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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Uma selfie de Paul Ryan diz mais que mil palavras de Trump

Por: José Couto Nogueira

  

A questão do racismo sempre foi uma questão nos Estados Unidos. (Não quer dizer que não seja noutros países, mas cada um tem a sua maneira de não saber lidar com ela.) Nos EUA o problema nem cresce nem decresce – rola como uma onda, com altos e baixos. Ultimamente, a onda está em alta. Porque a polícia anda a matar muitos negros, o que é terrível. Porque o candidato republicano é, entre outras inconveniências, racista, o que não é menos grave. E agora, por um pormenor que poderia ter passado despercebido mas que, por causa das outras causas, explodiu como fogo de artifício nas redes sociais, na comunicação, em toda a parte. Do que se trata? Uma selfie.

 

 

Uma simples selfie publicada por Paul Ryan, o republicano que, por vias da maioria do partido é o Presidente da Câmara dos Representantes. Ryan está em Cleveland, para a Convenção partidária que irá certamente eleger Donald Trump como a aposta do partido à Presidência. Resolveu fazer uma grande selfie, à frente de dezenas de “pagens” (os chamados “interns”, jovens que prestam serviço nos gabinetes dos representantes e senadores.) Todos sorridentes, felizes e bem vestidos – e todos brancos. É verdade, entre os pagens republicanos, rapazes e raparigas, não há sequer um tom mais escuro, muito menos um negro.

 

O Estados Unidos têm um Presidente negro, como todo o planeta sabe. Têm membros do Congresso (Senado e Câmara dos Representantes) negros, ministros negros e uma boa parte dos cargos de topo no executivo são exercidos por negros. Mas são todos democratas. O Partido Democrata não é historicamente o partido do integracionismo, ao contrário do que muita gente supõe por causa da presidência de John F. Kennedy, altura em que supostamente todos os racismos foram legalmente eliminados. Historicamente, basta lembrar que o Presidente Abraham Lincoln, que se meteu numa guerra civil para libertar os escravos, era republicano. Mas, o Partido Democrata é o partido das liberdades, várias, favorável aos imigrantes de todas as cores e, em geral, menos discriminatório nas questões ditas fracturantes.

 

Em compensação, o Partido Republicano, por albergar as forças políticas e sociais mais conservadoras, há décadas que tem uma certa dificuldade em ser visto como equitativo nestas questões, mesmo quando teve um secretério-geral negro. Desde os Bush, pai e filho, que o partido tem vindo a puxar à direita e a ficar mais radical. Os dez candidatos a candidatos presidenciais para a próxima eleição eram todos extremamente conservadores – a única coisa que variava era a religiosidade maior ou menor. Trump, que nem sequer era um militante dedicado com uma folha de serviços que se visse (Trump só se dedica a ele próprio) acabou por afastar todos os outros, inclusive Paul Ryan, com um discurso que, aqui na Europa, nem o UKIP ou o Front Nacional se atrevem.

 

Na política, os lugares eleitos obedecem forçosamente a uma série de critérios, e hoje em dia a imagem será dos mais importantes. Desde o candidato a vereador municipal até ao presidente, passando pelas assembleias e governadores dos Estados, tentam sempre apelar a um eleitorado o mais abrangente possível, mesmo que o façam desastradamente. Quer isto dizer que ser negro, ou hispano, ou asiático, pode ser uma vantagem para ir buscar essas minorias que, em muitos círculos eleitorais, afinal são maiorias.

Captura de ecrã 2016-07-19, às 12.13.01.png

Agora, quando se trata de lugares que não são eleitos, ou seja, todos os cargos de gabinete e administrativos, já estas restrições não são tão importantes, e aí é que se vê quem é o quê. No caso dos pagens do Capitólio, como são normalmente chamados, trata-se de pessoas invisíveis. São jovens, escolhidos por influências e contactos pessoais, que assim começam a sua carreira política ou de funcionários públicos. Nunca ninguém se lembraria se verificar se respeitam os equilíbrios considerados politicamente correctos de cor ou de género. Durante muito tempo eram sempre rapazes, mas essa barreira foi ultrapassada há décadas. Pelos vistos a barreira da cor, no que diz respeito ao Partido Republicano, não foi. E esta infeliz grande selfie de Paul Ryan mostra exactamente isso.

 

Resta perguntar: terá isto alguma influência nas eleições, quer dentro do Partido, quer nas Presidenciais? Provavelmente, não. No fundo já toda a gente sabe como está o Grand Old Party. É só ver a escolha de um candidato que quer fazer um muro entre os Estados Unidos e o México, expulsar todos os muçulmanos e recusar vistos aos filhos de hispanos nascidos no país. (Se alguma destas propostas é exequível, não parece preocupar os republicanos por ora).

 

Muito mais efeito nas eleições terão os constantes assassinatos de cidadãos negros pela polícia, um pouco por todo o país. Contudo, a selfie de Paul Ryan ficará para a História por representar numa só imagem milhões de opiniões.

publicado às 12:06

Todas as fotografias do mundo na ponta do selfie stick

Por: Paulo Rascão

ellen selfie

 

Na época vitoriana ninguém pensava sair à rua sem chapéu. Hoje é quase impossível cruzarmo-nos com alguém sem telemóvel, aquele objecto que serve para as pessoas falarem a quilómetros de distância, sem ligações físicas, nem fios. É importante relembrar a função do aparelho porque, nos longínquos anos 90, a nova forma de comunicar foi recebida com previsões pouco animadoras e uma das razões para tal era que as pessoas não teriam tanto assunto para falar que justificasse andarem sempre com um telefone atrás. A história veio provar  que este pressuposto estava errado, ainda que certo. 

 

Hoje fazer chamadas é apenas uma das coisas que se pode fazer com um telemóvel e não arrisco muito se disser que nem é a mais importante. As mensagens escritas, primeiro, e as fotografias, depois, ganharam terreno a olhos vistos face à comunicação por voz. Só dentro do serviço whatsapp, o número de mensagens trocadas num só dia equivale, em volume, a dezenas de exemplares de toda a obra que Platão escreveu durante a longa vida que teve. O filósofo grego, pilar da cultura e pensamento occidental, não poderia conceber tamanha "produção intelectual"  quando, no seu jardim, fazia Aristóteles e outros pensarem no sentido da vida. O que diria então Nicéphore Niépce, o primeiro dos fotógrafos, que na vertigem do tempo conseguiu apressadamente ser o primeiro a registar e, sobretudo a preservar com sucesso, a primeira fotografia (foto do grego luz e grafia escrita ou registo) ou melhor dizendo a primeira heliografia (helio do grego sol). 

 

Só tinha passado pouco mais de um quarto do novo século XIX quando Niépce, que vivia em Chalon-sur-Saône, uma cidade muito simpática a cerca de 300 kms de Paris, escolheu como cenário da primeira fotografia histórica a vista da janela mais alta da sua casa. O  breve "clique"  demorou apenas oito horas, e desde logo resolveu um problema que ainda hoje atormenta fotógrafos de arquitetura ou paisagem: na primeira fotografia de todas, as duas fachadas opostas dos prédios estão igualmente iluminadas, o que só veio dar razão ao velho Galileu, e alegria aos dois vizinhos do fotógrafo primordial. O movimento da terra não tremeu a fotografia, mas fez o sol iluminar os dois lados da imagem. Ficámos também a saber com isto que os dados de geo-referenciação que hoje os telemóveis colocam como tag nas fotografias já lá estavam na primeiríssima com outra exatidão. Hoje sabemos sem sombra de dúvidas e justamente pelas sombras da imagem que a janela estaria a virada para norte.

 

Hoje em oito horas fazem-se milhões de novas fotografias. Com os sensores digitais modernos e uma técnica parecida à utilizada pelo pai da fotografia, estão na moda os timelapses, como podemos ver no genérico da série House of Cards. A técnica usada tem mais parecenças que diferenças, trata-se de uma câmara num tripé várias horas a apontar para o mesmo sítio, com a diferença que se vão fazendo vários disparos de forma intervalada e, já agora, também se vê a luz a mudar.

 

Niépce não era fotógrafo, não só por a fotografia não ter sido inventada ainda, mas porque o seu interesse recaía sobre a litografia, uma técnica que, na altura, já era quase centenária (foi inventada em 1796 por um alemão, Alois Senefelder, um actor e escritor de teatro que queria encontrar uma forma fazer cópias dos seus textos). 

 

Senefelder soube usar  esta técnica muito bem. A litografia ou litogravura (lito do grego pedra) consiste em "desenhar" ou gravar numa matriz de pedra calcária, com um lápis gorduroso. As partes da pedra que têm gordura "agarram" a tinta; nas outras, a tinta escorre, e depois basta calcar um papel, por exemplo, em cima da pedra e o desenho será transferido. Uma aplicação prática da velha máxima de que água e azeite não se misturam. Anos mais tarde isto seria muito inspirador para os senhores da Polaroid, pois a técnica das fotografias instantâneas, que hoje temos dificuldade em continuar a justificar face ao digital, é justamente obtidas por transferência.

 

A história da fotografia é consistente desde o início. Niépce não era dotado de grande mão para o desenho, pelo que precisava de encontrar uma forma de passar para a pedra as imagens, sem depender da habilidade com o lápis . Começou assim a explorar materiais foto-sensíveis, que já se conheciam há muito. Desde a antiguidade que se limpam as pratas de tempos a tempos, porque ficam escuras. Mas só em 1727, um professor de anatomia, Johann Heinrich, provou que os sais de prata escureciam com a luz e não devido ao tempo ou ao calor, desmistificando assim a razão pela qual as empregadas limpavam melhor as pratas no Inverno do que no Verão. Mais sol a entrar pela janela e lá vai a baixela ficar escura em menos tempo. 

 

A solução passou pela utilização de betume judaico; uma espécie de petróleo ou alcatrão que se encontra em estado natural em poças, e que era já utilizado, reza a História, desde os tempos biblícos (Deus mandara a Noé: "Faz para ti uma arca de madeira (...) e a betumarás, por dentro e por fora, com betume. "  Génesis 6, 14). O betume judaíco ou alcatrão é um isolante, impermeabilizante, combustível, e também é sensível à luz. Espalhando este betume numa placa, e colocando em cima uma gravura tornada translúcida depois de embebida em oleo, consegue-se a magia da imagem gravada.

 

O francês Niépce conseguiu passar imagens da gravura para a chapa de cobre através de uma exposição solar demorada, em 1822. Mas isto ainda não era uma fotografia, seria um fotograma, técnica que consiste em obter imagens colocando objectos em cima de superfícies sensibilizadas (papéis fotográficos) e expondo à luz. Durante o movimento surrealista do século XX, o artista Man Ray iria usar exaustivamente esta técnica chamando-lhe inclusivamente Rayogramas.

 

Mas, para ter fotografias, faltava a câmara escura (do latim camera obscura) que, já agora, também já era conhecida há muito, pelo menos desde os tempos de Aristóteles. Se tivermos uma casa ou um tenda toda escura com apenas um pequeno buraco para passar a luz, a imagem do que está fora iluminado irá ver-se projectada invertida na parede oposta à entrada de luz. A câmara obscura era usada para a cartografia ou por pintores. Leonardo Da Vinci usava-a, por exemplo, para desenhar. No século XVI, a câmara é descrita em pormenor num manual pelo italiano Giambattista della Porta e foi amplamente utilizada pelos pintores do renascimento. 

 

A combinação da câmara obscura com os materiais sensíveis à luz também não era exactamente uma invenção de Niépce. Muitos antes dele, no século XVIII, já usavam "snapchats" digamos "avant la lettre". Conseguiam registar  imagens, só não conseguiam que elas durassem … exactamente na premissa do moderníssimo Snapchat, ou se vê agora ou não se vê mais. E as imagens não duravam, porque não era conhecida a forma de fazer com que um material sensível à luz, necessário para captar as imagens, deixasse de ser justamente sensivel à luz depois da captura. O que inevitavelmente acontecia era que a imagem, quando vista à luz, ia desaparecendo, enegrecendo por completo. Irónico que quase 200 anos depois uns tipos tenham ficado ricos por inventarem uma forma de mandar mensagens com imagens que desaparecem depois de serem vistas.

 

Um outro francês, Louis-Jacques-Mandé Daguerre, fazia grandes cenários para teatro, pintados numa papel translúcido e criava alterações de ambientes com jogos de luzes e cor, fabricando atmosferas dramáticas para as peças de teatro e os musicais. Era, portanto, um artista multimédia, e como os de hoje, interessou-se pela fotografia. Daguerre acreditava que os tempos de exposição para obter uma imagem teriam de ser mais curtos, caso contrário não se poderia obter imagens verdadeiras da natureza. Propôs-se então encurtar o tempo, numa primeira fase para meia hora, usando outros materiais e assente num novo conceito que acompanhou a fotografia durante todos os anos até ao digital. De onde vem o termo "revelar"? Daqui. Daguerre não foi o primeiro a inventar a fotografia, mas foi o primeiro a revelá-la. 

 

A sua grande invenção foi o conceito de imagem latente. O que é isto? Daguerre descobriu que, uma vez que o material sensível recebesse uma determinada quantidade de luz, a imagem ficaria formada ainda que invisível, daí latente; depois, quimicamente, poder-se-ia intensificar essa imagem para a tornar visível. Os iões de prata expostos à luz e depois "revelados" cumpriram a função desejada, e um frasco de mercúrio mal fechado num armário completou o resto da descoberta. Os vapores de mercúrio sobre a chapa escureciam as partes expostas à luz. Mas isto não chegava. Daguerre gastou mais dois anos da sua vida com o mesmo problema de Niépce: como encontrar forma  impedir que as partes claras da imagem não continuassem a escurecer gradualmente até a imagem se sumir na escuridão?. 

 

Em 1837, Daguerre encontra a solução num lixiviante utilizado na indústria dos curtumes, o hipossulfito de sódio, e em 1839, com o processo afinado e completo, Daguerre e o filho de Niépce vendem os direitos da invenção ao governo francês, em troca de uma pensão vitalícia. O daguerreótipo torna-se então o primeiro processo fotográfico generalizado e espalha-se rapidamente pelo mundo. No mesmo ano, assim que o daguerreótipo é conhecido em Inglaterra, William Henry Fox Talbot, um inglês, apresenta na Academia das Ciências um processo denominado calótipo que apresentava vantagens face ao de Daguerre. Baseava-se num negativo e permitia várias cópias em papel, enquanto o daguerreótipo era apenas uma prova única positiva uma chapa de cobre.

 

Mais uma nota de paralelismo estes primórdios e os nossos tempos. Durante o segundo e terceiro quartel do séc XIX, o daguerreótipo foi amplamente utilizado, muito embora fotógrafos e inventores continuassem à procura de outro processo que resolvesse alguns problemas do processo francês. Os daguerreótipos geralmente eram guardados em estojos que cabiam na palma da mão e, para se ver a imagem, abria-se a protecção e era necessário encontrar uma posição em que a chapa não fizesse o efeito espelhado. Algo que nos faz lembrar a forma como hoje se vêem fotografias num iphone ao sol.

 

Ao início, a técnica inglesa não teve a repercussão da inventada em França, mas em duas ou três décadas a situação inverteu-se e, durante todo o século XX, a técnica fotográfica tem por base a invenção de Talbot. É ainda no ano 39 do século XIX que Robert Cornelius, do outro lado do Atlântico, em Filadelfia, na tentativa de experimentar e aperfeiçoar o daguerrotipo, e provavelmente  na falta de uma cobaia melhor, senta-se em frente da câmara e faz a primeira selfie ficando imóvel cerca de um minuto. Algo que tinha sido um desafio para a Ellen DeGeneres, na cerimónia dos Óscares de 2014.

 

Hoje todos fotografam tudo e sobretudo fotografam-se a si mesmos. Se o chapéu vitoriano se tornou a câmara do telemóvel, talvez o sefie stick esteja a tentar impor-se como a bengala daquela época ...

 

 

Paulo Rascão é fotógrafo e foi por causa da paixão pela imagem e pela iluminação que se tornou também produtor de vídeo e realizador. É autor e realizador do The Next Big Idea, em exibição na SIC Notícias desde 2012, e há mais de 10 anos que produz filmes e documentários. Fez o curso de cinematografia no King’s College, em Londres, e frequentou a licenciatura em Filosofia da Universidade Católica que tenciona concluir um destes dias.

 

publicado às 10:09

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