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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Trump à beira da derrota, mas a fúria contra o estado das coisas ameaça Madam President

Por: Sena Santos

A dúvida que chegou a pairar parece hoje resolvida: Donald Trump, “The Donald”, vai perder as eleições. Os eleitores dos EUA vão, em 8 de novembro, fazer de Hillary Madam President.

 

É facto que ainda faltam onze semanas para o dia do voto, que ainda está para se ver o efeito de três debates de máxima audiência, sabendo-se que em política tudo pode sempre acontecer, mas ficou evidente no último mês que “The Donald” ultrapassou a crucial linha vermelha do eleitorado republicano moderado e atingiu um ponto de quase impossível retorno. Toda a gente tinha constatado no último ano de campanha que “The Donald” é uma criatura extrema, um instável e excêntrico provocador sem ética, sem um mínimo sentido de decência, uma aberração na tradição política, tanto moral como cultural, da América conservadora.  

 

“The Donald” tem mostrado - com a linguagem sexista, racista e violenta que usa - um espantoso talento para se autodestruir. Muitos republicanos não o suportavam, alguns deles condescendiam. Neste último mês, com os disparates ditos ao apelar aos portadores de arma para resolverem o problema Clinton, ao insinuar que Obama é o fundador do “Estado Islâmico” e, sobretudo, ao ofender os pais de um soldado americano que perdeu a vida, “The Donald” ultrapassou os limites, exasperou esses republicanos moderados que tentavam manter fidelidade ao partido. Donald Trump deixa assim de ter probabilidade de reunir uma base de apoio que lhe permita ser competidor elegível. Embora continue na eleição e haja que esperar pelos votos, está muito desqualificado.

 

Tanta gente nos EUA não gosta de Hillary, há muitos que a detestam. Incomoda nela o que é sentido como falta de autenticidade. Por mais voltas que os estrategos de campanha tratem de dar, não conseguem humanizar a figura distante, não afetiva, de Hillary. Mas, mesmo sem levantar ondas de entusiasmo, ela vai ganhar por ser a alternativa que resta. E esta eleição americana até vai outra vez entrar para a história: os eleitores dos EUA, depois de terem em primeira vez eleito um negro para presidente, agora vão pela primeira vez eleger uma mulher.

 

O retrato da geografia política dos EUA tem definições muito nítidas e constantes: há maioria dos democratas nos estados costeiros, do Maine à Virgínia na fachada atlântica e do Canadá ao México na frente do Pacífico; no meio há um imenso território, mas muito menos povoado, do Texas ao Dakota do Norte, do Utah ao Kentucky, dominado pelos republicanos. A análise mais detalhada destes mapas mostra que mesmo nos estados costeiros, a maioria democrata está concentrada nas grandes cidades, Nova Iorque, Filadélfia, Chicago, Minneapolis, Seattle, Los Angeles ou São Francisco; mas basta afastarmo-nos algumas dezenas de quilómetros dessas grandes cidades e a maioria passa a ser republicana. Ou seja, é, genericamente, um clássico: as áreas económica e culturalmente mais dinâmicas voltam-se para os democratas, as áreas rurais e as grandes pradarias confiam nos republicanos. Este é o retrato geral. Que também nos mostra que quase 90% dos negros e 60% dos hispânicos tende a votar democrata.

 

É ilustrativo compararmos o que tem acontecido num estado cuja cultura está centrada na família, como o Utah: em 2004, o republicano George W. Bush recebeu 72% dos votos deste estado do Oeste. Quatro anos depois, o também republicano McCain alcançou 63%. Em 2012, Mitt Romney, na oposição a Obama chegou aos 73%.  Agora, as sondagens estão a dar Trump abaixo dos 40%, empatado com Hillary no Utah. Neste estado do Utah, é muito forte o peso dos mórmons que, embora tradicionalmente próximos dos republicanos, rejeitam o discurso de Trump que rompe com valores instalados e encaminha para a perseguição a grupos religiosos, no caso, os muçulmanos. Os mórmons sabem o que é sofrerem hostilidades, rejeitam quem as promove.

 

Trump, “The Donald”, uma anomalia nesta campanha presidencial nos EUA, parece-me, claramente, um caso arrumado. Não tem continuidade política depois de 8 de novembro. Mas o facto de ter chegado aqui é muito relevante e revelador do descontentamento que avança pela sociedade dos EUA. Trump não passa mas o trumpismo, tal como o sanderismo, vão continuar e esse vai ser um desafio crucial para a Madam President Hillary Clinton. É a revolta generalizada contra o “establishment” e contra o estado das coisas. É o profundo mal-estar que sucede à quebra do poder de compra e dos empregos e ao colapso da coesão social. Algo que disparou com o desmoronamento de 2007/2008, mas que já vinha de antes.

 

Os americanos cultivavam orgulho no seu país e nas suas instituições. Tinham-se habituado, no pós-guerra, a considerar os EUA como potência planetária para o bem. Intocável, segura, terra de futuro. Havia o racismo, a segregação, mas havia orgulho no espírito da nação americana.  Ainda que com periódicas ondas de incerteza. Aconteceu em 1957, quando os soviéticos lançaram o primeiro foguetão para o espaço, mas a confiança regressou logo a seguir com Kennedy a prometer a lua. A guerra do Vietname foi outra era de incerteza, a que se somou a crise energética que derrubou o presidente Carter.

 

Agora, depois da infâmia no 11 de setembro de 2001, tudo está de pernas para o ar. A América deixou de ser um país seguro. O medo instalou-se. A globalização transferiu para o estrangeiro muita indústria e, também com a revolução tecnológica, muita gente perdeu o posto de trabalho. Os salários dos não qualificados baixaram. A falta de emprego favoreceu a subida da hostilidade com imigrantes. A América mudou muito no século XXI. O capital social do país está abalado, há declínio do número de postos de trabalho, muitos deles suprimidos pelos avanços da tecnologia. A nova economia atirou para o limbo muitos milhões de pessoas, maioritariamente brancos e com escassa qualificação. Passaram a sentir-se ultrapassados ou até excluídos dentro do seu país. É entre esta gente revoltada contra o sistema que “The Donald” conquistou a relevância que fez dele um ciclone sobre as primárias da campanha eleitoral.

 

A fúria contra o sistema que alimentou ao longo de um ano a campanha de Trump é a mesma, embora com segmentos sociais diferentes, que deu tanto fôlego à campanha de Bernie Sanders. Trump explorou o populismo radical mais à direita, Sanders cresceu com os apelos mais à esquerda pela justiça social. Ambos são expressão de um profundo e justificado descontentamento social nos EUA. Um sentimento que em muitos casos se traduz por revolta, e que vai continuar depois de eleita a nova presidência.

 

Trump vai continuar fanfarrão mas está derrotado, Sanders tende a optar por uma retirada digna, mas o espaço sociopolítico dos EUA está propício para o aparecimento de alternativas extremadas. E o próximo Trump provavelmente nem vai ser um “clown” como “The Donald”. Madam President vai ter de ser capaz de prodígios políticos para evitar que a América entre em erupção social.  

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

 

O jornalismo conta o que acontece no tempo presente. Parte do que o jornalismo trata entra depois para a história. É o que acontece com Fractured lands: How the Arab world came apart,  grande reportagem de extraordinária qualidade realizada ao longo de 18 meses pelo jornalista-escritor Scott Anderson a que se juntam as imagens captadas no terreno, durante 14 anos, pelo repórter fotográfico Paolo Pellegrin, e publicada no último fim de semana no New York Times Magazine. É uma reportagem profunda e preciosa, realizada com grande sensibilidade, essencial para decifrarmos, ao longo de cinco fascinantes capítulos, o que tem acontecido no Médio Oriente nas últimas quatro décadas e para compreendermos o caos de hoje. O mundo árabe, de 1976 a 2016, grande jornalismo, grande reportagem!

 

João Pina é um repórter fotográfico que vai ao fundo das coisas. Dedicou quase uma década de trabalho a investigar os horrores praticados há 40 anos por seis repressivas ditaduras militares da América do Sul que se coordenaram numa Operação Condor que perseguiu e eliminou 60 mil opositores. João Pina encontrou-se com uma centena de vítimas, estudou processos nos arquivos, acompanhou julgamentos, visitou prisões e centros de tortura. Muitas das estremecedoras fotografias a preto e branco estão publicadas no livro Condor (Tinta da China, 2014).  O trabalho de João Pina já foi mostrado em exposições em S. Paulo, em Santiago do Chile e, neste momento, na principal mostra europeia de tendências no mundo da imagem, os Encontros de Arles. A presença de João Pina em Arles está assim no Libération e já esteve assim no El País. Quando será a exposição Condor em Portugal?

 

O obstáculo de género à qualidade de Guterres: Ban Ki-moon resolve intervir para puxar por uma mulher para lhe suceder na secretaria-geral da ONU.

 

Duas primeiras páginas escolhidas hoje: esta e esta.  

 

E, hoje, grande salto para Nelson Évora e grande pagaiada para Fernando Pimenta.

 

 

publicado às 08:18

Na tua multidão ou na minha?

Por: Rute Sousa Vasco

Esta semana começa o campeonato de futebol. Mas, mesmo que o que se segue lhe pareça vagamente familiar com o pior do futebol, não tem nada a ver. Até porque para os verdadeiros fãs, o futebol é o melhor pretexto para se ser um selvagem, mas sempre com princípios. Que é exactamente o que não se passa com os hooligans, no futebol, na política e no governo do mundo.

 

As multidões sempre me impressionaram e quase sempre pela negativa. Na presença de muitas pessoas, o indivíduo tende a fundir-se no colectivo e há um efeito de contágio imprevisível que me assusta. Os políticos adoram multidões – só isso explica o fascínio da popular arruada, coisa que qualquer ser humano no estado normal dispensaria. Alguns políticos, os mais perigosos, adoram o ecstasy das multidões – e são especialistas em elevar as suas multidões ao nível seguinte.

 

Esta semana foi notícia que Erdogan conseguiu reunir em Istambul a maior multidão de que há memória nos últimos anos. Três milhões de pessoas, estima-se. Muitas bandeiras nacionais, caras pintadas com as cores da Turquia, coros inflamados que sequenciavam as palavras de comando de quem comanda. "Se o povo quiser a pena de morte, os partidos respeitarão a sua vontade", disse Erdogan. E o povo respondeu em coro: "pena de morte!”. A pena de morte não existe na Europa, diz Erdogan. Mas, isso não significa avanço civilizacional, conclui. Porque nos Estados Unidos, na China ou no Japão existe.

 

Em multidão, não há discussão moral de certo ou de errado. Não há errado. São factos. E os factos que Erdogan exibe mostram que quem está mal são os que pensam diferente de nós. Neste caso, essa Europa fraca que tantos desprezam. Segundo a Amnistia Internacional, 140 países aboliram - por lei, ou na prática – também a pena de morte, o que contabiliza pelo menos mais 112 do que aqueles que fazem parte da União Europeia. Mas tudo isso são detalhes quando se tem um microfone na mão, se é projectado num palco e se tem um público de três milhões de fãs.

 

Que é mais ou menos o clima que Trump tem desfrutado nos seus get-together pelos Estados Unidos. Esta semana, provou que podemos esperar sempre mais dele. Começou em Wilmington, na Carolina do Norte, com o incentivo aos partidários da manutenção e posse de armas a que travem Hillary Clinton. “Hillary quer essencialmente abolir a segunda emenda, aliás, se ela puder escolher os juízes [do Supremo Tribunal] não há nada que vocês possam fazer, pessoal. Se bem que para as pessoas da segunda emenda talvez ainda exista [algo que possam fazer], não sei. Mas digo-vos, esse será um dia horrível”. Tome-se boa nota do tom: “não há nada que vocês possam fazer, pessoal”. Pessoal, multidão, gente que me segue de forma cega, surda e …ruidosa. Depois do apelo a que pessoas com armas possam travar Hillary – e Trump deixou à imaginação de todos o que pode querer dizer “travar” – o delírio continuou. Desta vez, em Fort Lauderdale, na Flórida. "Obama é o fundador do ISIS! O ISIS honra o presidente Obama. E diria que a co-fundadora é a vigarista Hillary!". E o que grita a multidão de Trump cada vez que ouve a palavra Hillary: “Lock her up” (prendam-na). Sob a bruma dos gritos da multidão, Trump apenas acena e sorri.

 

Algures em Moscovo, alguém assiste a tudo isto com um sorriso silencioso e gelado. Chama-se Vladimir Putin. Esta semana recebeu Recep Erdogan num palácio da era dos Czares, em São Petersburgo. Há dois meses, Putin e Erdogan disputavam o título de melhores inimigos. Hoje, Erdogan tem no currículo uma oposição dominada, milhares de adversários presos e mais de 240 pessoas mortas na sequência da tentativa de golpe de estado. A Europa e os Estados Unidos não gostam do que vêem – Putin diz-lhe que “todos nós queremos recomeçar o diálogo”.

 

Michael Morell trabalhou 33 anos na CIA e dirigiu a agência interinamente na qualidade de vice-diretor. Na semana passada escreveu uma coluna de opinião no New York Times em que expressava o seu apoio a Hillary Clinton a par com a sua preocupação com Donald Trump. E também aquilo que escreveu constitui um novo nível na forma como olhamos para eleições em países democráticos, e para a manutenção de um status quo nas relações internacionais. Diz Morell: "Putin explora as fraquezas de Trump, fazendo-lhe elogios. Nos Serviços de Inteligência, diríamos que Putin recrutou Trump como agente involuntário da Federação Russa".

 

O mesmo New York Times avançava, no editorial de ontem, com a possibilidade de Trump estar simplesmente a testar uma estratégia impensável em democracia. A de ganhar pelo tumulto o que já percebeu que não poderá ganhar pelo voto. “Neste momento, Mr. Trump está a perder e possivelmente isso aterroriza-o. Talvez ele não se saiba controlar ou perceber porque o deveria fazer. Ou talvez esteja apenas a satisfazer a sua necessidade ilimitada de atenção. Mas o seu comportamento nesta semana coloca ainda uma hipótese mais perturbadora. Talvez ele tenha desistido de ganhar através dos meios civis e não queira saber das consequências da sua campanha de incitação”.

 

Eu nunca gostei de multidões, foi aquilo que comecei por vos dizer.

 

Tenham um bom fim-de-semana

 

Outras sugestões:

 

São 19 minutos que valem a sua atenção. Primeiro porque é o John Oliver. E depois porque é o John Oliver a explicar porque é que o jornalismo não é apenas um problema dos jornalistas.

 

É impossível resistir a tanta beleza, graça, destreza e qualquer coisa que efectivamente faz parte do Olimpo. Chama-se Simone Biles e entrou nas nossas vidas esta semana, arrisco-me a dizer que para sempre, tal como a sua antecessora, Nadia Comaneci.

 

E esta noite há jazz na Gulbenkian e é ao ar livre e com sorte talvez tenhamos uma chuva de estrelas.

publicado às 10:47

Desta vez, Trump escolheu como inimigos aqueles que a América nunca questiona

Por: José Couto Nogueira 

 

Os últimos dias têm sido dramáticos para o superlativo Donald Trump. Não admira, pois o candidato republicano, sempre pronto a atacar, desta vez meteu-se com um grupo sagrado para toda a sociedade americana: os veteranos de guerra.

 

 

Mesmo os liberais, os democratas e todos os perigosos esquerdistas que polulam nos Estados Unidos – segundo a opinião de Trump e os noticiários da Fox – respeitam os homens e mulheres das Forças Armadas que combateram nas guerras ou nos conflitos armados em que o país tem estado continuamente envolvido. Até os pacifistas, que acham a opção pela carreira militar uma péssima ideia, consideram que os militares que deram o corpo às balas transformaram a má escolha num acto que merece respeito. Quanto aos que morreram em combate, esses são os heróis, e as suas famílias recebem uma deferência muito especial. Nunca está em discussão a justeza ou justificativa dos conflitos; quem combate faz parte dos “nossos rapazes”, daqueles que se voluntariaram para o “último dos sacrifícios”.

Se é assim para os liberais, imagina-se como será para os conservadores, fundamentalistas, militaristas e de direita; os militares são a nata, a glória, os melhores dos melhores.

 

Tudo isto para mostrar a extensão da calamidade que foi a atitude de Trump, num país que possui uma enorme e poderosa máquina militar, com mais de um milhão e meio de voluntários (não há serviço militar obrigatório).

 

Tudo começou quando, no palco da Convenção do Partido Democrata,  se apresentou um casal, Khizr e Ghazala Khan, cujo filho, o Capitão Humayun Khan, morreu em combate no Afeganistão em 2004 e recebeu o “Purple Heart” e a “Bronze Star”. Os Khan vieram dar testemunho de que se pode ser muçulmano e patriota, uma tese defendida pelo Partido Democrata, em oposição à tese trumpista/republicana de que todos os muçulmanos são terroristas ou, pelo menos, suspeitos.

 

Humanayun veio dos Emirados Árabes com os pais quando tinha dois anos e é o mais graduado dos 14 militares muçulmanos mortos em combate na década seguinte ao ataque às torres gémeas. O pai, Khizr, falou do orgulho que a família sente pelo filho e terminou com a afirmação que o tinha levado ali: “Se fosse pelo Sr. Trump, o meu filho nunca teria vindo para América.”

 

A resposta de Trump não se fez esperar; numa entrevista radiofónica insinuou que a esposa, Ghazala, tinha ficado calada durante o discurso do marido “porque se calhar não tinha licença para falar”. No dia seguinte, uma carta assinada pelas famílias de onze mortos em combate considerou as considerações de Trump “repugnantes” e “moralmente ofensivas”. Ghazala Khan disse à ABC News que estava angustiada de mais para dizer alguma coisa: “(Perder um filho) é o maior sacrifício que se pode fazer por um país; Trump não sabe o que é um sacrifício desses”.

 

Donald, que tem por hábito ter sempre a última palavra, não desarmou: “Acho o Capitão Khan um herói, mas fui atacado com malícia, e nunca deixo de responder. E tenho feito muitos sacrifícios por este país”. Quais, perguntou o entrevistador. “Sempre trabalhei muito, criei dezenas de milhares de empregos, construí grandes estruturas”.

 

Hillary Clinton não podia perder esta deixa e não perdeu: “Donald Trump não é um candidato normal. Não está emocionalmente preparado".

 

Que os democratas aproveitem a crise provocada pela reacção de Trump, não surpreende. Mas as redes sociais começaram a fazer troça e, num outro sinal de debilidade, John McCain, ele próprio um veterano, Paul Ryan e outras eminências do partido criticaram a falta de sensibilidade do candidato.

 

Simultaneamente, Trump disse que não apoiaria Ryan para continuar a representar a maioria (republicana) do Senado, ao mesmo tempo que o seu vice-Presidente, Mike Pence, dizia precisamente o contrário.

 

Ainda não satisfeito, Trump veio dizer, na última entrevista até à data, que a acusação de falta de respeito por um soldado americano abatido era apenas um truque dos democratas para distrair de temas mais pertinentes para a campanha presidencial. E reforçou pelo Twitter: “Esta história não é sobre o Sr. Kahn, que anda a dar entrevistas em toda a parte, mas sim sobre o TERRORISMO ISLÂMICO RADICAL e os Estados Unidos estarem alerta!”.

 

Parece impossível a quem observa esta nova polémica que ninguém na campanha de Trump lhe tenha dito que quanto mais falar no assunto, pior. Aliás, nem era preciso dizer-lhe: nas sondagens de sexta feira estava dez pontos percentuais atrás de Hillary. 

publicado às 13:50

Uma eleição que mexe com todos nós: uma América cosmopolita, otimista e tolerante?

Por: Sena Santos

Daqui até novembro vai ocorrer-nos muitas vezes que deveríamos poder participar e votar nas eleições principais nos Estados Unidos da América. Faria sentido não ficarmos à margem na escolha daqueles cujas decisões afetam o nosso modo de vida, por exemplo ao avançarem para guerras e invasões que desencadeiam trágicas consequências, como ficou despoletado no Iraque.

 

Se os europeus também votassem a presidência dos EUA, apesar da vaga populista que por aí anda, Hillary Clinton teria assegurado que em novembro ficaria Madam President e nós ficaríamos menos inquietos. Mas nós não temos esse voto e, tal como as coisas estão, não se pode excluir um cenário de President Trump na Casa Branca de Washington. Perturba imaginar o planeta liderado por gente como Trump, Putin e Erdogan – só faltaria juntar Marine Le Pen, mas é de confiar que os franceses não lhe entreguem o poder nas presidenciais de maio do ano que vem. O que é que explica a adesão de tantos americanos à campanha de Trump?

 

 

Um livro agora publicado, Hillbilly Elegy: A Memoir of A Family and Culture in Crisis, escrita autobiográfica de J.D. Vance, ajuda-nos a entender. Ele explica-nos, e consegue fazê-lo com humor, o declínio do sonho americano num lugar da América lá de dentro. Através da história de uma tradicional família branca cujos avós desceram da pobre pacatez rural na cordilheira dos Apalches para o trabalho nas então, a meio do século XX, pujantes fábricas do Rust Belt, a cintura da ferrugem nas periferias urbanas do Ohio. Viveram a ilusão de um futuro próspero mas, com a recessão dos anos 80, essa indústria colapsou, muitas fábricas fecharam e as comunidades fragmentaram-se. Tudo viria a agravar-se muito no começo deste século e com a depressão de 2007. O desemprego disparou, as falências sucederam-se, a frustração de quase todos atirou muitos para o limbo. Até a religião tradicional perdeu a influência que tinha e muitos procuraram refúgio em drogas. O que o livro nos mostra é como irrompeu e cresceu essa decadência social e a crise cultural e psicológica que afeta milhões de pessoas assim desenraizadas. É o drama da falta de dinheiro mas, ainda mais, a sensação de impotência de uma vasta população branca alarmada com o declínio do sonho e o assalto do pesadelo.

 

 

Trump, “The Donald”, aposta nesta gente branca frustrada para com o voto dela conseguir a eleição em novembro. Estrela da tele-realidade, conseguiu fazer quebrar a coluna vertebral do Partido Republicano. Explora os medos das pessoas, exacerba sentimentos identitários nesta América onde a população branca está a tornar-se minoria e um país que funciona com a força de trabalho dos imigrantes. Trump usa uma estratégia de comunicação assente na manipulação dos factos e da verdade. Atiça o descontentamento populista.

 

 

As mentiras de Trump são evidentes mas há uma grande massa de eleitores que parece não querer reconhecê-las. Por exemplo: Trump denuncia um problema de imigração ilegal tão grave que o leva a querer colocar um muro para barrar a entrada nos EUA de “gente violenta” oriunda do México e de outros países da América Latina. No entanto, de facto, como atesta a Customs and Protection Border Agency, a imigração ilegal nos EUA está no nível mais reduzido desde os anos 1960. Baixa continuamente desde 2008 e a razão está bem à vista: a crise económica que cortou as esperanças e as oportunidades.

 

 

Trump também explora a sensação de insegurança física, perante roubos, violações e assassinatos. Mas os números oficiais do FBI mostram a queda forte da criminalidade violenta em todo o país, fica por um terço dos níveis registados nos anos 1970. O fenómeno que cresce nos EUA é o das atrocidades em massa, com dimensão de facto alarmante: só no ano passado, 372 casos em que o número de mortos em cada incidente foi superior a quatro. É uma tragédia para a qual contribui a facilidade de acesso a armas de fogo nos EUA. Mas esse é um problema para o qual “The Donald” não aponta soluções.

 

 

O rendimento da classe média dos EUA está estagnado ou em retrocesso há uma década. Mas Trump também não mostra soluções para inverter esse quadro preocupante que se repercute na Europa. Parece evidente que a economia americana e o emprego melhorou nestes anos de Obama, mas ao egomaníaco Trump só interessa a desgraça.

 

 

Viu-se na semana passada, na Convenção Republicana, em Cleveland, como Trump, em vez de propor esperança (como incitava Reagan, como tentou Obama, ambos sempre com mensagens aspiracionais positivas), explora o máximo negativismo político, o desdém e o ódio. O ódio a Hillary, o rancor contra o “establishment” que diz ser representado por Hillary. Especialista em designações de desprezo, Trump rebatizou-a “Crooked Hillary”, ou seja, “Hillary a Desonesta”. Trump quer transformar os medos, as frustrações e os ódios em votos.   

 

 

Hillary tem nesta semana uma oportunidade essencial para combater essa tormenta de Trump na América ultra-polarizada. Depois de na semana passada o palco ter sido para Trump na Convenção Republicana, em Cleveland, agora são os quatro dias de Convenção Democrata, em Filadélfia. É a oportunidade para fazer pontes e lançar compromissos poderosos de esperança cultural e política. Não vai ser fácil a Hillary conseguir galvanizar o eleitorado. Mas é vital que seja capaz de entusiasmar com uma visão cosmopolita, otimista e tolerante da América. 

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

 

Erdogan está imparável a sufocar a democracia. Bem avisa Baltasar Garzón. O sultanato turco é o último dos desastres que área balcânica e mediterrânea atravessa.

 

 

Um novo capítulo na história da aviação: o Solar Impulse completou a volta ao mundo sem recurso a combustível fóssil.

 

 

O telemóvel e a internet podem ajudar a melhorar a vida em África?

 

 

Uma primeira página escolhida hoje. Bons mergulhos!

publicado às 08:24

Somos só pessoas estupidamente normais

Por: Rute Sousa Vasco

Há semanas em que todos aqueles que escrevem sobre o que se passa no mundo não evitam o que, em regra, tentam evitar. Ou seja, escrever sobre as mesmas coisas que outros já escreveram. Quem publica à sexta-feira, depois de uma semana intensa de acontecimentos (Nice, Turquia, Convenção Republicana, para nomear os mais globais), fica com um problema ainda maior. Isto para dizer que também eu não consigo evitar. Trump, Erdogan, extremismos, ignorância, medo. Como evitar?

 

 

As escolhas democraticamente eleitas por todo o mundo têm nos obrigado a uma reflexão ampla sobre a democracia. É um tema difícil que, inevitavelmente, acaba com a frase de todos conhecida: “não é um sistema perfeito, mas não se encontrou ainda melhor”. O que, até prova em contrário e face às alternativas, é, sem dúvida, verdade. Mas também é verdade que o conceito de participação popular se alterou radicalmente nos últimos cinco anos, mercê da explosão das redes sociais, e com consequências, aos mais diferentes níveis, que ainda ninguém conseguiu efectivamente perceber.

 

 

Por causa dos acontecimentos em França e na Turquia, na semana passada, falei com várias pessoas que vivem em cidades como Paris, Nice, Istambul, Ancara e Londres. Pessoas que não se conhecem umas às outras – nenhuma delas. Pessoas com contextos de vida diferentes, com profissões diferentes, com idades diferentes. Em todas, senti a mesma apreensão. Em nenhuma, senti ódio ou vontade de alinhar por qualquer extremismo. Uma delas falou comigo, ao telefone, enquanto a noite de Istambul era disputada pelos militares ditos golpistas e o “povo de Erdogan”, aquele que as mesquitas chamaram à rua para defender a nação. Ainda o desfecho era incerto e já me dizia do outro lado da linha que, de certeza, que Erdogan teria tudo controlado. “Acho que no domingo está tudo resolvido”, comentava na madrugada de sábado. No domingo, estava tudo não apenas resolvido como perdida qualquer réstia de esperança que a Turquia não se torne mais um problema – um problema de uma dimensão que só conseguimos imaginar e temer.

 

 

Em Istambul, como em Paris, ou em Nice, as pessoas com quem falo só querem ter uma vida normal. Tomar o pequeno-almoço com a família, levar as crianças à escola sem recomendações especiais, ir trabalhar sem pensar duas vezes no trajecto, ter amigos sem pensar no bilhete de identidade, visitar amigos sem que lhes seja pedido bilhete de identidade, jantar fora porque é sexta-feira, talvez ir dançar, talvez ir ouvir música. Na loucura, quem sabe ir assistir a um fogo de artifício. E poder rir, mesmo que se seja mulher – a quem a tribo Erdogan recomenda recato na via pública. Uma vida estupidamente normal.

 

 

Esta normalidade daqueles com quem falo não é exactamente a mesma que as televisões me mostram.  Nem aquela que as redes sociais comentam. Em Cleveland, nos Estados Unidos, terra que consagra como primeiro postulado da constituição o direito a procurar a felicidade, vejo pessoas iradas com Hillary Clinton, gritando pela sua prisão, vomitando ódio a cada sílaba. Hillary está longe de ser uma candidata entusiasmante. Nem vale a pena dizer que nunca será Obama, porque isso era admitir que sequer estava no mesmo plano. Não se comparam metros com litros.

 

 

Mas este ódio? Katty Kay, jornalista e apresentadora da BBC, vai na 17ª convenção republicana que acompanha. Diz que nunca viu nada como isto. “Sinceramente, não sei se é por Mrs. Clinton ser mulher. Talvez seja porque está há tanto tempo na política ou porque o seu servidor de email faz parecer que ela pensa que está acima da lei. Mas o ódio que lhe votam é viciante e visceral. Isto tornou-se a convenção do ‘prendam-na’. Perguntem aos delegados sobre Mrs. Clinton e vejam-lhes o brilho nos olhos – ela é o “mal”, uma “mentirosa”, e “perigosa”."

 

 

Reparem, estas são as mesmas pessoas que querem ver Donald Trump presidente da América. As mesmíssimas pessoas que não querem a sua opositora porque, deduz-se, não se reconhecem na maldade, na mentira e no perigo. 

 

 

A insanidade.

 

 

Trump, o agitador, o atiçador de serpentes, o quase-inimputável, parece até um tipo de moderado quando a isto apenas responde: "Vamos derrotá-la em Novembro”.

 

 

Se a democracia é a escolha da maioria, precisamos mais do que nunca de saber quem é esta maioria. Há ódio nas pessoas normais – sempre houve. Mas esse tem sido sempre o triunfo da humanidade sobre a bestialidade: vencer o ódio, começando pelos ódios de cada um, em prol de um bem maior, que é a sobrevivência.

 

 

Tenham um bom fim-de-semana.

 

 

Outras sugestões:

 

O que pode a tecnologia fazer por nós, além de naturalmente nos permitir jogar Pokémon Go (o incontornável tema lúdico desta semana)? Muita coisa e com pensamento politico à mistura. Senão veja-se esta história dos robôs-manifestantes expostos numa sala do Instituto de Tecnologias Interactivas da Madeira.

 

Era uma vez um reino a que chamamos unido e que em virtude de uma votação está em grande agitação interna e externa. Este reino, tem novo governo, este governo tem novas missões, estas missões são provavelmente problemáticas. Da Idade Média ao século XXI, aqui fica um retrato, mais que factual, contextual, dos dias que se vivem no reino de Sua Majestade. Um texto imperdível do José Couto Nogueira.

 

publicado às 15:59

"Os Estados Unidos ficam bloqueados, porque mesmo que Trump ganhe, não ganha o congresso"

Por: Isabel Tavares

 

De malas feitas para os Estados Unidos onde regressa à Universidade do Illinois, Nuno Garoupa prepara-se para acompanhar de perto as eleições americanas. 

 

 

Falemos então de outra corrida, as eleições nos Estados Unidos…

Que também são outro argumento bom para voltar, se Trump ganhar os Estados Unidos fecham, não entra mais ninguém [risos].

 

Acredita que ele ganhe?

Não. Quer dizer, não acredito que ele ganhe, mas já esteve mais longe. Neste momento penso que não ganha, mas depende de um conjunto de factores – por exemplo, de haver mais problemas legais com Hillary [conta privada que usava para enviar e receber emails enquanto secretária de Estado e está a ser investigada pelo FBI e pelo congresso], dos desenvolvimento no terrorismo e na imigração  –, que não dependem dos candidatos. Tudo isto favorece Trump.

 

Se Trump ganhar, como é que isso deixa os Estados Unidos?

Em termos práticos, os Estados Unidos ficam bloqueados, porque mesmo que Trump ganhe, não ganha o congresso, que em princípio será republicano, porque uma larga faixa do partido republicano não o apoia. Até que ponto Trump vai usar isso para ter uma espécie de guerra constante com o congresso ou vai ser um presidente sentado à espera de ver o que acontece, isso é o que se verá. Mas não acredito que as consequências da eleição de Trump sejam tão terríveis como as pessoas pensam.

 

E do ponto de vista externo?

Do ponto de vista externo é uma má imagem e vai alterar a ideia dos Estados Unidos como país aberto, até com vocação imperial, para um país muito mais fechado e voltado para dentro, porque é isso que Trump defende: voltar a um certo isolacionismo, fechar fronteiras.

 

Afirmou que o que estava a abrir espaço para partidos extremistas, na União Europeia, era a perda de soberania. E nos EUA?

Nos Estados Unidos há dois problemas graves desse ponto de vista: a dependência da China - o país está altamente endividado e a China comprou uma parte muito substancial dessa dívida soberana -, e uma espécie de problema imperial - desde a guerra do Iraque, o império alargou-se de tal maneira que não é sustentável economicamente, há que fazer escolhas, coisa que a presidência Obama foi adiando. O que Trump está a fazer é cavalgar uma onda populista em que a solução é fazer uma guerra comercial à China, quando isso não vai resolver o problema, só vai agravá-lo. Mas uma larga faixa do eleitorado, nomeadamente uma classe económica média-baixa, está farta de não ver uma solução e tem agora alguém que lhe diz o que sempre quis ouvir.

 

Passando para outra guerra comercial, o TTIP – Transatlantic Trade and Investment Partnership [Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento] avança?

Do lado americano, se tivermos uma presidência de Trump vejo muito poucas condições para o acordo avançar. Do lado europeu, acredito que vamos ter em 2017 uma viragem à direita em vários países, nomeadamente em França e na Alemanha, o que vai complicar a sua aplicação. O horizonte político para este tratado não é o mais adequado, veio numa época frágil. Porque há uma coisa que é evidente nestes acordos, e sabemos isso na zona europeia, é que há perdedores e vencedores. Que é bom para todos, não é verdade.

publicado às 02:42

Nuno Garoupa: «Os partidos políticos têm pavor do Ministério Público»

Por: Isabel Tavares

 

 

Saiu da presidência da Fundação Francisco Manuel dos Santos antes do previsto para dar lugar a Jaime Gama e, em Agosto, regressa ao Estados Unidos, à Universidade do Illinois. Antes de deixar Portugal, Nuno Garoupa fala do trauma do PSD e diz que só uma pessoa poderá substituir Passos Coelho e ganhar as eleições - e não é Maria Luís Albuquerque. Professor catedrático – a sua área de investigação é Direito e Economia e Direito Comparado -, aponta o dedo ao Ministério Público. Fala da necessidade de reformar os reguladores e critica uma sociedade pouco exigente. Trump também entrou na conversa: «não acredito que as consequências da sua eleição sejam tão terríveis como as pessoas pensam».

 

Foi dar aulas para os EUA em 2007. Agora que regressa, acha que Portugal está diferente?

O que mais me surpreende é o facto de estarmos estagnados há 15 anos e parece que estamos sempre a começar do zero. Há uma tendência para fazer reset permanente e o país não é capaz de reflectir sobre isso. De quatro em quatro anos, ou de dois em dois (não sei quando é que os governos caem), volta ao princípio. Isso impressiona-me. A sensação que tenho é que o país está à espera de qualquer coisa, mas não sabe de quê. É assustador.

 

Qualquer coisa vinda de onde?

De fora. De dentro já se aceitou que não tem volta a dar. Admito que, dependendo dos lados ideológicos, as expectativas sobre o que pode vir sejam diferentes.

 

Acredita que virá alguma coisa?

Não vai acontecer. Já tivemos dois grandes momentos: o do esforço de adesão à União Europeia e o de adesão ao euro, em que a ideia era que a Europa ia pôr isto na ordem - e não pôs -, e a grande expectativa criada com o Memorando da troika – que não se fez e não mudou nada.

 

Entretanto, a troika “saiu”, mudou o governo, mudou o presidente da República. Consegue adivinhar o que aí vem?

Estamos numa transição, mas não sabemos para onde. Não é claro que esta maioria seja sustentável durante muitos anos, mas também não são claros os actuais alinhamentos à direita. Mudando de estratégia e de liderança o PSD pode repor uma situação política semelhante à que existia antes de 2011. Quanto ao presidente da República, ainda é muito cedo para tirarmos ilações. Tem sido uma presidência de afectos, mas a verdade é que o presidente ainda não foi confrontado com nenhuma situação complicada, em que tenha de desagradar a algumas franjas do eleitorado. E isso vai acontecer.

 

Qual poderá ser o tema da discórdia?

Desde a questão económica – a qualquer momento podemos ter problemas orçamentais ou problemas sérios de resgate da banca -, a uma crise política. Isso vai forçar o presidente a intervir, a favorecer ou a desfavorecer. Além disso há os temas fracturantes; penso que a estratégia do Bloco de Esquerda tem de ser apresentar durante a próxima sessão legislativa uma ou duas leis para se distinguir do Partido Socialista.

 

O governo Zapatero, em Espanha, teve muito mais questões fracturantes, não sei como o BE não foi ainda buscar ali a lista inteira de temas para tentar fazer aqui a mesma coisa.

 

Em que temas se poderá distinguir?

O tema do cartão da cidadania não era fracturante, por isso morreu, mas pode ser o do terceiro género. O governo Zapatero, em Espanha, teve muito mais questões fracturantes, não sei como o BE não foi ainda buscar ali a lista inteira de temas para tentar fazer aqui a mesma coisa. Mas é tudo uma questão de criatividade. Se essa legislação for aprovada na Assembleia da República por uma maioria de esquerda, isso vai acabar nas mãos do presidente da República e a sua decisão vai desagradar a um ou a outro. Por mais popular que seja, o seu eleitorado natural é à direita e, nessa altura, vamos ver como Marcelo se comporta por comparação com Cavaco, que tinha o condão de ficar mal com todos.

 

Sobre o resgate da banca, as comissões de inquérito valem de alguma coisa? Em que medida?

Valem no sentido de trazer alguma informação a público, não toda. Aliás, uma das questões em que a comissão de inquérito do Banif é um bocadinho escandalosa é que a informação não é toda pública quando, de facto, se o Banif foi intervencionado e depois vendido, o contribuinte que pagou tem o direito de exigir acesso à informação toda. Dito isto, estas comissões acabam por não servir para nada, porque estão em função de maiorias políticas.

 

(...) já queimámos 50 ou 60 mil milhões na banca. Esse dinheiro desapareceu e o facto de o sistema judicial não conseguir responsabilizar alguém, é um mistério.

 

Os resultados são, por isso, condicionados?

É evidente que a conclusão final da comissão parlamentar de inquérito do Banif vai ser completamente diferente da do BES, porque a maioria politica é diferente. Além disso, não há consequências. A verdade é que nesta questão da banca levamos mais de dez anos disto, desde o início do caso BPN, e não ainda não há uma condenação. Como é que possível? Porque há um dado objectivo: já queimámos 50 ou 60 mil milhões na banca. Esse dinheiro desapareceu e o facto de o sistema judicial não conseguir responsabilizar alguém, é um mistério.

 

Pergunto-lhe a si, que é professor catedrático, o que falha?

É evidente que temos um problema sério com o nosso sistema judicial. E que não é só uma questão de leis, de falta de legislação, do enriquecimento ilícito. Temos um problema com a prática da própria investigação. Independentemente das considerações que possamos fazer, se ao fim de dez anos o Ministério Público não consegue ter nenhuma condenação, devíamos estar a discutir o funcionamento do Ministério Público. Mas é uma discussão a que toda a gente foge.

 

Porquê?

Porque os partidos políticos têm pavor do Ministério Público. Porque têm medo que no momento em que se abrir uma discussão sobre como mudar o Ministério Público, além das acusações de estarem a tentar interferir politicamente, que vão ser imediatas, surjam algumas capas complicadas no Correio da Manhã.

 

Para si, onde está o problema?

Acredito que é um problema sério de funcionamento. Há um problema de recursos, o Ministério Público não está dimensionado para os recursos limitados que tem, e há questões que têm a ver com legislação: continuo a defender que devíamos ter o princípio da oportunidade, como os americanos ou os espanhóis e outros países europeus, plea bargaining, a denúncia premiada e toda uma série de instrumentos que não há porque um conjunto de sábios portugueses acha que não deve estar na nossa legislação.

 

 

Há casos complexos, mas existem outros sem grande complexidade cuja decisão está presa há anos. Os juízes não têm de dar satisfações sobre o seu trabalho?

O Ministério Público reclama independência e autonomia para fazer as investigações e a gestão processual, mas, depois, não presta contas a ninguém – o Conselho Superior do Ministério Público é uma entropia. Voltando à banca, se em dez anos não há uma condenação, tem de se prestar contas disso, mas, como se nota, quer as nossas instituições políticas, quer a sociedade não forçam essa discussão. Além disso, há uma série de situações e vários processos mediáticos, entre eles o do ex-primeiro-ministro, que se arrastam em nome de uma complexidade que não existe. Ou sabem de onde vem o dinheiro, ou não. Se não sabem, acabou. É diferente de um caso como o BES/GES, que só no Panamá tem 51 veículos, o que demora e exige capital humano, Não sei quantos procuradores têm formação para olhar para 51 veículos e perceber como aquilo funciona.

 

Todos percebemos que, quando há uma aranha de 51 veículos, um leigo olha e não entende.

 

Essa é outra questão, o Ministério Público está preparado para estes casos?

Voltamos ao princípio: como é que ao fim de dez anos não há uma unidade dentro do Ministério Público com formação nesta área? Todos percebemos que, quando há uma aranha de 51 veículos, um leigo olha e não entende. Mas há especialistas que sabem. Porque é que o Ministério Público não pôs um, três, cinco procuradores a ter formação? A agravar, temos uma lei de prescrição extraordinariamente favorável aos arguidos. Há ainda a questão da coordenação com o Banco de Portugal, com as agências de regulação, com as Finanças, que faz com que o Ministério Público se queixe de que está à espera que a outra instituição faça a investigação da parte tributária ou da parte regulatória.

 

Em Portugal, grande parte dos casos transforma-se em megaprocessos. É prático ou útil?

Esta estratégia do Ministério Público é chocante. Em Espanha, o ex-vice-presidente do governo do PP, Rodrigo Rato, que já tinha deduzida a acusação em dois processos, vai a tribunal enquanto outros processos, todos relacionados, continuam a correr. É acusado de gestão danosa num processo, de uso fraudulento de cartões de crédito noutro, de fraude fiscal noutro, mas cada um vai a julgamento na sua fase. A estratégia de querer levar a pessoa a tribunal por tudo ao mesmo tempo faz com que tudo prescreva e acabe por não ser condenação por nada.

 

Quem pode mudar isso?

Terá de ser sempre um acordo entre os partidos. Não há outra forma de mexer no Ministério Público, porque se for uma tentativa de quem está no governo, quem está na oposição vai fazer o discurso habitual de que estão a interferir.

 

O facto de a Assembleia da República ter uma maioria de deputados advogados, é positivo ou negativo?

Isso até poderia ajudar, porque percebem o problema do ponto de vista jurídico e poderiam fazer a ponte entre o que a sociedade observa e a forma como o problema se resolve. Mas falta vontade, há medo de mexer no Ministério Público.

 

Encontrar uma solução é da conveniência dos escritórios de advogados?

Aí temos um problema: também não conseguimos regular o lobbying. Já tivemos tentativas, Pedro Lomba primeiro e agora o governo de António Costa disse que estava entre as reformas a fazer. Mas não é um problema fácil de resolver se os próprios deputados não forem exigentes e aquilo a que temos vindo a assistir é que não há exigência nenhuma.

 

 

Uma das propostas que circula, é que os advogados passem a apresentar ao parlamento a declaração de interesses, incluindo as sociedades de que são sócios ou clientes. É um passo no bom caminho?

Há muitas formas de fugir a isso, desde logo o advogado dizer que não é sócio, apenas associado ou consultor. Isto pode ir ao limite de se começarem a criar veículos para não se perceber quem é cliente de quem. E quando rebentar um escândalo em que se descubra que o advogado X é o tal, ele vai dizer que cumpriu a lei. Estas questões não se resolvem com legislação mais dura, resolvem-se com comportamento éticos.

 

A contratação pelo governo e entidades do Estado de advogados e escritórios de advogados quando têm os seus próprios gabinetes jurídicos faz sentido? Há até pareceres de uns contra os de outros…

No caso particular de Diogo Lacerda Machado, não vejo grande diferença com a contratação que Passos Coelho fez de António Borges, além do valor e do formato do contrato. São pessoas que não estão a tempo completo no Estado, acumulam com actividade privada, mas representam o Estado em processos muito complicados. Evidentemente que se criam todo o tipo de questões de conflito de interesses, de confidencialidade, de defesa dos interesses do Estado. Mas isto radica em várias questões: o Estado, nesta altura, já não tem os melhores recursos humanos na área do mundo jurídico.

 

Porquê?

Porque deixou desfazer-se deles nos últimos 20 anos. Podemos ter a teoria da conspiração, dizer que isso foi feito para favorecer os escritórios. Não sei se foi feito conscientemente, até acredito que não, com muita incompetência e laxismo pelo meio. Mas se o Estado deixar de contratar pareceres tem um problema, porque não tem arsenal jurídico para ganhar processos, para estar bem representado em negociações. Por outro lado, as sociedades de advogados estão numa zona cinzenta, fazem advocacia, mas também fazem lobbying, que não está regulado. Misturam-se as duas coisas e criou-se a palavra facilitador. É muito difícil desmanchar isto, porque é uma prática de negócio instalada.

 

Nos últimos anos, e é escandaloso, já não é só legislação complexa que vai para os escritórios de advogados, são as portarias ministeriais, o que é inconcebível.

 

Os escritórios podem, ou devem poder fazer tudo?

O Estado começou por dizer que há legislação de tal maneira complexa que é melhor pedir a especialistas. Até aí, todos de acordo, os códigos, no tempo do Estado Novo, também foram feitos por ilustres catedráticos de direito penal ou de direito civil. Mas essa legislação hoje é dada aos escritórios sem qualquer obrigação de, por exemplo, estes não exercerem advocacia nessa área durante dois ou três ou quatro anos e começámos a ver que enquanto o sétimo andar faz a legislação, o oitavo já está a aceitar os clientes. Não pode. Nos últimos anos, e é escandaloso, já não é só legislação complexa que vai para os escritórios de advogados, são as portarias ministeriais, o que é inconcebível.

 

Como contrariar esta tendência?

Defendi algumas medidas numa sessão em que estava o actual primeiro-ministro, que espero que tenha ouvido e faça alguma coisa. Uma das primeiras, seria o Estado criar uma unidade central que faz a adjudicação e que começa a filtrar e a dizer o que pode ou não ser feito fora: portarias não, alterações à Lei-orgânica não… Há escritórios a fazer leis orgânicas, que são para ser feitas pelos serviços jurídicos dos ministérios. E a unidade central, se for bem estruturada, também está em condições de negociar os honorários com as sociedades de advogados de maneira mais favorável ao Estado, em vez de serem os vários ministérios, secretarias de Estado, câmaras e governos regionais cada um por si. É por isso que vamos ao portal dos contratos públicos [Portal BASE] e ficamos espantadíssimos com os valores brutais. Mas isto são tudo paliativos.

 

O Banco de Portugal tem os seus serviços jurídicos cheios de gente, fazer as resoluções bancárias nos escritórios de advogados é uma coisa que não se percebe.

 

E a resolução do problema?

A resolução é complicada. O Estado teria de fazer um investimento a dez anos e recuperar quadros jurídicos que acabassem com esta situação. Devo dizer que ter escritórios de advogados praticamente montados nas instituições do Estado não é uma situação comum noutros países europeus. O Banco de Portugal, por exemplo, fazer outsourcing das sociedades de advogados da sua própria litigância, é uma situação que não acontece nos outros países da Europa. O Banco de Portugal tem os seus serviços jurídicos cheios de gente, fazer as resoluções bancárias nos escritórios de advogados é uma coisa que não se percebe. No entanto, não passou pela cabeça de ninguém dizer que os escritórios que fazem resolução bancária estão inibidos de praticar direito bancário durante os próximos cinco anos. Há aqui um conjunto de conflitos de interesse que são óbvios, mas de difícil resolução.

 

Falou em ética. E quando não há ética, ou quando a sua ética é diferente da minha?

Podemos fazer leis mais estreitas em relação aos períodos de nojo, por exemplo, mas se as pessoas quiserem dar a volta à lei continuam a fazê-lo. O problema é que a sociedade portuguesa não é muito exigente. Não vale a pena falar em nomes populares, mas há várias pessoas que publicamente se fazem facilitadores e continuam aí sem qualquer problema social, já nem digo legal ou de outra natureza, em vez de ficarem afastadas durante anos.

 

Provavelmente, Maria Luís estava errada, como esteve Maria de Belém, como esteve Manuela Ferreira Leite

 

Falta-nos maturidade?

Quando se colocou a discussão de Maria Luís Albuquerque ir para a Arrow Global, um dos argumentos do PSD e da direita mediática foi que havia o caso de Maria de Belém na Espírito Santo Saúde e de Manuela Ferreira Leite no Santander. Ou seja, o argumento não foi se pode ou não e por que motivo, mas sim é aceitável porque outro já fez. Isto é um argumento de recreio, da mãe a quem os filhos respondem «o meu irmão bateu-me primeiro». Provavelmente, Maria Luís estava errada, como esteve Maria de Belém, como esteve Manuela Ferreira Leite e esta dinâmica reflecte alguma falta de maturidade da nossa sociedade nestes assuntos.

 

Premiar e punir, os portugueses têm dificuldade em tomar decisões?

Penso que sim, com consequências que, a prazo, podem ser complicadas. Se olharmos para Itália ou para Espanha, e falo nestes países porque têm muitas parecenças com Portugal, há um antes e um depois. No caso italiano há o antes e o depois de 1992 e, apesar de haver muita corrupção, há muita gente punida. Em Espanha, há um antes e um depois de 1996, também com muita corrupção, mas muita gente punida. O nosso problema é que ainda estamos no antes e não há meio de chegar ao depois. Mesmo os processos mediáticos são estranhíssimos porque, em geral, ao contrário do caso italiano e espanhol, são processo pessoais, nunca são partidários.

 

quero perceber como é que um primeiro-ministro pode, segundo o Ministério Público, estar envolvido em branqueamento de capitais e em corrupção sem que isso envolva outros altos cargos do partido

 

Como se alguém pudesse agir sozinho o tempo todo?

Nunca está em causa o financiamento dos partidos, por exemplo. Em relação ao processo do ex-primeiro-ministro, estou com algum interesse em ver como é que vai acabar, porque quero perceber como é que um primeiro-ministro pode, segundo o Ministério Público, estar envolvido em branqueamento de capitais e em corrupção sem que isso envolva outros altos cargos do partido. Isso não foi possível no Partido Popular Espanhol, não foi possível no PSOE, não foi possível em partidos italianos. Em Portugal acontece. O nosso sistema está a dar os primeiros passos, fazem-se acusações a pessoas, mas nunca se põe em causa mais nada e isso mostra, mais uma vez, que não há exigência da sociedade.

 

Ninguém viu…

Ninguém viu, ninguém sabia. Dou um exemplo que descreve o país político: nas suas memórias, o professor Cavaco conta que no princípio dos anos 90, na comissão política do PSD, era Dias Loureiro secretário-geral, quando se falava de financiamentos ele [Cavaco] saía da sala. Ou seja, saiu da sala, não há responsabilidade. E isto é ainda em 2016 a forma de pensar: saí da sala, não vi nada, não sei nada, não sou responsável. Mas toda a gente sabe que alguma coisa se passa ali, toda a gente desconfia.

 

um conjunto de elites que começa a ter um problema (...) como fazem vida meramente partidária, não estão integradas nos grupos mais inovadores da sociedade e, por isso, não há ideias

 

Ainda há elites em Portugal?

Havemos de ter sempre elites, o que temos é umas elites muito depauperadas economicamente e um conjunto de elites que começa a ter um problema – não quero dizer que as elites políticas estão mal preparadas -, que se nota mais à direita do que à esquerda, que é o profundo fosso entre as lideranças partidárias e as elites nas outras áreas do saber. Há 30 anos as pessoas tinham carreiras empresarias, académicas, na cultura ou outras. Havia uma fluidez entre as várias elites que hoje não há. Hoje, como fazem vida meramente partidária, não estão integradas nos grupos mais inovadores da sociedade e, por isso, não há ideias. Não havendo ideias, temos powerpoints de dez folhas sobre a reforma do Estado em que a única coisa que se apresenta são cortes.

 

Não vê ideias à direita. E à esquerda?

A esquerda sempre teve uma atitude diferente. Na minha opinião, tem outro tipo de elites. Também tem as académicas, um pouco à volta do ISCTE, do ISEG, mas sempre teve outro tipo de recrutamento.

 

Para pensar reformas como o cartão da cidadania?

O Bloco de Esquerda e o Partido Socialista são a mesma coisa. O Bloco de Esquerda apoia este governo, portanto, tem um problema: porque é que alguém da esquerda não comunista vai votar no BE em vez de votar António Costa nas próximas eleições? E tem de arranjar argumentos, encontrar questões fracturantes. O cartão da cidadania não lhes correu bem porque é um disparate autêntico. O cartaz de Jesus Cristo também não correu bem, foi outro disparate.

 

O Bloco não tem câmaras, não tem sindicatos, não tem associações, precisa de viver da Comunicação Social. Para isso, precisa de ideias chamativas. Nesse aspecto, é o siamês do CDS.

 

Hão de chegar lá?

Têm de chegar lá. Só o discurso de 'nós somos a favor da renegociação da dívida' não chega para distinguir o BE do PS. A partir de certa altura tem de haver outras propostas para ir buscar eleitorado. O Bloco é um partido especial, as pessoas comparam-no com o Podemos, mas não tem nada a ver. O Podemos é um partido que, tirando Pablo Iglesias e duas ou três pessoas à sua volta, só tem gente vinda de movimentos sociais, de rua, ocupas, antiglobalização, com raízes em áreas sociais importantes e com expressão eleitoral. O Bloco de Esquerda é um partido de elites, fundamentalmente de intelectuais e de académicos, talvez com excepção de Catarina Martins, que é actriz. Isso cria um problema ao BE, que é não ter uma base eleitoral fixa, como tem o Partido Comunista. Bem pode dizer-se que o PC precisa de uma cara feminina, mais bonita ou mais feia, mas tem ali 400 mil votos fixos – as presidenciais não correram bem, mas quando chegarem as legislativas a máquina do PC vai trabalhar a sério, o aparelho vai funcionar. O Bloco não tem câmaras, não tem sindicatos, não tem associações, precisa de viver da Comunicação Social. Para isso, precisa de ideias chamativas. Nesse aspecto, é o siamês do CDS.

 

A história do CDS não é famosa…

Não sei. Portas pegou num partido de 8% e transformou-o num partido de 12% com quatro ou cinco ministros e vários secretários de Estado. O CDS, de cima a baixo, está cheio de lugares no Estado. Para eles foi bem-sucedido. Outra coisa é a mensagem ter ficado pelo caminho, aí o Bloco tem o mesmo problema. A minha ideia é que o Bloco pretende chegar aos 15% nas próximas eleições para poder negociar uma coligação formal de governo com o PS. Nesse caso, o PC não será preciso para nada.

 

(...) o meu prognóstico é que se Passos aguentar até lá, pode morrer na noite das autárquicas, porque vai ter uma situação muito complicada em Lisboa e no Porto, em Sintra, na Amadora, em Gaia, tudo grandes concelhos

 

 

Temos que assumir que as agências de regulação não servem para nada e que, para fazerem o que fazem, mais valia serem direcções gerais

 

Voltando um pouco atrás, quais deviam ser as reformas estruturais do Estado, além da justiça?

Devíamos fazer reformas muito sérias na área da regulação. Temos que assumir que as agências de regulação não servem para nada e que, para fazerem o que fazem, mais valia serem direcções gerais, porque ao menos poupávamos em salários. É preciso pensar para que servem, porque temos uma série de fracassos em sectores das agências de regulação. E, para discutir isto, temos de saber qual é o papel do Estado na economia. Depois, há a questão da reforma do Estado, a reforma da administração pública, das carreiras da administração pública e dos departamentos do Estado, do seu funcionamento.

 

Isso inclui reformar o poder local?

Seria importante pensar a questão das autarquias, fundir e diminuir o número de câmaras. E devíamos deixar-nos de bairrismos e de regionalismos bacocos e pensar que a legislação que governa a Câmara de Lisboa não pode ser a mesma que governa a Câmara de Redondo, porque uma câmara que tem 700 mil habitantes não pode estar sujeita às mesmas leis que uma câmara que tem 3 mil habitantes. Concebo até processos que criem autarquias diferenciadas: municípios de primeira e municípios de segunda. Se é feito com regiões pelo meio, não sei, mas tem de se fazer a discussão e avançar. O mapa de autarquias que temos hoje é do século IX, não faz sentido.

 

Falou na regionalização, é a favor ou contra?

Esta questão liga-se à do discurso politicamente correcto sobre a desertificação do interior. Podíamos pôr a pergunta ao contrário: a despovoação é um problema porquê? O que estamos a fazer agora é investir recursos para fixar populações que não se fixaram, que estão envelhecidas. O conjunto de infra-estrututras disponibilizado à população do interior é muito melhor do que era há 20 anos, mas todas aquelas populações não produzem riqueza para pagar esses equipamentos. Mas alguém vai ter de os pagar. Esta é a discussão que temos de ter, em vez de continuar a fazer paliativos e a discutir subsídios e isenções fiscais. É preciso pensar em qual é o problema e como o queremos resolver.

 

Isso vai bater em outras questões, como a da mobilidade ou até da educação.

Sim, o distrito de Lisboa tem uma taxa de desemprego razoável, o distrito de Leiria está entre os que têm o mais baixo desemprego. Em alguns sectores do distrito de Leiria falta mão-de-obra, mas as pessoas não se deslocam de Lisboa para Leiria, que está a hora e meia de distância. A mobilidade vai entroncar na questão da casa própria, no facto de se ter financiado e beneficiado a aquisição de casa própria – agora as pessoas têm hipotecas e ainda por cima não sabem se as casas valem isso.

 

Os assuntos não são discutidos de forma integrada…

O que acontece é que os partidos políticos, quando estão na oposição, não estudam estas questões. Chegam ao poder, fazem uns grandes anúncios e depois é que começam a estudar. Quando chegam ao fim da legislatura, foi tudo avulso. Agora, temos o país parado a discutir as escolas e os contratos de associação, que se referem apenas a 3% do ensino privado. Parece uma batalha final sobre o ensino público e privado.

 

Sobre desempenho, sobre se os contratos de associação ajudam ou não a equidade, se é verdade que isto favorece as classes médias/altas ou integra as baixas, zero.

 

A questão não é importante?

Cada um muda de lado conforme os interesses. Em 2013, quando os contratos de associação foram discutidos, no tempo de Nuno Crato, era a esquerda que dizia que era o fim do ensino público e a direita que argumentava que era um número mínimo de escolas. Agora, a direita diz que está a ser posto em causa o ensino e o PS e a esquerda dizem que é um número mínimo de escolas. Não há um debate coeso e consequente. Há o relatório do Tribunal de Contas, o relatório da OCDE, existe supostamente um estudo do Ministério da Educação e não há mais nada. E, o que há, tem a ver com custos. Sobre desempenho, sobre se os contratos de associação ajudam ou não a equidade, se é verdade que isto favorece as classes médias/altas ou integra as baixas, zero. É tudo discussão preconceito. Mas é assim na saúde, na segurança social…

 

A FFMS tem tido uma importância crescente na produção de estudos e no lançamento de debates públicos. Deixa a presidência da fundação antes da data prevista. Porquê?

O mandato são cinco anos, terminava em 2019, mas colocou-se a questão de a Universidade querer o meu regresso e essa é a minha carreira prioritária. Mas penso que já fiz o que tinha a fazer, a fundação arrumou a casa e está em boas condições de começar um novo ciclo.

 

Uma fundação não costuma ter tantos presidentes como a esta já teve até aqui…

Esta fundação também é um tanto ou quanto peculiar.

 

É especial de corrida?

Vamos pôr assim, nos múltiplos sentidos de especial de corrida.

 

Ver também:

 

"Só há uma pessoa dentro do PSD que pode ter um projecto e uma dinâmica ganhadora a prazo: Carlos Moedas"

 

"Os Estados Unidos ficam bloqueados, porque mesmo que Trump ganhe, não ganha o congresso"

publicado às 02:06

Como a América irá por ordem no mundo (se Trump for presidente)

Por: José Couto Nogueira

 

Existe, indubitavelmente, a possibilidade de Donald Trump ser o próximo Presidente dos Estados Unidos. Embora abundem as paródias sobre “o Donald” (como lhe chamam os desafectos), e apesar de os seus comícios serem cada vez mais tumultuados, com cenas de pancadaria e demonstrações inequívocas de racismo, não há como ignorar que Trump tem ganho sistematicamente as primárias do seu partido e, não acontecendo um milagre, ou uma catástrofe, será o candidato republicano às presidenciais de Novembro.

 

Mesmo que os comentadores – e uma maioria do eleitorado, segundo as últimas sondagens – considerem a vitória improvável, a realidade é que pode acontecer. Entretanto, Trump, entre uma piadola machista e um comentário racista, tem vindo a aperfeiçoar o discurso, isto é, a apresentar o que será a sua politica como Presidente. Na sexta feira passada deu uma longa entrevista telefónica ao “New York Times” em que expôs de modo mais coerente qual será a sua postura na arena mundial. Pode ter dito coisas surpreendentes, mas não fez declarações disparatadas. Ou seja, temos agora uma noção mais próxima do que acontecerá no mundo em que Mr. Trump será Mr. President.

 

As afirmações mais inesperadas foram certamente sobre a questão da dependência petrolífera dos Estados Unidos em relação aos países produtores, especialmente a Arábia Saudita. “Se não fosse a protecção norte-americana, acho que a Arábia Saudita já teria desaparecido”, afirmou. Portanto a sua ideia é fazer-se pagar por essa protecção, invertendo a equação: ou os sauditas entram com tropas na luta contra o Califado Islâmico, ou os Estados Unidos deixam de lhes comprar petróleo. Além disso, quer ser reembolsado pelas despesas militares na zona, uma vez que a instabilidade provocada pelos radicais afecta sobretudo os estados produtores.

 

Esta forma economicista de fazer prevalecer o domínio norte-americano, aplica-a ele também a outras situações. Por exemplo, está disposto a permitir que o Japão e a Coreia do Sul construam os seus arsenais nucleares próprios, em vez de dependerem dos EUA; e exigirá pagamento para a manutenção das suas forças militares nos dois países.

 

Ou pagam, ou defendem-se sozinhos

 

Diz Trump que o poder americano se diluiu em muitos tratados – com é o caso da defesa do Japão – que constituem uma enorme despesa e que terão de ser renegociados em condições económicas mais vantajosas. Apesar de não definir objectivos estratégicos, quer reequacionar os actuais mediante uma espécie de chantagem: ou os parceiros pagam, ou se defendem sozinhos. Também é o caso da NATO, que é quase totalmente subsidiada pelos Estados Unidos, não só em forças militares disponíveis como em equipamento e outras despesas. Para ele, a NATO como está não faz sentido, pois uma guerra tradicional não se apresenta no horizonte; deveria reconverter-se como força anti-terrorista.

 

Estes pontos de vista representam uma mudança de 180 graus na politica histórica dos Estados Unidos. Não se percebe até que ponto Trump tem a noção das dificuldades internas que teria para levar a cabo tal mudança.

 

Quanto ao expansionismo territorial chinês – a China presentemente disputa algumas ilhas do pacífico – também pretende combatê-lo através de sanções económicas. Os chineses dependem maioritariamente do mercado norte-americano e basta uma ameaça de que esse mercado se restrinja para provocar uma crise de grandes proporções na China.

 

Estas politicas não só são originais – caso sejam possíveis – com divergem completamente das posturas republicanas tradicionais. É o próprio Trump que salienta: “Não sou internacionalista como Bush pai, nem pretendo espalhar democracia pelo mundo, como Bush filho. A minha politica é A América Primeiro.” Acrescenta que não é isolacionista, mas quer que os parceiros paguem a sua colaboração, com tropas ou fundos. A colaboração dependeria mais da atitude dos outros – amistosa ou hostil – do que dos interesses estratégicos deles.

 

De toda a entrevista, esta talvez tenha sido a afirmação mais sentido:, Trump revelou que agirá de modo imprevisível, porque a previsibilidade dos americanos tem facilitado a vida aos adversários dos americanos. Por exemplo, agiria em relação aos chineses, concretamente às suas pretensões sobre as ilhas do Mar do Sul da China, ameaçando como um aumento de tarifas alfandegárias, ou mesmo proibição de importar certos produtos, mas sem lhes fazer ver quais seriam as suas linhas vermelhas. Em termos de imprevisibilidade, é pouco.

 

Os Estados Unidos, diz Trump, atingiram a sua maior grandeza no princípio do século XX, quando o Presidente era outro republicano pouco convencional, Theodore Roosevelt. E os seus heróis são dois generais da II Guerra Mundial, George Patton e Douglas MacArthur – embora, surpreendentemente, não esteja de acordo com a decisão de MacArthur de bombardear atomicamente o Japão. Foi essa a outra grande surpresa da entrevista: Trump não é a favor de ofensivas nucleares e afirma que nunca será o primeiro a usar a bomba atómica.

 

O Donald já está a pensar à escala global

 

Também não é a favor de colocar tropas no terreno. Diz que prefere ameaçar do que fazer, e que seria essa a sua postura em relação, por exemplo, à Arábia Saudita. (O que não faz muito sentido, tanto porque lá se vai a imprevisibilidade como volta a necessidade de bombardear...) A sua preferência por militares também se aplica aos conselheiros que eventualmente escolherá: dois generais e um almirante, todos reformados.

 

Quanto à delicada situação dos Estados Unidos terem espiado toda a gente, inclusive dirigentes europeus, Trump evitou uma resposta conclusiva; acha normal que se espie os aliados, pois eles certamente farão o mesmo, mas não concorda que os serviços de espionagem tenham bisbilhotado o telemóvel de Ângela Merkel. A propósito, afirmou que a chanceler tinha feito muito mal em autorizar a entrada dos refugiados. Segundo ele, a Europa e os estados do Golfo deviam pagar para que se criassem áreas seguras dentro da Síria onde os refugiados viveriam até a situação se normalizar.

 

Sobre um tema que é sempre essencial a qualquer candidato presidencial, a situação de Israel e de Gaza, preferiu não se pronunciar. Terá que fazê-lo num futuro próximo mas é evidente que, enquanto puder, evitará o assunto. Apenas disse que é a favor da solução Dois Estados, desde que os palestinianos reconheçam a existência de Israel.

 

Nesta altura do campeonato, Trump demonstra uma postura precisamente contrária ao que diz, ou seja, isolacionista. Exactamente como Bush filho, antes do 11 de Setembro ter virado a política americana de cabeça para baixo. Além disso, em geral, Trump apresentou soluções que não parecem muito bem pensadas; seria difícil prescindir do petróleo do Golfo, ou sequer fazer bluff com a Arábia Saudita nesse ponto, por exemplo. Assim como seria difícil estabelecer barreiras alfandegárias para os produtos chineses, pois vai contra toda a politica de livre comércio que os americanos sempre defenderam. Muitas das decisões apresentadas por Trump – se não todas – teriam de passar pelo legislativo, e nada lhe garante que o Congresso aprove alterações tão radicais.

 

De qualquer modo, o Donald já está a pensar à escala global. Nessa escala, a maioria pensa que um Presidente Trump seria uma catástrofe de proporções bíblicas. Mas não é o globo que irá tomar essa decisão, chegado Novembro.

 

 

 

publicado às 16:30

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