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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Todos diferentes, todos bons rapazes portugueses!

Por: Márcio Alves Candoso

 

Vamos falar de futebol. Um português nascido no Brasil corta uma jogada perigosa da equipa adversária na sua grande-área. A bola é recolhida por um preto da Musgueira, que avança no terreno até ter a noção do melhor passe. Manda o esférico para um mulato da Amadora, que a mete num menino branco e pobre da Madeira. Este remata à baliza, mas o guarda-redes contrário só tem tempo de a defender para um espaço vazio. Nesse mesmo sítio, surge um cigano e marca golo.

A ocorrência é verídica. Aconteceu na semana passada, aos 117 minutos de um jogo que, normalmente, só dura 90, e chegou e sobrou para que a selecção nacional de Portugal derrotasse a perigosa Croácia. Esta é a história de 23 rapazes, entre os 18 anos e os trinta e muitos, que têm em comum vestir a camisola das quinas e a cruz da Federação Portuguesa de Futebol. Falam todos português, ainda que um ou outro o conjugue malzinho. Nas suas origens, está um país pequenino, que andou pelo mundo inteiro, muito coeso na sua diferença. São todos portugueses. A nenhum lhe passará pela cabeça meter uma bomba no Rossio. Agnósticos, ateus ou cristãos, não importa. Um tem antepassados judeus. Todos filhos da cultura lusitana.

 

Há gente de todo o lado. Rui Patrício é de Marrazes (Leiria), e divide a baliza com Anthony Lopes, que nasceu nos arredores de Lyon (França) e Eduardo, um trasmontano de Mirandela. Na defesa, Cédric Soares é o actual lateral direito. Veio da Alemanha, nascido mesmo ao lado da fronteira com a Suíça, mas chegou a Portugal – zona de Lisboa - com apenas dois anos, trazido pelos pais emigrantes. Divide o lugar com Vieirinha, um rapaz de Guimarães. À excepção do guarda-redes titular, que actua no Sporting, jogam todos no estrangeiro.

 

No meio da defesa está um mestiço que fala à Norte. E nem podia ser de outra maneira, já que Bruno Alves nasceu e foi criado na Póvoa de Varzim. É filho da antiga glória local, o brasileiro Washington. Tem estado no banco, dando o lugar a Ricardo Carvalho, o mais velho da selecção, que começou a carreira na sua terra natal – Amarante. Parece ter perdido a titularidade, por sua vez, para José da Fonte, um seu vizinho de Penafiel. Já Pepe – mais exactamente Képler Laveran Lima Ferreira – veio de Alagoas (Brasil) com 18 anos, para tentar a sua sorte no Marítimo. Depois de Deco, foi o segundo brasileiro a envergar a camisola da selecção nacional; mas, ao contrário do ‘mágico’, cedo aprendeu o hino que canta sempre antes do jogo começar.

 

No lado esquerdo da defesa, um açoriano mestiço e um branco nascido em França dividem o lugar. Eliseu nasceu num bairro de Angra do Heroísmo (Terceira), filho de pais cabo-verdianos, e é o primeiro jogador do arquipélago a tornar-se campeão nacional desde que Mário Jorge e Mário Lino o fizeram nas décadas de 50 e 70. Mas, ao contrário dos seus conterrâneos, não veste a camisola do Sporting – é benfiquista desde pequenino. Para encontrar um benfiquista açoriano campeão, é preciso recuar até aos anos 40, altura em que o faialense Joaquim Teixeira envergou a camisola do ’Glorioso’ e da selecção. Açoriano e benfiquista era o Mário Bettencourt Resendes, saudoso campeão de jornalismo; outras ‘guerras’...

 

Raphael Guerreiro – é mesmo assim, com ‘ph’ – nasceu canhoto perto de St.Denis, no nordeste de Paris. Jogar no Stade de France, se Portugal chegar à final, será para ele quase um regresso a casa, depois de ter passado os anos mais recentes na Bretanha e de agora rumar a Dortmund, na Alemanha. O pai emigrante também foi jogador de futebol. Gostava de actuar no Benfica, mas para já ainda não foi possível.

 

No meio-campo, a parte mais defensiva – a chamada ‘posição seis’ - é dividida entre dois rapazes de Sintra. Danilo Pereira veio de Bissau (Guiné) e William Carvalho tem ascendência angolana. Mais à frente aprece Adrien Sébastian Pérrouchet Silva, nascido em Angoulême e criado em Arcos de Valdevez. A 650 quilómetros de distância da terra minhota, nasceu João Moutinho,'marafado' de Portimão. Já Rafael Silva, mais conhecido por Rafa, é um dos dois únicos lisboetas de gema a actuar na selecção.

 

No Porto, mais concretamente em Pedras Rubras, nasceu João Mário, que havia de tomar o avião para Lisboa para representar o Sporting. É de família angolana - os pais são de Luanda – e tem dois irmãos na alta roda do futebol – o bracarense Wilson Eduardo e o jogador de futsal do Belenenses, Hugo Eduardo. Seu vizinho de nascimento é André Gomes – Grijó, Gaia -, que cedo rumou ao Benfica de agora actua no Valência de Espanha.

 

O puto da selecção é uma obra do bairro da Musgueira, em Lisboa. Mas como tantos dos seus companheiros de infância, nasceu filho de africanos – uma cabo-verdiana e um são tomense. Renato Sanches acaba de ser vendido ao Bayern. Já Ederzinho António Macedo Lopes – cujo diminutivo é Éder – veio da Guiné com tenra idade para a zona centro do país. Distinguiu-se na Académica.

Sobram os três ases deste baralho de naipes coloridos. São também os mais conhecidos, neste desporto onde quem vai à frente e marca mais golos é menino querido das multidões. Luís Carlos Almeida da Cunha – mais conhecido por Nani – nasceu na Amadora e começou no Massamá, terra de descendentes africanos e de primeiros-ministros migrantes. Os pais são cabo-verdianos, onde nasceram igualmente os seus irmãos.

 

Já Ricardo Quaresma é mais que uma mistura, é várias. A mãe é uma angolana morena e o pai – de que há pouca memória – é cigano. Nascido e criado em Lisboa, é sobrinho-neto do grande Artur Quaresma, que foi campeão no Belenenses. O 'Harry Potter' – nome que lhe vem da magia que faz com os dois pés – joga agora na Turquia.

 

Deixei para o fim o menino pobre que fez o passe para o golo no jogo contra a Croácia, e que no desafio com a Hungria tinha já marcado dois, um do tipo ‘mostra lá outra vez, que eu até troquei os olhos’ e outro de cabeça. A ‘primeira exportação da Madeira’ - bate a banana, segundo a mãe dele – está cotado como o melhor jogador do mundo. É também o desportista mais bem pago do planeta, e já bateu quase todos os recordes que há para bater. Hoje tem pela frente o recorde de Platini, o jogador que até hoje marcou mais golos em campeonatos da Europa de futebol. Falta-lhe um para igualar, com dois passa a ser o maior. Chama-se Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro.

 

Vêm de todo o lado. Não têm em comum a raça. Têm a raça portuguesa. E agora venha de lá a Polónia!

 

P.S. – Uma vez, durante a II Guerra Mundial, as SS alemãs invadiram uma pequena vila polaca e fizeram refém toda a população. Um jovem conseguiu fugir à vigilância nazi, mas pouco depois tinha as SS no seu encalço. Um dos soldados apontou a arma com intenção de abater o rapaz. Mas do Céu chegou a voz de Deus. "Pára, não podes fazer isso, esse rapaz vai ser Papa!", falou lá do alto Deus. O soldado tremeu, baixou a arma e perguntou: "Senhor, e eu?". "Tem calma tu vais a seguir!"…

 

publicado às 12:34

O meu Euro é uma foto da Albânia

Por: Márcio Alves Candoso

 

Qual das duas melhores exportações da Madeira é a imagem mais adequada para Portugal? A pequena mas doce banana ou o grande e por vezes amargo Cristiano Ronaldo? O anúncio protagonizado por Dolores Aveiro, mãe do ‘melhor jogador do mundo’, faz-nos encarar um dilema. Mãe é mãe, e mesmo publicitária não tem dúvidas. Para ela é o seu ‘menine’, naquele foneticamente intransponível sotaque que, um dia, fez Herman José confessar os seus limites como imitador. Para nós… bem, tamanho – dizem – não é documento. Mais vale ser doce…

Só há 23 países no mundo com mais habitantes do que seguidores tem Cristiano no Facebook. Se a estes 60 milhões juntarmos os 15 do Twitter, então o número baixa para 18. Há mais ‘ronaldistas’ na rede do que franceses no planeta. Para quem não gosta de futebol, estas coisas deveriam fazer pensar.

 

Um dia, conheci um guarda-redes da Sanjoanense que tinha defendido um penalty de Eusébio. O homem tinha uma vida vulgar, mas haveria de levar para o túmulo – não sei o que é feito dele - um feito de que poucos se podem gabar. A partir de ontem, o poste direito da uma das balizas do ‘Parque dos Príncipes’, nessa segunda maior cidade portuguesa que é Paris, pode orgulhar-se de feito à altura do ’sapateiro’. Cristiano Ronaldo falha um penalty cada três anos. Aproveitou ontem para manter a regularidade…

 

Na noite quase de Verão que ontem apareceu por Lisboa, dizia a Isabel Tavares, minha querida camarada e novel colaboradora do ‘Sapo’, que não valia a pena escrever mais nada no FB, porque o melhor ‘poste’ tinha sido o do Ronaldo. Triste fado o da selecção portuguesa - atacámos como se não houvesse amanhã, e marcámos zero golos. Nem Quaresma de pés trocados – não há outro no mundo igual a ele, e acreditem que isto não é propaganda de cigano de feira - nem Nani de língua de fora nos valeram.

 

Mas talvez esteja na hora de mudar de fado. Kátia Aveiro, nascida Cátia Liliana, irmã do meio de Cristiano, e que começou sua carreira no ’music-hall’ como Ronalda, dá-nos hoje em dia uma visão muito diferente, e mais alegre, do que a triste melodia que carregamos em choro e mágoa, devaneio e realidade, silêncio, sombra e saudade, almas vencidas, noites perdidas, sombras bizarras.

 

O seu maior êxito proclama que ‘tu és a loucura que me faz vibrar/meu coração faz bum, bum sem parar’. É disto que a selecção precisa – um bater de corações, eventualmente apaixonado não pela Kátia mas por uma bandeira, um povo e um hino. Não vale a pena pedir menos a quem se propôs ser campeão da Europa.

 

Depois do jogo com a Áustria, estive a ver a actuação de Kátia no proverbial comício do PSD no Chão da Lagoa, e garanto-vos que pede meças e contornos roliços às melhores fintas do irmão mais novo. Com a vantagem, para apreciadores, de que a mini-saia é mais curta que os calções que a ‘Nike’ propôs à nossa selecção. Tenho para mim, aliás, que esta nova moda dos calções compridos afasta as senhoras das bancadas dos estádios e da televisão. Um assunto a rever…

 

Mas era suposto eu estar a falar de futebol. Opto pelos fãs, sem os quais não há 4-3-3 que resista. E os melhores do mundo são, com vossa licença, os irlandeses, que aliás, com grande pena minha, se arriscam a fazer as malas já no próximo jogo.

Faz-me confusão porque é que aquela gente se embebeda tanto ou mais que os ingleses, e em vez de distúrbios cantam o ‘Chiquitita’ dos ABBA com os seus opositores suecos. Deitam-se no chão às dezenas e o filme é passarem as pessoas aos semi-apalpões por cima deles. Toda a gente se ri. E fazem uma serenata a uma freira. E têm um cartaz, no tal jogo com a Suécia, em que convidam os fãs do adversário a ‘go back to your sexy wives’. Tem piada, só não sei se as irlandesas gostaram. Quantas Maureen O’Hara ainda há na ilha verde?

 

Enquanto isso, os russos arriscam-se a ser expulsos ainda antes de a sua frágil selecção ser eliminada, os ingleses fazem o que é costume – merda – e os croatas, turcos e albaneses estão na mira dessa impoluta agremiação que dá pelo nome de UEFA. Tudo jóia, se não fosse a vaca da Itália, que não joga uma pevide, mas ganha.

 

Voltando à história pátria, há coisas que não percebo. Estive a ver, todos ou quase todos os dias, os inquéritos da RTP aos tele-espetadores - segundo o acordo ortográfico, são os tipos que se espetam à frente da pantalha e que não a largam – e apontei os resultados. Seja a pergunta ‘Portugal vai ficar em 1ºlugar no Grupo F’, ‘Ronaldo é o melhor jogador dos últimos 20 anos’, ‘a actual selecção é melhor do que a de 2014’ ou ‘William Carvalho deve substituir Danilo’, o resultado é sempre o mesmo. Portalegre vota ao contrário do resto do País, às vezes acompanhado por Viseu e Évora. Não sei o que se passa com a interioridade, mas isto dava uma tese de Sociologia no ISCTE, eventualmente tutelada pelo Francisco José Viegas.

 

A verdade é que temos que ganhar aos húngaros. Até agora, o fado dos empates tem sido a sina que nos tolhe. A culpa, como dizia a minha amiga Magda Santos, é do ‘profeta’ Abrunhosa. ‘Tudo o que eu te dou, tu me dás a mim’, é a perfeita definição de um empate. Eu sempre disse que a canção, a ser uma do rapaz dos óculos, devia ser o ‘Talvez f.’, que bem traduzida para ouvidos austríacos haveria de lhes soar diferente da ‘Música no Coração’. Uma canção de amor não faz mossa. ‘Que mais te posso dar’? Quinze a zero, no mínimo, já lá dizia o grande Ricardo Araújo Pereira!

 

No entanto, está tudo em aberto. A esperança é a última a morrer. São onze para cada lado, se o árbitro não for italiano, e a bola é redonda. Prognósticos só no fim do jogo. Falho de mais lugares-comuns, vou contar uma história.

 

Eu já fui treinador de futebol. É verdade, tinha nove anos. O meu Pai tinha-me dado uma bola, o que me permitia ter alguma relevância no meio da rapaziada da 4ª classe da escola primária de Moncorvo. Torto de ambos os pés desde tenra idade, a única hipótese que tinha de jogar à bola era ser dono dela. Mas eu sempre gostei de ganhar e, graças a Deus, sempre tive a noção das minhas limitações.

 

Vai daí, fui ler um livro de táctica – acho que era do Heleno Herrera – que havia lá na biblioteca moncorvina. Os putos ranhosos, descalços ou aburguesados que me acompanhavam na escola, não tinham grande respeito por mim, no que concerne a andar à porrada, mas sabiam da minha enorme superioridade intelectual. O que, diga-se de passagem, em Trás-os-Montes nos anos 60 não era lá muito boa qualidade para ser chefe da malta. Mas convenci-os à custa de lábia – é assim que um gajo fraco e feio conquista, primeiro os miúdos e depois o resto…

 

Lembro-me dos nomes deles. Grandes craques, até ganhámos à 5ªclasse. O Meireles na baliza, como o pai dele também era nos seniores do Moncorvo. Nas laterais o Orlando, que era canhoto e rápido, e o Gomes, com um olho sempre no contra-ataque. No meio da defesa o Reis e o Teixeira, ou então o Olímpio, que era muito burro mas enorme; contava que lhe tinha caído um raio em cima, lá na quinta da Vilariça onde a família trabalhava, e que a partir daí tinha ficado taralhouco.

 

No meio-campo era o Artur, que depois viria a jogar a sério, e que era dos poucos que olhava para cima ao mesmo tempo que dominava a bola. A seu lado tinha o Mesquita, que não gostava de perder nem a feijões, e o Norberto que corria como Deus o dava pela extrema direita. Na frente, o Nélson Choça era uma espécie de Nené – nunca sujava os calções mas estava sempre à mama. O goleador por excelência. O Amândio era o distribuidor de jogo e eu, coitado, ficava para as dobras quando não havia mais ninguém.

 

Miúdos valentes. Lembro-me de dar uma sandes ao Norberto, o meu protegido, e a minha Mãe achar que eu era um alarve, porque chegava a casa cheio de fome. E do Branquinho, que não tinha sapatos e fugiu da escola na terceira classe para França, com o pai. E do Biló, que tinha como mãe uma senhora que não lhe sabia dizer quem era o pai. E do Salazar, que morreu de tuberculose ainda não tinha feito vinte anos. Coisas de antigamente.

 

Isto de jornalismo está pelas ruas da amargura. Só agora reparei que desleixei o título que dei a este texto. Então é assim: a foto mais partilhada, até agora, do Euro 2016, é a de duas albanesas bem nutridas e simpáticas, que fazem com as mãos o voo da águia que está na bandeira do seu país. Os homens, principais utilizadores desta coisa linda que se chama futebol, de vez em quando reparam no que é realmente importante.

publicado às 17:59

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