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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

Na tua multidão ou na minha?

Por: Rute Sousa Vasco

Esta semana começa o campeonato de futebol. Mas, mesmo que o que se segue lhe pareça vagamente familiar com o pior do futebol, não tem nada a ver. Até porque para os verdadeiros fãs, o futebol é o melhor pretexto para se ser um selvagem, mas sempre com princípios. Que é exactamente o que não se passa com os hooligans, no futebol, na política e no governo do mundo.

 

As multidões sempre me impressionaram e quase sempre pela negativa. Na presença de muitas pessoas, o indivíduo tende a fundir-se no colectivo e há um efeito de contágio imprevisível que me assusta. Os políticos adoram multidões – só isso explica o fascínio da popular arruada, coisa que qualquer ser humano no estado normal dispensaria. Alguns políticos, os mais perigosos, adoram o ecstasy das multidões – e são especialistas em elevar as suas multidões ao nível seguinte.

 

Esta semana foi notícia que Erdogan conseguiu reunir em Istambul a maior multidão de que há memória nos últimos anos. Três milhões de pessoas, estima-se. Muitas bandeiras nacionais, caras pintadas com as cores da Turquia, coros inflamados que sequenciavam as palavras de comando de quem comanda. "Se o povo quiser a pena de morte, os partidos respeitarão a sua vontade", disse Erdogan. E o povo respondeu em coro: "pena de morte!”. A pena de morte não existe na Europa, diz Erdogan. Mas, isso não significa avanço civilizacional, conclui. Porque nos Estados Unidos, na China ou no Japão existe.

 

Em multidão, não há discussão moral de certo ou de errado. Não há errado. São factos. E os factos que Erdogan exibe mostram que quem está mal são os que pensam diferente de nós. Neste caso, essa Europa fraca que tantos desprezam. Segundo a Amnistia Internacional, 140 países aboliram - por lei, ou na prática – também a pena de morte, o que contabiliza pelo menos mais 112 do que aqueles que fazem parte da União Europeia. Mas tudo isso são detalhes quando se tem um microfone na mão, se é projectado num palco e se tem um público de três milhões de fãs.

 

Que é mais ou menos o clima que Trump tem desfrutado nos seus get-together pelos Estados Unidos. Esta semana, provou que podemos esperar sempre mais dele. Começou em Wilmington, na Carolina do Norte, com o incentivo aos partidários da manutenção e posse de armas a que travem Hillary Clinton. “Hillary quer essencialmente abolir a segunda emenda, aliás, se ela puder escolher os juízes [do Supremo Tribunal] não há nada que vocês possam fazer, pessoal. Se bem que para as pessoas da segunda emenda talvez ainda exista [algo que possam fazer], não sei. Mas digo-vos, esse será um dia horrível”. Tome-se boa nota do tom: “não há nada que vocês possam fazer, pessoal”. Pessoal, multidão, gente que me segue de forma cega, surda e …ruidosa. Depois do apelo a que pessoas com armas possam travar Hillary – e Trump deixou à imaginação de todos o que pode querer dizer “travar” – o delírio continuou. Desta vez, em Fort Lauderdale, na Flórida. "Obama é o fundador do ISIS! O ISIS honra o presidente Obama. E diria que a co-fundadora é a vigarista Hillary!". E o que grita a multidão de Trump cada vez que ouve a palavra Hillary: “Lock her up” (prendam-na). Sob a bruma dos gritos da multidão, Trump apenas acena e sorri.

 

Algures em Moscovo, alguém assiste a tudo isto com um sorriso silencioso e gelado. Chama-se Vladimir Putin. Esta semana recebeu Recep Erdogan num palácio da era dos Czares, em São Petersburgo. Há dois meses, Putin e Erdogan disputavam o título de melhores inimigos. Hoje, Erdogan tem no currículo uma oposição dominada, milhares de adversários presos e mais de 240 pessoas mortas na sequência da tentativa de golpe de estado. A Europa e os Estados Unidos não gostam do que vêem – Putin diz-lhe que “todos nós queremos recomeçar o diálogo”.

 

Michael Morell trabalhou 33 anos na CIA e dirigiu a agência interinamente na qualidade de vice-diretor. Na semana passada escreveu uma coluna de opinião no New York Times em que expressava o seu apoio a Hillary Clinton a par com a sua preocupação com Donald Trump. E também aquilo que escreveu constitui um novo nível na forma como olhamos para eleições em países democráticos, e para a manutenção de um status quo nas relações internacionais. Diz Morell: "Putin explora as fraquezas de Trump, fazendo-lhe elogios. Nos Serviços de Inteligência, diríamos que Putin recrutou Trump como agente involuntário da Federação Russa".

 

O mesmo New York Times avançava, no editorial de ontem, com a possibilidade de Trump estar simplesmente a testar uma estratégia impensável em democracia. A de ganhar pelo tumulto o que já percebeu que não poderá ganhar pelo voto. “Neste momento, Mr. Trump está a perder e possivelmente isso aterroriza-o. Talvez ele não se saiba controlar ou perceber porque o deveria fazer. Ou talvez esteja apenas a satisfazer a sua necessidade ilimitada de atenção. Mas o seu comportamento nesta semana coloca ainda uma hipótese mais perturbadora. Talvez ele tenha desistido de ganhar através dos meios civis e não queira saber das consequências da sua campanha de incitação”.

 

Eu nunca gostei de multidões, foi aquilo que comecei por vos dizer.

 

Tenham um bom fim-de-semana

 

Outras sugestões:

 

São 19 minutos que valem a sua atenção. Primeiro porque é o John Oliver. E depois porque é o John Oliver a explicar porque é que o jornalismo não é apenas um problema dos jornalistas.

 

É impossível resistir a tanta beleza, graça, destreza e qualquer coisa que efectivamente faz parte do Olimpo. Chama-se Simone Biles e entrou nas nossas vidas esta semana, arrisco-me a dizer que para sempre, tal como a sua antecessora, Nadia Comaneci.

 

E esta noite há jazz na Gulbenkian e é ao ar livre e com sorte talvez tenhamos uma chuva de estrelas.

publicado às 10:47

O reino deles por um Califado? O que move árabes, turcos e radicais

Por: José Couto Nogueira

 

Sultões há muitos - são como reis. Mas só existe um Califa, o sucessor legítimo de Maomé, equivalente ao Papa dos cristãos. Durante séculos disputou-se quem teria direito ao título, com vários pretendentes lutando entre si, até à formação do Império Otomano, cujo sultão a partir de 1517 passou a usar o título de Califa, pois dominava as cidades sagradas de Meca e Medina. É este título que o ISIS reclama para si e que muitos vêem o presidente turco, Repec Tayyp Erdogan, ambicionar. Estranhamente, o sultão do verdadeiro e integral estado islâmico, que é a Arábia Saudita, nunca reclamou para si o título de Califa.

 

 

Durante treze séculos, desde a morte do profeta Maomé até à deposição de Abdülmecid II, em 1924, o Islão foi dirigido, pelo menos teoricamente, por um Califa. Agora, no ano muçulmano de 1437, há dois pretendentes ao título. Um deles, Abu Bakr al-Baghadadi, está em Acqua e declarou oficialmente a sua pretensão, alegando pertencer à tribo de Moamé, a única donde pode vir um Califa verdadeiro. O outro, Repec Tayyp Erdogan, está na cidade histórica do Califado Otomano, Istambul. Os turcos são muçulmanos, mas não são árabes, o que levou a que os árabes não aceitassem o Califado Otomano como legítimo.

 

O ano zero dos muçulmanos é o ano 622 da Era Cristã (calendário Gregoriano), determinado pela ida de Maomé de Meca para Medina. A Hégira  - o ano muçulmano - começa e termina em Outubro, mas, fora isso,o ano nos dois calendários tem o mesmo número de dias.

Na Turquia usa-se um cálculo ligeiramente diferente, determinado pelo Presidência dos Assuntos Religiosos (Diyanet İşleri Başkanlığı), que os coloca no ano 1444. São sete anos de diferença para o calendário usado na Arábia Saudita, o Umm al-Qura e que é supostamente o utilizado pelas comunidades islâmicas do resto do mundo, inclusive Estados Unidos. Por este, os muçulmanos estão no ano 1437. 

 

Como seria de esperar, dado a divisão entre shiitas e sunitas e muitas outras quezílias entre sultões e chefes, esta unicidade de Califado nunca foi, nem é, reconhecida por todos os fiéis. O sultão é um rei e pode haver muitos no mesmo período, conforme os reinos, mas só existe um Califa, o sucessor legítimo de Maomé, equivalente ao Papa dos cristãos. O primeiro e o segundo califas, sogros de Moamé, foram aceites sem discussão, mas a partir do quarto as coisas complicaram-se. Durante séculos disputou-se quem teria direito ao título, com vários pretendentes lutando entre si, até à formação do Império Otomano, cujo sultão a partir de 1517 passou a usar o título de Califa, pois dominava as cidadãs sagradas de Meca e Medina. Essa linhagem termina em 1924, quando Kemal Ataturk institui a república laica da Turquia e acaba com todos os cargos e privilégios religiosos. As questões eclesiásticas passaram para um ministério próprio, a tal Presidência dos Assuntos Religiosos, com tutela limitada.

 

Estranhamente, o sultão do verdadeiro e integral estado islâmico, que é a Arábia Saudita, nunca reclamou para si o título de Califa, embora tenha motivos e meios para o fazer. Meca fica no seu território e dinheiro não lhe falta para possuir os atavios do título.

 

Quem se declarou Califa de pleno direito, em 2012, foi Abu Bakr Al-Baghdadi, o líder do chamado Daesh, ISIS (Islamic State of Iraq and Siria), ou ISIL (Islamic State of Iraq and the Levant), que não pode ser considerado um país completo e estabelecido. A partir da Raqqa controla estradas e cidades na Síria, Iraque e Curdistão, sem fronteiras fixas, no meio dum deserto onde é difícil de estabelecer bases estáveis.

 

Segundo a filosofia do Daesh, que segue a estirpe salafita wahhabista – o islão mais radical, também seguido pela Arábia Saudita – Al-Bagdadi pertence à tribo Quraysh, o que lhe confere um direito nato de ser Califa. Apenas os doze primeiros califas eram da tribo Quraysh, e os otomanos seriam, nesta versão da história, falsos.

 

A Al-Qaeda, que anteriormente era considerada a mais radical facção muçulmana, considera que a vitória final dos muçulmanos será num futuro imprevisível (Bin Laden achava que já não seria na vida dele), depois de uma prolongada guerra com os infiéis, sobretudo americanos. O Daesh tem outra filisofia inspirada na interpretação à letra do Corão: o Armagedão, a luta final entre os crentes e os pagãos, vai acontecer em breve, na planície de Raqqa “contra as forças de Roma e de Espanha”. (Como se baseia à letra em textos originais do século VII, a terminologia do Daesh tem este sabor medieval.) Os principais inimigos não são os cristãos ou outras religiões, que podem ser escravizadas, mas sim os shiitas, que devem ser todos massacrados.

 

É interessante que a Al-Qaeda, que utiliza uma terminologia mais contemporânea e uma praxis mais afinada com as realidades estratégicas do nosso tempo, tenha passado a ser uma organização de homens maduros, antiquada, se comparada com os jovens e os métodos "modernos" do Daesh – redes sociais, propaganda no Youtube –, embora sigam princípios ideológicos mais antiquados. O facto é que os militantes da Al-Qaeda, que pareciam implacáveis há dez anos, foram completamente ultrapassados pela brutalidade inenarrável do Daesh. Além disso a Al-Qaeda continua a recrutar nos países muçulmanos mais carentes, como o Paquistão ou as Filipinas, enquanto o Daesh recruta nos países ocidentais que quer destruir, o que o torna mais imprevisível e letal.

 

O Daesh seria então o primeiro Califado da era contemporânea e, segundo, eles, o único legítimo depois da linhagem dos treze califas que se extinguiu no século XII. Mas o Califado Otomano também parece prestes a voltar. A mudança da Turquia, de país da NATO, laico e ocidentalizado, para um estado islâmico alinhado com o grande adversário da NATO, a Rússia, está a ocorrer à nossa frente, em tempo real, à medida que Tayyp Erdogan vai modificando as instituições turcas laicas a ataturkianas em estruturas ditatoriais e alinhadas com a sharia. E a Europa, que não tem sabido lidar com a Turquia, mostra-se impotente para impedir esta mudança telúrica, com implicações imprevisíveis e, certamente, terríveis.

 

Erdogan, que começou a carreira como um politico pró-europeu e democrático, está a passar por um processo de islamização progressiva com a chamada a si de poderes próprios dum Califa, ao mesmo tempo que se aproxima da Federação Russa com uma rapidez inesperada. Conforme o resultado das suas conversações com o amigo Putin, marcadas para uma visita a Moscovo em 8 de Agosto, a Turquia poderá ficar numa situação incompatível com a NATO, ao mesmo tempo que assume a postura tradicional otomana de dirigir, dominar ou prevalecer nos países muçulmanos do Próximo Oriente.

 

Internamente, com a prisão de toda a oposição e a instituição da pena de morte, pouco distinguirá Erdogan dos sultões do passado. Terá que competir com o Daesh, telecomandado pela Arábia Saudita, pela predominância no mundo árabe e o direito de usar o título de Califa. Essa disputa talvez seja a salvação da Europa. Ou a perdição.

 

Não deixa de ser interessante, assistir ao vivo a uma grande transformação histórica. O que não é nada tranquilizador é ter novamente um Califa com poder de vida de aplicar a sharia às portas do Continente.

 

publicado às 15:11

Somos só pessoas estupidamente normais

Por: Rute Sousa Vasco

Há semanas em que todos aqueles que escrevem sobre o que se passa no mundo não evitam o que, em regra, tentam evitar. Ou seja, escrever sobre as mesmas coisas que outros já escreveram. Quem publica à sexta-feira, depois de uma semana intensa de acontecimentos (Nice, Turquia, Convenção Republicana, para nomear os mais globais), fica com um problema ainda maior. Isto para dizer que também eu não consigo evitar. Trump, Erdogan, extremismos, ignorância, medo. Como evitar?

 

 

As escolhas democraticamente eleitas por todo o mundo têm nos obrigado a uma reflexão ampla sobre a democracia. É um tema difícil que, inevitavelmente, acaba com a frase de todos conhecida: “não é um sistema perfeito, mas não se encontrou ainda melhor”. O que, até prova em contrário e face às alternativas, é, sem dúvida, verdade. Mas também é verdade que o conceito de participação popular se alterou radicalmente nos últimos cinco anos, mercê da explosão das redes sociais, e com consequências, aos mais diferentes níveis, que ainda ninguém conseguiu efectivamente perceber.

 

 

Por causa dos acontecimentos em França e na Turquia, na semana passada, falei com várias pessoas que vivem em cidades como Paris, Nice, Istambul, Ancara e Londres. Pessoas que não se conhecem umas às outras – nenhuma delas. Pessoas com contextos de vida diferentes, com profissões diferentes, com idades diferentes. Em todas, senti a mesma apreensão. Em nenhuma, senti ódio ou vontade de alinhar por qualquer extremismo. Uma delas falou comigo, ao telefone, enquanto a noite de Istambul era disputada pelos militares ditos golpistas e o “povo de Erdogan”, aquele que as mesquitas chamaram à rua para defender a nação. Ainda o desfecho era incerto e já me dizia do outro lado da linha que, de certeza, que Erdogan teria tudo controlado. “Acho que no domingo está tudo resolvido”, comentava na madrugada de sábado. No domingo, estava tudo não apenas resolvido como perdida qualquer réstia de esperança que a Turquia não se torne mais um problema – um problema de uma dimensão que só conseguimos imaginar e temer.

 

 

Em Istambul, como em Paris, ou em Nice, as pessoas com quem falo só querem ter uma vida normal. Tomar o pequeno-almoço com a família, levar as crianças à escola sem recomendações especiais, ir trabalhar sem pensar duas vezes no trajecto, ter amigos sem pensar no bilhete de identidade, visitar amigos sem que lhes seja pedido bilhete de identidade, jantar fora porque é sexta-feira, talvez ir dançar, talvez ir ouvir música. Na loucura, quem sabe ir assistir a um fogo de artifício. E poder rir, mesmo que se seja mulher – a quem a tribo Erdogan recomenda recato na via pública. Uma vida estupidamente normal.

 

 

Esta normalidade daqueles com quem falo não é exactamente a mesma que as televisões me mostram.  Nem aquela que as redes sociais comentam. Em Cleveland, nos Estados Unidos, terra que consagra como primeiro postulado da constituição o direito a procurar a felicidade, vejo pessoas iradas com Hillary Clinton, gritando pela sua prisão, vomitando ódio a cada sílaba. Hillary está longe de ser uma candidata entusiasmante. Nem vale a pena dizer que nunca será Obama, porque isso era admitir que sequer estava no mesmo plano. Não se comparam metros com litros.

 

 

Mas este ódio? Katty Kay, jornalista e apresentadora da BBC, vai na 17ª convenção republicana que acompanha. Diz que nunca viu nada como isto. “Sinceramente, não sei se é por Mrs. Clinton ser mulher. Talvez seja porque está há tanto tempo na política ou porque o seu servidor de email faz parecer que ela pensa que está acima da lei. Mas o ódio que lhe votam é viciante e visceral. Isto tornou-se a convenção do ‘prendam-na’. Perguntem aos delegados sobre Mrs. Clinton e vejam-lhes o brilho nos olhos – ela é o “mal”, uma “mentirosa”, e “perigosa”."

 

 

Reparem, estas são as mesmas pessoas que querem ver Donald Trump presidente da América. As mesmíssimas pessoas que não querem a sua opositora porque, deduz-se, não se reconhecem na maldade, na mentira e no perigo. 

 

 

A insanidade.

 

 

Trump, o agitador, o atiçador de serpentes, o quase-inimputável, parece até um tipo de moderado quando a isto apenas responde: "Vamos derrotá-la em Novembro”.

 

 

Se a democracia é a escolha da maioria, precisamos mais do que nunca de saber quem é esta maioria. Há ódio nas pessoas normais – sempre houve. Mas esse tem sido sempre o triunfo da humanidade sobre a bestialidade: vencer o ódio, começando pelos ódios de cada um, em prol de um bem maior, que é a sobrevivência.

 

 

Tenham um bom fim-de-semana.

 

 

Outras sugestões:

 

O que pode a tecnologia fazer por nós, além de naturalmente nos permitir jogar Pokémon Go (o incontornável tema lúdico desta semana)? Muita coisa e com pensamento politico à mistura. Senão veja-se esta história dos robôs-manifestantes expostos numa sala do Instituto de Tecnologias Interactivas da Madeira.

 

Era uma vez um reino a que chamamos unido e que em virtude de uma votação está em grande agitação interna e externa. Este reino, tem novo governo, este governo tem novas missões, estas missões são provavelmente problemáticas. Da Idade Média ao século XXI, aqui fica um retrato, mais que factual, contextual, dos dias que se vivem no reino de Sua Majestade. Um texto imperdível do José Couto Nogueira.

 

publicado às 15:59

É isto o novo normal? E vamos habituar-nos a ele?

Por: Paulo Ferreira

Terrorismo, derrocada da banca, extremismos. O pior caminho que podemos trilhar é o de olhar para isto tudo como uma nova normalidade, encontrando um outro equilíbrio e o conforto possível. Porque daí não virão nunca respostas, nem soluções, nem mudanças tão firmes quanto sensatas.

 

Os sobressaltos sucedem-se e cada um deles aumenta os riscos que pendem sobre as nossas cabeças. É o terrorismo e as suas variadas formas, propósitos e geografias. É a prolongada estagnação económica, que ameaça os equilíbrios que fomos construindo durante décadas. É a banca, que tomou como refém o dinheiro dos contribuintes. É o Brexit e a machadada que dá na União Europeia. É a crise de refugiados com o humanismo a que nos obriga. É agora a Turquia, num reforço da deriva autoritária contra tudo o que são os valores que gostamos de atribuir à Europa. É o crescimento dos extremismos e do radicalismo ideológico.

 

Chegámos até aqui lentamente, passo a passo e começamos a ter a perigosa percepção de que “isto” é normal.

 

Cada novo ataque terrorista, por mais hediondo que seja, é cada vez mais um. Todos lamentamos, todos choramos as vítimas e nos indignamos com a barbaridade: como é possível? Mas regressamos à nossa normalidade cada vez mais depressa. O 11 de Setembro - já lá vão 15 anos - e a série da Al Qaeda que continuou em Londres e em Madrid já estão tão longe… Já morreram outros milhares de inocentes depois disso e há quem defenda que temos que nos habituar poque vai continuar a ser assim. Temos mesmo? Devemos habituar-nos?

 

Outro plano, que nós portugueses conhecemos por experiência própria: a banca. Aqui não se trata de ceifar vidas humanas no sentido literal mas da ameaça à nossa forma de vida e à prosperidade a que temos direito. Lembram-se do BPN e do escândalo que foi a derrocada, a nacionalização e a conta que todos estamos a pagar? Dizia-se que tínhamos “batido no fundo”. Somos ingénuos, porque o fundo não era ali. O fundo está, afinal, lá muito mais abaixo e provavelmente ainda não chegámos lá. Depois disso foi o BPP, o BES e os efeitos colaterais na PT, o Banif, agora a capitalização da Caixa. Tudo cada vez mais olhado como fazendo parte da normalidade. Lá fora - que não é verdadeiramente lá fora, as contas destas coisas são sempre mais ou menos partilhadas - a Itália está com um problema bancário de 300 mil milhões e a Alemanha tem o seu Deutsche Bank com uma factura estimada de 150 mil milhões. Os problemas da banca tornaram-se tão normais como o calor em Agosto e o frio em Janeiro.

 

E os refugiados, que continuam a morrer às centenas e os cadáveres a darem às nossas costas, obrigando-nos a refazer as estatísticas?

 

Recordam-se quando os partidos extremistas eram vistos como uma ameaça por chegarem aos 4% ou 5% em eleições? Eles aí estão agora, a disputar o poder taco a taco, nalguns casos. Junte-se, para compor o quadro, a real possibilidade de virmos a ter Donald Trump na Casa Branca e Marine Le Pen no Eliseu. Assustador, não é? Aos nossos olhos pode ser, mas não desprezemos arrogantemente os milhões que votam neles e noutras propostas políticas extremas, venham elas da direita ou da esquerda.

 

Elas são sobretudo alimentadas pelos receios de cidadãos pacatos que, inquietos com a falta de respostas das instituições em que já confiaram no passado, decidem apoiar soluções radicais para resolver problemas que eles sentem como sendo também radicais. É a lógica do “para grandes males, grandes remédios”, embora estes remédios sejam verdadeiramente uma nova doença.

 

O pior caminho que podemos trilhar é o de olhar para isto tudo como uma nova normalidade, encontrando um novo equilíbrio e o conforto possível. Porque daí não virão nunca respostas, nem soluções, nem mudanças tão firmes quanto sensatas. Faltam lideranças capazes, é certo. Essa é mais uma perigosa normalidade.

 

Sobre os sapos conta-se a conhecida experiência laboratorial. São sensíveis à temperatura, claro, e se atirados para uma taça com água a ferver eles saltam imediatamente dali para fora. Mas se forem colocados num tacho com água à temperatura do lago onde vivem eles ali ficam quietos. E se esse tacho for aquecido em lume muito brando o animal vai-se acostumando e não é accionado o instinto que o leva a fugir. Até morrerem cozidos quando a água ferve. É assustador pensar que podemos estar hoje a ser estes sapos.

 

Outras leituras

 

Há cerca de um mês tivemos um momento alto de demagogia por parte de António Costa com a tirada (cito de cor): tantos problemas graves para resolver na Europa e Bruxelas preocupa-se é em aplicar sanções a Portugal. Independentemente da injustiça das sanções no nosso contexto, esta abordagem transborda a populismo. Senão, veja-se o que se passa hoje no nosso Parlamento: tantos problemas sérios para resolver no país e os deputados preocupados com os cogumelos shiitake.

 

Não aprendemos mesmo com os erros passados. Os contribuintes vão pagar 10 milhões de euros em vez dos automobilistas, que beneficiam de um desconto de 15% em algumas portagens. Era importante ter estudos sérios sobre o verdadeiro impacto desta redução de preços na circulação nestas auto-estradas. Quantos condutores deixarão de utilizar vias alternativas porque a portagem desceu de 10 euros para 8,5 euros? Quando as contas puderem ser feitas será já demasiado tarde.

publicado às 11:52

Nem nos deixam tempo para pensar

Por: Sena Santos 

Será que poderemos contrariar a perda do sentido do tempo? Cada dia há um qualquer acontecimento que remove e monopoliza o foco que incidia sobre o que tinha acontecido 24 horas antes, sem termos tido tempo para, em volta do caso anterior, tentar encontrar uma resposta justa que nos conduza à esperança.

 

Numa noite foi o terrorista que usou como bomba um TIR branco para, numa canalhada impensável num ser humano, massacrar as pessoas em festa em Nice. Ele usou o camião contra todos nós, para nos atropelar a todos. Na noite seguinte foi a brutalidade do estanho golpe na Turquia do sultão Erdogan. Passadas outras 24 horas, a notícia era a intolerável violência persecutória do ambicioso autocrata turco que se serve do golpe para reforçar o poder. Pelo meio, outra história, uma agitação e consternação nas redes sociais escritas em português: lastimava-se a revelação de que Liedson, o levezinho no futebol, o avançado que era um 31 para as defesas adversárias, teria morrido subitamente de AVC. Revelação nas redes sociais, sem referência a qualquer fonte. Até que apareceu o próprio levezinho, estupefacto, a avisar que continua “bem vivinho”, mas sem saber como é que alguém o declarou morto aos 38 anos.

 

Emily Bell, diretora do Tow Centre for Digital Journalism na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, escrevia há semanas que “as redes sociais estão a engolir o jornalismo, mas não apenas o jornalismo, engolem também a política, as histórias das pessoas, até a segurança”. Bell comentava que o ecossistema das notícias mudou mais nos últimos cinco anos do que em qualquer outro período dos últimos cinco séculos, desde o tempo de Gutenberg.

 

Há exatamente uma semana, Katharine Viner, diretora do The Guardian, publicou um essencial artigo de opinião em que analisa as profundas transformações que o jornalismo está a atravessar em consequência da consolidação das redes sociais. Viner, escolhida há um ano para substituir na direção do The Guardian o mítico Alan Rusbridger que fez o jornal britânico tornar-se líder global nas edições digitais, é uma mulher jovem mas muito experiente, competente. Ela alerta no texto publicado no dia 12 deste julho que as redes sociais, em vez de divulgar notícias que contribuem para o bem da sociedade e que são a essência do jornalismo, tendem mais para difundir o que está baseado em opiniões ou até rumores em vez de factos verificados.

 

Como surgiu a notícia falsa que galgou pelas redes sociais de que Liedson teria morrido?

E quando são publicadas as imagens de pessoas em agonia tombadas num passeio depois de terem sido esmagadas por um terrorista, como aconteceu na noite de quinta-feira, a liberdade está a ser respeitada?

Como comenta Katharine Viner, precisamos de meios de comunicação fidedignos, que contrastem os factos, que sejam intransigentes no rigor e que tenham sentido crítico sobre o que é noticiável.

 

As redes sociais trouxeram milhares de vantagens, mas tornaram mais difícil distinguir factos de não factos. Viu-se com o caso próximo de Liedson como é fácil fazer propagar uma informação que é falsa. Tal como se tinha visto na noite de 13 de novembro de terrorismo jiadista em Paris com os rumores de que, depois do Bataclan, o Centre Pompidou e o Louvre também estavam a ser atacados. Ou na quinta-feira funesta em Nice com a angústia a ser ampliada com boatos sobre tomada de reféns. Com ou sem deliberada malícia. Sem jornalismo. Com métodos que o jornalismo só pode recusar.

 

Vivemos tempos alucinantes. É uma era que provavelmente tem início em 2001, o ano da matança terrorista de 11 de setembro nos EUA. Vale lembrar essas horas que todos vivemos aterrados com os olhos presos aos ecrãs. Vimos em direto o impacto do segundo avião nas torres do World Trade Center. Vimos em direto o ataque ao Pentágono.  Vimos em direto o desmoronamento das torres. Foi uma tarde (no horário europeu) que parecia de prelúdio ao fim de um mundo. Não se sabia o que viria a seguir, sabia-se que a Al Qaeda estava a declarar guerra total ao nosso modelo de vida.

 

Agora, passados 15 anos, a Al Qaeda parece ter ficado desmembrada e enterrada com a morte de Bin Laden, mas das areias do deserto emergiram grupos e grupúsculos que estão a realizar a desestabilização terrorista do Ocidente ambicionada por Bin Laden. Dois anos e meio depois do 11 de setembro, em 11 de março de 2004, foi a matança de 200 pessoas e um milhar de feridos nos hospitais com as bombas nos comboios de Madrid. No ano seguinte, em 7 de julho de 2005, foram os ataques no metro de Londres, 56 mortos e 700 feridos. Veio 2007 e fomos apanhados pelo colapso do sistema de especulação financeira – desespero para tantos milhões de pessoas.  O terrorismo alastra de modo contínuo, por meio mundo. Os EUA estão massacrados por uma sucessão de episódios de violência racial. Há a infernal sequência de atentados terroristas na África central e mediterrânica, no Médio Oriente, no Paquistão, na Índia, no Bangladesh. E nem é preciso relembrar Paris e Bruxelas. Uma potência europeia decidiu sair da União Europeia. O que pode significar a separação de uma cidade universal como é Londres?  

 

As coisas acontecem e mal temos tempo para pensar na resposta justa. Provavelmente, é o que mais convém a quem nos ataca, sendo que o pensamento sereno e a inteligência estratégica são armas fundamentais para a nossa esperança.

 

A informação, rigorosa, sem dramatização, sem efeitos especiais, é outra arma vital num tempo em que, como evocou David Grossman numa entrevista ao La Repubblica, “o terrorismo está com uma força imensa, capaz de paralisar uma sociedade civil e reforçar os estereótipos racistas”. Grossman, grande escritor hebraico, valente militante pacifista, vive no centro de uma história dramática, a da guerra entre Israel e a Palestina, sofreu a dor da perda de um filho na guerra do Líbano, ele avisa-nos nesta entrevista ao La Repubblica: “É previsível que quanto mais uma sociedade estiver exposta ao terrorismo, tanto mais fortes se tornem as forças nacionalistas e racistas. Assim veremos nos próximos tempos a instalação de mais governos de direita que ao imporem medidas duras vão empurrar minorias para a posterior radicalização”.

 

Nestes dias decorre em atmosfera de epopeia a entronização de Donald Trump como candidato presidencial dos republicanos e não apenas os menos moderados nos EUA. Parece evidente que o derramamento de sangue como aconteceu em Dallas ou em Baton Rouge dá votos a Trump. Também parece claro que o triunfo das ideias de Trump não é coisa boa para a democracia.

 

As ferramentas que tínhamos para entender o que se passa à nossa volta não estão a responder. Os media serão preciosos se forem capazes de dar a mão para fazer compreender. Isso também implica saber dar consistência ao tempo.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

 

A repressão humilhante imposta pelo vencedor na Turquia. Milhares de soldados, juízes e procuradores, acusados de cumplicidade com os golpistas e com a oposição, estão na primeira linha da repressão desencadeada pelo regime de Erdogan. As imagens da agência ANSA que fazem a primeira página no L’Unità e no Corriere della Sera evocam as purgas na URSS de Estaline, na Alemanha de Hitler ou na China de Mao e Deng: centenas de militares prisioneiros, como se fossem animais lidados com desprezo, vergados, com o tronco nu, mãos algemadas atrás das costas. É a lógica do arbítrio de um regime que ameaça voltar à pena de morte.

 

 

O arrependido ghostwriter de Donald Trump: com remorso e com temores.

 

 

Faltam duas semanas para o começo dos Jogos Olímpicos. O que mexeu no Rio de Janeiro.

 

 

Uma primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS: o assunto também é o calor.

publicado às 10:09

O dia em que a Turquia sonhou e a França chorou

Por: Márcio Alves Candoso

 

O jornalismo é uma actividade perigosa. Porque se pode ser preso ou atingido num país que não preza a liberdade de expressão ou ser apanhado pelas balas numa frente de guerra? Também. Mas há outro perigo, muito mais presente, embora felizmente bem menos grave. Chama-se realidade e, na semana que passou, a Turquia e a França lembraram-nos do que isso significa.

 

 

Sexta-feira, final da tarde. Nas redacções ultimam-se os preparativos de fecho de jornais. Nas rádios e televisões confirmam-se os convidados e o alinhamento noticioso é, em todo o lado, aquele que é óbvio. Atentados em Nice matam dezenas de pessoas e ferem centenas. Mais uma vez a França de luto e o terrorismo a bater à porta.

 

Sexta-feira, princípio da noite. Um grupo não identificado de militares anuncia um golpe de Estado na Turquia. Um comunicado lido pelas forças revoltosas na televisão pública, acusa o presidente Recyp Erdogan de perverter a democracia e de inverter o - velho de quase cem anos - secularismo da lei e do poder público.

 

Alguns jornais já não vão a tempo de mudar as primeiras páginas. Resta o on-line que todos praticam há vários anos. As televisões têm mais sorte. Os convidados são, quase todos, peritos em ambos os assuntos. Terrorismo e Turquia, temas parecidos. É só dar a volta ao texto - primeiro a Turquia, porque está a acontecer, e logo depois Nice, com os corpos e os choros ainda bem quentes na rua.

 

Ana Santiago e Ricardo Nunes foram apanhados numa quase lua-de-mel em Istambul - de facto, foram assistir a um casamento de amigos locais que já não vai realizar-se, pelo menos na data aprazada. Desde sexta-feira à noite mudaram um bocado de vida. Metidos num bairro ’fancy’ da zona asiática da cidade, vão dando conta dos tiros que ouvem e dos helicópteros que os sobrevoam. Os amigos, nas redes sociais, vão-lhes pedindo que contem ao mundo o que mundo quer saber mas desconhece. O que é que se passa?

 

Ricardo desdobra-se a falar para as televisões e jornais. Ana conhece bem umas boas dúzias de jornalistas, já que trabalha há anos na área da comunicação - agora na ‘Start Up Lisboa’, uma incubadora de empresas. Dizem o que vêem e sobretudo o que os amigos turcos, em casa de quem estão hospedados, lhes contam. Estes, ocidentalizados, muçulmanos pouco ou nada praticantes, têm receio. "Os meus amigos turcos estão em choque, ninguém esperava isto. Não gostam do governo, mas também não confiam nos outros. Eles nem sabem quem são os outros", desabafou Ana Santiago, horas depois de iniciado o golpe.

 

Estou no topo do bairro de Bebek, um bairro calmo e residencial, numa casa de ré-do-chão com terraço onde fumo desalmadamente e sempre que passa um avião, que julgo militar, a casa estremece, é um barulho ensurdecedor e fugimos para dentro

 

Do lado de cá, já se fala em cravos e em revolução. "Que sorte que tens, estás a viver um 25 de Abril", exclama um amigo. Ana nem idade tem para se lembrar desse dia. "Estou no topo do bairro de Bebek, um bairro calmo e residencial, numa casa de ré-do-chão com terraço onde fumo desalmadamente e sempre que passa um avião, que julgo militar, a casa estremece, é um barulho ensurdecedor e fugimos para dentro. Na rua ouvem-se buzinas, que vêm de longe e orações/preces/exortações das mesquitas", escreveu no FaceBook pouco depois. Deitaram-se por volta das seis da manhã…

 

Mais do que um contra-golpe de grande eficácia, é agora seguro que, para além de algumas traições de última hora, quem parou os rebeldes foram os imãs das mesquitas e os líderes dos partidos tradicionalistas - Erdogan está longe de ser o chefe dos radicais islâmicos no país. O golpe final veio das potências ocidentais e da Rússia. Quer Barack Obama quer Vladimir Putin sustentaram que salvar a democracia na Turquia era apoiar o governo estabelecido contra os revoltosos. Quanto à parte do Exército e da Força Aérea que se sublevou, é evidente que deixou de lutar quando viu milhares de pessoas a barrar os carros de combate e a rodear os soldados de infantaria. O ’25 de Abril’ acabava ali. O povo não apoiou nenhum Salgueiro Maia, antes marchou contra ele. Se é que havia um Salgueiro Maia…

 

"Os secularistas são ainda muitos, vê-se na rua. Mas poucos em força, acho que pouco afeiçoados à política e à luta", refere Ana Santiago em declarações ao SAPO24. "Essa é a mágoa deles, sentem que falharam", sustenta a portuguesa. Durante a tarde, passeando pelas ruas calmas da parte europeia de Istambul, "parece algo entre a Avenida de Roma e o Parque das Nações, gente a passear, carros de bebés… não há mais polícia do que é costume", revela-nos.

 

É uma sensação estranha, ver na mesma praça pessoas a rezar depois do chamamento das mesquitas e outras ao lado a passear, a fumar, a comer, sem ligarem nenhuma

 

Na velha cidade, ali mesmo no centro histórico asiático, ao lado da torre de Gálata, Ana e Ricardo vêem estranhas confluências de culturas. "Mulheres de mini-saia e lenço na cabeça, dizem-me que é de propósito, uma espécie de ‘statement’ (afirmação)", conta Ana Santiago. "E uma de preto, cabeça coberta, a fumar", aduz a mesma fonte. "É uma sensação estranha, ver na mesma praça pessoas a rezar depois do chamamento das mesquitas e outras ao lado a passear, a fumar, a comer, sem ligarem nenhuma".

 

Mas todo este ‘melting pot’ poderá ter os dias contados. "Ergodan só vai sair mais forte disto tudo porque quem está na rua são apoiantes dele", sustenta Ana. "Os meus amigos não gostam deste presidente, mas também não sabem quem está do outro lado e se podem confiar. Desde o início disto (golpe), nunca os ouvi contentes por estarem a tentar derrubar o presidente", revela. "Acima de tudo estão confusos e com receio do futuro… Temem que a liberdade já não dure muito". "Os meus amigos sentem-se culpados e tristes, por nada terem feito até hoje para combater o que temem. «Eu falhei», diz-me o meu querido S." (nome retirado por razões de segurança). É esta a tristeza de gente normal que Ana traz de Istambul. "Mas não vi burkas", relata.

 

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"Se de agora em diante as mulheres não tomarem parte da vida social da nação, jamais conseguiremos atingir o nosso desenvolvimento completo. Permaneceremos irremediavelmente atrasados, incapazes de sermos tratados de igual para igual pelas civilizações do Ocidente". Palavras do ‘pai da Pátria’, Kamel Ataturk, proferidas em 1927. Há uma foto do próprio, rodeado de mulheres de cabeça descoberta e blusa de botão aberto. Data de 1931.

 

"Democracia, liberdade, primado da lei… para nós, estas palavras já não têm nenhum valor. Quem ficar do nosso lado na luta contra o terrorismo são nossos amigos. Quem ficar do lado contrário são nossos inimigos". Palavras de Recyp Erdogan, proferidas na manhã de sábado, após a vitória sobre o golpe. Os ‘terroristas’ a que se refere são os nacionalistas curdos do PKK. Do Daesh, dizem as más-línguas e algumas imagens dispersas que nunca os hostilizou. Horas antes do discurso, o presidente turco pedia asilo político em Itália e na Alemanha. Diz-se que lhe foi recusado, e que terá tentado o Irão. Ninguém confirma. Mas já de madrugada a sorte da batalha virou. E ele ficou.

 

Na noite de sábado, pouco restava da revolta. Em Ancara, a capital do país, Paulo Pedroso, ex-ministro do Trabalho e da Segurança Social, atarefava-se no aeroporto para arranjar bilhete de volta. Está a trabalhar num projecto da União Europeia em conjunto com a Turquia. O barulho à sua volta impediu-o de atender a primeira chamada. Respondeu à segunda.

 

"Acabo de atravessar Ancara de táxi. Apenas em frente ao Parlamento há vestígios sérios do enfrentamento. A avenida Ataturk está parcialmente cortada em vários sítios. Num dos sentidos os carros circulavam pelo passeio. O túnel perto do Parlamento está obstruído por camionetas do município. Na minha zona residencial todo o dia esteve tudo calmíssimo", assegurou ao SAPO24. "A mercearia do bairro, o barbeiro, tudo estava normal", afirmou.

 

fala-se de militares da região do Sudeste, da fronteira com o Iraque, o Irão, a Síria, o mesmo é dizer aquela em que há combates a sério com os curdos e contacto com o conflito sírio mais próximo

 

Os apoios ao Governo, vindos de largas camadas da população, ainda tinham vestígios à hora tardia em que conversámos. "Assim do género do fim das manifestações, pessoas dispersas pelas ruas, algumas embrulhadas em bandeiras turcas, outras agitando bandeirinhas nacionais", descreveu o ex-governante. Tropa na rua nem vê-la, polícia mais que muita, "mas aqui é sempre assim desde o último atentado", adiantou.

 

Enquanto mais de 2000 juízes - a Turquia é um país grande e populoso… - eram demitidos e presos, e dos cerca de ‘meio milhar’ de soldados oficialmente envolvidos na revolta mais de três mil eram detidos, as especulações sobre a ‘culpa’ da revolta e a culpa do seu fracasso são mais que muitas. Para Paulo Pedroso, para além da versão oficial de envolvimento de Fethulah Gullen – um antigo aliado de Erdogan que se auto-exilou da Turquia – "fala-se de militares da região do Sudeste, da fronteira com o Iraque, o Irão, a Síria, o mesmo é dizer aquela em que há combates a sério com os curdos e contacto com o conflito sírio mais próximo".

 

A mesma fonte dá conta de outra versão, "um golpe militar à egípcia, de militares laicos". O que até faria sentido com a oposição do Egipto, ainda ontem no Conselho de Segurança da ONU, a um voto de confiança no regime de Erdogan. Militares "enganados, que esperavam uma grande mobilização, popular que não ocorreu", é também outra hipótese credível. Mas no fundo está sempre o mesmo problema: "A mobilização através das mesquitas (de oposição à revolta) foi muito intensa", explica Paulo Pedroso.

 

A 2260 quilómetros de Istambul - e mais uns quantos de Ancara -, há flores na rua, na Promenade des Anglais. Um soldado de Alá ou um simples louco - ou uma clara mistura de ambas as doenças – puxou da sua profissão para matar pessoas. Ao volante e aos ziguezagues com um camião de entregas – a sua ocupação definida -, por uma das artérias mais conhecidas do planeta Terra, foi matando os ‘enfants de la patrie’ que encontrava pela frente, alguns mesmo crianças, que comemoravam a dia nacional de França. Por alguma razão desconhecida, todos os tiros disparados pela polícia e que pontificavam o pára-brisas do veículo, estavam do lado errado e tardaram em atingi-lo. No caminho para o paraíso, matou pelo menos 84 cidadãos, e deixou entre a vida e a morte mais de 50. Pelo menos uma das vítimas era uma muçulmana.

 

E prometo que esta será a última citação deste texto. É um comunicado difundido pelo alegado ‘estado islâmico’, alguns dias antes de Mohamed Bouhlel, tunisino com autorização de residência e trabalho em França, ter dado à chave de ignição da camionete da morte. "Se não tiverem engenhos explosivos ou balas para matarem infiéis americanos e infiéis franceses, ou os seus aliados, esmaguem as cabeças deles com pedras, chacinem-nos com uma faca, atirem o vosso carro contra eles, atirem-nos de um sítio qualquer, sufoquem-nos ou envenenem-nos".

 

Bouhlel era um homem que "cuidava dos seus filhos". Palavra de vizinhos.

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publicado às 10:06

O sultão que fecha os jornais adversos

Por: Francisco Sena Santos

O governo turco que ontem esteve em Bruxelas a fazer-se caro, com exigências políticas e financeiras no bazar montado na cimeira da Europa – que tem estado bloqueada pela crise dos refugiados – é o mesmo que se dá mal com as liberdades, em especial a de informação.

 

No fim de semana, assaltou e pôs à sua ordem o controlo editorial do Zaman, o jornal diário com maior tiragem (770 mil exemplares por dia) na Turquia. Em 26 de novembro, o regime no poder na Turquia tinha mandado prender o director e o chefe de redação do histórico Cumhuriyet (este nome significa em turco "A República"), o jornal diário mais antigo na Turquia. Uma hostilidade que em ambos os casos resulta da publicação de notícias que desagradam ao governo turco que, autoritário, recorreu à polícia e aos tribunais para pôr aqueles jornais sob sua tutela, pretendendo que os jornalistas procedam como funcionários que seguem as instruções do poder. Há uma semana, tinha tocado à IMCTV, único canal nacional de televisão a reportar o ponto de vista não-governamental sobre as questões com os curdos: foi fechado, sem qualquer possibilidade de retomar as emissões.

 

Can Dundar é o director do Cumhuriyet. Em 26 de novembro passado estava a fechar a primeira página quando a polícia entrou pela redacção. Os agentes anunciaram que cumpriam uma ordem judicial e levaram para a prisão tanto o director, Can Dundar, como o chefe de redacção, Erdem Gul. Ambos foram encarcerados em regime de isolamento na prisão de Silivri, na periferia de Istambul.

 

Qual é o crime de que são acusados? Tornaram público um “segredo de Estado”. Os factos são estes: em janeiro de 2014, o Cumhuriyet noticiou que militares e agentes dos serviços secretos turcos tinham escoltado camiões que enviavam armas para rebeldes islâmicos dentro da Síria, designadamente para gente ligada ao auto-proclamado califado islâmico. O governo turco negou que o carregamento fosse de armas, disse que era apenas “ajuda humanitária” para o povo sírio. O presidente turco, Erdogan, ameaçou o Cumhuriyet, avisando que o jornal “iria pagar caro pelo que fez”. Em novembro passado, o jornal conseguiu acesso a um vídeo interno dos serviços secretos que mostrava, de modo indesmentível, que o carregamento que estava a ser conduzido para a Síria era mesmo de armas e munições. Em editorial, Can Dundar escreveu: “O Estado – nas costas dos cidadãos e do Parlamento – cometeu um acto ilegal ao traficar armas por meios ilícitos para um país em guerra civil. Se o Estado comete um acto ilegal, a imprensa não pode ficar mera espectadora que faz que não vê. Tem o dever de contar à população – cuja segurança está ameaçada – que tem o direito a saber tudo o que está a acontecer”.

 

Nesse mesmo dia, um juiz fez a vontade ao presidente Erdogan e ao seu governo, e colocou o jornal sob custódia e mandou prender o director e o chefe de redacção. A acusação invocou ter havido espionagem e violação de segredos de Estado. Can Dundar pediu para lhe levarem para ler na cadeia um exemplar do Quixote, de Cervantes. Sublinhou uma frase de um cristão prisioneiro: “Nunca me desamparou a esperança de ter liberdade”. O ataque ao director e ao chefe de redacção foi denunciado por muitas organizações internacionais. Mas muita imprensa turca fiel ao poder de ocasião acusou Dundar e Erdem de traição à pátria.

 

O chefe da oposição turca, porém, culpou o presidente Erdogan por estar a fazer da Turquia “um estado canalha”. Vai para duas semanas, em 25 de fevereiro, o Tribunal Constitucional turco ordenou a libertação imediata dos dois jornalistas, considerando que “o direito à liberdade de expressão e de imprensa foi violado”. Mas a acusação a Dundar e Erdem subsiste e mantem-se a reclamação de condenação a prisão perpétua, em julgamento marcado para 25 deste março.

 

Outro caso: na última sexta-feira, o governo turco decidiu chamar a si a condução do Zaman, o jornal mais lido na Turquia, e que desenvolvia uma linha editorial crítica do sistema de poder político encabeçado pelo presidente Erdogan. O jornal é privado, mas o governo, através de um tribunal de Istambul – tem havido sempre uma justiça colaborante -, como que o nacionalizou e nomeou uma administração judicial que por sua vez designou novos diretores, chefes e chefinhos, para o controlar.

 

Na noite da passada sexta-feira, Ishan Yilmaz, colunista do Zaman, ainda conseguiu descrever a Turquia em “pesadelo orwelliano” num artigo publicado na edição digital em língua inglesa com uma pergunta: “Será que a Turquia pode voltar à democracia?” A edição em papel do jornal de sábado ainda foi preparada pela direção legítima, apesar de oficialmente derrubada. Na manchete, lia-se, em turco, sobre um fundo a negro, “dia de vergonha para a imprensa livre”. No editorial era denunciada a “violação da liberdade de imprensa”. Nessa mesma madrugada a polícia assaltou a redacção do Zaman.

 

A edição de domingo já foi feita sob tutela e com a polícia dentro da redacção. A primeira página foi encabeçada com Erdogan a inaugurar a nova ponte sobre o Bósforo. A nova gerência proibiu reuniões de jornalistas e até as idas à casa de banho passaram a ser controladas. Os jornalistas deixaram de ter acesso aos servidores da internet no jornal. Na rua, cerca de duas mil pessoas que protestavam contra a tomada do jornal pelo poder governamental foram reprimidas pelos agentes, que usaram canhões de água e gás lacrimogéneo.


Assim vai a Turquia, submetida à vontade do chefe, o novo sultão, Erdogan. As vozes discordantes do poder são amordaçadas. A respiração de uma imprensa que faça contra-poder, primordial para a cidadania, está asfixiada. Provavelmente, os verdadeiros sultões do império otomano seriam menos intolerantes.

 

A Turquia é um país cheio de fascínio mas enrolado em múltiplas contradições. A promessa de coexistência harmoniosa entre a cultura islâmica e a democracia ocidental colapsou. O país que é importante aliado da NATO, tem a democracia doente: o estado de direito, a imprensa livre, a liberdade de expressão, a separação de poderes, os direitos das mulheres e das minorias (como a da enorme minoria curda), tudo está em causa nesta Turquia onde o autoritarismo ultranacionalista conservador islâmico do regime de Erdogan barra os valores humanos universais. The New York Times alerta, em editorial, para a "desintegração da democracia na Turquia".

 

Nas redacções, o clima de medo e intimidação leva à auto-censura.

 

Que lástima se a União Europeia sacrificar os valores a troco de interesses de curto-prazono caso, despachando para a Turquia o acolhimento aos refugiados, um assunto que está a causar ainda mais mossa à unidade europeia que a grande crise financeira iniciada em 2007. Não é tolerável fechar os olhos perante ataques à liberdade. Seria cometer um acto de inaceitável cumplicidade.

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

Marcelo promete ser um presidente de afetos e próximo das pessoas. Vai certamente desenvolver consensos e simpatias, ao estilo de Mário Soares que, ao longo do primeiro mandato presidencial, de 1986 para 1991, ampliou em vinte pontos a percentagem de votos (de 50,7% para 70,3%). Mestre na comunicação e na arte de criar empatia, Marcelo vai explorar o estado de graça que o rodeia. Fica para o jornalismo o desafio de, apesar do envolvimento da onda afetiva gerada, cultivar na observação a dose de distanciamento que permite a necessária curiosidade crítica.

 

O terrorismo do chamado califado islâmico avança pelo Norte de África. Nova violenta vaga de ataques na Tunísia.

 

Michael Bloomberg renuncia à hipótese de candidatura presidencial nos EUA. Quer evitar facilitar a vida a Trump. Boas notícias para Hillary.

 

Duas primeiras páginas escolhidas hoje: esta, do The Guardian, que mostra como a Geração Y está a ser sacrificada. E esta do El País, que nos conduz ao risco de dupla discriminação que correm as mulheres refugiadas. 

publicado às 07:14

A Turquia resvala

Por: Francisco Sena Santos

 

A Turquia afasta-se do horizonte europeu e resvala cada vez mais para o Médio Oriente dilacerado pela intolerância, pelo autoritarismo e pelo sectarismo. No começo deste século XXI, o movimento era o oposto: a Turquia, com reformas democráticas e fulgurante crescimento da economia, aproximava-se da Europa, a cuja União e promessa de bem-estar aspirava aderir.

 

Mas, então, vários países europeus impuseram os seus temores e recusaram-se a abrir-lhe a porta: alegaram que a evolução democrática da Turquia estava insuficiente e, assim, este enorme país, geoestrategicamente colocado como ponte entre o Ocidente e o Oriente, começou a ir-se embora. Virou-se para o lado de lá.

 

Cresce, no entanto nesta Turquia onde metade da população tem menos de 30 anos, uma juventude plural que quer a modernidade e o progresso, que rejeita o autoritarismo e que passa por cima das velhas polarizações entre laicos e islâmicos ou entre turcos e curdos. É uma juventude que sonha com a melhor vida em comum, integrando todas as diferenças. São jovens assim que há dois anos protagonizaram as grandes manifestações da Praça Taksim, em Istambul, contra a destruição do parque Gezi.

 

Também são jovens dessa Turquia democrática a maior parte dos 128 mortos e muitos feridos nos tremendos atentados de sábado em Ancara. Juntavam-se para uma marcha pela paz e em protesto contra a autoritária deriva turca que combina nacionalismo e islamismo. É uma deriva que tem um protagonista indiscutível, Recep Tayyip Erdogan.

 

Erdogan lidera os últimos 12 anos da vida política na Turquia: primeiro, onze anos como primeiro-ministro (2003-14), agora, como presidente da República. Chamam-lhe “o sultão”. Fez-se na liderança do AKP, partido islamo-conservador. É um homem com múltiplos rostos: em 2003, impulsionou o milagre económico da Turquia e o namoro aos valores da União Europeia; colocou a Turquia como aliado firme do Ocidente no crucial flanco sueste da NATO; chegou a vestir a pele de pacificador, com abertura negocial à hostilizada minoria curda. Depois, Erdogan tornou-se outro: o homem da abertura apareceu fechado numa versão “islamo-nacionalista”, autoritário. Múltiplos fatores concorreram para essa metamorfose. O ressentimento por a Europa não ter acolhido a Turquia na União é, certamente, um deles. A postura autoritária do líder turco ficou evidenciada na repressão dos manifestantes da praça Taksim, em junho de 2013.

 

Surgiram acusações ao “sultão” de estar a conduzir o resvalar da Turquia para uma ditadura islâmica com constantes violações das mais elementares regras democráticas. A azia de Erdogan cresceu com as eleições gerais de 7 de junho passado: o seu AKP (partido da Justiça e do Desenvolvimento) não só perdeu a maioria absoluta que esperava ter, como deixou de poder avançar com a revisão constitucional que desenharia para a Turquia uma república presidencial com o perfil do “sultão”. E o principal contributo para essa frustração das ambições do partido de Erdogan foi a expressiva votação (13%, 80 dos 550 lugares no parlamento) alcançada por um partido com origem curda, o HDP (Partido Democrático do Povo), formação de esquerda, laica e independentista que, com um discurso próximo do que entusiasmou os manifestantes da praça Taksim, atraiu muito apoio jovem.

 

Com um partido curdo a estragar-lhe os planos, Erdogan voltou-se contra os curdos. Pôs fim a qualquer hipótese de negociações e retomou o ciclo infernal de ataques e represálias sobre os curdos. Ao mesmo tempo que, como parceiro da NATO, concedeu aos americanos as bases aéreas de onde partem bombardeiros e drones que combatem os terroristas do “califado islâmico”, Erdogan manda os caças turcos atacar os guerrilheiros curdos que combatem o mesmo terrorismo do “califado”. Erdogan tem sido fértil a gerir ambiguidade. Muitos democratas turcos acusam o Ocidente de ter demorado demais a perceber a verdadeira natureza de Erdogan. O Nobel da literatura Orham Pamuk acusa Erdogan pelo estado das coisas na Turquia, com as pessoas reféns do medo. Alerta mesmo para o risco de uma guerra civil. Há o fantasma do levantamento militar como sucedeu em três golpes na segunda metade do século XX.

 

A menos de três semanas de eleições, os adversários de Erdogan acusam o presidente de tentar usar os atentados de sábado para explorar o sentimento patriótico que possa traduzir-se em votos a seu favor em 1 de novembro. A tensão reflete-se em perseguições aos jornalistas: Bulent Kenes, o chefe de redação da edição em inglês do diário Zaman foi detido por ter escrito os 140 caracteres de um tweet que Erdogan considerou impróprio. Muitos outros jornalistas estão detidos porque o regime toma a crítica como crime.

 

A Turquia, ferida, mergulhada nas suas contradições, está a sofrer. As guerras nos vizinhos Iraque e Síria contribuem, necessariamente, para as tensões e fraturas atuais no mosaico turco. A Europa talvez tenha abandonado demais a Turquia.

 

A ter em conta

 

As notícias que deixam de ser notícia: esta análise de Juan Goytisolo remete-nos para uma reflexão essencial. Designadamente quando são gastas horas e horas com ridículas quezílias futeboleiras que só servem para envenenar a convivência.

 

A internet tornou obsoleto o negócio da Playboy. A revista deixa de publicar nus.

 

Ainda os U2 em Barcelona: Mysterious Ways com Bardem, também Penélope e até Letizia.

 

Uma primeira página escolhida hoje é esta do Le Monde: junta dois sobressaltos, a Turquia a resvalar e a angustiante escalada de violência Israel/Palestina - um ciclo infernal com episódios todos os dias.

publicado às 08:44

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