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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Que forças temos para enfrentar esta ameaça?

Por: Francisco Sena Santos

 

 Os bárbaros do “Estado Islâmico” (EI), de facto um bando de criminosos que se autoproclama califado e que controla um território com o tamanho das ilhas britânicas, não gostam que a gente se divirta, ria e cante e dance em bares. Era só o que faltava cedermos, seja na mais romântica capital europeia ou onde quer que seja, perante a sua ameaça. Mas também é necessário que os Estados democráticos estejam fortes e competentes para defender os seus cidadãos, ou seja, para nos defender.

 

Armaram-nos uma guerra, é um facto. Também é inquestionável que há que ir lá onde eles estão e destruir-lhes as bases para esse poder terrorista. Mas, mais ainda do que bombardeamentos, são necessários 007 que saibam infiltrar-se no inimigo, antecipar as ações terroristas em preparação e desmontar a cadeia do terrorismo. Esta é uma cadeia com muitos elos e demasiadas ambiguidades.

 

Esta guerra tem no lado inimigo, para além dos soldados, os guerrilheiros urbanos, adormecidos, que são matadores à espera de ordem para atacar, e que estão no meio de nós. A monstruosa chacina da noite de 13 de novembro está a mostrar como o bairro de Molenbeek, em Bruxelas – fica a uns minutos da Grand Place – aparece como um viveiro de terroristas. É um bairro que tem quarteirões tranquilos e outros com má reputação, droga, delinquência, islamismo radical, que não é seguro percorrer. Vivem hoje em Molenbeek umas 100 mil pessoas, grande parte formada por segundas e terceiras gerações de emigrantes de África e do Médio Oriente. A taxa de desemprego está acima dos 30%, sendo que ultrapassa os 40% para os jovens. É gente que vive no limbo, estigmatizada.

 

Sabe-se que há ali, camufladas, várias mesquitas com imãs fanáticos que alimentam a propaganda contra o modo de vida dos europeus, a quem chamam cruzados. São imãs fundamentalistas que facilitam nesses santuários o recrutamento dos que são educados para nos destruir, inclusive através do sacrifício kamikaze. Não esqueçamos que muitos comunicados do “EI” terminam com a proclamação “vocês vão perder porque nós amamos a morte mais do que vocês amam a vida”. Progressivamente, o espaço público, em França como na Bélgica e em Inglaterra, foi sendo ocupado por franjas do Islão em deriva sectária, gente que foi puxada para um modelo de sociedade ao mesmo tempo retrógrado e violento.

 

Fica evidente que a par da chamada intelligence, espécie de 007 infiltrados entre os que estão em deriva radical no meio de nós, é vital, para responder a este muito complexo desafio, a ação política e cultural. Não só para explorar hipóteses eficientes de integração e convivência mas também para valorização do nosso agora tão desqualificado sistema democrático. 

 

A desvalorização quotidiana da vida política, aqui como em quase toda a Europa, é destrutiva. Faz o jogo do inimigo. Falta-nos quem apareça com audácia à altura das aspirações, é uma queixa que todos repetimos. Bem andou o presidente François Hollande ao proclamar, ontem, no discurso de resistência e de guerra perante o Congresso, em Versalhes, que, nas atuais circunstâncias “le pacte de sécurité l’ emporte sur le pacte de stabilité”, ou seja: o pacto de segurança dos cidadãos sobrepõe-se ao pacto europeu de estabilidade. Aí está uma recomendação essencial aos dirigentes políticos europeus: quando estamos, como está assumido, em estado de guerra, os apertados constrangimentos impostos às finanças públicas dos países europeus não podem ser a prioridade. Estamos perante conflitos até aqui desconhecidos, é preciso que haja a sabedoria para alargar a malha nos orçamentos, e com sensatez viabilizar os recursos necessários. Que a Europa aprenda a ser, de facto, uma união, solidária.

 

Meteram-nos numa guerra que é, ao mesmo tempo, militar, cultural, teológica, ideológica, psicológica e económica. Evidentemente, como tantos especialistas têm repetido, é preciso fazer rebentar os fluxos financeiros que alimentam os vários anéis da cadeia do terrorismo. Fechar-lhes a torneira do dinheiro do petróleo e bloquear o circuito do armamento. Quantos dos investidores nos mercados financeiros internacionais serão também financiadores deste terrorismo?

 

Também é uma guerra de propaganda. Os terroristas do “EI” dominam com eficiência um vasto território virtual na internet. Usam fortemente a liberdade das redes sociais para fazer campanha contra a liberdade. Como se faz a contrainsurreição? Anonymous promete meter-se na primeira linha.

 

O que temos pela frente é uma guerra longa perante um inimigo que está numa lógica política com vista ao nosso extermínio. E é de prever que o necessário combate iniciado aos terroristas que ocuparam o vazio no Iraque e na Síria e ali montaram bases para o alargamento do califado do terror vá exacerbar os jiadistas que estão entre nós.

 

É precisa vontade otimista para enfrentar a imprevisibilidade de um quadro geral que, tal como está, puxa para o pessimismo.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA

 

José Manuel Rosendo é um grande repórter das guerras do nosso tempo. Esta reportagem é essencial para, com rigor, sem efeitos especiais, compreendermos a complexidade do que está a acontecer no norte da Síria onde os curdos peshmergas mostram como é possível bater o inimigo. Não fosse a contínua ambiguidade de Erdogan (ele é mais hostil ao IS ou aos curdos?) e talvez os terroristas já tivessem menos espaço.

 

A poesia de Adonis, poeta sírio com passaporte libanês, é um fogo-de-artifício de ideias filosóficas e profecias, com escrita puríssima. Ele tem sido várias vezes citado para o Nobel e é reconhecido como o grande poeta árabe vivo. Vale ler esta entrevista.

 

Um só infiltrado entre centenas de milhar de refugiados sírios não pode ser argumento para que a Europa renuncie à sua matriz de terra generosa de acolhimento. Já havia muitos europeus a clamarem que é levantando muros e fechando fronteiras que se estanca a ofensiva dos terroristas. Um passaporte sírio, afinal falso, em um dos kamikaze de Paris e a revelação de que ele passou pela Grécia a declarar-se refugiado está a servir de munição para esses que querem barricar-nos. Como recomenda o ex-primeiro-ministro centrista italiano Enrico Letta não nos enganemos sobre quem são os inimigos: os refugiados são vítimas dos terroristas, não são os terroristas.

 

O julgamento dos 17 ativistas angolanos é também um exame ao regime angolano. A imprensa internacional não vai estar distraída. Como se vê aqui.

 

Uma primeira página escolhida hoje entre as mostradas no SAPO JORNAIS.

publicado às 09:20

Segurança Nacional

Por: Rute Sousa Vasco

 

Os russos bombardeiam a Síria, os americanos dizem que, por engano, os mísseis de Putin atingiram o Irão, a ONU quer um governo de união na Líbia e eu já tenho coisas combinadas.

 

Há poucas semanas, em pleno Verão, almocei em Lisboa com um amigo português que há muitos anos vive em França. No decorrer da conversa, falámos de refugiados. Por causa de refugiados falámos da guerra na Síria. Por causa da guerra na Síria, falámos da Turquia. Acabámos com ele a perguntar-me se eu teria mais duas horas para que me pudesse começar a explicar o que se está a passar.

 

Facto: os acontecimentos no Médio Oriente são complexos, nada binários e não se explicam entre dois cafés.

 

Facto: a maior parte de nós, ocidentais, europeus, portugueses, não tem disponibilidade para perceber o que se passa no seu próprio país, quanto mais lá longe.

 

Facto: as duas premissas anteriores podem conduzir-nos a tempos muito negros e isto não é uma afirmação produzida por causa do novo episódio de Segurança Nacional que ontem estreou em Portugal.

 

Todos os dias caem bombas, todos os dias morrem pessoas, todos os dias pessoas cujos nomes não memorizamos trocam acusações. Impressionam-nos famílias com velhos e bebés a jogarem a sua sorte em barcos sofríveis ou em percursos acidentados. Impressiona-nos o bebé Aylan. Impressiona-nos Noujain Mustaffa, a adolescente do sorriso doce. Enfurece-nos o proto-ditador húngaro, mesmo que não saibamos o nome. Enfurece-nos a lentidão da Europa. Enfurece-nos o vizinho do lado que vê perigosos radicais onde vemos simplesmente pessoas.

 

Mas, ainda assim, continuamos sem tempo para perceber o que se passa e provavelmente devíamos, há muito tempo, ter começado por aí.

 

Ontem à noite, em Londres, Meryl Streep falou no evento “Mulheres no Mundo” que foi organizado este ano pela primeira vez. O The Guardian faz-nos chegar as vozes de várias mulheres presentes neste encontro. Streep, a actriz que dará voz a Emmeline Pankhurst no filme “Suffragette”, lembrou que, apesar do direito do voto estar consagrado no Ocidente, ainda há muito para fazer. Ursula von der Leyen, a primeira mulher a ocupar o cargo de ministra da Defesa na Alemanha, também falou. Foi ela, mãe de sete filhos, que introduziu a licença parental partilhada na Alemanha (quando era ministra do Trabalho) e foi ela que recordou a grande tempestade que isso causou entre alguns homens de meia idade instalados na política e a enorme ajuda que teve de outros homens instalados na política.

 

Depois falou a rainha Rania, da Jordânia e não podia não falar de refugiados. Na Alemanha entram por dia, actualmente, 10 mil refugiados. A Jordânia, país ‘encravado’ entre a Síria, o Iraque e Israel, tem no seu território 1,4 milhões de refugiados sírios. São 20% da população e têm uma fatia de 25% do orçamento do país alocada.

 

“É como se o mundo árabe tivesse sofrido uma série de tremores de terra e todos os dias sentíssemos as ondas de choque”, disse Rania. Ela, nascida numa família palestiniana, pediu, uma vez mais, que o Ocidente não se deixe contagiar pela propaganda extremista. “É muito perigoso pensar no ISIS como islâmico porque de islâmico não tem nada …”.

 

A noite fechou com o testemunho de Vian Dakheel Saeed, uma representante Yazidi (comunidade étnico-religiosa curda) no parlamento do Iraque. Lembrou as 5800 mulheres e crianças raptadas pelo ISIS. Lembrou que muitas são vendidas como escravas sexuais. Lembrou que mil crianças entre os 3 e os 10 anos são mandadas pelo ISIS para campos de treino para se tornarem a próxima geração de terroristas. A irmã também falou. Delan Dakeel Saeed, médica no hospital universitário Rezgary, falou das violações de mulheres e de meninas e do horror que presenciam.

 

Ontem estreou em Portugal a nova temporada de Segurança Nacional. Numa das cenas iniciais, um dos protagonistas, Quinn, agente da CIA, é chamado a contar aquilo a que assistiu em dois anos na Síria. O discurso é contido, factual, desprovido de qualquer sinal de emoção.

 

Quinn é pressionado por outro elemento da CIA, sediado em Langley, na Virgínia, para que diga se a estratégia seguida pelos americanos é correcta ou não. O discurso azeda e termina com duas possibilidades de estratégia: ou se enviam não apenas tropas, mas também batalhões de médicos e professores para as zonas de guerra ou se transforma toda aquela zona num parque de estacionamento.

 

Para os cínicos: antes de responderem, oiçam os relatos de pessoas como as irmãs Dakheel Saeed e depois voltem a pensar no assunto.

 

Tenham um bom fim-de-semana!

 

Leituras sugeridas

 

Já que estamos em maré de nos interessarmos pelo mundo dos outros, fica a sugestão para lermos Svetlana Aleksievitch, a jornalista e escritora russa que ganhou o Nobel da Literatura. Já agora, Aleksievitch é autora de uma série de cinco volumes intitulada "Vozes da Utopia” que foi iniciada com "A Guerra Não tem o Rosto de uma Mulher" baseado em entrevistas a centenas de mulheres que participaram na II Guerra Mundial.

 

Porque a música nos ajuda a levar a vida para a frente, levamos John Williams para o fim de semana. Autor de bandas sonoras inesquecíveis como as de Star Wars, Tubarão, Indiana Jones, Harry Potter e Jurassic Park , foi o escolhido pela American Film Institute (AFI) para receber o prémio carreira deste ano. O melhor tributo é escutar a sua música.

 

A fechar, uma notícia curiosa e quem sabe animadora. Talvez a imortalidade seja uma … anémona. Os cientistas descobriram que este animal, que já se julgou ser uma planta e que partilha ancestrais comuns com os humanos, pode encerrar o segredo da imortalidade.

publicado às 09:54

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