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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

Hasta la victoria, siempre

 

Há um rio, que é o mesmo, mas que os separa. Os que vão à Bela Vista e os que vão à Amora. Dizer de um ou de outro que, de alguma forma, podiam ser uma espécie de Festa do Avante! da burguesia ou de Rock in Rio do proletariado é, provavelmente, uma enorme ofensa para qualquer uma das partes. Com as devidas diferenças, naturalmente.

 

Não há Paez, malas de marca nem vê-las, e, na Amora, estamos no reino dos androids (até a aplicação da Festa do Avante! apenas existe para Android). Mas, em contrapartida, há t-shirts revolucionárias, sacolas a tiracolo, boinas à Che, colares, brincos e outros adereços que nos levam de volta àqueles anos 80 em que Portugal era tardiamente hippie (não confundir com hippie-chic, isso foi do outro lado do rio, na Bela Vista, uns meses antes).

 

Há quase vinte anos que não ia à Festa do Avante!. Esta Festa pareceu-me mais familiar – mas, provavelmente, dir-me-ão os mais novos, é porque estou mais velha. Há aquele efeito de nos (re)vermos nos outros – quando estamos grávidas também só vemos mulheres grávidas.  Mas, mesmo assim, é factual que se vêem muitas famílias. No relvado, sob um calor que transgride as regras convencionadas da temperatura politicamente correcta, há várias famílias que se espraiam sob mantas ribatejanas (sim, mantas ribatejanas, das quentes), toalhas de praia, esteiras de campismo. Há geleiras daquelas azuis inconfundíveis, há cadeirinhas desdobráveis, há carrinhos de bebé.

 

À minha frente, alinhadas enquanto se aguardava o discurso de Jerónimo de Sousa, estavam três gerações. O homem de tronco nu, calções e ténis de caminhada teria quarenta e poucos anos. É um filho de Abril e do PREC. Do lado direito, tem um filho com não mais de 10 anos. Do lado esquerdo tem o pai, terá mais de 70 e menos de 80. A mulher (namorada?) está de pé, descalça, usa biquíni, lenço hippie no cabelo, calças largas, de padrão colorido, a lembrar as mil e uma noites. Estão em silêncio, estão juntos, e mesmo a criança de 10 anos mostra que compreende o ritual.

 

Mais atrás, outro filho de Abril não se verga ao calor nem ao cansaço com que o calor nos verga. De pé, quase sempre imóvel, bandeira em riste. Só o iremos ouvir, com voz de comando, quando o alinhamento o exigir. Sabe o seu papel. A luta continua.

 

Há muitos casais. Casais de novos, casais de velhos, casais de meia-idade. Muitos casais de mão dada – poucos casais de braço dado. Impressionaram-me sobretudo os mais velhos. Quase todos têm no olhar uma certeza qualquer. Estão juntos, continuam juntos, há qualquer coisa ali que lhes faz sentido e que os faz ter sentido.

 

Há um clima de festa. Desde que entras, até que sais. Boa festa, camarada. Correu tudo bem, camarada. Se estás cá, és do nossos. Se estás cá, sabes porque estamos cá.

 

Há menos selfies e mais fotografias. Há bastante menos selfies. Não são proibidas – em jeito do que Alice Cooper propõe caso fosse eleito presidente dos Estados unidos – mas não são tão procuradas. Nada que se pareça com o festival do outro lado do rio. Ou outro qualquer. Há mais fotografias e mais máquinas fotográficas. Impossível não pensar na conotação ideológica de uma e de outra, o indivíduo e o colectivo.

 

“Sometimes you win. Sometimes you learn” leio numa t-shirt. E é qualquer coisa como isso que anda no ar. Não vi gente zangada. Decerto que me cruzei com gente que traz em si alguma amargura, alguma desilusão – mas parece que deixaram tudo isso lá fora por três dias. Por três dias o comunismo é apenas uma ideologia do bem que traz a felicidade às pessoas. Por três dias, se assim se quiser, canta-se, come-se, bebe-se, contam-se histórias heróicas de quando os justos ou os corajosos ou os revolucionários venceram aqueles que ganham sempre. Por três dias.

“Não desistiremos. Este combate tem de ser vencido”, diz Jerónimo lá do palco. Os punhos erguem-se. A luta continua. (Usas o punho esquerdo ou o direito, pergunta uma garota de 16, talvez 18 anos, à amiga ali ao lado).

 

Por três dias há pessoas que dançam umas com as outras em qualquer parte. Ao ritmo hispânico, brasileiro, até do fado. Por três dias a carvalhesa parece fruto de uma qualquer poção mágica activada pelo som. Aos acordes da música, há um momento suspenso e depois é a festa-que-não-há-como-esta e a certeza que o sol brilhará para todos nós.

 

Regressar à Festa do Avante!, vinte anos depois, teve qualquer coisa de viagem no tempo. Há ali, simultaneamente, um tempo que parou e um tempo que nunca deixou de continuar. Duas coisas racionalmente contraditórias mas que coexistem. Ainda se diz URSS – mesmo na era da Rússia de Putin. Cuba é um ícone imaculado do comunismo – mesmo depois do desfile da Chanel. Ao mesmo tempo que a Venezuela continua a representar a luta do proletariado contra o grande capital e no espaço do Partido Comunista Espanhol jovens e menos jovens entoam, emocionadamente, hinos que lembram o massacre de operários.

 

No meu estatuto de observadora fiquei a pensar nos reformados, nos professores, nos funcionários públicos de forma geral que por ali andavam. Arrisco dizer que seriam em maior número do que agricultores, mineiros ou operários fabris. Grupos que podem encontrar amparo numa ideologia que desiste há demasiados anos de fazer revisões periódicas e reality checks. E que por isso corre o risco de se tornar irrelevante ou apenas uma festa que se faz durante três dias.

Hasta la victoria, siempre.

 

Tenham um bom fim-de-semana

 

Outras sugestões:

Não se trata propriamente de um lançamento, mas só agora cheguei até ao livro e ao artigo escrito pela Fortune sobre a experiência de um jornalista de 52 anos que foi contratado para trabalhar numa startup (e não é uma startup qualquer, trata-se da Hubspot, um nome bem conhecido nas áreas da tecnologia e do marketing. Dan Lyons escreveu o livro “Disrupted: My Misadventure in the Start-Up Bubble” e a Fortune publicou a sua história sob o título “My year in Startup Hell”. Nem tudo é um conto de fadas.

 

Aviso prévio: não é uma piada. Sobretudo porque o protagonista se leva muito a sério. E o protagonista é nada mais nada menos que Kim Jong Un, o mesmo que anda a fazer a terra tremer em testes nucleares. Qual é a novidade no reino de Kim? O sarcasmo foi banido. Aparentemente, na Coreia do Norte, algumas pessoas fazem comentários e dizem coisas doutrinadas pelo regime – como, por exemplo, é tudo culpa da América – mas não são sinceras. Estão a ser sarcásticas, imaginem só.

 

 

publicado às 18:23

Agora tu és um cavalo de corrida

Por: Rute Sousa Vasco

O que fica a saber do mundo, sobretudo em momentos de grande tensão, um leitor que lê informação nos sites e nas redes sociais? No conforto preguiçoso do seu sofá, ou no espaço higienizado do seu escritório, que informação é dada naquele fuso que se tornou obrigatório nas notícias – o “agora”? O que sabe, na realidade, o caríssimo leitor sobre o que se está a passar no interior de uma igreja no norte de França ou num restaurante, no sul da Alemanha?

 

 

Sabe o que lhe dizemos. Agora, dizemos que são dez feridos. Agora, dizemos que já há um morto. Daqui a um minuto, no próximo agora, dizemos que afinal são onze feridos. Depois dizemos que o morto é sírio e que terá sido abatido. Mais um agora, e afinal já se sabe que se suicidou. Dizemos que um padre foi morto por um mulçulmano. Dizemos que um miúdo matou outros dez, porque era muçulmano. Começou por ser turco, passou por alemão, agora parece que é iraniano e de extrema-direita. Afinal não, era só manipulação para dividir a opinião. Mais um agora e afinal há menos feridos. Melhorou. Mas afinal o padre foi degolado. Piorou.

 

 

É isto que se sabe. O que não se sabe é como hoje a informação se tornou, provavelmente, a área mais difícil e ao mesmo tempo mais fácil para se trabalhar. Tudo depende da perspectiva. É fácil publicar – fácil como nunca foi. É estranho o que significa hoje “publicar” – significa, em grande medida, seguir o que outros escrevem, nos seus sites, ou em redes sociais, onde no que respeita a primeiras notícias (ou últimas horas, como quiserem), o Twitter é rei. Quem é rei no Twitter? Depende. Há reis encartados pela reputação de anos, há oportunistas malévolos e há súbitas fontes de informação directas – como foi o caso da página de Twitter da polícia de Munique, na sexta-feira passada, que foi a referência de muitos jornalistas para seguir o tiroteio que teve lugar na cidade alemã.

 

 

Mas é mais difícil do que nunca trabalhar informação naquilo que distingue o jornalismo de um outro qualquer produto de consumo. Num negócio que luta por novas receitas e por novos modelos de negócio, tudo parece boa ideia a alguém em algum momento. Jornalistas, gestores, vendedores de publicidade, tecnólogos, gestores de redes sociais, por aí fora. E é legítimo – é preciso experimentar, é preciso testar, é preciso não desistir. O problema é que a linha que separa o que se pode fazer quando se trata de informação do que não se pode fazer é ténue para muitos, mas quase sempre está preparada para electrocutar. Uma vez passada, já alguém se fritou. E não tem problema – há muito lugar na selva dos media contemporâneos para produtos fritos, provavelmente até mais do que para o jornalismo saudável. Mas, é tal qual escrevia Katherine Viner, a directora do The Guardian, num artigo sobre a verdade nos tempos da tecnologia. “Nos últimos anos, muitas empresas jornalísticas afastaram-se do jornalismo de interesse público e apostaram em notícias junk-food, correndo atrás de pageviews e com a vã esperança de atrair cliques e publicidade (ou investimento) – mas, tal e qual como acontece quando comemos junk food, odiamo-nos por ter feito isso”.

 

 

Ser rápido tornou-se o requisito principal de uma profissão que tem como missão reunir factos e propor interpretações sobre os mesmos. Agora é suposto fazer isso em menos de 30 segundos, porque numa janela qualquer do nosso computador já outro editor em qualquer outro site ou rede está a ser mais rápido a teclar. Com erros inevitáveis, demasiadas vezes sem confirmação, cheios de verbos no condicional, aí vamos nós, em direcção ao precipício da publicação. Mas é preciso publicar, rápido.

 

 

Ao compasso impiedoso de cada tweet, de cada trending topic, de cada post, de cada link, de cada última hora.

 

 

E é também assim que estamos a deixar fermentar a selvajaria – a pior de todas, aquela que nos vai deixar selvagens perante a selvajaria do mundo lá fora.

 

 

Em muitas redacções, não se pensa, tecla-se. Quem quer discutir princípios e consequências, não tem perfil. Há métricas para avaliar quantos artigos são publicados ou produzidos – curiosamente o termo “escritos” quase caiu em desuso nesses espaços – por hora. Publica, publica, publica. O que conta é chegar primeiro e publicar muito. Não é um problema só nosso – é um problema da maior revolução de sempre na forma como comunicamos, informamos e nos relacionamos.

 

 

A New York Magazine entrevistou mais de quarenta jornalistas e profissionais de media sobre a sua profissão. Vale a pena ler os resultados integrais, mas deixo um pequeno aperitivo.

 

 

Dos inquiridos, 75% acham que a internet foi boa para o jornalismo. Mas 44% respondem que o jornalismo é hoje pior do que há dez anos versus 36,7% que consideram que está melhor. 75,2% afirmam que sentem pressão para produzir histórias que sejam atractivas para a audiência. E de onde sentem a principal pressão? Da audiência? Não. Do patrão (41,07%) e aquela que o próprio jornalista exerce sobre si próprio (36,5%). Audiência só conta 17,8% nesta equação.

 

 

Já agora, 81,5% destes inquiridos dizem que os media ajudaram a “criar” Donald Trump.

 

 

E é aqui que me lembro de uma pergunta que há sempre alguém que faz. Qual é o mal? Apetece-me hibernar cada vez que ouço esta pergunta. Não pela sinceridade e mesmo ingenuidade com que alguns a farão. Mas, mais uma vez, pela inconsequência. Qual é o mal de não ter mal perguntar sempre qual é o mal? É que nada tem importância, porque tudo só dura uns escassos minutos e depois ninguém se lembra. São Dorys, o peixinho de águas quentes, feliz porque desmemoriado.

 

 

Tenham um bom fim de semana

 

 

 

Outras sugestões de leitura:

 

 

Hoje as sugestões de leitura de ficam integralmente em casa, ou seja, no SAPO24. Porque a oferta é boa e vale a pena o vosso tempo.

 

 

A primeira sugestão é um artigo da Helena Oliveira sobre uma nova epidemia, a do narcisismo. Qual Narciso, há cada vez mais pessoas apaixonadas pelo seu próprio reflexo e assim se multiplicam posts, fotos, streaming da vida diária. Psicólogos, filósofos e outros cientistas sociais estão preocupados com uma epidemia que cresce mais depressa que a da obesidade.

 

 

A segunda gestão, na semana em que Hillary Clinton se tornou a primeira mulher candidata à presidencia americana por um dos grandes partidos, é a leitura do artigo do José Couto Nogueira sobre as mulheres que antes dela tentaram lá chegar

 

publicado às 14:41

Um dia a Europa foi assim

Por: Rute Sousa Vasco

 

Aconteceram várias coisas naquele ano. O FC Porto foi campeão da Europa de futebol pela primeira vez. O Nelson Piquet foi tricampeão na Fórmula 1. A 24 de Junho, exactamente no dia que hoje se assinala, nasceu Lionel Messi. Também foi o ano em que Carlos Drummond de Andrade nos deixou. E, segundo a ONU, esse foi também o ano internacional dos desabrigados ou sem-abrigo, como preferirem.

 

A British Airways foi privatizada e os U2 lançaram The Joshua Tree. O então presidente da Disney, Michael Eisner, e o que seria o futuro presidente de França, Jacques Chirac, assinaram o acordo para a construção da Disneyland em Paris. Em Inglaterra, a primeira-ministra chamava-se Margaret Thatcher e, a 31 de março desse ano, deu uma entrevista de 45 minutos à televisão soviética.

 

Foi o ano em que Portugal assinou com a China o acordo para a entrega de Macau. Os Simpsons apareceram pela primeira vez como pequena animação num programa de televisão chamado The Tracey Ullman Show.

 

E um miúdo com 18 anos, Mathias Rust, piloto na força áerea da República Federal da Alemanha conseguiu furar o espaço aéreo soviético e aterrar um avião na Praça Vermelha, em Moscovo. Foi preso. Uns dias depois, Ronald Reagan que era presidente dos Estados Unidos, numa visita a Berlim desafiou Mikhail Gorbatchev, que era presidente da União Soviética, a derrubar o muro de Berlim, que era um muro que dividia as duas Europas, ocidental e de leste, desde os anos 60.

 

O Acto Único Europeu foi aprovado pela Comunidade Europeia.

Existiam cinco mil milhões de pessoas no mundo (hoje somos sete mil milhões).

Os Pink Floyd, sem Roger Waters, lançaram o álbum “A momentary lapse of reason”.

 

Os meus amigos geeks talvez não saibam, mas foi também o ano em que Larry Wall criou a linguagem de programação Perl.

E no cinema, o Oscar desse ano foi para o filme Platoon – Os bravos do pelotão. Paul Newman ganhou o óscar de melhor actor com o filme The Color of Money e Michael Caine o de melhor actor secundário, tal como Dianne Wiest, em Ana e suas irmãs, de Woody Allen.

 

Este foi o mundo que me foi apresentado em 1987, quando estava a entrar na idade adulta. Tinha coisas erradas. A Thatcher mandava em Inglaterra, o Reagan nos Estados Unidos e havia um homenzinho chamado Ceausescu na Roménia onde aconteciam atrocidades que viríamos a descobrir poucos anos depois. Mas para quem estava a terminar o liceu, havia no ar algo que nos dizia que as coisas iam ficar melhores. Que os bons iam ganhar. Que tínhamos uma grande aventura pela frente.

 

Passaram-se quase 30 anos. E hoje sei que, de alguma forma, estamos a assistir a qualquer coisa de importante para a história dos próximos 30 anos.

 

De forma egoísta e conservadora, desejei que a resposta britânica fosse “ficar” em vez de “sair”. Para que o mundo que é apresentado aos meus filhos que agora chegam à idade adulta fosse mais parecido do que diferente. Para que soubéssemos com o que contávamos (mesmo que não gostássemos disso há muito tempo) e para contarmos com algum contraponto ao eixo-central europeu (Alemanha com França a reboque). Para ‘dar um tempo’ à relação.

 

A verdade é que há muito tempo que não se sente que os bons vão ganhar e que qualquer coisa boa está para acontecer. Vivemos de medo em medo na Europa. Os fantasmas que estávamos a querer expulsar em 1987 regressaram todos, ou quase todos. É uma Europa que não hesita em humilhar os mais fracos, em vergar-se aos mais fortes, sem que se descortine o espírito europeu no discurso sem alma dos tecnocratas de Bruxelas.

 

É também uma Europa que faz justiça à sabedoria popular que diz que quem com ferro mata, com ferro morre. Ainda se lembram do que muitos disseram aquando do referendo na Grécia, há dois anos? Querem democracia? Paguem. Porque, no fim do dia, o projecto europeu é uma grande caixa registadora.

Os gregos não podiam pagar -  os ingleses podem. Vão dizer o quê agora?

 

Boris Johnson e Nigel Farage, dois dos rostos da campanha pelo Brexit, estão longe de ser os Robins dos Bosques da Europa. Pelo contrário.

 

E o apoio "desinteressado" de Putin, Trump e Marine Le Pen ao Brexit mostram, claramente, que uma Europa sem Reino Unido não é uma melhor Europa.

 

Mas às vezes as coisas certas acontecem ou são precipitadas da maneira errada. Escrevo isto e tremo por todas as memórias da história comum europeia, por todas as vezes em que nada disto foi verdade. Depois houve esta ou aquela excepção em que isso pode ter acontecido. Escrevo isto e lembro-me de uma frase do romance "Pai Nosso" da Clara Ferreira Alves em que somos advertidos a prestar atenção a todas as coisas que acontecem pela primeira vez.

 

Ainda assim. 

O Brexit, em si mesmo, pode não ser uma coisa má – é sim garantidamente o início de algo que não sabemos o que vai ser.

É garantidamente o sinal desesperado, porque todos os outros já existiram, de que precisamos de uma nova Europa.

 

(P.S. – E, na política mais caseirinha, para quem duvidava que António Costa era um homem de sorte, as teimas estão tiradas.)

 

Tenham um bom fim de semana

 

 

Outras sugestões:

 

Este foi um texto escrito pelo Pedro Santos Guerreiro no Expresso, um dia antes do jogo Portugal – Hungria, um dia antes do microfonegate. Um dia antes de um jogo de sofrimento e, de alguma forma, redenção. Porque amanhã, mesmo com Brexit, o Euro2016 continua, aqui fica como recomendação de leitura porque vale a pena.

 

E agora, Espanha. No domingo, realizam-se as eleições que – provavelmente – irão indicar quem ficará à frente dos destinos do país. Num tempo que grande turbulência europeia, são ainda mais importantes. Aqui  é um bom sítio para seguir o que se vai passar no país ao lado.

 

 

 

 

 

publicado às 12:03

Acredite se vir no Facebook. Ou se calhar, não

Por: Rute Sousa Vasco

 

Os adolescentes são a verdadeira medida do mundo nos dias que correm. Andam (alguns) adultos tão distraídos que lhes escapam os verdadeiros fenómenos contemporâneos. É possível que estes adultos não saibam quem é Candace Payne e isso só prova que estão mesmo distraídos.

 

O que os salva da total alienação é que, provavelmente, têm filhos, sobrinhos, afilhados ou filhos de amigos que são adolescentes. Eu sou salva diariamente pelos meus adolescentes. É por causa deles que sei coisas como, por exemplo, quem é Candace Payne. Mesmo que tenha demonstrado um desinteresse olímpico pelo tema e até alguma irritação pela sonoridade prolongada que lhe está associada. Claro que tudo isto durou apenas meia dúzia de horas até perceber que aquilo que me tinha sido mostrado através de uma rede social qualquer, era agora tema de notícias. E ainda muito antes de saber que Candace Payne se tornaria uma celebridade instantânea e que por causa de um vídeo de quatro minutos visto por quase 150 milhões de pessoas estaria no The Late Late Show de James Corden e seria apresentada a J.J Abrams e Mark Zuckerberg.

 

Para outros distraídos que ainda não sabem quem é Candace Payne, a história conta-se em poucas linhas. Candice é uma americana de 37 anos que decidiu comprar uma máscara do Chewbacca, o companheiro de Han Solo na Guerra das Estrelas, e experimentá-la no carro. Transmitiu essa “pequena alegria da vida”, como lhe chamou, para a sua rede de Facebook através do botão de “live” e as suas gargalhadas contagiaram pessoas em todo o mundo. O video tornou-se o live mais visto de sempre e Candice entrou nos trending topics da semana.

 

Há nesta nova ordem do mundo uma democratização que a torna, de alguma forma, justa mesmo que parva. Muitos dos conteúdos ‘virais’ são só parvos. Mas são vistos e partilhados por milhões de pessoas que os escolheram, recomendaram e elevaram à categoria de trending topic. Goste-se ou não, isto é democrático. Goste-se ou não, isto fura com o status quo dos suspeitos do costume, aquela meia dúzia que está sempre citada nas notícias, porque desde os tempos imemoriais prevalece entre (alguns) jornalistas o sentido de missão de, dia após dia, relatar que essas pessoas disseram coisas. É o chamado jornalismo do ‘disse que’ em detrimento do jornalismo do ‘fez o quê’.

 

Mas o video de Candice não é uma notícia. É outra coisa qualquer e conseguiu muito mais atenção do que as notícias, em média, conseguem. E essa alocação do nosso tempo disponível é que é um fenómeno que merece a nossa atenção. Numa conferência a que assisti recentemente, a Interact 2016, um dos oradores referiu que o tempo de atenção médio que hoje dedicamos a qualquer coisa que mexa online passou de 12 para 8 segundos. Estamos passos largos a caminho de sermos o peixinho vermelho no aquário redondo.

 

E, na selecção que fazemos, conta cada vez mais o poder da recomendação. As recomendações são uma indústria. Desenvolvem-se algoritmos nas mais diversas esferas para gerar recomendações, sugestões, listar mais populares, etc. Da precursora Amazon ao mais-querido do momento Netflix, este é um dos segredos do sucesso.

 

E, claro, há o Facebook. Essa rede de 1.6 mil milhões de utilizadores que se está a tornar, dia após dia, o editor de notícias favorito. Só que, na realidade, o Facebook não edita, tal como não escreve ou não produz conteúdo no sentido efectivo do tema. O Facebook escolhe, mediante critérios ou parâmetros que os seus engenheiros definem tendo como principal matéria-prima dados dos seus utilizadores, o que lêem, o que partilham, o que publicam. Esta é a parte benigna do processo – tão democrática, vista desta forma, como a possibilidade de Candice Payne se tornar uma celebridade do dia para a noite por causa de um vídeo com uma máscara do Chewbacca.

 

A parte mais obscura é aquela sobre a qual apenas podemos especular, porque certezas absolutas ninguém tem. O site Gizmodo trouxe essa discussão para a primeira linha de debate ao publicar acusações segundo as quais o Facebook omitia artigos com pontos de vista conservadores na sua seleção de histórias mais populares. Mark Zuckerberg percebeu que o assunto era sério e não perdeu tempo. Anunciou uma investigação interna, reuniu com os políticos da ala conservadora nos Estados Unidos e dias depois veio dizer que, mesmo sem qualquer sinal de enviesamento na selecção das notícias, o Facebook iria fazer mudanças para garantir a objectividade política.

 

Tudo isto mostra que o tema é sensível, sobretudo em ano de eleições nos Estados Unidos, sobretudo porque mexe com pessoas com poder de fogo. Mas, na realidade, todos os dias milhões de pessoas deixam-se editar pelas suas redes. Cada vez mais, vemos aquilo que os nossos amigos ou conhecidos nos mostram que estão a ver. Ou, sendo mais precisa, aquilo que as pessoas que gerem redes sociais dizem às máquinas para nos mostrar a partir do que os nossos amigos e conhecidos vêem.

 

Com uma particularidade deliciosa. Quando alguma coisa corre mal pode sempre dizer-se que a culpa é da máquina. Que é preciso ajustar o algoritmo. Esta é a desculpa que faz as delícias dos supremos manipuladores. Poder condicionar a opinião sem assumir qualquer responsabilidade na escolha, sem jornalistas a questionar orientações, sem editores a validarem informação. As acusações veiculadas no Gizmodo tiveram como fonte ex-colaboradores do Facebook, nomeadamente jornalistas ou “news curators”, que é uma forma moderna e, aparentemente, um termo de maior empregabilidade para designar editores.

 

Claro que os problemas tinham de vir daí. Os problemas vêm sempre das pessoas e, sobretudo, pessoas que trabalham com matéria tão sensível quanto a informação. Mas, mesmo que a maior parte da nação Facebook não se aperceba, o que a rede social se quer tornar é num gigantesco portal de notícias e de e-commerce. O maior, o mais influente, à escala global. E para servir notícias não basta apenas mastigar os dados da rede de cada um de nós. É preciso ter pessoas a seleccionar informação, a hierarquizar temas, a avaliar credibilidade de fontes. Deixem lá ver… a fazer jornalismo, mesmo que em modo menos convencional. Porque a alternativa é ter uma lista de “notícias” com muitos Chewbaccas e, infelizmente, para todos os que produzem informação, o Chewbacca até é um rei na selva de parvoíce que os indicadores de mais populares mostram em muitos sites.

 

As máquinas estão a ser ensinadas e estão a ficar melhores a cada dia.

 

As máquinas, tal como o Chewbacca, não têm culpa.

 

Só precisamos de não nos esquecer que, por trás das máquinas, estão homens e esperar que haja por aí uns quantos Han Solos quando os impérios contra-atacam.

 

Tenham um bom fim de semana

 

Outras sugestões de leitura

 

Já que estamos em modo redes sociais, fica aqui uma sugestão de leitura sobre o direito à privacidade assinado pelo Pedro Fonseca.

 

O Márcio Candoso escreveu esta semana sobre touros e óperas e o local onde ambos convergem. Se estão a pensar que nada os liga, leiam a história e vão perceber que não é bem assim.

 

E para rematar, uma daquelas histórias que nos faz sorrir e que já deve ser um trending topic. Sobre uns óculos esquecidos que se transformaram, também eles, numa celebridade. Ou, neste caso, numa obra de arte.

publicado às 11:26

Angola não é nossa e a banca nunca foi

Por: Rute Sousa Vasco

 

A memória dos 500 anos de colonização portuguesa é preciosa numa semana em que João Salgueiro comparou a actual situação da banca em Portugal às ex-colónias. João Salgueiro, 81 anos, além de um economista reputado, foi Ministro de Estado e das Finanças, vice-governador do Banco de Portugal e presidente da Associação Portuguesa de Bancos. Ou seja, desempenhou papéis nas principais instituições que se relacionam com a banca, além de também ter trabalhado em bancos.

 

 

Hoje é o representante de um grupo de economistas, gestores e promotores do manifesto "Reconfiguração da Banca em Portugal - Desafios e Linhas Vermelhas", documento - ou manifesto, como já foi chamado - que o levou a uma audiência com o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. E foi à saída dessa audiência que João Salgueiro considerou a situação de urgência da banca portuguesa semelhante à que Portugal viveu com as ex-colónias: "Podemos imaginar vários tipos de problemas que existem [na banca] que têm de ser resolvidos a tempo. É uma situação muito semelhante à da descolonização. Se não se encontram as soluções a tempo, vamos pagar o custo durante décadas".

 

Isto acontece na mesma semana em que a Assembleia da República foi palco de mais uma sessão sobre como é que mais um banco, neste caso o Banif, se tornou um problema de 10 milhões de portugueses.

 

E a mesma semana em que foi finalmente agendada para o dia 24 de Maio, as alegações finais do julgamento do processo principal do caso Banco Português de Negócios (BPN). Um julgamento que começou há cinco anos e cinco meses (15 de Dezembro de 2010) e em que se realizaram 401 dias de sessões. Foram ouvidas 170 pessoas, entre as quais 77 testemunhas de acusação, 79 testemunhas de defesa e 35 testemunhas abonatórias. São 15 arguidos.

 

Desde que o BPN implodiu, passaram-se oito anos.

 

Foi também a semana em que foram comunicados os resultados trimestrais do banco de todos nós, a Caixa Geral de Depósitos. Teve um prejuízo de 74,2 milhões de euros e precisa – também com urgência, como tudo o que se passa actualmente com a banca – de um aumento de capital. Estimava-se que fossem necessários dois mil milhões – agora já se considera que poderá ser o dobro.

 

As contas com a banca são, em regra, assim – excelentes níveis de previsibilidade e sem grandes desvios.

 

Para quem ainda não percebeu do que é que João Salgueiro, e seus pares, estão a falar quando assinam manifestos e comparam a crise da banca ao desfecho que Portugal deu à sua presença de 500 anos em África, vale a pena ler Nuno Amado. O presidente do BCP assumiu ontem que o banco que lidera pretende ser “o” banco privado português a sobreviver à concentração no sector. Disse Amado: “É provável que em Portugal passe a existir, a curto prazo, um banco público – a Caixa Geral de Depósitos – e um banco privado, que eu espero que seja o BCP”. Mas disse mais coisas: “Estamos cientes de que os clientes mudaram, que a procura do crédito baixou e que as opções pelo digital são crescentes (…)”. Tudo isto num cenário em que existem 120 bancos sob supervisão do BCE e quatro deles são bem conhecidos e só os “nossos” maiores bancos: CGD, BCP, Novo Banco e BPI.

 

Sobre o papel da banca na economia já muito se escreveu. Está nos livros de economia e, na realidade, só mesmo aí se trata de um papel perfeito. Na vida real é tão imperfeito quanto a natureza humana e quanto os homens e mulheres concretos que os gerem. Podemos pensar, simplesmente, que Portugal tem tido um enorme azar com os “banqueiros” que nos calham. Como já aqui escrevi, não acredito que seja disso que se trata. Não são melhores ou piores que outros banqueiros noutros locais da Europa e do mundo. Quanto muito vivem numa sociedade com mais vícios, maiores reverências e clientelismos do que outras, porventura, mais transparentes. E isso sim faz alguma diferença.

 

Mas o problema real é o da banca e o da circulação do dinheiro na economia na era da Uber ou do Airbnb ou de outro novo player num mercado que todos os dias se redesenha. E o mercado do dinheiro não é excepção nesta era da desmaterialização e da democratização do acesso a mercados e negócios.

 

O pensamento convencional sobre estes temas converge para preocupações de soberania – as mais elevadas – e de privilégios – as mais corriqueiras. Haver menos bancos em Portugal significa menos poder e menos poderes. Menos administradores, menos ‘clusters’ de agências, escritórios de advogados, consultores alocados a cada um destes ditos ‘centros de decisão’.

 

Certamente é um problema que tira o sono a muitos, nomeadamente aos visados, mas, para a esmagadora maioria dos portugueses, a vida continua igual. Não se passa nada agora, porque também não se passou nada antes. A esmagadora maioria dos portugueses não tem qualquer sentimento de profunda gratidão ou saudosismo com aqueles bons tempos em que os bancos eram nossos amigos, nos ajudavam a construir um negócio ou simplesmente a começar a nossa casa de família. Porque simplesmente nada disto foi verdade para a maioria dos portugueses, apenas foi verdade para aquela minoria amiga de banqueiros, colega de partido e de negócios . Aquelas belas amizades que permitiram financiar grupos falidos e sessões em hóteis de luxo e espaços emblemáticos (ainda se lembram do Compromisso Portugal?).

 

É por todas estas razões e ainda mais algumas que aqui não cabem que é infeliz comparar a banca com as ex-colónias.

 

Não fomos os melhores colonizadores nem descolonizadores mas deixámos laços. Ou como diz o nosso presidente, afectos. Angola não é nossa, mas lá, como em Moçambique, Timor ou outras geografias em que portugueses se cruzaram com outros povos, ficou uma história comum, uma língua comum e vidas entrelaçadas.

 

Portugal veio embora de África tarde, a más horas e com uma consciência de culpa que, mais de 40 anos depois, ainda não está sanada.

 

A banca foi-se embora de Portugal sem remorso e deixou uma conta pesada.

 

Tenham um bom fim de semana

 

 

Outras leituras:

 

Há quatro anos assisti em casa a um excerto de um concerto extraordinário de um senhor que foi dos primeiros músicos que ouvi ao vivo. Se ontem não foram ouvir Bruce Springsteen, é quase uma maldade sugerir que leiam o que perderam. Mas ontem eu fui e este artigo do Público é um retrato muito fiel do que por lá se passou.

 

Ainda sobre a América, fica esta sugestão: As sondagens preferem Sanders, mas a luta é entre os "desonestos" Trump e Clinton. Acho que não é preciso dizer mais nada. 

 

"Morley foi um dos mais importantes jornalistas de qualquer meio, de sempre". Foi assim que o patrão da CBS se referiu à “voz” do 60 Minutes, que esta semana morreu aos 84 anos, poucos dias depois de se ter reformado. "Ele era também um cavalheiro, estudioso, um grande contador de histórias …".

publicado às 15:12

Leicester é uma lição. Sobre egos a mais e a menos

 

Por: Rute Sousa Vasco 

 

O futebol é feito de mitos e de heróis, não necessariamente por esta ordem. Também é verdade noutros desportos, seja no SuperBowl, na fórmula 1 ou no ténis, mas a popularidade do futebol faz com que o poder de uma boa história seja elevado à máxima potência. E na grande história dos mitos e heróis do futebol, o Leicester é, perdoem a informalidade, um capítulo do caraças. Tem todos os ingredientes: um não-herói (a equipa), um falhado (Ranieri) e todo o favoritismo dos grandes (Chelsea, Manchester United, Manchester City, Arsenal).

 

 

E como se tudo isto não fosse suficiente, ainda conseguiu provocar um dos maiores rombos de sempre nas casas de apostas. Há dez meses era canja para as casas de apostas propor 5000 contra 1 na possibilidade de o Leicester ser campeão e, já agora, do seu treinador, Claudio Ranieri ser dos primeiros a ser despedidos na Liga inglesa. O Leicester foi campeão, Ranieri é agora o “Thinkerman” e tudo isto custou cerca de 15 milhões de dólares às casas de apostas. (só para efeitos comparativos, é de registar que as apostas nas possibilidades do Leicester ser campeão ombreavam, a significativa distância, com as apostas sobre a possibilidade de Bono, vocalista dos U2, ser o próximo Papa ou Kim Kardashian tornar-se presidente dos Estados Unidos, em que se pagava, respectivamente, 1000/1 e 2000/1).

 

O milagre, como lhe chamaram muitos, teve o seu desfecho na 2ª feira, no preciso minuto em que terminou o jogo entre o Chelsea e o Tottenham. Um empate que retirou ao Tottenham a hipótese que ainda lhe restava de adiar o título do Leicester mais uma jornada. Mas isto são os factos. O que realmente torna esta história elegível daqui para a frente como case study para livros sobre superação e liderança, documentários apaixonados para os amantes de futebol e palestras de motivação é, como sempre será, a matéria humana.

 

Muito se escreveu nas últimas semanas sobre Claudio Ranieri. Depois da vitória, multiplicaram-se as referências. No Twitter, vimos inclusive o treinador do Leicester como “The Godfather” ilustrado com a emblemática frase: “Great men are not born great, they grow great - Don Claudio Ranieri”.

Ranieri foi, até ao passado fim de semana, o homem que nunca tinha sido campeão nacional, apesar de ter estado na liderança de tantas e boas equipas. Leicester não era sequer a primeira equipa inglesa que treinava e com a anterior as casas de apostas tinham certamente demonstrado maior confiança, já que era o reputado Chelsea. Mas Ranieri falhou esses campeonatos todos. Com o Chelsea, como com o Atlético de Madrid, como com a Juventus, como com o Monaco e mais alguns. Chegou ao Leicester depois de ter sido despedido de selecionador da Grécia na sequência do não apuramento dos gregos para o Euro2016.

 

O que aconteceu então em Leicester e que torna a história ainda mais extraodinária? A forma mais convincente como o vi explicado foi no artigo escrito pelo Pedro Candeias, no Expresso de sábado passado, dois dias antes de Ranieri se tornar campeão. Intitulado “O homem a quem aconteceu não sei o quê”, o artigo citava Stan Collymore, ex-jogador e agora comentador, que falava sobre o “problema de Ranieri” até chegar ao Leicester: “Ele era ótimo com os miúdos, mas não tinha jeito para os egos.”

 

Não é nada difícil passar este exemplo do balneário para as empresas ou para qualquer ambiente que exija liderança de equipas. E é muito tentador, sobretudo neste clima de excitação em torno de um tomba-gigantes, fazer apenas o elogio dos second-best, dos jogadores anónimos em qualquer equipa, versus as rock stars ou, se quisermos, os tipos verdadeiramente extraordinários (que não são, forçosamente, nas organizações os que assumem a pose de rock star).

Mas, apesar da enorme simpatia que esta história me desperta, tenho as maiores reservas que as suas lições de liderança sejam lineares como parecem. Pelo contrário, tendo a achar que a história-de-encantar do Leicester encerra, na realidade, verdades aparentemente opostas, mas só aparentemente.

 

É verdade que num ambiente de baixas expectativas, sem confronto com egos poderosos, o desafio da superação é bem mais convincente. Tudo a favor (coisa que as casas de apostas não perceberam). Se quisermos, essa é também uma das razões porque tantas pessoas hoje preferem sair de grandes empresas e iniciar o seu próprio negócio ou projecto profissional, sem confrontos diários com os egos corporativos ou as hierarquias à moda antiga que ainda subsistem. É uma boa razão para quem sai e uma má razão para quem fica.

Mas, liderar uma equipa de underdogs – de não-favoritos - por si só não faz de Ranieri um líder carismático, como agora provavelmente muitos verão, mesmo que dê imenso jeito para colorir ainda mais uma história que é, efectivamente, arrebatadora. No fim do dia, ganha-se e perde-se por causa das pessoas. E é óbvio que um grande jogador que não tem sentido de equipa, serve de pouco ou nada e provavelmente até prejudica. É igualmente verdade que qualquer pessoa prefere não ter de lidar com egos gigantescos, ainda por cima quando alguns são só mesmo ego e nada mais. É um desafio para treinadores como para CEOs, como para um chefe-cirurgião ou um professor na sala de aula. Líder, que é uma palavra de que não gosto especialmente, é alguém capaz de unir várias pessoas em torno de um objetivo comum. E um líder que só se consegue afirmar se não tiver de conviver e liderar outros tão bons ou melhores que ele dificilmente será grande.

 

Gosto muito da filosofia – foi assim que ele lhe chamou – de Ranieri no que respeita a não se intimidar com rock stars. ("All the time I said to my players I don't care about the name on the badge or the name of the opponents”.] É um excelente princípio para enfrentar adversários. E pode ser uma excelente maneira de lidar com as “estrelas” de qualquer balneário. Mas, nesta semana,Ranieri também repetiu e insistiu que não quer ‘big names’ no Leicester. E isso já me desencanta porque no futebol como em qualquer outra coisa faz falta e dá um gozo enorme ver os Cristianos Ronaldos que por aí andam.

 

Nas empresas portuguesas, a quem é apontado sistematicamente um défice de gestão, o caso Ranieri podia ser um bom pretexto para discutir como se motivam pessoas, sejam elas underdogs, rock stars ou simplesmente medianas. E como se faz com que todas juntas resultem efectivamente numa equipa. Se conseguíssemos mais vezes que isto acontecesse, provavelmente a vida das empresas corria melhor. Provavelmente, a vida do país corria melhor. Mas, suspeito, que tal como provavelmente aconteceu a Ranieri, muitas vezes não se ganham campeonatos apenas por problemas de egos. De quem lidera, sobretudo.

 

Não termino sem a lição mais óbvia que o caso Ranieri poderá deixar e que provavelmente mais falta faz a quem por ela procura. Ranieri foi o homem que nunca foi campeão com grandes equipas e que acabou campeão à frente de uma equipa pequena. Nunca saberemos se não aconteceu mais cedo por falta de capacidade ou mera infelicidade, mas sabemos que chegou o dia em que, com as pessoas certas e no momento certo, a vitória lhe sorriu. E isso, seja como for, será sempre uma inspiração para todas as vezes que se tenta e se falha.

 

Tenham um bom fim de semana!

 

Outras sugestões:

 

O Netflix estreou ontem a sua primeira produção europeia. "Marseille", conta com Gérard Depardieu e Benoît Magimel e não quer ser o novo "House of Cards", mas sim outra coisa. Vamos ver o quê.

 

 

E Marselha foi sempre uma terra de segundas oportunidades, escreve a BBC ao contar esta história de uma sinagoga que está a ser vendida a uma organização muçulmana que aí pretende fazer uma mesquita. Vale a pena ler.

 

 

Este artigo teve uma 2ª edição às 14h30 para inserir link do The Telegraph com informação mais detalhada sobre as apostas referentes às possibilidades de o Leicester ganhar o campeonato inglês.

publicado às 11:48

Vamos pôr Portugal no sítio

Por: Rute Sousa Vasco

 

Um dos argumentos que sempre me tirou do sério naqueles tempos em discutíamos a troika e que Portugal não era a Grécia residia, precisamente, na certeza acintosa e moralista com que esta frase era dita. Portugal não era a Grécia, porque a Grécia estava (e está) cheia de gregos e os gregos são aquele povo que inventou subsídios para cabeleireiras e alojou nas suas ilhas a maior perfídia fiscal. E tudo isto sem o requinte de um Luxemburgo ou de outras criações da Europa que não são a Grécia.

 

A frase “Portugal não é a Grécia” encerrava todo um conjunto de convicções que alguns portugueses têm sobre o nosso imenso Portugal. E que vão além da convicção linear de que se os gregos pediram dinheiro emprestado e não fizeram bem as contas, só têm é que pagar o que devem. Qualquer outra derivada, nomeadamente sobre os respeitáveis políticos europeus que desenharam, em parceria com os desonestos políticos gregos, os extraordinários planos que garantiram à Grécia uma ruína social e económica, não interessava para nada. Este tipo de análise vem das mesmas cabeças bem pensantes, cordatas e sempre em linha com os poderes dominantes que durante anos também não viram qualquer sinal de alarme nos negócios do BES ou tão pouco na expansão galopante da Ongoing. Enquanto se ostenta o ceptro, tudo está bem – porque se vive bem nessa doce harmonia das certezas inabaláveis.

 

Mas o que interessa isso agora neste tempo novo em que falar de troika e da Grécia é tão 2012? Tudo isto vem de repente à memória na semana em que o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) consegue “pôr o Sequeira no sítio”, em que taxistas declaram nova guerra à Uber e em que se assinalou o 42º aniversário do 25 de abril.

 

Começando pelo 25 de abril. É um facto que a data não passa bem na garganta de uma certa direita. É um facto que é celebrada em regime de monopólio por uma certa esquerda. Descontando os desagravos pessoais, que é impossível não existirem numa História ainda tão recente, a diferença em qualquer uma das alas chama-se cultura política e cívica. Não se obtém com o grau académico nem por pertencer a uma casta. Cultiva-se ouvindo os outros, criando o hábito de discutir ideias e, em virtude destas duas premissas, acaba-se por ser menos binário e mais efectivamente interessado no país. E o país precisa de ter mais destas pessoas e menos do grupo histriónico, que vive de certezas inabaláveis e que sabe sempre o que vai dizer na segunda-feira.

 

Passando para a batalha entre taxistas versus Uber (mais uma). O mérito – e o dilema – da discussão está no raio deste mundo virado do avesso em que todos vivemos e onde todos procuramos reencontrar o nosso lugar. Não é um problema de taxistas – é de taxistas, de fotógrafos, de hoteleiros, de designers, de jornalistas, como provavelmente um dia destes será de outras profissões que se têm mantido a salvo da grande onda que tudo abala. Aquilo que é um problema de taxistas é a forma como este grupo confronta Portugal com a sua aspiração e a sua realidade. Aspiramos a ser um povo de pessoas educadas, honestas, inovadoras e bem-sucedidas. Não toleramos pensar que possamos ser malcriados, desonestos, preconceituosos e sempre a contar os tostões. Não somos taxistas, como também não éramos gregos.

 

Mas, esperem lá, quem são (também) os taxistas? São reformados, são desempregados, são algumas pessoas sem outra qualificação que não seja conduzir um carro. Ganham pouco, arriscam bastante, têm muitas contrariedades e poucas expectativas. Soa-vos familiar a Portugal? Nasce daí uma raiva contra esse Portugal que não queremos ser. Um Portugal herdado, um Portugal com um passado mal resolvido e logo agora que somos modernos, estamos na crista da onda do turismo e do empreendedorismo. Somos livres, não voltaremos atrás – não era assim que trauteava a música da gaivota em pleno PREC?

 

E chegamos assim a Domingos Sequeira e à (brilhante) campanha do MNAA em parceria com o Público, a Fuel, a RTP e a Fundação Millennium BCP intitulada Vamos Pôr o Sequeira no Lugar Certo. Uma campanha que angariou, através de um crowdfunding bem comunicado, 600 mil euros para que o museu possa adquirir o quadro A Adoração dos Magos e assim ter aquela que é tida como a obra-prima do pintor.

 

Não será injustiça dizer que a esmagadora maioria dos portugueses não fazia ideia de quem foi Domingos Sequeira e, por inerência, da importância da obra em causa. O que fez com esta iniciativa fosse interessante por várias razões. Por um lado, trata-se de uma obra do século XIX, o que já permite que se fale de património e de História, deixando a esquerda/direita orfã de uma das suas discussões favoritas (deve ou não o Estado apoiar a cultura). Por outro lado, mediante a inteligência do MNAA e dos seus parceiros, a comunicação foi de tal forma envolvente e cativante que conquistou pessoas fora da franja da elite cultural que naturalmente seria a base de apoio – ou seja, democratizou a arte que é a única forma, efectiva, de a tornar património de todos. Pode parecer um movimento óbvio – só que não é. E, muitas vezes, porque essa franja ou elite cultural quer preservar o seu status quo, tornando a arte uma espécie de santo cálice impossível de alcançar pela plebe.

 

No balanço final, de acordo com os dados comunicados, participaram 15 mil cidadãos e 172 instituições, entre as quais escolas, associações, fundações e algumas, mas não muitas, empresas. Entre as grandes instituições, destacou-se uma: a Fundação Aga Khan com uma contribuição de 200 mil euros.

 

Pessoas, juntas de freguesia, alunos de escolas. Se calhar um, dois taxistas. Este foi, em boa medida, o Portugal que se mobilizou para por o Sequeira no sítio. Pobre Sequeira, que passou uma vida à procura de reconhecimento e que encontrou, brevemente, com os liberais de 1820 algum do conforto que tantas vezes lhe escapara. Quase 200 anos depois, não é o liberalismo que o traz ao sítio, no Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa. Esse liberalismo à americana ou inglesa em que quem mais ganha, devolve à sociedade, não está na mesma prateleira do liberalismo que conhecemos por cá.

 

Na realidade, quando se defendeu que Portugal não é a Grécia talvez se quisesse defender que Portugal não é Portugal. E isso até tem um lado bonito. É aquele lado em que não nos deixamos encaixar em generalizações, nos esquecemos de ser de esquerda ou de direita, taxista ou empreendedor Uber, e fazemos simplesmente o que achamos estar certo.

 

Isto do 25 de abril já não ser a justa medida para todas as clivagens sociais é muito aborrecido. A vida era bem mais fácil antes.

 

Tenham um bom fim de semana

 

Outras sugestões

 

Ricky Gervais em versão Netflix e com uma história mesmo à sua medida (não fosse ele autor e realizador além de protagonista). Fica uma frase para abrir o apetite: "As pessoas preferem ser famosas por serem idiotas do que não serem conhecidas de todo".

 

Os números do Facebook estão para o mercado dos media como as eleições americanas para o mundo: são bem mais que apenas os resultados de uma empresa. E o facto é que continuam a mostrar um negócio muito saudável. No primeiro trimestre de 2016, as receitas subiram 52%, para 5382 milhões de dólares.

publicado às 09:39

Andamos todos aos papéis

Por: Rute Sousa Vasco

 

A culpa é dos papéis. Os malditos dos papéis. O Panamá tem os seus, e nós temos os nossos.

 

Maria Luís Albuquerque garante que só soube que o Estado podia ter de gastar 2,2 milhões de euros no Banif a 12 de novembro de 2015. Diz ela que foi isto que disse ao seu successor, Mário Centeno, ainda que continuasse completamente imbuída da esperança de “uma venda vantajosa do banco”.

 

Mário Centeno garante que soube dos graves problemas do Banif exactamente um mês antes, a 12 de outubro, oito dias depois das eleições ganhas pelo PSD/CDS. E, nessa altura, Maria Luís terá comunicado a gravidade da situação e duas soluções possíveis, a resolução ou a liquidação. Segundo Centeno, além dele, António Costa e Passos Coelho também participaram na mesma conversa.

 

Tenham conversado todos em outubro, tenha Maria Luís Albuquerque apenas em novembro tomado consciência do cenário de resolução do Banif, o facto é que em dezembro estavam três soluções em cima da mesa: a fusão do Banif com a Caixa Geral de Depósitos, uma nova recapitalização pública, ou a criação de um "banco de transição", para ganhar tempo e vender depois melhor.

 

A 15 de Dezembro, Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, e António Varela, responsável pela supervisão do Banco de Portugal, foram para Frankfurt para uma reunião do Banco Central Europeu (BCE). Segundo António Varela contou aos deputados da Comissão Parlamentar de Inquérito ao Banif, pela parte que lhe tocava ia convencido de um cenário de ‘banco de transição’ – a tal solução para poder vender melhor.

 

Só que aqui entram os malditos dos papéis. O Panamá tem os seus, e nós temos os nossos. E os nossos papéis são emails trocados entre o BCE, a Comissão Europeia, o Governo português e o Banco de Portugal e não deixam margem para grandes lapsos de memória ou estados de alma. A Comissão Europeia informou as pessoas que achamos que mandam em Portugal que não autorizava a fusão do Banif com a Caixa Geral de Depósitos, nem a uma recapitalização do banco. E António Varela até podia estar, como Maria Luís, esperançoso, numa solução para o Banif que passasse por criar um banco de transição. A esperança é a última a morrer – mas que não seja por falta de informação.

 

E António Varela, o português que representa a supervisão dos bancos portugueses no BCE, já tinha sido devidamente informado, ainda antes da reunião de Frankfurt começar, que o Banco Central Europeu estava “inteiramente contra”. Disse-lho, por email, José Ramalho, seu colega no Banco de Portugal e em inglês: o Banif é para vender “with all means available”. Na realidade, a expressão não é sequer dele – recebeu-a de Jukka Vesala, o director-geral finlandês da supervisão no BCE que deu instruções de como tudo se deveria passar.

 

E é assim que três dias depois, 19 de dezembro, Danièle Nouy, presidente do Conselho de Supervisão do BCE, apresenta ao Governo português o ‘comprador’ do Banif, um noivo que encanta especialmente a matriarca Comissão Europeia, educado, competente e com futuro promissor como se pretende. A alegria pela escolha é tanta que nem vale a pena olhar para outros noivos: "A Comissão Europeia foi muito clara neste aspecto, por isso, recomendo que nem percam tempo a tentar fazer passar essas propostas.", disse Nouy ao nosso primeiro-ministro António Costa, segundo relato do jornal Público.

 

E assim foi como na história da Carochinha e do João Ratão. Lá caímos no caldeirão, sem honra nem glória, com um dote para lá de generoso pago pela família da noiva encalhada (que somos todos nós) mas deixando pessoas da Finlândia, França, Alemanha, Bruxelas felizes com a boda. Na Comissão Parlamentar de Inquérito ao Banif, João Almeida, deputado do CDS, resumiu assim: "o processo acabou com a imposição de um comprador único: o Santander. (…) O banco foi entregue. Desculpem, mas não consigo dizer vendido." 

 

Este é o relato de uma história que alguns deputados se têm esforçado por apurar e que vários jornalistas, com destaque para o trabalho do Público, têm procurado não apenas esclarecer como também manter viva. Porquê manter viva? Porque é difícil reter a atenção das pessoas, mobilizar a vontade das pessoas, interessar as pessoas por serem parte da solução – e não apenas por se indignarem com as soluções que lhes são impostas. Valdemar Cruz, jornalista do Expresso, perguntava esta semana isso mesmo, a propósito dos Panama Papers ou de outro escândalo qualquer.

 

Este escândalo, da banca, do Banif, da opacidade da democracia europeia, do dinheiro que alguém decide em nosso nome usar, é um escândalo nosso. Não é apenas nosso – mas este, do Banif, como antes do BES, como antes do BPN, como antes do BPP, é mesmo nosso. É o nosso dinheiro, são os nossos votos, é, no limite, o nosso orgulho ou a falta dele.

 

Esta semana, Pedro Passos Coelho disse numa entrevista à Antena 1, que, em 2011, o Banco de Portugal estimava que os bancos portugueses precisavam de 40 a 50 mil milhões de euros. Três vezes mais do que os 12 mil milhões previstos no memorando assinado com a Troika.

 

Esperem, talvez seja melhor assim: 50 mil milhões é um terço de toda a riqueza produzida em Portugal.

 

Ou ainda: são cinco vezes as despesas com a saúde em Portugal.

 

Ou seis vezes as despesas com a educação.

 

Isto é o nosso problema – depois deste, vem o inferno que são os outros, a Europa, e esse é um problema de 500 milhões de europeus.

 

Tenham um bom fim de semana

 

Outras sugestões:

 

Como se preparam para o mundo do trabalho os jovens que não querem ir para a universidade? Um estudo realizado na Grã-Bretanha demonstra que há uma cultura de desigualdade que penaliza os jovens que não querem estudar mais e que limita a mobilidade social. Um problema que não é só britânico.

 

A cobertura do grande tema da semana, os Panama Papers, levou o jornal Guardian a um novo recorde de audiência mediante uma cobertura intensa. Só na segunda-feira, dia 4 de abril, primeiro dia das revelações trazidas a público pelo consórcio internacional de jornalistas, o jornal inglês registou 10,4 milhões de visitantes únicos face a uma média de 8,5 milhões.

publicado às 11:23

Não é mau – é péssimo. E isto é piners!

 

 

Por: Rute Sousa Vasco

 

Era uma vez um banco muito, muito mau, um banco tão mau, tão mau, que, na realidade, era um banco péssimo. Depois veio um Estado, tão comprometido, tão comprometido, que, na realidade, era um Estado incapaz. E depois chegaram os cavaleiros da resolução que em três tempos decidiram que o Estado incapaz ia vender o banco péssimo porque queriam ir de férias de Natal.

 

Foi revigorante ouvir o relato que o ex-administrador do Banif em representação do Estado e ex-administrador do Banco de Portugal, António Varela, fez da situação que conduziu à venda do banco. Não porque tivesse revelado informação efectivamente nova – mas pela extraordinária coloquialidade do relato. Varela disse que o Banif que encontrou em 2012, aquando da injeccção de 1100 milhões de ajuda pública pelo Estado português, "era um banco muito, muito mau, era um banco péssimo". Este banco que apelidou de péssimo tinha tudo para correr mal: "O que se escusava era que tivesse corrido tão mal”. Falou ainda de Governos “de mãos atadas” – tanto o do PSD/CDS que validou a ajuda pública, como o do PS/Coligação de Esquerda que aprovou a venda no final de 2015. Mãos atadas porque bancos e contribuintes portugueses são uma gota de água no grande poço europeu – ou, como diz Varela, “estamos a falar de peanuts para essas entidades". E já agora porque é que tudo aconteceu tão rápido (além da razão imperativa decorrente da mudança de regras no que respeita às resoluções de bancos a partir de 1 de janeiro de 2016)? Porque tudo aconteceu em Dezembro, lá fora nevava e as lareiras tornavam-se acolhedoras, e as instituições europeias queriam – naturalmente – “prolongar as férias de Natal".

Este relato é uma espécie de história dos últimos 20 anos da Europa, da banca, e já agora da democracia num minuto. Só faltam os bonecos para ser um formato perfeito, tão ao gosto desta vaga de explicações do mundo para totós. Não será um relato exacto, é certamente tão parcial quanto aquele que qualquer outro participante neste filme contará, mas temos de convir que há uma grande probabilidade de bater certo numa série de factos.

Ainda há menos de duas semanas, o país dos políticos, empresários e comentadores andou entretido a discutir manifestos contra a espanholização da banca portuguesa. Os prós e contras eram, na realidade, cara e coroa da mesma moeda. Contra a espanholização porque precisamos de centros de decisão nacionais (pausa para suspirar). Contra os que estão contra a espanholização, porque o problema são os bancos portugueses, geridos por portugueses, falidos por portugueses (pausa para suspirar de novo). Aparentemente, uns e outros, não vêem qualquer padrão no que tem acontecido nos bancos Europa fora e mundo fora. Os Estados não conseguem dinheiro dos “seus” bancos nacionais, porque os “seus bancos nacionais simplesmente não existem, mesmo que sejam liderados por banqueiros com cartão de cidadão do país. Ah, e essa ideia de ‘dinheiro nacional’? também não existe, nomeadamente ou principalmente em países cronicamente endividados como é o caso de Portugal. Mas, também para que conste, e é verdade que temos um certo sentido de competição mesmo em coisas patetas, os portugueses não são especialmente melhores a falir bancos e a fazer desaparecer dinheiro do que os seus congéneres ingleses, espanhóis, franceses ou mesmo americanos. Damos conta do recado, como os casos BPN, BES e agora Banif exemplificam, mas parece que a virtude está no jogo e não nos jogadores.

O dinheiro não tem pátria e vai para onde é melhor tratado, lembram-se? É um dos mantras dos defensores do “deixem lá os mercados funcionar” e da tal “mão invisível” dos mesmos mercados (perdoa-os, Adam Smith), que tudo resolve, que tudo corrige. O dinheiro não tem pátria, mas tem donos. E quanto mais invisíveis são os donos disto tudo, mais em risco estão bancos, Estados e pessoas (e não necessariamente por esta ordem). Numa Europa cada vez mais opaca para os cidadãos, e com Estados cada vez mais reféns de funcionários e de dinheiro, ambos sem rosto, é difícil que não corra mal, como diz Varela.

Podemos é ainda tentar evitar que corra assim tão mal.

 

Tenham um bom fim-de-semana

 

Outras sugestões:

Começa hoje o congresso do PSD e, como a Eunice Lourenço, assinala neste artigo da Renascença, a data não foi escolhida ao acaso. O congresso começa hoje e na próxima segunda-feira, dia 4, é o primeiro dia em que o Presidente da República pode dissolver o Parlamento. Há uns meses parecia boa ideia – marcava-se o congresso, preparava-se uma vaga de fundo e acabava-se em Belém a pressionar por eleições que pusessem fim a um “governo ilegítimo”. Um plano que, ao dia de hoje, a uns dará vontade de rir e a outros de chorar.

 

Os jornais britânicos The Times e The Sunday Times anunciaram um novo modelo editorial que passa pelo abandono da cobertura noticiosa ao minuto e pela aposta no tratamento aprofundado das histórias do dia. A edição online passa a ser actualizada em apenas três momentos diários: às 9h da manhã, ao meio-dia e às 17h. De repente, pode ser uma boa ideia simplesmente deixar de correr pelo minuto seguinte e tentar recuperar o papel principal do jornalismo e que não é, de todo, o de quem é mais rápido no gatilho ou na tecla. Até porque hoje, todos dão a notícia primeiro – os que a conseguem e os que a copiam.

 

E para fechar, este é um tema de missão para quem é missionário nesta causa. Entre 2009 e 2013, fecharam 4500 pubs na Grã-Bretanha. No último semestre de 2015, a tendência confirmou-se, tendo sido atingido o número mais baixo da década de pubs abertos. Bebe-se mais, nomeadamente mais cerveja, mas a crise toca a todos e no supermercado é mais barato do que no pub. Não é só disso que se trata, como conta a BBC, mas o que importa mesmo é garantir que os pubs não terão uma ‘last order’.

 

 

publicado às 10:31

Os idiotas perderam a modéstia

Por: Rute Sousa Vasco

 

Não tens opinião? Não és ferozmente contra o livro de Henrique Raposo sobre o Alentejo ou inequivocamente a favor do fim dos happy meals para o menino e para a menina? Não tens opinião? Não achas abominável o fim dos exames de aferição ou inominável o processo de reversão da privatização da TAP? Não és absolutamente a favor ou contra o aborto, a eutanásia, as despesas do veterinário para efeitos de IRS, a baixa do IVA na restauração, e, já agora, o Trump, o Lula, o Brexit, o Estado Islâmico?

 

Não tens opinião?! Que triste. Como és digno da tua existência?

 

A vida pública transforma-se assustadoramente num derby contínuo e em ambiente de rivalidade primitiva. Todo e qualquer tema é passível de se tornar numa enorme questão fracturante da nação e todos aqueles que não tomem partido por um dos extremos são vistos como xoninhas.

 

A futebolização da vida pública está a assumir traços francamente assustadores, em Portugal, como no Brasil, nos Estados Unidos ou em tantos outros sítios.

 

Há quem veja nesta radicalização da ‘conversa pública’ um efeito directo da facebookização das nossas vidas. Ou, sendo mais precisa, da permanente ‘socialização’ das nossas vidas. Estamos sempre em contacto, sentimos necessidade de ter coisas para dizer e o enorme espaço online é propício à emergência dos egos dos valentaços. Depois, é o efeito liceu. Cada valentaço ergue a sua corte e as cortes de vários valentaços confrontam-se como modo de afirmação. Da discussão de temas políticos à adopção de animais, tudo é terreno fértil para que imploda a grande cisão.

 

Na realidade, desconfio que somos todos pessoas muito mais sensatas, equilibradas e até interessantes ao vivo.

 

Há uns meses, Salvador Martinha contava em conversa com Rui Unas no podcast Maluco Beleza um episódio sintomático disto tudo. Segundo o Salvador, "uma pessoa muito conhecida, um colega nosso" recebeu, a certa altura, uma mensagem privada de alguém que lhe  dizia que devia morrer e outras coisas suaves como esta. A pessoa visada ficou incomodada com a agressividade e foi ver ao perfil da pessoa que enviou a mensagem como o podia contactar. Ligou para a empresa onde trabalhava, pediu para falar com ele e quando foi atendido explicou quem era e porque ligava. Do outro lado, já não estava um valentaço indignado. Era só um tipo normal que pedia desculpas e dizia que era tudo um mal-entendido. “Era a brincar”.

 

A intolerância perante opiniões contrárias – pior que isso, a indisponibilidade sequer para ouvir outras opiniões – está a transformar o mundo num sítio mais e mais perigoso. Como se Putins, Assads, Kim Jong-uns e, como não?, Trumps se multiplicassem no meio de nós, as pessoas comuns, os cidadãos que votam. Ou o inverso – como se eles só existissem porque, por alguma razão do foro psicológico, precisamos de líderes extremados, desequilibrados, que sejam a frente visível da humanidade mais animal e mais primitiva.

 

Há uns dias, alguém me falava do valor incrível da conversa. De como é importante conseguir conversar e não apenas discutir. Conversar é coisa humana. Conversar é cada vez mais coisa de humanos evoluídos e não trogloditas num tempo em que o recuo civilizacional é diário.

 

Os idiotas perderam a modéstia. Li esta expressão num artigo publicado pelo jornal online brasileiro de nome muito próximo a este onde escrevo, o 247. A autoria é de um jornalista, escritor e dramaturgo brasileiro, Nelson Rodrigues. O artigo que a menciona tem um ano e meio e relata a agressão verbal e quase física a Gregório Duvivier, humorista da Porta dos Fundos, por ter declarado apoio à reeleição, à época, de Dilma Roussef.

 

Duvivier não estava num comício. Não estava em palco a fazer piadas. Não estava a discutir com ninguém. Estava num restaurante, no Rio de janeiro, simplesmente, a almoçar.

 

Tenham um bom fim de semana.

 

Outras sugestões

 

Já que falamos de Gregório Duvivier, de radicalização, de Brasil, e da opinião forte sobre tudo e nada, aqui fica uma crónica assinada pelo próprio.

 

Sobre extremismos e afins, aqui fica outra visão. A vitória de Donald Trump nas eleições americanas é tão perigosa quanto o avanço do jihadismo, considera o Economist Intelligence Unit no estudo sobre os dez maiores riscos para o mundo.

 

Versão corrigida a 21 de março às 12h15:

 

Na primeira versão deste texto, o parágrafo sobre o Salvador Martinha tinha uma redacção diferente. Mediante o alerta de um leitor, fica feita a correcção e a explicação aos leitores. O episódio em causa tinha sido relatado desta forma por alguém que conhece bem os vários interlocutores. O que não dispensa a validação dos detalhes exactos, sobretudo quando a história nos chega oralmente e lá diz o ditado que quem conta um conto, acrescenta um ponto. 

Feita a correcção à história - é o Salvador Martinha que a conta, mas não ele quem a protagoniza- mantém-se a moral que fez com que a escolhesse para ilustrar o tema da crónica: os indignados e os valentaços que todos os dias encontramos online.

 

Há uns meses, Salvador Martinha contava em conversa com Rui Unas no podcast Maluco Beleza um episódio sintomático disto tudo. O Salvador escreveu um texto e um determinado senhor que ele não conhecia não gostou. Para expressar o seu desagrado escreveu na página de Facebook do humorista que ele devia morrer e outras coisas suaves como esta. O Salvador ficou incomodado com a agressividade e foi ver ao perfil da pessoa que fez o comentário como o podia contactar. Ligou para a empresa onde trabalhava, pediu para falar com ele e quando foi atendido explicou quem era e porque ligava. Do outro lado, já não estava um valentaço indignado. Era só um tipo normal que pedia desculpas e dizia que era tudo um mal-entendido. “Nada disso, senhor Salvador, eu até gosto muito do seu trabalho”.

 

 

publicado às 10:37

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