Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

A fotografia da miúda vietnamita, nua, a fugir do napalm seria publicada hoje?

Por: Paulo Ferreira

As limitações externas ao direito de informar podem ser um caminho sem fim. Hoje é o nome dos terroristas, para tentar evitar mais atentados. Amanhã pode ser o próprio acto terrorista, cuja omissão informativa, se fosse possível, seria ainda mais eficaz nesse propósito de travar a repetição.

 

 

Como combater o terrorismo, este terrorismo que vivemos? A pergunta sugere mil e uma respostas ou sugestões, num problema onde há mais dúvidas do que certezas. Mas sabemos duas coisas: não há uma solução mágica, que seja rápida e eficaz; e qualquer caminho que seja escolhido terá sempre um custo para ser avaliado ao lado dos benefícios.

 

 

Uma das questões centrais está na conciliação das nossas liberdades individuais e colectivas com as eventuais derivas securitárias e policiais que podem justificar-se em função da ameaça.

 

 

Mas queria centrar-me num ponto concreto, que é o da liberdade vs. responsabilidade do jornalismo e da informação.

 

 

O assunto tem sido discutido na Europa, a propósito de propostas para condicionar um ou outro aspecto das notícias relacionadas com a cobertura de atentados terroristas. Ontem, aqui mesmo, o Francisco Sena Santos reflectiu sobre o assunto e sobre o fenómeno de repetição que as notícias podem suscitar em relação a determinados factos. E isso deve fazer-nos pensar.

 

 

A informação e o jornalismo têm impacto público e condicionam vidas individuais e fenómenos colectivos. Diria que é também para isso - ou sobretudo para isso? - que existem. O seu valor social e democrático está precisamente aí, na capacidade de intervir através da informação, do relato e interpretação de factos. E o seu impacto é tanto maior quanto maior for a qualidade do jornalismo que é feito.

 

 

Não podemos, por isso, querer simultaneamente comer o bolo e ficar com ele intacto.

 

 

O jornalismo mexe com pessoas, pode destruir empresas e governos, interfere na nossa qualidade de vida. Pode fazer centenas perder empregos ou ameaçar a segurança militar ou financeira de um país. Pode alterar o curso de uma guerra, intensificando-a, ou contribuir mais rapidamente para a paz.

 

 

Se estes impactos são reais e se preferíamos não ter alguns deles a pergunta que temos sempre que fazer é esta: quem pode e deve criar excepções que limitem a liberdade e o dever de informar para além das melhores práticas que estão previstas na generalidade das democracias liberais e que já fazem parte das leis?

 

 

Para além destas, por regra fico de pé atrás em relação a qualquer limitação ao relato de factos que podem ser de interesse público ou que fazem parte de uma história que está a ser contada.

 

 

E a minha desconfiança vai desde a mais insignificante trivialidade - já repararam que nos jogos de futebol agora são ocultadas as caricatas invasões pacíficas de campo feitas por adeptos isolados com mais ou menos roupa? - até temas importantíssimos como o que estamos agora a discutir, o terrorismo. Porque a essência do mecanismo é a mesma: alguém, motivado certamente pelas melhores intenções, cria ou seguere a criação de uma fonteira nova, mais recuada, no direito e dever de informar.

 

 

A sugestão para a omissão do nome de terroristas nas notícias é um desses casos. Percebo a intenção, que é boa e pretende dar um contributo positivo, tentando travar a glorificação dos terroristas entre os apoiantes extremistas. Não sei se essa limitação informativa teria algum impacto real, ainda que fosse respeitada pela totalidade dos órgãos de informação institucionais, sobretudo nesta era em que somos todos “jornalistas” com capacidade para publicar nas plataformas electrónicas.

 

 

Mas o princípio da limitação à informação e das regras gerais e cegas é um mau caminho que não nos leva, tudo ponderado, a um sítio melhor. Sobretudo quando impostas por fora.

 

 

Tal como acontece, em regra, nas notícias sobre suicídios, são os jornalistas, a cada momento, que reflectem e decidem sobre a sua divulgação. Os casos isolados, individuais, por regra não são noticiados. Mas há casos em que o suicídio é notícia, e muito importante. Os casos dos 30 funcionários da France Telecom que, entre 2008 e 2009, puseram termo à vida são um bom exemplo disso. Cada um deles foi uma decisão individual mas ninguém contesta a importância de os noticiar para nos obrigar a reflectir sobre o que lhes poderá ter estado na origem.

 

 

Raramente as questões editoriais e os dilemas que são colocados às redacções são a preto e branco e susceptíveis de uma prática comum binária, sim ou não.

 

 

As limitações externas ao direito de informar podem ser um caminho sem fim. Hoje é o nome dos terroristas, para tentar evitar mais atentados. Amanhã pode ser o próprio acto terrorista, cuja omissão informativa, se fosse possível, seria ainda mais eficaz nesse propósito de tentar evitar a repetição.

 

 

Encontram-se sempre “bons” motivos de segurança pública, defesa nacional ou ordem social para tentar travar a divulgação de algumas informações ou imagens. Desde as fotos das urnas em que os soldados americanos caídos no Iraque regressavam ao seu país até aos incêndios florestais no tempo do Estado Novo, que eram censurados, levando gente mais antiga a concluir erradamente que “no tempo do Salazar não havia incêncidos”.

 

 

Apesar de tudo, dos abusos e de más práticas jornalísticas, continuo a não encontrar melhor local para tomar as decisões sobre o que publicar ou não publicar do que as redacções. São os jornalistas que devem fazê-lo, caso a caso, e ponderando tudo o que pode estar em causa em cada opção concreta. Devem ponderar os vários conflitos que se colocam entre direitos fundamentais - direito de informar vs. direito ao bom nome ou à reserva de vida privada, por exemplo -, decidir e depois ser avaliados e julgados por eles. Julgados pelo público, em primeiro lugar. Nos tribunais, se for caso disso.

 

 

Indo mais longe na reflexão.

 

 

Será que a icónica foto da criança vietnamita a fugir de um ataque de napalm hoje seria publicada na capa de um jornal ou revista? Em 1973 o fotojornalista Nick Ut ganhou o prémio Pulitzer por ela.

 

 

Ainda sobre o Vietnam, hoje seria divulgada a foto da execução de um jovem vietcong pelo chefe da polícia de Saigão?

 

 

A divulgação destas e de outras imagens e a intensa cobertura jornalística contribuíram para pôr fim ao conflito. E é possível que o fim da Segunda Guerra tivesse sido acelerado se se conhecessem e o mundo visse as atrocidades massivas que os nazis estavam a praticar nos campos de concentração.

 

 

Não tenho dúvidas que uma sociedade mais bem informada é sempre melhor do que outra em que há limitações informativas. Ainda que essas limitações tenham a boa intenção de proteger essas sociedades dos seus próprios males.

 

Outras leituras

 

- Pedem-se os estudos aos grupos de trabalho. Mas se as conclusões não agradam, eles ficam na gaveta. Para quê então gastar tempo e recursos a fazê-los se os governos decidem o que bem entendem independentemente das opiniões dos peritos a que pedem conselhos?

 

- Um país seguro como o nosso tem muito valor. Assim o saibamos capitalizar.

 

publicado às 15:34

É isto o novo normal? E vamos habituar-nos a ele?

Por: Paulo Ferreira

Terrorismo, derrocada da banca, extremismos. O pior caminho que podemos trilhar é o de olhar para isto tudo como uma nova normalidade, encontrando um outro equilíbrio e o conforto possível. Porque daí não virão nunca respostas, nem soluções, nem mudanças tão firmes quanto sensatas.

 

Os sobressaltos sucedem-se e cada um deles aumenta os riscos que pendem sobre as nossas cabeças. É o terrorismo e as suas variadas formas, propósitos e geografias. É a prolongada estagnação económica, que ameaça os equilíbrios que fomos construindo durante décadas. É a banca, que tomou como refém o dinheiro dos contribuintes. É o Brexit e a machadada que dá na União Europeia. É a crise de refugiados com o humanismo a que nos obriga. É agora a Turquia, num reforço da deriva autoritária contra tudo o que são os valores que gostamos de atribuir à Europa. É o crescimento dos extremismos e do radicalismo ideológico.

 

Chegámos até aqui lentamente, passo a passo e começamos a ter a perigosa percepção de que “isto” é normal.

 

Cada novo ataque terrorista, por mais hediondo que seja, é cada vez mais um. Todos lamentamos, todos choramos as vítimas e nos indignamos com a barbaridade: como é possível? Mas regressamos à nossa normalidade cada vez mais depressa. O 11 de Setembro - já lá vão 15 anos - e a série da Al Qaeda que continuou em Londres e em Madrid já estão tão longe… Já morreram outros milhares de inocentes depois disso e há quem defenda que temos que nos habituar poque vai continuar a ser assim. Temos mesmo? Devemos habituar-nos?

 

Outro plano, que nós portugueses conhecemos por experiência própria: a banca. Aqui não se trata de ceifar vidas humanas no sentido literal mas da ameaça à nossa forma de vida e à prosperidade a que temos direito. Lembram-se do BPN e do escândalo que foi a derrocada, a nacionalização e a conta que todos estamos a pagar? Dizia-se que tínhamos “batido no fundo”. Somos ingénuos, porque o fundo não era ali. O fundo está, afinal, lá muito mais abaixo e provavelmente ainda não chegámos lá. Depois disso foi o BPP, o BES e os efeitos colaterais na PT, o Banif, agora a capitalização da Caixa. Tudo cada vez mais olhado como fazendo parte da normalidade. Lá fora - que não é verdadeiramente lá fora, as contas destas coisas são sempre mais ou menos partilhadas - a Itália está com um problema bancário de 300 mil milhões e a Alemanha tem o seu Deutsche Bank com uma factura estimada de 150 mil milhões. Os problemas da banca tornaram-se tão normais como o calor em Agosto e o frio em Janeiro.

 

E os refugiados, que continuam a morrer às centenas e os cadáveres a darem às nossas costas, obrigando-nos a refazer as estatísticas?

 

Recordam-se quando os partidos extremistas eram vistos como uma ameaça por chegarem aos 4% ou 5% em eleições? Eles aí estão agora, a disputar o poder taco a taco, nalguns casos. Junte-se, para compor o quadro, a real possibilidade de virmos a ter Donald Trump na Casa Branca e Marine Le Pen no Eliseu. Assustador, não é? Aos nossos olhos pode ser, mas não desprezemos arrogantemente os milhões que votam neles e noutras propostas políticas extremas, venham elas da direita ou da esquerda.

 

Elas são sobretudo alimentadas pelos receios de cidadãos pacatos que, inquietos com a falta de respostas das instituições em que já confiaram no passado, decidem apoiar soluções radicais para resolver problemas que eles sentem como sendo também radicais. É a lógica do “para grandes males, grandes remédios”, embora estes remédios sejam verdadeiramente uma nova doença.

 

O pior caminho que podemos trilhar é o de olhar para isto tudo como uma nova normalidade, encontrando um novo equilíbrio e o conforto possível. Porque daí não virão nunca respostas, nem soluções, nem mudanças tão firmes quanto sensatas. Faltam lideranças capazes, é certo. Essa é mais uma perigosa normalidade.

 

Sobre os sapos conta-se a conhecida experiência laboratorial. São sensíveis à temperatura, claro, e se atirados para uma taça com água a ferver eles saltam imediatamente dali para fora. Mas se forem colocados num tacho com água à temperatura do lago onde vivem eles ali ficam quietos. E se esse tacho for aquecido em lume muito brando o animal vai-se acostumando e não é accionado o instinto que o leva a fugir. Até morrerem cozidos quando a água ferve. É assustador pensar que podemos estar hoje a ser estes sapos.

 

Outras leituras

 

Há cerca de um mês tivemos um momento alto de demagogia por parte de António Costa com a tirada (cito de cor): tantos problemas graves para resolver na Europa e Bruxelas preocupa-se é em aplicar sanções a Portugal. Independentemente da injustiça das sanções no nosso contexto, esta abordagem transborda a populismo. Senão, veja-se o que se passa hoje no nosso Parlamento: tantos problemas sérios para resolver no país e os deputados preocupados com os cogumelos shiitake.

 

Não aprendemos mesmo com os erros passados. Os contribuintes vão pagar 10 milhões de euros em vez dos automobilistas, que beneficiam de um desconto de 15% em algumas portagens. Era importante ter estudos sérios sobre o verdadeiro impacto desta redução de preços na circulação nestas auto-estradas. Quantos condutores deixarão de utilizar vias alternativas porque a portagem desceu de 10 euros para 8,5 euros? Quando as contas puderem ser feitas será já demasiado tarde.

publicado às 11:52

Nem nos deixam tempo para pensar

Por: Sena Santos 

Será que poderemos contrariar a perda do sentido do tempo? Cada dia há um qualquer acontecimento que remove e monopoliza o foco que incidia sobre o que tinha acontecido 24 horas antes, sem termos tido tempo para, em volta do caso anterior, tentar encontrar uma resposta justa que nos conduza à esperança.

 

Numa noite foi o terrorista que usou como bomba um TIR branco para, numa canalhada impensável num ser humano, massacrar as pessoas em festa em Nice. Ele usou o camião contra todos nós, para nos atropelar a todos. Na noite seguinte foi a brutalidade do estanho golpe na Turquia do sultão Erdogan. Passadas outras 24 horas, a notícia era a intolerável violência persecutória do ambicioso autocrata turco que se serve do golpe para reforçar o poder. Pelo meio, outra história, uma agitação e consternação nas redes sociais escritas em português: lastimava-se a revelação de que Liedson, o levezinho no futebol, o avançado que era um 31 para as defesas adversárias, teria morrido subitamente de AVC. Revelação nas redes sociais, sem referência a qualquer fonte. Até que apareceu o próprio levezinho, estupefacto, a avisar que continua “bem vivinho”, mas sem saber como é que alguém o declarou morto aos 38 anos.

 

Emily Bell, diretora do Tow Centre for Digital Journalism na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, escrevia há semanas que “as redes sociais estão a engolir o jornalismo, mas não apenas o jornalismo, engolem também a política, as histórias das pessoas, até a segurança”. Bell comentava que o ecossistema das notícias mudou mais nos últimos cinco anos do que em qualquer outro período dos últimos cinco séculos, desde o tempo de Gutenberg.

 

Há exatamente uma semana, Katharine Viner, diretora do The Guardian, publicou um essencial artigo de opinião em que analisa as profundas transformações que o jornalismo está a atravessar em consequência da consolidação das redes sociais. Viner, escolhida há um ano para substituir na direção do The Guardian o mítico Alan Rusbridger que fez o jornal britânico tornar-se líder global nas edições digitais, é uma mulher jovem mas muito experiente, competente. Ela alerta no texto publicado no dia 12 deste julho que as redes sociais, em vez de divulgar notícias que contribuem para o bem da sociedade e que são a essência do jornalismo, tendem mais para difundir o que está baseado em opiniões ou até rumores em vez de factos verificados.

 

Como surgiu a notícia falsa que galgou pelas redes sociais de que Liedson teria morrido?

E quando são publicadas as imagens de pessoas em agonia tombadas num passeio depois de terem sido esmagadas por um terrorista, como aconteceu na noite de quinta-feira, a liberdade está a ser respeitada?

Como comenta Katharine Viner, precisamos de meios de comunicação fidedignos, que contrastem os factos, que sejam intransigentes no rigor e que tenham sentido crítico sobre o que é noticiável.

 

As redes sociais trouxeram milhares de vantagens, mas tornaram mais difícil distinguir factos de não factos. Viu-se com o caso próximo de Liedson como é fácil fazer propagar uma informação que é falsa. Tal como se tinha visto na noite de 13 de novembro de terrorismo jiadista em Paris com os rumores de que, depois do Bataclan, o Centre Pompidou e o Louvre também estavam a ser atacados. Ou na quinta-feira funesta em Nice com a angústia a ser ampliada com boatos sobre tomada de reféns. Com ou sem deliberada malícia. Sem jornalismo. Com métodos que o jornalismo só pode recusar.

 

Vivemos tempos alucinantes. É uma era que provavelmente tem início em 2001, o ano da matança terrorista de 11 de setembro nos EUA. Vale lembrar essas horas que todos vivemos aterrados com os olhos presos aos ecrãs. Vimos em direto o impacto do segundo avião nas torres do World Trade Center. Vimos em direto o ataque ao Pentágono.  Vimos em direto o desmoronamento das torres. Foi uma tarde (no horário europeu) que parecia de prelúdio ao fim de um mundo. Não se sabia o que viria a seguir, sabia-se que a Al Qaeda estava a declarar guerra total ao nosso modelo de vida.

 

Agora, passados 15 anos, a Al Qaeda parece ter ficado desmembrada e enterrada com a morte de Bin Laden, mas das areias do deserto emergiram grupos e grupúsculos que estão a realizar a desestabilização terrorista do Ocidente ambicionada por Bin Laden. Dois anos e meio depois do 11 de setembro, em 11 de março de 2004, foi a matança de 200 pessoas e um milhar de feridos nos hospitais com as bombas nos comboios de Madrid. No ano seguinte, em 7 de julho de 2005, foram os ataques no metro de Londres, 56 mortos e 700 feridos. Veio 2007 e fomos apanhados pelo colapso do sistema de especulação financeira – desespero para tantos milhões de pessoas.  O terrorismo alastra de modo contínuo, por meio mundo. Os EUA estão massacrados por uma sucessão de episódios de violência racial. Há a infernal sequência de atentados terroristas na África central e mediterrânica, no Médio Oriente, no Paquistão, na Índia, no Bangladesh. E nem é preciso relembrar Paris e Bruxelas. Uma potência europeia decidiu sair da União Europeia. O que pode significar a separação de uma cidade universal como é Londres?  

 

As coisas acontecem e mal temos tempo para pensar na resposta justa. Provavelmente, é o que mais convém a quem nos ataca, sendo que o pensamento sereno e a inteligência estratégica são armas fundamentais para a nossa esperança.

 

A informação, rigorosa, sem dramatização, sem efeitos especiais, é outra arma vital num tempo em que, como evocou David Grossman numa entrevista ao La Repubblica, “o terrorismo está com uma força imensa, capaz de paralisar uma sociedade civil e reforçar os estereótipos racistas”. Grossman, grande escritor hebraico, valente militante pacifista, vive no centro de uma história dramática, a da guerra entre Israel e a Palestina, sofreu a dor da perda de um filho na guerra do Líbano, ele avisa-nos nesta entrevista ao La Repubblica: “É previsível que quanto mais uma sociedade estiver exposta ao terrorismo, tanto mais fortes se tornem as forças nacionalistas e racistas. Assim veremos nos próximos tempos a instalação de mais governos de direita que ao imporem medidas duras vão empurrar minorias para a posterior radicalização”.

 

Nestes dias decorre em atmosfera de epopeia a entronização de Donald Trump como candidato presidencial dos republicanos e não apenas os menos moderados nos EUA. Parece evidente que o derramamento de sangue como aconteceu em Dallas ou em Baton Rouge dá votos a Trump. Também parece claro que o triunfo das ideias de Trump não é coisa boa para a democracia.

 

As ferramentas que tínhamos para entender o que se passa à nossa volta não estão a responder. Os media serão preciosos se forem capazes de dar a mão para fazer compreender. Isso também implica saber dar consistência ao tempo.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

 

A repressão humilhante imposta pelo vencedor na Turquia. Milhares de soldados, juízes e procuradores, acusados de cumplicidade com os golpistas e com a oposição, estão na primeira linha da repressão desencadeada pelo regime de Erdogan. As imagens da agência ANSA que fazem a primeira página no L’Unità e no Corriere della Sera evocam as purgas na URSS de Estaline, na Alemanha de Hitler ou na China de Mao e Deng: centenas de militares prisioneiros, como se fossem animais lidados com desprezo, vergados, com o tronco nu, mãos algemadas atrás das costas. É a lógica do arbítrio de um regime que ameaça voltar à pena de morte.

 

 

O arrependido ghostwriter de Donald Trump: com remorso e com temores.

 

 

Faltam duas semanas para o começo dos Jogos Olímpicos. O que mexeu no Rio de Janeiro.

 

 

Uma primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS: o assunto também é o calor.

publicado às 10:09

O dia em que a Turquia sonhou e a França chorou

Por: Márcio Alves Candoso

 

O jornalismo é uma actividade perigosa. Porque se pode ser preso ou atingido num país que não preza a liberdade de expressão ou ser apanhado pelas balas numa frente de guerra? Também. Mas há outro perigo, muito mais presente, embora felizmente bem menos grave. Chama-se realidade e, na semana que passou, a Turquia e a França lembraram-nos do que isso significa.

 

 

Sexta-feira, final da tarde. Nas redacções ultimam-se os preparativos de fecho de jornais. Nas rádios e televisões confirmam-se os convidados e o alinhamento noticioso é, em todo o lado, aquele que é óbvio. Atentados em Nice matam dezenas de pessoas e ferem centenas. Mais uma vez a França de luto e o terrorismo a bater à porta.

 

Sexta-feira, princípio da noite. Um grupo não identificado de militares anuncia um golpe de Estado na Turquia. Um comunicado lido pelas forças revoltosas na televisão pública, acusa o presidente Recyp Erdogan de perverter a democracia e de inverter o - velho de quase cem anos - secularismo da lei e do poder público.

 

Alguns jornais já não vão a tempo de mudar as primeiras páginas. Resta o on-line que todos praticam há vários anos. As televisões têm mais sorte. Os convidados são, quase todos, peritos em ambos os assuntos. Terrorismo e Turquia, temas parecidos. É só dar a volta ao texto - primeiro a Turquia, porque está a acontecer, e logo depois Nice, com os corpos e os choros ainda bem quentes na rua.

 

Ana Santiago e Ricardo Nunes foram apanhados numa quase lua-de-mel em Istambul - de facto, foram assistir a um casamento de amigos locais que já não vai realizar-se, pelo menos na data aprazada. Desde sexta-feira à noite mudaram um bocado de vida. Metidos num bairro ’fancy’ da zona asiática da cidade, vão dando conta dos tiros que ouvem e dos helicópteros que os sobrevoam. Os amigos, nas redes sociais, vão-lhes pedindo que contem ao mundo o que mundo quer saber mas desconhece. O que é que se passa?

 

Ricardo desdobra-se a falar para as televisões e jornais. Ana conhece bem umas boas dúzias de jornalistas, já que trabalha há anos na área da comunicação - agora na ‘Start Up Lisboa’, uma incubadora de empresas. Dizem o que vêem e sobretudo o que os amigos turcos, em casa de quem estão hospedados, lhes contam. Estes, ocidentalizados, muçulmanos pouco ou nada praticantes, têm receio. "Os meus amigos turcos estão em choque, ninguém esperava isto. Não gostam do governo, mas também não confiam nos outros. Eles nem sabem quem são os outros", desabafou Ana Santiago, horas depois de iniciado o golpe.

 

Estou no topo do bairro de Bebek, um bairro calmo e residencial, numa casa de ré-do-chão com terraço onde fumo desalmadamente e sempre que passa um avião, que julgo militar, a casa estremece, é um barulho ensurdecedor e fugimos para dentro

 

Do lado de cá, já se fala em cravos e em revolução. "Que sorte que tens, estás a viver um 25 de Abril", exclama um amigo. Ana nem idade tem para se lembrar desse dia. "Estou no topo do bairro de Bebek, um bairro calmo e residencial, numa casa de ré-do-chão com terraço onde fumo desalmadamente e sempre que passa um avião, que julgo militar, a casa estremece, é um barulho ensurdecedor e fugimos para dentro. Na rua ouvem-se buzinas, que vêm de longe e orações/preces/exortações das mesquitas", escreveu no FaceBook pouco depois. Deitaram-se por volta das seis da manhã…

 

Mais do que um contra-golpe de grande eficácia, é agora seguro que, para além de algumas traições de última hora, quem parou os rebeldes foram os imãs das mesquitas e os líderes dos partidos tradicionalistas - Erdogan está longe de ser o chefe dos radicais islâmicos no país. O golpe final veio das potências ocidentais e da Rússia. Quer Barack Obama quer Vladimir Putin sustentaram que salvar a democracia na Turquia era apoiar o governo estabelecido contra os revoltosos. Quanto à parte do Exército e da Força Aérea que se sublevou, é evidente que deixou de lutar quando viu milhares de pessoas a barrar os carros de combate e a rodear os soldados de infantaria. O ’25 de Abril’ acabava ali. O povo não apoiou nenhum Salgueiro Maia, antes marchou contra ele. Se é que havia um Salgueiro Maia…

 

"Os secularistas são ainda muitos, vê-se na rua. Mas poucos em força, acho que pouco afeiçoados à política e à luta", refere Ana Santiago em declarações ao SAPO24. "Essa é a mágoa deles, sentem que falharam", sustenta a portuguesa. Durante a tarde, passeando pelas ruas calmas da parte europeia de Istambul, "parece algo entre a Avenida de Roma e o Parque das Nações, gente a passear, carros de bebés… não há mais polícia do que é costume", revela-nos.

 

É uma sensação estranha, ver na mesma praça pessoas a rezar depois do chamamento das mesquitas e outras ao lado a passear, a fumar, a comer, sem ligarem nenhuma

 

Na velha cidade, ali mesmo no centro histórico asiático, ao lado da torre de Gálata, Ana e Ricardo vêem estranhas confluências de culturas. "Mulheres de mini-saia e lenço na cabeça, dizem-me que é de propósito, uma espécie de ‘statement’ (afirmação)", conta Ana Santiago. "E uma de preto, cabeça coberta, a fumar", aduz a mesma fonte. "É uma sensação estranha, ver na mesma praça pessoas a rezar depois do chamamento das mesquitas e outras ao lado a passear, a fumar, a comer, sem ligarem nenhuma".

 

Mas todo este ‘melting pot’ poderá ter os dias contados. "Ergodan só vai sair mais forte disto tudo porque quem está na rua são apoiantes dele", sustenta Ana. "Os meus amigos não gostam deste presidente, mas também não sabem quem está do outro lado e se podem confiar. Desde o início disto (golpe), nunca os ouvi contentes por estarem a tentar derrubar o presidente", revela. "Acima de tudo estão confusos e com receio do futuro… Temem que a liberdade já não dure muito". "Os meus amigos sentem-se culpados e tristes, por nada terem feito até hoje para combater o que temem. «Eu falhei», diz-me o meu querido S." (nome retirado por razões de segurança). É esta a tristeza de gente normal que Ana traz de Istambul. "Mas não vi burkas", relata.

 

atat.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

"Se de agora em diante as mulheres não tomarem parte da vida social da nação, jamais conseguiremos atingir o nosso desenvolvimento completo. Permaneceremos irremediavelmente atrasados, incapazes de sermos tratados de igual para igual pelas civilizações do Ocidente". Palavras do ‘pai da Pátria’, Kamel Ataturk, proferidas em 1927. Há uma foto do próprio, rodeado de mulheres de cabeça descoberta e blusa de botão aberto. Data de 1931.

 

"Democracia, liberdade, primado da lei… para nós, estas palavras já não têm nenhum valor. Quem ficar do nosso lado na luta contra o terrorismo são nossos amigos. Quem ficar do lado contrário são nossos inimigos". Palavras de Recyp Erdogan, proferidas na manhã de sábado, após a vitória sobre o golpe. Os ‘terroristas’ a que se refere são os nacionalistas curdos do PKK. Do Daesh, dizem as más-línguas e algumas imagens dispersas que nunca os hostilizou. Horas antes do discurso, o presidente turco pedia asilo político em Itália e na Alemanha. Diz-se que lhe foi recusado, e que terá tentado o Irão. Ninguém confirma. Mas já de madrugada a sorte da batalha virou. E ele ficou.

 

Na noite de sábado, pouco restava da revolta. Em Ancara, a capital do país, Paulo Pedroso, ex-ministro do Trabalho e da Segurança Social, atarefava-se no aeroporto para arranjar bilhete de volta. Está a trabalhar num projecto da União Europeia em conjunto com a Turquia. O barulho à sua volta impediu-o de atender a primeira chamada. Respondeu à segunda.

 

"Acabo de atravessar Ancara de táxi. Apenas em frente ao Parlamento há vestígios sérios do enfrentamento. A avenida Ataturk está parcialmente cortada em vários sítios. Num dos sentidos os carros circulavam pelo passeio. O túnel perto do Parlamento está obstruído por camionetas do município. Na minha zona residencial todo o dia esteve tudo calmíssimo", assegurou ao SAPO24. "A mercearia do bairro, o barbeiro, tudo estava normal", afirmou.

 

fala-se de militares da região do Sudeste, da fronteira com o Iraque, o Irão, a Síria, o mesmo é dizer aquela em que há combates a sério com os curdos e contacto com o conflito sírio mais próximo

 

Os apoios ao Governo, vindos de largas camadas da população, ainda tinham vestígios à hora tardia em que conversámos. "Assim do género do fim das manifestações, pessoas dispersas pelas ruas, algumas embrulhadas em bandeiras turcas, outras agitando bandeirinhas nacionais", descreveu o ex-governante. Tropa na rua nem vê-la, polícia mais que muita, "mas aqui é sempre assim desde o último atentado", adiantou.

 

Enquanto mais de 2000 juízes - a Turquia é um país grande e populoso… - eram demitidos e presos, e dos cerca de ‘meio milhar’ de soldados oficialmente envolvidos na revolta mais de três mil eram detidos, as especulações sobre a ‘culpa’ da revolta e a culpa do seu fracasso são mais que muitas. Para Paulo Pedroso, para além da versão oficial de envolvimento de Fethulah Gullen – um antigo aliado de Erdogan que se auto-exilou da Turquia – "fala-se de militares da região do Sudeste, da fronteira com o Iraque, o Irão, a Síria, o mesmo é dizer aquela em que há combates a sério com os curdos e contacto com o conflito sírio mais próximo".

 

A mesma fonte dá conta de outra versão, "um golpe militar à egípcia, de militares laicos". O que até faria sentido com a oposição do Egipto, ainda ontem no Conselho de Segurança da ONU, a um voto de confiança no regime de Erdogan. Militares "enganados, que esperavam uma grande mobilização, popular que não ocorreu", é também outra hipótese credível. Mas no fundo está sempre o mesmo problema: "A mobilização através das mesquitas (de oposição à revolta) foi muito intensa", explica Paulo Pedroso.

 

A 2260 quilómetros de Istambul - e mais uns quantos de Ancara -, há flores na rua, na Promenade des Anglais. Um soldado de Alá ou um simples louco - ou uma clara mistura de ambas as doenças – puxou da sua profissão para matar pessoas. Ao volante e aos ziguezagues com um camião de entregas – a sua ocupação definida -, por uma das artérias mais conhecidas do planeta Terra, foi matando os ‘enfants de la patrie’ que encontrava pela frente, alguns mesmo crianças, que comemoravam a dia nacional de França. Por alguma razão desconhecida, todos os tiros disparados pela polícia e que pontificavam o pára-brisas do veículo, estavam do lado errado e tardaram em atingi-lo. No caminho para o paraíso, matou pelo menos 84 cidadãos, e deixou entre a vida e a morte mais de 50. Pelo menos uma das vítimas era uma muçulmana.

 

E prometo que esta será a última citação deste texto. É um comunicado difundido pelo alegado ‘estado islâmico’, alguns dias antes de Mohamed Bouhlel, tunisino com autorização de residência e trabalho em França, ter dado à chave de ignição da camionete da morte. "Se não tiverem engenhos explosivos ou balas para matarem infiéis americanos e infiéis franceses, ou os seus aliados, esmaguem as cabeças deles com pedras, chacinem-nos com uma faca, atirem o vosso carro contra eles, atirem-nos de um sítio qualquer, sufoquem-nos ou envenenem-nos".

 

Bouhlel era um homem que "cuidava dos seus filhos". Palavra de vizinhos.

...

publicado às 10:06

Então isto não é uma guerra?

Por: Francisco Sena Santos

 

A guerra em curso ainda não entrou na Península Ibérica (desde a tremenda matança nos comboios suburbanos de Madrid, em março de 2004) mas estamos todos na linha de mira. Eles, os terroristas, escolhem lugares que estão no percurso da nossa satisfação: esplanadas, restaurantes, bares, geladarias, teatros, discotecas, hotéis, museus. E, naturalmente, também aeroportos. A estratégia passa por atacar-nos, de modo brutal, abominável, em lugares que estão ligados ao nosso prazer.

 

Do Bataclan de Paris à Holey Artisan Bakery de Dacca ou à mais antiga geladaria de Bagdad. Passando pelos aeroportos de Bruxelas e de Istambul, por hotéis em capitais africanas ou paragens de autocarros na Turquia. E tantos outros lugares que elegem para o seu teatro de horror. O autoproclamado “califado islâmico” está a mudar o modo de vida no mundo, aquele que invadiu e ocupou, e aquele que ameaça com os seus inúmeros grupúsculos, alguns rivais entre si, mas unidos no propósito de nos massacrar – eles dizem: castigar. Serão apenas umas centenas de assassinos, muitos deles que optam por imolar-se propondo-se como mártires, mas que devastam milhares de vidas e ameaçam com o seu terrorismo difuso milhões de pessoas. O papa Francisco, pessoa de palavras bem pesadas, já avisou que está em curso uma nova guerra mundial, dita de baixa intensidade.

 

É notório o atual recuo territorial do “califado” que também se apresenta como “estado islâmico”(EI). Já perdeu metade do território que controlava há dois anos no Iraque e na Síria. Um bastião, Falluja, a 56 quilómetros de Bagdad, foi recuperado há uma semana pelas forças governamentais iraquianas apoiadas pela aviação dos EUA. As tropas regulares estão em evidente reconquista. Um dia, talvez não muito distante, será a libertação da segunda cidade principal no Iraque, Mosul, e também de Raqqa, a cidade na Síria que se tornou o posto de comando do EI. A noção de “estado” na ideia de “estado islâmico”, embora nunca tenha existido Estado propriamente dito, está em colapso. Tal como a ambição de “califado”. O problema trágico é que o fim do território controlado pelo “EI” não significa o fim do “EI”. Porque o “EI” passou a existir em células terroristas dispersas pelo mundo. E o seu ideário trata de conquistar adeptos e combatentes entre os revoltados contra a ordem política, socioeconómica ou religiosa instalada. Admite-se que haja pelo mundo umas centenas de terroristas em células adormecidas, a que se juntam milhares de “foreign fighters” (julga-se que uns 30 a 40 mil) nos campos de treino do EI.  Têm agora menos território mas aparecem até mais perigosos a atacar-nos pelo mundo através de ataques suicidas.

 

A última semana foi de atroz violência do terrorismo islâmico associado ao “califado”: 42 mortos no ataque suicida no principal aeroporto de Istambul; 20 num restaurante de Dacca; 213 vidas dizimadas numa casa de gelados  e na área em volta em Bagdad. A estas vítimas acrescentam-se centenas de feridos. Ontem à noite o ataque foi em Medina, junto à Mesquita do Profeta, e em outras duas cidades sauditas.

 

Tudo se precipitou com a chamada, feita em 21 de maio, por um porta-voz do EI, Mohammed al-Adani, para um Ramadão de sangue. Ele chamou os seus seguidores à matança de civis, proclamando que “ninguém está inocente”. Desde então os ataques sucedem-se com alta intensidade. Basta percorrer o diário das notícias que já quase nem aparecem como notícia: explosão de carros-bomba em Bagdad, Falluja, Kerbala e Bassora, no Iraque; massacre de civis e militares em Deir ez-Zour, na Síria, e em Sirte, na Líbia. E mais, muito mais: 11 mortos em ataques, em 6 e em 21 de junho, na Jordânia; 20 civis mortos no ataque que em 24 de junho destruiu pelo fogo uma aldeia de Kot, no Afeganistão; 43 militares massacrados na caserna de Mukalla, no Iraque; sete civis mortos no ataque, em 27 de junho, à aldeia cristã de Al-Qaa, no Líbano. Depois houve, na passada terça-feira, o massacre no aeroporto Ataturk de Istambul e, neste fim de semana, as matanças em Dacca e em Bagdad.

 

Fixemo-nos no último ano e meio: primeiro foi a matança no Charlie Hebdo, em Paris. Depois passaram ao Magrebe: massacres no Museu do Bardo e na praia de Sousse, na Tunísia. Veio o ataque múltiplo de novembro, em Paris. E o terror nos aeroportos de Bruxelas e de Istambul. Pelo meio, muito mais chacinas cruéis, na Síria, no Iraque, no Paquistão, na Líbia, no Iémene, no Egito, no Líbano, na Jordânia, na Nigéria, no Mali e nas Filipinas. Houve o ataque a um café em Sydney. Também a matança, é certo que ainda por esclarecer, na Pulse, uma discoteca de Orlando, nos EUA.

 

Então isto não é uma guerra? O “EI” pode estar a ser eliminado dos mapas geográficos mas os seus terroristas ameaçam-nos cada vez mais, já não escondidos no imenso deserto, mas instalados, como lobos solitários ou em minúsculas células, a escaparem invisíveis aos serviços de intelligence, nas nossas cidades. Nas cidades europeias, nas cidades do mundo e nos lugares procurados por viajantes e turistas.

 

Como responder a esta ameaça geral é a necessária prioridade para quem define as políticas. É também um desafio para o jornalismo: como lidar com este espetáculo da crueldade terrorista? As imagens que nos são mostradas são quase sempre pornografia do horror. É facto que precisamos de saber para entender, mas talvez não precisemos de ver os detalhes obscenos do terror. Há o desafio de definir a fronteira entre o jornalismo que mostra o que importa para entendermos o que está em causa, e a exibição da orgia de sangue que até funciona como marketing (as vítimas como troféu) nas estratégias de comunicação e recrutamento dos terroristas.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

Tanta gente que admiramos e que desapareceu nestes dias: Abbas Kiarostami, artista eclético,  cineasta que realizou filmes plenos de poesia, filosofia e política; Elie Wiesel, farol insubstituível, símbolo mundial da dignidade, lega-nos o dever de perpetuar a memória do Holocausto;  Michael Cimino, o cineasta que mostrou com O Caçador a tormenta da América incapaz de conviver com a síndrome da derrota no Vietname; Michel Rocard, o ideólogo reformista que tentou mas não conseguiu reformar o socialismo democrático.

 

A sonda Juno já está na órbita de Júpiter. A NASA vai trazer para a Ciência notícias do maior planeta do nosso sistema solar.

 

O Brexit tornou-se Brexodus, está a dar cabo dos seus falcões: depois de Boris Johnson, agora a renúncia de Nigel Farage. O referendo britânico derruba mesmo todos os líderes políticos britânicos: Cameron caiu, Farage demitiu-se, Corbyn está na corda-bamba. Depois do Brexit, como votarão os holandeses se houver referendo Nexit?

 

Duas entrevistas no El País, para ler e reler: Koolhaas e Steiner.

 

O museu em Chaves projetado por Siza Vieira para mostrar Nadir Afonso.

 

Uma primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS: esta. Mas também há o futebol, com o mercado de transferências a voltar aos portugueses, na véspera do salto para a final do Euro 2016.

publicado às 08:04

O vizinho do lado

Por: Pedro Rolo Duarte

É de uma enorme presunção auto-citar-me, bem sei - mas depois do massacre de Orlando, no fim de semana passado, tornou-se irresistível. Escrevi neste mesmo espaço, há oito dias: “O Ocidente receia o Estado Islâmico, o fundamentalismo, a loucura que não poupa nada nem ninguém, que não olha a meios para atingir fins - e que, acima de tudo, tem conseguido quase sempre surpreender nos momentos menos esperados, nos lugares mais improváveis.

 

Nessa medida, o mais provável é que o Campeonato Europeu de Futebol decorra com normalidade, sem ataques, sem ameaças, sem mácula. Mas o objectivo fundamental do terrorismo islâmico já está mais do que conseguido: incutir em todos nós a semente do medo, o culto de prevenção, e a tranquila aceitação de políticas violadoras da nossa privacidade, e da nossa liberdade de movimentos, em nome da segurança, em nome da paz”.

 

Infelizmente, tive razão. Mas bem pior do que isso, irrelevante face à dimensão dos acontecimentos, é perceber que nesta guerra surda entre nós e “eles”, nem é preciso organização ou estrutura: qualquer ser, nem me atrevo a chamar-lhe humano, pode ter a iniciativa de se armar e atirar a matar, seja pela causa (que provavelmente nem sabe bem qual é…), seja por pura homofobia, racismo ou loucura. E nunca tardam 24 horas até que o denominado estado islâmico venha reclamar os louros.

 

É mais grave do que há oito dias escrevi. É um caos imprevisível e incontrolável, impossível de prevenir ou detectar. Como um vírus, dissemina-se sem que se veja, é aproveitado por quem tem algo a ganhar com isso - e é improvável que venhamos a saber se tem algum fundamento organizado ou sequer uma vaga ideologia, religião, causa, que justifique o massacre. Entrámos no reino da loucura - e neste quadro, aproveita quem quer e pode, e sofre quem não tem sequer forma de se defender.

 

O atentado, massacre, carnificina, como queiram chamar-lhe, de Orlando, é talvez a mais grave ameaça à cultura ocidental desde há muitos anos. Porque passa ao lado de organizações, estruturas, planos de ataque, terrorismo organizado. Resulta apenas da vontade de um homem, influenciado por essa sombra escura, religiosa, cultural, social, que paira sobre nós permanentemente. Durante muito tempo, chamámos-lhe fundamentalismo religioso, que desembocava em terrorismo - o que pressupõe organização e planificação.

 

Agora, temos de lhe arranjar outro nome. Porque passou a ser a ameaça do vizinho do lado, onde se confundem e misturam preconceitos, credos, psicoses. E já ninguém põe as mãos no fogo pelo vizinho do lado.

 

Para ler na rede por estes dias…

 

Nada como ir à fonte quando o tema é quente: a cobertura do jornal New York Times sobre o atentado de Orlando, que vitimou mais de 50 pessoas e se tornou no maior massacre em solo americano desde o 11 de Setembro, tem sido exemplar. No rigor, no cuidado com a especulação, na actualização permanente. Um exemplo, de que os assinantes usufruem totalmente, mas os visitantes também podem acompanhar.

 

De hoje a oito dias, a Grã-Bretanha vai às urnas, em referendo, decidir se quer ou não permanecer na União Europeia, num processo a que se chamou, para facilitar a linguagem, “Brexit”. Para quem ainda tem dúvidas sobre o que está em causa, esta página da BBC põe tudo em pratos limpos. Vale a pena.

  

No dia 26 de Junho, a Espanha tenta, pela segunda vez este ano, encontrar estabilidade governativa, entre os novos partidos que agregaram a indignação e a contestação gerais, e os velhos partidos que andam aos papéis, a tentar recuperar o espaço perdido. Ainda que seja claramente apoiante do PSOE, o diário El Pais tem feito uma cobertura mais clara, explicativa e inteligente do que os seus concorrentes. Fica a minha sugestão.

 

 

 

 

publicado às 11:03

Eles estão a ganhar

 

Por: Pedro Rolo Duarte

Aqui há dias, em Lisboa, numa grande superfície comercial, estava numa sapataria quando se ouviu um estoiro, algo que parecia ser um tiro, fora da loja, mas perto de nós. Assisti a um momento único: num ápice, a loja ficou vazia, havia sapatos espalhados pelo chão, e olhando o corredor daquela ala, percebi que as dezenas de pessoas que andavam às compras se apressaram a procurar lugar seguro, ou pura e simplesmente sair para a rua. O estoiro terá sido de um infantil e ingénuo balão - mas a reacção da massa colectiva foi semelhante à de uma potente bomba…

 

Umas semanas antes, tendo passado por Manchester, testemunhei o alarido mediático de uma ameaça terrorista no estádio do Manchester United - que levou à evacuação do recinto e adiou o ultimo jogo da “Premiere League” -, e veio a verificar-se ser apenas uma “falsa bomba”, estupidamente esquecida pela empresa que, dias antes, tinha justamente testado o sistema anti-terrorista no estádio do clube inglês.

 

A estes dois casos, inocentes e sem fundamento, juntou-se esta semana a captura de um presumível terrorista que, dizem as autoridades, estaria a planear 15 atentados terroristas em França, durante o Euro 2016. Foi detido pelos serviços ucranianos de segurança, há algumas semanas, mas só agora a notícia foi revelada. O arsenal que estava na sua posse é de respeito: cinco armas-automáticas Kalashnikov, mais de 5.000 balas, dois lança-mísseis, 125 quilos de dinamite e 100 detonadores.

 

Os media aproveitaram a embalagem da notícia para exibirem as medidas de segurança já visíveis em França, junto aos estádios, mas também nas principais atracções turísticas de Paris, e nas cidades por onde vai passar o futebol. Até a nossa selecção tem protecção especial. São manifestações de força, de prevenção, e formas de passar ao cidadão comum uma ideia de segurança, de paz, sem a qual o Europeu de futebol não pode ser bem sucedido.

 

Porém, como cantou Sérgio Godinho, “Na vida real as aparências estão do outro lado do espelho” - e a verdade é que estes três episódios revelam uma outra face da realidade: o Ocidente receia o Estado Islâmico, o fundamentalismo, a loucura que não poupa nada nem ninguém, que não olha a meios para atingir fins - e que, acima de tudo, tem conseguido quase sempre surpreender nos momentos menos esperados, nos lugares mais improváveis.

 

Nessa medida, o mais provável é que o Campeonato Europeu de Futebol decorra com normalidade, sem ataques, sem ameaças, sem mácula. Mas o objectivo fundamental do terrorismo islâmico já está mais do que conseguido: incutir em todos nós a semente do medo, o culto de prevenção, e a tranquila aceitação de políticas violadoras da nossa privacidade, e da nossa liberdade de movimentos, em nome da segurança, em nome da paz.

 

É a mais perversa das vitórias: sem mexerem um dedo, eles conseguem que cedamos em tudo, em todas as frentes, e nos deixemos conduzir como marionetas, sem cérebro nem liberdade - mas com a quase absoluta certeza de chegarmos a casa vivos depois de cada jogo. Ao que chegámos.

 

 

Esta semana, ainda em tempo de Feira do Livro

 

Não tarda faz 25 anos, mas continua a ser a mais brilhante, viva, romântica e (estranhamente coincidente…) história da Bossa Nova, da MPB e do fascinante mundo da cultura que o Rio de Janeiro exportou para todo o Globo no século XX. Durante anos, era preciso comprar pela net ou pedir a algum amigo que a trouxesse do Brasil. Graças à editora Tinta da China, tem agora uma edição exclusiva para Portugal: “Chega de Saudades”, de Ruy Castro, chegou! E ele anda por aí, na cidade…

Espero que se siga o seu “dicionário” consequente: “Ela é Carioca”…

 

Parece (leio Isabel Lucas no Público…), que terá sido, segundo o escritor Paul Metcalf, “um dos segredos mais bem guardados da literatura americana”. Mas o segredo chegou este ano (traduzido) a Portugal. “Manual para Mulheres de Limpeza” é um genial livro de contos, de Lucia Berlin, e foi a mais forte descoberta literária que tive nos últimos anos. Fica a sugestão, e o link para o que Isabel Lucas escreveu.

 

Em português chama-se “O Curso do Amor” e, para não variar, mistura o romance com a filosofia, o testemunho pessoal com a reflexão mais profunda sobre o que nem sempre parece relevante. Mas é. Trata-se da última incursão de Alain de Botton pelo mundo das relações humanas, e uma voltinha pelo site do autor abre o apetite para o livro que, por ser edição recente, tem destaque na Feira do Livro. É escolha segura…

 

publicado às 11:00

O espetáculo do medo. Mas continuamos a ter o comando para mudar de canal

Por: Francisco Sena Santos

 

Vivemos um tempo em que as tragédias nos chegam transformadas pelos media em espetáculo. Tivemos na última semana exemplos de sobra dessa exploração mediática da dor e da morte. Tanto com um desastre rodoviário numa estrada de França como com os atentados em Bruxelas.

 

 

Foquemo-nos nos atentados na capital europeia: sabemos que os terroristas contam com a ação dos media para amplificar a sua agressiva mensagem de terror e gerar a onda de medo. Os terroristas servem-se da lógica dos media, conhecem-lhes a gramática, exploram os mecanismos psicológicos. Questão: como pode o jornalismo tratar a informação sobre os ataques terroristas sem ao mesmo tempo servir a propaganda pretendida pela perversa agenda dos agressores?

 

Há alguns exemplos de práticas que são bons casos de estudo. Não estão vistas, não foram exibidas, imagens de corpos devastados no 11 de Setembro em Nova Iorque. Que imagens temos desse dia? Vimos um dos aviões a aproximar-se e a chocar com uma das twin towers. Vimos as explosões - e não podemos alguma vez esquecer essas imagens. Tal como as do aterrador desmoronamento das torres. Mas quase não vimos pessoas, os corpos não foram visíveis, o seu sofrimento não foi exposto. Há imagens de pessoas, homens e mulheres que, para escapar ao inferno das chamas, se atiraram sobre o vazio a partir de andares altos das torres. Mas nunca nos foram mostrados grandes planos dessas pessoas que saltaram para outro modo de morrer. Não as vimos de perto, não lhes vimos o rosto em sofrimento. Percepcionamos esse tremendo sofrimento, mas somente na nossa imaginação. Ele não nos foi mostrado. Não era preciso exibir em grande plano essa atrocidade a que cada pessoa foi submetida. É sabido que esta ausência de corpos das vítimas do 11 de Setembro alimentou polémicas, sobretudo a especulação de que os americanos ocultaram as imagens dos corpos porque quiseram evitar mostrar que deixavam de ser intocáveis. Mas é facto que as imagens (e a sua incessante redifusão) de corpos destroçados nada acrescentariam à compreensão do que estava em causa.


A guerra iniciada nesse 11 de Setembro de 2001 está repleta de momentos de tremenda atrocidade. Também houve pudor com as imagens do 11 de março de 2004 em Madrid. Ou com a decapitação, em 2014, do jornalista James Foley: então, os media de referência recusaram-se a exibir o chocante vídeo da execução realizado pelo autoproclamado estado islâmico. Aquele vídeo era a apresentação de um troféu como propaganda dos assassinos. Foi bem evitar a difusão do espectáculo do terror.


É facto que há imagens de violência que têm a virtude de serem reveladoras. São por isso necessárias. Os vídeos do espancamento de Rodney King, em 1991, por agentes da polícia de Los Angeles, ou o do assassinato de Walter Scott, em 2015, por um polícia de North Charleston, serviram para documentar a brutalidade de algumas práticas por polícias nos EUA.


Há muitos horrores que só realizamos terem acontecido por termos visto a prova em imagens. My Lai ou Abu Ghraib são exemplos clássicos. Mas não precisávamos de ver as imagens de corpos de turistas massacrados por terroristas na praia de Sousse, na Tunísia, no ano passado, para entendermos a monstruosidade daquela matança. Tal como outras praticadas pelas internacionais terroristas.
Sabemos que propaganda é informação que transmite de modo poderoso uma mensagem. Os terroristas que atacaram em Paris, em Istambul, em Ancara ou em Bruxelas contam com o efeito de ampliação da bomba mediática que aqueles lugares produzem e que não é atingida numa matança em Bamako ou em Lahore. O kamikaze que se fez explodir este domingo de Páscoa num parque frequentado por famílias na principal cidade do Punjab paquistanês levou pelo menos 72 vidas (entre estas, 30 crianças) e feriu 340 - "vil atentado", definiu o Papa. A dimensão do massacre é muito maior que a dos ataques em Bruxelas mas o tratamento mediático é quase passageiro. Em contraste com a exploração non stop no habitual loop catódico dos ataques em Bruxelas.

 

Obviamente, há o efeito de proximidade. Bruxelas é uma nossa referência cultural, é a capital do que queremos que continue a ser a nossa Europa. Está lá uma parte substancial do comando administrativo da nossa vida. Estão lá dezenas de milhar de compatriotas. Morreram nos atentados de 22 de março 30 pessoas e ficaram feridas 300. É terrível, sim. Mas a cobertura exaustiva, muitas vezes tão especulativa quanto pouco profunda, tende a acabar por servir a instrumentalização desejada pelo inimigo que ataca. O apocalipse relatado, se levado ao extremo, tenderia a levar os cidadãos europeus a barricarem-se em casa e a só saírem à rua dentro de um blindado. Esta espécie de convergência entre  terroristas e sistema mediático gera uma onda de medo. O poder simbólico e emotivo dos atentados contra populações civis, relatados em emissões em contínuo e dramatizadas por um sistema mediático que sabe que o terror vende, torna-se cada vez mais gerador de ânsias e medos coletivos. Este espectáculo do medo é uma armadilha. Ainda que a nossa vida de todos os dias siga igual, embora, talvez, com acrescido sentimento de insegurança.

 

A estatística europeia apurou que ao longo do ano 2014, no conjunto dos 28 países da EU, morreram 25.896 pessoas em acidentes na estrada. A comparação com os efeitos, também devastadores, dos atentados terroristas, não pode deixar de nos fazer parar para pensar. Estamos numa guerra e até por isso não dá para que se instale o espetáculo do medo.

 

 


TAMBÉM A TER EM CONTA:
 


O Nobel turco Orham Pamuk constata no El País: “a crise migratória está a comer os valores da Europa”. É uma entrevista para ler aqui.


A reconquista de Palmira revela que a jóia arqueológica no deserto sírio não estará tão irremediavelmente devastada quanto se temia. A cidade antiga, apesar de profanada, sobrevive à barbárie.


Mick Jagger levou a Cuba a voz que canta the times are changing. Mas também mudam nos EUA: os êxitos de Bernie Sanders mostram como a política dos Estados Unidos tem novas regras. O senador progressista continua a seduzir eleitores e a encravar a prevista marcha triunfal de Hillary Clinton. Entre os republicanos, algumas elites moderadas estão a constatar que perdem o partido para Donald Trump. Vale lembrar que o democrata Michael Dukakis, no início do verão de 88, tinha 10 pontos percentuais de avanço sobre George Bush mas, em novembro, o republicano foi quem venceu. Pode estar no horizonte um regresso ao passado?

 

A pessoa que dá corpo à personagem do vilão Frank Underwood: Kevin Spacey, o ator que abre portas a jovens talentos.

 

A primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS. Luaty Beirão condenado a cinco anos e seis meses de prisão e outros 16 activistas enfrentam penas de dois a oito anos. "Só um regime covarde enjaula assim", comenta no Expresso o diretor, Pedro Santos Guerreiro. Em Angola, é mostrado assim. E assim.

publicado às 08:16

Bruxelas: todos os problemas da Europa concentrados numa cidade

Por: José Couto Nogueira 

 

Hoje, bombas em Bruxelas. Ontem, um terrorista apanhado e vários mortos num bairro babélico de Molenbeek. Anteontem, a polícia armada até aos dentes a entrar pela casa de famílias ilegais, marginalizadas e desempregadas. Todos os dias, circulam as limousines topo de gama dos burocratas mais bem pagos do mundo. Há dois anos, a Bélgica esteve sem governo durante dezoito meses. No norte do país fala-se uma língua medieval, no sul comunica-se em francês. É assim a Bélgica, um país refém de contrastes insolúveis e contradições aterradoras. Desde 1830.

 

 

As autoridades belgas são ajudadas pelos serviços franceses, mas mesmo assim tem uma dura tarefa nas mãos. Bruxelas, sendo sede da NATO e dos órgãos de topo da UE, o Conselho da Europa e a Comissão Europeia, tem exigências de segurança acrescidas. Bruxelas abriga deputados e funcionários de topo à distancia de um tiro de bazuca de magrebinos revoltados e muçulmanos excluídos. Para não falar nos seus próprios problemas étnicos, uma vez que os flamengos se recusam a falar francês, mesmo com estrangeiros, e os valões não se querem misturar com ninguém, nem flamengos, nem estrangeiros.

 

A polícia não tem uma reputação cristalina; entre 2008 e 2014 houve vários escândalos sexuais, de pedofilia em escolas católicas a uma orgia numa esquadra de policia, sem que as autoridades conseguissem investigar a tempo inúmeras denúncias. O corpo de segurança das zonas da Flandres não se comunica com o da Valónia e Bruxelas é um enclave francófono na zona flamenga. Depois há as antipatias fronteiriças entre franceses e belgas.

 

Bruxelas foi escolhida para sede dos órgãos principais da UE segundo aquele princípio que tem norteado as decisões da União: dar importância aos insignificantes, facilmente manipuláveis, porque nenhum dos poderosos quer ficar sob a alçada de outro poderoso. Bruxelas, Estrasburgo (a outra sede do Parlamento Europeu) Durão Barroso, Van Rompuy e Jean Claude Juncker, são bons exemplos destas escolhas do menor denominador comum.

 

Aliás, a própria existência da Bélgica é uma espécie de equívoco criado pelas conveniências dos grandes. Até 1830, fazia parte da Holanda, juntamente com o Liechenstein. Nesse ano, uma revolta separou a Flandres e a Valónia, que formaram um país dividido linguística e etnicamente, sob a batuta de um rei alemão inventado para manter a coesão, Leopoldo I. (É interessante que anteriormente Leopoldo tinha recusado a coroa grega, por achar o país demasiado instável.) Os grandes poderes europeus consideraram que era uma boa ideia um estado-tampão entre a França e a Alemanha, como garante de que não se guerreariam. Claro que, quando a Alemanha decidiu invadir a França, em 1914 e 1939, passou por cima da Bélgica sem grandes problemas.

 

Na Conferência de Berlim, em 1885, ao fazer-se a divisão da África entre os europeus (Portugal incluído) aquele espaço inexplorado ao norte de Angola, que ninguém parecia querer, foi dado de presente a Leopoldo II – não à Bélgica, mas ao rei, como propriedade pessoal. No início do século XX a opinião pública mundial ficou chocada com as atrocidades que os belgas cometiam no Congo, inclusive amputações de trabalhadores considerados preguiçosos. Calcula-se que tenham morrido dez milhões de nativos em condições inenarráveis. A reputação de Leopoldo II, que até fez reformas trabalhistas inovadoras na Bélgica, nunca se recompôs dessa barbaridade.

 

O que lá vai, lá vai. Os problemas agora são outros. Os valões e os flamengos continuam a não se entender, mas pelo menos já conseguiram formar governo. Dos hábitos pedófilos, que provavelmente são iguais em toda a parte mas ficaram como uma espécie de estigma para os belgas, não se tem falado. Em compensação Bruxelas continua a ser um problema maior do que o país – são todos os problemas da Europa concentrados numa cidade.

 

Por um lado, é o centro nevrálgico da União Europeia e da NATO, o que a torna uma cidade caríssima e com permanente falta de alojamento; por outro lado tem uma população muçulmana que quer mais é que a Europa que a rejeita desapareça do mapa. As autoridades belgas, tão mal vistas internacionalmente, fazem o que podem para resolver problemas que, nitidamente, as transcendem. Por outro lado, não querem que a ajuda dos serviços de segurança estrangeiros os subalternizem na sua própria terra. Mas alguém tem de proteger os generais da NATO e os comissários da Europa. E é preciso urgentemente limitar os imigrantes e arranjar-lhes uma ocupação – em Molenbeek, o desemprego atinge os 50%. Salah Abdeslam, o homem mais procurado da Europa, escondeu-se mais de um mês em Moleenbeck, o bairro onde nasceu e cresceu, sem que a polícia desse com ele. E um dos que o acompanhava até conseguiu fugir. Outros, insuspeitos, colocaram agora as bombas de retaliação. Bem perto da classe superior que discute interminavelmente o que fazer com os refugiados sírios e os marginais de Moleenbeck.

 

O que está a acontecer por estes dias em Bruxelas é uma metáfora do estado a que a Europa chegou.

 

 

publicado às 13:17

Não podemos renunciar à liberdade. Não renunciamos a algum dos pequenos prazeres do nosso modo de vida.

Por: Francisco Sena Santos
 

 

O terrorismo trouxe uma vez mais a sua feroz guerra para o coração da Europa. Agora, em Bruxelas, à hora de ponta. A capital da União Europeia está bloqueada e o medo instala-se. É o que eles, os bárbaros, querem: abater a ideia de liberdade, progresso, justiça social.
 
 
A Europa deixou de viver em paz. As guerras do Médio Oriente estão a ser transferidas para dentro da Europa. A guerra é física e psicológica. É tempo de as lideranças europeias se deixarem das imbecis e ignóbeis quezílias egoístas de todos os dias. A crise dos refugiados evidencia-nos como falta na Europa um sobressalto de dignidade política. A Europa unida está fragmentada, em pedaços, e é evidente que só unida e solidária, corajosamente regressada aos valores fundadores, pode enfrentar o lado político desta guerra. Nós, os cidadãos, obviamente, quaisquer que sejam as ameaças, recusamos renunciar aos pequenos prazeres de cada dia, seja o de um café enquanto lemos um jornal ou um livro numa esplanada ao sol, a música dançada numa discoteca ou uma viagem de avião. Evidentemente, nada pode fazer retroceder a liberdade que é o nosso primeiro valor.
 
 
 
O BRASIL E CUBA EM ESTRADAS OPOSTAS
 
A detenção de Berta Soler, líder das Damas de Blanco, e de outros oposicionistas cubanos, neste domingo, no Parque Gandhi, em Havana, no final de uma manifestação de repúdio do governo comunista, ocorrida escassas horas antes de Obama pisar pela primeira vez solo de Cuba, lembra-nos que não há motivo para excesso de entusiasmos com a abertura política em Havana. Mas o povo cubano, sempre embalado pelo ritmo musical da salsa, pode sorrir: o horizonte é de esperança. A evolução em Cuba tende a ser lenta, gradual, mas é irreversível rumo a uma vida menos constrangida. É o oposto do que se sente no Brasil de hoje, um país que parece tomado pelos ódios.
 

Milhões de brasileiros estão a ser chamados para o protesto, furioso, nas ruas. Todos sabem que todo o sistema político-económico do país está corroído pela corrupção. É um mal que se propagou, transversal. Mas o que está em fundo a este movimento que precipita multidões para as manifestações não é um confronto entre o bem e o mal ou entre decência e corrupção, é uma luta tremenda pelo poder.
 

Esta guerra política ficou desencadeada quando em outubro de 2014 Aécio Neves perdeu a eleição presidencial em que Dilma Rousseff foi reeleita. Os anti-PT não aguentaram e desesperaram com a realidade de quatro eleições presidenciais ganhas pelo PT (Lula em 2001 e 2005, Dilma em 2009 e 2013) e a perspectiva de, após estes 16 anos, haver continuação com o regresso de Lula à presidência nas eleições de 2017. Os opositores fizeram cálculos e perceberam que Lula é, para eles, a ameaça. Dilma não tem mão para liderar o país mas Lula saiu da presidência em 2009 com taxas de aprovação tão altas que serviram para garantir a eleição e reeleição da fraca e desconhecida Dilma. Lula continuava a ser trunfo, portanto, é o ás a abater. Num país onde o voto é obrigatório, Lula tem o apoio dos muitos milhões de sem terra nem rumo que vêem nele o líder que lhes deu benefícios do dinheiro público, que lhes restituiu alguma dignidade e amanhãs. Por isso, para os opositores, o ataque teria de ser de alto calibre letal: empurrá-lo para o papel de bandoleiro que rouba o dinheiro dos brasileiros. O aparelho de poder de Lula pôs-se a jeito: não foi imune à embriaguez do dinheiro e do poder, envolveu-se nas teias da corrupção que envolve todo o sistema político brasileiro.
 

É aqui que entram em campo, nesta guerra anti-vermelhos que tem como alvo central abater Lula, dois poderes que se fizeram parte aliada: o aparelho policial-judiciário e o sistema dos media, convergentes para o fim de remover Lula e o PT do poder, objetivo que ficou por conseguir de forma democrática ao longo da última década e meia.
 

Todos pudemos notar nos últimos dias como os magistrados que conduzem a (necessária) investigação criminal não olham a meios para, com abusos vários, alcançarem os objetivos que se revelam claramente políticos. São múltiplos os indícios de que o PT está repleto de corrupção que toca em Lula. Mas todo o cidadão tem direito a que a investigação de que é alvo seja imparcial e justa. E, se a intenção é a boa de caçar todos os que têm as mãos sujas, então também será de avançar, com respeito pela prática do Direito, por todo o espectro político igualmente contaminado.
 

Paralelamente, os media, intensamente concentrados e influentes, veemente opostos ao PT, com a Rede Globo na hegemonia, meteram-se nesta guerra, teatralmente, inflamando o cenário, como agitadores e alimentadores do protesto: “O que a Globo sabe fazer magistralmente é manipular contextos”, escreve Carlos Castilho, jornalista há 35 anos e professor agora a concluir o doutoramento em Gestão do Conhecimento na Universidade de Santa Catarina, nesta análise preciosa para conhecermos o sistema dos media no Brasil. Também se recomenda este retrato do actual “turbilhão de versões e contra-versões”, igualmente por Carlos Castilho. É assim que o Brasil de agora está em espiral depressiva confrontado com uma crise gigantesca.
 

O que está a acontecer em Cuba vai no sentido oposto, o da esperança. A vida segue precária na ilha caribenha, grande parte dos seus 11 milhões de habitantes sofre de grande escassez (um professor universitário recebe um salário que não chega a 60 euros por mês) e para a maioria arranjar o que comer é uma luta diária: o cabaz básico mensal de alimentos subsidiados apenas dá para uns dez dias. O Estado é o maior empregador em Cuba mas o salário mensal médio é de 28 euros. A agricultura tem a mão-de-obra de 10% do país. As remessas do milhão e meio de cubanos no exterior são um essencial suporte para a subsistência das famílias. Mas a saúde funciona, a esperança de vida está nos 79 anos e em Cuba vivem umas 1800 pessoas com mais de 100 anos. A escola funciona e a alfabetização de adultos está nos 100%.
Há muralhas por derrubar: o regime desmente mas há evidência de continuação de prisões políticas mascaradas como casos de delito comum. O acesso à internet continua por liberalizar para a maioria da população cubana. É um dos pontos que Obama levou na agenda e a Google integra a comitiva. Tal como a PayPal e a Airbnb. Os muros estão a cair, é irreversível.
 

O papa João Paulo II abriu o caminho para a esperança ao apelar, em 1998, em Havana: “Que Cuba se abra ao mundo e que o mundo se abra a Cuba". Os papas Bento XVI e, sobretudo, Francisco deram sequência a esse caminho. Quem imaginaria há meia dúzia que um presidente dos EUA iria a Cuba apertar a mão a um Castro? Há muitos problemas para resolver mas o caminho já não tem volta para trás. A distensão com Cuba e com o Irão mostram que a presidência Obama trouxe melhorias aos mundo que, no entanto, está cada vez mais perigoso pelo terrorismo.
 
 
 
AINDA A TER EM CONTA
 
Cabo Verde votou e a oposição triunfou. O arquipélago é um exemplo de, apesar de tantas carências sociais e económicas, coexistência democrática.
 
 
Mi ê di li i di la. Esta reportagem de Vera Moutinho e Catarina Gomes, no Público, mostra o futuro virtuoso para os jornais de referência.
 
 
Três primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO JORNAIS: esta, esta e também esta.
 
 
publicado às 09:34

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D