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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Afinal, qual é o mal da Uber?

 

Por: José Couto Nogueira

 

A entrada da plataforma informática Uber em Lisboa, em Julho de 2014, provocou uma agitação que chegou mesmo àquelas pessoas que circulam na cidade a pé ou em transportes públicos de massa. Num crescendo, a repulsa dos táxis por este novo concorrente atingiu proporções desproporcionadas, que culminaram com uma manifestação a 29 de Abril que paralisou a cidade. O mesmo aconteceu no Porto e, paradoxalmente, em Faro, onde a Uber nem sequer opera.

 

 

 

 

Nas ruas, os taxistas têm feito de tudo, desde entupir o trânsito pontualmente a agredir os motoristas e os passageiros da Uber, além de furar pneus, insultar as pessoas e impedir carros “suspeitos” de largar passageiros no aeroporto ou nos hoteis. Nas redes sociais e nos comentários da internet, a discussão também atingiu níveis de conflitualidade normalmente reservados a grandes questões fracturantes, mas no sentido contrário às ruas: os utentes de táxis têm mostrado, sem margem para dúvidas, como detestam o serviço tradicional.

 

As queixas de má educação, veículos imundos e percursos aldrabados, há muito contidas por falta de sede própria, vieram cá para fora com um vocabulário comparável ao dos taxistas. Uma inevitável sondagem revelou que 80 por cento dos utentes está há décadas descontente com o serviço dos táxis, e mais de 60 por cento vê com bons olhos uma concorrência de melhor qualidade – não só pela qualidade em si, mas como uma vingança ressabiada contra as aleivosias de que tem sido vítima.

 

É natural que os táxis não queiram concorrência. Também seria natural que, em face à concorrência, melhorassem o serviço. Mas não. Optaram pelo velho sistema de atacar o concorrente, não só à pedrada, mas também com argumentos: a empresa não é legal, os motoristas não têm competência profissional, não foram treinados para o serviço com o curso da Antral e não conhecem a toponímia da cidade; os utentes não têm a protecção de um seguro em caso de acidente. E também se mostraram como vítimas: um táxi custa um dinheirão, os impostos são sufocantes, as exigências legais estilhaçantes.

 

Vamos passar por cima da competência profissional, que não se divisa nos táxis, seja lá o que for “competência profissional”. Vamos ignorar o que possa ser o curso da Antral, que não será certamente de boa apresentação e trato cortês com o cliente. E também ignoraremos a questão da toponímia, uma vez que a maioria dos motoristas de táxi parece não saber onde fica a avenida Maria ou qual o sentido do trânsito na rua Manel. Finalmente, não anotaremos as voltas e contra-voltas para encontrar a maior distancia entre o ponto A e o ponto B.

 

Vamos antes fazer o que precisa ser feito: analizar as queixas dos taxistas e as acusações legais ou legalicistas que fazem à nova vizinhança.

 

Um táxi custa um dinheirão, de facto; não o carro, que é um veículo como qualquer outro, mas a licença de operação. E a licença é cara pela simples razão que a Câmara Municipal, com a desculpa que não convém haver táxis a mais na cidade, quer a procura superior à oferta e não dá licenças novas. As velhas são exactamente 3.445. O resultado deste estrangulamento, mantido pelo lóbi dos donos dos táxis, é que uma licença custa 100 mil euros. Bastava que fossem emitidas sem restrições, deixando o mercado funcionar, para que baixassem para um preço de emolumentos, digamos 100 euros. Mas isso não interessa aos donos das licenças já existentes, que perderiam uma mais valia mantida para os beneficiar.

 

Quanto aos impostos, são os mesmos impostos de qualquer negócio, IRC, IVA, licença de circulação, etc. Os táxis não pagam nenhum imposto a mais do que qualquer empresa ou indivíduo é obrigado a pagar. As exigências legais são as inerentes ao sector: carta de condução profissional de taxista e seguro especial de transporte público.

 

Vejamos agora o que é e como opera a Uber. A empresa em si é mínima, tem quatro pessoas em Portugal. Isto com uma sede europeia na Holanda, onde trabalham algumas centenas. Porque a Uber não tem praticamente existência material; é um programa de computador que gere toda a movimentação do negócio. Precisa de ter a plataforma a funcionar e uma nuvem para guardar e arquivar os dados, nada mais. Mas paga impostos, como qualquer empresa.

 

Não tem carros nem contrata empregados para os dirigir, ou seja, não investe capital. Logo, não tem as despesas de amortização desse capital. Não é uma malandrice, nem uma concorrência desleal; é apenas um passo em frente na prestação se serviços, que se reflecte em custos mais baixos para o utilizador.

 

A Uber faz contratos com “operadores de mobilidade”, empresas que têm frotas de carros de aluguer (legalmente, veículos letra A, letra T ou CMT) que sempre existiram, sempre pagaram impostos e sempre utilizaram motoristas devidamente habilitados, treinados e barbeados. E que pagam impostos, as empresas e os motoristas, como toda a gente. Também usa motoristas avulsos, cadastrados nas finanças como “empresários em nome individual”, com cartas de condução profissionais e seguros apropriados. Aliás, a Uber exige a todos seguros acima do mínimo legal: 50 milhões de euros mais 10 mil euros por passageiro, que lhe serão pagos imediatamente, antes das companhias decidirem culpas e inocências.

 

Ainda nas áreas da legalidade e da fiscalidade, como o sistema usa exclusivamente pagamentos por cartão de crédito, as operações são todas registadas e todos os intervenientes taxados conforme a lei. Não há dinheiro vivo, nem acréscimos ocultos, nem trocos por baixo da mesa, nem subfacturamento. Ao contrário dos táxis normais, a fuga aos impostos é impossível.

 

O que a Uber faz é por em contacto o prestador de serviços – um carro com motorista – e o utente – uma pessoa que quer ir depressa de um lado para o outro. Graças às maravilhas dos algoritmos informáticos, quando a pessoa pede um carro, o programa procura o veículo livre mais próximo e indica imediatamente ao utente a matrícula do veículo, o nome do condutor e o tempo de espera. Se a pessoa indicar o destino, também fica logo a saber o tempo e o custo da viagem. No final recebe um recibo com IVA e deve classificar o serviço, numa escala de um a cinco – assim como o motorista deve classificar o cliente.

 

Em Portugal há três tipos de serviço: o X, que é o normal, o Black, em que os carros são topo de gama, e agora o Green, com carros eléctricos. Os preços variam com o carro e também com a relação entre a oferta e a procura, em tempo real – esta última variável chama-se “surge pricing” é mais uma das vantagens da plataforma informática.

 

Há quem diga que a Uber é o futuro do transporte, mas na realidade é o presente. O futuro, será um serviço de partilha de veículo eléctrico, usando uma plataforma informática semelhante. O passado é andar de carroça ou... vocês sabem.

publicado às 11:37

Mudar, o verbo que não muda

 

Por: Pedro Rolo Duarte

 

Tudo indica que amanhã, em Lisboa, vai voltar a viver-se o caos que há uns meses paralisou literalmente a cidade: os taxistas voltam à rua com uma concentração às 8 horas e, a partir das 9, uma marcha lenta até à Assembleia da República, onde querem ser recebidos por António Costa. Florêncio de Almeida, presidente da Antral, já anda por aí nos noticiários…

 

 

A guerra é a mesma dos últimos tempos: a chegada da Uber a Portugal, a exigência de suspender os serviços da operadora, “porque há duas ordens de tribunal que os proíbem de operar”, e a reivindicação (do meu ponto de vista, a única legitima) de legislar no sentido de não haver situações de privilégio no sector.

 

Parece-me que a maioria dos taxistas quer mais do que isso, quer mesmo a Uber fora do mercado. Mas também me parece que a maioria dos consumidores quer apenas alterar a lei, de forma a que nem a Uber se aproveite dos buracos legais para fazer concorrência desleal ao serviço de táxis, nem os taxistas vivam num regalo de monopólio que dá para tudo, do serviço mais manhoso a uma espécie de cartel dominado por meia-dúzia. Há seguramente fórmulas de fazer conviver os dois serviços - tanto mais que o da Uber é elogiado pelos seus clientes e poderia elevar a qualidade geral do serviço de transporte urbano de passageiros (no Brasil, mesmo com protestos, a chegada da Uber levou taxistas a oferecer jornais, bebidas e doces aos clientes…).

 

Esta guerra é mais um dos muitos abanões que todos levamos a toda a hora, “sinais dos tempos” que mudam sem pedir licença. Se a minha classe profissional reagisse como os taxistas, bloqueava a Internet, que acabou com o modelo de negócio tradicional dos media, deixando à deriva (nalguns casos, falidos) jornais, revistas, televisões, numa oferta de informação brutal, gratuita, e onde todos podemos dizer de nossa justiça, sem filtro, sem regra, sem lei. Felizmente, os profissionais (e gestores) dos media não reagiram à bruta - e, aos poucos, às escuras, apalpando literalmente o terreno, tentam reenquadrar-se no universo da informação e perceber onde podem ir buscar a receita que lhes permita cobrir o custo e ganhar algum.

 

Podemos alargar este caos na gestão e optimização dos negócios, provocado pela tecnologia, ao comércio online, à banca, até às telecomunicações - que, em teoria, seriam as primeiras beneficiárias da revolução, não se dessem os “fenómenos” do tipo “whatsapp” ou “messenger”…

 

Neste quadro, a guerra dos taxistas ganha maior notoriedade porque paralisa as cidades, gera violência, dá directos emocionantes na TV - mas, se pensarmos um pouco, é apenas mais um conflito entre a velha e a nova economia. Vivemos um período - tão difícil e duro, quanto fascinante - de mudança radical de paradigma. O ser humano é resistente à mudança, e neste caso sofre na pele os efeitos da mudança. Mas há um facto incontornável: se nos adaptámos e aderimos de alma e coração à comunicação virtual, às redes sociais, à televisão dominada pelo nosso comando individual, às compras online em escassas horas… Bom, não podemos ignorar o reverso da medalha, o outro lado da moeda. Ele passa por formas diferentes de encarar o trabalho, de gerir os negócios. E de acordar diariamente. Tudo muda quando menos esperamos, ou mesmo quando acreditamos que talvez tudo fique na mesma. Não fica.

  

Coisas que me deixaram a pensar esta semana:

 

Extraordinária, para não dizer surpreendente, a ideia da revista “Monocle”, que por si só é um conjunto mensal de boas ideias, revelações e descobertas: um guia para fazer um país. Leu bem: construir uma nação. Infra-estruturas, legislação, sugestões nas áreas essenciais, da educação à justiça. Assim nasce um “guia” da revista, agora à venda online e em algumas livrarias internacionais, para quem queira meter-se nesses trabalhos: construir uma nação que funcione. Não é difícil pensar a quem nos apetecia oferecer a obra…

 

Qualquer comum consumidor urbano reparou certamente que a gigante McDonalds tem procurado, nos últimos anos, acertar o passo com o crescimento da tendência para a alimentação saudável, biológica, ou pelo menos mais equilibrada. Não querendo perder a sua fatia num negócio onde também começaram a operar “players” cuja imagem de marca é a fast-food saudável, a empresa desenvolveu produtos nessa área, das saladas aos wraps, da fruta fresca à sopa. Um artigo na revista “Money” surpreende com a mais básica das ideias: as saladas e essa súbita preocupação com a saúde não fazem parte do ADN da McDonalds. Talvez seja pouco inteligente tentar fazer hambúrgueres e batatas fritas passarem por peixe grelhado. E isso não é necessariamente mau, ou seja, talvez a McDonalds pudesse continuar como sempre foi. Os seus clientes parece que não se importam…

 

A rapidez com que tudo se vive chega a este ponto: o Facebook, que até ontem ou há dois dias era o rei das redes sociais, sente-se ameaçado pelos seus concorrentes Snapchat, Instagram e WhatsApp, e decide avançar para uma aplicação semelhante ao Snapchat (rede onde se podem colocar fotos e videos que duram apenas o tempo real em que são vistas, e depois desaparecem…), mas mais sofisticada. A quebra de 21% de tráfego no Facebook, em 2015, entre os seus 1.600 milhões de perfis, preocupa a empresa… 

publicado às 11:24

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