha alegria foi sol de pouca dura. Não era esse Nuno. Era, sim, e para grande tristeza minha, o malogrado actor Nuno Melo. E isso toca-me bem mais de perto. É que o homem morreu antes de ter conseguido um transplante de fígado.

 

Tinhas razão, Ana Isabel Gomes do 'SAPO' - isto é um bocado deprimente. Um abraço, lá no céu dos homens que nos fizeram rir em vida, ao grande Nuno Melo!

 

 

 

publicado às 17:06

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