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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Querida Apple: eu compro-te um iphone e tu pagas os teus impostos

Por: Rute Sousa Vasco

Quando as empresas encontram a forma mais eficaz de pagar menos impostos, os legalistas dizem que se trata apenas de planeamento fiscal. E para muitos, é quanto baste. Mas o caso Apple/Irlanda versus Comissão Europeia é bem mais que uma discussão legal. É política, é moral, é global e um iPhone não vale isto tudo. Nem muitos milhões deles.

 

 

No terceiro trimestre de 2016 (Abril-Junho), a Apple vendeu 40,4 milhões de iphones, o seu produto-estrela, e facturou 42,4 mil milhões de dólares. Os lucros do trimestre foram de 7,8 mil milhões de dólares. São números difíceis de dimensionar pela sua grandeza, mas ainda assim ligeiramente abaixo daqueles que a empresa registou no mesmo período de 2015. O que não é forçosamente uma má notícia porque estão acima do que, na realidade, os analistas esperavam – o que provocou aquela onda de comoção que os mercados traduzem em subida no valor das acções.

 

A Apple é uma empresa amada, admirada, odiada e cobiçada. É isto tudo, como são as grandes empresas, as grandes marcas e as pessoas de excepção. Ame-se ou odeie-se, é uma empresa sem problemas financeiros e, sobretudo, sem problemas de mercado à data de hoje. Quem é que não quer ter um iPhone, aqui ou na China?

 

E isto tudo leva-nos ao tema desta semana. Os 13 mil milhões de euros que a Comissão Europeia pediu à Apple que devolvesse por considerar que a Irlanda concedeu um apoio ilegal ao nível dos impostos à empresa americana. Para quem não assistiu à novela, fica um resumo rápido. A Irlanda é um dos países  da União Europeia com regime fiscal mais atractivo para multinacionais. O IRC é de 12,5% versus 21% em Portugal, ou 25% em Espanha ou mesmo 29,7% na Alemanha.

 

Na Irlanda, a política fiscal low cost tem sido entendida como um motor de desenvolvimento do país e tem trazido frutos, sobretudo no investimento americano que gosta da vista, da língua e dos impostos a bom preço. Em 20 anos, a Irlanda teve um investimento directo americano de 277 mil milhões de dólares. Há 700 empresas americanas na Irlanda, que empregam no seu conjunto 130 mil pessoas.

 

A Apple é uma delas. Tem uma longa relação com a Irlanda, iniciada nos anos 80 por Steve Jobs. E beneficia de um estatuto especialíssimo no que respeita ao imposto sobre os lucros – aliás, cada vez mais especial. No início deste milénio, pagava entre 1% e 2% sobre os lucros. Há cerca de cinco anos, passou a pagar metade desse valor: 0,5%. E, em 2014, ano em que registou lucros recorde, obteve um novo desconto especial para 0,005%.  O equivalente a 50 euros de imposto por cada milhão de euros de lucros.

 

Vamos recordar que a taxa de IRC na Irlanda, para ser competitiva e atrair investimento, já é de 12,5%. Uma das mais baixas da União Europeia.

 

A decisão da comissária europeia da Concorrência, Margrethe Vestager, de pedir a devolução dos 13 mil milhões de euros surge após dois anos de investigações e foi baseada, afirmou a própria, em factos. Factos que resultaram dos números apresentados pela Apple em audiências fiscais nos Estados Unidos, pátria-mãe da empresa onde a taxa de IRC é de 35%.

 

Avizinha-se uma longa batalha política e legal em torno deste tema. Para que um benefício fiscal possa ser considerado uma ajuda ilegal de Estado tem de cumprir com quatro critérios: tem de ser dado pelo Estado usando recursos próprios do Estado, tem de configurar uma vantagem, a vantagem tem de ser selectiva e não global, e tem de distorcer a concorrência. Face ao que se ouviu nesta semana, e considerando alguns precedentes, a procissão ainda nem saiu do adro.

 

O governo americano que agora veio em defesa da sua empresa-estrela teve, em 2013, dúvidas sobre se estaria ou não a ser driblado fiscalmente pela Apple. E, provavelmente, estava. Como? Através da Apple Sales International e da Apple Operations Europe, empresas com as quais a Apple regista as suas vendas na Europa e também parte dos lucros de propriedade intelectual, inclusive os facturados nos Estados Unidos (razão pela qual, em primeiro lugar, o senado americano se interessou pelo tema). As duas empresas protagonizam um acordo fiscal – dizer altamente favorável é dizer pouco – com a Irlanda, sem sustentação económica. Sim, a Apple emprega 6000 pessoas na Irlanda e planeia empregar mais 1000. Mas estas duas empresas são instrumentais – não têm escritórios nem empregados, apenas um número fiscal.

 

Na realidade, é mais sofisticado que isso.

 

 

Regressemos a 2013, e ao testemunho registado de Tim Cook, CEO da Apple, perante o senado americano num inquérito à política fiscal da empresa. Nesse processo, ficaram a saber-se várias coisas. Que a maior parte das operações da Apple eram geridas através da Apple Operations International, sediada na Irlanda, e que não tinham empregados. Segundo a Apple, essa decisão remontava a 1980 e tinham-se perdido todos os registos que pudessem ajudar a clarificar de que forma as vendas internacionais tinham sido canalizadas por essa via.

 

Entre 2009 e 2011, a mesma Apple Operations International que representou 30% dos lucros mundiais da Apple não pagou impostos de todo, em qualquer parte do mundo, dos Estados Unidos à Irlanda ou à China. Como? Parafraseando o Quartz, que aqui reproduz de forma detalhada os vários movimentos, de uma forma demoniacamente brilhante. Os Estados Unidos taxam uma empresa pela sua localização. A Irlanda taxa uma empresa com base na localização das pessoas que a gerem. Se a empresa está na Irlanda mas as pessoas estão nos Estados Unidos, não pode ser taxada em lado nenhum. Fiscalmente invisível. Ou demoniacamente brilhante, como se queira.

 

Por tudo isto é difícil ficar sensível à postura de dama ofendida assumida pela Apple. Tim Cook tentou divergir a discussão. Disse que não se tratava de saber se a Apple pagava ou não o valor justo em impostos, mas sim de saber quem cobrava esses impostos. Isto para poder argumentar que o acordo com a Irlanda é legal, transparente e que os irlandeses estão satisfeitíssimos com o mesmo.

 

Se calhar estão. O ministro das Finanças irlandês, Michael Noonan, já se mostrou bastante aborrecido com este contratempo que a Comissão Europeia levantou. Não se mostrou nada interessado em recuperar 13 mil milhões de euros, o equivalente a 5% do PIB da Irlanda, o suficiente para, por exemplo, baixar a sua dívida de 94% para 85% do PIB. Na sua perspectiva – e de muitos outros – trata-se de uma ingerência da UE na política fiscal de um país.

 

Michael O’Leary, o patrão da Ryanair, foi mais longe, até porque não é ministro. Disse que a decisão da Comissão era bizarra e que a Irlanda devia simplesmente mandar a UE “fuck off”. Assim mesmo.

 

E, na realidade, Estado e empresários até podem pensar assim. E, na realidade, os números até podem estar do seu lado (ainda que não seja uma evidência). Mas imaginemos que os 13 mil milhões de poupança fiscal à Apple representam mais para a Irlanda do que para a empresa: que valem 10% ou 50% a mais na criação de riqueza? Imaginemos que, feitas as contas, compensa beneficiar largamente uma empresa multinacional em nome do impacto na criação de riqueza e de emprego que essa medida traz ao país. É uma opção que um Estado tem direito de avaliar e de decidir no seu melhor interesse e dos seus cidadãos (mesmo que, no caso da Apple, os 102 mil milhões de dólares das operações no estrangeiro estejam bem guardados em bancos americanos, nomeadamente via o braço financeiro da multinacional com sede no Nevada).

 

Mas, para que esta opção seja transparente deve ter números que a ilustrem – de forma cristalina. Números que inclusive poderiam ou poderão fazer repensar a forma como a Europa no seu conjunto olha para a taxação de empresas e de pessoas.

 

 

E para ser transparente deve também abrir a discussão a outros fóruns. Por exemplo, as startups, a nova esperança da economia europeia e mundial de onde se espera que nasçam as futuras Apples, Googles e Facebooks. Não deveriam usufruir de um regime fiscal altamente competitivo a pensar nos impactos futuros da inovação na criação de emprego e na melhoria global da vida nas nossas sociedades?

 

Sendo transparente e aberta a outros actores, esta opção política não pode descurar o impacto social. Quanto dos valores generosamente subtraídos à factura fiscal das multinacionais sediadas na Irlanda, no Luxemburgo, na Holanda ou noutros países com regimes competitivos resultou em melhoria de condições sociais, no sistema de saúde, nos apoios aos mais carenciados?

 

Estas são questões que os Estados devem responder em nome da liberdade – que devem ter – para de forma transparente atrair investimento que possa gerar riqueza e emprego.

 

Mas tudo isto em nada melhora o que a Apple e outros gigantes tecnológicos são hoje. Empresas sem as quais não imaginamos viver, presentes na nossa vida em qualquer parte do mundo, com uma riqueza que o comum dos mortais não consegue imaginar, mas sem uma ideia  efectiva de comunidade ou de sociedade. Estão em toda a parte, facturam em qualquer lado, mas não pertencem a sítio algum. Têm fundações, apadrinham causas, mas num dos mais elementares actos de cidadania – o de pagar impostos – não são mais que vulgares artistas da contabilidade que dançam a balada da Floribela.

 

Tenham um bom fim de semana

 

Outras sugestões:

 

Da moral e da lei. Numa semana marcada pela destituição de Dilma Roussef, vale a pena ler este retrato do Brasil feito por Paulo Cardoso de Almeida.

 

Da matemática. Perceber o fascínio da matemática é em grande parte perceber o desafio que representa. É disso que nos fala este artigo do El País.

 

 

publicado às 19:17

As mulheres não se interessam por ganhar. Apenas querem que lhes contem histórias.

 Por: Rute Sousa Vasco

 

[Este artigo começa com um longo e pausado suspiro. É uma espécie de reflexo pavloviano que ocorre quando persistências obtusas persistem.] Vamos lá então falar das mulheres.

 

Das mulheres em geral, das mulheres no mundo, das mulheres na política, nos negócios, nas artes … e nos olímpicos. Os Jogos do Rio têm batido alguns recordes de imbecilidade no que respeita à forma como as mulheres são referidas. Os comentadores da NBC, estação host do evento nos Estados Unidos, têm conquistado medalhas atrás de medalhas e o exemplo foi logo dado no dia do arranque da prova.

 

 

Um tal de John Miller, responsável pelo marketing da estação, explicou que a cerimónia de abertura dos Jogos não seria exibida em directo … por causa das mulheres. Porque os estudos de audiência mostravam, explicou, que há mais mulheres que homens a assistir aos Olímpicos e o sexo fraco é menos interessado nos resultados e mais interessado na narrativa. Ou seja, o que as mulheres querem mesmo é uma mistura de reality show com mini-série e a NBC preparou-se para servir esse menu. Claro que o facto de ter vendido 1,2 mil milhões de dólares de publicidade e de ser mais fácil colocar anúncios em olímpicos cortados às postas não teve nada a ver com essa opção – estes senhores são uns gentlemen, apenas querem agradar às senhoras.

 

 

Correu mal.

 

 

A NBC registou o pior resultado de audiência desde 1992. Com tantos estudos e uma preocupação tão esmerada com o público feminino, não se percebe. Mas também já se sabe, as mulheres são temperamentais. Se calhar, naquele dia, deu-lhes para ir às compras.

 

 

Depois deste arranque, houve já todo um desfile de comentários sobre várias atletas em várias modalidades.

 

 

A nadadora húngara Katinka Hosszu ganhou a medalha de ouro nos 400 metros individuais e bateu um recorde mundial. É chamada a dama de ferro. Mas nos ecrãs americanos o grande plano foi para o marido e treinador, Shane Tusup, o grande responsável pela sua vitória, segundo o comentador da NBC, Dan Hicks. Talvez algumas mulheres não se importem de ser troféu de maridos, namorados, treinadores e por aí fora – mas importam-se de pelo menos assumir que outras têm vida e mérito próprio?

 

 

Não fica por aqui.

 

 

Corey Cogdell-Unrein conquistou, nestes Jogos do Rio, a segunda medalha de bronze no tiro ao alvo. Dir-se-ia que dificilmente poderia ser chamada por outro nome que não o próprio. A não ser para o Chicago Tribune para quem o papel principal de Corey, mesmo quando se torna uma medalhada olímpica, é ser a mulher de um jogador dos Chicago Bears, cujo nome deliberadamente nem vou referir, não porque tenha culpa, mas porque simplesmente não é necessário.

 

 

A invisibilidade das mulheres ficou igualmente patente na entrevista que Andy Murray deu ao veterano John Inverdale depois de ter ganho, no domingo passado, a medalha de ouro no torneio de ténis. Inverdale que é um histórico dos eventos desportivos, um dos rostos da BBC, teve de ser lembrado pelo tenista britânico que não era dele o primeiro feito olímpico de conquistar duas medalhas de ouro – antes já as irmãs Venus e Serena Williams tinham conquistado quatro.

 

 

E, depois, claro, há Simone Biles. O prodígio destes jogos olímpicos. Uma gigante com menos de um metro e meio que só por ela já fez valer a pena ter havido um evento chamado Jogos do Rio. Um manifesto exagero, sim, mas porque qualquer tributo escrito que se faça ficará aquém do talento e das qualidades que esta miúda de 19 anos demonstrou.

 

 

Vamos dizer que a NBC também não deixou os seus créditos por mãos alheias no que respeita a Simone Biles. A começar pelo spot promocional dos olímpicos em que usava uma conversa dos pais da ginasta sobre o quanto ela gosta de ir às compras. Além de gostar de ir às compras, Simone também arranja as unhas – segue-se imagem com a atleta na manicure. É uma menina, percebem? Ou uma gaja, como passarão a dizer logo que deixe de ter um ar ainda infantil. O desporto, a performance, a incrível elegância e destreza demonstrada enquanto ginasta, isso vem depois – lembrem-se, às mulheres interessa menos os resultados e mais a narrativa.

 

 

Aliás, terá sido também a pensar na narrativa que a mesma NBC promoveu um encontro surpresa entre a equipa de ginastas americanas, em que se inclui Biles, e o actor Zac Efron, um ídolo da geração de Biles que cresceu a ver o High School Musical. Efron espetou com uma valente beijoca na bochecha de Simone, ela sorriu, a história foi para o Snapchat, escreveram-se linhas de coisa nenhuma em vários sites e redes. Arthur Nory Mariano, o atleta olímpico que Simone apelida carinhosamente de "namorado brasileiro", foi ao Instagram dizer que ela é a miúda dele, e isto deu matéria para muito comentário e partilha. Aposto que sobretudo feminino, claro.

 

 

As mulheres gostam de narrativas, lembrem-se disso.

 

 

E é no meio disto tudo que a miúda Simone dá uma entrevista e diz apenas: “Não sou o próximo Usain Bolt ou Michael Phelps. Sou a primeira Simone Biles”.

 

 

Por cá, andamos a discutir o conselho de administração da Caixa Geral de Depósitos. Uma missão grandiosa para a qual o Governo convocou 19 administradores. O BCE chumbou 8. Sobram 11. Nenhum é uma mulher. Mas em 2018, a Caixa terá no mínimo três mulheres no Conselho de Administração. Não é uma, não são dez. Porquê? Porque o Banco Central Europeu exige. Não se vá pensar que, por absurdo, seria porque há tantas mulheres qualificadas para gerir um banco como um homem.

 

 

Tenham um bom fim-de-semana.

 

 

Outras sugestões

 

 

Aqui pela redacção do SAPO24 andamos fãs deste podcast. E o primeiro episódio é a perfeita sugestão para o tema da crónica de hoje. Chama-se “The Lady Vanishes” e pode ser ouvido em Revisionist History, o podcast de Malcolm Gladwell.

 

 

E hoje é Dia Mundial da Fotografia, pelo que propomos uma volta ao mundo da imagem, também pelo fio condutor da História. Pode ser lida aqui, num artigo que revisitamos.

publicado às 12:36

Na tua multidão ou na minha?

Por: Rute Sousa Vasco

Esta semana começa o campeonato de futebol. Mas, mesmo que o que se segue lhe pareça vagamente familiar com o pior do futebol, não tem nada a ver. Até porque para os verdadeiros fãs, o futebol é o melhor pretexto para se ser um selvagem, mas sempre com princípios. Que é exactamente o que não se passa com os hooligans, no futebol, na política e no governo do mundo.

 

As multidões sempre me impressionaram e quase sempre pela negativa. Na presença de muitas pessoas, o indivíduo tende a fundir-se no colectivo e há um efeito de contágio imprevisível que me assusta. Os políticos adoram multidões – só isso explica o fascínio da popular arruada, coisa que qualquer ser humano no estado normal dispensaria. Alguns políticos, os mais perigosos, adoram o ecstasy das multidões – e são especialistas em elevar as suas multidões ao nível seguinte.

 

Esta semana foi notícia que Erdogan conseguiu reunir em Istambul a maior multidão de que há memória nos últimos anos. Três milhões de pessoas, estima-se. Muitas bandeiras nacionais, caras pintadas com as cores da Turquia, coros inflamados que sequenciavam as palavras de comando de quem comanda. "Se o povo quiser a pena de morte, os partidos respeitarão a sua vontade", disse Erdogan. E o povo respondeu em coro: "pena de morte!”. A pena de morte não existe na Europa, diz Erdogan. Mas, isso não significa avanço civilizacional, conclui. Porque nos Estados Unidos, na China ou no Japão existe.

 

Em multidão, não há discussão moral de certo ou de errado. Não há errado. São factos. E os factos que Erdogan exibe mostram que quem está mal são os que pensam diferente de nós. Neste caso, essa Europa fraca que tantos desprezam. Segundo a Amnistia Internacional, 140 países aboliram - por lei, ou na prática – também a pena de morte, o que contabiliza pelo menos mais 112 do que aqueles que fazem parte da União Europeia. Mas tudo isso são detalhes quando se tem um microfone na mão, se é projectado num palco e se tem um público de três milhões de fãs.

 

Que é mais ou menos o clima que Trump tem desfrutado nos seus get-together pelos Estados Unidos. Esta semana, provou que podemos esperar sempre mais dele. Começou em Wilmington, na Carolina do Norte, com o incentivo aos partidários da manutenção e posse de armas a que travem Hillary Clinton. “Hillary quer essencialmente abolir a segunda emenda, aliás, se ela puder escolher os juízes [do Supremo Tribunal] não há nada que vocês possam fazer, pessoal. Se bem que para as pessoas da segunda emenda talvez ainda exista [algo que possam fazer], não sei. Mas digo-vos, esse será um dia horrível”. Tome-se boa nota do tom: “não há nada que vocês possam fazer, pessoal”. Pessoal, multidão, gente que me segue de forma cega, surda e …ruidosa. Depois do apelo a que pessoas com armas possam travar Hillary – e Trump deixou à imaginação de todos o que pode querer dizer “travar” – o delírio continuou. Desta vez, em Fort Lauderdale, na Flórida. "Obama é o fundador do ISIS! O ISIS honra o presidente Obama. E diria que a co-fundadora é a vigarista Hillary!". E o que grita a multidão de Trump cada vez que ouve a palavra Hillary: “Lock her up” (prendam-na). Sob a bruma dos gritos da multidão, Trump apenas acena e sorri.

 

Algures em Moscovo, alguém assiste a tudo isto com um sorriso silencioso e gelado. Chama-se Vladimir Putin. Esta semana recebeu Recep Erdogan num palácio da era dos Czares, em São Petersburgo. Há dois meses, Putin e Erdogan disputavam o título de melhores inimigos. Hoje, Erdogan tem no currículo uma oposição dominada, milhares de adversários presos e mais de 240 pessoas mortas na sequência da tentativa de golpe de estado. A Europa e os Estados Unidos não gostam do que vêem – Putin diz-lhe que “todos nós queremos recomeçar o diálogo”.

 

Michael Morell trabalhou 33 anos na CIA e dirigiu a agência interinamente na qualidade de vice-diretor. Na semana passada escreveu uma coluna de opinião no New York Times em que expressava o seu apoio a Hillary Clinton a par com a sua preocupação com Donald Trump. E também aquilo que escreveu constitui um novo nível na forma como olhamos para eleições em países democráticos, e para a manutenção de um status quo nas relações internacionais. Diz Morell: "Putin explora as fraquezas de Trump, fazendo-lhe elogios. Nos Serviços de Inteligência, diríamos que Putin recrutou Trump como agente involuntário da Federação Russa".

 

O mesmo New York Times avançava, no editorial de ontem, com a possibilidade de Trump estar simplesmente a testar uma estratégia impensável em democracia. A de ganhar pelo tumulto o que já percebeu que não poderá ganhar pelo voto. “Neste momento, Mr. Trump está a perder e possivelmente isso aterroriza-o. Talvez ele não se saiba controlar ou perceber porque o deveria fazer. Ou talvez esteja apenas a satisfazer a sua necessidade ilimitada de atenção. Mas o seu comportamento nesta semana coloca ainda uma hipótese mais perturbadora. Talvez ele tenha desistido de ganhar através dos meios civis e não queira saber das consequências da sua campanha de incitação”.

 

Eu nunca gostei de multidões, foi aquilo que comecei por vos dizer.

 

Tenham um bom fim-de-semana

 

Outras sugestões:

 

São 19 minutos que valem a sua atenção. Primeiro porque é o John Oliver. E depois porque é o John Oliver a explicar porque é que o jornalismo não é apenas um problema dos jornalistas.

 

É impossível resistir a tanta beleza, graça, destreza e qualquer coisa que efectivamente faz parte do Olimpo. Chama-se Simone Biles e entrou nas nossas vidas esta semana, arrisco-me a dizer que para sempre, tal como a sua antecessora, Nadia Comaneci.

 

E esta noite há jazz na Gulbenkian e é ao ar livre e com sorte talvez tenhamos uma chuva de estrelas.

publicado às 10:47

Somos só pessoas estupidamente normais

Por: Rute Sousa Vasco

Há semanas em que todos aqueles que escrevem sobre o que se passa no mundo não evitam o que, em regra, tentam evitar. Ou seja, escrever sobre as mesmas coisas que outros já escreveram. Quem publica à sexta-feira, depois de uma semana intensa de acontecimentos (Nice, Turquia, Convenção Republicana, para nomear os mais globais), fica com um problema ainda maior. Isto para dizer que também eu não consigo evitar. Trump, Erdogan, extremismos, ignorância, medo. Como evitar?

 

 

As escolhas democraticamente eleitas por todo o mundo têm nos obrigado a uma reflexão ampla sobre a democracia. É um tema difícil que, inevitavelmente, acaba com a frase de todos conhecida: “não é um sistema perfeito, mas não se encontrou ainda melhor”. O que, até prova em contrário e face às alternativas, é, sem dúvida, verdade. Mas também é verdade que o conceito de participação popular se alterou radicalmente nos últimos cinco anos, mercê da explosão das redes sociais, e com consequências, aos mais diferentes níveis, que ainda ninguém conseguiu efectivamente perceber.

 

 

Por causa dos acontecimentos em França e na Turquia, na semana passada, falei com várias pessoas que vivem em cidades como Paris, Nice, Istambul, Ancara e Londres. Pessoas que não se conhecem umas às outras – nenhuma delas. Pessoas com contextos de vida diferentes, com profissões diferentes, com idades diferentes. Em todas, senti a mesma apreensão. Em nenhuma, senti ódio ou vontade de alinhar por qualquer extremismo. Uma delas falou comigo, ao telefone, enquanto a noite de Istambul era disputada pelos militares ditos golpistas e o “povo de Erdogan”, aquele que as mesquitas chamaram à rua para defender a nação. Ainda o desfecho era incerto e já me dizia do outro lado da linha que, de certeza, que Erdogan teria tudo controlado. “Acho que no domingo está tudo resolvido”, comentava na madrugada de sábado. No domingo, estava tudo não apenas resolvido como perdida qualquer réstia de esperança que a Turquia não se torne mais um problema – um problema de uma dimensão que só conseguimos imaginar e temer.

 

 

Em Istambul, como em Paris, ou em Nice, as pessoas com quem falo só querem ter uma vida normal. Tomar o pequeno-almoço com a família, levar as crianças à escola sem recomendações especiais, ir trabalhar sem pensar duas vezes no trajecto, ter amigos sem pensar no bilhete de identidade, visitar amigos sem que lhes seja pedido bilhete de identidade, jantar fora porque é sexta-feira, talvez ir dançar, talvez ir ouvir música. Na loucura, quem sabe ir assistir a um fogo de artifício. E poder rir, mesmo que se seja mulher – a quem a tribo Erdogan recomenda recato na via pública. Uma vida estupidamente normal.

 

 

Esta normalidade daqueles com quem falo não é exactamente a mesma que as televisões me mostram.  Nem aquela que as redes sociais comentam. Em Cleveland, nos Estados Unidos, terra que consagra como primeiro postulado da constituição o direito a procurar a felicidade, vejo pessoas iradas com Hillary Clinton, gritando pela sua prisão, vomitando ódio a cada sílaba. Hillary está longe de ser uma candidata entusiasmante. Nem vale a pena dizer que nunca será Obama, porque isso era admitir que sequer estava no mesmo plano. Não se comparam metros com litros.

 

 

Mas este ódio? Katty Kay, jornalista e apresentadora da BBC, vai na 17ª convenção republicana que acompanha. Diz que nunca viu nada como isto. “Sinceramente, não sei se é por Mrs. Clinton ser mulher. Talvez seja porque está há tanto tempo na política ou porque o seu servidor de email faz parecer que ela pensa que está acima da lei. Mas o ódio que lhe votam é viciante e visceral. Isto tornou-se a convenção do ‘prendam-na’. Perguntem aos delegados sobre Mrs. Clinton e vejam-lhes o brilho nos olhos – ela é o “mal”, uma “mentirosa”, e “perigosa”."

 

 

Reparem, estas são as mesmas pessoas que querem ver Donald Trump presidente da América. As mesmíssimas pessoas que não querem a sua opositora porque, deduz-se, não se reconhecem na maldade, na mentira e no perigo. 

 

 

A insanidade.

 

 

Trump, o agitador, o atiçador de serpentes, o quase-inimputável, parece até um tipo de moderado quando a isto apenas responde: "Vamos derrotá-la em Novembro”.

 

 

Se a democracia é a escolha da maioria, precisamos mais do que nunca de saber quem é esta maioria. Há ódio nas pessoas normais – sempre houve. Mas esse tem sido sempre o triunfo da humanidade sobre a bestialidade: vencer o ódio, começando pelos ódios de cada um, em prol de um bem maior, que é a sobrevivência.

 

 

Tenham um bom fim-de-semana.

 

 

Outras sugestões:

 

O que pode a tecnologia fazer por nós, além de naturalmente nos permitir jogar Pokémon Go (o incontornável tema lúdico desta semana)? Muita coisa e com pensamento politico à mistura. Senão veja-se esta história dos robôs-manifestantes expostos numa sala do Instituto de Tecnologias Interactivas da Madeira.

 

Era uma vez um reino a que chamamos unido e que em virtude de uma votação está em grande agitação interna e externa. Este reino, tem novo governo, este governo tem novas missões, estas missões são provavelmente problemáticas. Da Idade Média ao século XXI, aqui fica um retrato, mais que factual, contextual, dos dias que se vivem no reino de Sua Majestade. Um texto imperdível do José Couto Nogueira.

 

publicado às 15:59

O que faz falta é animar a malta. Da banca, claro.

O vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE), Vítor Constâncio, foi orador numa conferência organizada pela Universidade de Navarra onde, naquele jeito cabisbaixo de quem quer passar despercebido, partilhou com a audiência a sua visão sobre o que faz falta nestes tempos pós-Brexit. Disse Constâncio: “A situação atual, depois de uma nova onda de baixas nos preços das ações depois do ‘Brexit’, merece uma reflexão profunda sobre a compensação de algumas falhas de mercado com um pequeno apoio público para melhorar significativamente a estabilidade de alguns setores bancários”.

 

A afirmação pode parecer mais ou menos densa – Constâncio style – mas não percam o foco do essencial. Porque o essencial a reter do “pensamento” do vice-presidente do Banco Central Europeu e ex-governador do Banco de Portugal é que precisamos de dar um “pequeno apoio público” à banca para resolver “algumas falhas” do mercado.

 

Pequenos apoios públicos e bancos na mesma frase só pode ser produto de um problema de memória. Que, aliás, parece ser um problema recorrente em Vítor Constâncio. Para que não padeçamos todos da mesma doença, é importante recordar o que, ainda há pouco tempo, o mesmo Constâncio disse sobre a situação do Banif, um dos bancos, mais um, que nos obrigou a uma “reflexão profunda” sobre as falhas do mercado. A 28 de Junho, o vice-governador do BCE disse ter hoje uma memória "muito lacunar" dos assuntos em torno do Banif que lhe passaram pelas mãos. Conseguia apenas recordar-se o suficiente para garantir que, até 2010, o banco não apresentava "problemas significativos". Isto porque 2010 é precisamente o ano em cessou funções no Banco de Portugal, a entidade que tinha como responsabilidade supervisionar os bancos.

 

A memória que guarda dos seus tempos enquanto governador do Banco de Portugal é tão “lacunar” que para responder à comissão parlamentar de inquérito ao Banif – tarefa à qual se tentou escusar por todos os meios – Constâncio até teve de consultar a página de internet do Banco de Portugal, porque o Banif não figurava sequer na sua lista de prioridades enquanto governador do Banco de Portugal (não era suficientemente importante) e, como gosta de recordar, nunca teve a seu cargo o pelouro da supervisão. "O Banif não era dos bancos mais importantes do sistema e não suscitou durante o meu mandato problemas significativos que me tivessem sido apresentados a mim ou ao Conselho de Administração", afirmou.

 

Ora, Constâncio foi governador do Banco de Portugal durante dez anos, entre Fevereiro de 2000 e Maio de 2010. O mesmo periodo em que também não se apercebeu de que alguma coisa de relevante se passasse com outro banco, o BPN. E outro, o BPP. Para não falar mesmo daquele outro, o BES. Provavelmente, nenhum era suficentemente importante para entrar na agenda do governador.

 

Talvez fosse importante sabermos quais foram as prioridades desses dez anos de má memória para Vítor Constâncio, até para lhe fazer justiça. Vamos imaginar que ao descartar como problema bancos que se tornaram um grande problema, preveniu que situações bem mais graves acontecessem. Só que a história teima em não lhe fazer justiça porque quanto mais sabemos do que se passou nos últimos dez anos na banca, mais ficamos convictos de que, a existirem novidades, serão sempre piores e não melhores. Como aliás atesta a recente implosão do dossier Caixa Geral de Depósitos. É por isso que quando ouvimos falar de “pequenos apoios públicos” temos todas as razões para ficar nervosos.

 

Mas voltando ainda a Constâncio. Terminado o seu mandato em Portugal, foi indicado para exercer as funções de vice-governador do Banco Central Europeu, o que faz com que sempre que se fala deste tema seja irresistível concluir que se tratou de uma promoção pelo bom trabalho. É uma ironia amarga, mas valha-nos que Constâncio demonstra um inequívoco sentido de missão europeia. Só que é daquela Europa que nos trouxe aonde estamos hoje, nos tais tempos pós-Brexit. A Europa dos poderes centrais que nada devem nem temem às democracias de cada país.

 

Foi em nome dos sacrossantos processos europeus que Constâncio se recusou a prestar declarações ao parlamento português sobre o Banif, invocando a violação das normas que regem a União Europeia. Não é falta de vontade, terá dito, é mesmo e tão somente em nome do rigor das regras europeias. Foi imediatamente secundado pelo presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, em carta enviada ao parlamento português que pôs os pontos nos iis e lembrou a cada um o seu lugar: a partir do momento em que foi nomeado vice-governador do Banco Central Europeu, Vítor Constâncio passou a ser um quadro de uma instituição Europeia que responde apenas perante o Parlamento Europeu, conforme o Tratado da União Europeia.

 

Bom, então isso deve querer dizer que, de 2010 para cá, deverá poder responder como responsável do Banco Central Europeu e, nesse âmbito, ouvido pelas suas responsabilidades nessa função. Errado, uma vez mais.

 

No documento que enviou ao Parlamento Português, Vitor Constâncio não deixa margem para equívocos e não apresenta qualquer “memória lacunar”. Esclarece que o próprio BCE só passou a ter responsabilidades de supervisão a partir de novembro de 2014, através do Mecanismo Único de Supervisão. E sabem que mais? Este dito mecanismo está fora do pelouro do vice-presidente, lugar que Constâncio ocupa.

 

Mas se, mesmo assim, algum espírito mais teimoso e mal intencionado ainda procurar ver no lugar do vice-governador do BCE algum resquício de responsabilidade, Constâncio também tem resposta: as responsabilidades de supervisão do BCE só se aplicam aos maiores bancos de cada país, o que não era o caso do Banif, que era supervisionado diretamente pelo Banco de Portugal.

 

Constâncio foi secretário-geral do PS, ministro das Finanças, governador do Banco de Portugal e é, há seis anos, vice-governador do Banco Central Europeu. Só para avivar a memória de todos nós. Às vezes, também nos dava jeito não nos lembrarmos de que foi e é assim que chegámos a esta Europa e a este status quo da banca, dos negócios e da política.

 

P.S. – Para ajudar a suprir alguma “memória lacunar”, aqui ficam também alguns números: entre 2008 e 2014, os portugueses deram um “pequeno apoio” de 19,5 mil milhões de euros à banca - o equivalente a 1950 euros por contribuinte e, em contas mais macro, a 11,3% do produto interno bruto. Os dados são do Banco Central Europeu, por isso devem ser fidedignos.

 

Tenham um bom fim de semana.

 

Outras sugestões:

Portugal está entre os países com pior salário e segurança laboral, diz a OCDE. E somos, também de acordo com a mesma organização, o 10º país, numa lista de 38, com maior carga horária laboral: 1.868 horas, mais 102 horas que a média da OCDE. A Alemanha é, entre os países analisados, o que regista menos horas de trabalho ao ano, com 1.371 horas. Lá voltamos nós a falar de produtividade, trabalhar melhor em vez de trabalhar mais e de criar condições para que isso possa acontecer.

 

 

O que perguntam as mães e os pais ao Google sobre os seus filhos? Depende, se são meninos ou meninas. Dos primeiros querem saber se são inteligentes, das segundas se são bonitas. Mais um contributo para a discussão sobre os estereótipos de género.

 

A verdade – seja lá o que isso for. É essa a materia-prima de Karl Knausgård, o norueguês que é o actual rei da autobiografia com a saga “A minha luta”. O segredo do sucesso? “Para mim, escrever é como ler. É o lugar onde podemos ser livres. Talvez seja o único lugar onde o conseguimos experimentar essa sensação." Agora tem um novo projecto e o Brasil faz parte dele.

 

 

Paris, domingo, 10 de julho, 20h. Marquem na vossa agenda.

publicado às 11:15

Não é como acaba. É como começa.

Por: Rute Sousa Vasco

 

Não, não é um engano. A frase-talismã da selecção portuguesa virada do avesso é perfeita para retratar aquilo a que estamos a assistir por estes dias na Europa das nações. A sucessão de declarações infelizes, a falta de vontade para o consenso, as velhas intrigas e rivalidades postas a nu. Começa assim, começou sempre assim. É uma espécie de semente danada à qual anos de história em comum não chegaram para pôr cobro e a que anos de história de suposta união deram a ilusão de tudo estar sanado. Não está.

 

Com a particularidade de que hoje o Velho Continente está, efectivamente, velho, e que o mundo se tornou, efectivamente, plano. Todos estamos com todos em todo o lado – mas somos cada vez mais desiguais. Com resquícios da Europa aristocrática da 1ª Guerra Mundial e com mais do que resquícios da Europa desagregada e deprimida da 2ª Guerra Mundial.

 

Façamos uma breve e não exaustiva revisão da matéria dada na última semana do curso Como destruir a Europa em 28 capítulos (agora já são 27).

 

Na terça-feira, dia 28 de Junho, o Parlamento Europeu viveu uma das suas sessões mais animadas de sempre. Foi votada a resolução que pede a saída imediata do Reino Unido da União Europeia. Nigel Farage exibiu a proa ufana de vencedor (perdoem-lhe, que a ignorância é mesmo atrevida) e o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, perguntou-lhe, sem meias medidas, "o que estão aqui a fazer?". "Estão em negação de que a vossa moeda está a falhar, o vosso projecto político falhou", retorquiu Nigel Farage.


Houve vaias e houve palmas e teria sido divertido se não fosse trágico.

 

Na quarta-feira, dia 29, o nosso velho conhecido ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, atirou para o ar que Portugal deve pedir um novo programa de resgate. Não parece próprio de um alemão não saber exactamente o que quer dizer e menos ainda corrigir-se em poucos minutos, mas foi o que aconteceu. Schäuble voltou atrás e declarou que o Governo português pode não precisar de voltar a pedir ajuda desde que cumpra as regras. Tudo isto acontece enquanto o grande banco alemão, Deutsche Bank, mete água por vários buracos. Diz o FMI: “o Deustche Bank é a instituição financeira com maior risco no mundo enquanto fonte potencial de choques externos ao sistema financeiro”. O que dá a toda a cena europeia aquela ambiente acolhedor de orquestra do Titanic que não pára de tocar.


Hoje, dia 1 de julho, a Eslováquia assume pela primeira vez a presidência da União Europeia. Na segunda-feira, dia 27 de junho, o partido eslovaco de extrema-direita LSNS lançou uma campanha para recolher assinaturas para um referendo que consulte o povo sobre a saída do país da União Europeia. É o mesmo partido que obteve 8% nas eleições legislativas de Março e que, segundo podemos ler no Público de hoje, tem um líder, Marian Kotleba, governador da região de Banská Bystrica, que chama "parasitas" aos ciganos. Já o primeiro-ministro, Robert Fico, fez a sua campanha de reeleição tendo como lema “nem um único imigrante muçulmano”. Hoje discursa ao lado de Juncker sobre os desafios da Europa e nos próximos seis meses a presidência eslovaca continuará a ter a crise dos refugiados como um dos grandes temas da agenda europeia.


É caso para usar a frase-cliché da época balnear de 2016, entre adolescentes e não só: está tranquilo, está favorável.


Também hoje, dia 1 de julho, chegou a notícia que confirma a repetição das eleições presidenciais na Áustria, na sequência de uma decisão sem precedentes do Tribunal Constitucional em resposta ao recurso apresentado pelo partido FPO do candidato de extrema-direita, Norbert Hofer. O ecologista Alexander Van der Bellen venceu as eleições de 22 de Maio por 30.863 votos de diferença em relação a Hofer. Agora, em resposta à alegada existência de irregularidades, os austríacos vão ser chamados de novo a votar. "Se as eleições forem canceladas será uma desgraça", tinha dito ao semanário Österreich o ministro do Interior, Wolfgang Sobotka.


Há uma semana estávamos sob o efeito do choque Brexit. Uma semana depois, como podemos ver, a Europa tem um menu muito mais diversificado de problemas para nos oferecer, distrair e entreter. E de acidente democrático em acidente democrático, cá vamos andando e acreditando que a história não se repete.


Dizia Frank Underwoord que as eleições, e de certa forma a democracia, são sobrevalorizadas. Mas claro que isto é só na ficção.


Tenham um bom fim de semana!

 

Outras sugestões:

E o Facebook baralha e volta a dar de novo. Depois do namoro, em 2015, às marcas de media, nomeadamente com a sedução dos instant articles (conteúdos jornalísticos publicados directamente nas páginas do Facebook), o gigante das redes sociais anuncia agora uma mudança de algoritmo de forma a dar mais importância nos murais dos utilizadores aos posts publicados por família e amigos em detrimento dos que são partilhados directamente pelos meios de comunicação social. Se atendermos ao volume, cadência e irrelevância seguidas por algumas estratégias de social media, não podemos propriamente levar-lhes a mal. E já agora, ajuda a que nos lembremos que o Facebook é uma empresa privada que define as suas próprias regras.

Quando falarmos de futuro, vamos lembrar-nos dele. Alvin Toffler, o autor de livros como Choque do Futuro e A Terceira Vaga (entre tantas outras coisas que fez na vida) morreu ontem aos 87 anos. Obrigada ao futurólogo que primeiro quis ser poeta.

Hoje, sexta-feira, é dia de dizer adeus a dançar aos Buraka Som Sistema. O concerto é gratuito e tem lugar junto à Torre de Belém, às 22h00. Se gosta, não perca; se não conhece, tem aqui provavelmente a última oportunidade de ver ao vivo a banda que assume ter ajudado a criar “uma identidade musical nova para Lisboa”.

 

 

 

publicado às 15:02

O passado é sempre imprevisível

Por: Rute Sousa Vasco

Só mesmo os desatentos podem pensar que afinal está tudo na mesma. Nesta segunda-feira, dia 13 de junho, Espanha assistiu ao debate entre os quatro principais candidatos às eleições de 26 de junho. Rajoy, Sánchez, Rivera e Iglesias. Um debate que contou com uma audiência de 10 milhões de pessoas e que, de acordo com os analistas, se tornou tanto mais relevante quanto maior é percentagem de indecisos, 32,4%, segundo o El Pais.

 

O debate visto pelos olhos de uma portuguesa, esta portuguesa, teve várias notas dignas de registo.

 

A primeira, mesmo que seja do timbre espanhol, é a capacidade de chamar os bois pelos nomes e de não temer o confronto. Assim se ouviu, a título de exemplo, que Rajoy, líder do PP, enviou SMS de conforto ao tesoureiro do seu partido, figura central numa investigação de financiamentos ilegais e alegado detentor de contas paralelas de milhões de euros em bancos na Suíça; assim se ouviu que Iglesias, líder do Podemos e crítico do enfeudamento dos partidos à banca, obteve financiamento da Venezuela de Hugo Chávez. As palavras são ditas, sílaba a sílaba. A indignação, que tão precioso apanágio é da classe política, manifesta-se, mas fica dito e registado.

 

A segunda nota é a forma como os números se tornaram a mais potente arma de arremesso. Foi um debate cheio de números: do défice, do desemprego, das pensões, do investimento. Todos os candidatos os tinham e todos os manejaram a seu bel-proveito. É evidente a forma como estes anos da crise europeia nos afectaram a todos – e Espanha, mesmo sem troika, não é excepção. Hoje é fundamental fazer a pergunta: como quero que seja usado o dinheiro dos meus impostos? Os cidadãos estão, finalmente, a perceber que o dinheiro do Estado é o seu dinheiro e que por isso não só têm uma palavra a dizer como contas a pedir a quem gere. A parte perigosa desta evolução de cidadania é o seu excesso, nomeadamente nas mãos de políticos e gabinetes experientes na arte do excel. Um número em si mesmo não contém uma verdade absoluta. Muitos números jogados para cima das pessoas podem simplesmente tornar qualquer verdade invisível.

 

A terceira nota é a naturalidade com que Espanha já assimilou uma efectiva mudança de moldura política. No debate a quatro estiveram dois nomes impensáveis há cinco anos: Rivera, dos Ciudadanos, e Iglesias, do Podemos. Lado a lado com os líderes vamos chamar-lhes clássicos, Rajoy, pelo PP, e Pedro Sánchez, pelo PSOE. Não foi por acaso que alguns dos momentos mais agudos do debate foram protagonizados, respectivamente, por Rajoy/Rivera e Sánchez/Iglesias. Em Espanha, não se discute apenas uma eleição. Discute-se a evolução da espécie – lá como, aliás, no resto do mundo.

 

De resto, a vida em Espanha sigue corriendo. A noite de Madrid continua animada, o Museu do Prado tem polícias armados com metralhadoras à porta e, mesmo nos hóteis mais estrelados, continua a ser difícil encontrar espanhóis a falar inglês (aliás, esta é uma proposta de Pedro Sanchez, o ensino obrigatório do inglês … Espanha, em 2016). É também a Espanha que ao sábado e domingo continua a ter jornais que fazem justiça ao ideário de ‘leitura de fim de semana’. Sabe bem um café prolongado com muitas páginas para desfolhar num El Pais ou El Mundo, mesmo que seja só ao fim de semana.

 

Há cinco anos, a Porta do Sol em Madrid era um acampamento de Indignados. O Podemos nasceu deste movimento. Há uma semana, alguma Espanha, nomeadamente a mais conservadora, indignava-se porque o líder do Podemos decidira reintroduzir a palavra ‘pátria’ no debate politico (com o slogan La patria eres tú). De quem é a pátria afinal, nestes tempos perigosos, em que voltamos a debater conceitos que são velhos conhecidos e nem sempre por boas razões?

 

Muitos diziam que nada ia mudar, tudo iria passar. Cinco anos é muito pouco tempo. Mas quando se olha para trás e se recordam algumas análises, é tentador recordar que não só a História é escrita pelos vencedores, como, para quem pode impor a ‘sua’ História, o passado é sempre imprevisível – ou pode ser aquilo que se quiser.

  

Tenham um bom fim de semana

  

Outras sugestões de leitura:

 

Por estes dias e até setembro, ir a Madrid e não ver a exposição dos 500 anos de Bosch no Museu do Prado é como ir a Roma e não ver o Papa. Recomenda-se a exposição, atenção às marcações prévias (é boa ideia fazê-las) e já agora fiquem também com um texto de opinião que fala do PSOE e do Jardim das Delícias.

 

Menos jornalistas, mais redes sociais, menos receita, mais bloqueadores de publicidade. Como estamos a consumir as notícias, que regras aceitamos por boas, como se paga a informação, são algumas das questões fundamentais no sector dos media hoje. A ler o último relatório do Reuters Institute.

publicado às 11:47

O Portugal de “mexam esse traseiro” e o Portugal de “o meu irmão bateu-me primeiro”

 Por: Rute Sousa Vasco

Na semana que hoje termina, duas entrevistas merecem uma leitura atenta. Ambas falam de Portugal e dos portugueses, ambas trazem uma visão do que somos não encapsulada no que fica bem a toda a gente dizer que somos. Os entrevistados são de áreas políticas bastante diferentes e têm uma visão do mundo substancialmente distinta, mas ambas as entrevistas nos remetem para um país de pessoas pouco exigentes e de verdades feitas, o que na realidade é capaz de ser uma e a mesma coisa.

 

 

Os entrevistados são, respectivamente, Nuno Garoupa, professor universitário e ex-presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos, ao SAPO24, e José Soeiro, deputado do Bloco de Esquerda e autor do livro “A Falácia do Empreendedorismo”, ao Jornal I, e os entrevistadores, pela mesma ordem, a Isabel Tavares e o Nuno Ramos de Almeida. A qualidade das duplas também se traduz na qualidade da conversa.

 

Sobre a exigência

 

Diz Nuno Garoupa: “Podemos fazer leis mais estreitas em relação aos períodos de nojo, por exemplo, mas se as pessoas quiserem dar a volta à lei continuam a fazê-lo. O problema é que a sociedade portuguesa não é muito exigente. Não vale a pena falar em nomes populares, mas há várias pessoas que publicamente se fazem facilitadores e continuam aí sem qualquer problema social, já nem digo legal ou de outra natureza, em vez de ficarem afastadas durante anos.”.

 

Os facilitadores são uma profissão altamente promissora em Portugal. E não são apenas os facilitadores-negociadores, aqueles que sabem coisas, que têm uma agenda de números de telefone valiosa e sobretudo pessoas que os atendem quando ligam. Há todo um outro escalão que vive em modo agenda de almoços, jantares e eventos a que não podem faltar, que não se esquece do telefonema sempre cortês a dar os parabéns, à direita e à esquerda, que está sempre ansioso de proximidade por qualquer lugarzito que cheire vagamente a poder. Este segundo escalão tem, por sua vez, amigos que deles não se esquecem porque sabem bem o quanto facilitam naquelas situações em que são precisas vozes para fazer o coro do aplauso ou da defesa da honra pública. Nice guys.

 

Sobre as verdades feitas

 

Diz José Soeiro ao Jornal I: “…começámos a frequentar cursos de criação do próprio emprego, cursos de empreendedorismo e para desempregados. Fomos, nomeadamente, a cursos da Associação Nacional de Jovens Empresários, num desses fóruns do empreendedorismo. Nós vamos para uma sessão que tinha como tema “Conquistar Emprego em Tempos de Crise – Estratégias para o Sucesso”, em que o formador, no final da sessão, revela a fórmula do sucesso, que era o MET ao quadrado, e pergunta às pessoas o que significava essa sigla. Umas dizem motivação, emprego, trabalhadores, tenacidade... Ninguém acertava, e ele revelou no fim que era “mexam esse traseiro ao quadrado”. Por um lado, é caricato e quase ridículo, mas é verdade que estas sessões existem e são financiadas pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional e são apresentadas a milhares de desempregados como uma saída para o problema do desemprego.”

 

Para muitos, o empreendedorismo é simplesmente a pílula do dia seguinte para todos os que ficaram ou nunca encontraram sequer um emprego. Já assisti pessoalmente a dezenas de discursos iguais, com as mesmas palavras “curativas” – aquelas que, depois de ouvidas, transformam para sempre a vida de quem as escuta e fazem nascer o "homem novo". Há várias premissas na bula desta pílula magnífica: 1) Todas as pessoas têm ideias e já agora boas ideias de negócio 2) Todas as pessoas são capazes de executar ideias de negócio 3) Se há pessoas que não têm ideias ou capacidade de execução para serem empreendedoras, têm de ser treinadas, admoestadas, corrigidas. MET ao quadrado – mexe esse traseiro, pois então.

 

Esta verdade feita de que somos todos empreendedores, porque essa é a maneira certa de viver nos dias de hoje, provoca danos a vários níveis. Em primeiro lugar, aos elos mais fracos – aos que não são, não têm qualquer aspiração ou capacidade para ser, mas, por se encontrarem em situação de desemprego, procuram uma solução, qualquer solução. Muitos destes já foram medicados com a pílula e muitos já sofreram efeitos secundários perversos – como, por exemplo, ficarem ainda em pior situação sendo patrão do que na condição de desempregado.

 

Em segundo lugar, esta verdade universal prejudica também quem efectivamente tem ideias e capacidade de execução, quem efectivamente é empreendedor – e sim, felizmente, temos hoje um número crescente de pessoas que, por opção e pelas competências que detêm, querem ser donas do seu próprio projecto, seja ele um negócio ou outra coisa qualquer. São óptimas notícias num país avesso ao risco e ao fracasso. Mas é péssimo quando este grupo é confundido, o que não acontece poucas vezes, com a tribo de wanabees que gastam o léxico do empreendedorismo, não perdem romaria a conferências e afins e a única ideia que efectivamente têm em mente é que é preciso saber aproveitar a “onda” do empreendedorismo. Têm bico amarelo como um pato, têm penas como um pato e andam como um pato. Logo, devem ser um pato. Neste caso, um empreendedor.

 

A presunção de que uns e outros são a mesma coisa é apenas intoxicação – e em alguns casos veneno.

 

Facilitadores e ‘empreendedores-wanabee’ são faces diferentes de uma mesma moeda. O Portugal pouco exigente consigo próprio de que fala Nuno Garoupa. O Portugal em que os amigos e conhecidos dão um jeitinho a quem não for muito incómodo e souber estar no sítio certo. O Portugal em que não se fazem juízos críticos, porque nunca se sabe quando nos calhará a nós. Nuno Garoupa refere-se a este modus operandi como a infantilidade de o meu irmão bateu-me primeiro: “Quando se colocou a discussão de Maria Luís Albuquerque ir para a Arrow Global, um dos argumentos do PSD e da direita mediática foi que havia o caso de Maria de Belém na Espírito Santo Saúde e de Manuela Ferreira Leite no Santander. Ou seja, o argumento não foi se pode ou não e por que motivo, mas sim é aceitável porque outro já fez. Isto é um argumento de recreio (…) Provavelmente, Maria Luís estava errada, como esteve Maria de Belém, como esteve Manuela Ferreira Leite e esta dinâmica reflecte alguma falta de maturidade da nossa sociedade nestes assuntos”.

 

Estes tiques nacionais que teimam em não desaparecer são uma espécie de nuvem por cima das nossas cabeças, mesmo que invisível, mesmo nos dias de sol. Ajudam certamente a explicar que, de acordo com o Índice Vida Melhor que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) divulga de dois em dois anos, Portugal seja o país mais insatisfeito com a vida que leva. Lê-se no Público: “Como é a vida em Portugal em 2016? Os rendimentos estão abaixo do nível médio da OCDE. A insegurança no mercado de trabalho é grande. A taxa de desemprego de longa duração atinge os 8,3%. Desde 2009, há cada vez mais pessoas a trabalhar longas horas por rotina.”

 

Isso faz de nós insatisfeitos, mas não exigentes. À excepção de facilitadores e empreendedores-wanabee. Eles andam por aí e dão-se bem com o nosso clima.

 

Tenham um bom fim de semana.

 

 

Outras sugestões de leitura

 

Sobre a exigência ou falta dela e as verdades assim-assim, temos mais um capítulo da novela Banif. Afinal não havia pressa, diz a Comissão Europeia, e as férias na neve não tiveram qualquer impacto na pressão para a decisão sobre o futuro do banco. A decisão foi das autoridades portuguesas, diz a Comissão. De certeza que a história não fica por aqui – stay tuned.

 

A Comissão Parlamentar de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto realizou esta semana, no dia 1 de junho, uma Audição Parlamentar sobre “Os Novos Desafios da Comunicação Social”. Não tenho link para partilhar, mas estive presente e esta foi e é não apenas uma iniciativa que dá sentido ao espírito que uma Assembleia da República deve ter, como foi organizada tendo como primeira premissa efectivamente ouvir e não discursar. O Parlamento é um dos locais por onde deve passar a discussão sobre o futuro dos media e o impacto no tipo de democracia em que queremos viver e esta iniciativa só pode ser de saudar.

 

E fecho com uma ideia que primeiro se estranha e depois se entranha. O ‘culpado’ é Elon Musk, o senhor Tesla, o senhor SpaceX, o grande senhor da inovação nos dias de hoje. É provável, disse ele, que todos nós, humanos, não sejamos mais do que personagens de uma espécie de videojogo criado por uma civilização mais avançada. Ouçam-no e decidam se querem ou não entrar nesta discussão.

publicado às 13:43

Angola não é nossa e a banca nunca foi

Por: Rute Sousa Vasco

 

A memória dos 500 anos de colonização portuguesa é preciosa numa semana em que João Salgueiro comparou a actual situação da banca em Portugal às ex-colónias. João Salgueiro, 81 anos, além de um economista reputado, foi Ministro de Estado e das Finanças, vice-governador do Banco de Portugal e presidente da Associação Portuguesa de Bancos. Ou seja, desempenhou papéis nas principais instituições que se relacionam com a banca, além de também ter trabalhado em bancos.

 

 

Hoje é o representante de um grupo de economistas, gestores e promotores do manifesto "Reconfiguração da Banca em Portugal - Desafios e Linhas Vermelhas", documento - ou manifesto, como já foi chamado - que o levou a uma audiência com o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. E foi à saída dessa audiência que João Salgueiro considerou a situação de urgência da banca portuguesa semelhante à que Portugal viveu com as ex-colónias: "Podemos imaginar vários tipos de problemas que existem [na banca] que têm de ser resolvidos a tempo. É uma situação muito semelhante à da descolonização. Se não se encontram as soluções a tempo, vamos pagar o custo durante décadas".

 

Isto acontece na mesma semana em que a Assembleia da República foi palco de mais uma sessão sobre como é que mais um banco, neste caso o Banif, se tornou um problema de 10 milhões de portugueses.

 

E a mesma semana em que foi finalmente agendada para o dia 24 de Maio, as alegações finais do julgamento do processo principal do caso Banco Português de Negócios (BPN). Um julgamento que começou há cinco anos e cinco meses (15 de Dezembro de 2010) e em que se realizaram 401 dias de sessões. Foram ouvidas 170 pessoas, entre as quais 77 testemunhas de acusação, 79 testemunhas de defesa e 35 testemunhas abonatórias. São 15 arguidos.

 

Desde que o BPN implodiu, passaram-se oito anos.

 

Foi também a semana em que foram comunicados os resultados trimestrais do banco de todos nós, a Caixa Geral de Depósitos. Teve um prejuízo de 74,2 milhões de euros e precisa – também com urgência, como tudo o que se passa actualmente com a banca – de um aumento de capital. Estimava-se que fossem necessários dois mil milhões – agora já se considera que poderá ser o dobro.

 

As contas com a banca são, em regra, assim – excelentes níveis de previsibilidade e sem grandes desvios.

 

Para quem ainda não percebeu do que é que João Salgueiro, e seus pares, estão a falar quando assinam manifestos e comparam a crise da banca ao desfecho que Portugal deu à sua presença de 500 anos em África, vale a pena ler Nuno Amado. O presidente do BCP assumiu ontem que o banco que lidera pretende ser “o” banco privado português a sobreviver à concentração no sector. Disse Amado: “É provável que em Portugal passe a existir, a curto prazo, um banco público – a Caixa Geral de Depósitos – e um banco privado, que eu espero que seja o BCP”. Mas disse mais coisas: “Estamos cientes de que os clientes mudaram, que a procura do crédito baixou e que as opções pelo digital são crescentes (…)”. Tudo isto num cenário em que existem 120 bancos sob supervisão do BCE e quatro deles são bem conhecidos e só os “nossos” maiores bancos: CGD, BCP, Novo Banco e BPI.

 

Sobre o papel da banca na economia já muito se escreveu. Está nos livros de economia e, na realidade, só mesmo aí se trata de um papel perfeito. Na vida real é tão imperfeito quanto a natureza humana e quanto os homens e mulheres concretos que os gerem. Podemos pensar, simplesmente, que Portugal tem tido um enorme azar com os “banqueiros” que nos calham. Como já aqui escrevi, não acredito que seja disso que se trata. Não são melhores ou piores que outros banqueiros noutros locais da Europa e do mundo. Quanto muito vivem numa sociedade com mais vícios, maiores reverências e clientelismos do que outras, porventura, mais transparentes. E isso sim faz alguma diferença.

 

Mas o problema real é o da banca e o da circulação do dinheiro na economia na era da Uber ou do Airbnb ou de outro novo player num mercado que todos os dias se redesenha. E o mercado do dinheiro não é excepção nesta era da desmaterialização e da democratização do acesso a mercados e negócios.

 

O pensamento convencional sobre estes temas converge para preocupações de soberania – as mais elevadas – e de privilégios – as mais corriqueiras. Haver menos bancos em Portugal significa menos poder e menos poderes. Menos administradores, menos ‘clusters’ de agências, escritórios de advogados, consultores alocados a cada um destes ditos ‘centros de decisão’.

 

Certamente é um problema que tira o sono a muitos, nomeadamente aos visados, mas, para a esmagadora maioria dos portugueses, a vida continua igual. Não se passa nada agora, porque também não se passou nada antes. A esmagadora maioria dos portugueses não tem qualquer sentimento de profunda gratidão ou saudosismo com aqueles bons tempos em que os bancos eram nossos amigos, nos ajudavam a construir um negócio ou simplesmente a começar a nossa casa de família. Porque simplesmente nada disto foi verdade para a maioria dos portugueses, apenas foi verdade para aquela minoria amiga de banqueiros, colega de partido e de negócios . Aquelas belas amizades que permitiram financiar grupos falidos e sessões em hóteis de luxo e espaços emblemáticos (ainda se lembram do Compromisso Portugal?).

 

É por todas estas razões e ainda mais algumas que aqui não cabem que é infeliz comparar a banca com as ex-colónias.

 

Não fomos os melhores colonizadores nem descolonizadores mas deixámos laços. Ou como diz o nosso presidente, afectos. Angola não é nossa, mas lá, como em Moçambique, Timor ou outras geografias em que portugueses se cruzaram com outros povos, ficou uma história comum, uma língua comum e vidas entrelaçadas.

 

Portugal veio embora de África tarde, a más horas e com uma consciência de culpa que, mais de 40 anos depois, ainda não está sanada.

 

A banca foi-se embora de Portugal sem remorso e deixou uma conta pesada.

 

Tenham um bom fim de semana

 

 

Outras leituras:

 

Há quatro anos assisti em casa a um excerto de um concerto extraordinário de um senhor que foi dos primeiros músicos que ouvi ao vivo. Se ontem não foram ouvir Bruce Springsteen, é quase uma maldade sugerir que leiam o que perderam. Mas ontem eu fui e este artigo do Público é um retrato muito fiel do que por lá se passou.

 

Ainda sobre a América, fica esta sugestão: As sondagens preferem Sanders, mas a luta é entre os "desonestos" Trump e Clinton. Acho que não é preciso dizer mais nada. 

 

"Morley foi um dos mais importantes jornalistas de qualquer meio, de sempre". Foi assim que o patrão da CBS se referiu à “voz” do 60 Minutes, que esta semana morreu aos 84 anos, poucos dias depois de se ter reformado. "Ele era também um cavalheiro, estudioso, um grande contador de histórias …".

publicado às 15:12

As coisas que os homens e algumas mulheres nos explicam

Por: Rute Sousa Vasco

Só ontem encarei o mais recente livro de Rebecca Solnit publicado em Portugal, intitulado “Os homens explicam-me coisas”. Além de um título capaz de fazer revirar os olhos a muitos, o que é sempre de saudar, a contracapa conta com um excerto imperdível. “Solnit começa por contar um episódio cómico, em que um homem lhe explica um livro que não leu e que foi ela que o escrevera. Este episódio deu origem a um texto postado no blogue «TomDispatch» e teve uma repercussão enorme. Foi assim cunhada a palavra mansplain para a situação em que os homens explicam às mulheres coisas que elas sabem e que eles não sabem, chegando a ser considerada a palavra do ano em 2013”.

 

Disclaimer: Tenho, em regra, pouca simpatia para o feminismo servido como (mais um) discurso politicamente correcto. O que me torna uma não-entusiástica do Dia da Mulher ou das quotas como forma de introduzir justiça num mundo em que os homens continuam a ocupar a maior parte dos lugares de decisão.

 

Voltando ao livro de Solnit. Depois de o ter as mãos, voltei ao artigo do Público destacado aqui, no SAPO24. Um artigo que recomendo vivamente para quem quiser saber mais sobre a autora, o seu trabalho e o seu pensamento, mas do qual vou, oportunisticamente, usar o excerto que me permite falar da apropriação do saber dos outros e, sim, muito provavelmente, do enorme aproveitamento que ao longo dos séculos os homens têm feito do saber feminino. Escreve a Isabel Lucas: “De tudo isto surgiu uma expressão, mansplaining, que se aplica sempre que um homem explica algo a uma mulher assumindo, por princípio, que ela precisa que ele lhe explique essa coisa mesmo que tal não lhe tenha sido pedido.”

 

Como já referi, o feminismo não é, em regra, o meu ponto de contacto com uma série de temas. Incluindo aqueles que se podem considerar, justamente ou não, feministas na sua essência, mas que tendo a ver como de elementar justiça. O que significa que se o desequilíbrio fosse, por estapafúrdio que possa parecer, ao contrário, para mim seria exactamente o mesmo.

 

Mas é verdade que alguns temas têm sexo e é ainda mais verdade que se tornou fácil – para homens e mulheres - jogar simplesmente com as regras de um jogo que tem séculos. A apropriação por terceiros de uma determinada ideia ou saber acontece todos os dias nas empresas, na política ou, de forma mais banal, nas redes sociais, apenas para referir esferas de grande visibilidade.

 

E, sim, é provavelmente mais frequente a apropriação de conhecimento ou de criatividade por parte dos homens – porque em regra estão em maior número em lugares que permitem poder fazê-lo. Mas, e desculpem feministas que possa enervar, terá isso a ver com sexo ou com poder? É que não poucas vezes já presenciei exactamente o mesmo comportamento por parte de mulheres, desde que em lugares de poder, o que me faz acreditar mais num ‘defeito’ da natureza humana do que propriamente num ‘defeito’ determinado pelo sexo.

 

Ainda no artigo do Público, diz Rebecca Solnit: “Os homens explicam-me coisas, ainda hoje. E nunca nenhum homem pediu desculpa por me explicar, erradamente, coisas que eu sei e ele não. Ainda não, mas, segundo as estatísticas, posso viver mais quarenta e tantos anos, por isso há esperança. Embora me pareça melhor esperar sentada…”. É verdade, os homens explicam-nos coisas, não deve ser difícil à maioria das mulheres lembrar-se de exemplos de mansplaining, o tal termo cunhado por Solnit. Mas incomoda-me, como mulher e sobretudo como ser humano, muito mais a injustiça da apropriação do que o sexo de quem se apropria. O facto de as melhores ideias dependerem, na maior parte das vezes, da esfera de poder de quem as apresenta, empobrece-nos a todos. O facto de pessoas em lugares de poder, homens ou mulheres, não terem vergonha de se apropriarem de ideias de outros, empobrece cada um que o faça.

 

Dizia Shakespeare que uma rosa com outro nome não cheiraria tão bem. É mais ou menos isto que acontece quando avaliamos as ideias com base na pessoa que a apresenta. Melhora se for um homem? Se estiver num lugar de poder – e sabemos que a maioria dos lugares de poder são ocupados por homens – sim. E essa é a injustiça que importa corrigir, preferencialmente, na minha opinião, sem recorrer a quotas que transformam mérito em burocracia. Depois vem o resto – seja o mansplaining, seja o mesmo tique de apropriação em versão feminina.

 

Tenham um bom fim de semana

  

Outras sugestões

 

Para Emma Thompson, o facto de os estúdios de cinema estarem actualmente a escolher “jovens estrelas” com base no número de seguidores que têm nas redes sociais é, passo a citar, um desastre. Na sua opinião, trata-se de vender filmes usando os perfis destes actores como canal de distribuição e promoção mas descurando a componente artística.

 

O mundo é definitivamente digital e ai de quem prefira fazer de conta que não vê. Na semana em que decorreu em Lisboa a Interact 2016, que trouxe boas ideias e novos conceitos para quem trabalha em media digital, ficam duas notas deste admirável mundo novo:

  • 43% dos utilizadores do Facebook não fazem ideia onde foram originalmente publicados os conteúdos que leram na rede social (também pode ler-se ao contrario, 57% sabe, é sempre uma questão de perspectiva)
  • As finais da Liga Europa e da Liga dos Campeões vão ser transmitidas em direto no Youtube no canal BT Sports. Futebol em directo, esse activo que até há pouco tempo era propriedade de um meio chamado televisão.
publicado às 12:30

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