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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Uma espécie de quase tudo e quase nada para o resto da época

Dizem os números que o Sporting Clube de Portugal não perde um jogo da Supertaça Cândido de Oliveira desde o dia 9 de outubro de 1982. O adversário de então, o Sporting Clube de Braga, venceu o troféu (vitória por 2-1), no Estádio 1º de Maio, em Braga. 32 anos e 9 meses de invencibilidade, a mais longa numa competição oficial em Portugal. A somar a este feito histórico, em oito presenças, os leões conquistaram sete títulos para o seu Museu, os últimos em 2007 e 2008, sob a batuta de Paulo Bento.

 

Por: Miguel Morgado

A estatística e o emocional estão do lado verde e branco

 

 

A uns quilómetros de distância de Alvalade mora a segunda equipa com mais Supertaças (cinco), sendo o atual detentor do troféu. As águias, no entanto, perderam em 11 ocasiões, um registo nada abonatório para o seu riquíssimo palmarés desportivo.

 

Ao revisitar a história dos confrontos entre os eternos rivais, vemos que só por duas vezes se encontraram em finais de Supertaças, na altura disputadas a duas mãos. A primeira vez, em 1980, com o título a viajar para a Luz, e a última, em 1987, com os homens de verde e branco a levantarem o “caneco”. Ou seja, um empate.

 

Posto isto, se olharmos só para a estatística, o Sporting tem mais títulos, o Benfica perdeu mais 10 finais que os leões e, nos confrontos entre ambos, um empate. Esse é o dado objectivo. Agora o lado emocional, que dá peso - e muito, a estas contas.   

 

Os homens de verde e branco partem com a moral em cima. “Roubaram” Jorge Jesus, o treinador bi-campeão, numa jogada de mestre que alguns comparam à ida de Paulo Futre para o FC Porto, e há, até à data, uma aposta clara da direção presidida por Bruno de Carvalho no reforço da equipa e manutenção das peças-chave. A boa pré-época tem funcionado como impulsionador para a testosterona dos adeptos leoninos, que ecoam, mais que nunca, “este ano é que é”.

 

Ao invés, depois de mais de um mês de trabalho e uma digressão pouco auspiciosa no Continente Americano, a equipa de Rui Vitória (a quem os rivais rebatizaram-no, em tom jocoso, de Rui “Derrota”), a chama de campeão parece estar a apagar-se. Partem craques, não entram titulares indiscutíveis. Os sócios e adeptos, esses, desesperam por novidades e nomes sonantes. Porque querem o tri-campeonato.    

 

Perante o “apagão” anímico, Luís Felipe Vieira “desviou” o avançado internacional grego Mitroglou de Alvalade, um dia depois do ganês Kevin-Price Boateng ter aterrado em Lisboa por umas horas, mas cujo joelho e direitos de imagem o devolveram à procedência, gorando as expectativas leoninas sobre a sua contratação (e já agora da vinda para a capital portuguesa da sua namorada, Melissa Satta, uma concorrente à portista Sara Carbonero, naquele que poderia ser um campeonato também interessante). 

 

Domingo, 9 de agosto, no Estádio do Algarve, em Faro, o vencedor da Liga NOS (Benfica) e a equipa que levantou a Taça de Portugal (Sporting), defrontam-se na final da prova que, este ano, acrescenta o sub-título Vodafone por debaixo do nome do antigo jogador do Sport Lisboa e Benfica, Casa Pia, treinador do Sporting Clube de Portugal e selecionador nacional - Cândido de Oliveira para os menos recordados.

 

No barlavento-sotavento das bancadas, aos olhos dos adeptos, este dérbi, este ano especialmente, está a mexer um pouco mais com a emoção. Numa espécie de quase tudo e quase nada para o resto da época.

 

Com o estímulo da música oficial “Titãs”, JJ ou Rui Vitória, um deles sairá coroado neste duelo. Um duelo em que o regressado a casa Jesus leva vantagem se recorremos aos números (em 13 jogos, venceu por 10 vezes, perdeu duas e empatou uma ocasião). E animicamente, com ou sem BdC sentado a seu lado no banco (e com Octávio Machado como tampão), também. Virgolino Jesus, pai de JJ, depois da conquista do troféu “Cinco Violinos” quer seguramente ouvir da boca do seu filho que o primeiro troféu oficial da época é dele.

 

O balão das expectativas está bem cheio para os lados de Alvalade. A ver vamos se rebenta para deixar sair os confetes ou se esvazia mal o árbitro Jorge Sousa apite para o fim da partida. Porque o “futebol são onze contra onze” e no final não será a Alemanha a ganhar, mas antes Sporting ou Benfica. E, a analisar o verão de 2015, parece que os leões estão mais próximos de neste cliché de assumirem o papel do país de Joachim Löw.

 

 

Miguel Morgado é jornalista, tendo trabalhado no Jornal de Negócios, Euronoticias, Revista Política e Revista “Ganhar” (Jornal de Negócios). Foi editor de Desporto de dois jornais regionais  (Jornal de Oeiras e Jornal de Cascais) e do site www.desportnalinha.com. Atualmente, é assessor de Impensa na Cunha Vaz e Associados. Esteve inserido nas estruturas de comunicação do Sporting Clube de Portugal, Federação Portuguesa de Rugby, CTT e RTP, entre outros clientes. Licenciado em Relações Internacionais e Pós Graduado em Jornalismo e Comunicação, pelo ISCTE está a terminar uma tese sobre “Fundos de Investimento no Futebol – Third Party Onwnership” no âmbito da Pós –Graduação de Finanças e Direito do Desporto, na Faculdade de Direito de Lisboa. Casado e pai de 4 filhos. Gosta e pratica futebol, surf e rugby.  

 

Atualização:

Título editado a 8 de agosto | 17h07

publicado às 19:52

Jesus é castigador? Os primeiros a sabê-lo serão Vitória e Vieira

Supertaça. Joga-se porque tem de se jogar. É apenas um jogo que não abre portas para lado algum. Desta feita, porém, alguém lhe pôs uma pitada de um condimento especial.

 

Por: José Bento Amaro

Jesus é castigador? Vitória e Vieira serão os primeiros a sabê-lo

 

A Supertaça não me enche as medidas. Bem sei que é uma espécie de aperitivo para um banquete longo e nem sempre de fácil digestão, como é o Campeonato Nacional mas, para falar a verdade, quase nunca me seduz e muito menos me faz queimar neurónios na quase insana tentativa de tentar adivinhar a equipa titular, as tácticas, as reacções dos intervenientes. É um troféu que não dá dinheiro, que pouco prestígio acrescenta e que nem sequer promove por aí além os jogadores.

 

Jorge Jesus, cujo futebol tanto apreciei nos últimos seis anos, saltou a cerca e parece apostado em aplicar a receita mágica na casa do grande rival. Até domingo ainda gosto dele mas, se acabado o jogo tiver ganho o apoucada competição, serei mais um a render-me à irracionalidade e a colocar o mediático treinador português na lista dos mal-amados.

 

Jesus foi campeão por três vezes em seis anos (o Benfica tem o hábito de ganhar um campeonato nacional a cada três anos e dois meses). Devolveu alguma da grandeza que se andava a desvanecer. Ninguém lhe pode atirar pedras, embora, face ao investimento feito, pudesse e devesse ter ganho mais dois campeonatos (caídos aos trambolhões nas mãos do portista Vitor Pereira, que não teve culpa das invenções do amadorense nem do empurrão generoso do actual presidente da Liga de Clubes, Pedro Proença).

 

Mas a verdade é que colocou a equipa a jogar futebol como poucos já se recordavam. Encheu o estádio, valorizou jogadores, foi o motor para negócios de milhões (ganhos, mas também gastos). Os mesmos milhões que agora o fizeram apear-se de um cavalo habituado a correr nos melhores circuitos para ir desbastar um potro que, no futuro, tanto pode vir a ser um campeão aclamado ou uma pileca trôpega. Continuarei a gostar dele até ao momento em que o animal que agora monta ultrapasse o meu. E desejo que isso não aconteça em nenhum dos anos em que tem contrato com o Sporting (um campeonato ganho a cada seis anos de vida). Mais sincero não posso ser.

 

Despesista e mandão, Jorge Jesus chegou a Alvalade não só como treinador. É, de facto, o treinador-presidente, pois é por sua acção que o clube - dito falido e sempre imerso num mar de instabilidade – tem vindo quase diariamente a assumir compromissos financeiros de monta e que vão desde a contratação de jogadores com tarimba e qualidade (mas também especialistas em criar confusões), até investimentos em instalações e equipamentos.

 

É devido a Jesus que regressam a Alvalade o irrascível Octávio Machado e o enxovalhado Manuel Fernandes e que recolhe aos bastidores o sombrio Augusto Inácio e ao camarote presidencial o eleito presidente da instituição, Bruno de Carvalho. Simplificando: Jesus chegou, contratou à grande e à francesa (parece que até se prepara para dar já guia de marcha a um dos reforços), rodeou-se de pessoas da sua confiança e afastou aquelas que entende que não lhe irão trazer quaisquer vantagens. Face a isto porque não há de um benfiquista gostar de Jesus?

 

Sim. É verdade que o Sporting já joga futebol. Já é uma equipa que joga a correr na direcção da baliza contrária. Que pressiona os adversários e empolga as bancadas. Sim. É verdade que, pelo que se tem visto, o Sporting tem agora uma equipa bem mais favorita para vencer a Supertaça Cândido de Oliveira. Benfica e Sporting perderam alguns titulares. O Sporting comprou e parece disposto a continuar a reforçar-se. O Benfica não passa, para já, de um conjunto de promessas presidenciais. Até ver, de vitória o treinador do Benfica apenas tem o apelido. Os sócios, que até tinham perdoado os resultados pobrezinhos dos primeiros quatro jogos, estão agora exasperados com a miséria demonstrada ante um tal de Monterrey, equipa mexicana voluntariosa, já com andamento competitivo mas que nunca por nunca ser pode dar uma abada de 3-0 ao bicampeão nacional. As coisas vão mudar, dizem os benfiquistas mais tolerantes. E de facto vão: Gaitan deve sair em breve e a equipa ficará ainda mais debilitada. Maxi Pereira talvez não faça falta, mas a ausência de Lima vai ser muitas vezes lembrada. Quanto a reforços (daqueles que o são mesmo) é que ninguém ouve falar. Acumulam-se suspiros e o imenso desejo de ver cumprida a promessa de Vieira ao treinador – “Vais ter o mesmo que tiveram os outros treinadores”.

 

Os corações mais ansiosos aguardam, numa esperança meio destrambelhada, o anúncio da chegada de ídolos. Markovic e Coentrão são os mais badalados. O pior é que os jornais só falam, diariamente, em novos jogadores para os adversários. A calma começa a dar lugar à irritação. No domingo, no Estádio do Algarve, tudo poderá, no entanto, inverter-se em relação a Rui Vitória. Basta que ganhe o mediano troféu para voltar a sentir a confiança da mais numerosa massa associativa do país e do mundo. Se vencer deixará de ouvir coisas como “a equipa parece um conjunto de funcionários públicos alemães, obrigados a colar 257 estampilhas numa hora”.

 

Em caso de derrota ganha sobre os ombros o peso de uma pouco invejável cruz, passada por Jorge Jesus que, quando sentiu que já não era o centro do mundo (benfiquista) e que mais umas centenas de milhares de euros anuais (para além de um casarão de quase cinco milhões numa zona de gente fina, qual José Mourinho) lhe irão adocicar a reforma que já lhe acena, virou costas aos afectos, atravessou a estrada e foi por o grande rival a gastar dinheiro e a jogar à bola.

 

 

José António Bento Amaro é jornalista desde 1987 (Correio da Manhã, Semanário e Público). Tem 51 anos de idade e, garante, mais de mil de benfiquismo. Trabalhou em áreas como a justiça, o desporto e quase toda a informação geral. Actualmente "mata o tempo em pequenos, mas honestos jornais regionais" e, sobretudo, em alguns projectos que deseja venham a ser literários. O Benfica? "O Universo e pequeno para tanta grandeza". Nasceu na "mui nobre, gloriosa e sempre amiga Aldeia da Mata, Crato", concelho onde também "mata um pouquinho do tempo" como secretário da Assembleia Municipal.

publicado às 12:53

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