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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Madrid nos mata. Outra vez

 

Por: Miguel Morgado

 

No Futebol, Fé e Fado (destino) andam, muitas vezes, de braço dado. 22 anos e um dia depois, três amigos repetem uma visita ao Santiago Bernabéu. Uma incursão a Madrid que mete rituais, carros avariados, política à mistura e uma repetição da história. No fim do dia acrescento ao puzzle o F de Família.

 

 

 

As deslocações ao estrangeiro em jogos para as competições europeias fazem parte do sonho de qualquer adepto de futebol que se preze. Visitar catedrais como São Siro (Milan e Inter), Celtic Park (Celtic), Vicente Calderón (Atlético de Madrid) ou Santiago Bernabéu (Real Madrid) entra nos desejos de quem gosta do jogo do 11 para 11. Seguindo um ritual que é mais ou menos comum nessas viagens, tive o privilégio de ter estado nesses, e noutros, estádios, em lazer e em trabalho. E de ter a companhia de um grupo de amigos mais ou menos fixo. Foi assim, por exemplo, a 13 de setembro de 1994 com Madrid como destino e Santiago Bernabéu como palco. E seria assim, 22 anos e um dia depois, marcando o regresso ao mesmo local onde a felicidade não tem sido regra.

 

Neste espaço de tempo, o carro cresceu, passou de um Citroen AX para um Ford de 7 lugares, o grupo, então de cinco, renovou-se e transformou-se num 6+1, sendo três deles repetentes e o “+1” uma boleia um tanto ou quanto inesperada que surgiu em Elvas e que explico mais à frente.

 

As viagens de hoje em nada se compararam com as do século passado, em que as estradas e o nosso tempo em tudo diferem. Recuemos a 1994. Mochilas preparadas, saída com antecedência de Lisboa, algo que a faculdade facilitava. Cavaco Silva como primeiro ministro. A autoestrada do lado português ligava Almada à Marateca, o resto nasceria para a Expo 98. Da fronteira lusitana até à capital espanhola mais de 400 quilómetros de asfalto, entre obras e limite de velocidade de 90 km/h. O socialista Felipe Gonzalez já então desenhava a ligação mais rápida entre as duas sedes ibéricas de governo.

 

Na altura, em 1994, a visita e estadia na Pension Hostal “Chelo”, na Gran Via, estendeu-se ao longo de três dias desdobrados por um roteiro gastronómico, cultural, entre museus e ensinamentos sobre a história de Espanha - ida ao Valle de los Caídos e ao el Escorial - e a experiência da “movida” numa Espanha mergulhada no desemprego (rondou os 25%). 

 

No que respeita ao futebol, razão primeira da excursão, o Real Madrid então treinado por Jorge Valdano e com artistas como Michel e Laudrup venceu, em jogo da 1ª mão da Taça UEFA, por 1-0 a equipa portuguesa que “calou” a afición madritista. Na formação então treinada por Carlos Queiroz  pontificava um tal de Luís Figo, formado no Sporting Clube de Portugal que viria a vestir a famosa camisola branca e a ser considerado o melhor jogador FIFA.

 

 

24 horas e 1200 km por um jogo de futebol

 

Avancemos agora um pouco mais de duas décadas. Nos preparativos, a pensão “Chelo” (cujo o mesmo quarto de 1994 serviu de porto de abrigo numa outra incursão futebolística a Madrid já neste século) chegou a entrar nos planos para o jogo de abertura da Liga dos Campeões. Questões de fé, família e compromissos profissionais obrigaram a uma viagem relâmpago de 24 horas.

 

Com a fronteira de Badajoz à vista, para abastecer o estômago dita a experiência acumulada que, para primeira refeição do dia, é melhor restringir as ambições ao nosso território. E assim foi feito em Elvas, na fronteira do Caia. E é aqui que entra para a história uma curiosa boleia.

 

Um carro de uns miúdos avariou. Miúdos que como nós tinha um mesmo destino e uma mesma missão: Madrid para ver o Sporting. Um puto de 20 anos sai do carro e vem ter connosco a pedir ajuda (leia-se boleia até Madrid).Os outros amigos seguiam em carro alugado em Elvas e / ou por outras boleias até à capital espanhola. Acrescentámos assim um elemento à comitiva. Com a Estremadura e a companhia de muitas matrículas portuguesas pela frente, entre a habitual discussão sobre o mundo da bola, o rapaz da boleia, após conversa rápida, lá nos conta que é jogador de rugby do CDUL. Já em Madrid, no almoço no “el Lateral”, restaurante na Calle Serrano, o apelido denunciou-o como sendo filho de um Secretário de Estado do anterior governo. Com os seus amigos vindos de Elvas a vaguear pelo Paseo de la Castellana, contas feitas, telemóveis trocados à cautela, informou que o seu regresso, sem data e hora marcada, seria tratado durante o resto do dia. Ou no dia seguinte. Uma normalidade para a idade e que arrancou sorrisos a quem tem idade para ser pai dele. “Ai quem me dera ter outra vez 20 anos....”, ouviu-se.    

 

As desculpas de Ronaldo na repetição da história

 

A cinco horas de distância para ver Ronaldo, Bale, William Carvalho, Adrien e Patrício, entra em campo o ritual de andar, parar, picar, beber, conversar, andar novamente até chegar a Chamartin onde é esperado um controle apertado de segurança na entrada, polícias que mais parecem Robocops, cavalos, cães com açaimes e tudo o mais. Os portugueses, uns mais conhecidos que outros, andam por todo o lado à porta do estádio. Lá dentro, na imensa multidão, sobressai Hermínio Loureiro, ex-secretário de Estado do Desporto (não é por acaso que se diz que política e desporto andam de mão dada).

 

 O arbitro apitou, a bola rolou, o público cantou, o Sporting marcou (primeiro), Gelson encantou, Ronaldo, o tal que andou vestido de verde e branco, marcou mas não festejou (já o tinha feito por duas vezes ao serviço do Manchester United), pediu desculpas, e, no final, o Real Madrid ganhou (2-1). Em jeito de ilustração “jogamos como nunca, perdemos como sempre”, foi a frase que repetidamente se escutou durante o tempo obrigatório de espera nas bancadas.

 

O F de Família falou mais alto

 

Fim de jogo. Dois táxis apanhados até à Calle Serrano, jantar numa cadeia de restaurantes, dose reforçada de cafeína, início de viagem pouco depois da meia-noite e o carro atestado numa saída na E-90. Seguindo a palavra mágica de Badajoz, os assuntos de futebol ficaram para trás e foram substituídos por filhos, trabalho e atualidade, do serviço nacional de saúde, do governo liderado por António Costa à crise política espanhola. A despedida de Espanha é feita num estação de combustível a escassos quilómetros do Caia. No tal local onde a história do carro avariado (algo mais comum do que se pensa) foi por instantes recordada e vivida na primeira pessoa quando a bateria do tal Ford de 7 lugares falhou. Boleia para 6 àquela hora não vinha nada a calhar. Valeu uns cabos salvadores. Safa!   

 

5h30 hora de chegada a Lisboa. Tempo de, mais uma vez, recordar 1994. Tudo porque, nesse ano, numa epopeia ao bom estilo camionista, depois de horas a fio a rolar por estradas nacionais no Citroen AX, uma vontade de começar o dia com uma bela bifana local levou a uma paragem em Vendas Novas. A noticia, às 7h00, de um segundo bloqueio da ponte 25 de abril deixou-nos, felizmente, fora do campo dos “últimos dias” de Cavaco Silva, desviando-nos para a reta do Infantado. Na altura, a inexistência de auto estrada em muito compensou. Hoje, ao invés, o tapete que liga as duas capitais contribuiu para que cumpríssemos o objetivo de tomar o pequeno almoço em casa. E no meu caso particular de celebrar, com um dia de atraso, às primeiras horas da manhã, o 10.º aniversário de uma das minhas filhas. Questões de família falam de facto mais alto.       

publicado às 10:55

A Liga dos Aurélios?

Por: Miguel Morgado

 

Sabia que na época passada Maxi Pereira foi o rei da bola no pé (2639 toques), seguido do campeão europeu, João Mário? Já Gaitán com toque de Midas “deu” 14 golos. Jonas acertou sete vezes da marca de 11 metros e a cabeça de Slimani vale ouro em mais de 1/3 dos seus tentos. Que poderiam ser mais caso não tivesse falhado 20 golos certos. O Porto fez 570 remates e o Braga acertou 21 tiros no ferro. Dados que explicam o sucesso (e insucesso) passado e podem antecipar o que ai vem numa Liga onde moram, por enquanto, quatro “Aurélios”. Vamos às contas.

 

 

 

Aí está a Liga 2016-2017. No Seixal, em Alcochete ou no Olival, sabemos, por enquanto, que partiram Renato Sanches e Nico Gaitán, que os quatro “Aurélios” campeões europeus ainda moram, por enquanto, em Alvalade e que o Porto procura no “Somos Porto” a alma que perdeu no passado recente. Esses são os factos mais ou menos crus, mas que até ao fecho do mercado terão outros condimentos. Os números não mentem, diz-se, por isso olhemos para as estatísticas da época transacta para perceber a importância de jogadores e o sucesso (ou insucesso) das equipas. Números que, de certo, ajudam a perceber e antecipar a prova que está preste a arrancar. Um instrumento útil para treinadores e adeptos. E para presidentes dos clubes e empresários.

 

Ora bem. Peguemos então numa folha e apontemos. Sabemos de acordo com as estatísticas da 1ª Liga, que Jonas, avançado das águias, 16º jogador mais utilizado (33 jogos, 1 como suplente utilizado), contabilizou 2964 minutos e foi o melhor marcador com 32 golos. No outro lado da 2ª circular, morou, e mora ainda, Islam Slimani. Em 33 jogos acertou 27 vezes na baliza em 3013 minutos, o que fez do argelino o 15º jogador mais utilizado.

 

No duelo de pontas de lança, socorremo-nos de outras estatísticas. Esta disponibilizadas pelo “GoalPoint”, ficamos a saber que Jonas concretizou sete pontapés da marca de grande penalidade e foi quem rematou mais vezes (124 remates), o que fez do brasileiro o jogador com melhor taxa de concretização (25,80%). O clube que representa (15,90% taxa de concretização) liderou esses dados.

Já Slimani, com 65 remates enquadrados (entenda-se remates que poderiam ter resultado em golo) e o Sporting com 212 remates ficaram em 1ª lugar nessa estatística. A cabeça do avançado leonino vale ouro. Dos 27 golos marcados pelo argelino, 11 foram com a testa. Mas terá faltado algum discernimento, por vezes, na hora decisiva, desperdiçando 20 ocasiões flagrantes (de golo). Os leões forem quem também desperdiçou mais golos iminentes: 62 ocasiões no total. Números que poderiam ter alterado a história do campeonato e que explicam os menos 9 golos marcados que o velho rival.

 

De entre os “Aurélios” que jogam em Portugal, o muito cobiçado João Mário deu 2587 toques na bola ocupando a vice-liderança da estatística logo a seguir ao defesa direito portista Maxi Pereira (2639). Mas uma coisa é dar toques, a outra é ter um verdadeiro “toque de Midas” e colocar a bola no pé ou cabeça de um colega para que este finalize. E nesse campo, Gaitán foi o “rei” das assistências que levantaram os estádios: 14 que deram golo. Um número bem expressivo se olharmos que o clube que então representou, Sport Lisboa e Benfica, equipa que somou mais assistências (60) que resultaram nos 88 golos marcados. Com estes números, em especial os benfiquistas, podem começar a lamentar que o pé esquerdo do argentino vá, agora, entrar nas estatísticas da Liga Espanhola e do Atlético Madrid.  

 

Analisando ainda os dados disponibilizados pelo “GoalPoint”, o Futebol Clube do Porto foi a equipa que mais remates realizou, 570, sendo que desses, 66 provenientes de fora da área. Desses, 13 foram da responsabilidade do defesa Layún, que assim dividiu com Jonas as despesas do mais rematador antes dessa linha. Se Maxi Pereira foi aquele que mais vezes “levou a bola para casa”, o defesa da faixa contrária, Layún, tentou, de fora de área, fazer aquilo que os seus colegas não conseguiam: dar alegrias aos adeptos.

Mais motivos para sorrir poderia ter tido o Sporting Clube de Braga se algumas das 21 bolas enviadas ao ferro tivessem entrado. O avançado Hassan foi mesmo o mais “azarado” com cinco bolas a baterem onde não deviam.

 

Um Aurélio, dois Aurélios, três Aurélios...

 

O campeão em título, Benfica, parte para a nova época com o tetra como objetivo. Nas insígnias leva o título de equipa mais concretizadora com 88 golos (contra 22 golos sofridos o que a coloca como segunda melhor defesa da prova). A Liga atribui ainda às águias os prémios de Melhor treinador, Rui Vitória, revelação Renato Sanches e melhor jogador, a Jonas. Desses só o “bulo” da Musgueira já cá não mora. Até ver apostaram na contratação de diversos extremos (Carrilo) e na esperança de recuperação de outros (Sálvio).

 

No Futebol Clube do Porto, o homem que celebrizou a frase “Somos Porto” estará no banco dos dragões. A recuperação da mística está nas mãos de Espírito Santo que, para além dos milhões à disposição para investir, tem ainda muita massa crítica no Olival. Basta olhar para o umbigo do Dragão e perceber que aí mora não só o vencedor da 2ª Liga como também os campeões nacionais juniores. André Silva é um exemplo de recrutamento feito dentro de portas.    

 

Rui Patrício, Adrien, William Carvalho e João Mário, são os quatro “Aurélios” campeões europeus de futebol. Se o melhor guarda-redes da Liga (e do Europeu, diga-se), 4º jogador mais utilizado do campeonato português, com 3137 minutos e o tridente do meio-campo se mantiverem por Alvalade, apesar do forte assédio, em especial a João Mário, apelidado de “calminhas” pelo Mestre Aurélio Pereira, a equipa leonina ganha “reforços” de peso na luta pelo título nacional.

 

Caberá a Bruno de Carvalho e a Jorge Jesus avaliarem se podem, ou não, abdicar de um ou mais “Aurélios”, colocando no cesto, de um lado, o encaixe financeiro e, do outro, os pontos que esses jogadores podem valer no final da época. É por isso, no fiel da balança entre a cobiça e a cedência à tentação da venda dos “produtos” de Aurélio Pereira que poderá ditar o nome da Liga que agora inicia, podendo ser a Liga dos “Aurélios” caso estes campeões europeus nascidos em Alcochete não sigam as pisadas dos seus outros seis homónimos que andam por outras Ligas.

 

 

 

 

 

publicado às 09:16

O Tri e a Liga do JJ pelos olhos de uma criança de oito anos

Por: Miguel Morgado

 

Num dia de todas as emoções, numa Liga que ficou para decidir na última jornada, eu, adepto e amante de futebol que sou, confesso que padeci de uma espécie de tentação eremita momentânea. E logo no dia D de uma das épocas mais intensas de que me recordo. Dentro e fora de campo. A culpa? Inesperadamente, tive de ouvir, em alto e em bom som, a voz de um miúdo de oito anos a falar de futebol. Do Benfica e do Sporting; dos golos; de Rui Vitória e Jorge Jesus e, claro, dos craques que dão os pontapés na bola e são a razão do jogo. Talvez por isso, optei por abstrair-me do mundo e ouvir alguém que acrescenta pureza ao jogo. Televisão nem vê-la, rádio no silêncio e redes sociais em modo off.

 

 

Terminou a Liga. Falou-se de cérebros, vouchers, Ferraris, malas, processos, vendedores de pipocas e criações e cópias. Ah...e de árbitros. Pelo meio, no facebook e no twitter, muita bola cá, bola lá entre Mr. Burns e o presidente adepto. Na guerra da comunicação até as operadoras lutaram pelos direitos de TV. Do jogo, de Renato Sanches, Slimani, João Mário ou Jonas, falou-se pouco, assim como do Porto e da sua mudança de regime. JJ termina a época como começou, a  falar do outro – do Benfica e de (Rui) Vitória (que não ficou calado). O Benfica conquista o 35º título e foi tricampeão, o 6º da sua história. E o primeiro que assisto enquanto adepto ao lado de um miúdo de 8 anos.

 

A uns quilómetros de distância de Lisboa e sem saber o que se passava na capital ou em Braga, o pecado foi mais forte e numa espreitadela a uma app fico a saber que o Sporting vencia na cidade dos Arcebispos e o nulo perdurava na Luz. Por breves minutos, poucos, mas que ainda assim possibilitaram uma inundação de mensagens de uma euforia leonina descontrolada, que levavam a crer que o título poderia ir para o homem que “batizou” este campeonato como a “Liga do JJ”. Mensagens e euforia viriam a terminar abruptamente. Um silêncio curto foi substituído por SMS de outra cor, que aumentavam de som à medida que se marcavam golos, uns atrás de outros, fechando a época com aquilo que o futebol tem de mais bonito: os golos.  

 

Voltando atrás no relato, quis o destino que entre um “bola cá, bola lá”, tivesse de levar um dos filhos, por sinal benfiquista, a uma festa. No regresso, com o título de campeão já entregue, tive de fazer um trajeto entre a Praia Grande e Lisboa com amiguinhos e amiguinhas e, em especial, com um miúdo (que não é meu, mas poderia ser), com a energia típica dos 8 anos, a gritar “Benfiiiicaaaaaaa”, “SLB, SLB, Glorioooossssoooooo” e “tricampeões”, impondo-me um fair-play improvável, considerando o estado de espírito...

 

...Bom, a criança lá pulava no banco de trás enquanto eu racionalizava que teria de recuar 39 anos para se conhecer algo igual, e em jeito provocatório, para combater o sexto tri, lá deixei cair que já tinha visto os tris, os tetra e o penta do Porto, mas reconhecia que do Sporting, bom .. dali, nada nas últimas décadas. Tri e tetra foi algo que se perdeu entre os anos 40 e 50 do século passado.

 

Ora bem, com as ruas de Lisboa pintadas de vermelho e branco, os gritos do miúdo abafavam as buzinas e outras tentativas de cânticos daqueles por quem passávamos. Afinal, a criança, um misto de Renato Sanches e João Mário em termos físico-técnico vocais, estava a festejar como se não houvesse amanhã. Ele que só tem 8 anos e que se recorda destes três títulos ganhos pela equipa da Luz e que, pelos seus olhos e cabeça, tem a capacidade para ver que o Benfica teve mais vitórias, que bateu o record de pontos de José Mourinho (2002-2003), que fez mais golos, que Jonas foi o rei dos marcadores, que Renato Sanches é uma estrela e que está de malas feitas para Munique ainda antes do Europeu, que Rui Vitória afinal não foi o Rui “Derrota”, que o Sporting está melhor e fez um grande campeonato, Slimani e João Mário são uma “máquina” e que Jorge Jesus ganhou títulos ... no Benfica, ajudando ao tri. Em resumo, viu aquilo que mais interessa (ou deveria interessar): o que se passou dentro de campo. Pelo lado mais puro. O resto fica para outros verem.       

 

 

JJ vs Rui Vitória, Mr. Burns vs Bruno de Carvalho, tu falas e eu respondo

 

Vamos então ver com os nossos olhos o que se passou. Jorge Jesus não é um profeta, mas está lá quase. No dia da apresentação como treinador do Sporting Clube de Portugal, afirmou que, a partir de então, em Portugal, não haveria dois mas três candidatos ao título. 34 jornadas depois esteve (quase) certo. Porque afinal foram só mesmo duas equipas, a anterior que representou e a atual que lutaram até à última jornada. A profecia de alguns, no entanto, manteve-se. Jesus volta a perder um campeonato no último terço. De fora das contas ficou, estranhamente, o Porto. E para meia-surpresa, entrou, um Benfica que assumia uma renovação, com Rui Vitória.

 

O Leão venceu a Supertaça, entrou a pés juntos sobre o seu eterno rival privado do “tal” cérebro, mas com as “ideias” do criador. A troca de palavras entre os dois eternos rivais estendeu-se do balneário ao plano da comunicação entre um especialista, João Gabriel, conhecido por Mr. Burns, e outro que em nada fica atrás na língua, Bruno de Carvalho, presidente dos Leões. No twitter, “casa” do primeiro, e no facebook, palco predileto do segundo, a guerra foi intensa. De um lado, Bruno de Carvalho, que transformou um clube quase falido num clube muito falado, tirou o coelho da cartola dos “vouchers”, no outro, Luís Filipe Vieira manteve-se sempre distante, optando pelo discurso da estrutura.  

 

No campo, o Sporting ganhou na Luz, somou vitórias e oito pontos de avanço. Fora dele, falou-se de Ferraris, recordou-se o passado de cada um dos que se sentam no banco, de quem tinha “ganho bola” e de quem tinha demorado 20 anos a chegar ao clube com mais títulos em Portugal. Slimani abriu o dossier dos castigos e dos processos, enquanto o Porto de Casillas e das contratações falhadas perdia pontos, mudou de treinador, perdeu ainda mais vezes e ficou de fora da luta precocemente. Rui Vitória operou uma revolução no plantel, perde pesos pesados e mete os miúdos, um deles, Renato Sanches, que carregou a equipa ao colo e viria a trazer o tema “idade” e “pernas partidas” para a Guerra Santa de Bruno de Carvalho.

 

Com a luta dos clube ao rubro a NOS e a MEO, operadoras que compraram os direitos de transmissão, não ficaram atrás. O tema arbitragem ganha força, JJ vê a vantagem encurtar até ser ultrapassado por aquele que nem sequer considera ser treinador, na única derrota e únicos pontos perdidos nos duelos entre os grandes. Octávio Machado entra em campo para “falar daquilo que vocês sabem que eu estou a falar”, ataca Victor Pereira e cada uma das últimas jornadas o homem do apito é devidamente escrutinado, mesmo antes de ser nomeado. Jonas e Mitroglou continuam a marcar, Renato Sanches a correr, Slimani não desarma e João Mário arma todo o jogo. Os golos em cima da hora são a demonstração que a sorte dá muito trabalho num campeonato em que só faltava entrar em campo o “jogo da mala”, mas a suspeição de compra de resultados viria a ter expressão prática na II Liga, diga-se.

 

Terminar tal como começou. A falar do outro

 

O campeonato terminou. No tapete verde, o Benfica, atacado, unido e identificado que foi o “inimigo externo”, foi campeão. A aposta de Vieira, a estrutura e treinador, resultou, enquanto o Sporting que cresceu e muito até poderia ter ganho. O Arouca está na Europa, o Tondela operou o milagre da manutenção e o Tri do Benfica é conseguido em três anos de mandato de Bruno Carvalho e mais um período de seca de um Porto e de um Pinto da Costa que já não é assim tão unânime nem tão dominador.

 

No apito final da Liga, o Marquês encheu, a festa alargou-se para além do Terreiro do Paço, e Alvalade recebeu em apoteose os vice-campeões. Jonas e Slimani marcaram. Vieira discursou e Bruno de Carvalho caminhou entre os seus, do MacDonald’s ao Estádio. Fora das quatro linhas, Jesus despede-se da época tal como começou: a falar do outro, do clube que representou e do treinador que o substitui, de criações e cópias, lamentando que o melhor não ganhou e Octávio Machado, por sua vez, fala de Victor Pereira como merecedor da camisola do 35º título. Rui Vitória coloca nas dedicatórias o homem das pipocas à frente de Jorge Jesus.

 

A discussão segue dentro de momentos, de certeza, nas redes sociais, onde não estiveram, na última noite, nem Bruno de Carvalho, nem Mr. Burns. Mas também um pouco por todo o lado, onde aposto que o miúdo de 8 anos não deixará de gritar o nome do clube tricampeão que conquistou o 35º título após 34 jornadas. Ou seja de falar daquilo que de mais puro existe no futebol.

 

publicado às 09:59

O mundo sabe que ... é um Sporting-Benfica

Por: Miguel Morgado 

 

 

Sporting-Benfica. O derby é muito mais que um jogo. É o duelo das nossas vidas. Une amigos e famílias. Mas também os divide. Atravessa gerações, de pais para filhos, de netos para avós. Uns estreiam-se no clássico pelas mãos dos familiares. Outros, não. No meu caso, um tenent-coronel foi o meu bilhete de entrada. Tudo porque o meu pai, que me levava a todo o lado, nunca me levou à tal partida. Já eu, com quatro filhos, dois do Sporting, uma do Benfica e outro ainda sem idade para escolhas, levei o mais velho, pela primeira vez, no ano passado. E repito neste sábado. Caro leitor, embarque comigo nesta viagem às raízes de uma paixão por um jogo especial. Talvez encontre semelhanças com o que se passa lá em casa.  

  

Spooooooortiiiinnnnng. Benfiiiiiicaaa. Cada vez que se aproxima o derby dos derbies uma voz começa a ecoar na minha cabeça. Já lá vão pelo menos, citando de memória, 34 ou 35 anos. Quase tantos quantos os tais jogos especiais a que assisti. A memória puxa as cores. Verdes, brancas e vermelhas. Os olhos atentam os cachecóis ao ar e as bandeiras ao vento. Os ouvidos escutam os tambores a rufar, as buzinas a apitar e as gargantas a cantar. As palmas batem umas nas outras. O corpo vibra com o estádio a transbordar de paixão. Uns experimentam o sabor da vitória. Outros, a azia da derrota.

 

Qualquer criança, a quem desde tenra idade seja injetada a paixão do futebol, sonha, um dia, estrear-se naquilo que é muito mais que um jogo. Seja pela mão do seu pai, pelo braço do seu avô, guiado pelo irmão mais velho ou por um tio afastado. O mesmo é válido para qualquer progenitor ou ascendente familiar. Os elos familiares, as cumplicidades, para muitos, começam nestes palcos. Lado a lado. De braço dado. De pé e sentados. Com sol ou chuva, de dia e de noite. Gritando, saltando, chorando, rindo, festejando e esquecendo. Avós, pais, filhos, netos, primos e tios - e acrescento, amigos, juntos naquela que é a segunda família.

 

Não fui exceção. Ou antes, fui. O meu pai, adepto do Sporting, uma clubite que herdou, ensinou-me que o Sporting-Benfica é muito mais que um simples jogo, levou-me e ao meu irmão a ver muitos jogos - dezenas deles ! -  percorreu connosco Portugal e além fronteiras. Tudo para ver o Sporting. Tudo, à excepção de um Sporting-Benfica ou Benfica-Sporting. Aquele jogo. O tal jogo. Estranho, dizem todos a quem conto isto.

Tem uma explicação, como tudo na vida. Perante o derby, o meu impôs-se uma tática anos a fio: abstrair-se do mundo. Ia trabalhar, folheava os livros nas livrarias do velhinho Centro Comercial Alvalade, Apolo 70 ou Arco Íris, em Lisboa. Mais recentemente, refugia-se no cinema. Simplesmente, não consegue ver. Os meus 44 anos ainda não me permitem encontrar explicação para esta espécie de hara-kiri. Não sei se o leitor compreende. Ele lá saberá o porquê. Adiante.

 

O meu primeiro derby

 

Ora, sem o empurrão do meu pai, com o meu avô materno adepto do Torreense, já sem a presença do meu avô paterno, o meu primeiro jogo do século foi na companhia de... um tenente-coronel que vivia no mesmo prédio onde morávamos. Foi a ele que o meu pai decidiu confiar os dois filhos, a alguém que, pelas insígnias ao ombro, impunha respeito. E ordem. E assim foi. Corria o ano de 1982, nos melhores lugares do estádio, na central, debaixo da pala do velho José de Alvalade, com os anéis olímpicos a servirem de auréola em cima da minha cabeça que vi aquele jogo. Com tanta gente respeitável (e velha) ao nosso lado, eu e o meu irmão comportamo-nos como verdadeiros meninos de coros, rapazes que mais pareciam ter saído do Colégio Militar. O Sporting venceu por 3-1. Jordão meteu os golos na baliza de Bento que acabou expulso por agressão ao capitão Manuel Fernandes. O máximo do vernáculo utilizado foi um “Buuuuu... fora o árbitro. O árbitro é ladrão. O árbitro é ladrão”.

 

Passaram uns anos, ganhei “asas” e vocabulário e comecei a ir ver os Sportings-Benficas com amigos. Mudei de lugar. Deixei de ver a bola sentado e passei a vê-la à distância, atrás das balizas, entre cabeças de gente que se acotovelava à minha frente. Com amigos, muitos dos quais ainda hoje me acompanham. O derby começava logo no início da semana. Nos bancos da escola e nas antecipações lá em casa. Antecipado que estava este fim de semana desde que era conhecido o calendário oficial da época, nesse dia, nada, mas mesmo nada, me poderia desviar da romaria a Alvalade. Uma caminhada que começava sempre à hora do pequeno almoço. Fosse a que horas fosse o encontro. Íamos para as concentrações. Juntava-me àquela família chamada “A Tribo do Futebol”. Saia de casa a gritar. Tinha voz até as cordas vocais me permitirem. A horas de distância do apito inicial, puxava dos pulmões um reforço para aguentar, metia pastilhas de mentol pela boca abaixo e resistia com as forças que quem corre maratonas.

 

O dia seguinte era (e muitas das vezes ainda continua a ser) preenchido com algumas horas de silêncio para recuperar a voz e outras tantas para mergulhar nas páginas do jornal desportivo publicado no dia seguinte. O resumo televisivo dos 90 minutos era momento de prime time lá em casa. Hoje, tudo é diferente. Já não se cola o ouvido ao rádio para saber se é penalty. No próprio estádio não desgrudamos os olhos do smartphone enquanto não escalpelizarmos as três repetições do lance. É golo. É grande penalidade. Tem de ser expulso.

 

Nestes jogos que já valeram dois pontos, valem três, nem mais ponto nem menos ponto, há derrotas, há empates e há vitórias. Umas mais expressivas que outras. Da adolescência recordo, em especial, alguns jogos. A tal tarde-noite de dezembro dos 7-1, em 1986. Aquela, num ano em que o Benfica terminaria campeão, serviu de consolo, numa espécie de troféu de caça, para quem torce pelos rapazes de verde e branco. Mais um pulo na história e na estatística e entra a célebre vitória do Benfica por 3-6. Recordo-o não tanto pelo passo de gigante que as águias viriam a dar rumo ao título, mas porque era dia da minha festa de anos. Tudo programado a seguir ao jogo. Restaurante marcado para mais de 40 pessoas. No final, sem recurso a telefonemas, emails, whatsapps, facebooks, faxes, pombos-correio ou outra forma, uma fibra óptica ligou a mente de todos os convidados e cada qual foi para casa. Uns a rirem. Outros a chorarem. Desconheço o estado de espírito do dono do restaurante. A viagem no tempo termina em 1999, ano de quebra do jejum leonino, em que um egípcio de nome Sabry gelou Alvalade e adiou por uma semana o festejo do título.  

 

A família entra em campo

 

Estamos a poucas horas de mais um jogo. Com quatro filhos lá em casa, dois rapazes e duas raparigas, os mais velhos são do Sporting, a número três na hierarquia decidiu pegar os irmãos (e resto da família) pelos cornos e assumiu-se como benfiquista. O outro, o benjamim, ainda não tem voto na matéria, embora, na privacidade das brincadeiras de todos os eles, seja uma verdadeira bola disputada entre quem está em minoria e os outros.

 

No ano passado, foi ano de estreia do rapaz mais velho na ida ao clássico dos clássicos. Confidencio que esteve para não ir. Tudo porque naqueles castigos de impulso que impomos, sobre os quais nem sabemos o porquê de o ter feito e que lá bem no intímo sabemos que não iremos cumprir, o tal castigo separava-o de entrar pela minha mão no jogo das nossas vidas. Com as lágrimas a caírem em jato pela cara, a palavra “vamos embora” serviu de aspirador daquelas cataratas do Niagara. Poderia ter outro castigo. Comer sopa de brócolos, peixe cozido todos os dias da semana seguinte, eu sei lá, qualquer coisa menos impedi-lo de ir à bola ver o tal jogo. E assim fomos e regressamos com um empate (1-1).

 

Este ano, o derby já começou. Já foi falado e falado lá em casa. Discute-se na rua. Nos cafés, nas escolas, nos transportes públicos e no local de trabalho. Programas televisivos e de rádio dedicam horas e horas aos 90 minutos de sábado. As redes sociais elevam o tom e estão a “bombar”, como diria o nosso ex-primeiro-ministro.

 

Eu vou. O meu filho de 11 anos também vai. O meu irmão leva a filha. Ah... o meu pai, que nunca entrou neste filme, vai ao cinema na companhia da mulher que, por acaso, é benfiquista. Já todos nós antecipamos o resultado. O meu filho confidenciou-me que, independentemente do desfecho final, vai entrar em casa a cantar a música “o mundo sabe que...” aos ouvidos da irmã, que é afeta do rival.

 

A ver vamos se não enfia a viola no saco.  

 

 

Nota do SAPO24

 

Conte-nos também as suas memórias do derby. Quando foi a primeira vez, qual o jogo que nunca esqueceu, como vai viver o derby de amanhã. Envie-nos a sua história para conteudos@mail.sapo.pt e as melhores serão publicadas aqui. 

 

(actualização a 7 de Março 2016, 11h00)

As outras memórias do derby podem ser lidas aqui.

 

publicado às 19:25

Um “ai o Carrillo” nas chinesices de Inverno

Por: Miguel Morgado

 

Entre referências a cabras, perus e galinhas chegou ao fim a longa novela peruana com Carrillo como personagem principal. Trocou o Sporting pelo Benfica. O presidente dos leões desvalorizou a perda do ativo e disparou nas redes sociais. Entretanto, a janela do mercado de inverno fechou na Europa mas a porta continua aberta, até ao final do mês, na China. Que entra no Ano do Macaco a gastar milhões. Por cá, há import-export com esse país grande que começa a gastar à sua dimensão. Na Liga e nos clubes. De lá vieram patrocínios. E para lá foi um “avioncito” e veio um “Pirata”. Antes, Jorge Mendes já tinha entrado em cena ao lado do Cirque du Soleil.  

Por razões profissionais, assisti à vinda de André Carrillo para o Sporting. Na altura questionei-me sobre a razão de, além do empresário (Elio Casaretto), acompanharem o jovem internacional peruano mais três figuras que se intitularam de diretor para o futebol, de marketing e ainda um cujo pelouro não ficou na memória. Hoje sei o porquê dessa, então, forte ligação de todos ao jogador que saiu do Allianza Lima para Portugal. A expectativa era que valesse ouro. E comissões. E valeu mesmo. Mas só para alguns. De fora destas contas ficou o clube que o trouxe.   

 

Janeiro é o mês conhecido como a “janela de Inverno” no mercado de transferências do futebol europeu. E é também um mês em que jogadores em fim de contrato podem assinar, livremente, por outro clube. Ora foi o que sucedeu com André Carrilo, internacional peruano de 24 anos que ainda veste as cores do Sporting Clube de Portugal mas que na próxima época muda-se para o eterno rival, Sport Lisboa e Benfica.

 

A mudança foi o ponto final numa novela que se arrastava, pelo menos, desde a temporada passada. Falamos da renovação do contrato de Carrillo com os leões. Pelo meio ouvia-se falar de meia Europa atenta e do piscar de olhos de Benfica e Porto a este diamante.

 

No longo duelo de vontades entre o presidente Bruno de Carvalho e o agente do jogador, Elio Casaretto, o jogador foi “encostado”, após uns pontapés na bola durante quatro jogos e mesmo depois de Jorge Jesus ter dito que este “daria milhões” ao clube. Como se viu, não deu e, por agora, os leões perderam financeiramente, já que nada retiram deste ativo (o Sporting pondera exigir em tribunal uma compensação financeira). Mas ao invés, deu - e muito - a ganhar ao agente e ao jogador, que além do prémio de assinatura receberá um ordenado muito superior ao que auferia pelas bandas de Alvalade. E poderá dar ao novo clube, caso o jogador dê o salto para outros palcos de cofres recheados.

 

Desportivamente, o Sporting sai, por enquanto, ileso. É líder, ex aequo com o Benfica. Mas aqui, meus senhores, é no final que as contas são feitas. E Carrillo, de águia ao peito, até pode receber as faixas de campeão pela equipa... liderada por JJ, o tal que saiu em sentido inverso. Ou então, se o Benfica conquistar o "tri", o peruano poderá dar no Seixal mais um passo na sua afirmação, podendo, no futuro, dar o retorno desportivo e financeiro de que dele se espera.

 

O fungagá da bicharada nas redes sociais

 

Com o peculiar estilo que carateriza o presidente do Sporting, a saída sem compensação de Carrillo não poderia passar sem polémica. E uma boa “peixeirada” das antigas. Ainda para mais para a equipa que viu arquivado o processo dos vouchers. Nas redes sociais (where else), numa mini-entrevista feita a si próprio, Bruno de Carvalho, escreveu dirigindo-se a Casaretto: «Permita-me, caro agente sem jogadores, um conselho: volte lá para o seu rebanho de cabras que no final do processo eu, como sempre fiz em todos os assuntos, explicarei a todos e de forma detalhada toda esta novela peruana.». Ou seja, BdC, “mandou” o empresário pastar cabras, deixando antever que será, nesta história, o último a rir. Mas faltou-lhe por agora, e não no futuro, fazer uma pergunta e dar a respetiva resposta. Explicar porque é que, com quase três anos de mandato e muitas renovações feitas, esta lhe escapou. Um próximo capítulo a seguir no Facebook.

 

Mas a bicharada virtual não se reduziu a cabras. A fábula do Bruno meteu ainda perus e galinhas numa resposta ao presidente Sindicato dos Jogadores Profissionais do Peru. Resumindo, o presidente dos leões (Rei da Selva) rugiu bem alto um “ai o Carrillo” em todas as direções. O jogador ainda hoje “jogaria na rua” se não fosse o clube que o projetou, o empresário não ganharia um “tostão” sem essa promoção e, em resposta a uma provocação de Casaretto sobre onde estaria BdC se não fosse o Sporting, retorquiu dizendo que o clube a que preside “estaria falido”. E à tal saída a custo zero, entre prémios de assinatura e comissões, diz que se devem acrescentar um número e muitas casas decimais.  

 

Com a Europa de janela fechada, a China assalta o mercado com milhões

 

O mercado de Inverno da bola europeia fechou sem grandes movimentações internas. Mas fora do espaço europeu, mexeu. E muito. A China é grande, quer ser grande e começa a gastar à sua dimensão no futebol. Neste mercado de inverno europeu, seis das cinco contratações mais caras envolveram clubes chineses: Alex Teixeira (50 M€), Jackson Martinez (42M€), Ramires (28 M€), Elkerson (18,5M€) e Gervinho (18M€). Estes e mais outros, tudo somado, até à data, ultrapassam os 300 milhões de euros. O mercado só fecha no final do mês. Um mês em que se inicia o novo ano. O Ano do Macaco que, dizem, será propenso ao risco e às mudanças. E gastos.

 

No que toca a Portugal, o Sporting reclama para si um negócio da China. Freddy Montero, “el avioncito”, saiu a troco de 5 milhões de euros para o Tianjin Teda e em sentido inverso veio Hérman Barcos, “el Pirata”. Dias antes, a Liga de Clubes tinha assinado um contrato de patrocínio com a gigante da tecnologia Ledman. Meio milhão de euros por época e outros “bónus” e a Ledman LigaPro arranca no próximo ano, já sem a cláusula de “obrigatoriedade” de inscrição de jogadores chineses nas primeiras 10 equipas na tabela classificativa.

 

 

Para a China, o rectângulo verde onde se joga futebol não se resume ao palco de uma atividade desportiva. É antes de mais o tabuleiro onde se jogará a mais pura das politicas de afirmação de poder e soberania no quadro da geopolítica. “O meu maior desejo para o futebol chinês é que os nossos clubes se possam transformar nos melhores do mundo”. A frase é de Xi Jinping, o homem forte da China.

 

Sempre atento, Jorge Mendes já tinha avisado do poderio desta nova superpotência. E não perdeu tempo. Enquanto Sporting e Benfica abrem escolas de formação naquele país - a China pretende abrir durante a próxima década 50 mil escolas de futebol -, o melhor empresário do mundo estabeleceu uma parceria com Guo Guangchang, líder da Fosun, donos do Cirque du Soleil visando trabalhar no desenvolvimento desportivo e comercial do futebol chinês. Para já, já, é dele uma das maiores transferência do ano 2016: Jackson Martinez. O tal que estava sentado no banco de suplentes do Atlético de Madrid. Parece piada de carnaval, mas não é. É que o futebol, apesar de quase possuir um ''mundo próprio'' e de muitas vezes viver imune e à margem de crises, na China, dia a após dia, ganha novos contornos. É só aproveitar.

publicado às 16:39

Bruno de Carvalho acena com milhões para tapar desaires desportivos e judiciais

Por: José Amaro (jornalista)

 

Quando o céu parecia estar a desabar-lhe sobre a cabeça, eis que o presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, dá à luz um negócio que, pelos números envolvidos, é o mais gigantesco de sempre envolvendo instituições desportivas portuguesas. São 515 milhões de euros distribuídos pela NOS ao longo de 12,6 anos e que servem para pagar as transmissões televisas dos jogos do clube e, também, a cedência dos direitos de exploração de publicidade. Os milhões da plataforma televisiva pagam ainda o direito de publicitar nos equipamentos dos “leões”. São milhões que parecem cair como água sobre o fogo que estava a alastrar por Alvalade, depois de uma catadupa de inêxitos desportivos, negociais e judiciais.

 

Horas antes de ser anunciado o acordo com a NOS o presidente do Sporting viu-se publicamente desmerecido por um grupo de associados contestatários, os quais mandaram colocar dois enormes placards nas imediações do estádio questionando a sua gestão, ao ponto de a apelidarem de mentirosa. Com os milhões entretanto anunciados (que são mais 100 do que os obtidos pelo Benfica, embora num acordo muito diferente, e mais 50 do que os conseguidos pelo FC Porto), Bruno de Carvalho parece ter conseguido desviar os holofotes para um cenário que, aparentemente e só aparentemente, lhe é mais favorável.

 

A vaga de contestação começou a engrossar após o jogo em Braga para a Taça de Portugal. A equipa até jogou bem e viu ser-lhe mal invalidado um golo. Na ressaca da derrota, Bruno de Carvalho saltou qual fera acossada e insinuou que o prejuizo resultante da arbitragem desse jogo fora consequência directa das queixas feitas, dias antes, por dirigentes do rival Benfica. Acusou sem provas e, pior, revelou falta de senso ao apelidar os rivais de “idiotas”. Não pensou que as suas palavras, para além de não agradarem aos rivais, também não colhem a simpatia de muitos associados do seu próprio clube, os quais já por diversas vezes afirmaram não se reverem no estilo popularucho e trauliteiro imposto e praticado pelo presidente. 

 

Dias depois, e como agora relembram os cartazes espalhados na Segunda Circular, Bruno de Carvalho, sofreu aquele que será, até ao momento, o mais forte revés da sua presidência. O Tribunal Arbitral Desportivo condenou o Sporting a pagar mais de 17 milhões de euros à Doyen Sports, empresa que antes havia financiado o clube numa transacção mas que, no momento de recolher os proveitos previstos num contrato escrito, se viu arredada do que estava acordado. Como seria de prever o Sporting perdeu a acção e, conforme foi desde logo explicado, são quase nulas as possibilidades de haver volte-face na sentença. Mas Bruno de Carvalho, por desconhecimento ou apenas por conveniência, logo se aprestou a correr para a imprensa (a mesma que em duas ocasiões, e contrariando as regras do jornalismo isento, já fez outras tantas manchetes com artigos de opinião assinados pelo presidente sportinguista) dizendo que nada estava decidido e que o caso só então começara a ser derimido. Enfim…

 

E como um mal nunca vem só, eis que a equipa de futebol, tão sabiamente conduzida por Jorge de Jesus, encontrou novo escolho, perdendo na Madeira, perante a União local, e deixando desse modo o primeiro lugar da classificação geral ao alcance do FC Porto, que naturalmente agradeceu e rejubilou.

Os milhões da NOS podem (e supostamente vão fazê-lo) atenuar parte da contestação interna. Mas não a extinguem. Aos olhos dos adeptos em geral e dos sportinguistas em particular o modelo de Bruno de Carvalho não colhe simpatias. Aos inêxitos desportivos recentes (e esses são sempre os que ficam na retina e na memória), às condenações judiciais e ao não atendimento das reclamações e queixas apresentadas contra rivais, junta-se ainda uma inenarrável política de defesa do clube que consiste, à semelhança do que outros também fazem, em mandar para os programas desportivos televisivos comentadores cuja credibilidade ou é nula ou apenas anedótica. Enfiar na casa de milhões de telespectadores um indivíduo de semblante medieval e voz teatral, bramindo de pé uma espada de plástico e proferindo ameaças contra um comentador de um clube diferente, não pode nunca significar credibilidade. Humor é uma coisa. Palhaçada é outra completamente diferente. Ao enveredar pela segunda via, perde Bruno de Carvalho e perde, sobretudo, o Sporting.

 

publicado às 16:39

A culpa não é do relvado. Nem sua, caro adepto

Por: Pedro Fonseca

 

Barulho dos adeptos, relva, iluminação e árbitros podem influenciar o resultado de um jogo de futebol? 

 

 Sporting e Benfica vão encontrar-se para os 16 avos da Taça de Portugal, no Estádio de Alvalade, este sábado, 21 de Novembro. Para os fãs, tanto para os que os ovacionam em campo como para os que acham que jogar em casa é uma vantagem, é melhor desiludirem-se: nada disso está cientificamente comprovado que funcione. Os fãs aos gritos têm pouco impacto no resultado de um jogo, segundo um recente estudo da universidade norte-americana do Nebraska: "gritar insultos ou encorajamentos não tem benefícios ou impactos", sintetizava o Daily Mail

O estudo foi feito com fãs do hóquei norte-americano, analisando quatro jogos da equipa da University of Nebraska-Omaha no Century Link Centre de Omaha entre Novembro de 2014 e Março deste ano. Como o jogo é feito no interior de um espaço, é mais fácil captar o som. Essa análise sonora aos jogos demonstrou que mais ruído não estava relacionado com uma melhor performance de mais golos pela equipa apoiada. Segundo Brenna Boyd, investigadora responsável pelo estudo, "o jogo mais barulhento ocorreu a 12 de Dezembro e ganhámos por um golo, pelo que penso não haver dados suficientes para saber se o barulho está correlacionado com quantos golos eles conseguiram durante o jogo".

Nos inquéritos dados aos jogadores após os jogos, estes também confirmaram que a assistência era barulhenta mas não os distraía do jogo. E o campo onde se joga, pode ser uma vantagem perante o apoio da audiência? Talvez. Num estudo sobre as equipas inglesas, nos anos 80, a equipa que jogava em casa ganhava, em média, 64% dos pontos. Análises posteriores apontavam que as duas "variáveis" com maior preponderância eram "a familiaridade com o estádio" e "o apoio da multidão". No primeiro caso, ajudava estar mais ajustado à relva ou à iluminação do estádio, se o jogo decorre à noite. Os apoiantes também podem "motivar os jogadores a darem o seu melhor e podem também influenciar as decisões do árbitro, levando a uma propensão para favorecer a equipa da casa". No entanto, este forte apoio pode igualmente pressionar demasiado a equipa da casa, além de que "multidões mal comportadas exercem uma influência negativa sobre o desempenho da equipa de casa", pelo menos segundo alguns estudos sobre o basquetebol - que, mais uma vez, é normalmente jogado no interior de uma sala.

Numa análise a equipas que jogam em campos neutros, o referido estudo da Football Perspectives detecta que "o apoio da multidão não é uma pré-condição necessária para a vantagem em casa", ao contrário do conhecimento do campo onde se joga. Há igualmente uma outra explicação, relacionada com o tempo de viagem da equipa visitante, mas os investigadores dizem ter um "pequeno efeito na vantagem" de jogar em casa. Na Alemanha, uma outra análise de 2008 assertava igualmente que os fãs e os estádios não são responsáveis pelas vitórias no futebol. Andreas Heuer e Oliver Rubner, da universidade alemã de Münster, analisaram 12 mil jogos da Bundesliga entre 1965 e 2007. A diferença de golos revelava uma vantagem nos jogos em casa mas era tão pequena por jogo que não se podia considerar relevante em termos estatísticos.

Mas pode esta pressão dos adeptos ter influência, por exemplo, nos árbitros? Aparentemente, isso pode acontecer. 40 árbitros assistiram a um jogo entre o Liverpool e o Leicester da época de 1998-99, com metade a vê-lo com todo o ambiente sonoro do estádio e a outra metade em silêncio. Os primeiros foram "menos propensos a marcar faltas contra a equipa da casa", relativamente aos que viram o jogo em silêncio. "Esta preferência para a equipa da casa coincidiu com as decisões reais do árbitro" no jogo desse dia, explicava o The Guardian. Segundo os investigadores, "os árbitros tendem a evitar marcar faltas contra a equipa da casa como forma de se protegerem dos níveis de stress adicionais que ocorrem com o antagonizar da multidão". Isto sucede não porque os árbitros queiram fazer o que a multidão pede mas para evitarem "o que iria dirigir a fúria da multidão directamente para eles". "Os psicólogos chamam a isso 'prevenção'" (ou "avoidance", no termo em inglês). Em resumo, no futebol - e perante o terreno, o barulho, os adeptos e os árbitros - ganha quem marca mais golos. De resto, é fácil arranjar desculpas de que o chão está torto quando não se sabe dançar...

publicado às 19:21

Uma sexta-feira como outra qualquer

Por: Rute Sousa Vasco

 

 “Quando regressam do Espaço, os astronautas vêm sempre um pouco diferentes porque viram a fragilidade da Terra.”

 

A notícia foi divulgada há exactamente uma semana. O astronauta Thomas Pesquet vai transportar para o espaço, no próximo ano, o texto do eventual acordo sobre as alterações climáticas que saia da cimeira de Paris, em dezembro. Agora é preciso é que haja acordo, porque esse ainda não é certo. Mas, se os líderes dos principais países poluidores conseguirem entender-se e comprometer-se, o presidente francês, Francois Hollande, entregará a Thomas Pesquet a prova do compromisso que ele levará consigo rumo à Estação Espacial Internacional, em novembro de 2016. “O ambiente é algo que sempre esteve próximo do meu coração. Quando regressam do Espaço, os astronautas vêm sempre um pouco diferentes porque viram a fragilidade da Terra”, realçou o francês, de 37 anos.

 

Fez também ontem uma semana que o Argentina-Brasil, da terceira jornada da qualificação sul-americana para o Mundial de Futebol de 2018, foi adiado para o dia seguinte. Choveu forte e feio em Buenos Aires e não houve outra hipótese que não cancelar o jogo.

 

Bem longe dali, e 24 horas depois, o partido de Aung San Suu Kyi, conquistou a maioria no parlamento da Birmânia. Foi um dia histórico! Apesar de um quarto dos assentos estar reservado aos militares, o partido da Nobel da Paz ultrapassou a barreira que lhe permite eleger o Presidente e formar governo. Foram as primeiras eleições livres na Birmânia em mais de 25 anos.

 

Isto aconteceu a 13 de novembro de 2015, um dia em que, aliás, aconteceu muita coisa. A Universidade de Coimbra, por exemplo, anunciou neste dia que conta atualmente com 3.769 estudantes de mais de 80 nacionalidades em regime de mobilidade e através do estatuto de estudante internacional. Também na mesma data, o Centro de Ciências do Mar (CCMAR) da Universidade do Algarve foi selecionado para um projeto europeu que pretende promover o aumento da aquacultura até 2020. E o Campo Arqueológico de Mértola, no Alentejo, recebeu o prémio deste ano das Academias Pontifícias do Vaticano, dedicado aos primeiros séculos do Cristianismo, pelas campanhas arqueológicas dos últimos anos e pelos "extraordinários resultados obtidos".

 

No dia a seguir, 14 de novembro de 2015, soubémos que o arquiteto Eduardo Souto de Moura criou um projeto para construir um auditório junto à sede da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que, a ser aprovado, deverá tornar-se a grande obra do prémio Pritzker na capital do país. Que boa notícia para Lisboa.

 

E soubemos também que um conjunto de marcas de mobiliário, iluminação e decoração portuguesas se juntou para criar uma forma inovadora de promover os seus produtos no mercado britânico. Alugou um apartamento residencial que transformou em espaço de exposição em Londres, o Covet London. Aí estão marcas como as do grupo Menina Design, Boca do Lobo, DelightFULL, BRABBU, Koket, Maison Valentina e Luxxu. Que boa ideia...

 

Em Évora, arrancou um projeto-piloto, o Programa “Mais”, com o objectivo de promover o emprego partilhado de técnicos entre as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) e o recrutamento de profissionais desempregados para estas entidades. A iniciativa é da UNITATE – Associação de Desenvolvimento da Economia Social, uma IPSS sediada em Vila Viçosa (Évora), mas de cariz nacional, e dirige-se, nesta fase inicial, às 80 associadas da União Distrital das IPSS de Évora.

 

Quem passou por Lisboa foi Laurie Anderson que veio ao Lisbon & Estoril Film Festival estrear o seu último filme, Heart of a dog. Um filme sobre "liberdade e medo", num mundo criado por palavras. "Pediram-me para fazer um filme sobre a minha filosofia de vida. Disse logo que eu não a tenho e se tivesse não a punha num filme para toda a gente ver. Mas acabei por fazer uma coleção de histórias e, no final, é a minha filosofia de vida. Traiu-me.", contou. Ao longo de pouco mais de uma hora, Heart of a dog gira em torno de Lollabela, a cadela de Laurie Anderson.

 

O tenista português João Sousa subiu esta semana ao 33.º lugar do 'ranking' mundial de ténis, a melhor posição de sempre de um tenista português. E está confidante que "a época de 2016 vai ser ainda melhor".

 

No dia 16 de novembro, começaram os "Dias do Desassossego", uma iniciativa promovida, em Lisboa, pela Casa Fernando Pessoa e pela Fundação José Saramago para celebrar o livro e a leitura, com música, cinema e debates.

 

Mais coisas que aconteceram esta semana. Os 2.500 bilhetes que o Benfica tinha disponíveis para o jogo de sábado com o Sporting para a da Taça de Portugal esgotaram poucas horas depois de terem sido colocados à venda. No próximo dia 21, dez dos melhores pianistas nacionais e internacionais vão estar juntos em palco num concerto no centro cultural de Viana do Castelo, a maior sala de espetáculos do Alto Minho. E a revista médica The Lancet HIV revelou que um medicamento utilizado para tratar o alcoolismo associado a outras substâncias poderá contribuir para eliminar o vírus da sida em seropositivos (uma notícia conhecida no mesmo dia em que o ator Charlie Sheen contou no programa de televisão Today que é portador do vírus da sida).

 

Somos capazes de não ter reparado em várias destas notícias. Estas são as notícias da nossa normalidade.

 

Do direito que conquistámos – porque não foi sempre nosso e não é ainda um direito de todos – de usufruir simplesmente da normalidade. De sair de casa para ir trabalhar, trocar dois dedos de conversa no café da esquina, meter óculos escuros porque faz este fantástico sol de novembro e encontrar um lugar no metro onde possamos ler durante alguns minutos o livro que nos acompanha. Trabalhar, pensar em fazer coisas novas, combinar ‘comes e bebes’ com amigos, ir ao cinema ou simplesmente passear pela cidade.

Tudo isto sem termos de pensar duas vezes.

Isto é ser feliz sem saber.

Isto é aquilo de que não podemos abrir mão. Isto é aquilo que temos de reivindicar para quem não tem ainda. Apesar do medo. Apesar do horror. Apesar.

Todos os dias têm de ser uma sexta feira como outra qualquer. Em Lisboa, em Paris, em Beirute, em Lagos ou em Damasco.

 

Outras coisas sobre o direito à normalidade.

 

Normalidade é também igualdade. A igualdade dos géneros, nomeadamente no que respeita a salário igual para trabalho igual, ainda está longe e é preciso acelerar bastante o passo.

 

O que não é normal é que já se tenham passado 20 anos desde que este filme estreou. O Toy Story já tem 20 anos. O miúdo já está mesmo na faculdade. Mas que bom continua a ser sentarmo-nos no sofá e rever o filme.

publicado às 10:42

O Super Fundo, o Super Agente e o Génio numa Liga que se quer Super

O primeiro pontapé da bola da época 2015-2016 da Liga NOS será dado hoje, 14 de agosto. O Sporting Clube de Portugal apadrinha o Clube Desportivo de Tondela na sua estreia entre os maiores do futebol português. O Estádio Municipal de Aveiro, que deveria ser a casa de um clube que foi relegado para os Distritais devido a questões financeiras (Beira-Mar), é o palco, emprestado, de um clube que subiu a pulso à custa do rigor orçamental.

 

Por: Miguel Morgado

 

futebol

 

A Liga, com novo inquilino, o ex-melhor árbitro do mundo, Pedro Proença, quer estar entre as melhores das melhores. No topo do futebol europeu. Esse é, para já, um desejo. A competitividade é outro. E nesse campo, o palco da história da competição tem sido objectivamente dividido entre dois clubes, embora o terceiro nunca se possa descartar. Para os três crónicos candidatos – Benfica, Porto e Sporting – a próxima época será um tanto ou quanto diferente das anteriores. A obrigatoriedade de ganhar títulos é inerente ao ADN das equipas. Até aqui nada de diferente, mas, este ano, em particular, não será uma questão de vida ou morte, mas andará lá muito perto. Não no sentido literal, descansem, mas os três presidentes das três instituições desportivas estarão debaixo de escrutínio mais apertado por parte de sócios e adeptos. Porquê? Passemos a explicar.

 

O Futebol Clube do Porto e Jorge Nuno Pinto da Costa confundem-se numa história repleta de títulos. Perder, ou antes, não ganhar, é como aquelas letras minúsculas de alguns contratos. Estão lá mas ninguém repara. Só olhamos para o que compramos. Para o bolo, que no caso está bem recheado de faixas, títulos e taças. Agora, quando os outros ganham, significa que o Porto não venceu....É pois, se dois anos sem festejar nada junto à Câmara Municipal, podem provocar muita azia em estômagos habituados a francesinhas, se somarmos mais um ano de jejum, avizinha-se algum contorcionismo lá para os lado da Foz. Porque só os diamantes são eternos e porque Pinto da Costa quererá, quando assim entender, sair de cena com mais uma medalha ao peito, a aposta é grande. E de risco. Tal como no passado recente, e com muito sucesso, o “casamento” com o Super Fundo, Doyen Sports, serve para fazer aterrar na Invicta estrelas de outros campeonatos, estrelas essas que, mais tarde, ou mais cedo, farão as malas rumo a outras super Ligas. Algo a que este “casal” está habituado. E até se dá bem.

 

Reconhecidamente um dos clubes que está sempre um passo à frente no que toca ao futebol, e porque, por enquanto, a proibição dos TPO (Third Party Onwership), ou seja, a participação de terceiros (fundos de investimento, por exemplo) nos direitos económicos dos jogadores, foi decretada pela FIFA (artigo 18 ter do Regulamento do Estatuto e Transferências dos Jogadores), o Porto fez uma finta, e continua a garantir o concurso de craques, que de outra forma não conseguiria. Como? Seja via TPI (Third Party Investment). Ou seja, o Fundo empresta o dinheiro para a aquisição dos direitos federativos, funcionando assim como uma entidade bancária, seja utilizando os serviços de intermediação, ou até recorrendo a uma “barriga de aluguer”, isto é, um clube, no caso concreto uruguaio (Sud América), que comprou o avançado Pablo Osvaldo, registou os seus direitos, e que, de seguida, emprestou o ítalo-argentino aos Dragões. Definitivamente um golaço fora de campo. A ver vamos se dá frutos no relvado.

 

Aquele que tira as pérolas do Seixal com uma mão.... 

 

O Sport Lisboa e Benfica parte para os próximos meses depois da embriaguez de títulos dos últimos dois. E se recuarmos até ao dia em que Jorge Jesus entrou pelas portas adentro do Seixal, encontramos muitas razões que fizeram sorrir (campeonatos e Taças) e também chorar (finais da Liga Europa) sócios e adeptos do clube da águia. Com JJ, Benfica jogou, voou e sonhou bem alto. E festejou.

Bi-campeonato conquistado e eis que o mundo encarnado parece desabar. Embora Luis Filipe Vieira recupere uma frase que se costuma ouvir mais a norte de “a estrutura...”, aquele a que podemos chamar o Dono Daquilo Tudo, leia-se dos títulos, troféus e finais, Jorge Jesus, foi-se. E não para longe, mas para bem perto. E ter um “fantasma” a viver ao nosso lado, não é nada agradável. E dói.

 

Para piorar, a pré-época das águias foi ao nível da pré-campanha do Partido Socialista. As figuras de cartazes não devem passar de figurantes no plantel. Ao ponto de Rui Vitória, no jogo da Super Taça, ter que se socorrer de caras do Seixal (deixando os rostos da Junta de Freguesia de Arroios para outros campeonatos). Depois da derrota num simples jogo, Vieira terá que explicar muito bem explicadinho a aposta feita. Ao contrário do PS não há, até à data, demissões de “diretores de campanha” nem “mea culpa” na escolha das opções feitas. Antes, Vieira, que já o tinha feito e continuará a fazer, irá desdobar-se em cada Casa do Benfica por esse país fora. Até dia 31 de agosto, aquele que com uma mão coloca pérolas do Seixal pelo preço mínimo garantido de 15 milhões em Espanha, França e outras paragens, ajudará, com a outra. Falamos de Jorge Mendes, o Super Agente, que tal como no passado, nos últimos dias de fecho do mercado, com pós de perlimpimpim, pezinhos de lá e mãos cheias de euros, “mete” cá os seus representados. Uma estratégia que tem dado lucros, desportivos e financeiros.

 

O Génio que mudou de lâmpada

 

Por último, o Sporting de Jorge Jesus e de Bruno de Carvalho. Eterno corredor por fora destas contas, este ano assume a luta por dentro. Para tal, o jovem presidente que já tinha no currículo o fato de ter tido olho para ir buscar, em dois anos, dois dos grandes treinadores portugueses (Leonardo Jardim e Marco Silva), conseguiu, ao terceiro ano, tão só, ir buscar o maior entre os maiores. Numa jogada de mestre conseguiu ter o génio da bola ao seu lado no banco onde gosta de estar. E continuará a estar.

Roubando o “cérebro” ao eterno rival, ao mesmo tempo que esventra o coração alheio, enche a alma leonina. E se enche. Jorge Jesus, fala como um homem, veste-se como um homem (o tratamento e as madeixas capilares é de homem moderno, diga-se), por isso, toda a nação sportinguista diz ser o homem certo.

 

BdC, envolvido em batalhas internas e externas, sabe que a mais saborosa de todas será o título de campeão nacional. Ou mais taças, para juntar às que conquistou. Jogou, por isso, em vésperas de eleições, uma cartada bem forte. Enquanto as atenções benfiquistas estão centradas na Portela, nas Chegadas, os vizinhos da segunda circular, não querem ver nem ouvir a palavra Partidas. Rodando a bússola a Norte, até ao lavar dos cestos é vindimas, por isso é provável um entra-e-sai. Para já, um teve guia de marcha. Adrian Lopez, do Super Agente Mendes. 

 

No fim fazem-se as contas. Antecipamos, desde já, que para quem não vencer a Liga será um “ai Jesus”. Ao vencedor os seus fiéis adeptos responderão com um Amém, enquanto aos outros resta pregar fé pelas suas freguesias. Jesus, Bruno de Carvalho, Vieira, Rui Vitória, Pinto da Costa ou Lopetegui. Um deles, ou a dupla, será apelidado de Super-Herói (s) da Liga 2015-2016. Só esperamos que não vistam o tradicional kit de capa e collants. Porque ver qualquer um deles assim, não seria uma imagem compatível com uma Liga que se quer Super.

 

Miguel Morgado é jornalista, tendo trabalhado no Jornal de Negócios, Euronoticias, Revista Política e Revista “Ganhar” (Jornal de Negócios). Foi editor de Desporto de dois jornais regionais  (Jornal de Oeiras e Jornal de Cascais) e do site www.desportnalinha.com . Atualmente, é assessor de Impensa na Cunha Vaz e Associados. Esteve inserido nas estruturas de comunicação do Sporting Clube de Portugal, Federação Portuguesa de Rugby, CTT e RTP, entre outros clientes. Licenciado em Relações Internacionais e Pós Graduado em Jornalismo e Comunicação, pelo ISCTE está a terminar uma tese sobre “Fundos de Investimento no Futebol – Third Party Onwnership” no âmbito da Pós –Graduação de Finanças e Direito do Desporto, na Faculdade de Direito de Lisboa. Casado e pai de 4 filhos. Gosta e pratica futebol, surf e rugby.

 

publicado às 15:00

Uma espécie de quase tudo e quase nada para o resto da época

Dizem os números que o Sporting Clube de Portugal não perde um jogo da Supertaça Cândido de Oliveira desde o dia 9 de outubro de 1982. O adversário de então, o Sporting Clube de Braga, venceu o troféu (vitória por 2-1), no Estádio 1º de Maio, em Braga. 32 anos e 9 meses de invencibilidade, a mais longa numa competição oficial em Portugal. A somar a este feito histórico, em oito presenças, os leões conquistaram sete títulos para o seu Museu, os últimos em 2007 e 2008, sob a batuta de Paulo Bento.

 

Por: Miguel Morgado

A estatística e o emocional estão do lado verde e branco

 

 

A uns quilómetros de distância de Alvalade mora a segunda equipa com mais Supertaças (cinco), sendo o atual detentor do troféu. As águias, no entanto, perderam em 11 ocasiões, um registo nada abonatório para o seu riquíssimo palmarés desportivo.

 

Ao revisitar a história dos confrontos entre os eternos rivais, vemos que só por duas vezes se encontraram em finais de Supertaças, na altura disputadas a duas mãos. A primeira vez, em 1980, com o título a viajar para a Luz, e a última, em 1987, com os homens de verde e branco a levantarem o “caneco”. Ou seja, um empate.

 

Posto isto, se olharmos só para a estatística, o Sporting tem mais títulos, o Benfica perdeu mais 10 finais que os leões e, nos confrontos entre ambos, um empate. Esse é o dado objectivo. Agora o lado emocional, que dá peso - e muito, a estas contas.   

 

Os homens de verde e branco partem com a moral em cima. “Roubaram” Jorge Jesus, o treinador bi-campeão, numa jogada de mestre que alguns comparam à ida de Paulo Futre para o FC Porto, e há, até à data, uma aposta clara da direção presidida por Bruno de Carvalho no reforço da equipa e manutenção das peças-chave. A boa pré-época tem funcionado como impulsionador para a testosterona dos adeptos leoninos, que ecoam, mais que nunca, “este ano é que é”.

 

Ao invés, depois de mais de um mês de trabalho e uma digressão pouco auspiciosa no Continente Americano, a equipa de Rui Vitória (a quem os rivais rebatizaram-no, em tom jocoso, de Rui “Derrota”), a chama de campeão parece estar a apagar-se. Partem craques, não entram titulares indiscutíveis. Os sócios e adeptos, esses, desesperam por novidades e nomes sonantes. Porque querem o tri-campeonato.    

 

Perante o “apagão” anímico, Luís Felipe Vieira “desviou” o avançado internacional grego Mitroglou de Alvalade, um dia depois do ganês Kevin-Price Boateng ter aterrado em Lisboa por umas horas, mas cujo joelho e direitos de imagem o devolveram à procedência, gorando as expectativas leoninas sobre a sua contratação (e já agora da vinda para a capital portuguesa da sua namorada, Melissa Satta, uma concorrente à portista Sara Carbonero, naquele que poderia ser um campeonato também interessante). 

 

Domingo, 9 de agosto, no Estádio do Algarve, em Faro, o vencedor da Liga NOS (Benfica) e a equipa que levantou a Taça de Portugal (Sporting), defrontam-se na final da prova que, este ano, acrescenta o sub-título Vodafone por debaixo do nome do antigo jogador do Sport Lisboa e Benfica, Casa Pia, treinador do Sporting Clube de Portugal e selecionador nacional - Cândido de Oliveira para os menos recordados.

 

No barlavento-sotavento das bancadas, aos olhos dos adeptos, este dérbi, este ano especialmente, está a mexer um pouco mais com a emoção. Numa espécie de quase tudo e quase nada para o resto da época.

 

Com o estímulo da música oficial “Titãs”, JJ ou Rui Vitória, um deles sairá coroado neste duelo. Um duelo em que o regressado a casa Jesus leva vantagem se recorremos aos números (em 13 jogos, venceu por 10 vezes, perdeu duas e empatou uma ocasião). E animicamente, com ou sem BdC sentado a seu lado no banco (e com Octávio Machado como tampão), também. Virgolino Jesus, pai de JJ, depois da conquista do troféu “Cinco Violinos” quer seguramente ouvir da boca do seu filho que o primeiro troféu oficial da época é dele.

 

O balão das expectativas está bem cheio para os lados de Alvalade. A ver vamos se rebenta para deixar sair os confetes ou se esvazia mal o árbitro Jorge Sousa apite para o fim da partida. Porque o “futebol são onze contra onze” e no final não será a Alemanha a ganhar, mas antes Sporting ou Benfica. E, a analisar o verão de 2015, parece que os leões estão mais próximos de neste cliché de assumirem o papel do país de Joachim Löw.

 

 

Miguel Morgado é jornalista, tendo trabalhado no Jornal de Negócios, Euronoticias, Revista Política e Revista “Ganhar” (Jornal de Negócios). Foi editor de Desporto de dois jornais regionais  (Jornal de Oeiras e Jornal de Cascais) e do site www.desportnalinha.com. Atualmente, é assessor de Impensa na Cunha Vaz e Associados. Esteve inserido nas estruturas de comunicação do Sporting Clube de Portugal, Federação Portuguesa de Rugby, CTT e RTP, entre outros clientes. Licenciado em Relações Internacionais e Pós Graduado em Jornalismo e Comunicação, pelo ISCTE está a terminar uma tese sobre “Fundos de Investimento no Futebol – Third Party Onwnership” no âmbito da Pós –Graduação de Finanças e Direito do Desporto, na Faculdade de Direito de Lisboa. Casado e pai de 4 filhos. Gosta e pratica futebol, surf e rugby.  

 

Atualização:

Título editado a 8 de agosto | 17h07

publicado às 19:52

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