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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Os salários, o ovo e a galinha

O que nasce primeiro, o desenvolvimento ou os salários mais altos? A ordem não é indiferente e a confusão entre causas e consequências é comum

 

Há poucos temas que atraiam mais demagogia do que a discussão sobre níveis salariais e ordenados mínimos. E a confusão começa logo na mistura pouco inocente ou pouco informada entre causas e consequências.

 

Que em Portugal o salário mínimo é miserável e as retribuições médias são medíocres é um dado objectivo. E não é preciso comparar com os países mais próperos da Europa, basta ter a noção do que pode uma família fazer com os 530 euros de salário mínimo ou mesmo com os cerca de 1.000 euros de retribuição média para perceber que somos um país pobre.

 

Estes são os dados. E a questão é esta: os salários são baixos porque a economia é pouco desenvolvida e competitiva ou a economia é pouco desenvolvida e competitiva porque os salários são baixos?

 

Não tenho dúvidas que os baixos salários são uma consequência e não uma causa. São uma consequência de um dado essencial, que é a produtividade.

 

Diz-nos a Pordata - pode consultar aqui - que em 2014, em média, cada português produziu 70,1 enquanto cada trabalhador da UE produziu 100. Esta é a causa. E a consequência da pobre produtividade são, entre outras, os pobres salários.

 

Podemos e devemos discutir quais são os motivos de produzirmos tão pouco quando até trabalhamos mais horas e como devemos aumentar a eficiência do nosso tempo. Esse é um exercício fundamental para que alguma coisa se altere.

 

É da fraca gestão e organização das empresas. É dos custos de contexto que o Estado impõe. É de maus hábitos de trabalho e fraca qualificação de muitos de nós. É dos custos excessivos de alguns serviços básicos como as telecomunicações ou energia. É do facto de termos um tecido empresarial que ainda está muito posicionado em produzir com baixo valor acrescentado, baixa inovação, baixo design. É da probreza da nossa marca-país e da inexistência de marcas de produtos e serviços fortes que levem os consumidores a pagar mais por eles. É disto tudo e muito mais.

 

O caminho para o desastre, que já percorremos abundantemente nas últimas décadas, é pretender aumentar os salários administrativamente mais do que a produtividade. A consequência disso é a perda de capacidade competitiva das empresas, a incapacidade de estas conseguirem meios para investirem e se modernizarem, as falências, os despedimentos, o aumento do desemprego, num ciclo vicioso que perpetua a pobreza ou, quanto muito, o país de “remediados”.

 

Já tivemos tempo para aprender mas teimamos em olhar para as consequências, lamentando-as, sem observar as causas, combatendo-as.

 

E isso acontece porque discursos como o que fez o primeiro-ministro esta terça-feira são muito mais populares do que elaborar sobre a necessidade de aumentar a produtividade.

 

Disse António Costa: “Quando vemos alguns, cá dentro ou na Europa, a dizerem que em Portugal nós não nos desenvolveremos aumentando o salário mínimo nacional porque estamos condenados a viver num país de baixos salários e de pobreza, nós temos que dizer: Não. Não aceitamos viver num país de pobreza e de baixos salários”. De facto, são palavras capazes de fazer levantar uma plateia. É importante este inconformismo de não aceitar viver num país de pobreza e baixos salários. Mas é altamente demagógico insinuar que isso acontece porque há uma espécie de forças ocultas que nos impedem de ter retribuições mais altas. A haver conspiração, os conspiradores somos nós. Somos nós - governos, empresários, gestores, trabalhadores - que não temos sabido criar condições para produzir mais e ganhar em conformidade. É legitimo ambicionar ter ordenados à dimanarquesa. Mas não é possível tê-los, de forma sustentada, enquanto mantemos a produtividade à portuguesa. E se isto não é assim, António Costa está no sítio certo para o demonstrar. E para, a seguir, ganhar um Nobel e ser canonizado. Seria totalmente merecido.

 

 

OUTRAS LEITURAS 

- … e enquanto a economia não crescer bastante - a Irlanda anda já pela casa dos 5% ou 6% - durante vários anos, é certo que vamos continuar na mediocridade salarial e de properidade. As notícias são, nesta frente, más mas não surpreendentes. Se há coisa em que os políticos e governantes são peritos é em prever o futuro muito melhor do que ele acontece. No programa eleitoral do PS previa-se um crescimento de 3% para o próximo ano. A previsão do governo é agora de 1,8%.

 

- A ironia é que é um governo de esquerda a obrigar algumas empresas a aceitarem as regras de mercado mesmo quando os seus accionistas e gestores preferiam manter o seu “quintal” bem murado. A certeza é que o tema BPI está ainda no início. Aguarda-se a resposta angolana.

 

publicado às 09:44

O dia a seguir ao 25 de Novembro

Por: Rute Sousa Vasco

 

Lamento, mas não me lembro. O que felizmente me dispensa de manifestações exacerbadas sobre o perigo comunista ou sobre a reacção fascista. Sei o que aconteceu, li nos livros da História, acho que compreendi razoavelmente bem os factos e o contexto da época, mas, desculpem lá, estamos em 2015 e não é desse 25 de Novembro que estou a falar.

 

O meu 25 de Novembro é o próximo – daqui a exactamente 12 dias – e, na realidade, aquilo que me interessa é mesmo o dia a seguir.

 

O que é que a acontece a 26 de Novembro? Será o dia em que, na Assembleia da República, serão debatidos dois temas de governação importantes: a reposição dos salários dos funcionários públicos e a redução da sobretaxa do IRS.

 

As propostas a debater e a votar são apresentadas pelo partido socialista e os dois temas estão na cidade proibida dos acordos das esquerdas. Ou, se quiserem, na sua lista negra – aquela onde estão as coisas para as quais não se encontrou “acordo quanto às condições da sua concretização”, mesmo que exista “convergência quantos aos objectivos a alcançar”.

 

Ou seja, isto é tudo muito bonito, mas o problema é mesmo governar. O acto da governação, com a sua necessidade de tomar opções concretas por um lado ou por outro, é que na realidade estraga a harmonia das ideias elevadas e dos estados de alma com afinidade. O inferno são os outros, dizia o Sartre; na realidade, o inferno é mesmo a governação.

 

Só uma breve síntese das propostas sobre estes dois temas:

  1. Sobretaxa do IRS
  • O PS propõe um corte de 50% em 2016
  • O PCP e o BE pretendem que seja eliminada com efeitos imediatos
  1. Reposição dos salários dos funcionários públicos
  • O PS propõe uma redução gradual dos cortes nos salários, começando por 25% no primeiro trimestre de 2016, 50% no segundo trimestre, 75% no terceiro trimestre e repondo totalmente os salários no fim do próximo ano
  • O Bloco de Esquerda concorda com a reposição gradual dos salários
  • O PCP pretende que a reposição integral dos salários seja imediata

 

Claro que, qualquer que seja a opção sobre estas medidas, existirá um impacto nas contas públicas e claro que, como as contas públicas são escrutinadas por Bruxelas no âmbito dos acordos a que voluntariamente nos comprometemos, mais cedo ou mais tarde, os quatro aliados à esquerda vão ter de falar daquele tema delicado que se chama Europa ou política europeia. Na realidade, todos sabem que este é o tema. Todos sabem que de uma forma ou de outra é aqui que tudo começa ou que tudo acaba. Está nos livros, nos filmes e na vida das famílias – a forma como superamos, ou não, os temas-tabu, aquilo de que não se fala porque se antecipa conflito e mesmo ruptura, é exactamente aquilo que irá deixar o registo histórico.

 

O problema dos próximos meses é que estão cheios de temas espinhosos como estes. Não é por acaso que o PS traz para a frente da agenda legislativa e política temas como a despenalização do aborto ou a adopção por casais do mesmo sexo. Estes são o espaço perfeito de lua de mel, não apenas com os partidos de esquerda, mas com várias camadas da sociedade que se revêem num código de costumes e de valores progressista e não refém de dogmas religiosos ou outros. Como diria o Jorge Jesus: “Costa, isso é peaners”. Vai gerar discussão, vamos voltar a ouvir argumentos absurdos, mas essa é a “good fight” do país da Esquerda onde, imagine-se, se conseguem encontrar inclusive alguns amigos de direita do mesmo lado da barricada.

 

O problema mesmo é a chatice de governar o país todos os dias. As contas, bolas, as contas. O dinheiro que não chega para tudo. “Eles” – o Estado – que na realidade somos “nós”, todos os nós, e os impostos que pagamos. Como gerir este dinheiro? Vamos governar-nos com o que temos ou vamos mas é pedir dinheiro emprestado porque, e é mesmo verdade, as dívidas gerem-se, como dizia um aluno de Ciência Política muito falado em Portugal. Mas as dívidas também se pagam, enquanto se gerem, e, lá está, governar o país também obriga a contar com isso.

 

E por muito que toquem os violinos, é aqui, é sobretudo aqui, que saberemos, em Portugal e na Europa, que politicos teremos. Se teremos funcionários da política, motivados quais hamsters pela perpetuação da sua roda de poder, ou se teremos homens e mulheres com coragem para desafiar status quo e encontrar novas soluções e rever velhas regras. É uma batalha muito solitária durante muito tempo e provavelmente uma batalha que mais facilmente faz perder votos do que ganhá-los. Porque para ser feita em consciência implica decisões espinhosas, compromissos difíceis e um enorme sentido de responsabilidade.

 

Um conhecido meu costumava dizer que no plano ideal todos queremos só duas coisas: paz no mundo e uma casa na praia.

 

No plano ideal, todos queremos emprego para todos, pensões dignas para todos, impostos justos em que os mais ricos pagam – efectivamente – mais e não se escapam nas malhas da lei, boas escolas, bons serviços de saúde, boas estradas, bons transportes públicos. E sim, porque não, a perspectiva de todos podermos gozar pelo menos uma vez ao ano umas boas férias, mesmo que sem casa de praia.

 

Todos queremos isto e ainda bem. O bem-estar e o progresso devem ser as razões de fundo de qualquer governo, de qualquer sociedade. O problema é que, pelo meio, é preciso fazer escolhas, contas, leis e isso é muito pouco romântico, dá imenso trabalho e exige garantidamente mais do que acordos de princípio.

 

No dia 26 de novembro, a “família” de esquerda ainda não vai ter a sua prova de fogo, mas vai experimentar o desconforto de ter de tocar em assuntos de que não se fala à mesa para não estragar o jantar.

 

Sobre opções, dos Governos e das nossas

 

Os estudantes universitários nos Estados Unidos manifestaram-se contra o aumento das dívidas contraídas para pagar um curso e exigiram a eliminação de propinas nas universidades públicas.

“Isto é uma escola ou uma empresa?”, era uma das perguntas que se ouvia nas ruas.

 

O Papa Francisco propôs esta semana que o telemóvel não fizesse parte da ementa do nosso jantar. Ou seja, que não estivesse à mesa. Decerto muitos, quase todos, concordamos, decerto muitos, quase todos, experimentamos a cedência à tentação – ansiedade? paranóia? – de termos de saber o que outros estão a dizer ou a fazer naqueles minutos em que nos desligamos do mundo. Também por isso, vale a pena ler isto.

 

Tenham um bom fim de semana

publicado às 10:20

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