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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Estamos quase todos em espera. O paciente europeu resiste?

Por: Francisco Sena Santos

Estamos quase todos à espera e o sentimento é mais de ansiedade ou até de temor do que de ilusão e esperança. Nem me refiro ao que se vive dentro de Portugal onde, apesar de tendências para alguma baixeza assaltar o espaço de discussão pública, as tensões dos últimos anos parecem atenuadas. O sobressalto é o que está à nossa volta, fora de portas, mas a determinar a vida de todos.

 

Andámos muitos anos a ouvir falar de integração europeia – e isso trouxe aos portugueses desenvolvimento e incomparavelmente melhor qualidade de vida. Agora constatamos a desintegração europeia. Até uma voz de topo como é a da chanceler Merkel assume que a Europa vive fase crítica. A Europa tornou-se um condomínio onde todos discutem, onde uns têm poderes que escapam aos outros e onde não há a solidariedade nem o melhoramento social que foi o fundamento da União. A atmosfera não está propícia para a boa convivência nem para os ideais.

 

Há uma pergunta fundamental: como é possível que o ideal europeu, que chegou a ser tão entusiasmante, se tenha transformado em algo que gera tanta repulsa que já levou os britânicos a votarem pelo divórcio enquanto em muitas partes da Europa crescem as forças nacionalistas e anti-europeias? As causas são certamente muitas. Algumas passam pela memória que se apaga, outras por desconfortos na vida de agora.

 

Na memória, efeito de décadas de prosperidade e paz, está a diluir-se o sentimento de insegurança bélica do pós- Segunda Grande Guerra (39-45) que tinha levado Churchill, há precisamente 70 anos (setembro de 1946), a pronunciar em Zurique o famoso discurso em que, com o estatuto de vencedor moral e material do nazismo, apelou à criação dos Estados Unidos da Europa. Esse esquecimento do fantasma da guerra tende a ser um erro perigoso, até porque as últimas décadas têm mostrado, dos Balcãs à Ucrânia, como a guerra permanece como ameaça dentro do continente europeu. E crescem fricções que podem gerar mais faíscas.

 

O desconforto da vida europeia de agora passa pelas sucessivas crises. Há culpas atiradas sobre a mal planeada introdução do Euro no 1º de janeiro de 2002. Há o desastre que veio com o colapso financeiro de 2007 e as políticas de dura austeridade impostas a seguir, penalizando em especial as pessoas dos países da Europa do Sul com desemprego, involução da qualidade de vida e crescendo da desesperança. Há a crise suscitada pelo acolhimento – que é nosso dever – dos refugiados e a amálgama que mistura tradições diferentes com terrorismo. Também há a reconhecida grande falta de estadistas, políticos visionários capazes de instalar confiança e futuro.

 

Woody Allen disse uma vez que a vocação do político de carreira é fazer de cada solução um problema. Talvez se tenha inspirado em Ezra Pound que teorizava que governar é a arte de criar problemas cuja solução é um enredo que agarra os cidadãos. Imagino que o caso presente na Europa nem tenha tanta sofisticação, tão medíocres têm sido várias das personagens de topo. Merkel revelou-se no último ano, para muitos (sou um deles) com surpresa, uma estadista que respeita o valor fundamental da tolerância, com a sua corajosa política de acolhimento de refugiados. É uma opção com alto preço político: há duas semanas caiu para terceiro lugar e foi ultrapassada pelo pior adversário, o partido xenófobo AfD, no seu estado natal de Meclenburgo-Pomerânia, e neste domingo caiu cinco pontos descendo para 18% em Berlim, a capital governada pelo SPD. Não perdeu a calma nem o discurso, repetiu que a Alemanha não pode abandonar a Grécia e a Itália sozinhas com os refugiados, embora não possa voltar a receber um milhão de migrantes num só ano.

 

Merkel representa neste desafio do acolhimento o melhor do espírito europeu. É o oposto de Marine Le Pen. É de notar que são mulheres quem lidera as duas frentes políticas que se confrontam sobre valores fundamentais na Europa. E ambas têm eleições cruciais no ano que vem.

 

A prova das urnas, quando sopram corrosivos ventos nacionalistas, parece estar a ser um condicionamento para a procura de soluções europeias. A França tem presidenciais e legislativas em abril do ano que vem: Hollande está com muito pouco espaço, o confronto tende a ser entre o moderado Juppé e a populista le Pen. A Alemanha tem legislativas daqui a um ano e Merkel pode perder o poder. No horizonte mais imediato está o referendo anti-refugiados promovido por Orban na Hungria (é tempo de a Europa seguir a sugestão luxemburguesa de afastar a Hungria do clube europeu, não partilha os ideais fundamentais) e a repetição da finalíssima das presidenciais na Áustria, com o líder da extrema-direita à frente nas sondagens. A direita populista também tem promessa de avanços nas eleições holandesas. Acresce para este frustrante bloqueio europeu o referendo constitucional em Itália, decisivo para o governo de Renzi, um dos líderes – com Costa e Tsipras - de uma alternativa da Europa do Sul e o impasse político em Espanha.

 

Quando Merkel falou de Europa em estado crítico talvez não quisesse chegar ao ponto de dizer que a Europa está em coma assistido. Mas o tempo da União Europeia pode estar a esgotar-se.  O risco sério é o de desintegração mas ainda há esperança, pode haver energia e sonho para uma refundação. A dúvida é: quem pode liderar e como uma ambição assim?

 

A atual União Europeia está estilhaçada. De modo simplista há quatro partes principais: há o diretório franco-alemão que às vezes integra a Itália e que pretende impor a sua vontade muito germânica; há a linha dura do Norte encabeçada pela Finlândia e vários acólitos; há o grupo EuroMed que envolve os países do sul agora governados à esquerda, de Portugal à Grécia, incluindo França, Itália, Malta e Chipre – também a Espanha que, invocando estar com governo interino, mandou um secretário de Estado para a representar na cimeira de Atenas; e há o grupo de Visegrado, quatro países do Leste, Polónia, Hungria, República Checa e Eslováquia, que levantam um muro contra os migrantes.

Vários destes países da Europa Central e de Leste agem como se a União Europeia já não contasse – embora tenham sido grandes beneficiários dos fundos europeus. Funcionam com modelos assentes no baixo custo do trabalho e salários reduzidos. Grande parte da força económica dos tigres da Europa de Leste decorre de terem beneficiado do calendário: tiveram o fôlego dos fundos de solidariedade quando o resto da Europa apanhou com os apertos orçamentais do Pacto de Estabilidade.  As economias de Leste crescem todas acima dos magros 1,6% da média da zona euro. A Polónia cresceu 3,7% e a Roménia 4,2% no ano passado. É facto que a Irlanda, nossa parceira nos resgates, cresceu 4,8% em 2014, beneficiando dos amplos incentivos fiscais.

 

São economias que cresceram com a solidariedade europeia. Mas várias não retribuem com o respeito dos valores e direitos fundamentais. É assim que nesta ocasião extremamente delicada a Europa precisa desesperadamente de líderes com ideais e vontade. O paciente europeu requer um tratamento de choque. O problema é que a espera se prolonga e está difícil vislumbrar alguma esperança. Mas não é impossível voltarmos a uma Europa de partilha de culturas, de convivência em solidariedade e de melhoramento social. A Europa precisa tanto desse novo e grande impulso, pensado para as pessoas e não para os mercados. Sem solidariedade a democracia perde a alma.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

 

O que é que foi mais explosivo, as bombas ou a cobertura mediática das bombas em Nova Iorque? É uma atmosfera que dá pontos a Trump? Uma amostra com primeiras páginas de hoje nos EUA. Também no Reino Unido.

 

 

Está a chegar o automóvel sem condutor.

 

 

Entra em cartaz a competição pelos Óscares de 2017.

 

 

Uma primeira página escolhida no SAPO JORNAIS.

publicado às 08:20

A ilusão perdida em Roma

Por: Sena Santos

Há cidades a que se deseja sempre voltar e Roma é uma delas. Mary Beard, prestigiada especialista em Clássicos da Antiguidade, catedrática em Cambridge, tem escrito livros fascinantes sobre a Roma Antiga que modelou muito da nossa civilização. Ela explica como os pensadores e políticos dessa Roma de há vinte e um séculos, mestres de sabedoria, refinamento e estratégia, tiveram a visão para abrir caminhos, levantar pontes, construir aquedutos, definir bases do Direito e de tanto mais, deixaram-nos em herança um pensamento que é bússola, mas ao mesmo tempo eram violentos com o seu brutal e disciplinado poder de ataque e saqueadores com cruel rapina na terra conquistada pelo império que se estendia da Península Ibéria ao Médio Oriente.

 

A Roma de há 2100 anos é descrita por Mary Beard como uma cidade com mais de um milhão de pessoas que viviam numa mistura de liberdade e exploração, luxo e lixo. Há qualquer coisa desse retrato antigo que encaixa na Roma de hoje, à beira dos três milhões de residentes. Roma é encantadora para quem a visita mas quem lá vive está farto: embora sempre fiéis ao estilo e à elegância, os romanos perderam a paciência com a degradação da qualidade de vida na sua cidade onde o trânsito é um suplício, o pavimento das ruas está mal tratado, os transportes públicos estão em colapso, os monumentos à mercê da penúria de recursos e cuidados, o lixo com frequência fica vários dias amontoado nas ruas, as águas e margens do Tibre parecem de há muito uma lixeira. Há um vídeo gravado por um estudante que mostra o vai e vem das ratazanas por entre montanhas de lixo no Largo Ferruccio Mengaroni. Há imagens de lixo que sobe à altura de um adulto no bairro Tor Bella Monaca.

 

É o que resulta do que chamam de “Mafia Capital”, redes da máfia tradicional que, infiltradas nas engrenagens do poder municipal, designadamente o serviço de recolha de lixo, usando o sistema de corrupções instalado, com a cumplicidade de gente de todos os partidos, tiram proveito de tudo aquilo onde metem a mão.

 

É assim, com a promessa de limpar a cidade do lixo e das máfias, que Virginia Raggi, uma advogada com 37 anos e escassa história política se tornou uma loba à conquista de Roma. Ela tinha aparecido na internet a promover campanhas pela Educação e pelo Ambiente.  Era elogiada por iniciativas de voluntariado. O Cinco Estrelas (M5E), movimento político que se define “antipolítica”, liderado pelo comediante Beppe Grillo, escolheu-a para liderar a candidatura à presidência da câmara de Roma. A imagem dela é sedutora e o discurso surgiu poderoso contra as desgastadas castas políticas italianas. Virginia Raggi avançou sobre Roma e conquistou-a nas eleições de 19 de junho: arrasou, foi eleita com 67,2% dos votos. Tornou-se a primeira mulher a governar em Roma e gerou enorme ilusão com a utopia de uma Roma finalmente, décadas depois, governada de modo imaculado com ideias e projetos, fantasia e paixão, visão e eficiência com, claro está, mãos limpas.

 

Ainda nem passaram três meses e Virginia Raggi é uma presidente à beira de um ataque de nervos. “Onestá, onestá!” e “Transparenza!” tinham sido os dois gritos mais fortes da campanha Raggi, mas tudo parece em colapso. Ela escolheu para dirigir setores fundamentais para a regeneração da cidade gente nova e com etiqueta de alto nível, inovadora e competente. Parecia ter bom programa e boa equipa. Mas, ao fim de 70 dias, a equipa Raggi está à deriva.

 

A crise eclodiu na madrugada de 1 de setembro, com o anúncio da demissão da chefe de gabinete, Carla Rainieri, uma magistrada que tinha sido escolhida por, com os seus critérios éticos e sociais, ser considerada uma muralha implacável frente às infiltrações mafiosas na engrenagem municipal de Roma. Demitiu-se por não estar disposta a aturar as intrigas de gente do M5E por ela ter um salário de uns 10 mil euros por mês. A demissão de Rainieri precipitou a queda, como peças de um dominó, de outras quatro figuras de topo entre as escolhidas por Raggi. Beppe Grillo, líder do M5E meteu-se na polémica para dizer que “a Virginia (Raggi) às vezes parece-me louca”. Percebeu-se que as heterogéneas fações do M5E não queriam deixar Raggi com mãos livres. Começou a comentar-se que os novos políticos afinal são iguais aos outros, ou ainda pior, por cometerem erros de inexperiência.

 

Tudo a precipitar-se: quase ao mesmo tempo é revelado que Raggi sabia que dois dos seus principais escolhidos estavam a ser investigados por ligações com personagens mafiosas, mas encobriu-os. O M5E saltou a defendê-la mas ficou exposto à acusação de dupla moral: exige a demissão dos adversários sob suspeita, condescende com os seus. O cartaz após a vitória eleitoral em junho, dominado pelo rosto de Raggi, enquadrado pela proclamação “Ora cambia tutto, ora tocca a noi” perdeu sentido porque afinal eles não escapam às mesmas derrapagens. A atmosfera ficou penosa para Raggi. Muitos que tinham ficado enamorados pela imagem que ela tinha passado não escondem a desilusão. Mas a maioria ainda parece querer dar à “loba de Roma” uma oportunidade para corrigir os erros e tentar voltar a criar ilusão.

 

O M5E que aspirava usar a governação municipal em Roma e Turim para mostrar que é capaz de tomar o governo do país sai desta crise mais debilitado do que Raggi. Cai nos erros, nas superficialidades, nos amiguismos, nas omissões e nas mentiras tal como os outros que tanto critica no teatro político. O movimento que se proclamava cristalino e que tinha alimentado a promessa de mudar o tempo e o modo da comunicação política com o povo a decidir na internet, afinal, quando ficou acossado mostrou-se burocrático, entrou em guerras internas e passou a esconder os debates. Não acrescenta honestidade e qualidade ao sistema político.

 

Os novos movimentos e partidos surgidos com as ondas de indignação populista e contra o sistema tradicional confrontam-se agora com a deceção. Em Itália, o M5E tem rombos no casco. Em Espanha o Podemos e o Ciudadanos, agarrados a intransigências e incapazes de negociar acordos viáveis, estão em contínuo retrocesso nas intenções de voto.

 

Fica o risco de sucessivas desilusões levar a mais abstenção.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA

 

O momentâneo desfalecimento de Hillary Clinton diante das câmaras no domingo, 11 de setembro, colocou a saúde da candidata como tema da semana na campanha americana. The Huffington Post insurge-se contra o tratamento do caso pelos media. A pergunta é legítima: este caso pode mudar a dinâmica da campanha e, eventualmente, a história do mundo? Só um acontecimento fora do previsto pode levar a uma extraordinária reviravolta e travar a eleição de Hillary como Madam President. Os últimos dias, com gaffe e desmaio, correram mal a Hillary mas os estudos eleitorais garantem-lhe pelo menos 238 grandes eleitores (são eles quem decide), frente apenas 117 para Trump. Bastam mais 32 grandes eleitores para Hillary ficar presidente. Num cenário normal recolhe bastante mais.

 

 

A Hungria com a intolerância e a xenofobia de Orban é um problema na Europa. Ele é o primeiro-ministro que fala no regresso à pena de morte e que restringe a liberdade de imprensa. É uma maciça violação de valores europeus que leva o ministro luxemburguês dos estrangeiros a pôr em discussão o afastamento da Hungria da União Europeia. Como deve ser.

  

 

O Congresso brasileiro derruba o homem que mais se empenhou no impeachment de Dilma. O capítulo final da queda política de Eduardo Cunha é o tema para a primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS.

 

 

Renoir para quem viajar a Madrid ou Barcelona.

 

 

Os media portugueses costumam fazer bom acompanhamento dos festivais europeus de cinema, de Berlim a Veneza, passando por Cannes e Locarno. Vale não perder de vista o que passa pelo excelente TIFF em Toronto.

publicado às 10:02

Alguém consegue fazer a chave espanhola?

Por: Sena Santos

Na Utopia, escrita há 500 anos, Thomas More descreve a organização política e social de uma ilha composta por 54 cidades onde funciona a igualdade entre todos. A ilha está dotada de um governo central cuja principal missão é a de repartir com equidade os recursos. Na Utopia não há pobres nem ricos, vive-se em igualdade material. O modelo concebido por Thomas More – certamente como contra-modelo de outra ilha, a Inglaterra do século XVI -  tem o pecado da uniformização, da submissão do indivíduo ao bem comum e, a par de ampla liberdade religiosa, muitas restrições nos costumes.

 

 

Thomas More ganhou lugar em dois panteões, em Moscovo e no Vaticano: Lenine proclamou-o percursor do comunismo e mandou dedicar-lhe um obelisco, ao lado dos de Marx e Engels; a Igreja Católica declarou-o em 1935 santo mártir (tinha sido esquartejado por se recusar a reconhecer Henrique VIII como chefe da igreja de Inglaterra) e, no ano 2000, João Paulo II designou-o patrono dos estadistas e políticos.

 

 

O livro, requisitório contra as injustiças sociais e políticas da Inglaterra de então, não é um tratado de filosofia política, mas a ideia de utopia passou à posteridade como ideia de ideal. Aparece nos dicionários como um sonho ou uma quimera.

 

 

Muita gente na Espanha dos últimos anos acreditou na utopia de uma sociedade melhor. Foi evidente o renovado interesse de novas gerações pela participação política e isso traduziu-se na criação de novos partidos resultantes dessas movimentações profundas na sociedade. Muitos eleitores, à esquerda como à direita ou ao centro, fartos de um sistema desgastado, acreditaram ser possível que a condução do país fosse tarefa para os melhores, gente capaz de visão com amplos horizontes, generosidade, tenacidade e valentia, como requer a tarefa de governar um país, neste caso a Espanha.

 

 

O que há para tratar em Espanha tem muito a ver com o que também importa em Portugal. A economia. A educação. O financiamento da saúde e das pensões. A salvaguarda de um Estado de bem-estar sustentável. O apoio à criação de emprego e à promoção do conhecimento e da cultura. Tanto mais. No caso espanhol há o imbróglio das autonomias, com especial tensão no caso da Catalunha, onde a escalada independentista está a ter como resposta, não a procura de harmonias mas o agravamento do conflito entre Madrid e Barcelona.

 

 

Os espanhóis votaram e decidiram pôr fim à ordem anterior, assente em dois partidos, o PSOE e o PP. Escolheram um parlamento mais plural, fragmentado, sem a hegemonia dos dois grandes partidos.  Naturalmente, esperavam que os políticos conseguissem fazer acordos e pactos, concretizando em ação a vontade dos eleitores. Os eleitores espanhóis votaram em 20 de dezembro, mas os políticos não souberam ter audácia para acordar um governo. Foi preciso voltar a votos em 26 de junho. Mas o impasse continuou, são políticos mas não conseguem entender-se, estão incapazes de imaginação para um compromisso plural no labirinto parlamentar.

 

 

Um dos novos partidos, o Ciudadanos, ainda deu uma mão ao PP de Rajoy e, acrescentado o voto de uma deputada das Canárias, chegaram assim a somar 170 lugares no parlamento de Espanha. Mas a maioria é aos 176, por isso fracassaram. Agora o Ciudadanos até já rasgou o acordo que celebrou com o PP. É facto que há uma maioria absoluta nas Cortes de Espanha, mas é de recusa: está formada pelo PSOE, pelo Podemos e por mais seis partidos nacionalistas: juntam 180 votos, ultrapassam portanto a maioria absoluta, mas só estão unidos para a recusa de um governo PP, não para formar uma plataforma de governo, porque o PSOE não se entende nem com o Podemos nem com os independentistas catalães, e o Ciudadanos ainda menos.

 

 

Assim, com a Espanha política encalhada há já nove meses, num fracasso que ninguém assume – cada um atira a responsabilidade para o outro - já está no ar a hipótese de novas eleições, as terceiras, um ano depois das primeiras, outra vez em cima do natal. É como se estivessem a esgotar os eleitores: votam, em repetições eleitorais, até ficar conseguido o arranjo que interessa.

 

 

Como alternativa a essa hipótese de terceiras eleições está em curso um jogo de pressões que passa pelas eleições autonómicas, marcadas para 25 de setembro, no País Basco e na Galiza.

 

 

No País Basco, o Partido Nacionalista Basco (PNV), com 27 dos 75 deputados autonómicos, governa através de acordos com o PSOE (16 deputados). Se o PSOE retroceder perante o provável crescimento da esquerda mais à esquerda (Unidos Podemos e Bildu), o PNV pode vir a precisar do PP para governar. Seria o bingo para Rajoy: dá apoio ao PNV no País Basco e exige em troca o voto dos 5 deputados PNV em Madrid.

 

 

O voto na Galiza também conta para o jogo nacional. A maioria absoluta no parlamento de Santiago de Compostela é atingida com 38 deputados e o PP governa com 41. A confirmação ou perda da maioria absoluta em 25 de setembro concorre para a legitimidade de Rajoy. O presidente do governo há nove meses em funções espera que esta conjunção permita fazer quebrar a intransigência do socialista Sanchez.

 

 

Rajoy parece de braços cruzados à espera do que possa vir a acontecer. Seja como for, sem a coragem de um amplo acordo político, a governabilidade de Espanha fica muito precária, em incertezas constantes.

 

 

Dos políticos espera-se que saibam mover-se e encontrar caminhos para transformar a realidade para melhor. Quando passam nove meses e não são capazes de avançar e explorar por entre a realidade e a utopia, fica-se a olhar para eles com desconfiança. O país que tinha alimentado a ilusão entra na desilusão por estarem a ser barradas as saídas e ninguém ousa fazer uma chave.

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

O land de Mecklenburg lá no Leste da Alemanha parece um território insignificante. Sucede que é por lá que está a terra natal da chanceler Merkel, e que foi lá que, pela primeira vez na história da Alemanha unificada, um partido populista e xenófobo, o AfD, suplantou a poderosa democracia-cristã da CDU. As frustrações e ressentimentos estão a levar a este crescendo de forças populistas. Os eleitores castigam Merkel por há um ano ela ter tomado a corajosa decisão de abrir portas aos refugiados. Merkel pode perder eleições mas colocou-se como estadista à altura da história.

 

 

Que futuro pode ter a Esquerda? Oportuna reflexão aberta pelo Guardian.

 

 

Estamos habituados a ouvir falar em “Estado de direito”. O presidente das Filipinas, Duterte, declarou o país “Estado de não direito”. A inquietação com este vale-tudo que sacrifica as liberdades fundamentais generaliza-se. Leia-se o alerta no NYT e a denúncia de um fundador da Human Rights Watch.

 

 

 As capas de duas revistas escolhidas no Sapo Jornais: a Veja vê a morte do PT, o L’Espresso confia na boa reconstrução após o terramoto no centro de Itália – mas reclama que não deixem a máfia meter mãos na obra.

publicado às 09:44

O país de riscos precisa de cultura de prevenção

Por: Sena Santos

Em 18 de agosto de 1756 Rousseau enviou a Voltaire o que ficou conhecido como Carta sobre a Providência. Continha os argumentos de contestação de Rousseau às ideias que Voltaire tinha colocado no Poema sobre o Desastre de Lisboa. Na origem da polémica entre os dois filósofos, discussão que depois foi alargada, esteve o terramoto e o maremoto que meses antes, em 1 de novembro de 1755, tinha devastado a cidade de Lisboa.

 

 

Se Deus é omnipotente e bondoso, que diabo o levou a deixar que Lisboa fosse sujeita a uma chacina assim terrível, é, genericamente, a questão suscitada no poema de Voltaire, tendo em fundo a recusa do otimismo filosófico que marcava aquele tempo e que Leibniz tinha teorizado. Responde-lhe Rousseau, desmontando a questão da responsabilidade de Deus: não foi ele quem colocou as pessoas e as casas nos lugares de risco de Lisboa.  

 

 

Em suma: Rousseau subtrai ao domínio da metafísica e do divino a culpa pela tragédia no terramoto de Lisboa e transporta-a para o epicentro dos territórios da ética e da política. Na prática, Rousseau remete a questão para a consciência da responsabilidade da sociedade. A questão está nas escolhas públicas, nas decisões que são ou não são tomadas.

 

 

É assim que continuamos 260 anos depois. Os terramotos na espinha dorsal de Itália avivam-nos a lembrança de que Portugal é um mosaico de fragilidades e que também tem, designadamente na área de Lisboa, em porções do Algarve e em ilhas dos Açores, exposição ao risco sísmico que deve obrigar-nos a fazer o que pode ser feito para prevenir a desgraça.

 

 

O Japão, a Califórnia e até o Chile já nos têm mostrado que uma aldeia, uma vila ou uma cidade não têm de ficar pulverizadas sempre que a terra treme com mais força.

 

 

Em Itália, nestes dias, também ficou à vista como é valioso preparar os edifícios para o risco sísmico. Em Amatrice como em Pescara del Tronto, as ruínas das casas estão a deixar a descoberto a fragilidade das suas paredes. Já estão a ser detetadas múltiplas falhas estruturais naquelas casas que ruíram. Eram quase todas casas antigas da Itália que parece mesmo eterna e que tinham sido modificadas e ampliadas nos tempos modernos. Em vários casos a estrutura terá ficado demasiado pesada para as débeis paredes de suporte. Há dúvidas sobre os materiais usados nas ampliações, classificadas de beneficiações mas feitas sem estudo de sustentação.

 

 

Logo ao lado de Amatrice e de Pescara del Tronto, no mesmo território sísmico, está Norcia. Apesar de estar a apenas 17 quilómetros do epicentro, em Norcia o terramoto não levou nenhuma vida, enquanto nas terras vizinhas os mortos são quase 300. Não foi milagre, há um pormenor decisivo: é que em Norcia, após a evidência de alto risco com crises sísmicas em 1979 e em 1997, foi decidido dar prioridade ao esforço máximo pela segurança do território local. Passou por investir no estudo do solo onde estão os alicerces de cada casa, análise de cada construção e ter a coragem de assumir que o que tinha risco ia para reconstrução com modelos anti-sísmicos. Isso implicou a coragem política de desviar dinheiros que faltaram em outras necessidades. Mas, verifica-se, garantiu salvar vidas.

 

 

Renzo Piano, lenda da arquitetura contemporânea italiana, ocupa-se há 40 anos da arquitetura e engenharia dos edifícios. Já várias vezes denunciou que “somos herdeiros, indignos, do grande património que herdámos, indignos porque não o protegemos”. Insiste que “perante as catástrofes não podemos atirar culpas para o destino e a fatalidade, mas para nós que não ouvimos os alertas”. Piano defende há muito um audaz e consistente plano de reabilitação quer das degradadas periferias das cidades italianas quer das zonas de risco sísmico. Renzo Piano foi das primeiras pessoas a quem o primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, falou quando começou a tratar as tarefas de reconstrução das zonas de desastre. A conversa, no último domingo, prolongou-se por quatro horas. Piano colocou uma exigência: não fazer remendos, tratar de raiz, como deve ser. Com diagnósticos exigentes como os da medicina, com, por exemplo, a termografia a permitir saber do estado da saúde das paredes. E intervenções de micro-cirurgia para as urgências imediatas em edifícios. Com a noção de que o dinheiro gasto, e será muito, é investimento que gera riqueza: salva vidas humanas e dá trabalho a tanta gente.

 

 

Falta-nos informação sobre o estado destas coisas em Portugal. Uma responsável pela área de sismos na Ordem dos Arquitetos alertou para motivos de preocupação, em particular com as obras de reabilitação que proliferam em cidades como Lisboa. O governo, através do ministro do Ambiente, respondeu que esta é uma matéria que está em estudo, designadamente o regulamento sobre resistência dos edifícios. É preciso.

 

 

Em Portugal há grandes melhorias, nos últimos 20 anos, no que tem a ver com segurança e proteção civil. Isso ficou evidenciado no começo deste mês no Festival Andanças, junto a Castelo de Vide. Estavam reunidos milhares de participantes e um incêndio propagou-se em cascata no parque automóvel, fazendo arder 422 carros. Os carros ficaram perdidos mas a segurança foi garantida com eficácia de modo a que nenhuma vida ficasse em risco.

 

 

Precisamos dessa determinação em todos os domínios. A prescrição anti-sísmica é devidamente regulamentada e verificada? Será que cada edifício pode ter, sem burocracias, um bilhete de identidade que nos diga sobre a sua segurança, incluindo a certificação anti-sísmica?

 

 

Seria bom termos respostas a questões como estas e muitas mais colocadas pelos peritos. O físico e sismólogo Charles Richter, introdutor da escala de medição dos sismos a quem dá o nome, deixou o alerta: “O que causa maior número de mortos não é o terramoto mas as construções feitas pelo homem”. Sabemos que a prevenção custa muito dinheiro, mas custa muito menos que a intervenção em fase amarga e trágica depois da catástrofe.

 

 

As catástrofes naturais são inevitáveis. Os seus efeitos, podem ser atenuados. As lições dos desastres, lastimavelmente, depois do recorrente reality show da dor com a vida e a morte em direto, caem depressa no esquecimento.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

 

António Guterres lidera, de modo constante, a corrida para a eleição do secretário-geral da ONU. Será que a chave decisiva está, como admite o The Guardian, na negociação do voto russo? Há sinais de que a reunião ministerial, em Moscovo, de Augusto Santos Silva com Lavrov deixou portas abertas. O voto de Angola também é crucial para a seleção pelos 15 membros do Conselho de Segurança.

 

 

Espanha está em ponto morto político à espera de um acordo para governo desde as eleições de 20 de dezembro do ano passado. Rajoy volta esta tarde a tentar passar no parlamento, mas a falta de seis votos anuncia novo fracasso aritmético. Será que os espanhóis vão voltar a eleições, as terceiras, já apontadas para o Natal? Será que as eleições regionais de 25 de setembro na Galiza e no País Basco vão ajudar a negociação de compromissos para o governo do Reino de Espanha?

 

 

Duas primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO JORNAIS, esta do Estadão e esta do Correio Braziliense. Fica uma pergunta: como é que os historiadores, num futuro próximo, vão definir o que fica hoje decidido no Senado de Brasília?

 

publicado às 08:29

Dispam-se quanto lhes apetecer, vistam-se como quiserem - sem tapar a cara

Por: Sena Santos

Quando, no final dos anos 40 do século XX, a campeã de natação e estrela do cinema de Hollywood Esther Williams se deixou fotografar, à beira de uma piscina, com o corpo apenas coberto pelas duas peças de tecido de um biquíni levantou-se grande alvoroço, excitação entusiasmada de uns, reprovadora de outros.

 

Quase o mesmo rebuliço, no começo dos anos 60, quando a estilista Mary Quant pôs à mostra as pernas das mulheres que então ousaram a liberdade e a audácia de usar mini-saia. Neste verão de 2016, em países muçulmanos do Mediterrâneo sul, tal como nos anos anteriores, são muitas as mulheres que ousam ignorar o olhar agressivo e intimidatório dos que pretendem vexá-las por tomarem banhos na praia vestidas ou despidas, com um fato de banho, como lhes apetece.

 

Pouco se fala da coragem destas mulheres muçulmanas que desafiam o sistema opressivo instalado nos seus países. Mas em todo este verão tem-se discutido muito o uso do burquíni, uma versão menos tapada da burqa, concebida para que as mulheres muçulmanas vão à praia. Vê-se qualquer coisa mais do corpo: os pés, as mãos e parte do rosto. Chamar-se ao burquíni um fato de banho não encaixa bem, estamos perante uma espécie de fato-armadura que esconde quem o usa – em contraste com a nudez desarmada que pode estar esparramada logo ao lado.

 

O nome burquíni pretende obviamente fazer alusão ao biquíni e percebe-se de imediato que é uma resposta, da parte de quem cultiva uma mais fechada identidade muçulmana, aquele duas peças que a mulher ocidental conquistou com alguma luta e que até já deu lugar ao monoquíni, quando não, onde pode ser, para quem quer, a nudez total, tudo para o mais total aproveitamento dos benefícios do sol.

 

A discussão sobre o burquíni, à primeira vista, parece uma estéril polémica de verão ou de como é infinita a capacidade humana para misturar problemas reais com o que é fútil. De facto, o debate não fica ligeiro, porque estão em causa liberdades fundamentais. A discussão está mergulhada numa maré europeia carregada de tensões, emoções, traumas, preconceitos, medos e distorções. Até de ódios à flor da pele.

 

Há um ponto de partida que deve prevalecer o princípio fundamental de que cada pessoa é dona exclusiva do seu corpo e da sua vida. Não pode ser um Estado ou uma religião a ditar sobre a vontade de cada pessoa. Cumpre ao Estado, isso sim, proteger a liberdade individual de escolha. Cada pessoa, mulher ou homem, deve poder vestir-se – e até quase despir-se - como entende, em respeito pela norma básica de convivência humana e de respeito pelos outros. Alguém proíbe uma freira de ir, vestida com o seu hábito, para uma praia? Porquê então proibir a mulher que usa burquíni de entrar numa praia, como sucede em lugares do sul de França? A interdição é uma inútil intolerância, uma posição rígida que dificulta o diálogo e a integração. A proibição tende a produzir o efeito contrário: é oferecer argumentos à campanha dos fundamentalistas e oferecer-lhes novos simpatizantes.

 

Esta proibição deveria estar proibida num país (num continente) que proclama a liberdade de culto como pilar da sua cultura.

 

Nem sequer dá para julgar o quão irónico é que em França, onde há 60 anos Roger Vadim expôs o corpo despido de Brigitte Bardot e revelou o seu poder sedutor nos 15 segundos de abertura do filme “E deus criou a mulher”, agora possa haver interdições e multas para uma mulher que vai à praia demasiado vestida.

 

Quem quiser tapar-se, que se tape – é certo que quem nas últimas décadas foi ousando um fato de banho com cobertura cada vez mais mínima achará um desperdício que se esconda o corpo, e que este fique subtraído aos prazeres do sol. É natural que questionemos a satisfação que pode dar estar na praia ou na piscina com grande parte do corpo coberto pelo burquini. Mas é a opção de cada pessoa.

 

Evidentemente, quem escolhe o burquíni está a assumir uma afirmação: “esta é a minha identidade, esta é a minha religião”. Escolha livre, liberdade de indumentária. A liberdade individual é sempre sagrada e o Estado existe para defender os direitos das pessoas, não para os limitar.

 

Diferente é a questão do uso da burqa, que tapa o rosto. É insuportável vivermos numa sociedade onde há gente que tapa a cara em lugares públicos. Do mesmo modo que é inaceitável que alguém possa caminhar pela rua, sentar-se num café ou esplanada, entrar numa escola ou mercado com um capacete a cobrir-lhe a cabeça, também não é admissível que alguma mulher o faça com uma burqa – a burqa é uma limitação que o fundamentalismo, discriminatoriamente, impõe apenas às mulheres. O cara a cara é uma das bases na nossa convivência.

 

É facto que a sucessão de ataques terroristas instalou na Europa um modo desconfiado, atemorizado, de olhar para o que é diferente. Estaremos a distorcer tudo se não soubermos distinguir entre islão, fundamentalismo e terrorismo. Sem perder a noção da cultura de tolerância que é suposto marcar a modernidade ocidental. Já agora: distinguindo também entre a submissão da mulher – que nos habituámos a lastimar no mundo muçulmano, ainda que não seja exclusivo do grupo - e costumes atávicos, mas legítimos.

 

Não esqueçamos que até ao século XVIII nadar ou tomar banho de mar eram práticas reprovadas no ocidente cristão. Constata-se que há sociedades do mundo muçulmano onde subsistem práticas parecidas. Mas pretendermos catalogar as mulheres muçulmanas em função dos centímetros de roupa que usam parece abuso de arrogância. Impor-lhes um tamanho de tecido a cobrir-lhes o corpo é uma estúpida cruzada contra a liberdade individual.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

Feyisa Lilesa, o atleta etíope que nos alertou para mais uma das muitas tragédias em países do Corno de África.

 

A imagem de 12 dias no mar com uma operação de salvamento ao largo da costa da Líbia.

 

Os melhores filmes do que vai de século numa escolha para a BBC de 177 críticos de 36 países:  o topo do pódio para o inquietante Mulholland Drive, de David Lynch.

 

Primeiras páginas escolhidas hoje: esta, esta e esta. A Europa, como um grande navio, vai finalmente mover-se em boa rota? Mas era preciso que a reunião de Renzi, Merkel e Hollande fosse a bordo de um porta-aviões militar, mesmo que frente a uma ilha simbólica?

publicado às 08:17

Trump à beira da derrota, mas a fúria contra o estado das coisas ameaça Madam President

Por: Sena Santos

A dúvida que chegou a pairar parece hoje resolvida: Donald Trump, “The Donald”, vai perder as eleições. Os eleitores dos EUA vão, em 8 de novembro, fazer de Hillary Madam President.

 

É facto que ainda faltam onze semanas para o dia do voto, que ainda está para se ver o efeito de três debates de máxima audiência, sabendo-se que em política tudo pode sempre acontecer, mas ficou evidente no último mês que “The Donald” ultrapassou a crucial linha vermelha do eleitorado republicano moderado e atingiu um ponto de quase impossível retorno. Toda a gente tinha constatado no último ano de campanha que “The Donald” é uma criatura extrema, um instável e excêntrico provocador sem ética, sem um mínimo sentido de decência, uma aberração na tradição política, tanto moral como cultural, da América conservadora.  

 

“The Donald” tem mostrado - com a linguagem sexista, racista e violenta que usa - um espantoso talento para se autodestruir. Muitos republicanos não o suportavam, alguns deles condescendiam. Neste último mês, com os disparates ditos ao apelar aos portadores de arma para resolverem o problema Clinton, ao insinuar que Obama é o fundador do “Estado Islâmico” e, sobretudo, ao ofender os pais de um soldado americano que perdeu a vida, “The Donald” ultrapassou os limites, exasperou esses republicanos moderados que tentavam manter fidelidade ao partido. Donald Trump deixa assim de ter probabilidade de reunir uma base de apoio que lhe permita ser competidor elegível. Embora continue na eleição e haja que esperar pelos votos, está muito desqualificado.

 

Tanta gente nos EUA não gosta de Hillary, há muitos que a detestam. Incomoda nela o que é sentido como falta de autenticidade. Por mais voltas que os estrategos de campanha tratem de dar, não conseguem humanizar a figura distante, não afetiva, de Hillary. Mas, mesmo sem levantar ondas de entusiasmo, ela vai ganhar por ser a alternativa que resta. E esta eleição americana até vai outra vez entrar para a história: os eleitores dos EUA, depois de terem em primeira vez eleito um negro para presidente, agora vão pela primeira vez eleger uma mulher.

 

O retrato da geografia política dos EUA tem definições muito nítidas e constantes: há maioria dos democratas nos estados costeiros, do Maine à Virgínia na fachada atlântica e do Canadá ao México na frente do Pacífico; no meio há um imenso território, mas muito menos povoado, do Texas ao Dakota do Norte, do Utah ao Kentucky, dominado pelos republicanos. A análise mais detalhada destes mapas mostra que mesmo nos estados costeiros, a maioria democrata está concentrada nas grandes cidades, Nova Iorque, Filadélfia, Chicago, Minneapolis, Seattle, Los Angeles ou São Francisco; mas basta afastarmo-nos algumas dezenas de quilómetros dessas grandes cidades e a maioria passa a ser republicana. Ou seja, é, genericamente, um clássico: as áreas económica e culturalmente mais dinâmicas voltam-se para os democratas, as áreas rurais e as grandes pradarias confiam nos republicanos. Este é o retrato geral. Que também nos mostra que quase 90% dos negros e 60% dos hispânicos tende a votar democrata.

 

É ilustrativo compararmos o que tem acontecido num estado cuja cultura está centrada na família, como o Utah: em 2004, o republicano George W. Bush recebeu 72% dos votos deste estado do Oeste. Quatro anos depois, o também republicano McCain alcançou 63%. Em 2012, Mitt Romney, na oposição a Obama chegou aos 73%.  Agora, as sondagens estão a dar Trump abaixo dos 40%, empatado com Hillary no Utah. Neste estado do Utah, é muito forte o peso dos mórmons que, embora tradicionalmente próximos dos republicanos, rejeitam o discurso de Trump que rompe com valores instalados e encaminha para a perseguição a grupos religiosos, no caso, os muçulmanos. Os mórmons sabem o que é sofrerem hostilidades, rejeitam quem as promove.

 

Trump, “The Donald”, uma anomalia nesta campanha presidencial nos EUA, parece-me, claramente, um caso arrumado. Não tem continuidade política depois de 8 de novembro. Mas o facto de ter chegado aqui é muito relevante e revelador do descontentamento que avança pela sociedade dos EUA. Trump não passa mas o trumpismo, tal como o sanderismo, vão continuar e esse vai ser um desafio crucial para a Madam President Hillary Clinton. É a revolta generalizada contra o “establishment” e contra o estado das coisas. É o profundo mal-estar que sucede à quebra do poder de compra e dos empregos e ao colapso da coesão social. Algo que disparou com o desmoronamento de 2007/2008, mas que já vinha de antes.

 

Os americanos cultivavam orgulho no seu país e nas suas instituições. Tinham-se habituado, no pós-guerra, a considerar os EUA como potência planetária para o bem. Intocável, segura, terra de futuro. Havia o racismo, a segregação, mas havia orgulho no espírito da nação americana.  Ainda que com periódicas ondas de incerteza. Aconteceu em 1957, quando os soviéticos lançaram o primeiro foguetão para o espaço, mas a confiança regressou logo a seguir com Kennedy a prometer a lua. A guerra do Vietname foi outra era de incerteza, a que se somou a crise energética que derrubou o presidente Carter.

 

Agora, depois da infâmia no 11 de setembro de 2001, tudo está de pernas para o ar. A América deixou de ser um país seguro. O medo instalou-se. A globalização transferiu para o estrangeiro muita indústria e, também com a revolução tecnológica, muita gente perdeu o posto de trabalho. Os salários dos não qualificados baixaram. A falta de emprego favoreceu a subida da hostilidade com imigrantes. A América mudou muito no século XXI. O capital social do país está abalado, há declínio do número de postos de trabalho, muitos deles suprimidos pelos avanços da tecnologia. A nova economia atirou para o limbo muitos milhões de pessoas, maioritariamente brancos e com escassa qualificação. Passaram a sentir-se ultrapassados ou até excluídos dentro do seu país. É entre esta gente revoltada contra o sistema que “The Donald” conquistou a relevância que fez dele um ciclone sobre as primárias da campanha eleitoral.

 

A fúria contra o sistema que alimentou ao longo de um ano a campanha de Trump é a mesma, embora com segmentos sociais diferentes, que deu tanto fôlego à campanha de Bernie Sanders. Trump explorou o populismo radical mais à direita, Sanders cresceu com os apelos mais à esquerda pela justiça social. Ambos são expressão de um profundo e justificado descontentamento social nos EUA. Um sentimento que em muitos casos se traduz por revolta, e que vai continuar depois de eleita a nova presidência.

 

Trump vai continuar fanfarrão mas está derrotado, Sanders tende a optar por uma retirada digna, mas o espaço sociopolítico dos EUA está propício para o aparecimento de alternativas extremadas. E o próximo Trump provavelmente nem vai ser um “clown” como “The Donald”. Madam President vai ter de ser capaz de prodígios políticos para evitar que a América entre em erupção social.  

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

 

O jornalismo conta o que acontece no tempo presente. Parte do que o jornalismo trata entra depois para a história. É o que acontece com Fractured lands: How the Arab world came apart,  grande reportagem de extraordinária qualidade realizada ao longo de 18 meses pelo jornalista-escritor Scott Anderson a que se juntam as imagens captadas no terreno, durante 14 anos, pelo repórter fotográfico Paolo Pellegrin, e publicada no último fim de semana no New York Times Magazine. É uma reportagem profunda e preciosa, realizada com grande sensibilidade, essencial para decifrarmos, ao longo de cinco fascinantes capítulos, o que tem acontecido no Médio Oriente nas últimas quatro décadas e para compreendermos o caos de hoje. O mundo árabe, de 1976 a 2016, grande jornalismo, grande reportagem!

 

João Pina é um repórter fotográfico que vai ao fundo das coisas. Dedicou quase uma década de trabalho a investigar os horrores praticados há 40 anos por seis repressivas ditaduras militares da América do Sul que se coordenaram numa Operação Condor que perseguiu e eliminou 60 mil opositores. João Pina encontrou-se com uma centena de vítimas, estudou processos nos arquivos, acompanhou julgamentos, visitou prisões e centros de tortura. Muitas das estremecedoras fotografias a preto e branco estão publicadas no livro Condor (Tinta da China, 2014).  O trabalho de João Pina já foi mostrado em exposições em S. Paulo, em Santiago do Chile e, neste momento, na principal mostra europeia de tendências no mundo da imagem, os Encontros de Arles. A presença de João Pina em Arles está assim no Libération e já esteve assim no El País. Quando será a exposição Condor em Portugal?

 

O obstáculo de género à qualidade de Guterres: Ban Ki-moon resolve intervir para puxar por uma mulher para lhe suceder na secretaria-geral da ONU.

 

Duas primeiras páginas escolhidas hoje: esta e esta.  

 

E, hoje, grande salto para Nelson Évora e grande pagaiada para Fernando Pimenta.

 

 

publicado às 08:18

O espetáculo é fabuloso e é para todos

Por: Sena Santos

 

Esta é uma história de encantamentos e magia contagiante. Irromperam nas colunas de som as primeiras notas de “Aquele abraço”, o hino à liberdade composto por Gilberto Gil, em 1969, em plena ditadura, o relvado do Maracanã foi transformado num imenso ecrã por onde desfilou a vida do Brasil, as emoções nas bancadas cheias do estádio mítico entraram em vibração e pelo mundo, agarrado pela transmissão, propagou-se uma tripla magia: a da cidade que, apesar de tantas queixas, continua a gerar sensações maravilhosas, a do povo brasileiro que, mesmo tão sofrido, tem no rosto aquela alegria marota e no corpo aquele ritmo exuberante, e a do espetáculo fabuloso dos Jogos Olímpicos. Os Jogos têm o valor político extraordinário de nos mostrar que todos podem conviver, com alegria.

 

 

Num estádio, numa pista, numa piscina, numa cantina, num bar, numa paragem de autocarros, numa aldeia. Caem os racismos e as soberbas, gente de todas as cores, de todas a regiões e de todas as religiões, todos podem dar-se e, com alegria, com entusiasmo, sem medos, competir uns com os outros, umas com as outras. Jogar, falar, dançar, brincar. É um exemplar encontro social e humano. É um domínio em que a finança não manda, ou pelo menos não tem o poder decisivo.

 

 

Apetece abrir gavetas das memórias. 1936 foi um ano nefasto, o dos jogos de Hitler – mas também do super campeão Jesse Owens - em Berlim e do começo das matanças na guerra civil de Espanha. Tempos tremendos. Mas, 32 anos depois, veio 1968, um ano talvez o mais intenso do século XX, e presente na memória vivida de muitos de nós: foi um ano de violências e utopias, a escalada da guerra do Vietname, Bob Dylan e Joan Baez eram estrelas empolgantes na contestação à devastadora guerra; foi o ano do choque com o assassinato de Martin Luther King e de Bob Kennedy, da revolta estudantil que alastrou da Sorbonne e do Boulevard Saint Germain em Paris, aos Estados Unidos, ao Japão e a outros países, dos tanques soviéticos a invadir o coração de Praga e da liberdade, da revolução cultural de Mao com todos os excessos e purgas na China que se reclamava de Popular. Foi o ano em que o mundo sentiu um soco no estômago com as imagens trágicas da fome de morte no Biafra. Foi também o ano em que Salazar caiu da cadeira de lona na casa de férias no Estoril e assim se levantou a ilusão de alguma aragem no claustrofóbico regime político de um Portugal onde os jovens eram empurrados para optar entre o pesadelo da guerra colonial em África e o exílio nalguma França.

 

 

1968 foi ano olímpico, jogos na Cidade do México e na televisão ainda a preto e branco, mas a deixarem memórias que marcam: foram os jogos do protesto dos americanos do Black Power (Poder Negro) e do espantoso voo de 8 metros e 90 centímetros – marca que parecia fora do alcance humano - do americano Bob Beamon no salto em comprimento. O pódio da corrida de 200 metros planos em atletismo entrou para a história pela audácia política de dois atletas campeões: o medalha de ouro Tommie Smith e o medalha de bronze John Carlos, ambos negros americanos, enquanto era içada a bandeira e entoado o hino dos EUA, ergueram o punho com uma luva preta a simbolizar o protesto dos negros. O australiano Peter Norman, um branco, não levantou o punho mas levantou a voz para se solidarizar com os companheiros no pódio. Os dois americanos foram expulsos da aldeia olímpica mas o seu gesto político marcou os jogos de 68 no México tanto quanto a proeza do salto que fez de Bob Beamon uma lenda do desporto.

 

 

Vieram a seguir os Jogos de 72, em Munique. Foi a apoteose do norte-americano Mark Spitz com sete ouros na piscina, e a soviética Olga Korbut a entrar para a lenda na ginástica. Mas também houve o lado amargo com a matança de 17 pessoas (11 atletas israelitas, cinco terroristas do Setembro Negro palestiniano e um polícia alemão), num ataque que transportou para dentro dos Jogos as lutas entre palestinianos e israelitas.

 

 

Oito anos depois, 1984, foi Los Angeles: o júbilo português com o ouro da maratona para Carlos Lopes e o deslumbramento com Carl Lewis que disparou como o atleta mais completo de todos os tempos.

 

 

Continuando a avançar nas memórias, 1992 foi a vez de Barcelona. Freddie Mercury já tinha perdido a vida para a SIDA há nove meses, mas no ecrã do estádio de Montjuic e na coluna sonora a voz dele ressurgiu e uniu-se à de Montserrat Cabbalé para interpretar Barcelona, o hino oficial desta edição dos Jogos num ano de glória espanhola – Expo em Sevilha e Madrid capital cultural. Também está na memória o espetáculo dado pelo triunfante “Dream Team” do basquetebol americano, com Magic Johnson e Michael Jordan. E a imagem da americana Gail Devers que se levantou de uma doença que a tinha posto em cadeira de rodas para conquistar o ouro dos 200 metros no atletismo.

 

 

Também inesquecível o ano 2000, em Sydney, com a aborígene Cathy Freeman a ganhar o ouro dos 400 metros e o surgimento nas piscinas do torpedo Ian Thorpe. Em 2004 foi o regresso dos Jogos a Atenas. Inolvidável festa de abertura, com a Grécia a mostrar o nascimento do Ocidente e da democracia, o mito e a história.

 

 

O espetáculo inaugural tornou-se acontecimento sempre imperdível nos Jogos: em 2008, Pequim celebrou a sua conquista do topo global; Londres respondeu em 2012, colocando a Humanidade à frente da tecnologia: literatura, teatro, música e cinema, de Shakespeare a Chaplin e James Bond, passando pelos Beatles, Rolling Stones, The Queen, e até a rainha, Isabel II, ela própria, em carne e osso, no espetáculo criado por Daniel Boyle, realizador de filmes tinha como Slumdog Millionaire ou Trainspotting.

 

 

Entretanto, o mundo tinha mudado: avançava a globalização, tinham entrado o terror com o 11 de setembro e a crise financeira com o colapso de 2008 que abateu quase tudo. Os BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) tinham passado a contar muito na agenda internacional, portanto, também nos Jogos Olímpicos. Em 2 de outubro de 2009 o Comité Olímpico reuniu-se em Copenhaga para decidir a sede dos Jogos de 2016. A Espanha mobilizou-se para a aposta em Madrid. Tóquio investiu mas resignou-se a ficar com a edição de 2020. Obama, já presidente dos EUA, viajou à Dinamarca para defender a candidatura da sua Chicago. Mas também estava em competição um Lula triunfante a puxar pela candidatura do Rio de Janeiro. O ex-operário metalúrgico, presidente do Brasil eleito em 2003 com 54 milhões de votos, parecia protagonizar com êxito uma tranquila revolução: a economia brasileira a crescer 7% ao ano, o salário mínimo a disparar 80%, 35 milhões de brasileiros a saírem da fome e da pobreza extrema, as fundas diferenças salariais a ficarem atenuadas. Lula estava em final de mandato, a taxa de aprovação abeirava-se dos 80% e o Brasil avançava num ciclo de expansão propulsado pela descoberta de enormes reservas de petróleo na costa. Parecia ir escapar à crise que atordoava o mundo mais rico. Mas não foi assim, o tempo passou e a poção mágica que tinha puxado o Brasil deixou de funcionar.

 

 

Em 2013, o preço do petróleo desabou e com ele também caiu muito da Petrobrás que financiava generosamente o sistema político-empresarial do país. Lula já tinha esgotado o tempo de presidência e passado a liderança a Dilma. O Estado tinha menos dinheiro e o povão tornara-se exigente, saía à rua para exigir serviços públicos de qualidade. O Brasil investia milhões nos estádios para o Mundial de 2014 mas o povo reclamava hospitais, escolas e transportes públicos. Sucederam-se manifestações, cada vez mais iradas. Surgiu a Mídia Ninja com grande poder de informação e de mobilização. Tudo contra os poderes que apareciam corruptos ou incapazes. Um justiceiro de Curitiba tornou-se herói popular: o juiz Sérgio Moro, pôs-se ao comando – com espetáculo e populismo jurídico - da Operação Lava-Jato e, ao denunciar a trama corrupta de subornos e lavagem de dinheiro, meteu na cadeia empresários e políticos que antes mandavam no Brasil e desmantelou o sistema político-financeiro do Brasil. O PT, criado por Lula, após 13 anos de poder, foi devorado pelo sistema que não soube reformar. A democracia brasileira entrou em terramoto, com muitas sacanagens e abusos no turbilhão.

 

 

A decomposição do sistema de poder e o esgotamento de recursos financeiros pôs tudo em causa e fez pensar que o Rio de Janeiro – que, entretanto, declarara falência – iria fracassar na organização dos Jogos Olímpicos. O caos foi anunciado. Da desorganização, atrasos e incompetências, à insegurança, à falta de limpeza básica e até ao risco de picadas de mosquitos com ameaça de Zika. No entanto, chegou o dia e tudo funcionou. Uma belíssima cerimónia inaugural que o aclamado realizador da Cidade de Deus concebeu para mostrar a espantosa diversidade e vitalidade do Brasil. Magnífico! Tudo como deve ser, até a vaia a Temer, o presidente em funções cuja presença na tribuna, para tantos, é abusiva, usurpadora. O espetáculo dos Jogos está em curso, sedutor, a mostrar a beleza do gesto físico e a contínua superação individual e coletiva.

 

 

É facto que o Brasil nos últimos tempos andou muito para trás. A promessa ao povão de poder crescer, ler, aprender, comer duas vezes ao dia, ter trabalho, acesso à saúde, ser respeitado, lutar pelo dia de hoje e pelo futuro ficou na utopia. Até as melhorias que Lula trouxe estão em causa. Há uma revolta profunda no coração e na cabeça dos brasileiros. Mas os brasileiros, uma vez mais, saberão dar a volta.

 

 

O brasileiro médio não tem como entrar nos estádios dos Jogos Olímpicos. Mas não deixará de vibrar, tal como todos nós, com a sucessão de momentos mágicos que os ecrãs mostram nestas duas semanas de Jogos Olímpicos. O espetáculo é fabuloso, excitante, e é para todos.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

 

Pelo menos 70 pessoas morreram, grande parte eram advogados e jornalistas, num ataque-suicida nesta segunda-feira num hospital de Quetta, cidade do sul do Paquistão. Que destaque tem esta matança nos media europeus? Compare-se com outro terrível massacre, o de Nice, há menos de um mês.

 

 

O que resta hoje da antiga Babilónia?

 

 

Nas noites de 12 e 13 deste agosto há que contemplar o céu. Anuncia-se uma rica cascata de estrelas cadentes. O espetáculo, tal como o dos Jogos, é fabuloso e é para todos.

 

 

Duas primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO JORNAIS: esta e esta.

publicado às 08:13

O jornalismo nestes tempos de guerra diferente

Por: Sena Santos

Uma vaga de suicídios correu a Europa em finais do século XVIII. Estima-se que terão sido uns 2800 apaixonados com amores não correspondidos que se inspiraram na dor e desespero final do jovem Werther, de Goethe. Publicado inicialmente em 1774, o romance epistolar Os Sofrimentos do Jovem Werther, trata a história do desenfreado amor impossível de Werther por uma Charlotte que está à beira de casar-se com outro. Ela casa-se mesmo e até continuam a ser amigos, mas o ousado Werther não aguenta a asfixiante turbulência passional daquele triângulo amoroso e decide matar-se com um tiro. É a morte escolhida como fuga a um mundo de convenções hipócritas.

 

 

Não há demonstração científica, mas toma-se como realidade que o exemplo de Werther influenciou milhares de apaixonados frustrados por toda a Europa e levou-os ao suicídio. Alguns países, temendo uma psicose coletiva, decidiram impedir a circulação desta obra-prima de Goethe. Nasceu e ficou instalada noção de “efeito Werther”.

 

 

Esta história remete-nos para a influência que pode ter um relato, uma notícia. Uma vaga de homicídios, já no começo do século XX, aparentemente influenciados pelos crimes atribuídos a Jack, o Estripador levou a língua inglesa a arranjar um vocábulo para definir essa eventual causalidade: copycat crime. Um crime influenciado por um outro que ficou envolvido por celebridade.

 

 

São casos que conduzem ao debate sobre a responsabilidade dos media e em particular dos jornalistas em cada palavra que dizem, em cada imagem que mostram, em cada história que contam. É inquestionável que a essência do jornalismo é a de informar e informar implica pesquisar com exigência para contar rigorosamente a verdade dos factos. Há que não esconder o que tem relevante interesse público. O jornalista tem de deixar claro o que são os factos adquiridos, seguros, e distingui-los do que é rumor.

 

 

É preciso que haja ponderação e critério, nervos de aço e bom-senso. Também importa não confundir narração, relato vivo dos acontecimentos, com dramatização. Como igualmente há que garantir que o relato não contem elementos de propaganda ou contrapropaganda, mas apenas a verdade dos factos.

 

 

Tudo isto é suscitado pela macabra progressão de atentados terroristas nos últimos meses na Europa. Todos ficámos horrorizados com todos os relatos. Tudo é revoltante, tudo é inumano. Seja quando o número de vítimas é elevado como em Paris, Bruxelas, Nice, Munique ou Istambul, seja quando esta barbárie tem por alvo o solitário respeitado e ancião pároco de uma aldeia no nordeste francês.

 

 

Como se lida com estas notícias? Rute Sousa Vasco já trouxe na passada sexta-feira aqui no Sapo 24 uma análise muito interessante sobre o modo como nos relacionamos com a informação.  

 

 

Em França cresceu nestes dias o debate sobre a publicação de certas informações sobre os assassinos, autores destes atos bárbaros. O filósofo Bernard-Henri Levy propôs “um grande acordo entre os media” para remeter os terroristas ao anonimato, recusar-lhes a exaltação da autoria ou a glória de heróis do mal. A intenção é a de tentar estancar o tal efeito copycat crime. O psiquiatra Fehti Benslama também reclamou no Le Monde “um pacto” em que os media se comprometem a não publicar qualquer informação biográfica que leve à identificação dos terroristas. Várias redações francesas alinharam com esta posição, designadamente o canal de informação mais visto, a BFMTV. Mas os diretores de jornais tão distintos como o Le Figaro e o Libération recusaram: “é importante identificar aqueles que nos combatem, é preciso fornecer todos os elementos para a compreensão do que está a acontecer entre nós”, defende Alexis Brézet, do Figaro; Laurent Joffrin, do Libération, pergunta se alguém acredita que esse blackout “contribuiria de alguma forma para dissuadir ou alterar a estratégia dos terroristas”; Jean-Marc Four, diretor da rádio pública France-Inter entende que a autocensura é um erro e que é preciso “chamar as coisas pelos nomes, como elas são”.

 

 

Publicar é escolher. Não há escolhas neutras. É uma tarefa que exige critério na seleção dos factos e responsabilidade na publicação. Sempre com toda a liberdade e o devido respeito pela dignidade cada pessoa, designadamente quem é vítima. Sabemos que o sangue tende a atrair audiências mas também sabemos que na maior parte dos casos não é preciso expor o sangue. Há que evitar a tão frequente espetacularização da morte. A exploração dramática não faz parte do ofício do jornalista.

 

 

Os critérios tendem a ser questionados. A matança em Nice que devastou 84 vidas ocupou horas e horas de emissões e páginas e páginas de jornais, revistas e sítios na web. Mas de Bagdad a Aleppo há atentados quase diários com número tremendo de vítimas e essas notícias estão quase desaparecidas dos media europeus. O jornalismo está a servir os cidadãos ao eclipsar estas enésimas tragédias num Iraque ou numa Síria que se tornam cada vez mais distantes?  

 

 

Seja como for, parece evidente que estamos metidos numa guerra, que é assimétrica, que se ampliou do Médio Oriente para dentro da Europa, e que tem uma forte componente mediática. Vivemos numa sociedade que se liga através dos media. Os terroristas usam os media para amplificar a sua ideologia patológica e o medo que pretendem instalar com a sua violência medieval. Mas não é provável que os potenciais candidatos ao martírio que eles pretendem aliciar sejam leitores de jornais de referência ou seguidores de media tradicionais. A propaganda deles circula a partir da clandestinidade das nebulosas jiadistas através do extraordinário poder das redes digitais.

 

 

É sobretudo pelas redes sociais que passa a propaganda que leva ao risco de “efeito Werther” aplicado ao terrorismo destes bárbaros de agora. O ciberespaço está cheio de vídeos que fazem a apologia da violência. Uma razão mais para que o jornalismo cumpra com a máxima exigência a sua função de dar a entender o que acontece.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

 

Como vai Cuba, 10 anos depois de Fidel passar a liderança? A opinião de um experiente diplomata mexicano e a análise de um jornalista espanhol que se dedica às Américas que falam castelhano.

 

 

Os dias duros na Venezuela contados por um olhar italiano.

 

 

Os Jogos Olímpicos estão quase a começar. Uma das pistas para gente a seguir. Falta incluir desejados nomes portugueses.

 

 

Destinos com surpreendente magia. Uma escolha da BBC.

 

 

Primeiras páginas escolhidas hoje: esta, esta e esta. Também esta e esta.

 

publicado às 09:16

Uma eleição que mexe com todos nós: uma América cosmopolita, otimista e tolerante?

Por: Sena Santos

Daqui até novembro vai ocorrer-nos muitas vezes que deveríamos poder participar e votar nas eleições principais nos Estados Unidos da América. Faria sentido não ficarmos à margem na escolha daqueles cujas decisões afetam o nosso modo de vida, por exemplo ao avançarem para guerras e invasões que desencadeiam trágicas consequências, como ficou despoletado no Iraque.

 

Se os europeus também votassem a presidência dos EUA, apesar da vaga populista que por aí anda, Hillary Clinton teria assegurado que em novembro ficaria Madam President e nós ficaríamos menos inquietos. Mas nós não temos esse voto e, tal como as coisas estão, não se pode excluir um cenário de President Trump na Casa Branca de Washington. Perturba imaginar o planeta liderado por gente como Trump, Putin e Erdogan – só faltaria juntar Marine Le Pen, mas é de confiar que os franceses não lhe entreguem o poder nas presidenciais de maio do ano que vem. O que é que explica a adesão de tantos americanos à campanha de Trump?

 

 

Um livro agora publicado, Hillbilly Elegy: A Memoir of A Family and Culture in Crisis, escrita autobiográfica de J.D. Vance, ajuda-nos a entender. Ele explica-nos, e consegue fazê-lo com humor, o declínio do sonho americano num lugar da América lá de dentro. Através da história de uma tradicional família branca cujos avós desceram da pobre pacatez rural na cordilheira dos Apalches para o trabalho nas então, a meio do século XX, pujantes fábricas do Rust Belt, a cintura da ferrugem nas periferias urbanas do Ohio. Viveram a ilusão de um futuro próspero mas, com a recessão dos anos 80, essa indústria colapsou, muitas fábricas fecharam e as comunidades fragmentaram-se. Tudo viria a agravar-se muito no começo deste século e com a depressão de 2007. O desemprego disparou, as falências sucederam-se, a frustração de quase todos atirou muitos para o limbo. Até a religião tradicional perdeu a influência que tinha e muitos procuraram refúgio em drogas. O que o livro nos mostra é como irrompeu e cresceu essa decadência social e a crise cultural e psicológica que afeta milhões de pessoas assim desenraizadas. É o drama da falta de dinheiro mas, ainda mais, a sensação de impotência de uma vasta população branca alarmada com o declínio do sonho e o assalto do pesadelo.

 

 

Trump, “The Donald”, aposta nesta gente branca frustrada para com o voto dela conseguir a eleição em novembro. Estrela da tele-realidade, conseguiu fazer quebrar a coluna vertebral do Partido Republicano. Explora os medos das pessoas, exacerba sentimentos identitários nesta América onde a população branca está a tornar-se minoria e um país que funciona com a força de trabalho dos imigrantes. Trump usa uma estratégia de comunicação assente na manipulação dos factos e da verdade. Atiça o descontentamento populista.

 

 

As mentiras de Trump são evidentes mas há uma grande massa de eleitores que parece não querer reconhecê-las. Por exemplo: Trump denuncia um problema de imigração ilegal tão grave que o leva a querer colocar um muro para barrar a entrada nos EUA de “gente violenta” oriunda do México e de outros países da América Latina. No entanto, de facto, como atesta a Customs and Protection Border Agency, a imigração ilegal nos EUA está no nível mais reduzido desde os anos 1960. Baixa continuamente desde 2008 e a razão está bem à vista: a crise económica que cortou as esperanças e as oportunidades.

 

 

Trump também explora a sensação de insegurança física, perante roubos, violações e assassinatos. Mas os números oficiais do FBI mostram a queda forte da criminalidade violenta em todo o país, fica por um terço dos níveis registados nos anos 1970. O fenómeno que cresce nos EUA é o das atrocidades em massa, com dimensão de facto alarmante: só no ano passado, 372 casos em que o número de mortos em cada incidente foi superior a quatro. É uma tragédia para a qual contribui a facilidade de acesso a armas de fogo nos EUA. Mas esse é um problema para o qual “The Donald” não aponta soluções.

 

 

O rendimento da classe média dos EUA está estagnado ou em retrocesso há uma década. Mas Trump também não mostra soluções para inverter esse quadro preocupante que se repercute na Europa. Parece evidente que a economia americana e o emprego melhorou nestes anos de Obama, mas ao egomaníaco Trump só interessa a desgraça.

 

 

Viu-se na semana passada, na Convenção Republicana, em Cleveland, como Trump, em vez de propor esperança (como incitava Reagan, como tentou Obama, ambos sempre com mensagens aspiracionais positivas), explora o máximo negativismo político, o desdém e o ódio. O ódio a Hillary, o rancor contra o “establishment” que diz ser representado por Hillary. Especialista em designações de desprezo, Trump rebatizou-a “Crooked Hillary”, ou seja, “Hillary a Desonesta”. Trump quer transformar os medos, as frustrações e os ódios em votos.   

 

 

Hillary tem nesta semana uma oportunidade essencial para combater essa tormenta de Trump na América ultra-polarizada. Depois de na semana passada o palco ter sido para Trump na Convenção Republicana, em Cleveland, agora são os quatro dias de Convenção Democrata, em Filadélfia. É a oportunidade para fazer pontes e lançar compromissos poderosos de esperança cultural e política. Não vai ser fácil a Hillary conseguir galvanizar o eleitorado. Mas é vital que seja capaz de entusiasmar com uma visão cosmopolita, otimista e tolerante da América. 

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

 

Erdogan está imparável a sufocar a democracia. Bem avisa Baltasar Garzón. O sultanato turco é o último dos desastres que área balcânica e mediterrânea atravessa.

 

 

Um novo capítulo na história da aviação: o Solar Impulse completou a volta ao mundo sem recurso a combustível fóssil.

 

 

O telemóvel e a internet podem ajudar a melhorar a vida em África?

 

 

Uma primeira página escolhida hoje. Bons mergulhos!

publicado às 08:24

Nem nos deixam tempo para pensar

Por: Sena Santos 

Será que poderemos contrariar a perda do sentido do tempo? Cada dia há um qualquer acontecimento que remove e monopoliza o foco que incidia sobre o que tinha acontecido 24 horas antes, sem termos tido tempo para, em volta do caso anterior, tentar encontrar uma resposta justa que nos conduza à esperança.

 

Numa noite foi o terrorista que usou como bomba um TIR branco para, numa canalhada impensável num ser humano, massacrar as pessoas em festa em Nice. Ele usou o camião contra todos nós, para nos atropelar a todos. Na noite seguinte foi a brutalidade do estanho golpe na Turquia do sultão Erdogan. Passadas outras 24 horas, a notícia era a intolerável violência persecutória do ambicioso autocrata turco que se serve do golpe para reforçar o poder. Pelo meio, outra história, uma agitação e consternação nas redes sociais escritas em português: lastimava-se a revelação de que Liedson, o levezinho no futebol, o avançado que era um 31 para as defesas adversárias, teria morrido subitamente de AVC. Revelação nas redes sociais, sem referência a qualquer fonte. Até que apareceu o próprio levezinho, estupefacto, a avisar que continua “bem vivinho”, mas sem saber como é que alguém o declarou morto aos 38 anos.

 

Emily Bell, diretora do Tow Centre for Digital Journalism na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, escrevia há semanas que “as redes sociais estão a engolir o jornalismo, mas não apenas o jornalismo, engolem também a política, as histórias das pessoas, até a segurança”. Bell comentava que o ecossistema das notícias mudou mais nos últimos cinco anos do que em qualquer outro período dos últimos cinco séculos, desde o tempo de Gutenberg.

 

Há exatamente uma semana, Katharine Viner, diretora do The Guardian, publicou um essencial artigo de opinião em que analisa as profundas transformações que o jornalismo está a atravessar em consequência da consolidação das redes sociais. Viner, escolhida há um ano para substituir na direção do The Guardian o mítico Alan Rusbridger que fez o jornal britânico tornar-se líder global nas edições digitais, é uma mulher jovem mas muito experiente, competente. Ela alerta no texto publicado no dia 12 deste julho que as redes sociais, em vez de divulgar notícias que contribuem para o bem da sociedade e que são a essência do jornalismo, tendem mais para difundir o que está baseado em opiniões ou até rumores em vez de factos verificados.

 

Como surgiu a notícia falsa que galgou pelas redes sociais de que Liedson teria morrido?

E quando são publicadas as imagens de pessoas em agonia tombadas num passeio depois de terem sido esmagadas por um terrorista, como aconteceu na noite de quinta-feira, a liberdade está a ser respeitada?

Como comenta Katharine Viner, precisamos de meios de comunicação fidedignos, que contrastem os factos, que sejam intransigentes no rigor e que tenham sentido crítico sobre o que é noticiável.

 

As redes sociais trouxeram milhares de vantagens, mas tornaram mais difícil distinguir factos de não factos. Viu-se com o caso próximo de Liedson como é fácil fazer propagar uma informação que é falsa. Tal como se tinha visto na noite de 13 de novembro de terrorismo jiadista em Paris com os rumores de que, depois do Bataclan, o Centre Pompidou e o Louvre também estavam a ser atacados. Ou na quinta-feira funesta em Nice com a angústia a ser ampliada com boatos sobre tomada de reféns. Com ou sem deliberada malícia. Sem jornalismo. Com métodos que o jornalismo só pode recusar.

 

Vivemos tempos alucinantes. É uma era que provavelmente tem início em 2001, o ano da matança terrorista de 11 de setembro nos EUA. Vale lembrar essas horas que todos vivemos aterrados com os olhos presos aos ecrãs. Vimos em direto o impacto do segundo avião nas torres do World Trade Center. Vimos em direto o ataque ao Pentágono.  Vimos em direto o desmoronamento das torres. Foi uma tarde (no horário europeu) que parecia de prelúdio ao fim de um mundo. Não se sabia o que viria a seguir, sabia-se que a Al Qaeda estava a declarar guerra total ao nosso modelo de vida.

 

Agora, passados 15 anos, a Al Qaeda parece ter ficado desmembrada e enterrada com a morte de Bin Laden, mas das areias do deserto emergiram grupos e grupúsculos que estão a realizar a desestabilização terrorista do Ocidente ambicionada por Bin Laden. Dois anos e meio depois do 11 de setembro, em 11 de março de 2004, foi a matança de 200 pessoas e um milhar de feridos nos hospitais com as bombas nos comboios de Madrid. No ano seguinte, em 7 de julho de 2005, foram os ataques no metro de Londres, 56 mortos e 700 feridos. Veio 2007 e fomos apanhados pelo colapso do sistema de especulação financeira – desespero para tantos milhões de pessoas.  O terrorismo alastra de modo contínuo, por meio mundo. Os EUA estão massacrados por uma sucessão de episódios de violência racial. Há a infernal sequência de atentados terroristas na África central e mediterrânica, no Médio Oriente, no Paquistão, na Índia, no Bangladesh. E nem é preciso relembrar Paris e Bruxelas. Uma potência europeia decidiu sair da União Europeia. O que pode significar a separação de uma cidade universal como é Londres?  

 

As coisas acontecem e mal temos tempo para pensar na resposta justa. Provavelmente, é o que mais convém a quem nos ataca, sendo que o pensamento sereno e a inteligência estratégica são armas fundamentais para a nossa esperança.

 

A informação, rigorosa, sem dramatização, sem efeitos especiais, é outra arma vital num tempo em que, como evocou David Grossman numa entrevista ao La Repubblica, “o terrorismo está com uma força imensa, capaz de paralisar uma sociedade civil e reforçar os estereótipos racistas”. Grossman, grande escritor hebraico, valente militante pacifista, vive no centro de uma história dramática, a da guerra entre Israel e a Palestina, sofreu a dor da perda de um filho na guerra do Líbano, ele avisa-nos nesta entrevista ao La Repubblica: “É previsível que quanto mais uma sociedade estiver exposta ao terrorismo, tanto mais fortes se tornem as forças nacionalistas e racistas. Assim veremos nos próximos tempos a instalação de mais governos de direita que ao imporem medidas duras vão empurrar minorias para a posterior radicalização”.

 

Nestes dias decorre em atmosfera de epopeia a entronização de Donald Trump como candidato presidencial dos republicanos e não apenas os menos moderados nos EUA. Parece evidente que o derramamento de sangue como aconteceu em Dallas ou em Baton Rouge dá votos a Trump. Também parece claro que o triunfo das ideias de Trump não é coisa boa para a democracia.

 

As ferramentas que tínhamos para entender o que se passa à nossa volta não estão a responder. Os media serão preciosos se forem capazes de dar a mão para fazer compreender. Isso também implica saber dar consistência ao tempo.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

 

A repressão humilhante imposta pelo vencedor na Turquia. Milhares de soldados, juízes e procuradores, acusados de cumplicidade com os golpistas e com a oposição, estão na primeira linha da repressão desencadeada pelo regime de Erdogan. As imagens da agência ANSA que fazem a primeira página no L’Unità e no Corriere della Sera evocam as purgas na URSS de Estaline, na Alemanha de Hitler ou na China de Mao e Deng: centenas de militares prisioneiros, como se fossem animais lidados com desprezo, vergados, com o tronco nu, mãos algemadas atrás das costas. É a lógica do arbítrio de um regime que ameaça voltar à pena de morte.

 

 

O arrependido ghostwriter de Donald Trump: com remorso e com temores.

 

 

Faltam duas semanas para o começo dos Jogos Olímpicos. O que mexeu no Rio de Janeiro.

 

 

Uma primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS: o assunto também é o calor.

publicado às 10:09

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